Escrito por Ortega y Gasset
Para
nós, nascidos e educados numa época que participa deste modo de sentir,
parece-nos uma coisa muito natural, a mais natural e discreta, que, entre os
modos de conhecimento, se conceda primazia ao que, seja qual for como teoria,
nos proporcione o domínio prático sobre a matéria. Mas, embora nascidos e
educados naquela época, um ciclo novo começa em nós, dado que já não nos
contentamos com esse primeiro ímpeto que nos faz ver tão natural a utilização
prática como norma da verdade. Pelo contrário, começamos a apercebermo-nos de
que esse empenho de dominar a matéria e torná-la conveniente, de que esse entusiasmo
pelo confort é, se se faz dele um
princípio, tão discutível como qualquer outro. E, postos em alerta por esta
suspeita, começamos a ver que o confort
é simplesmente uma predilecção subjectiva – dito grosso modo, um capricho – que a humanidade ocidental tem desde há
duzentos anos, mas que, por si só, não revela nenhuma superioridade de
carácter. Há quem prefira o que é confortável a tudo o mais; há quem não lhe dê
a maior importância. Enquanto Platão meditava nos pensamentos que tornaram
possível a física moderna e, com ela, o confort,
levava, como todos os gregos, uma vida muito dura e, quanto a utensílios,
veículos, aquecimento e equipamento doméstico, verdadeiramente bárbara. Na
mesma data, os chineses, que nunca tiveram um pensamento científico, que jamais
discorreram uma teoria, fabricavam tecidos deliciosos e objectos de uso
corrente e construíam artefactos de magnífico confort. Enquanto em Atenas a academia platónica inventa a
matemática pura, em Pequim inventa-se o lenço de assoar. Saiba-se, pois, que o
anseio de ter conforto, última ratio
de preferência para a física, não é um índice de superioridade. Sentiram-no uns
tempos e outros não. Todo aquele que
sabe olhar o nosso com um olhar um pouco penetrante supõe prever que vai
entusiasmar-se mediocremente como o imperativo da comodidade. Vai usar esta,
cuidar dela, conservar a já conseguida e procurar aumentá-la, mas – justamente
– sem entusiasmo e não por ela própria, mas por poder dedicar-se a exercícios
incómodos.
Dado
que o anseio de confort não é sem
mais sinal de progresso, mas aparece na história repartido, como ao acaso,
sobre épocas de altitude muito diferente, seria um tema curioso para o curioso
averiguar em que coincidem estas; ou, dito de outro modo: que condição humana
costuma levar a essa devoção pelo que é cómodo. Ignoro qual seria o resultado
desta pesquisa. Somente de passagem, sublinho esta coincidência: os dois
lugares históricos que deram maior atenção ao confort foram esta última bicentúria europeia e a civilização
chinesa. Que há de comum entre esses dois orbes humanos tão diferentes, tão
díspares? Que eu saiba, somente isto: nessa época europeia reinou o “bom
burguês”, o tipo de homem que representa a vontade da prosa, e, por outra
parte, o chinês é notoriamente o filisteu nato; diga-se isto ao acaso, sem
insistência nem formalidade nenhumas [Sobre o filisteísmo dos chineses veja-se
o que diz Keyserling no Diário de Viagem
de um Filósofo].
Sucede
que o filósofo da burguesia, Augusto Comte, exprimirá o sentido do conhecimento
com a sua conhecida fórmula: Science,
d’oú prévoyance; prévoyance, d’oú action. Isto é: o sentido do saber é o
prever, e o sentido do prever é tornar possível a acção. Daí resulta que a
acção – entende-se vantajosa – é que define a verdade do conhecimento. E, com
efeito, já nos fins do século passado um grande físico, Boltzmann, disse: “Nem
a lógica, nem a filosofia, nem a metafísica decidem em última instância se algo
é verdadeiro ou falso, mas unicamente o decide a acção. Por este motivo, não
considero as conquistas da técnica como simples precipitados secundários da
ciência natural, mas como provas lógicas desta. Se não tivéssemos proposto a
nós próprios essas conquistas práticas, não saberíamos como devemos raciocinar.
Não há outros raciocínios correctos além dos que têm resultados práticos”. No
seu Discurso sobre o espírito positivo
o mesmo Comte tinha já sugerido que a técnica rege a ciência, e não ao
contrário. Segundo este modo de pensar não é, pois, a utilidade um precipitado
imprevisto e como uma gratificação da verdade, mas ao contrário: a verdade é o
precipitado intelectual da utilidade prática. Pouco tempo depois, nos alvores
pueris do nosso século, este pensamento tornou-se uma filosofia: o pragmatismo.
Com o simpático cinismo próprio dos "yankees“", próprio de todos os
povos novos – um povo novo, por pouco bem que lhe fique, é um enfant terrible –, o pragmatismo norte-americano atreveu-se a proclamar esta tese: “Não há outra verdade senão o bom
êxito do tratamento das coisas”. E com esta tese, tão audaz como ingénua, tão
ingenuamente audaz, ingressou na história milenária da filosofia o lóbulo norte
do continente americano [Com o qual insinuo que no pragmatismo, ao lado da
audácia e da sua ingenuidade, há algo profundamente verdadeiro, embora centrifugado].
