terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A Vida de Aristóteles segundo Diógenes Laércio

Escrito por Diógenes Laércio



Alexandre e Aristóteles

«Um dia, em meados do Verão do ano de 366 [a. C.], apresentou-se um jovem para se matricular na Academia de Platão. Vinha da cidade macedónia de Estagira, o "Oeste Selvagem" do mundo ateniense. Sem embargo, nada havia de rústico no elegante rapaz. Era a imagem perfeita do requinte, pois fora educado num ambiente de cultura. O pai, já falecido, fora médico na corte de Amintas, rei da Macedónia e avô de Alexandre. Desde a primeira infância, o jovem Aristóteles fora adestrado para uma vida de disciplina mental e conforto físico.

A sua chegada à Academia provocou sensação entre os demais estudantes. Porque se tratava dum aristocrata - afável, bizarro, gracioso, de voz branda, delicado, polido, modelo de bom proceder e de elegância no trajar. Falava com um acento afectado, e prestava mais atenção às suas roupas - como se queixava Platão - do que convinha a alguém que amasse sinceramente a sabedoria.

Evidenciava, contudo, aptidões intelectuais incrivelmente variadas. Parecia quase impossível um só espírito estar aberto a tantas facetas do conhecimento. Política, drama, poesia, física, medicina, psicologia, história, lógica, astronomia, ética, história natural, matemática, retórica, biologia - eram estes apenas alguns pratos do variadíssimo banquete com o qual procurava o jovem estudante alimentar o seu voraz apetite de saber. Certa vez, Platão observou que a sua Academia se compunha de duas partes - o corpo do seus estudantes e o espírito de Aristóteles.

Como era de esperar, o maior mestre e o estudante mais insigne de Atenas não poderiam continuar juntos. Quando um grego se encontra com outro, especialmente num nível de igualdade mental, o choque torna-se iminente. O jovem e o velho filósofo disputavam amiúde, se bem que mutuamente se adorassem.

Quando Platão morreu (347 a. C.), Aristóteles tinha trinta e sete anos. Esperava justamente ser escolhido como sucessor de Platão na presidência da Academia. Todavia, sofreu uma desilusão. Os administradores da Academia rejeitaram-no como "estrangeiro" e elegeram, em seu lugar, um ateniense. Irritado com o seu desaire, Aristóteles procurou uma oportunidade para sair de Atenas. Encontrou-a sob a forma dum convite de um dos seus antigos condiscípulos, Hermias. Esse filósofo-político obtivera a suserania dum grande território na Ásia Menor. Como Dionísio, rei de Siracusa, almejava experimentar um governo sábio, contanto que a sabedoria não lhe interferisse com as riquezas. E, assim, convidou Aristóteles para lhe ensinar como conciliar a justiça abstracta com o esbulho concreto.

Aristóteles, porém, interessava-se apenas pela justiça. Falhou, portanto, na sua missão de afastar o amigo da procura de riquezas e encaminhá-lo no sentido da equidade. Conseguiu, no entanto, casar com Pítia, a encantadora filha adoptiva de Hermias. E, conquanto amasse a jovem por si própria, não fez objecções ao belo dote que ela trouxe consigo. Aristóteles, (...) não era contrário a uma "justa medida" de prosperidade. Na realidade, considerava-a como um dos requisitos essenciais a uma vida feliz.

Casou com Pítia, empregou o seu dinheiro, e passou a sua lua-de-mel a catar conchinhas do mar para os seus estudos científicos.

Terminada a lua-de-mel, voltou à corte de Hermias. Foi curta, todavia, a sua estada nessa corte. As intrigas de Hermias haviam despertado a ira dum rei persa. Os persas invadiram-lhe o país, aprisionaram-no e crucificaram-no.

Mais uma vez, Aristóteles se viu sem pátria (...). Novamente, contudo, acudiu-lhe em auxílio um amigo real. Desta feita, foi o rei Filipe da Macedónia, filho de Amintas e pai de Alexandre, que o convidou para residir no seu palácio, como tutor de Alexandre.



Quando Aristóteles voltou à corte na qual seu pai servira como médico real, sentiu-se "como um peixe fora de água". A atmosfera macedónia, naquele momento, não era adequada à meditação filosófica. Era uma atmosfera de desregrada ambição, bárbaro esplendor e bárbara vulgaridade. O rei Filipe era homem de inteligência superior, mas de baixa educação. Usava uma linguagem eriçada de erros gramaticais. "Não sou um bárbaro", - insistia, e não desejava também que seu filho fosse um "bárbaro". Na verdade, queria que Alexandre se transformasse num requintado filósofo. Tanto valia querer transformar uma voragem turbilhonante em plácido lago. Alexandre era a cria indomada dum leão feroz. Na realidade, toda a corte de assemelhava a uma floresta cheia de feras raivosas. Disputas, duelos, devassidões, assassínios - tudo isso andava na ordem do dia. Olímpia, a esposa do rei Filipe, chegava às raias da loucura, e o marido e o filho não lhe ficavam muito atrás. Num dos banquetes reais, Filipe tentou apunhalar Alexandre, porque o rapaz o insultara. E Alexandre, para que o não superassem, desfechou um ataque homicida contra o pai. Felizmente para os dois, (...) os circunstantes conseguiram apartá-los».

Henry Thomas e Dana Lee Thomas («Vidas de Grandes Filósofos»).


«Aristóteles nasceu em 385 a. C., em Estagira, na Trácia. Estagira, cidadezinha situada na costa setentrional do mar Egeu, fora fundada por colonos gregos; segundo se julga, erguia-se no local actualmente ocupado por Stavro.

Aristóteles era ainda muito novo quando perdeu o pai, Nicómaco, médico bastante afamado e neto de Esculápio. A criança foi provavelmente criada por um amigo da família, Próxeno, o qual vivia em Estagira. Aos dezassete anos, chega a Atenas no intuito de aí prosseguir os seus estudos. Em 367, quando Platão regressa da Sicília e retoma as suas aulas na Academia, Aristóteles encontra-se entre os seus alunos mais assíduos, distinguindo-se pelo seu ardor e inteligência, de tal modo que o Mestre, ao falar dele, apelidava-o sempre de "a inteligência da Escola".

Após alguns anos de estudo, Aristóteles teria rompido bruscamente com Platão, e Diógenes Laércio conta-nos que Platão teria dito a esse respeito que Aristóteles lhe dera um pontapé à semelhança do pinto que rejeita a mãe. Mas os relatos de Diógenes Laércio carecem de confirmação, parecendo que neste caso se limitou a fazer eco de uma simples lenda. Sem dúvida, Aristóteles opôs-se frequentemente a Platão no campo doutrinal, mas nunca deixou, apesar disso, de lhe testemunhar o seu respeito, tendo sempre conservado dele uma grata recordação. Assim, na Ética a Nicómaco, escreve: "É preferível, sem dúvida, fazer incidir o nosso exame sobre o estudo do bem genericamente considerado e a questão de saber em que é que ele consiste. É certo que uma tal investigação se torna difícil, já que foram alguns dos nossos amigos que introduziram a doutrina das Ideias. De acordo com o senso comum, talvez seja melhor e até indispensável, a fim de salvaguardar a verdade, sacrificar as nossas opiniões pessoais, tanto mais que também somos filósofos. Pode ter-se afecto pelos amigos e pela verdade; mas, a moralidade obriga-nos a dar preferência à verdade". O que foi traduzido pelo adágio: amicus Plato, sed magis amica veritas [Estimo Platão, mas estimo mais ainda a verdade, sentença tirada da Vida de Aristóteles, por Amónio, fundador da escola neoplatónica].


