terça-feira, 19 de março de 2013

Alexandre Magno (ii)

Escrito por Plutarco





«... de que [Alexandre] tivesse sido envenenado, ninguém suspeitou naquela altura, dizendo-se apenas que, tendo sido feito um legado a Olimpíada, aos oito anos, mandou matar muitos e espalhou aos ventos as cinzas de Iolas, então já morto, por ter sido ele quem lhe ministrou o veneno. Os que dizem que Aristóteles foi quem aconselhou esta acção a Antípatro, e que também proporcionou o veneno, designam um tal Agnotemis como divulgador desta notícia, tendo-se-a ouvido ao rei Antígono, e que o veneno foi uma água fria e gelada que emanava de uma pedra, próximo de Nonacris, a qual era recolhida como um orvalho muito ténue, conservando-a num vaso feito de casco de burro, pois nenhuns outros a podiam conter, visto que os fazia rebentar com a sua excessiva frialdade e aspereza. Mas a maior parte crê que esta referência ao veneno foi uma pura invenção, tendo para tal como poderoso argumento o facto de terem os generais altercado entre si durante muitos dias, sem terem cuidado de dar sepultura ao corpo, o qual permaneceu num sítio quente e não ventilado, sem que nenhum sinal de semelhante modo de destruição aparecesse, mas, pelo contrário, manteve-se sem a menor mancha e fresco».

Plutarco («Vidas Paralelas»).


(...) Reunidos os Gregos no Istmo, decidiram marchar com Alexandre para a guerra contra a Pérsia, nomeando-o general; e, como eram muitos os homens de Estado e os filósofos que o visitavam e lhe davam os parabéns, ele esperava que fizesse outro tanto Diógenes, o de Sinope, que residia em Corinto. Mas este não deu nenhuma importância a Alexandre e passava tranquilamente a vida no bairro chamado Craneto, e assim teve de ser Alexandre a passar por lá para o ver. Achava-se ocasionalmente estendido ao sol e, tendo-se endireitado um pouco com a chegada de tantas personagens, fixou o olhar em Alexandre. Saudo-o este e perguntou-lhe em seguida se se lhe oferecia dizer alguma coisa.

- Muito pouco, respondeu-lhe. - Apenas que não me tapes o Sol.

Diz-se que Alexandre, perante aquela espécie de menosprezo, ficou tão admirado de semelhante elevação e grandeza de ânimo que, quando, depois de se afastarem dali, os que o acompanhavam começaram a rir-se e a troçar, lhes disse:

- Pois eu, se não fosse Alexandre, de boa vontade seria Diógenes.

Quis preparar-se para a expedição com a aprovação de Apolo e, tendo passado por Delfos, quis o acaso que os dias em que lá chegou fossem nefastos, aqueles em que não é permitido dar resposta: contudo, a primeira coisa que fez foi chamar a sacerdotisa; mas, negando-se esta e objectando com o disposto na lei, dirigiu-se até onde ela se encontrava e trouxe-a à força para o templo. Ela, então, mostrando-se vencida por aquela determinação, exclamou:

- És invencível, ó jovem!




Ouvindo isto, Alexandre disse que não necessitava de mais nenhum vaticínio, pois ouvira da sua boca o oráculo que lhe convinha. Quando já se encontrava em marcha para a expedição, ocorreram diferentes prodígios e sinais, e entre eles o da estátua de Orfeu em Libetra, que era de cipreste, e que naqueles dias exalou copiosos suores. A muitos, este fenómeno inspirou medo, mas Alexandre exortou-os a terem confiança, dizendo-lhes:

- Isto significa que Alexandre cometerá façanhas dignas de serem cantadas e aplaudidas; as quais, no entanto, darão muito que fazer e que suar aos poetas e músicos que as hão-de celebrar.

(...) Quando ia invadir a Índia, como visse que o exército arrastava uma grande carga atrás de si, e que era difícil mover-se, devido à grande riqueza dos despojos, nessa mesma manhã, estando já prontos os carros, queimou primeiro os seus e os dos seus amigos, e depois mandou lançar o fogo aos dos Macedónios, ordem que pareceu mais dura e terrível em si do que na sua execução, porque mortificou muito poucos e, pelo contrário, os demais receberam-na com entusiasmo e com demonstrações de aclamação e de júbilo, distribuíram as coisas mais precisas entre os que as pediram, e as restantes queimaram-nas, criando assim maior arrojo e confiança no ânimo de Alexandre. Era já então feroz e inexorável no castigo dos culpados, de maneira que, tendo nomeado Menandro, um dos seus amigos, governador de um forte, porque este não queria ali ficar, tirou-lhe a vida, e, tendo-se revoltado os bárbaros, ele próprio trespassou com uma flecha Orsodates. Sucedeu por essa altura que uma ovelha pariu um cordeiro que tinha na cabeça a figura e a cor de uma tiara, e a forma também de uns testículos, de um e de outro lado, o que pareceu a Alexandre mau sinal, pelo que tratou de se mandar purificar por uns babilónios que, para esse efeito, cuidava sempre de levar consigo; acerca do que disse aos seus amigos que não fora por si próprio que se havia sobressaltado, mas por eles, não acontecesse que um mau génio, faltando-lhes eles, transferisse o poder para um homem cobarde e obscuro. Mas um sinal bom que observou logo fez esquecer esta impressão de desalento: foi que um macedónio, chefe das tapeçarias, chamado Proxeno, ao alisar o sítio em que devia ser armada a tenda do rei, junto ao rio Oxo, descobriu uma fonte de um licor contínuo e untuoso, e, pelo primeiro que recolheram, descobriram que se tratava de um azeite límpido e claro, sem se diferenciar desta substância nem ao cheiro nem ao sabor, sendo também igual a ela na cor brilhante e na untuosidade, e isto num país que não produzia azeite. Diz-se, pois, que a água do Oxo é também muito branda e que põe gordurosa a pele dos que nela se banham. Aconteceu que Alexandre se alegrou extraordinariamente com este sinal, como demonstra com o que escreveu a Antípatro, colocando o facto entre os maiores favores que recebera do deus. Os adivinhos consideravam-no prognóstico de uma expedição gloriosa, mas trabalhosa e difícil, porque o azeite foi dado aos homens por Deus para remédio das suas fadigas.




Foram, pois, muitos os perigos que correu naqueles encontros, e graves as feridas que recebeu, mas o maior mal que a sua expedição sofreu foi a falta das coisas de maior necessidade e a destemperança do clima. No que diz respeito a ele próprio, fazia empenho em contrapor à fortuna a ousadia, e ao poder o valor, pois nada lhe parecia ser inacessível para os ousados, nem forte e seguro para os cobardes (11). Diz-se, portanto, que, tendo cercado o castelo de Sisimitres, que estava num rochedo muito elevado e inacessível, como os soldados já começassem a perder a confiança, perguntou a Oxiartes que espécie de homem era Sisimitres, quanto ao ânimo; e, respondendo-lhe este que era o mais tímido dos mortais, ripostou:

- Isso quer dizer que posso tomar o rochedo, pois aquele que manda nele não é forte.

Tomou-o, pois, bastando-lhe intimidar Sisimitres. Mandou contra outro castelo, igualmente escarpado, os mais jovens dos Macedónios e, saudando um que se chamava Alexandre, disse-lhe:

- A ti compete-te ser valente, mais que não seja pelo nome que tens.

Pelejou, efectivamente, aquele jovem com grande denodo, mas morreu na acção, o que causou a Alexandre grande pesar. Punham os Macedónios dificuldades em acometer a fortaleza chamada Nisa, por estar banhada por um rio profundo, e, estando ele presente, retorquiu:

- Pois, miserável de mim, não aprendi eu a nadar?



E, tendo já o escudo sobraçado, dispunha-se a passar. Deteve a acção por virem até ele com rogos embaixadores da cidade sitiada, os quais ficaram logo maravilhados por o verem em armas, sem nenhum acompanhamento. Trouxeram-lhe depois um almofadão e, pegando-lhe, mandou que se sentasse nele o mais ancião de entre eles, que se chamava Acufis. Admirado este ainda mais com tais mostras de benignidade e de humanidade, perguntou-lhe que haviam de fazer para se poderem contar entre os seus amigos; e, como lhes respondesse que a primeira coisa era nomearem-no chefe e príncipe de todos, e a segunda mandarem-lhe como reféns um cento dos melhores, pondo-se a rir, Acufis respondeu:

- Muito melhor farei, ó rei!, mandando-te os piores em vez dos melhores!