Não
se confunda a escassa estima que merece o pragmatismo como filosofia e tese
geral com um desdém preconcebido, arbitrário e beato para com o facto do
praticismo humano, em benefício da pura contemplação. Aqui tentamos torcer o
pescoço a toda a beatice, inclusive à beatice científica e cultural que se
extasia diante do puro conhecimento sem dele fazer uma questão dramática. Isto
separa-nos radicalmente dos pensadores antigos – de Platão como de Aristóteles
– e há-de constituir um dos temas mais graves da nossa meditação. Ao descer-se
ao problema decisivo que é a definição da «nossa vida», trataremos de fazer uma
valente anatomia dessa perene dualidade que desdobra a vida em vita contemplativa e vita activa, em acção e contemplação, em
Marta e Maria.
Agora
pretende-se unicamente insinuar que o triunfo imperial da física não se deve
tanto à sua qualidade enquanto conhecimento como a um facto social. A sociedade
interessou-se pela física devido à sua fecunda utilidade e este interesse
social hiperatrofiou durante um século a confiança que em si mesmo tem o
físico. Aconteceu-lhe, em geral, o que acontece com o médico. Ninguém
considerará a medicina como um modelo de ciência; contudo, o culto que nas
casas dos enfermiços se dedica ao médico (como outrora ao mago) proporciona-lhe
uma segurança no seu ofício e pessoa, uma audácia impertinente tão engraçada
como pouco fundada na razão, porque o médico usa, maneja os resultados de umas
ciências, mas não costuma ser, nem pouco nem muito, um homem de ciência, uma
alma teórica.
A
boa sorte, o favor do ambiente social costuma tornar-nos exagerados, faz-nos
petulantes e agressivos. Isto aconteceu ao físico, e por isso a vida
intelectual da Europa padeceu durante quase cem anos o que poderia chamar-se o "terrorismo dos laboratórios".
Sobrecarregado
por tal predomínio, o filósofo envergonhou-se de o ser; isto é, envergonhou-se
de não ser físico. Como os problemas genuinamente filosóficos não toleram ser
resolvidos de acordo com o modo de conhecimento físico, renunciou a atacá-los,
renunciou à sua filosofia reduzindo-a a um mínimo, pondo-a humildemente ao
serviço da física. Decidiu que o único tema filosófico era a meditação sobre o
próprio facto da física, que filosofia era somente teoria do conhecimento. Kant
é o primeiro que de forma radical adopta tal atitude, não se interessa
directamente pelos grandes problemas cósmicos, mas com um gesto de polícia
urbano detém circulação filosófica – vinte e seis séculos de pensamento
metafísico – dizendo: "Fique suspenso todo o filosofar enquanto não se responder a esta pergunta: – como são
possíveis os juízos sintéticos a priori?" Pois bem: os juízos sintéticos a priori
são para ele a física, o faktum da
ciência físico-matemática.
Mas a colocação destes problemas não era nem teoria do conhecimento. Partia do conhecimento físico já feito, e não perguntava: o que é o conhecimento?»
Ortega y Gasset («O que é a Filosofia»).
«Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger são os dois pensadores mais representativos do
nosso tempo. Mais representativos porque são os que mais resistem à desolação
do mundo mas fazendo condição da sua resistência compreender e conhecer a
essência e explicar as razões da desolação.
Também
os mais representativos pelas suas convergências e divergências. Ambos concordam
que o mundo é o que for o pensamento que há nele ou o destino que a filosofia
deu ao pensamento. Ambos concordam que filosofia e metafísica são o mesmo e
que, como diz Leonardo, “toda a filosofia é re-actualização do platonismo” ou,
como prefere dizer Heidegger, que “toda a filosofia é uma construção do
platonismo”. Mas aqui, nesta diferença entre re-actualização e construção se abre
profunda divergência quanto à resistência à desolação.
É
que, segundo Leonardo, a desolação, com seu império da técnica e seu
igualitarismo totalitário ou, simplesmente, com a técnica e o totalitarismo,
resulta de um desvio, portanto de uma não-actualização, do platonismo. Pelo contrário,
resulta ela, segundo Heidegger, da mais estrita e indesviável fidelidade da
filosofia ao platonismo que, desde seu princípio, trazia consigo a técnica e o
totalitarismo – Heidegger diz também “o nihilismo” – como sua finalidade hoje
aí patente na desolação do mundo.
A
posição de Leonardo é a de corrigir o desvio que se deu, assumir o platonismo e
proceder à sua re-actualização porque a actualização é a que originariamente
Platão lhe deu.
A
posição de Heidegger é a de proceder à des-construção
da filosofia ou metafísica que o platonismo construiu e a desconstrução
consistirá em, a partir da essência da técnica, do seu império, recorrer o
percurso bi-milenário da metafísica até à origem em que o platonismo lhe deu
começo para aí, na origem, encontrar outro começo do pensamento.
(...)
É fácil ver na posição de Leonardo, uma posição por assim dizer tradicional e
conservadora, sem qualquer sedução portanto para as doutrinas de devastação
intelectual instaladas na desolação do mundo. A todas igualmente refuta, com
paciente e sábia demora na [posição] do cientismo, com seu prolongamento triunfalista
no positivismo, e na do igualitarismo totalitário cujas potencialidades de
expressão universal teve presentes no império comunista russo. São, aliás,
essas, como para Heidegger, as duas faces mais vastas e patentes do mundo
desolado.
