sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O Banquete (i)

Escrito por Soren Kierkegaard






Apresentação de Álvaro Ribeiro

«(...) Soren Kierkeggard é um escritor que faz pensar. Fazer pensar, é, aliás, o intento primacial do escritor e o sinal verídico do seu êxito. Se por vezes alguns leitores, e algumas leitoras, dizem procurar livros amenos que libertem de preocupações intelectuais, manifestando assim preferência pelas obras erroneamente designadas de artifício ou de ficção, tais leitoras e tais leitores desse modo confessam que o seu pensamento tende mais para a passividade do sonho, do devaneio, da fantasia do que para a actividade intelectiva, mas esquecem que imaginar também é pensar. A prova de que o leitor de boa ou má literatura requer obras que o façam pensar, imaginando ou concebendo, está exactamente na facilidade com que se aborrece não só dos livros já lidos mas também de encontrar semelhanças e repetições nas obras de fabulação.

(…) Ocorre imediatamente a quem pense a já muitas vezes repetida comparação entre a conversa com os livros e a conversa com as pessoas amigas e amadas, comparação que leva à adunação: – no íntimo só queremos conversar com quem, ou com o que, essencialmente nos fale de amor. Ora é a pensar no amor que nos convida esta obra do filósofo dinamarquês.

(…) A série de vivências, experiências e vicissitudes por que passa o homem que ama, ou que não ama, altera, contradiz e desmente a doutrina adoptada na adolescência ou na mocidade. Esta instabilidade mental será tanto maior quanto mais o homem viver em curiosidade pela literatura e pelos seus sucedâneos, mais ou menos espectaculares. Cada um de nós está assim a ser permanentemente convidado a repensar o problema do amor, que não é um problema dos livros, próprio só de interessados ou especialistas em restritos domínios da cultura, porque é um problema humano, no significado universal da palavra, porque é, enfim, um problema filosófico.

Há até pensadores para os quais o problema do amor, no estrito sentido das reacções do homem com a mulher, será aquele pelo qual se determina a autenticidade dos sistemas filosóficos e o valor das obras de filosofia. Quem pertencer a esta escola, corrente, ou tendência terá de se dedicar a estudos dificílimos para conseguir chegar ao âmago dos sistemas de filosofia. Raros são os escritores que assim pensam, muitos não atribuem alta dignidade a este problema de antropologia, e quase todos o abstraem das suas obras especulativas.

Eliminar o problema do amor, não o mencionar em livros que parecem de estrutura didáctica e de finalidade educativa, parece-nos omissão contraproducente no plano da cultura superior e na fase actual da civilização. A falta de meditação corajosa sobre um problema a que ninguém se pode recusar terá por consequência a admissão de noções erróneas que se difundem por simplismo ilusório ou por auto-sofismação. Os preconceitos, ou falsos conceitos, e os prejuízos, ou falsos juízos, que estruturam a opinião das pessoas consideradas bem pensantes, se fossem submetidos a um momento de elucidação, mereceriam a imediata repulsa do pensador envergonhado. É indispensável um esforço intelectual da categoria do heroísmo para manter sempre presente a mais elevada doutrina do amor.

Temos de tolerar – na rotina da vida quotidiana, em que maior é o número das horas de desatenção à mais alta verdade – a doutrina fácil, medíocre e baixa que, por correr entre o vulgo, não suscita controvérsia nem discussão. A doutrina entre nós vigente é a doutrina naturalista, segundo a qual as relações do homem com a mulher, que englobamos no termo de amor, se explicam pelo instinto de reprodução nas espécies biológicas. Doutrina naturalista, dizemos, aceitável para os que não lobrigam a distinção entre a Natureza decaída e a Natureza redimida. Apresenta-se a ideia de instinto com palavras de condescendência e indulgência, apresenta-se a ideia de reprodução como um bem para a família e para outras colectividades mais amplas, completando-se a biologia com a demografia. A extrair desta doutrina, a que falta a ideia de génese, todas as consequências lícitas, chegaríamos a admitir o que se encontra descrito em certas utopias imaginadas e raciocinadas, mas que repugna à consciência e ao inconsciente da maioria das pessoas cultas. Escusamos de transformar a alusão compreensível em descrições de realista crueza.