Diz-se que Taxiles, que possuía na Índia terrenos que não eram menores do que o Egipto em extensão, e abundantes e férteis como os melhores, e sendo homem de muito siso, saudou Alexandre e lhe disse:

- Que necessidade temos, ó Alexandre, de guerras e de batalhas entre nós, se não vens tirar-nos a água nem os alimentos necessários, que são as únicas coisas pelas quais é forçoso que os homens pelejem? No que toca às demais, que se chamam bens ou riquezas, se sou melhor do que tu, estou pronto a fazer-te o bem, e, se valho menos, não recuso mostrar-me agradecido pelo que receber de ti.

Satisfeito, Alexandre estendeu-lhe a mão direita e replicou:

- Pois pensas que, com essas palavras e essa bondade, o nosso encontro há-de ficar sem contenda? Fica sabendo que nada adiantas, porque me baterei e pelejarei contigo à força de benefícios, a fim de que não pareças melhor do que eu.




Recebendo, pois, muitos bens, e dando muitos mais, acabou por lhe dar um presente de mil talentos em dinheiro, como que desagradou sobremaneira aos amigos, mas fez com que muitos dos bárbaros se lhe mostrassem menos contrários. Os mais belicosos entre os da Índia eram pagos para defender com ardor as cidades e causavam-lhe grandes danos. Tendo, pois, estabelecido tréguas com eles numa delas, apanhando-os depois no caminho, quando retiravam, deu-lhes morte a todos; e entre os seus feitos de guerra, em que sempre se conduziu justa e regiamente, este é o único que pode ter-se como uma mancha. Não lhe deram os filósofos menos que fazer do que os bárbaros, indispondo contra ele os reis que se lhe haviam unido e fazendo revoltar-se os povos livres, pelo que lhe foi preciso enforcar muitos.

O relativo a Poro, foi o próprio Alexandre quem nas suas cartas escreveu como se passara, porque diz que, correndo o Hidaspes entre os dois acampamentos, tinha Poro colocado na frente do seu os elefantes, para guardarem a passagem, e que ele, pela sua parte, todos os dias fazia muitos movimentos e grandes alvoroços no seu campo, a fim de fazer com que os bárbaros a eles se acostumassem e não os temessem; que numa noite muito invernosa, em que a Lua não brilhava, levando algumas tropas apeadas e a fina flor da cavalaria, afastou-se muito dos inimigos e passou para uma ilhota de pequena dimensão; que ali foi surpreendido por uma grande chuvada, e, sendo muitos os relâmpagos e os raios que pareciam dirigir-se ao acampamento, de tal modo que muitos eram atingidos e calcinados por eles, saiu da ilhota para passar para a margem oposta, mas, como Hidastes ia muito cheio e fora do leito, por causa da tempestade, fizera uma grande abertura e inundação, correndo por ela as águas em notável quantidade, e que conseguiu firmar-se no terreno intermédio, mas com muito pouca segurança, por o terreno ser resvaladiço e estar molhado. Conta-se ter proferido ali a seguinte exclamação:

- Acreditaríeis agora, ó Atenienses, quantos trabalhos suporto, para ser celebrado entre vós!




Mas isto quem refere é Onesícrito; o próprio Alexandre diz que, deixando as lanchas, passaram armados a inundação, com água pelo peito. Depois de ter passado, adiantou-se com a cavalaria uns vinte estádios, fazendo conta que, se os inimigos acometessem com esta arma, melhor os venceria e, se quisessem travar batalha, também a sua infantaria chegaria até ele com antecipação; e sucedeu a primeira destas coisas: porque, tendo carregado com mil cavalos e sessenta carros, e morto trezentos homens, entendeu com isto Poro que o próprio Alexandre já estava daquele lado, pelo que pôs em movimento todo o seu exército, à excepção de algumas tropas que foi preciso deixar para trás para estorvarem a passagem aos Macedónios. Alexandre, por temor dos elefantes e do grande número dos inimigos, diz-se que carregou obliquamente pela ala esquerda, dando ordem a Geno para que acometesse pela direita, que por uma e outra foram os inimigos rechaçados, e, retirando-se sempre em direcção aos elefantes, os que iam de vencida embaraçavam-se e confundiam-se ali; e que, tendo o combate começado a ser travado ao nascer do Sol, com dificuldade fizeram ceder os inimigos à hora oitava. Isto é o que o próprio condutor desta batalha referiu nas suas cartas. A maioria dos historiadores concorda que Poro ultrapassara a estatura média em quatro côvados e um palmo, e que, montado, nada lhe faltava para ficar igual ao elefante quanto ao porte e robustez do corpo; e isto apesar de o elefante que usava ser dos maiores. Este animal mostrou naquela ocasião uma extraordinária inteligência e um cuidado extremo com o rei, pois, enquanto este conservou o vigor, defendendo-o encolerizado dos que o atacavam, fazendo-os em pedaços, mas, quando percebeu que estava a desfalecer, devido ao grande número de dardos e feridas, receoso de que caísse de repente, inclinou-se brandamente até ao chão, dobrando os joelhos, e, segurando depois suavemente com a tromba os dardos, foi-os arrancado um a um. Perguntando Alexandre a Poro, quando este foi feito prisioneiro, como queria que o tratasse, respondeu-lhe:

- Regiamente!

E, perguntando-lhe Alexandre se não tinha mais nada a acrescentar, retorquiu:

- Ao dizer regiamente, está tudo dito!

Deixou-lhe então autoridade não apenas sobre os seus antigos súbditos, com o nome de sátrapa, mas também lhe concedeu novos territórios, tendo-lhe submetido os povos livres, que eram quinze nações, em várias cidades (12) principais e muitas aldeias. Conquistou ainda outra região três vezes maior, da qual nomeou Filipe, um dos seus amigos.

Em consequência da batalha contra Poro, morreu Bucéfalo, não imediatamente, mas sim ao fim de algum tempo, quando, segundo a maioria, já se estava a curar das suas feridas, mas, segundo disse Onesícrito, fatigado por um trabalho que já não conseguia suportar devido à sua velhice, pois tinha trinta anos quando morreu.

Sentiu-o pronfudamente Alexandre, considerando que perdera nada menos do que um amigo e um servidor, pelo que mandou edificar em sua memória uma cidade junto ao Hidaspes, chamando-lhe Bucefália. Diz-se que, tendo perdido tambem um cão chamado Peritas, que havia criado e do qual gostava muito, edificou outra cidade com o seu nome. Sócion escreve que ouviu dizer isto a Potamon de Lesbos.


- O combate de Poro desanimou muito os Macedónios, dissuadindo-os de se quererem internar mais na Índia, pois ainda mal haviam derrotado este, que lhes fizera frente com vinte mil infantes e dois mil cavaleiros, quando já se voltava de novo a oferecer resistência a Alexandre, que queria forçar a passagem do rio Ganges, cuja largura sabiam ser de trinta e dois estádios e a sua profundidade de cem braças, e que a margem oposta estava guarnecida por grande número de homens armados, com cavalos e elefantes, porque se dizia que o estavam esperando os reis dos Gandaritas e dos Préssios, com oitenta mil infantes, oito mil carros e seis mil elefantes de guerra. E não se considere isto um exagero, pois Adrócoto, que reinou pouco depois, ofereceu a Seleuco um presente de quinhentos elefantes, e, com um exército de seiscentos mil homens, correu e subjugou toda a Índia. Ao princípio, dominado pela ira e pela raiva, Alexandre retirou-se para a sua tenda e ali permaneceu encerrado, dizendo que nada agradecia do que fora feito antes se não passasse o Ganges, e que considerava aquela retirada uma confissão de inferioridade e derrota. Mas, fazendo-lhe os amigos ver o que era conveniente e rodeando os soldados a sua tenda com lamentos e vozes em que lhe faziam rogos, condescendeu por fim e levantou o acampamento, tendo recorrido, para criar ilusão acerca da sua glória, a arbítrios estúpidos e a estranhas invenções, porque mandou construir armas muito maiores, e pesebres e freios de muito maior peso para os cavalos, e foi-os deixando espalhados pelo caminho. Erigiu também altares aos deuses, onde ainda hoje vão rezar os reis dos Préssios, deslocando-se àqueles locais e oferecendo sacrifícios, à maneira grega. Andrócoto, que era ainda muito jovem, viu Alexandre ter-se tornado dono de tudo, em face do desprezo com que era olhado o rei, devido à sua maldade e à sua origem.