Leonardo,
morto em 1936, não assistiu à implosão, que a sua descrição tinha implícita, do
império comunista russo nem já à catástrofe da guerra mundial, preâmbulo da expansão
universal da técnica a partir do império tecnológico americano.
Heidegger,
morto em 1976, só não assistiu à implosão do império comunista que, aliás,
tinha por menos ameaçador do que o “império planetário da técnica”, pois sem os
apoios técnicos, sobretudo os da cibernética e da biogenética, não há
igualitarismo que perdure e se expanda.
Compreende-se
que Leonardo tenha dedicado mais directa atenção ao igualitarismo totalitário
sem lhe fazer, como os intelectuais do tempo – “Nesse tempo todos éramos de algum
modo marxistas” [Didier Eribon, Michel
Foucault, ed. cit. O autor indicou ser uma citação desta obra mas não a
encontrámos.] – qualquer espécie de concessões ou atitudes de cuidadosa
indiferença. Mas é preciso reconhecer que foi à explicação da técnica, sua
formação e seu predomínio na ciência, que, embora em textos dispersos, dedicou
a sua mais operosa capacidade de compreensão crítica e refutação com
conhecimentos científicos muito mais minuciosos do que os de Heidegger.
Vendo,
porém, na técnica, mais propriamente na tecnologia, o resultado do desvio do
platonismo, isso torna manifesta a sua divergência de Heidegger, que vê nela a
mesma essência do platonismo.
Ora,
um desvio corrige-se, e ao mesmo tempo que observa como a tecnologia é o
alimento do cientismo, quer dizer, da convicção exuberante e incrítica de estar
ao alcance cada vez mais próximo do conhecimento científico o domínio total das
forças naturais, Leonardo reconhece, e ele próprio se situa entre eles, a existência
nos meios científicos de uma crítica cada vez mais funda e certeira da mesma
ciência, dos seus fundamentos ou ausência de fundamentos e dos ínvios caminhos
por onde a tecnologia a conduz. Vê bem que a tecnologia é a técnica suficiente
de si pelo saber de si própria que confia aos espectaculares triunfos que
obtém, desprendida da ciência que a formou como Kant desprendeu a ciência da
metafísica que a fundou. Ao fim de uma longa admiração do kantismo, conclui,
decepcionado, que também Kant fora “uma vítima do cientismo”. E espera que uma
nova epistemologia corrija o desvio que a ciência sofreu, expectativa que
contrasta com o desespero de Heidegger.
Quando
observarmos em que consiste o desvio que Leonardo denuncia na ciência,
encontrar-nos-emos mais próximos do que há de essencial e original no seu
pensamento filosófico. Convém, antes, ver como e por quais razões a posição de
Heidegger perante a desolação do mundo obteve uma audiência que a de Leonardo
esteve infinitamente longe de alcançar e a obteve nas mesmas doutrinas de
devastação intelectual solidárias com a desolação do mundo. Uma razão, mais
geral, aparece desde logo. É que enquanto Leonardo contrapõe à desolação a
instituição da metafísica e do platonismo por ela segregados, Heidegger
preconiza o contrário e procede à “desconstrução” da metafísica e do
platonismo. Isso se afigurou, às doutrinas da devastação, condizente com elas,
autorizá-las e até justificá-las. E quando Heidegger afirma, por um lado, que “não
há filosofia chinesa nem filosofia hindu, mas só há filosofia europeia”, e, por
outro lado, que a civilização é um produto da filosofia, portanto que só há civilização europeia, isso afigura-se
justificar o que também ele observa: que a Europa está sendo esmagada entre o
império russo e o império tecnológico americano.
No pensamento de Heidegger se visam, assim, figurar justificações para os dois impérios que disputavam o domínio do mundo e, sobretudo, para as doutrinas de devastação intelectual de vários modos solidárias desses impérios.»
Orlando Vitorino («A Desolação do Mundo – Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger»).
«A
ciência é de origem grega e o idealismo realista dos Gregos era a prefiguração
e o esforço, a orientação no bom sentido, o pressentimento no pleno de aspiração
humana e no impossível dum Ideal, da Pessoa infinita, ou o desenho, em vazio
aspirante, do infinito do amor, ou seja, do Deus-Caridade.
A
ciência grega era contemplativa, um como querer platónico de escalada do mundo
inteligível, a anamnese platónica, a visão aristotélica dos princípios e das
formas.
Os
problemas científicos que nos legaram os Gregos mostram claramente o jeito
platónico do seu pensamento, como o da quadratura do círculo, o problema de
Delos, etc.
Não
eram as soluções que lhes interessavam, mas as soluções aristocráticas, dentro
do condicionalismo das suas exigências de beleza e desinteressada contemplação.
A ciência interessava essencialmente como ascese da alma, subindo ao mundo
inteligível, às formas e aos princípios.
O
escândalo dos irracionais (a incomensurabilidade de certas linhas descobertas
por Pitágoras), a ponto de aparecer a lenda de naufrágios em castigo de certas
inconfidências, mostra bem qual a exigência de ordem, harmonia e beleza que movia
os Gregos na procura da verdade.