Platão e Aristóteles


(...) Aristóteles deixava dois filhos, uma rapariga, Pítias, nome herdado de sua mulher, e um rapaz, Nicómaco, nome que pertencera igualmente a seu pai. Diógenes Laércio legou-nos uma parcela do seu testamento. O filósofo não se limita a dizer aquilo que deseja para os seus filhos, pois não esquece igualmente todos os que viveram perto dele e esforça-se, pelas suas liberdades, por lhes tornar a vida possível. "Proíbo que sejam vendidas as crianças que estavam a meu serviço, devendo todas elas ser antes mantidas em minha casa até alcançarem a maturidade, altura em que deverão ser libertas a título de recompensa. A Simo, para além do dinheiro que já lhe dei para comprar um escravo, comprar-se-á outro escravo e será dado mais algum dinheiro... Quanto à imagem da minha mãe, deverá ser colocada no templo de Deméter, em Nemeia...".

As cinzas de Aristóteles foram inumadas em Estagira e, tal como fora seu pedido, as ossadas de Pítias, sua mulher, foram igualmente colocadas no seu túmulo.

Eis, portanto, os dados praticamente certos de que temos conhecimento acerca deste filósofo, um dos maiores de sempre e talvez aquele que maior influência exerceu na evolução do pensamento humano».

André Cresson («Aristóteles»).


A VIDA DE ARISTÓTELES segundo DIÓGENES LAÉRCIO


Platão e Aristóteles (Escola de Atenas, fresco renascentista de Rafael Sanzio de Urbino).


Aristóteles [384-322 a.C.], filho de Nicómaco e de Féstias, era oriundo de Estagira. Seu pai, Nicómaco, era filho de um outro Nicómaco, por sua vez filho de Macaon e descendente de Esculápio (cf. Hermipo, Livro sobre Aristóteles). Este Nicómaco era da estima de Amintas, rei da Macedónia, junto do qual viveu, por causa dos conhecimentos que possuía em medicina. Aristóteles foi o mais notável dos discípulos de Platão. Era um pouco tartamudo (cf. Timóteo de Atenas, Vidas). De pernas muito delgadas, segundo consta, tinha os olhos pequenos, gostava de vestir com sumptuosidade e rapava a barba. Teve um filho, Nicómaco, de sua mulher Herpília (cf. Timóteo). Abandonou Platão, sendo este ainda vivo, o que levou Platão a afirmar que Aristóteles o espezinhara como um potro, que dá uma parelha de coices na mãe. Quando Aristóteles se deslocou junto de Filipe na qualidade de embaixador de Atenas, Xenócrates assumiu a direcção da Academia (cf. Hermipo, Vida de Aristóteles). Ao regressar, Aristóteles, vendo o seu lugar ocupado, procurou no Liceu [Liceu ou Ginásio, perto do templo de Apolo Lykéios, em Atenas] um lugar para passear e para filosofar com os discípulos, enquanto passeavam. De onde a sua escola haver recebido o nome de peripatética [lugar de passeio], enquanto outros pretendem ver a origem deste nome no facto de ele passear enquanto conversava com Alexandre, que convalescia de uma doença. Logo que começou a ter um maior número de ouvintes, passou a ensinar sentado, e dizia:


Seria indecente se me calasse e deixasse falar Xenócrates.


Exercitava os discípulos na discussão de uma proposta questão, e além disso também lhes ensinava retórica.

Mais tarde foi visitar o eunuco Hermias, tirano de Atarneia. Pretende-se que Hermias era seu favorito, mas há quem afirme que ele se tornou seu parente por ter desposado sua filha ou sua sobrinha (cf. Demétrio de Magnésia, Livro dos Poetas e Escritores Homónimos). Demétrio também declara que este Hermias foi escravo de Eubulo, oriundo da Bitínia, e assassino do seu senhor. Por outro lado, Aristipo, no primeiro livro dos Prazeres dos Antigos, afirma que Aristóteles se enamorou da concubina de Hermias, e com a permissão deste casou com ela, tornando-se tão feliz, que chegou a oferecer-lhe sacrifícios ao modo como faziam os Atenienses a Deméter de Elêusis, e que escreveu para Hermias um hino, que adiante transcreverei.

A seguir, Aristóteles viajou para a Macedónia, para a corte de Filipe, que lhe entregou o preceptorado de seu filho Alexandre [que então, andava pela idade de treze anos}. Aristóteles esteve junto dele entre 343-335]. Solicitou deste príncipe relevasse a sua pátria destruída por Filipe, e logrou a causa. Elaborou leis para os seus compatriotas. À imitação de Xenócrates, deu também um regulamento à sua escola, decidindo que um chefe escolar seria nomeado de dez em dez dias. Logo que achou já ter passado muito tempo junto de Alexandre, Aristóteles regressou a Atenas, depois de haver recomendado o seu familiar Calísteno de Olinto ao príncipe. Acerca desta personagem, diz-se que Aristóteles o censurou por usar perante o monarca de uma grande liberdade de linguagem, e que, em vista de Calísteno não aceitar o seu conselho, o repreendeu nos seguintes termos:


Depressa morrerás, meu filho, se falares como falas.


O que deveras aconteceu. Foi acusado de participação na conjura de Hermolau contra Alexandre, encerrado numa gaiola de ferro, abandonado aos bichos e, por fim, lançado aos leões, que limparam os restos.

Mosaico de Alexandre, O Grande em Batalha


Nessa altura Aristóteles voltou a Atenas, dirigiu a escola durante treze anos, e depois saiu em segredo para Calcis, dado ter sido acusado de impiedade pelo hierofante Eurimédon ou por Demófilo (cf. Pavorino, Miscelâneas Históricas), por causa de um hino que Aristóteles compusera acerca de Hermias, e por causa de um epigrama que escrevera acerca de uma estátua de Delfos, e que dizia:


Esse homem aí, com impiedade e violação da justiça divina,
foi morto pelo rei dos Persas que trazem o arco;
Não foi vencido lealmente à lança num combate mortal,
Mas por um golpe pérfido e à má-fé.


Morreu nesta região, ao que consta, depois de haver bebido cicuta (cf. Eumélos, Histórias, livro V) com a idade de setenta anos. O mesmo autor afirma que foi discípulo de Platão na idade de trinta anos, no que se engana, pois, de facto, foi discípulo de Platão desde a idade de dezassete anos, tendo vivido sessenta e três anos. Quanto ao hino mencionado, ei-lo:


Virtude de aquisição tão difícil,
A mais bela caça que um homem pode cobiçar,
Tu és bela, ó jovem,
E é uma graça invejada na Grécia morrer por ti,
E sofrer sem ceder os males maiores,
Tanto tu pões nas almas
Um fruto imortal superior ao oiro,
Aos pais e ao suave repouso.
Foi por ti que Hércules e o filho de Leda
Suportavam tantos sofrimentos
Foi por te desejar que Aquiles
E Ajax às moradas do Hades,
Vieram, e foi ainda por amor
Pela tua beleza que um ateniense perdeu a vida,
Sendo por isso que é ilustre
E será imortalizado pelas Musas,
Filhas de Mnémosina,
Que exaltam a raça, a amizade, a glória do poderoso Zeus hospitaleiro.