Formou então Alexandre o projecto de ir dali ver o mar exterior (13) e, construindo muitos transportes e lanchas, navegava sossegadamente pelo rio. Mas nem por isso esta viagem era tranquila e sem perigo, pois, saltando em terra e acometendo as cidades, ia-as subjugando a todas. Sem dúvida que contra os chamados Málios, que se diz serem os mais belicosos da Índia, muito pouco faltou para não morrer. Porque com frechadas fez aqueles habitantes retirar das muralhas e, postas as escadas, foi o primeiro a subir, mas, tendo-se quebrado a escada, os bárbaros que estavam colocados junto à muralha causaram-lhe de lá de baixo vários ferimentos, mas ele, apesar de ter muito pouca gente consigo, teve o arrojo de se deixar cair no meio dos inimigos, ficando, por sorte, em pé; e, como as armas sofreram um súbito movimento, pareceu aos bárbaros que um resplendor e uma aparência extraordinária brotava dele. Assim, ao princípio, fugiram e dispersaram-se, mas, ao verem-no apenas com dois escudeiros, voltaram a correr para ele e alguns, embora ele se defendesse, conseguiram feri-lo de perto com espadas e lanças, e um que estava mais longe disparou com o arco uma seta com tal força e rapidez que, trespassando a couraça, se lhe cravou entre as costelas, junto ao mamilo. Cedeu o corpo ao golpe e também se transtornou um tanto, e o atirador correu para lá, sacando o alfange que usam os bárbaros, mas Pucestas e Limneu puseram-se na frente e, sendo ambos feridos, este perdeu a vida, mas Peucestas aguentou-se e Alexandre deu morte ao bárbaro. Recebera muitos golpes e, ferido por fim com uma maça junto ao pescoço, teve de se apoiar à muralha, ficando a olhar os inimigos. Acudiram neste momento os Macedónios e, recolhendo-o já sem sentidos, levaram-no para a sua tenda, e, ao princípio, correu no exército o rumor de que morrera. Tiraram-lhe, não sem grande dificuldade e trabalho, o cabo da seta, que era de madeira, depois do que foi possível desapertar-se a couraça, embora também a muito custo, pondo-se assim a descoberto a ferida e verificando-se que a ponta que, segundo se diz, tinha três dedos de comprimento e quatro de largo, se encontrava cravada num dos ossos. Quando lha estavam a tirar, teve desmaios em que julgaram que se iria ficar, mas logo se restabeleceu. Embora tivesse ficado fora de perigo, aquilo deixou-o muito débil, e teve de passar muito tempo a dieta e a medicar-se, mas, sentindo um dia, da parte de fora, os Macedónios alvoraçados e inquietos com o desejo de o ver, pôs as suas roupas e saiu para onde eles se encontravam. Sacrificou depois aos deuses e, voltando a embarcar e a largar as velas, subjugou novas regiões e muitas cidades.




Caíram em seu poder dez dos filósofos gimnosofistas, aqueles que com as suas persuasões mais tinham contribuído para que Sabas se revoltasse e que maiores males haviam causado aos Macedónios. Como tinham fama de ser muito hábeis em dar respostas breves e concisas, propôs-lhes certas perguntas obscuras, dizendo que mandaria matar primeiro aquele que pior respondesse, e assim por esta ordem, intimando o mais ancião a julgar. Perguntou ao primeiro se, na sua opinião, eram mais os vivos ou os mortos, e a resposta foi que eram mais o vivos, pois os mortos já não eram. Ao segundo, perguntou qual é que criava maiores animais, se a terra ou o mar, respondendo-lhe ele que era a terra, porque o mar fazia parte dela. Ao terceiro, qual era o animal mais astuto, sendo-lhe dito: «Aquele que o homem ainda não conheceu». Perguntando ao quarto com que fim fizera com que Sabas se revoltasse, respondeu-lhe ele: «Com o desejo de que vivesse bem, ou morresse mal». Sendo perguntado ao quinto qual lhe parecia que havia existido primeiro, o dia ou a noite, respondeu-lhe que o dia precedera a noite num dia, e acrescentou, vendo que o rei se mostrava admirado, que, sendo enigmáticas as perguntas, também o deviam ser as respostas. Mudando, pois, de método, perguntou ao sexto como é que uma pessoa poderia conseguir ser a mais amada entre os homens, respondendo-lhe ele: «Se, sendo o mais poderoso, não se fizer temer». Dos demais, interrogado um acerca de como é que uma pessoa podia passar de homem a deus, disse-lhe: «Se fizesse coisas que ao homem são impossíveis de fazer». E, perguntando a outro qual podia mais, se a vida ou a morte, respondeu-lhe que era a vida, pois era capaz de suportar tantos males. Perguntando ao último até quando deveria o homem ter por bem viver, este respondeu-lhe: «Enquanto não preferir a morte à vida». Voltou-se então para o juiz, mandando-lhe que se pronunciasse, e, tendo este dito que todos haviam respondido o pior possível, Alexandre se declarou:

- Pois tu serás o primeiro a morrer, por julgares dessa maneira.

Ao que aquele replicou:

- Isso não pode ser, ó rei, a menos que te contradigas, pois disseste que morreria primeiro o que pior respondesse.



Deixou, pois, ir estes livres, havendo-lhes ainda dado presentes, e aos que, tendo também fama, viviam à sua conta, deu ordem a Onesícrito que lhes dissesse que o fossem ver. Era Onesícrito um filósofo dos da escola de Diógenes, o cínico, e diz-se que Calano lhe mandou com desdém e má cara tirar a túnica e escutar nu as suas lições, pois de outro modo não lhe dirigiria a palavra, nem que viesse da parte de Júpiter, mas que Dandamis o tratou com mais doçura e, tendo-lhe ouvido falar de Sócrates, de Pitágoras e de Diógenes, dissera que lhe pareciam homens apreciáveis, embora, em seu entender, tivessem vivido com demasiado submissão às leis. Outros são de opinião de que Dandamis não terá dito mais do que isto:

- Pois, com que fim é que Alexandre fez uma viagem tão grande, para vir até aqui? (in ob. cit., pp. 84-94).

Notas:

(11) O sentido desta passagem é que o valor acaba sempre por vir ao de cima e para a cobardia não existe posto algum suficientemente forte e seguro.

(12) No original diz-se que foram cinco mil as cidades, mas neste número naturalmente que há algum erro, pelo que se considerou preferível não o determinar.

(13) O mar Eritreu, por oposição ao Mediterrâneo, ou mar interior.

sábado, 16 de março de 2013

Alexandre Magno (i)

Escrito por Plutarco 



Héracles

«Héracles é filho de Alcmena e de Anfitrião, mas, na realidade, o seu verdadeiro pai é Zeus. Este aproveitara a ausência de Anfitrião, que saíra em expedição contra os Teléboas, para enganar Alcmena, assumindo a forma e o aspecto do seu marido e, no decurso de uma longa noite, por si prolongada, engendrou o herói. Anfitrião regressou pela manhã, deu-se a reconhecer e fez Alcmena conceber um segundo filho, Íficles, o irmão gémeo de Héracles, mais novo que ele uma noite. Contava-se que, para se fazer reconhecer por Alcmena e retirar-lhe qualquer possibilidade de dúvida, Zeus lhe enviara como presente uma taça de ouro que fora de Ptérelas, o rei dos Teléboas. Contou-lhe, além disso, como se fossem suas, as façanhas cometidas pelo verdadeiro Anfitrião. Quando este regressou, ele interveio para reconciliar marido e esposa, e Anfitrião resignou-se, diz-se, a ser apenas o pai adoptivo.

(...) Os Heraclidas são, na acepção mais lata do termo, não apenas os filhos de Héracles, mas todos os seus descendentes até à geração mais afastada. Na época helenística, muitas famílias reais pretendiam ainda fazer-se passar por "Heraclidas" e faziam recuar a sua estirpe até ao herói. Na lenda, chama-se mais concretamente Heraclidas aos descendentes imediatos de Héracles e Dejanira, que colonizaram o Peloponeso».

Pierre Grimal («Dicionário da Mitologia Grega e Romana»).