A verdade e a sua magnífica existência coroava-se de resplendor, e esse resplendor era a beleza... Beleza, verdade e bem eram as estrelas zenitais de toda a cultura helénica.»
Leonardo Coimbra («A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre»).
«A civilização europeia – repeti mais de uma vez – produziu automaticamente a rebelião das massas. No seu anverso, o facto desta rebelião apresenta um cariz óptimo; já o dissemos: a rebelião das massas e o crescimento fabuloso da vida humana no nosso tempo são precisamente a mesma coisa. Mas o reverso do mesmo fenómeno é tremebundo; vista por essa face, a rebelião das massas identifica-se totalmente com a desmoralização radical da humanidade.»
Ortega y Gasset («A Rebelião das Massas»).
«A história de cada nação europeia é hoje uma história de renúncia. A Europa perdida do seu destino, já não fala dos heróis necessários. Renunciando a si própria, ela aponta-nos os fantasmas dos seus mártires supérfluos».
Luís Furtado (Prefácio in Oswald Spengler, «O Homem e a Técnica»).
«Somente
no séc. XIX surgiu o problema da técnica e da sua relação com a Cultura e a
História. O século XVIII, com o seu cepticismo fundamental, com a dúvida que
manifesta o desespero, tinha levantado a questão do sentido e valor da Cultura,
questão que conduziu a problemas cada vez mais perturbantes. Assim se criaram
as bases para que o séc. XX viesse a encarar a História Universal como um
problema.
Nesse
mesmo séc. XVIII, época de Robinson Crusoé e de Rousseau, dos parques ingleses,
da poesia bucólica, considerava-se o homem “primitivo” como uma espécie de
cordeiro pacífico e virtuoso, que a cultura viera depois arruinar e perverter.
Quanto à técnica, era omitida, quando muito, confrontada com os valores morais,
era considerada indigna de qualquer atenção.
No
entanto, após Napoleão, a técnica mecânica da Europa Ocidental cresceu a
proporções gigantescas. Com as suas cidades industriais, as suas vias férreas,
os seus navios a vapor, obrigou-nos a enfrentar o problema com seriedade. Qual
o significado da técnica? Que sentido tem na História, que valor assume na vida
do homem, qual o seu conteúdo moral ou metafísico? Muitas foram as respostas
dadas a estas questões, mas poderemos reduzi-las fundamentalmente a duas.
Por
um lado, os idealistas e os ideólogos, epígonos do classicismo humanista do
tempo de Goethe, desprezavam as realidades técnicas e os assuntos económicos,
considerando-os exteriores ou, melhor dizendo, inferiores à “cultura”. Graças
ao seu magnífico sentido do real, Goethe havia tentado, na segunda parte do seu
Fausto, sondar o mais profundamente possível esse novo mundo imposto pelos
factos. Mas logo nasce, com Guilherme Humboldt, uma certa concepção da
história, afastada das realidades, segundo a qual o valor de uma época histórica
se definia em função da quantidade de livros e de quadros que nela eram
produzidos. E um chefe de Estado seria avaliado pela sua atitude em relação às
letras e artes, pouco contando o que de mais fizesse. O Estado era uma
perturbação permanente para a verdadeira cultura, que se ia concebendo em
reuniões de eruditos, em conferências e gabinetes de sábios e artistas. Custava
a crer que a guerra ainda pudesse subsistir, e a economia política, conquanto
dela se fizesse uso constante, não passava de tema prosaico, estúpido e
limitado. Mencionar um grande comerciante ou um engenheiro ilustre ao lado de
poetas e pensadores era um crime de lesa-majestade em relação à “verdadeira
cultura”. Podemos tomar como exemplo desta concepção a obra de Jacob Burckhardt,
Considerações sobre História Universal,
que expressa um representativo ponto de vista, adoptado pela maioria dos
filósofos de cátedra e muitos historiadores. Ele ainda é subscrito por aqueles
literatos e estetas contemporâneos que consideram a composição de um romance
mais importante que a concepção de um modelo de motor de avião.
Por
outro lado, florescia o materialismo, esse produto essencialmente inglês, a
grande moda dos semi-cultos da primeira metade do séc. XIX, dos folhetins
liberais e das assembleias radicais populares, dos escritores marxistas e ético-sociais
que se tinham por pensadores e oráculos.
Se
aos primeiros faltava o sentido da realidade, nos segundos estava ausente
qualquer sentido da profundidade, quebrando-se os seus ideais pela Utilidade.
Tudo o que fosse útil para a humanidade era um legítimo elemento da cultura,
era cultura. O resto não passava de luxo, superstição ou barbárie.
E
útil era então tudo o que servia para a “felicidade do maior número”. Esta
felicidade consistia em fazer o menos possível. Esta era, em última análise, a
doutrina de Bentham, Spencer e Mill. O objectivo da humanidade consistia em aliviar
o indivíduo de todo o trabalho possível, transferindo-o para a máquina. Assim se
dava a libertação da miséria, da “escravatura assalariada”, e se passava à
igualdade nos ócios, conforto e “deleite artístico”, era o anunciar de panem et circenses para as cidades
gigantes na sua fase de decadência. Os paladinos desta cultura entusiasmavam-se
com cada botão capaz de accionar uma máquina que parecia ir proporcionar “economia
de trabalho humano”. No lugar da autêntica religião de épocas passadas,
instala-se a obsessão pelas “conquistas da humanidade”, considerando como tais
conquistas exclusivamente os progressos da técnica, que poupavam trabalho e
permitiam o divertimento. Da alma, nem se falava.