Aristóteles

Acerca de Aristóteles escrevi o seguinte poema:


Aristóteles foi um dia acusado de impiedade
Por Eurimédon, sacerdote de Deméter, deusa dos mistérios
Bebendo a cicuta, escapou: foi o modo
De se livrar de injustas calúnias com uma exígua pena.


Favorino (Miscelâneas Históricas) diz que Aristóteles fez o seu primeiro discurso forense em autodefesa durante o processo de impiedade que lhe moveram, e que declarou aos Atenienses:


A pera cresce na pereira e o figo na figueira.


Apolodoro também escreve nas Crónicas que Aristóteles nasceu no ano da nonagésima nona Olimpíada, que se encontrou com Platão aos dezassete anos e viveu com ele durante vinte anos, que regressou a Mitilene durante o arcontado de Eubulo, no quarto ano da centésima oitava Olimpíada, que, falecido Platão no ano primeiro desta mesma Olimpíada, sob o arcontado de Teófilo, Aristóteles foi ao encontro de Hermias, em casa de quem viveu três anos, que, no arcontado de Pítodoto, passou à casa de Filipe, no décimo segundo ano da centésima nona Olimpíada, e que se manteve durante treze anos como mestre escola no Liceu, que, depois, foi para Calcis, no terceiro ano da centésima décima quarta Olimpíada, e que morreu de doença por volta dos sessenta e três anos de idade, ao mesmo tempo que Demóstenes morria em Calúria, no arcontado de Pítocles.

Também se diz que, por causa da conjura de Calísteno contra Alexandre, descontentou este monarca, que, para o castigar, cumulou de honras a Anaxímenes, e enviou presentes a Xenócrates. Teócrito de Quios ridicularizou-o em um epigrama (cf. Ambrion, Livro sobre Teócrito):


Do eunuco Hermias, escravo de Eubulo,
Aristóteles o espírito vazio elevou a vazio túmulo
(Como era um feixe de palha, escolheu para morar,
Em vez da Academia, a embocadura do atoleiro).


Timão, naturalmente, também o ataca:


Nem a futilidade nem a estupidez de Aristóteles.







(...) Também se diz que se acharam em sua casa numerosos vasos de cobre, e Lícon afirma que se ungia numa banheira cheia de azeite quente e que a seguir vendia o azeite. Há quem acrescente que punha sobre o peito um pequeno vaso também cheio de azeite quente e que, antes de dormir, pegava numa bola de bronze e punha-a sobre uma bacia, para que a bola, ao cair da bacia, fizesse um ruído que o acordasse. São-lhe atribuídas muitas e belas sentenças, como as seguintes:

Foi-lhe perguntando o que se ganhava em mentir: «Não merecer crédito quando se diz a verdade». Reprovava-se-lhe o facto de ter dó de um malandro. Respondeu que cuidava do homem e não dos seus hábitos. Gostava de dizer com frequência aos amigos e aos discípulos, sempre que os encontrava, que a vista tira a luz do ar ambiente, e a alma da sabedoria. Indignava-se muitas vezes contra os Atenienses, e dizia: «Inventaram o trigo e as leis, mas enquanto utilizam o trigo esquecem as leis». «A educação - afirmava - tem raízes amargas, mas frutos bem doces». Foi-lhe perguntado: «O que envelhece depressa?» - «A gratidão». - «Que é a esperança? «O sonho de um homem acordado». Um dia, Diógenes ofereceu-lhe uns figos secos, com a intenção, se Aristóteles os recusasse, de o sujeitar a ridículo. Mas Aristóteles aceitou-os de boa mente, e disse a Diógenes que tinha perdido de uma só vez os figos e a graça. Diógenes voltou a oferecer-lhe figos. Aristóteles pegou no figo, ergueu-o no ar, e exclamou como as crianças: «Diógenes é grande», e devolveu-lhe o figo. Afirmava haver três coisas necessárias à educação: um bom temperamento, um bom ensino, e trabalho. Sabendo que alguém o injuriara, respondeu: «Pode bater-me como quiser, desde que eu esteja ausente». Defendia que a beleza era um apoio preferível a todas as cartas de recomendação.

Vários autores afirmam no entanto que este dito pertence a Diógenes, que Aristóteles tinha a beleza como um dom divino, enquanto Sócrates a concebia como um tirano de pouca dura, Platão um dom da natureza, Teofrasto uma ilusão muda, Teócrito um mal de marfim, e Carnéades uma realeza sem guarda armada. Perguntava-se-lhe: «Qual a diferença entre os sábios e os ignorantes?» - «A que há entre os vivos e os mortos». «A sabedoria - declarava - serve de ornamento na graça, e de consolação na desgraça». «Os pais que ensinam os filhos são mais dignos de estima do que os que se contentam em lhes dar a vida, pois estes dão apenas o meio de viver e, os primeiros, o meio de bem viver». Um homem gabava-se na sua presença de ser natural de uma importante cidade: «O que importa não é isso, mas se somos dignos de ser naturais de uma outra cidade importante». Perguntaram-lhe: «Que é um amigo?» - «Uma só alma em dois corpos». Dizia que entre os homens havia os que eram avaros, como se tivessem de viver sempre, e os que eram pródigos, como se fossem morrer daí a uma hora. Alguém queria saber o motivo por que se procura mais o convívio dos belos. «É uma questão - respondia - de cego». Perguntavam-lhe: «Que benefício tira da filosofia?» «O de fazer sem constrangimento e de livre vontade o que outros fazem por temor da lei». «Quando se consegue que os alunos progridam?» - «Quando os mais adiantados não esperam pelos outros». A um fala-barato que lhe perguntava, depois de lhe ter massacrado a cabeça, se o não tinha incomodado, respondeu: «De modo nenhum, porque não estive a escutá-lo». Alguém o censurou por ter dado uma esmola a um vadio; respondeu (o episódio também é relatado nesta versão): «Não dei ao indivíduo, mas ao homem». Interrogaram-no sobre o comportamento a ter com os amigos: «Como gostaríamos que se comportassem connosco». Definia a justiça como uma virtude de alma, que leva a dar a cada um segundo o mérito. Dizia que o estudo era o melhor viático para chegar à velhice. Favorino também diz (Memórias, Livro II) que gostava de exclamar: «Ó meus amigos, não há amigo». E de facto podemos ler este dito no sétimo livro de Ética («A VIDA DE ARISTÓTELES segundo DIÓGENES LAÉRCIO», in Aristóteles, Organon, I - CATEGORIAS, II - PERIÉRMENEIAS. Guimarães Editores, pp. 19-22 e 25-27).




sábado, 14 de dezembro de 2013

Olavo de Carvalho e a redescoberta de Aristóteles

Escrito por Ângelo Monteiro




«(...) Com efeito, não diferem o historiador e o poeta, por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa) - diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta, o particular. Por "referir-se ao universal" entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e acções que, por liame de necessidade e verosimilhança, convêm a tal natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que dê nomes aos seus personagens; particular, pelo contrário, é o que fez Alcibíades ou o que lhe aconteceu».

Aristóteles («Poética», Tradução, Prefácio, Introdução, Comentário e Apêndices de EUDORO DE SOUSA).