«Uno é o mito, mas não por se referir a uma só pessoa, como crêem alguns, pois há muitos acontecimentos e infinitamente vários, respeitantes a um só indivíduo, entre os quais não é possível estabelecer unidade alguma. Muitas são as acções que uma pessoa pode praticar, mas nem por isso elas constituem uma acção una.

Assim, parece que tenham errado todos os poetas que compuseram uma Heracleida ou uma Teseida ou outros poemas que tais, por entenderem que, sendo Héracles um só, todas as suas acções haviam de constituir uma unidade.

Porém, Homero, assim como se distingue em tudo o mais, também parece ter visto bem, fosse por arte ou por engenho natural, pois ao compor a Odisseia não poetou todos os sucessos da vida de Ulisses, por exemplo, o ter sido ferido no Parnaso e o simular-se louco no momento em que se reuniu o exército. Porque, de haver acontecido uma dessas coisas, não se seguia necessária e verosimilmente que a outra houvesse de acontecer, mas compôs em torno de uma acção una a Odisseia - una, no sentido que damos a esta palavra - e de modo semelhante a Ilíada.

Por conseguinte, tal como é necessário que nas demais artes miméticas una seja a imitação, quando o seja de um objecto uno, assim também o mito, porque é imitação de acções, deve imitar as que sejam unas e completas, e todos os acontecimentos se devem suceder em conexão tal que, uma vez suprimido ou deslocado um deles, também se confunda ou mude a ordem do todo. Pois não faz parte de um todo o que, quer seja quer não seja, não altera esse todo».

Aristóteles («Poética»).


ALEXANDRE MAGNO


Alexandre o Grande (Museu Britânico).

(...) Que Alexandre era, por parte do pai, heráclida (1), descendente de Carano, e que era eácida (2) por parte da mãe, cuja origem remontava a Neoptólemo, são coisa em que, geralmente, todos estão de acordo. Diz-se que Filipe, tendo sido iniciado em Samotrácia juntamente com Olimpíada, embora sendo muito jovem, se enamorou desta, que era ainda menina e orfã de pai e de mãe, e que concertou o seu casamento com o irmão dela, chamado Arimba. À esposa pareceu-lhe que, antes da noite em que se reuniram no tálamo nupcial, tendo trovejado, lhe caiu um raio no ventre, e que desse golpe se acendeu muito fogo, o qual, dividindo-se depois em chamas, que se espalharam por todas as partes, se dissipou. Filipe, algum tempo depois de celebrado o casamento, teve um sonho, em que lhe pareceu estar a selar o ventre de sua mulher, e que o selo tinha gravada a imagem de um leão. Os outros adivinhos acreditavam que aquela visão só podia significar que Filipe necessitava de exercer uma vigilância mais atenta sobre o seu matrimónio; mas Aristandro de Telmísio disse que aquilo significava que Olimpíada estava grávida, porque o que está vazio não se sela, e que estava a gerar um menino valoroso e parecido na sua índole com os leões. Viu-se também um dragão, o qual, estando Olimpíada adormecida, se lhe enredou no corpo, do que resultou, segundo se diz, que se enfraquecesse o amor e o carinho de Filipe, fazendo escassear as vezes que repousava junto dela; isto talvez por temer que ela usasse alguns encantamentos ou malefícios contra ele, ou porque lhe repugnasse dormir com uma mulher que tivera relações com um ser de natureza superior. No entanto, corre outra história acerca destas coisas, e essa diz-nos que todas as mulheres daquele país, desde tempos muito remotos, estavam iniciadas nos mistérios órficos e nas orgias de Baco; e, sendo designadas por Clodones e Mimalones, faziam coisas muito parecidas com as que executavam as edónias e as trácias, habitantes do monte Hemo (3): de onde resultara que o verbo triscar se aplicasse para significar sacrifícios abundantes e levados ao excesso. Assim, no que respeita a Olimpíada, que se entregava mais do que todas as outras a esse fanatismo e que as excedia no entusiasmo de tais festas, levava para as reuniões báquicas grandes serpentes domesticadas por ela, as quais, saindo muitas vezes da hera e do crivo místicos e enroscando-se nos tirsos (4) e nas coroas, assustavam os presentes.




Diz-se, na verdade, que, tendo Filipe enviado Querão, o Megalopolitano, a Delfos, depois do sonho, este lhe trouxe do deus um oráculo, segundo o qual ele deveria sacrificar a Amon (5) e venerá-lo especialmente entre todos os deuses; e também consta que perdeu um olho por ter visto, por uma frincha da porta, que o deus se entregava aos prazeres com a mulher dele, em forma de dragão. Acerca de Olimpíada, refere Eratóstenes que, ao despedir-se de Alexandre, quando este se preparava para partir com os exércitos, lhe revelou apenas a ele o segredo do seu nascimento, exortando-o a comportar-se de forma digna das suas origens; mas outros asseguram que sempre olhou com horror semelhante fábula, dizendo: «Será possível que Alexandre não deixe de me desacreditar junto de Juno?» Nasceu, portanto, Alexandre, no mês Hecatombéon (6), a que os macedónios chamavam Loon, no dia sexto, o mesmo em que se incendiou o templo de Diana Efesina, o que deu ocasião a que Hegésias, o Magnésio, utilizasse um chiste o qual, pela sua frieza, seria capaz de apagar aquele incêndio: porque disse que não era estranho ter-se queimado o templo estando Diana ocupada em assistir ao nascimento de Alexandre. Todos os magos que se deslocaram nessa altura a Éfeso, tomando o que acontecera ao templo como prenúncio de outro mal, corriam, lastimando-se, cobrindo os rostos e dizendo uns após outros que aquele dia produzira outra grande desventura para a Ásia. Acabava Filipe de tomar a Potideia quando recebeu, ao mesmo tempo, três notícias: que vencera os Ilírios numa grande batalha, através de Parménio, que nos jogos olímpicos havia vencido na prova de cavalos de montar, e que nascera Alexandre. Regozijava-se com elas, como era natural, e os adivinhos aumentaram ainda mais a sua alegria, anunciando-lhe que aquele menino, nascido entre duas vitórias, seria invencível.


As estátuas que mais exactamente representam a imagem do seu corpo são as de Lísipo, que era o único por quem queria ser retratado; porque este artista foi quem soube representar com mais vida aquela ligeira inclinação do pescoço para o lado esquerdo e aquela flexibilidade do olhar, que com tanto cuidado procuraram depois imitar muitos dos seus sucessores e dos seus amigos. Apeles, quando o pintou com o raio, não lhe imitou bem a cor, pois o fez mais moreno e ardoroso, sendo ele branco como dizem, de uma brancura rosada, principalmente no peito e no rosto. A sua cútis expirava fragrância, e a boca e a carne exalavam o melhor odor, que penetrava a sua roupa, se acreditarmos no que podemos ler nos Comentários de Aristoxeno. A causa podia ser a compleição do seu corpo, que era ardente e fogoso, porque o bom odor nasce da cozedura dos humores por meio do calor, segundo opinião de Teofrasto; é por isso que os lugares secos e ardentes da Terra são os que produzem em maior quantidade os mais suaves aromas; e é o sol que dissipa a humidade da superfície dos corpos, que é a matéria de toda a corrupção; e, a Alexandre, o ardor da sua compleição fê-lo, segundo parece, bebedor de grande alento. Sendo ainda muito jovem, logo se manifestou a sua continência: pois, apesar de ser para tudo o mais arrojado e veemente, no que se referia aos prazeres corporais era pouco sensível e gozava-os com grande sobriedade, ao passo que a sua ambição demonstrou desde logo uma ousadia e uma magnanimidade superiores ao normal para a sua idade. Porque nem toda a glória lhe agradava, nem todas as suas causas - ao contrário de Filipe, o qual, como se fosse um sofista, se gabava de saber falar eloquentemente e mandava gravar em moedas as vitórias que alcançava nas provas de carro em Olímpia - quando os seus familiares lhe propuseram que se candidatasse ao prémio dos estádios, pois era muito rápido na corrida, respondeu-lhes que só no caso de ter reis como competidores. Em geral, parece que era muito indiferente a todos os géneros de combates atléticos, pois que, custeando muitos festivais de trágicos, de flautistas, de citaristas, e ainda dos rapsodistas ou recitadores das poesias de Homero, e dando simulacros de caçadas de todos os géneros e de jogos de esgrima, jamais de sua própria vontade propôs qualquer prémio para o pugilato ou para o pancrácio (7).