Salvo
raras excepções, não eram, porém, tais os desejos dos grandes inventores, nem
sequer dos que conheciam bem os problemas técnicos, mas somente dos expectantes
em redor que, sendo incapazes de descobrir o que quer que fosse, ou até de
compreenderem minimamente do assunto anteviam, no entanto, possíveis benefícios
para os seus interesses pessoais. Com a falta de imaginação que sempre
caracterizou o materialismo de todas as civilizações, projectou-se uma imagem
do futuro, um estádio derradeiro e permanente da Humanidade, um Paraíso
terrestre, concebido na base das tendências da evolução técnica dos fins do
século XIX. E nem se atentou que tal projecção era contraditória com o conceito
de progresso, que exclui da sua compreensão qualquer situação estática... Livros
como A
antiga e nova fé de Strauss, Olhando
o passado de Bellamy e A mulher e o
socialismo de Bebel, são exemplo. Não mais as guerras, as distinções
rácicas, as diferenças entre povos, Estados, religiões, não mais os criminosos
ou aventureiros, nem os conflitos advenientes da superioridade de uns ou da
diferença de outros, nem o ódio ou a vingança; somente um interminável conforto
até à consumação dos séculos.
Tais
trivialidades não deixam de nos lembrar, ainda hoje, em que vivemos as últimas
fases desse optimismo vulgar, a repelente presença do tédio vital – taedium vitae – da Roma Imperial, que se
insinua nas almas pela simples leitura dessas bagatelas idílicas cuja
realização, ainda que parcial, na vida quotidiana, levaria inevitavelmente ao
assassínio e ao suicídio colectivo.
Qualquer
dos dois pontos de vista está hoje ultrapassado. No séc. XX atingiu-se a maturidade
que nos permite penetrar o sentido último dos factos, cuja totalidade compõe a
História Universal. Já não é possível interpretar as coisas e os eventos
segundo as preferências de quaisquer indivíduos ou massas, em função de
tendências racionalizantes ou de esperanças e desejos próprios. Em vez de
dizermos “isto deve ser assim”, impõem-se inexoravelmente o “isto é assim” e o “isto
será assim”. A digna constatação, o cepticismo consequente, vêm substituir o
sentimentalismo dos séculos anteriores. Acabámos por entender que a história
não é coisa que se possa fazer variar apenas segundo as nossas esperanças.
Como já disse [na Decadência do Ocidente, tomo I, Cap. II], a apreensão fisionómica é a única faculdade que nos permite penetrar o sentido dos eventos – é o olhar de Goethe, de todos os que conhecem os homens e a vida, que conhecem a História e contemplam os séculos – é esse olhar que descobre as implicações profundas de cada acontecimento particular».
Oswald Spengler («O Homem e a Técnica»).
«A
partir de Verdun, que os alemães baptizam de Batalha do Material (Materialschlacht), o paralelismo
instituído pela cavalaria entre as formas do amor e da guerra parece
dissolvido.
Sem
dúvida que o fim concreto da guerra foi sempre o de forçar a resistência inimiga,
destruindo as suas forças armadas. (Forçar a resistência da mulher pela sedução
é a paz; pela violação é a guerra). Mas não se destruía por isso a nação que se
desejava subjugar: bastava reduzir as suas defesas. Batalha organizada contra
um exército profissional, sítio das fortalezas, captura do chefe: um sistema de
regras precisas, portanto uma arte, designava o vencedor. E este vencedor
triunfava sobre algo vivo, um país ou
povo ainda desejáveis. A intervenção duma técnica desumana que mobiliza todas
as forças dum Estado mudou a face da guerra em Verdun.
Porque
a partir do momento em que a guerra se torna “total” – e já não apenas militar –
a destruição das resistências armadas significa o aniquilamento das forças
vivas do inimigo: operários mobilizados nas fábricas, mães que procriam soldados,
em suma, todos os “meios de produção”, coisas e pessoas equiparadas. A guerra
já não é uma violação mas um assassínio do objecto cobiçado e hostil – quer dizer,
um acto “total”, que destrói esse objecto em vez de se apoderar dele. Verdun,
de resto, não foi mais que um prólogo a essa guerra nova, pois que o processo se
limitou à destruição metódica dum milhão de soldados, não de civis. Mas esse
Kriegspiel permitiu o aperfeiçoamento dum instrumento que, posteriormente, se
viria a achar habilitado a operar em campos bem mais vastos, como Londres e
Berlim; já não apenas sobre a carne para canhões, mas sobre a carne que fabrica
os canhões, o que é evidentemente mais eficaz.
A técnica da morte a grande distância não encontra o seu equilíbrio em nenhuma ética imaginável do amor. É que a guerra escapa ao homem e ao instinto; volta-se contra a própria paixão de que nasceu. E é isso, não a envergadura dos massacres, que é novo na história do mundo.»
Denis de Rougemont («O Amor e o Ocidente»).
Primitivismo e Técnica
(...)