Alarmam-se os moralistas que, por engenho, inventam o manto propício para cobrir os aspectos desgostantes das relações animais, e, sem que analisem os motivos profundos dos ritos etnográficos, parecem querer fundamentar e legitimar a moral em fixos e infixos preconceitos sociais. Assim se estabelece na consciência do moralista a duplicidade – aliás tão frequente –, de consentir que os instintos se satisfaçam a ocultas e de respeitar as conveniências morais. Nada impede, porém, o homem de confessar a amigos e a conhecidos o que deveria ficar para sempre em segredo, e na inconfidência desmentir a professada moral.


José Ortega y Gasset


Fazendo passar o problema do amor por estas duas instâncias, a Ciência e a Moral, dão-se por contentes muitas pessoas que deveriam pensar em termos de maior elevação. Infelizmente, porém, nos nossos ambientes de mediana cultura é mais conhecida a Metafísica do Amor de Schopenhauer do que A Verdade do Amor de Soloviev, mais estimado o De l’Amour de Stendhal do que os Estúdios sobre el Amor de Ortega y Gasset, apenas porque domina ainda entre nós o preconceito calvinista de que o pessimismo moral coincide com a máxima lucidez intelectual.

Há certamente, algumas almas superiores às quais repugna esta doutrina medíocre e que pressentem, se é que não sentem, a luz difusa de remota verdade. É-lhes difícil conceber e exprimir a doutrina por que anseiam, doutrina a opor à banalidade. No entanto, fácil lhes seria ver que a doutrina vulgar, de deficiente ciência e de deficiente moral, tem sido sempre desmentida pela arte, pela filosofia e pela religião, nas quais o amor humano, além de ser apresentado em radiação de beleza, assume uma significação real e transcendente.

(…) É evidente que, na obra de Kierkegaard, se aprofundam os conceitos de sedução e monogamia, entre os quais parece situada a ética das relações do homem para com a mulher. A sedução é segredo, a monogamia é instituição ética. A sedução não é actividade, nem é exclusivamente masculina. A mulher sabe que permanecendo imóvel, silenciosa e vestida pode seduzir tanto ou mais do que desnudando-se, tagarelando ou dançando. Sedução é atracção, e nesta palavra se diz um conceito que a ciência não esclarece. O problema da sedução obsediava Kierkegaard, e dentro do problema da sedução o donjuanismo. Todos conhecem a lenda de D. Juan que aliás tem dado motivo a várias obras literárias e que atingiu a mais subtil expressão artística na ópera musical de Mozart. Poucas pessoas, porém, encontraram por aprofundamento a causa ou a motivação fundamental do movimento que impele D. Juan Tenório pela série infinita das seduções. Ora este problema não pode deixar de ser enunciado e resolvido por quem se considere uma pessoa culta. Claro está que o momento moral da sedução é o do abandono, ou desamparo, da mulher pelo homem; até esse momento não há que formular juízos morais, tudo é lícito, porque decorre sem drama no plano estético, no plano da promessa ainda não renegada. A vileza moral do homem, quando existe, revela-se no momento da inconfidência e da ingratidão.

(…) Já a designação de matrimónio nos rememora a doutrina (tão dignamente preservada pela Igreja Católica, conforme foi expresso pela Comissão Bíblica em 30 de Junho de 1909), da formatio primae mulieris ex primo homine, doutrina que contém a chave do segredo da atracção e da sedução, o qual não pode ser explicado pelo naturalismo. Matrimónio é preferível a casamento. Aliás, na língua portuguesa, casamento significa muito mais a mudança de residência, a junção de pessoas e bens, porque "quem casa quer casa". O casamento exprime maliciosamente, para muita gente, mais uma situação de facto do que uma situação de direito. Se o casamento fosse apenas um rito, como vulgarmente julga quem inclina a religião para o plano da moral, justificar-se-ia plenamente a degenerescência do registo cultural em profano registo civil. Mas se o matrimónio é, mais do que um rito, um sacramento, temos de admitir que ele é de graça que opera no mundo sobrenatural. A vida conjugal pode, pois, aparecer como condição indispensável para que o homem e a mulher cooperem na redenção, segundo o que foi prescrito por leis divinas. Todo o mistério do amor está acima das teorias biológicas e sociológicas com que os educadores mal informados nutrem o lúcido pessimismo dos adolescentes.