Olimpíada


Achando-se ausente Filipe, teve de ser ele a receber e a obsequiar uns embaixadores enviados pelo rei da Pérsia, e mostrou-se tão amigo deles, pelo seu trato agradável e por não lhes fazer nenhuma pergunta infantil ou que pudesse parecer frívola, querendo conhecer apenas a distância de uns lugares aos outros, o modo de viajar, obter informações acerca do próprio rei e de qual a sua disposição em relação aos inimigos, e saber qual a força e poder dos Persas, que eles ficaram admirados e não tiveram em grande conta a celebrada sagacidade de Filipe, comparada com as qualidades inatas e os elevados pensamentos do filho. De todas as vezes que chegaram notícias de que Filipe havia tomado alguma cidade importante, ou que vencera alguma memorável batalha, não se mostrava satisfeito por a ouvir, mas limitava-se a dizer para os da sua idade: «Será possível, amigos, que o meu pai se antecipe e conquiste tudo, sem nos deixar a nós nada de brilhante e glorioso em que possamos distinguir-nos?». Não ambicionando prazeres nem riquezas, mas apenas méritos e glória, parecia-lhe que, quanto mais o pai deixasse conquistado, menos lhe ficaria a ele para vencer; e crendo, por isso, que quanto mais se aumentava o Estado, mais decresciam as suas futuras façanhas, o que desejava não eram riquezas, nem presentes, nem prazeres, mas apenas um império que lhe oferecesse combates, guerras e possibilidades de engrandecer a sua glória. Eram muitos, como se pode saber, os que estavam destinados a orientar a sua educação, havendo entre eles nomes de famosos aios e mestres, sobre todos os quais presidia Leónidas, varão austero nos costumes e parente de Olimpíada; no entanto, como não gostava da designação de aio, embora ela representasse uma profissão honesta e recomendável, era tratado por todos os outros, devido à sua dignidade e parentesco, por nutrízio e director de Alexandre; e o que se dava todos os ares e aparato de aio era Límaco, natural de Arcânia, o qual, apesar de toda a sua originalidade se limitar a atribuir-se a si próprio o nome de Fénix, a Alexandre o de Aquiles e a Filipe o de Peleu, agradava muito com esta simplicidade e ocupava o segundo lugar.

Trouxe o tessálico chamado Filónico o cavalo Bucéfalo para vender a Filipe por treze talentos, e, tendo descido a um descampado para o experimentarem, mostrou-se arisco e completamente indómito, sem admitir cavaleiro, nem suportar a voz de nenhum dos que acompanhavam Filipe, pois a todos ameaçava erguendo as patas dianteiras. Desagradou isto a Filipe, que deu ordem para que o levassem, por ser feroz e  insubmisso; mas Alexandre, que se encontrava presente, disse:

- Que cavalo perdem, só por não terem conhecimento nem decisão para o dominar!

Filipe, ao princípio calou-se, mas, como ele repetia, lastimando, muitas vezes aquela decisão, replicou-lhe:

- Censuras os que têm mais anos do que tu, como se soubesses ou pudesses manejar melhor o cavalo.



Ao que ele contestou:

- É evidente que o dominarei melhor do que ninguém.

- Se não fizeres o que dizes - retorquiu o pai - qual há-de ser o castigo pela tua temeridade?

- Por Júpiter - disse - pagarei o preço do cavalo.

Puseram-se a rir e, tendo chegado a acordo acerca da aposta, ele dirigiu-se para o local onde estava o cavalo, segurou-o pelas rédeas e, voltando-se, colocou-o de frente para o Sol, pensando, ao que parece, que o cavalo se agitava era por ver a sua sombra, que batia e se movia junto dele. Passou-lhe depois a mão pelo pêlo e afagou-o por alguns instantes e, vendo que lhe dominava o fogo e os brios, foi tirando pouco a pouco o manto, lançando-o ao solo, e, de um salto, montou sem dificuldade. Ao princípio, puxou-lhe um bocado o freio e, sem o castigar, nem sequer o tocar de esporas, fê-lo estar quieto. Quando verificou que ele não representava nenhum risco, mas que ansiava por correr, foi-lhe dando rédeas e incitou-o com voz forte e aplicando-lhe os calcanhares. Filipe e os que com ele se encontravam começaram por se sentir muito preocupados e mantiveram-se em silêncio, mas, quando o viram dar uma volta com facilidade e desenvoltura, mostrando-se contente e alegre, todos os demais irromperam em aclamações; mas, acerca do pai, conta-se até que chorou de alegria e que, beijando-lhe a testa logo que desmontou, lhe disse:

-Procura, meu filho, um reino igual a ti, pois na Macedónia não cabes.

Observando que ele era de carácter pouco flexível e daqueles que não podem ser levados pela força, mas que pela razão e pelo discurso se conseguia conduzi-lo facilmente ao que era decoroso e justo, o pai decidiu por si próprio procurar persuadi-lo mais do que mandá-lo; e, não tendo suficiente confiança na capacidade dos mestres de música e das demais habilidades comuns para o poderem instruir e formar, por isto exigir maior inteligência e ser, segundo a expressão de Sófocles,

obra de muito alento e de muita astúcia,


mandou chamar o filósofo de mais fama e de mais vastos conhecimentos, que era Aristóteles, a quem deu um honroso e conveniente prémio pelos seus ensinamentos, pois reedificou de novo a cidade de Estagira, de onde era natural Aristóteles, e que o mesmo Filipe destruíra, e restituiu-a aos seus antigos cidadãos, que se haviam tornado fugitivos ou escravos. Concedeu-lhes para escolas e para os seus exércitos o bosque vizinho de Mieza, onde ainda agora se podem ver os assentos de pedra de Aristóteles e os locais protegidos do sol por onde passeava. Parece que Alexandre não só aprendeu ética e política, como também tomou conhecimento de todos aqueles ensinamentos graves e reservados que os filósofos designam pelos nomes técnicos de acroamáticos (8) e de epópticos (9), e que não comunicam a muita gente. Por ter sabido, já depois de ter alcançado a Ásia, que Aristóteles publicara nos seus livros algumas destas doutrinas, escreveu-lhe, falando-lhe sem rodeios sobre a matéria, a carta que a seguir se reproduz: «Alexandre a Aristóteles, felicidades. Não fizeste bem em publicar as doutrinas acroamáticas; porque, em que é que nos diferenciaremos dos demais, se as ciências em que nos instruístes hão-de ser comuns a todos? Pois eu antes quero sobressair nos conhecimentos úteis e honestos do que no Poder. Que os deuses te guardem». Aristóteles, para não ferir esta nobre ambição, defendeu-se acerca destas doutrinas dizendo que não as devia considerar divulgadas, embora ele as tivesse publicado, pois, na realidade, o seu Tratado de Metafísica não era útil para aprender e se instruir, pois escrevera-o logo de modo a servir apenas como índice, ou memorandum aos já iniciados.

Alexandre e Aristóteles

Tenho por certo ter sido também Aristóteles quem principalmente inspirou a Alexandre o seu entusiasmo pela medicina, pois não só se dedicou ao seu estudo teórico, como também assistia aos seus amigos doentes e lhes prescrevia o regime e os medicamentos convenientes, como se pode deduzir pelas suas cartas. Em geral, tinha uma inclinação natural para as letras, para aprender e para ler; e, como tomasse a Ilíada por guia de doutrina militar, embora lhe desse esse nome, usava, corrigida pela mão de Aristóteles, a cópia a que chamavam «A Ilíada da caixa», a qual, juntamente com a espada, guardava sempre debaixo da almofada, segundo escreve Onesícrito. Não abundavam os livros na Macedónia, pelo que deu ordem a Harpalo que lhos enviasse; e este enviou-lhe os livros de Filisto, muitas cópias das tragédias de Eurípides, de Sófocles e de Ésquilo, e os ditirambos de Telestes e de Filoxeno. Ao princípio admirava Aristóteles e não lhe tinha, segundo ele próprio dizia, menos amor do que a seu pai, pois, se a um devia o viver, a outro devia o viver bem; mas, com o tempo, resfriou-se com ele, não até ao ponto de o ofender no que fosse, mas o facto de os seus obséquios não terem já o calor e a vivacidade de antes dava mostras dessa disposição. Mas não restam dúvidas de que o amor e o desejo pela filosofia que aquele lhe incutiu nunca mais se separaram da sua alma, como comprovam a honra que dispensou a Anaxarci, os cinquenta talentos que enviou a Xenócrates e o amparo que nele encontraram Dandamis e Calano (10).