A rebelião das massas pode, com
efeito, ser transição para uma organização nova e sem paralelo da humanidade,
mas também pode ser uma catástrofe no
destino humano. Não há razão para negar a realidade do progresso, mas é preciso
corrigir a noção que julga este progresso seguro. Mais congruente com os factos
é pensar que não há nenhum progresso seguro, nenhuma evolução, sem a ameaça de
involução e retrocesso. Tudo, tudo é possível na história – tanto o progresso
triunfal e indefinido quanto a regressão periódica. Porque a vida, individual
ou colectiva, pessoal ou histórica, é a única entidade do universo cuja substância
é perigo. Compõe-se de peripécias. É, rigorosamente falando, drama.[1]
(...)
Em geral, a vida pública, sobretudo a política, requeria urgentemente uma
redução à autenticidade, e a humanidade europeia não poderia dar o salto
elástico que o optimista reclama dela se antes não se despe, se não aligeira
até à sua essencialidade, até coincidir consigo mesma. O entusiasmo que sinto
por esta disciplina de despojamento, de autenticidade, a consciência de que é
imprescindível para franquear a passagem para um futuro digno de estima faz-me
reivindicar plena liberdade de inventor face a todo o passado. É o porvir que
deve imperar sobre o passado, e dele recebemos a ordem para a nossa conduta
face a tudo quanto foi.[2]
Mas
é preciso evitar o maior pecado dos que dirigiram o século XIX: a consciência
defeituosa da sua responsabilidade que fez que não se mantivessem alerta e
vigilantes. Deixar-se deslizar pela vertente favorável que o curso dos
acontecimentos apresenta e insensibilizar-se à dimensão de perigo e mau cariz
que mesmo a hora mais jucunda possui é, precisamente, faltar à missão do
responsável. Hoje é mister incentivar uma hiperestesia de responsabilidade nos
que forem capazes de senti-la, e sublinhar o lado claramente funesto dos
sintomas actuais parece ser o mais urgente.
É
indubitável que, num balanço diagnóstico da nossa vida pública, os factores
adversos superam em muito os favoráveis, se o cálculo se fizer não tanto
pensando no presente quanto no que anunciam e prometem.
Todo o crescimento de possibilidades concretas que a vida conheceu corre o risco de se anular a si mesmo ao esbarrar com o problema mais pavoroso ocorrido no destino europeu e que de novo formulo: apoderou-se da direcção social um tipo de homem a quem não interessam os princípios da civilização. Não os desta ou daquela, mas – tanto quanto hoje se pode julgar – os de nenhuma. Interessam-lhe, evidentemente, os anestésicos, os automóveis e algumas coisas mais. Mas isto confirma o seu radical desinteresse pela civilização. Pois essas coisas são só produtos dela, e o fervor que se lhes dedica faz ressaltar mais cruamente a insensibilidade para os princípios de que nascem. Baste fazer constar este facto: desde que existem as nuove scienze, as ciências físicas – portanto, desde o Renascimento – o entusiasmo por elas tinha aumentado sem colapso ao longo do tempo. Mais concretamente: o número de pessoas que em proporção se dedicava a essas investigações puras era maior em cada geração. O primeiro caso de retrocesso – repito, proporcional – produziu-se na geração que hoje está entre os vinte e os trinta. Nos laboratórios de ciência pura começa a ser difícil atrair discípulos. E isto acontece quando a indústria alcança o seu maior desenvolvimento e quando as pessoas mostram mais apetite pelo uso de aparelhos e medicamentos criados pela ciência.
Se
não fosse prolixo, poderia demonstrar-se paralela incongruência na política, na
arte, na moral, na religião e nas áreas quotidianas da vida.
Que
significa para nós situação tão paradoxal? Este ensaio pretende ter preparado a
resposta a semelhante pergunta. Significa que o homem hoje dominante é um
primitivo, um Naturmensch emergindo
no seio dum mundo civilizado. O civilizado é o mundo, mas o seu habitante não o
é: nem sequer vê nele a civilização, mas faz uso dela como se fosse natureza. O
novo homem deseja o automóvel e desfruta dele, mas julga que é fruta espontânea
duma árvore edénica. No fundo da sua alma desconhece o carácter artificial,
quase inverosímil, da civilização, e não estenderá o seu entusiasmo pelos
aparelhos aos princípios que os tornam possíveis. Quando, mais acima,
transpondo umas palavras de Rathenau, eu dizia que assistimos à «invasão
vertical dos Bárbaros», pôde pensar-se – como é costume – que se tratava só
duma «frase». Agora vê-se que a expressão poderá enunciar uma verdade ou um
erro, mas que é o
contrário duma «frase», a saber: uma definição formal que condensa toda uma
análise complicada. O homem-massa actual é, com efeito, um primitivo que se
infiltrou pelos bastidores do velho cenário da civilização.