Tem o matrimónio fins sobrenaturais, mas se os não tivesse, conforme pensam os descrentes, estaria ainda assim ordenado para auxiliar a evolução da humanidade, isto é, para ir transformando os homens inferiores em homens superiores. Se este fim, que é o fim da família, nem sempre é atingido realmente, outro problema, o da frustração do casamento, tem de ser resolvido à parte. Tal era o que preocupava as gerações retratadas numa literatura que vai a pouco a pouco perdendo a sua melhor significação.

Referimo-nos à literatura romântica, não só porque ela se demorava a descrever em verso e em prosa os impedimentos à união dos amantes, mas ainda porque atribuía ao drama antropológico uma significação que encontrava equivalência na cosmologia e na teologia. O romantismo não é já entendido, e o desentendimento resulta de ter sido esquecida a razão da sociedade tradicional. Esta sabia perfeitamente que a vida conjugal é difícil, porque exige a união nos três planos do composto humano: no espírito, na alma e no corpo. A comunidade de afectos e de sentimentos para que o conjunto não se dissolva por influências previsíveis e imprevisíveis. A fidelidade conjugal, contrariada por mil oportunidades e por mil circunstâncias, só pode ser garantida por uma fé religiosa. Esta verdade, expressa em outros termos, demonstra que o divórcio é o fim natural do casamento.

A decadência da literatura romântica corresponde ao desinteresse pelo problema do amor, o que é evidente na literatura actual em que o problema da morte lenta ou violenta, do assassínio individual ou colectivo, aparece como principal ingrediente da fabulação. O que se observa no livro é ainda mais evidente no espectáculo teatral e no cinematográfico. Assim chegamos, sem obrigação de passar por difíceis nomenclaturas técnicas, aos assuntos que constituem a temática específica da filosofia existencial, filosofia de crise para os homens e os povos que deixaram de ver no amor infinito o primeiro atributo de Deus.

Eis as razões que nos levaram a considerar O Banquete, e, também, os outros livros que compõem a série intitulada Estádios na via da vida, como a melhor introdução ao estudo da obra de Soren Kierkegaard e da reacção que o existencialismo exerceu, exerce e exercerá no desenvolvimento da filosofia portuguesa» (in apresentação da tradução portuguesa de O Banquete, de Soren Kierkegaard, Guimarães Editores, 1953).

Álvaro Ribeiro

Discurso de Johannes o Sedutor




«(...) Meus caros amigos: Para falar dignamente da divindade, é preciso estar entusiasmado, inspirado pelo sopro ou espírito divino, e dele receber o que se vai comunicar. Análogo acontece quando se fala da mulher. A mulher não é mera ideia que surgisse do cérebro do homem, sonho em pleno dia, fantasia intelectual, tema para discussão pro et contra. Não; o que se sabe a respeito da mulher foi a mulher que o ensinou; por isso quem mais sabe da mulher é quem teve mais amantes que o instruíssem. À primeira vez é-se um aprendiz; à segunda, já se está mais seguro da sua pessoa, como quem, nas discussões dos doutores, aproveita as amabilidades do primeiro adversário para as voltar contra o seguinte. Apesar destas concessões, nada fica perdido. Porque, se o beijo é um jogo e o abraço uma façanha que acabam como tudo tem de acabar, na escola das mulheres nunca se chega a dar todo o programa, nem a doutrina se resume numa proposição matemática, sempre idêntica, através das variações literárias dos métodos de demonstração. É que tais métodos são bons para as matemáticas e para os fantasmas, não para o amor e para a mulher. A verdade é que o sexo fraco, longe de ser inferior, é pelo contrário, o mais perfeito. Darei todavia ao meu discurso a forma de um mito, e, defendendo o partido da mulher que ofendeste de tão injusto modo, dar-me-ei por feliz se as minhas palavras representarem o pensamento das vossas almas quando chegardes a ver a aparição da volúpia, que fugirá de vós, tal como os frutos se afastam de Tântalo, porque ofendeste a mulher. É que não há outro modo de ofender a mulher, senão o vosso, se bem que ela esteja acima de todas as injúrias, se bem que o castigo vingue quem teve audácia tão impiedosa. Não quero melindrar ninguém. Mas as vossas ideias são meras invenções, calúnias próprias de homens casados, não as minhas, porque eu honro a mulher muito mais do que um marido seria capaz de a venerar.