«(...) O mundo acadêmico do século XX ainda subscreve a opinião de Sir David Ross, que por sua vez segue Andrônico: a Retórica tem "um propósito puramente prático"; "não constitui um trabalho teórico" e sim um manual para o orador". Mas à Poética, por seu lado, Ross atribui um valor teórico efetivo, sem reparar que, se Andrônico errou neste caso, pode também ter se enganado quanto à Retórica. Afinal, desde o momento em que foi redescoberta, a Poética também foi encarada sobretudo como "um manual prático" e interessou antes aos literatos do que aos filósofos. De outro lado, o próprio livro dos Tópicos poderia ser visto como "manual técnico" ou pelo menos "prático" - pois na Academia a dialética funcionava exatamente como tal: era o conjunto das normas práticas do debate acadêmico. Enfim, a classificação de Andrônico, uma vez seguida ao pé da letra, resulta em infindáveis confusões, as quais se podem resolver todas de uma vez mediante a admissão da seguinte hipótese, por mais perturbadora que seja: como ciências do discurso, a Poética e a Retórica fazem parte do Organon, conjunto das obras lógicas ou introdutórias, e não são portanto nem teoréticas nem práticas nem técnicas. Este é o núcleo da interpretação que defendo. Ela implica, porém, uma profunda revisão das ideias tradicionais e correntes sobre a ciência aristotélica do discurso. Esta revisão, por sua vez, arrisca a ter consequências de grande porte para a nossa visão da linguagem e da cultura em geral. Reclassificar as obras de um grande filósofo pode parecer um inocente empreendimento de eruditos, mas é como mudar de lugar os pilares de um edifício. Pode exigir a demolição de muitas construções em torno».

Olavo de Carvalho («Aristóteles em Nova Perspectiva»).


«Depois das obras de Álvaro Ribeiro, como Razão Animada, Estudos Gerais, Escola Formal ou a Arte de Filosofar, que reabriram em Portugal, no século XX, os mais altos horizontes da filosofia aristotélica, vejo agora em Olavo de Carvalho, e nesta sua obra, o estudo aristotélico actual mais relevante da Escola Formal, e com não menor relevância até na sua aptidão didáctica para quem se queira iniciar no que mais importa da obra aristotélica, aptidão ou valor que Álvaro também nunca desdenhou ou esqueceu nos seus livros.





OLAVO DE CARVALHO E A REDESCOBERTA DE ARISTÓTELES


Autor de uma obra que já merece um estudo mais acurado - ultrapassando uma dezena de títulos, entre os quais se destacam A nova era e a revolução cultural (1994), Os gêneros literários: seus fundamentos metafísicos (1993), O jardim das aflições (1995/2000) e O imbecil coletivo (1996) -, Olavo de Carvalho empreende em Aristóteles em nova perspectiva (1996) um esforço hermenêutico sem paralelo, tanto no Brasil como no exterior, sobre a unidade das ciências do discurso do Estagirita. Partindo apenas de umas breves indicações de Avicena e Santo Tomás de Aquino, opera uma verdadeira reconstituição do Organon aristotélico, até então sobrecarregado, historicamente, de interpretações equivocadas ou contraditórias.

Quantas vezes nos perguntamos como compreender o papel privilegiado atribuído à Poesia por Aristóteles, considerando-a mais filosófica e de caráter mais elevado que a História, diante da tendência dominante de considerar a lógica, tomada na qualidade de propedêutica, como a chave completa do sistema? Como conciliar o caráter dialético de sua argumentação com a rigidez esquemática com que pretenderam por tanto tempo encarcerar seu pensamento?

Ângelo Monteiro

Tais perguntas felizmente encontram respostas satisfatórias nesta obra, que aponta com extrema clareza os encaminhamentos necessários, mesmo de natureza histórico-filológica, para a compreensão dessa idéia, que não seria jamais captada, em sua inteireza, ao reduzir-se o Organon aristotélico apenas à lógica, sem levar em conta nem a poética, nem a retórica, e até mesmo a dialética. Olavo de Carvalho demonstra, com argumentos sólidos, a unidade da teoria aristotélica, do ponto de vista tanto epistemológico como metafísico, subjacente às quatro modalidades de discurso: a poética, a retórica, a dialética e a lógica. Em sua demonstração, consegue situar em novas bases não só a visão do Organon enquanto tal, mas a concepção geral de um pensamento ao mesmo tempo aporético e sistemático, porque antes de tudo, é orgânico.

A teoria dos Quatro Discursos, colhida no que ficou oculto ou subentendido no pensamento aristotélico, é o elemento-chave dessa hermenêutica, e a prova desse argumento está no fato de Aristóteles ser encarado ora como racionalista, ora como empirista. E tudo isso por conta de uma visão diminuída do seu alcance filosófico, em virtude de preconceitos sedimentados no Ocidente a respeito do papel da imaginação na poética, como de resto nas próprias origens do conhecimento, em favor da demonstração apodíctica, ou do desprezo pela verossimilhança da retórica em comparação com o grau de certeza da lógica. A estreiteza de um ponto de vista meramente lógico do discurso veio amesquinhar até o papel da dialética (por lidar com o domínio das probabilidades) na produção do conhecimento.

Mostrando-se que, entre os Quatro Discursos, há mais uma diferença de grau do que de natureza, Olavo de Carvalho reestrutura o Organon dentro dos quadros de uma história da cultura caracterizada pela "presença das quatro maneiras pelas quais o homem pode, pela palavra, influenciar a mente de outro homem (ou a sua própria)". Dessa forma,

(...) os quatro conceitos básicos são relativos uns aos outros; não se concebe o verossímil fora do possível, nem este sem confronto com o razoável, e assim por diante. A consequência disso é tão óbvia que chega a ser espantoso que quase ninguém a tenha percebido: as quatro ciências são inseparáveis, tomadas isoladamente não fazem nenhum sentido. O que as define e diferencia não são quatro conjuntos isoláveis de caracteres formais, porém quatro possíveis atitudes humanas ante o discurso, quatro motivos humanos para falar e ouvir: o homem discursa para abrir a imaginação à imensidade do possível, para tomar alguma resolução prática, para examinar criticamente a base das consequências e prolongamentos de juízos já admitidos como absolutamente verdadeiros, construindo com eles o edifício do saber científico.




O conhecimento humano, sendo orgânico, não se faz desligado das amarras do mundo sensível, nem desamparado da luz dos primeiros princípios, já que, em Aristóteles, a sua gnosiologia é inseparável de sua antropologia. Por isso a unidade do conhecimento é um dado por excelência, e, como ela se reencontra na multiplicidade dos seres sensíveis, bem como na diversidade das formas de captá-los, a teoria dos Quatro Discursos - desentranhada por Olavo de Carvalho na "circularidade dinâmica" por ele apontada no sistema aristotélico - é fundamental para a compreensão dessa mesma unidade. Pois o que torna particularmente rica a obra de Aristóteles é o número de interpretações que ela propicia, e que não propiciaria caso fosse unívoca e unilateral sua visão do conhecimento.

Se a riqueza dessa obra advém de sua concepção de que o Ser pode ser dito de vários modos, a compreensão do Organon, sobretudo após a recuperação da poética e da retórica, implica o desvelamento de toda uma metafísica implícita ou subentendida em seu sistema. São quatro, portanto, as formas assumidas pelo Logos ou palavra do Ser: o Logos pronuncia o Ser através da imaginação, alargando o campo do possível; chega a uma decisão prática, fundado na eloqüência da verossimilhança; questiona-se num jogo de múltiplas hipóteses ou probabilidades; e afirma-se, finalmente, na universalidade dos seus princípios. Mas o Logos é retroativo e prospectivo, ao mesmo tempo, por visar o Ser e não apenas o ente; por aspirar à universalidade, mas sem perder de vista a singularidade.