Hoje
fala-se a toda a hora dos progressos fabulosos da técnica; mas eu não vejo que
se fale, nem pelos melhores, com uma consciência suficientemente dramática do
seu porvir. O próprio Spengler, tão subtil e tão profundo – embora tão maníaco
–, me parece neste ponto demasiado optimista. Pois crê que à «cultura» se
sucederá uma época de «civilização», sob a qual entende sobretudo a técnica. A
ideia que Spengler tem da «cultura» e, em geral, da história é tão remota da
pressuposta neste ensaio, que não é fácil, nem mesmo para rectificá-las, trazer
aqui à colação as suas conclusões. Só a brincar sobre distâncias e precisões,
para reduzir ambos os pontos de vista a um denominador comum, se poderia
formular assim a divergência: Spengler crê que a técnica pode continuar a viver
quando já morreu o interesse pelos princípios da cultura. Eu não consigo
decidir-me a aceitar tal coisa. A técnica é consubstancialmente ciência, e a
ciência não existe se não interessar na sua pureza e por si mesma, e não pode
interessar se as pessoas não continuarem entusiasmadas com os princípios gerais
da cultura. Se este fervor se embota – como parece acontecer –, a técnica só
pode perdurar algum tempo, o que durar a inércia do impulso cultural que a
criou. Vive-se com a técnica, mas não da
técnica. Esta não se nutre nem se respira a si mesma, não é causa sui, mas precipitado útil,
prático, de preocupações supérfluas, impraticáveis.[3]
Vou,
pois, à advertência de que o actual interesse pela técnica não garante nada e,
menos do que nada, o próprio progresso ou a perduração da técnica. Está bem que
se considere o tecnicismo como um dos traços característicos da «cultura
moderna», quer dizer, duma cultura que contém um género de ciência, que resulta
materialmente aproveitável. Por isso, ao resumir a novíssima fisionomia da vida
instaurada no século XIX, eu ficava só com estas duas facções: democracia
liberal e técnica.[4]
Mas repito que me surpreende a ligeireza com que ao falar da técnica se esquece
que a ciência pura é a sua víscera cordial, e que as condições da sua
perpetuação involucram as que tornam possível o exercício científico puro. Já se pensou em todas as coisas que precisam de continuar em vigor nas
almas para que possa continuar a haver de verdade «homens de ciência»? Acredita-se
a sério que enquanto houver dólares haverá ciência? Esta ideia com que muitos
se tranquilizam não é senão mais uma prova de primitivismo.
Aí não é nada a quantidade de ingredientes, os
mais díspares entre si, que é mister reunir e agitar para obter o cocktail da ciência físico-química!
Mesmo contentando-se com a pressão mais débil e superficial do tema, ressalta
já o claríssimo facto de em toda a amplitude da Terra e na do tempo, a
físico-química apenas ter logrado constituir-se, estabelecer-se plenamente, no
breve quadrilátero descrito por Londres, Berlim, Viena e Paris. E, mesmo dentro
desse quadrilátero, só no século XIX. Isto demonstra que a ciência experimental
é um dos produtos mais improváveis da história. Magos, sacerdotes, guerreiros e
pastores pulularam de toda a forma e feitio. Mas esta fauna do homem
experimental, para que se produza, requer, pelos vistos, um conjunto de
condições mais insólito do que aquele que engendra o unicórnio. Facto tão
sóbrio e tão descarnado devia fazer reflectir um pouco sobre o carácter
supervolátil, evaporante, da inspiração científica.[5] Está
muito enganado quem pensar que, se a Europa desaparecesse, os Norte- Americanos
podiam continuar a ciência!
Importaria
muito tratar a fundo o assunto e especificar com toda a minúcia quais são os
pressupostos históricos vitais da ciência experimental e, consequentemente, da
técnica. Mas não se espere que, mesmo clarificada a questão, o homem-massa se
desse por esclarecido. O homem-massa não atende a razões e só aprende na sua
própria carne.
Uma observação impede-me de ter ilusões sobre a eficácia de tais prédicas que, à força de racionais, teriam de ser subtis. Não é demasiado absurdo que, nas circunstâncias actuais, o homem médio não sinta, espontaneamente e sem prédicas, fervor superlativo por aquelas ciências e suas congéneres, as biológicas? Porque, repare-se qual é a situação actual: enquanto, evidentemente, todas as outras coisas da cultura se tornaram problemáticas – a política, a arte, as normas sociais, a própria moral –, há uma que todos os dias comprova, da maneira mais indiscutível e mais própria para surtir efeito no homem-massa, a sua maravilhosa eficiência: a ciência empírica. Todos os dias se produz um novo analgésico ou vacina, de que esse homem médio beneficia. Toda a gente sabe que, se se triplicassem ou duplicassem os laboratórios, desde que não diminuísse a inspiração científica, multiplicar-se-iam automaticamente riqueza, comodidades, saúde, bem-estar. Pode imaginar-se a propaganda mais formidável e contundente em prol de um princípio vital? Porque é que, apesar disso, não há vestígio de que as massas se peçam a si mesmas um sacrifício de dinheiro e de atenção para dotar melhor a ciência? Longe disto, o pós-guerra transformou o homem de ciência no novo pária social. E que conste que me refiro a físicos, químicos, biólogos – não aos filósofos. A filosofia não precisa de protecção, nem de atenção. Nem de simpatia da massa. Cuida o seu aspecto de perfeita inutilidade[6], e com isso se liberta de toda a sujeição ao homem médio. Conhece-se a si mesma como problemática por essência e, alegre, abraça o seu destino de ave do bom Deus, sem pedir a ninguém que conte com ela, nem recomendar-se, nem defender-se. Se a alguém aproveitar para alguma coisa, regozija-se por simples simpatia humana; mas não vive desse proveito alheio, nem o premedita, nem o espera. Como vai ela pretender que alguém a tome a sério, se ela começa por duvidar da sua própria existência, se não vive mais do que na medida em que se combata a si mesma, em que se desviva a si mesma? Deixemos, pois, a um lado a filosofia, que é aventura de outro calibre.