«No princípio havia só um sexo; dizem os gregos que era o sexo masculino. Dotado de faculdades magníficas, era uma criatura admirável em que se reviam os deuses; os dons eram tão grandes que aconteceu aos deuses o mesmo que por vezes acontece aos poetas que gastaram todas as forças na criação de uma obra: tiveram inveja do homem. O pior é que tiveram receio dele; temeram que ele não estivesse disposto a aceitar de bom grado o jugo divino; tiveram medo, embora sem razão para isso, que o homem chegasse a abalar o céu. Haviam feito surgir uma força nova que lhes parecia estar a ser indomável. A inquietação e a perplexidade dominavam então no concílio dos deuses. Mostraram-se primeiro de uma generosidade pródiga ao criarem o homem; mas agora tinham de recorrer aos meios mais violentos para legítima defesa. Os deuses pensavam que o seu poderio estava em perigo, e que não podiam voltar atrás, como um poeta que renegue a sua obra. O homem já não podia ser dominado pela força, porque se o pudesse ser, os deuses teriam resolvido facilmente o problema; e era isso precisamente o que lhes causava desespero. Era preciso cativá-lo pela fraqueza, por um poder mais fraco e mais forte do que ele, capaz de o subjugar. Que poder espantoso e que poder contraditório não havia de ser! A necessidade também ensina os deuses a transcenderem os limites do engenho. Pensaram, meditaram, encontraram. A nova potência foi a mulher, maravilha da criação, que aos próprios olhos dos deuses era superior ao homem; e os deuses, ingénuos e contentes, mutuamente se felicitaram pela nova invenção. Que mais poderei eu dizer em louvor da mulher? A mulher foi tida por fazer o que parecia impossível aos deuses; além disso, a verdade é que desempenhou admiravelmente o seu papel; que maravilha não deve ser a mulher para conseguir os seus fins! Tal foi a astúcia dos deuses. A encantadora foi formada e dotada de uma natureza enganadora; mal encantou o homem, logo se transformou, enleando-o entre todas as dificuldades do mundo finito; era isso mesmo o que os deuses queriam. Que seria possível imaginar de mais fino, de mais atraente, de mais arrebatante, do que este subterfúgio dos deuses que querem salvaguardar um império, do que este processo para seduzir o homem? Tal é a realidade; a mulher é a sedução mais poderosa do céu e da terra. Comparado com ela, o homem é um ente muito imperfeito.


«A astúcia dos deuses veio a dar resultado. Nem sempre, porém, com êxito igual. Em todos os tempos surgiram homens que estiveram atentos à fraude. Uns ficaram isolados; outros observavam a graciosidade da mulher, e, mais do que os primeiros, viram de perto a armadilha. A estes chamo eu eróticos, e conto-me no número deles; os homens chamam-lhes sedutores, e as mulheres não lhes dão classificação especial, porque, para elas, representam o inefável. Os eróticos são os homens felizes. Vivem com maior magnificência do que os deuses, porque se alimentam de um manjar muito mais delicioso do que a ambrósia, e bebem um licor mais inebriante do que o néctar; nutrem-se do que é divino, porque vão comendo o astucioso pensamento dos deuses que os queriam seduzir; gozam o delicioso sabor da isca, e entre prazeres inigualáveis vão levando uma vida de felicidade, sem que passem além da isca, sem que nunca mordam o anzol. Os outros homens correm para o engodo, e devoram tudo, à maneira do aldeão que come salada de pepinos, e ficam presos pela boca. Só o erótico é dotado de delicadeza para fruir o gosto da isca e atribuir-lhe um valor infinito. A mulher distingue-o e estima-o; entre ambos se forma um entendimento secreto. Mas o erótico sabe que lhe cumpre guardar o segredo, se não quiser sofrer, mais cedo ou mais tarde, a vingança terrível dos deuses.