Aristóteles, unindo o céu das essências platônicas com a terra dos seres singulares e sensíveis, busca, através da unidade do diverso, mais do que uma episteme, uma sabedoria metafísica que, ascendendo do plano mitopoético à retórica das decisões humanas e destas à contraposição dialética das probabilidades até às afirmações universais dos primeiros princípios - nos leve finalmente ao conhecimento do conhecimento.

Dessa forma, Olavo de Carvalho, em Aristóteles em nova perspectiva (1996), consegue reabilitar Aristóteles de todos os equívocos que aderiram historicamente à longa e acidentada trajectória de seu pensamento, fazendo-nos redescobrir o sabor verdadeiro de sua filosofia ou sabedoria do Ser (in Escolha e Sobrevivência, Ensaios de educação estética, É Realizações, 2004, pp. 104-106).

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Lógica e trapaça

Escrito por Olavo de Carvalho





Época, 30 de junho de 2001


O abuso da palavra sofisma tornou-se hábito consagrado nos debates nacionais

Dois instrumentos usuais da patifaria intelectual são o entimema erístico e o sofisma. Entimema é um silogismo do qual uma das premissas, considerada óbvia ou de domínio público, vem omitida. Por ser leve e prestar-se bem à expressão literária, é o meio preferencial da persuasão retórica, a argumentação jornalística por excelência, que, não podendo demonstrar o certo ou o razoável, se contenta com o verossímil, isto é, com aquilo que, por afinar-se com as crenças do público, é aceito como verdadeiro sem maiores discussões. O verossímil, com freqüência, é também verdadeiro, mas às vezes não o é. O único meio de testá-lo é explicitar a premissa oculta, transformando o entimema num silogismo completo. Ao fazer isso, não raro descobrimos que a premissa oculta não era óbvia nem de domínio público, mas sim alguma estupidez infame, encoberta para poder extorquir a anuência sonsa da platéia distraída. Neste caso o entimema é dito erístico: erística é a arte da argumentação capciosa, a retórica pervertida dos charlatães.

Já o sofisma é um silogismo aparentemente perfeito, mas construído sobre premissas falsas difíceis de impugnar ou ardilosamente desviado na passagem crucial das premissas à conclusão.

Um público afeito à discussão vulgar, mas sem treino filosófico específico, engolirá sem a menor objeção doses maciças de entimemas erísticos, porém, diante de qualquer raciocínio lógico mais elaborado, facilmente será persuadido a armar-se de desconfiança caipira e a rejeitar como “sofismas” as provas mais sérias e fundamentadas, pelo simples fato de serem mais sutis que seu alimento discursivo habitual. Daí a freqüência com que o rótulo de “sofisma” é usado levianamente pelos patifes para impugnar qualquer raciocínio que leve a conclusões que os desagradem.

Nesses casos, caracteristicamente, jamais a acusação de sofisma vem acompanhada da devida indicação dos erros que a justificariam. Ou o rótulo vem sozinho, solto no ar como uma fórmula mágica, na esperança de que exerça automático efeito difamatório, ou sustenta-se em alegações que nada têm de uma refutação em regra e não passam em geral da expressão sumária de uma opinião antagônica à do argumento rejeitado, isto quando não são, elas próprias, entimemas erísticos da mais baixa qualidade.




Sofisma é termo técnico de lógica e seu uso legítimo requer a explicitação dos erros sofísticos correspondentes. Se, em vez disso, alguém o emprega informalmente como figura de linguagem, só pode ser para rebaixar como sofisma algo que não é sofisma.

Um exemplo recente é o do jovem redator de editoriais num grande jornal, que, nomeando-me “rei do sofisma”, dispara sobre mim a seguinte cobrança: “Por que, em vez de quantificar o placar das mortes, Olavo de Carvalho simplesmente não condena todas as ditaduras (chinesa, cubana, brasileira, chilena etc.)?”

Bem, a resposta é que não faço isso porque regimes de força que matam 300 pessoas em 20 anos, como a ditadura militar brasileira, e regimes que matam 3.200 pessoas por dia – tal foi a média da China comunista – simplesmente não são espécies do mesmo gênero, malgrado a comunidade do nome que os designa. O termo “ditadura”, indicando uma estrutura formal de governo e não o concreto modus agendi pelo qual esse governo se impõe e se mantém – numa gama de opções que vai do simples golpe parlamentar ao holocausto –, não dá conta de uma diferença essencial.

Correspondendo à de autoritarismo e totalitarismo, essa diferença é consagrada na distinção entre homicídio e genocídio, entre a violência esporádica e a extinção planejada de uma raça, classe ou nação. Deduzir da pura coincidência de nomes a identidade de fenômenos tão diversos é óbvia trapaça erística, tanto mais perversa se usada para legitimar o nivelamento moral de males incomensuráveis, clássico expediente erístico da propaganda totalitária.




domingo, 8 de dezembro de 2013

Regresso ao Admirável Mundo Novo (ii)

Escrito por Aldous Huxley




«Não é possível conceber uma política independente da ética, nem uma ética independente de um sistema de filosofia. É certo que muitas vezes os escritores políticos não confessam o sistema filosófico a que se encontram necessariamente submetidos, mas o facto não vale de argumento. George Orwell apresenta-nos a caricatura da filosofia alemã na medida em que eleva ao exagero de 1984 as consequências terríveis do comunismo e do nazismo. Convém, pois, não esquecer que a filosofia alemã, através dos seus intérpretes nacionais e estrangeiros, conseguiu dominar o pensamento europeu dos séculos XIX e XX. Em Kant vemos subordinada a razão teórica à razão estética e a razão estética à razão prática, o que tem por corolário inevitável o predomínio social dos técnicos. A vontade, com o seu dualismo de potência e resistência, assume em Fichte a representação dialéctica. Karl Marx propõe o mito da luta de duas classes (mito no qual será possível converter todas as representações dinâmicas da sociedade), para descrever a evolução em termos de materialismo histórico».

Álvaro Ribeiro («George Orwell, 1984 ou a verdade ao alcance das mãos», in prefácio a 1984, trad. port. de Paulo Santa Rita, 1955).


«Nos nossos dias, a utopia não deixou de ser cultivada, mas é significativo que, em vez de advogar a instauração do comunismo, se dedique precisamente a mostrar a relação que há entre ele e o industrialismo e a suscitar a sua mais extreme condenação. É o que acontece nas utopias de A. Huxley e G. Orwell, O Admirável Mundo Novo e 1984».

Orlando Vitorino («Refutação da Filosofia Triunfante»).


«Na educação das crianças [em Esparta] tinha-se principalmente em vista formar soldados obedientes, sofredores, ágeis e robustos. A criança que nascia doentia ou disforme era barbaramente precipitada das rochas do Taígeto, como inútil à pátria. As crianças que os magistrados julgavam dignas da vida, por serem robustas, eram desde tenra idade submetidas a um regime próprio para as acostumar ao trabalho e torná-las insensíveis à dor.