(In «Vidas Paralelas», Amigos do Livro, pp. 18-26).

Notas: 

(1) Heráclidas era a designação adoptada pelas dinastias gregas do Peloponeso, de Corinto, da Lídia e da Macedónia, que pretendiam descender de Héracles, ou Hércules.


Héracles


(2) Eácidas era o nome dado aos descendentes de Éaco, tais como Peleu, Aquiles, Pirro, Neoptólemo, etc.

(3) Antigo nome dos Balcãs.

(4) Bastões enfeitados de hera e pâmpanos e terminados em forma de pinha, usados por Baco e pelas bacantes.

(5) Deus egípcio do Sol. Os Gregos identificaram-no com o seu Júpiter.

(6) Sétimo mês dos Atenienses até ao ano de 450 a. C., em que se tornou o primeiro do calendário olímpico.

(7) Combate ginástico típico da antiguidade grega, que compreendia a luta e o pugilato, e que permitia o emprego de todos os recursos da luta.

(8) Escutados da própria boca dos mestres.

(9) Referentes à terceira fase da iniciação nos mistérios de Elêusis.

(10) Dois filósofos indianos.

Continua

quarta-feira, 13 de março de 2013

O universo da alma

Escrito por Farid al-Din 'Attar 



Alexandre e Aristóteles


«(...) Aristóteles viajou para a Macedónia, para a corte de Filipe, que lhe entregou o preceptorado de seu filho Alexandre. Solicitou deste príncipe relevasse a sua pátria destruída por Filipe, e logrou a causa. Elaborou leis para os seus compatriotas. À imitação de Xenócrates, deu também um regulamento à sua escola, decidindo que um chefe escolar seria nomeado de dez em dez dias. Logo que achou já ter passado muito tempo junto de Alexandre, Aristóteles regressou a Atenas, depois de haver recomendado o seu familiar Calísteno de Olinto ao príncipe. Acerca deste personagem, diz-se que Aristóteles o censurou por usar perante o monarca de uma grande liberdade de linguagem, e que, em vista de Calísteno não aceitar o seu conselho, o repreendeu nos seguintes termos:


Depressa morrerás, meu filho, se falares como falas.


O que deveras aconteceu. Foi acusado de participação na conjura de Hermolau contra Alexandre, encerrado numa gaiola de ferro, abandonado aos bichos e, por fim, lançado aos leões, que limparam os restos».

Diógenes Laércio («Vida, Doutrina e Sentenças dos Filósofos Ilustres», V, 1).


«Um general competente mas impiedoso seria, em Atenas, considerado um soldado virtuoso. Na verdade, a palavra grega que se traduz por virtude, arete, derivava de Ares, o deus da guerra. O nosso termo virtude procede da tradução latina de arete - virtus, que significa a qualidade de varão. Uma pessoa virtuosa, na filosofia de Aristóteles, era uma pessoa que possuísse coragem física, competência técnica e virtuosidade mental. A essas três qualidades, acrescenta agora, Aristóteles, um quarto requisito para a felicidade - a nobreza moral. Essa excelência completa, portanto, era preciosa ao «guerreiro feliz» de Aristóteles no campo da batalha da vida.

(...) O homem ideal, o cavalheiro aristotélico, «não se expõe necessariamente ao perigo mas está preparado, por ocasião das grandes crises, para dar a própria vida, se preciso for. Sente prazer em fazer favores a outros homens, mas envergonha-se quando outros homens lhe fazem favores, pois, como é indício de superioridade prestar um obséquio, assim o é de inferioridade recebê-lo.


Estátua de Aristóteles

(...) O retrato do cavalheiro ateniense é, na realidade, o auto-retrato de Aristóteles. Delicado, imperturbável e sábio, continuou a apontar aos seus semelhantes o caminho médio da segurança, situado entre a temeridade da conquista, de um lado, e a covardia da submissão, do outro. Mas os tempos não se encontravam predispostos a prestar ouvidos à sabedoria. Acusaram Aristóteles de ser um espião a favor dos Macedónios. Não lhes esquecera o facto de ter sido o preceptor de Alexandre. Quanto ao próprio Alexandre, também se tornara hostil a Aristóteles. A sabedoria e a guerra eram dois inimigos irreconciliáveis. A moderação, a calma - uma doutrina perigosa de mais para ser ouvida entre os estrondos das armas conquistadoras. Alexandre já matara Calístenes, sobrinho de Aristóteles. Seria mais seguro para Alexandre, se Aristóteles também pudesse ser posto fora do caminho».

Henry Thomas e Dana Lee Thomas («Vidas de Grandes Filósofos»).







Alexandre, o Grande, atingira o auge da glória.

Rei da Macedónia, submetera os gregos e vencera os persas, dobrara o Egipto, transpusera o Eufrates, atravessara o Tigre e chegara ao Indo, tomara Persépolis e a Babilónia, sem nunca enfraquecer nem submeter-se.

A sua reputação estendia-se do Oriente ao Ocidente, mundos do seu duplo poder. As suas legiões haviam enfrentado e vencido muitos povos, e a sua omnipotência estava solidamente estabelecida na Terra. Ele conhecera tudo: das maiores vitórias às mais imensas riquezas.

E como fora aluno de Aristóteles, estava impregnado de educação e inteligência.

Um dia, numa das suas marchas, atingiu o pôr-do-sol, parou e montou acampamento. De seguida, pediu então que chamassem um sábio para o instruir ainda mais. Mandou procurar um mestre que pudesse transmitir-lhe o conhecimento que ele, embora imperador, ainda não possuía. Pois era só com saber que ele poderia continuar a ser Alexandre, o Grande.

Alguns dos seus homens, indicaram-lhe um mestre de sabedoria superior, um eremita que vivia nos confins das falésias. Outros afirmavam que ele era louco.

Alexandre, que só acreditava nas suas obras, quis tirar as suas próprias conclusões e mandou chamá-lo. Mas o eremita não pretendia sair da sua gruta.

O mensageiro insistiu, chegou mesmo a ameaçá-lo lembrando que o grande Alexandre tinha o poder supremo, pois era o rei dos dois mundos.




O sábio, porém, não se impressionou, e respondeu que não precisava de obedecer àquele imperador do qual não dependia, acrescentando ainda que ele era o senhor daquele de quem o rei Alexandre era servidor. E como ele era o senhor, não pretendia ser incomodado por um servidor

Quando o rei Alexandre ouviu tais palavras reproduzidas pelo mensageiro, ficou deveras enfurecido, e achou que o homem era no mínimo louco ou ignorante. Como ousava dizer que ele era servidor e recusar-se a falar com ele, que era amigo de Deus? Ninguém jamais tivera a insolência de chamá-lo servidor. Nenhum poderoso, rei ou sultão, nem mesmo um simples súbdito tivera a inconsciência de tratá-lo deste modo:

- Ilustre Majestade, Imperador supremo, correste os dois mundos em busca de imortalidade por causa de um desejo violento, do qual te tornaste escravo, servidor.

Com todas as tuas legiões e os teus exércitos valentes, venceste todos os continentes por desejo de poder e por cupidez. Agora queres também encontrar a fonte da vida. O teu coração só se satisfaz com a cupidez e o desejo: não passas de um servidor, pois temes perder a vida e os teus tesouros. Mas, para ganhar os mistérios da vida, os bens materiais não te servirão. É o universo que precisas ganhar, mas acima de tudo, o universo da alma.

Por fim, Alexandre, o Grande, entendeu então que o homem não era louco, que era sábio, entre os sábios e imperador entre eles. E que tê-lo encontrado era, para Alexandre, naquela nova viagem, uma das suas maiores vitórias (in Karl Schmit, «O Elogio da Sabedoria», Padrões Culturais Editora, 2010, pp. 44-46).







domingo, 10 de março de 2013

A Batalha das Termópilas (ii)

Escrito por Heródoto de Halicarnasso 




«O espírito guerreiro predominava tanto nas instituições de Licurgo, que até as estátuas dos deuses estavam armadas. O culto de Ares (Marte), deus da guerra, tornou-se por vezes tão cruel, que chegaram a imolar-lhe vítimas humanas. Uma das orações que os espartanos dirigiam aos deuses era concebida nestes termos: dai-nos um espírito são num corpo são».