«Que nada se pode imaginar de mais maravilhoso, de mais encantador, de mais sedutor do que a mulher, os deuses o afirmaram e da afirmação nos deram garantia. O próprio embaraço que os obrigou a dobrar de engenho é mais uma prova de que eles jogaram tudo quanto removeram o céu e a terra para formar a mulher (O Banquete, Guimarães Editores, pp. 133-136).

Continua

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O génio da espécie (ii)

Escrito por Arthur Schopenhauer






«... o génio da espécie medita a geração futura; e a grande obra de Cupido, que especula, pensa e procede incessantemente, é preparar-lhe a constituição futura».

Arthur Schopenhauer («Metafísica do Amor»).


«O orientalismo de Schopenhauer é a resposta da sua inteligência às exigências, fatais mas irremediavelmente insatisfeitas, da sua vontade ocidentalista de domínio, do seu humanismo antropolátrico».

Leonardo Coimbra («A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre»).


«Todos quantos admiramos as obras literárias de Goethe, Schiller e Novalis, todos quantos admiramos as obras científicas de Fichte, Schelling e Hegel, todos quantos admiramos as obras místicas de Eckhart, Boehme e Silésius, lamentamos que a cultura oficial alemã esteja prejudicada por demasiado apego à Terra».

Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).



O génio da espécie


Em primeiro lugar, deve-se considerar que o homem é temperamentalmente sujeito à inconstância no amor, a mulher à sua constância. O amor no homem diminui de um modo perceptível, desde o momento que obtém satisfação: dir-se-ia que todas as outras mulheres lhe oferecem mais atractivos do que aquela que ele já possui; aspira à mudança. O amor da mulher, inversamente, aumenta a partir do momento da posse. É essa uma consequência do fim da natureza que visa a conservação e portanto o maior acréscimo possível da espécie. O homem, de facto, pode facilmente gerar mais de cem crianças num ano, se tiver outras tantas mulheres à sua disposição; a mulher embora tivesse o mesmo número de maridos, não pode dar à luz mais do que uma criança nesse ano, exceptuando gémeos. Por isso, o homem anda sempre à procura de outras mulheres, enquanto a mulher permanece dedicada a um só homem; porque a natureza a condiciona pelo instinto e sem reflexão a manter para si aquele que deve alimentar e proteger a pequena família futura. Daí resulta que a fidelidade no casamento é artificial para o homem e natural para a mulher, e portanto o adultério da mulher, devido às consequências que acarreta, agindo contra a natureza, é muito menos desculpável que o do homem, tanto objectivamente, tendo em vista as suas consequências, como subjectivamente, porque é contrário a essa mesma natureza.






Quero ir ao âmago da questão e acabar de os convencer, demonstrando que o prazer proporcionado pelo outro sexo, por muito objectivo que possa parecer, não é senão instinto dissimulado, isto é, o sentido da espécie que se esforça por lhe manter o tipo. Devemos observar com detalhe e examinar mais especialmente os aspectos que nos dirigem para a obtenção desse prazer, ainda que representem algo de singular numa obra filosófica as particularidades que passamos a indicar. Estas considerações dividem-se em várias categorias: há as que dizem respeito directamente ao tipo da espécie, isto é, a beleza; há as que visam as qualidades psíquicas, e por último as que são meramente secundárias, pela sua necessidade em corrigir e em neutralizar umas pelas outras as insuficiências e as anomalias de dois indivíduos. Examinemos separadamente cada uma destas divisões.