O espírito guerreiro predominava tanto nas instituições de Licurgo, que até as estátuas dos deuses estavam armadas. O culto de Ares (Marte), deus da guerra, tornou-se por vezes tão cruel, que chegaram a imolar-lhe vítimas humanas. Uma das orações que os espartanos dirigiam aos deuses era concebida nestes termos: Dai-nos um espírito são num corpo são».

Fortunato de Almeida («Curso de História Universal»).




«Ao ritmo de crescimento que prevaleceu entre o nascimento de Cristo e a morte da rainha Isabel I, foram necessários dezasseis séculos para que a população da terra duplicasse. No ritmo presente, a população mundial duplicará em menos de meio século. E esta duplicação fantasticamente rápida do número de seres humanos ocorrerá num planeta cujas áreas mais procuradas e produtivas já estão densamente povoadas, cujos solos estão a ser desgastados por esforços frenéticos de maus agricultores, com a finalidade de obterem mais alimento, e cujo capital de minerais facilmente utilizáveis está a ser dissipado com a extravagância estouvada de um marinheiro embriagado que se despoja rapidamente dos salários que acumulou.

(...) Nesta segunda metade do século XX, nada fazemos com carácter sistemático pela nossa procriação; mas, com o nosso modo ocasional e irregular, estamos não somente a superpovoar o nosso planeta, mas também, parece, procedendo seguramente para que estas massas de população cada vez maiores, sejam da mais pobre qualidade biológica. Nos maus dias de outrora, as crianças com defeitos hereditários consideráveis, ou até leves, raramente sobreviviam. Hoje, graças à higiene, à farmacologia moderna e à consciência social, muitas das crianças nascidas com defeitos hereditários atingem a maturidade e multiplicam a sua espécie. Sob as condições actualmente vigentes, cada avanço na medicina tenderá a ser superado por um avanço correspondente no ritmo de sobrevivência dos indivíduos atingidos por qualquer insuficiência genética. A despeito das novas drogas milagreiras e dos melhores tratamentos (de facto, em certo sentido, precisamente devido a estas coisas), a saúde física da população, em geral, não mostrará qualquer melhoria, e poderá piorar. E a par com um declínio da saúde média bem pode ir um declínio na inteligência média. Na verdade, algumas autoridades competentes estão convencidas de que tal declínio já ocorreu e está a continuar.

(...) Ajudar os desafortunados é obviamente bom. Mas, a transmissão maciça, aos nossos descendentes, dos resultados das mutações desfavoráveis, e a contaminação progressiva da reserva genética de que os membros da nossa espécie terão de beber, não é menos obviamente mau. Estamos nas pontas de um dilema ético, e para acharmos a via média é necessária toda a nossa inteligência e toda a nossa boa vontade.
(...) O caminho mais curto e mais largo em direcção ao pesadelo do Admirável Mundo Novo passa, como já indicámos, através da superpopulação e do aumento acelerado do número total de seres humanos - dois mil e oitocentos milhões hoje, cinco mil e quinhentos milhões no dobrar do século, com a maior parte da humanidade encarando a escolha entre a anarquia e o controlo totalitário. Mas a pressão crescente do número de seres humanos sobre os recursos disponíveis não é a única força que nos impele na direcção do totalitarismo. Este cego inimigo biológico da liberdade é aliado com forças muitíssimo poderosas, geradas precisamente pelos progressos efectuados no campo da tecnologia, de que mais nos orgulhamos. De que nos orgulhamos justificadamente, pode acrescentar-se; porque estes avanços são os frutos do génio, e do áspero trabalho persistente, da lógica, da imaginação, do sacrifício - numa palavra, de virtudes morais e intelectuais pelas quais se não pode ter senão admiração. Mas a Natureza das Coisas é tal que ninguém neste mundo pode atingir coisa alguma sem dar algo em troca. (...) Muitos historiadores, muitos sociólogos e psicólogos escreveram longamente, e com profunda aflição, acerca do preço por que o homem do Ocidente tem de pagar e continuará a pagar o progresso técnico. Eles sublinham, por exemplo, que pouca esperança se pode ter em que a democracia floresça em sociedades onde o poder económico e político está a ser progressivamente concentrado e centralizado.

(...) O auto-governo está na razão inversa do quantitativo de seres humanos. Quanto mais numeroso for o eleitorado, menor é o valor de qualquer voto individual. Quando não passa um entre milhões, o indivíduo eleitor sente-se uma quantidade irrelevante e impotente. Os candidatos em quem votou estão muito longe, no topo da pirâmide do poder. Teoricamente são os servidores do povo; mas, de facto, são os servidores que dão as ordens e é o povo, situado na base distante da grande pirâmide, que deve obedecer. O aumento do número da população e os progressos da tecnologia resultaram num aumento do número e da complexidade das organizações, num aumento da quantidade de poder concentrado nas mãos dos dirigentes, e numa diminuição correspondente da intensidade do controle exercido pelos eleitores, do mesmo passo que se dá uma diminuição do interesse do público pelos processos democráticos. Já enfraquecidas por vastas forças impessoais que operam no mundo moderno, as instituições democráticas estão a ser agora interiormente minadas pelos políticos e pelos seus propagandistas».

Aldous Huxley («Regresso ao Admirável Mundo Novo»).


«Um dos aspectos mais evidentes do desenvolvimento actual é a importância do tema do respeito pela vida, que não pode ser de modo algum separado das questões relativas ao desenvolvimento dos povos. Trata-se de um aspecto que, nos últimos tempos, está a assumir uma relevância sempre maior, obrigando-nos a alargar os conceitos de pobreza e desenvolvimento às questões relacionadas com o acolhimento da vida, sobretudo onde o mesmo é de várias maneiras impedido.


Papa João Paulo II

Não só a situação de pobreza provoca ainda altas taxas de mortalidade infantil em muitas regiões, mas perduram também, em várias partes do mundo, práticas de controlo demográfico por parte dos governos, que muitas vezes difundem a contracepção e chegam a impor o aborto. Nos países economicamente mais desenvolvidos, são muito difusas as legislações contrárias à vida, condicionando já o costume e a práxis e contribuindo para divulgar uma mentalidade antinatalista que muitas vezes se procura transmitir a outros Estados como se fosse um progresso cultural. Também algumas organizações não governamentais trabalham activamente pela difusão do aborto, promovendo nos países pobres a adopção da prática da esterilização, mesmo sem as mulheres o saberem. Além disso, há a fundada suspeita de que às vezes as próprias ajudas ao desenvolvimento sejam associadas com determinadas políticas sanitárias que realmente implicam a imposição de um forte controlo dos nascimentos. Igualmente preocupantes são as legislações que prevêem a eutanásia e as pressões de grupos nacionais e internacionais que reivindicam o seu reconhecimento jurídico.

A abertura à vida está no centro do verdadeiro desenvolvimento. Quando uma sociedade começa a negar e a suprimir a vida, acaba por deixar de encontrar as motivações e energias necessárias para trabalhar ao serviço do verdadeiro bem do homem. Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento de uma nova vida, definham também outras formas de acolhimento úteis à vida social. O acolhimento da vida revigora as energias morais e torna-nos capazes de ajuda recíproca...».

Carta Encíclica CARITAS IN VERITATE de Sua Santidade Bento XVI aos bispos, aos presbíteros e aos diáconos, às pessoas consagradas, aos fiéis leigos e a todos os homens de boa vontade sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade.