Fortunato de Almeida («Curso de História Universal»).


«Ares surge como o deus da Guerra por excelência. Representa o espírito do Combate, que se compraz com a carnificina e o sangue. (...) É representado com couraça e capacete, armado com o escudo, a lança e a espada. Tem uma estatura acima do normal e solta gritos terríveis. Combate quase sempre a pé, mas vemo-lo também em cima dum carro puxado por quatro corcéis. Acompanham-no deuses que fazem de seus escudeiros, Deimo e Fobo (o Medo e o Terror, que são seus filhos). Encontramo-lo também rodeado de Éris (a Discórdia ) e Énio.

Ares habita na Trácia, região semi-selvagem, de clima rude, rica em cavalos e invadida por povos guerreiros. É aí também que habita, pelo menos segundo uma tradição, o povo das amazonas, que são filhas de Ares. Na própria Grécia, prestam-lhe um culto particular em Tebas, onde o consideravam como o antepassado dos descendentes de Cadmo. Era lá, com efeito, que ele possuía uma fonte, guardada por um dragão, de quem era pai. Quando Cadmo, para realizar um sacrifício, quis tirar água desta fonte, o dragão tentou impedi-lo. Cadmo matou-o e, para expiar este crime, teve de servir Ares durante oito anos na qualidade de escravo. Mas, no fim deste prazo, os deuses casaram Cadmo com Harmonia, a Filha de Ares e de Afrodite».

Pierre Grimal («Dicionário da Mitologia Grega e Romana»).


«Esta noite, cearemos com Plutão».

Leónidas de Esparta


Traição de Efialtes


O monarca não sabia o que fazer perante aquele problema, quando um natural de Mélide, Efialtes, filho de Euridemo, se encontrou com ele; na esperança de que obteria uma importante recompensa, indicou a Xerxes a existência do caminho que, através da montanha, conduz às Termópilas, o que veio a causar a desgraça dos Gregos ali posicionados.





















Posteriormente, temendo os Lacedemónios, Efialtes fugiu para a Tessália; mas, apesar de se ter exilado, os Pilágoros puseram a sua cabeça a prémio, por ocasião de uma reunião dos Anfictiões nas Termópilas. Algum tempo depois, regressou a Anticira, onde foi assinado por Aténadas, um natural de Traquín. É verdade que o tal Aténadas matou Efialtes por outro motivo (...), mas nem por isso deixou de ser recompensado pelos Lacedemónios. Assim foi como, depois destes acontecimentos, morreu Efialtes.

Existe, contudo, outra versão (que tem a sua difusão), segundo a qual foram Onetes de Caristo, filho de Fanágoras, e Córdalo de Anticira quem facilitou ao rei a citada informação, permitindo aos Persas rodear a montanha. Mas, a meu ver, a dita versão não merece credibilidade nenhuma. Primeiro, há que ter em conta que, na Grécia, os Pilágoros não puseram as cabeças de Onetes e Corídalo a prémio, mas a de Efialtes de Traquín e, sem dúvida, que deviam de estar informados com absoluta precisão. Por outro lado, sabemos que Efialtes fugiu devido a esta acusação. É certo que, apesar de não ser natural de Mélide, Onetes podia conhecer o caminho em questão, mas, como foi Efialtes quem guiou os Persas pelo caminho que rodeia a montanha, a responsabilidade é-lhe atribuída.


(...) O grosso das tropas abandona as Termópilas


Aos Gregos que se encontravam nas Termópilas, o primeiro a dizer-lhes que estavam destinados a morrer ao raiar o dia foi o adivinho Megístias, pois tinha-o visto nas entranhas das vítimas; posteriormente, houve também uns desertores, que os informaram da manobra envolvente dos Persas (esses indivíduos deram o alarme quando ainda era de noite); ao passo que, em terceiro lugar, foram advertidos, quando já amanhecia, pelos vigias que desceram os cumes a correr.


Os Gregos estudaram, então, a situação e os seus pareceres discordaram: uns negavam-se a abandonar a posição, enquanto outros se opunham a esse plano. Finalmente, os efectivos gregos separaram-se e enquanto uns se retiraram, dispersando-se em direcção às suas respectivas cidades, outros mostraram-se dispostos a ficar ali com Leónidas.

Conta-se também que foi o próprio Leónidas que, preocupado perante a possibilidade de que perdessem a vida, lhes permitiu que fossem embora, ao passo que a ele e aos Espartanos que o acompanhavam, a hora impedia que abandonassem a posição que estavam a defender. A título pessoal, subscrevo inteiramente essa versão; quando Leónidas se apercebeu do desânimo que reinava entre os aliados e da sua nula disposição para partilhar o perigo com os Lacedemónios, ordenou-lhes que retirassem, considerando, em contrapartida, que para ele constituía uma ofensa ir-se embora; além disso, se permanecesse no seu posto, deixaria uma fama gloriosa da sua pessoa e a prosperidade de Esparta não seria aniquilada.

Acontece que, por ocasião de uma consulta que, a propósito daquela guerra, os Espartanos realizaram, assim que o conflito estalou, a resposta que receberam dos lábios da Pítia foi que Lacedemón seria devastada pelos Bárbaros, ou que o seu rei morreria. Essa resposta foi ditada aos Lacedemónios em versos hexâmetros e rezava assim:


Olhai, habitantes da extensa Esparta,
Ou a vossa poderosa e exímia cidade é arrasada
pelos descendentes de Perseu ou não o é; mas, nesse caso,
a terra de Lacedemón chorará a morte de um rei da estirpe de Héracles.
Pois ao invasor não o deterá a força dos touros
ou dos leões, já que possui a força de Zeus. Proclamo,
enfim, que não se deterá até ter devorado um ou outro até aos ossos.



O que creio, definitivamente, é que Leónidas, reflectindo sobre o conteúdo deste oráculo, e com vontade de que a glória fosse património exclusivo dos Espartanos, permitiu que os aliados fossem embora, evitando assim que o fizessem pela sua disparidade de critérios, ou com tamanha indisciplina.

Além disso, existe, a meu ver, uma prova, e bastante concludente, sobre este caso particular. Trata-se da seguinte: é bem sabido que Leónidas, a fim de evitar a morte do adivinho que acompanhava aquela expedição, pediu ao acarnânico Megístias (que, segundo contam, descendia de Melampo) que também ele partisse; Megístias que fora precisamente quem, depois de examinar as entranhas das vítimas, lhe anunciara a sorte que os esperava. Contudo, apesar de ter autorização para partir, o adivinho negou-se a abandoná-los, ainda que tenha pedido ao único filho que tinha, e que se encontrava entre os expedicionários, para o fazer.

Os aliados que receberam autorização para partir empreenderam, pois, o caminho de regresso, de acordo com as indicações de Leónidas; os Téspios e os Tebanos foram os únicos que permaneceram ao lado dos Lacedemónios. De ambos os contingentes, os Tebanos ficaram à força (isto é, contra a sua vontade), pois Leónidas retinha-os na qualidade de reféns; em contrapartida, os Téspios fizeram-no com absoluta liberdade; negaram-se a abandonar Leónidas e os seus homens, pelo que permaneceram na posição, encontrando a morte juntamente com os Espartanos (a propósito, à frente dos Téspios figurava Demófilo, filho de Diádromes).


Vitória persa


Entretanto, quando o sol raiou, Xerxes efectuou umas libações e, depois de aguardar um certo tempo - mais ou menos até à hora em que a ágora se vê concorrida -, iniciou finalmente o seu ataque (pois era, precisamente, o que Efialtes lhe recomendara, já que se precisava de menos tempo para descer a montanha, e o trecho para salvar era muito mais curto, do que para a subir, rodeando-a).