Mas
as ciências experimentais necessitam, sim, da massa, como esta necessita delas,
sob pena de sucumbir, já que não pode sustentar o número de homens hoje
existentes num planeta sem físico-química.
Que
argumentações pode conseguir o que não consegue o automóvel, onde vão e vão
esses homens, e a injecção de pantopon que fulmina, milagrosa, as suas dores? A desproporção entre o benefício
constante e patente que a ciência lhes concede e o interesse que por ela
mostram é tal, que não há modo de nos subornarmos a nós mesmos com esperanças
ilusórias e esperarmos mais do que barbárie de quem assim se comporta. Principalmente se, como veremos, este
desapego pela ciência enquanto tal aparece, talvez com maior claridade do que
em qualquer outra parte, na massa dos próprios técnicos – de médicos,
engenheiros, etc., que costumam exercer a sua profissão com um estado de
espírito idêntico no essencial ao de quem se contenta com fazer uso do automóvel
ou comprar um tubo de aspirina sem a menor solidariedade íntima com o destino
da ciência, da civilização.
Haverá quem se sinta mais aflito com outros sintomas de barbárie emergente que, sendo de qualidade positiva, de acção, e não de omissão, saltam mais à vista e se materializam em espectáculo. Para mim é este o da desproporção entre o proveito que o homem médio recebe da ciência e a gratidão que lhe dedica – que não lhe dedica – o mais aterrador.[7] Só descubro uma explicação para esta ausência de reconhecimento adequado se recordar que no interior de África os Negros também andam de automóvel e se enchem de aspirinas. O Europeu que começa a predominar – é esta a minha hipótese – seria, relativamente à complexa civilização em que nasceu, um homem primitivo, um bárbaro emergindo no alçapão, um «invasor vertical».
(In Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas, Relógio D’Água,
2019, pp. 88-95).
[1] Nem será preciso dizer que
ninguém levará a sério estas expressões, e os mais bem intencionados
entendê-las-ão como simples metáforas, quiçá comovedoras. Só algum leitor
bastante ingénuo para não pensar que já sabe definitivamente o que é a vida,
ou, pelo menos, o que não é, se deixará conquistar pelo sentido primário destas
frases, e será precisamente aquele que, verdadeiras ou falsas – as entenda. Entre os outros reinará a mais
efusiva unanimidade, com esta única diferença: uns pensarão que, falando a sério, a vida é o processo
existencial da alma, e os outros, que é uma sucessão de reacções químicas. Não
creio que melhore a minha situação ante leitores tão herméticos resumir toda
uma maneira de pensar dizendo que o sentido
primário e radical da palavra vida aparece quando é empregue no sentido de biografia e não no de biologia. Pela fortíssima razão de que toda a biologia é,
em definitivo, apenas um capítulo de certas biografias, é o que na sua vida
(biografável) fazem os biólogos. Outra coisa é abstracção, fantasia e mito.
[2] Este desafogo de movimentos face
ao passado não é, pois, uma rebeldia petulante, mas, pelo contrário, uma
obrigação claríssima de qualquer «época crítica». Se eu defendo o liberalismo
do século XIX contra as massas que incivilmente o atacam, não quer dizer que
renunciei a uma plena liberdade face a esse próprio liberalismo. Vice-versa: o
primitivismo que neste ensaio aparece pior à luz dele é, por outro lado, e em
certo sentido, condição de qualquer grande avanço histórico. Veja-se o que, não
há poucos anos, eu dizia sobre isto no ensaio «Biologia y Pedagogia», capítulo
La paradoja del salvajismo, El Espectador,
tomo III.
[3] Daí que, no meu entender, não
diga nada aquele que crê ter dito alguma coisa definindo a América do Norte
pela sua «técnica». Uma das coisas que perturbam mais gravemente a consciência
europeia é o conjunto de juízos pueris sobre a América do Norte que uma pessoa
ouve sustentar mesmo às pessoas mais cultas. (...)
[4] Com rigor, a democracia liberal
e a técnica implicam-se e intersupõem-se por sua vez tão estreitamente que não
é concebível uma sem a outra e, portanto, seria desejável um terceiro nome,
mais genérico, que incluísse as duas. Seria esse o verdadeiro nome, o
substantivo do último século.
[5] Não falemos de questões mais
internas. A maior parte dos próprios investigadores não tem hoje a mais leve
suspeita da gravíssima, perigosíssima, crise íntima que hoje a sua ciência
atravessa.
[6] Aristóteles: Metafísica, 893 a 10.
[7] Centuplica a monstruosidade do facto que – como indiquei – todos os outros princípios vitais – política, direito, arte, moral, religião – se encontrem efectivamente e por si mesmos em crise ou, pelo menos, falha transitória. Só a ciência não falha, antes, todos os dias cumpre sobejamente quanto promete e mais do que promete. Não tem, pois, concorrência, não cabe desculpar o desapego em relação a ela supondo o homem médio distraído por algum outro entusiasmo de cultura.






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