Persuasão subconsciente


Numa nota de roda-pé inserta na edição de 1919 do seu livro A Interpretação dos Sonhos, Sigmund Freud chamava a atenção para a obra do Dr. Poetzl, um neurologista austríaco, que havia publicado recentemente um artigo onde descrevia as suas experiências com o taquistoscópio. (O taquistoscópio é um instrumento que se apresenta sob duas formas - uma espécie de caleidoscópio em que o paciente olha, durante uma fracção de segundo, uma imagem exposta; ou uma lanterna mágica com obturador ultra-rápido que pode projectar, pelo espaço de uns segundos, uma imagem sobre uma tela). Nestas experiências, «Poetzl pedia aos pacientes que fizessem um desenho do que tinham notado conscientemente de uma imagem que fora exposta à vista deles no taquistoscópio... Depois chamava-lhes a atenção para os sonhos que os pacientes tinham tido na noite seguinte e pedia-lhes mais uma vez, que desenhassem aquilo de que se lembrassem. Os resultados mostravam, inequivocamente, que os pormenores da imagem exposta, que não haviam sido notados pelo paciente, forneciam os elementos da construção do sonho».




Com várias modificações e aperfeiçoamentos, as experiências de Poetzl foram repetidas várias vezes, mais recentemente, pelo dr. Charles Fisher que publicou três excelentes artigos sob o problema dos sonhos e «a percepção preconsciente», no Journal of the American Psychoanalitic Association. Entretanto, os psicologistas clássicos não ficaram inactivos. Confirmando as experiências de Poetzl, os seus trabalhos mostraram que as pessoas vêem e ouvem de facto muito mais coisas do que aquelas de que têm consciência de ver e de ouvir, e o que elas vêem e ouvem, sem que o saibam, é recordado pelo subconsciente, e pode afectar os pensamentos, sentimentos e comportamentos conscientes delas.

A ciência pura não permanece indefinidamente pura. Mais cedo ou mais tarde fica apta a tornar-se ciência aplicada e finalmente tecnologia. A teoria torna-se prática industrial, o saber torna-se em poder, as fórmulas e os experimentos de laboratório sofrem uma metamorfose, e emergem como a bomba H. No presente, o belo fragmento de ciência pura descoberto no campo da percepção pré-consciente, retiveram a sua prístina pureza durante um lapso de tempo surpreendemente longo. Depois, em começos do Outono de 1957, exactamente quarenta anos depois da publicação do primeiros artigos de Poetzl, anunciou-se que a pureza dessas descobertas pertencia ao passado; tinham sido aplicadas, haviam entrado no reino da tecnologia. A revelação fez considerável sensação, e em todo o mundo civilizado se falou e escreveu acerca disso. E não é para admirar; porque a nova técnica de «projecção subliminal», como lhe chamaram, estava intimamente associada com a distracção das massas, e na vida do ser humano civilizado a distracção das massas desempenha agora um papel comparável ao que foi desempenhado pela religião na Idade Média. Têm sido dados vários apelidos à nossa época - a Idade da Ansiedade, a Idade Atómica, a Idade do Espaço. Poder-se-ia chamar-lhe, com igual propriedade, a Idade do vício da televisão, a Idade do folheto estupidificante, a Idade do Gira-Disco. Em tal época, o anúncio de que a ciência pura de Poetzl havia sido aplicada sob a forma de uma técnica de projecção subliminal não podia deixar de despertar o mais intenso interesse entre os que distraem as massas em todo o mundo. Porque a nova técnica era-lhes directamente dirigida, e o seu objectivo era a manipulação dos seus espíritos sem que eles pudessem suspeitar do que lhes estava a ser feito. Por meio de taquistoscópios especialmente concebidos, seriam projectadas palavras ou imagens durante um milionésimo de segundo ou menos, sobre as telas dos aparelhos de televisão ou dos cinemas durante (não antes nem depois) o programa. «Bebam Coca-Cola» ou «Fume Camel» seriam projectadas sobre o beijo dos amantes, as lágrimas da mãe amargurada, e os nervos ópticos dos espectadores recolheriam estas mensagens secretas, os seus subconscientes responder-lhes-iam e, na devida altura, teriam o desejo consciente de coca-cola e do cigarro. E entretanto outras mensagens secretas seriam retransmitidas, demasiado baixo ou demasiado alto, para que pudessem ser apreendidas pela consciência. Conscientemente, o ouvinte apenas prestaria atenção a frases tais como «Querida, amo-te»; mas, abaixo do limite da consciência, os seus ouvidos incrivelmente sensíveis, registariam a boa notícia a desodorizantes e a laxantes.

Este género de propaganda comercial é realmente eficaz? Os dados trazidos pela empresa comercial que usou, pela primeira vez, um processo de projecção subliminal são vagos e, de um ponto de vista científico, pouco satisfatórios. Repetida a intervalos regulares durante a exibição de um filme num cinema, a ordem de comprar milho torrado fez aumentar, dizem-nos, de cinquenta por cento, a venda de milho torrado durante o intervalo. Mas uma só experiência prova muito pouco. Além disso, esta experiência particular tinha sido mal montada. Não havia controle e não se fazia qualquer tentativa para ter em conta as inúmeras variáveis que indubitavelmente afectam o consumo do milho torrado por uma assistência num cinema. E, além disso, era esta a maneira mais eficaz de aplicar o conhecimento acumulado havia alguns anos pelos investigadores científicos da percepção subconsciente? Era provável, segundo a teoria, que a mera projecção do nome de um produto e a ordem de o comprar fossem bastantes para quebrar a resistência à compra e recrutar novos consumidores? A resposta a estas duas perguntas é evidentemente negativa. Mas isto não significa, talvez, que as descobertas dos neurologistas e dos psicologistas não tenham qualquer importância prática. Habilmente aplicado, o bocadinho de bela ciência pura de Poetzl pode muito bem tornar-se num instrumento poderoso de manipulação de espíritos desprevenidos.




Para escolhermos algumas sugestões reveladoras, desviemo-nos dos vendedores de milho torrado para aqueles que, com menos barulho mas com maior imaginação e melhores métodos, fizeram experiências no mesmo domínio. Na Inglaterra, onde o processo de manipulação dos espíritos abaixo do nível da consciência é conhecido pelo nome de Strobonic injection, os investigadores sublinharam a importância prática de criarem as condições psicológicas adequadas à persuasão subconsciente. Uma sugestão feita acima do nível da consciência é mais susceptível de ser eficaz se aquele que a recebe está num estado de ligeira hipnose, sob a influência de certas drogas, ou se encontra debilitado pela doença, pela inanição ou não importa que tensão psíquica ou moral. Mas o que é verdadeiro para sugestões feitas acima do limiar de consciência é também verdade em relação a sugestões feitas abaixo deste limiar. Numa palavra, quanto mais inferior for o nível psicológico de uma pessoa, tanto maior será a eficácia das sugestões estrombonicalmente injectadas. O ditador científico de amanhã estabelecerá as suas máquinas de transmitir mensagens secretas e os seus projectores subliminais nas escolas e nos hospitais (as crianças e os doentes são altamente sugestionáveis), e em todos os lugares públicos onde os auditórios possam receber um amaciamento preliminar por intermédio de um discurso ou de rituais que aumentam a sugestibilidade.