Os Bárbaros de Xerxes lançaram-se, pois, ao assalto e, naquele instante, os Gregos de Leónidas, como pessoas que iam ao encontro da morte, aventuraram-se, muito mais do que nos primeiros combates, a sair da zona mais larga do desfiladeiro. Durante os dias precedentes, como o que se defendia era o muro que protegia a posição, tinham-se limitado a realizar tímidas saídas e a combater nas zonas mais estreitas. Mas, naquele momento, travaram combate fora da passagem e os Bárbaros sofreram elevadas baixas, pois, situados atrás das suas unidades, os oficiais, apetrechados com chicotes, chicoteavam toda a gente, obrigando os seus homens a prosseguir o seu avanço sem cessar. Daí que muitos soldados tenham caído ao mar, perdendo a vida, e muitíssimos mais tenham perecido, ao serem pisados vivos pelos seus próprios camaradas; contudo, ninguém se preocupava com aqueles que sucumbiam. Os Gregos, como sabiam que iam morrer devido à manobra envolvente dos Persas pelas montanhas, empregaram, com um furor temerário, todas as energias que lhes restavam.

Chegou, finalmente, um momento em que a maioria deles já tinha as lanças partidas, mas continuaram a matar os Persas com as suas espadas. No decurso desta gesta, caiu Leónidas, depois de um heróico comportamento e, juntamente com ele, outros destacados Espartanos, cujos nomes consegui averiguar, já que foram personagens dignas de memória; também consegui averiguar, na sua totalidade, os nomes dos trezentos.

Como é natural, ali também caíram muitos Persas de renome, entre os quais, concretamente, se contavam os filhos de Dario, Abrócomas e Hiperantes, nascidos da relação do monarca com a filha de Ártanes, Fratagune. (Ártanes era irmão do rei Dario, filho de Histapes e neto de Ársames; e, quando deu a mão da sua filha a Dario, dotou-a com a totalidade do seu território, dado que a rapariga era a sua única descendente).




Como digo, ali caíram em combate dois irmãos de Xerxes. [Também] por causa do cadáver de Leónidas se suscitou uma violenta luta entre Persas e Lacedemónios, até que os Gregos, graças à sua valentia, conseguiram apropriar-se dele e em quatro ocasiões obrigaram os seus adversários a retroceder.

Essa fase da batalha prolongou-se, até que se apresentaram os Persas que iam com Efialtes; pois, quando os Gregos se aperceberam que os ditos efectivos tinham chegado, a luta mudou radicalmente de aspecto: os Gregos bateram em retirada até à zona mais estreita da passagem e, depois de ultrapassarem o muro, foram posicionar-se sobre a colina, todos juntos, à excepção dos Tebanos. (A colina está à entrada, onde actualmente se situa o leão de mármore, erguido em honra de Leónidas). No dito lugar, defendiam-se com adagas, aqueles que tinham a sorte de as conservar em seu poder; e até com as mãos e com os dentes, até que os Bárbaros os sepultaram debaixo de uma chuva de projécteis, já que uns se lançaram em sua perseguição e, depois de derrubarem o muro que protegia a posição, os fustigaram de frente, ao passo que outros, depois da manobra envolvente, os acossavam por todo lado.


Os Gregos mais destacados. Diéneces


Apesar desse ser o comportamento dos Lacedemónios e dos Téspios, assegura-se, contudo, que o guerreiro mais destacado foi o espartano Diéneces. Segundo contam, esse indivíduo pronunciou, antes dos Gregos travarem combate com os Medos, a seguinte frase: ouvi um traquínio dizer que, quando os Bárbaros disparavam os seus arcos, tapavam o sol, tamanha era a quantidade das suas flechas (tão elevado era o seu número) e, sem alterar ou conceder a menor importância ao enorme potencial dos Medos, respondeu, dizendo que a notícia que o amigo traquínio lhes dava era francamente boa, tendo em conta que, se os Medos tapavam efectivamente o sol, teriam de combater o inimigo à sombra e não em pleno sol. Esta frase e outras do mesmo teor são, segundo contam, as provas que o lacedemónio Diéneces deixou da sua personalidade.

Os que mais se destacaram depois dele foram, segundo dizem, dois irmãos lacedemónios, Alfeu e Máron, filhos de Orsifanto. E, no que se refere aos Téspios, quem mais sobressaiu foi um indivíduo, cujo nome era Ditirambo, filho de Harmátides.



Epitáfios em honra dos caídos


Os Gregos foram sepultados no mesmo lugar onde caíram, tal como aqueles que, autorizados por Leónidas a fazê-lo, acabaram por morrer antes de se retirarem; e sobre as suas tumbas figurava uma inscrição, que rezava assim:


Aqui lutaram certo dia, contra três mil,
Quatro mil homens vindos do Peloponeso.


Como digo, esta inscrição faz referência à totalidade dos caídos, ao passo que aos Espartanos, em particular, se refere esta outra:

Caminhante, vai e conta aos Lacedemónios que aqui jazemos
Obedientes às suas ordens.

 
Este epitáfio, refere-se aos Lacedemónios; e este outro ao adivinho:


Este é o sepulcro do célebre Megístias (que um certo dia,
os Medos mataram, depois de atravessarem o rio Esperqueu),
um adivinho que, ainda que soubesse que naquele
momento as Keres espreitavam,
se negou a abandonar os guias dos soldados de Esparta.


Foram os Anfictiões que honraram os caídos com epitáfios e estelas, com excepção do epitáfio em homenagem ao adivinho, mandado gravar por Simónides, filho de Leóprepes, devido aos vínculos de hospitalidade que os uniam.


Espartanos sobreviventes



É verdade que, segundo contam, dois dos trezentos espartanos, Éurito e Aristodemo, podiam - se tivessem chegado a acordo - ter escapado, voltando juntos para Esparta (pois tinham sido autorizados por Leónidas a abandonar o acampamento e encontravam-se em Alpeno, acossados por uma grave doença ocular), ou então - se não queriam regressar à sua pátria - ter morrido com os seus camaradas. Esses dois indivíduos, insisto, podiam ter adoptado uma ou outra determinação, mas não conseguiram chegar a um acordo; e além disso, a sua decisão foi bem diferente: enquanto Éurito, ao aperceber-se da maneira envolvente dos Persas, pediu as suas armas, pô-las e ordenou ao seu hilota que o levasse de novo ao campo de batalha (depois de o conduzir ao palco das operações, o guia fugiu, mas ele lançou-se à luta, perdendo a vida), Aristodemo, pela sua parte, acobardou-se e ficou onde estava.

Pois bem, se Aristodemo tivesse regressado a Esparta, por ter padecido sozinho a doença, ou se tivessem regressado os dois juntos, sou de opinião de que os Espartanos não teriam manifestado indignação alguma relativamente a ambos. Mas o caso é que, como um deles tinha morrido e o outro, apesar de se encontrar na mesma situação, não quisera arriscar a vida, os Espartanos não tiveram outro remédio, senão irritarem-se muito com Aristodemo.

Definitivamente, uns pretendem - esgrimindo o dito pretexto - que foi assim que Aristodemo se salvou, regressando a Esparta. Outros, em contrapartida, asseguram que foi encarregado de levar uma mensagem fora do acampamento e que teve oportunidade de tomar parte na batalha; mas não o quis fazer, entretendo-se no caminho, para salvar a vida, ao passo que o seu companheiro de missão chegou a tempo para a batalha e encontrou a morte.


No seu regresso a Lacedemón, Aristodemo sofreu desonra e humilhação. As mostras de discriminação que teve de suportar foram as seguintes: nenhum espartano lhe dava fogo, ou lhe dirigia a palavra e, como demonstração de desprezo, recebeu a alcunha de Aristodemo «o Tremeliques». Contudo, na batalha de Plateias, reparou por completo a falta que se lhe imputava.

Segundo contam, houve também outro espartano, integrante do contingente de trezentos (o seu nome era Pantitas), que foi encarregado de levar uma mensagem a Tessália e que, por isso, conservou a vida. Contudo, quando esse indivíduo regressou a Esparta, devido à descriminação de que era vítima, enforcou-se.


 (...) Profanação do cadáver de Leónidas


(...) Xerxes passou por entre os cadáveres e, como ouvira dizer que Leónidas era o rei e o chefe dos Lacedemónios, mandou que lhe cortassem a cabeça e que a cravassem num pau. Para mim é evidente, por muitas provas e especial e concretamente por esta, que, de entre todos os seres humanos, Leónidas foi a pessoa, em vida, que mais irritou o rei Xerxes; pois, caso contrário, o monarca jamais teria ordenado que se ultrajasse o seu cadáver dessa maneira, já que os Persas são, que eu saiba, as pessoas que mais costumam honrar os soldados valorosos. Como é natural, aqueles que receberam a ordem cumpriram a sua obrigação (in ob. cit., pp. 150-151 e 153-161).