Das condições sob as quais podemos esperar que a sugestão subliminal seja eficaz passamos agora à própria sugestão. Em que termos deverá dirigir-se o propagandista ao subconsciente das suas próprias vítimas? Ordens directas («Compre milho torrado» ou «Vote em Jones») e afirmações peremptórias («O Socialismo cheira mal» ou «A pasta de dentes X suprime o mau hálito») só terão provavelmente efeito naqueles espíritos que já são por Jones e pelo milho torrado, já despertos para os perigos dos odores do corpo e da propriedade pública dos instrumentos de produção. Mas para fortalecer a fé existente não basta isto; o propagandista, se é digno desse nome, deve criar nova fé, deve saber como levar o indiferente e o indeciso para o seu lado, deve ser capaz de amolecer e até de convencer os que lhe são hostis. À asserção subliminal e à ordem, deve acrescentar a persuasão subliminal.

Acima do limiar de consciência, um dos métodos mais eficazes da persuasão não-racional é o que pode chamar-se persuasão «por associação». O propagandista associa arbitrariamente o seu produto escolhido, ou o seu candidato ou a sua causa com uma ideia, uma imagem de uma pessoa ou de uma coisa, que muita gente, de uma dada cultura, considera indiscutivelmente um bem. Assim, numa campanha de vendas, a beleza feminina pode ser arbitrariamente associada com qualquer coisa, desde o «bulldozer» até um diurético, numa campanha política o patriotismo pode ser associado com qualquer causa desde a segregação até à integração, e com qualquer género de pessoa, desde Mahatma Gandhi até ao senador McCarthy. Há alguns anos, na América Central, observei um exemplo de persuasão por associação que me encheu de admiração aterrada pelos homens que a imaginavam. Nas montanhas da Guatemala, as únicas obras de arte importadas são os calendários coloridos gratuitamente distribuídos pelas companhias estrangeiras que vendem os seus produtos aos Índios. Os americanos representavam cães, paisagens, jovens beldades seminuas sobre os seus calendários; mas para os indígenas, os cães não passam de objectos úteis, as paisagens nevadas, que se fartaram de ver todos os dias e as loiras seminuas parecem-lhes sem nenhum interesse, talvez até um pouco repugnantes. Por consequência, os calendários americanos tinham muito menos sucesso do que os calendários alemães, porque os anunciantes germânicos haviam tido o cuidado de procurar o que os Índios apreciavam, o que lhes interessava, e lembro-me em particular de uma verdadeira obra-prima de propaganda comercial. Era o calendário distribuído por um fabricante de aspirina. Ao fundo da imagem, via-se a marca familiar sobre o familiar tubo de comprimidos brancos. Por cima, nada de paisagens nevadas ou florestas no Outono, cães felpudos ou de beldades despidas. Não - os hábeis alemães haviam associado o seu analgésico a um quadro extremamente colorido e vivo da Santíssima Trindade, sob uma nuvem horizontal, ladeado por S. José e pela Virgem Maria, de um sortido de santos e de revoadas de anjos. As virtudes miraculosas do ácido acetil-salicílico eram garantidas deste modo, nos espíritos simples e profundamente religiosos dos índios, pelo Deus Pai e por toda a corte celeste.




Este género de persuasão por associação é algo a que parecem prestar-se particularmente bem as técnicas de projecção subconsciente. Numa série de experimentos levados a efeito pela Universidade de Nova York, sob os auspícios do Instituto Nacional de Saúde, descobriu-se que os sentimentos de uma pessoa acerca de qualquer imagem conscientemente vista podem ser modificados pela sua associação, ao nível subconsciente, com outra imagem, ou melhor ainda, com palavras portadoras de valor. Assim, quando associada ao nível subconsciente, com a palavra «feliz», uma face sem expressão parecerá que sorri, que olha amigavelmente, acolhedoramente. Quando a mesma face era associada, também no plano subconsciente, com a palavra «furioso», parecia agressiva, desagradável e hostil. (Para um grupo de mulheres jovens, a figura parecia muito masculina - ao passo que, quando era associada com a palavra «feliz», viam a face como se ela pertencesse a um membro do seu próprio sexo. Pais e maridos, façam favor de tomar nota). Para o propagandista comercial e político, estas descobertas são, como é óbvio, altamente significativas. Se puder pôr as suas vítimas num estado anormalmente elevado de sugestibilidade, se puder mostrar-lhes, quando se encontram neste estado, a coisa ou pessoa ou, mediante um símbolo, a causa que tem para lhes vender, e se, no plano subconsciente, pode associar essa coisa ou pessoa  ou símbolo, com qualquer palavra, ou imagem portadora de valor, o propagandista pode ser capaz de modificar os sentimentos ou opiniões das pessoas, sem que elas tenham a mais pequena ideia do que ele está a fazer. Será possível, segundo um grupo comercial empreendedor de Nova Orléans, aumentar, mediante o emprego desta técnica, o valor distractivo dos filmes e peças de televisão. As pessoas gostam de sentir emoções fortes e, portanto, gostam de tragédias, de melodramas, de filmes policiais e de narrações de grandes paixões. A dramatização de uma batalha ou de um beijo produz emoções fortes nos espectadores. Podia produzir até emoções mais fortes se fosse associado, ao nível subconsciente, às palavras ou símbolos adequados. Por exemplo, na versão filmada do Adeus às Armas, a morte da heroína, durante o parto, pode ser tornada mais lancinante do que já é, mediante a repetida projecção subliminal, sobre a tela, durante o desempenho da cena, de palavras tão ominosas como «dor», «sangue» e «morte». As palavras não serão conscientemente vistas; mas o seu efeito sobre o subconsciente pode ser muito grande, e estes efeitos podem reforçar poderosamente as emoções evocadas, ao nível da consciência, pela acção e o diálogo. Se, como parece certo, a projecção subliminal pode intensificar poderosamente as emoções sentidas pelos frequentadores de cinema, a indústria cinematográfica pode ser salva da bancarrota - se os produtores de peças de televisão se não apropriarem, em primeiro lugar, da ideia.

À luz do que se disse acerca da persuasão por associação e da intensificação de emoções por sugestão subliminal imaginemos o que será uma reunião política no futuro. O candidato (se ainda se tratar de candidatos), ou o representante qualificado da oligarquia dirigente fará o seu discurso que todos ouvirão. Entretanto, os taquistoscópios, as máquinas de transmitir mensagens secretas e segredadas, os projectores de imagens tão fracas que só o subconsciente lhes pode reagir, reforçarão o que ele diz, por intermédio da associação sistemática do homem e da sua causa, as palavras carregadas de valores positivos e de imagens veneradas, e pela «injecção estronbónica» de palavras carregadas de valores negativos e de símbolos odiosos, sempre que ele mencione os inimigos do Estado ou do Partido. Nos Estados Unidos da América, rápidos reflexos de Abraham Lincoln e as palavras «governo pelo povo» serão projectadas na tribuna. Na Rússia, o locutor será decerto associado a imagens rápidas de Lenine, com palavras «democracia do povo», e a barba profética do Pai Marx. Porque tudo isto se passará num futuro ainda tranquilizadoramente distante, podemos sorrir. Mas, daqui a dez ou vinte anos, provavelmente, um pouco menos divertido. Porque o que é, agora, mera ficção científica, tornar-se-á um facto político de todos os dias.




Poetzl foi um dos profetas que descurei ao escrever o Admirável Mundo Novo. Na minha fábula não há qualquer referência à projecção subliminal. É um erro de omissão que, se voltasse a escrever o livro agora, eu corrigiria certamente (ibidem, pp. 165-178).