A consideração fundamental que condiciona a nossa apetência e a nossa escolha, é a idade. Em geral a mulher que elegemos encontra-se na idade compreendida entre o fim e o começo das menstruações; damos todavia uma preferência decisiva ao período que decorre dos dezoito aos vinte e oito anos. Nenhuma mulher provocará a nossa atracção se não estiver nas condições anteriores. Uma mulher de idade, ou seja, aquela mulher já incapaz de ter filhos, só nos causa um sentimento de afastamento. Mesmo desprovida de beleza a juventude tem sempre atractivo: a beleza sem juventude não tem nenhum. – É evidente que o objectivo inconsciente que nos orienta é manifestamente a capacidade em si de ter filhos; portanto, qualquer indivíduo perde possibilidades de atracção para o outro sexo, segundo se encontra mais ou menos próximo do período próprio para a reprodução ou para a concepção. A segunda consideração é a saúde: as doenças agudas só perturbam as nossas inclinações de um modo passageiro; as doenças crónicas, as maleitas, pelo contrário, assustam ou afastam, porque se transmitem à criança. – A terceira consideração é a estrutura óssea, porque é a matriz do tipo da espécie. Depois da idade e da doença, o que mais nos afasta é uma constituição defeituosa: nem o mais belo rosto pode compensar um corpo deformado; há mais, um rosto feio num corpo normal será sempre preferido. O que se nota mais é sempre um defeito do esqueleto, por exemplo uma estatura baixa e gorda, pernas demasiado curtas, ou ainda o coxear, quando não tiver origem num acidente externo. Pelo contrário, um corpo notavelmente belo compensa muitos defeitos, encanta-nos. A extrema importância que todos atribuímos aos pés pequenos também se relaciona com estas considerações; são, efectivamente, uma característica da essência da espécie, pois nenhum outro animal tem o tarso e o metatarso reunidos tão pequenos como o homem, o que lhe proporciona a deslocação vertical; é um plantígrado. O Eclesiastes diz a este respeito (XXVI, 23, segundo a tradução correcta de Kraus): «uma mulher de corpo bem proporcionado e com bonitos pés é igual a colunas de oiro sobre socos de prata». A importância dos dentes não é menor porque servem para a alimentação e são particularmente hereditários.

A quarta consideração é uma certa abundância de carne, isto é, o predomínio da faculdade vegetativa, da plasticidade, porque promete ao feto um alimento rico: é por isso que uma grande magreza desagrada de um modo surpreendente. A plenitude dos seios exerce um fascínio considerável sobre os homens, pois relaciona-se directamente com a função geradora da mulher, proporcionando ao recém-nascido uma alimentação abundante. As mulheres excessivamente gordas provocam o nosso afastamento, porque esse estado físico é sinal de atrofia uterina, indicadora de esterilidade; não é a inteligência que o sabe, é o instinto.


Diane Kruger


A beleza do rosto é a que se considera em último lugar. É igualmente a estrutura óssea que se observa antes de mais; procura-se essencialmente um nariz bem proporcionado, ao passo que, um nariz pequeno, arrebitado, altera tudo. Uma ligeira inclinação no nariz, em cima ou em baixo, tem determinado a sorte de um sem número de mulheres, pois, com razão, se trata de conservar o tipo da espécie. Uma pequena boca, apoiada em pequenos ossos maxilares é determinante, como característica específica do rosto humano, em oposição à bocarra dos animais. A quase ausência de queixo, como se tivesse sido cortado, é nitidamente feio, visto que um queixo proeminente, mentum prominulum, é um traço característico da nossa espécie. Considera-se por último a beleza dos olhos e a face, que se relaciona com as qualidades psíquicas, essencialmente as intelectuais, que fazem parte da herança materna.

Não podemos enumerar com tanta exactidão as considerações inconscientes às quais se liga a preferência das mulheres. Eis o que se pode determinar em termos gerais: é a idade de trinta e cinco anos que elas preferem a qualquer outra, mesmo à dos mais jovens, apesar de possuírem a essência da beleza humana. A causa é serem orientadas, não pelo gosto, mas pelo seu instinto, que identifica nessas idades o apogeu da sua força genética. Na maior parte dos casos, dão pouca importância à beleza, principalmente à do rosto: como se só por elas se encarregassem de a transmitir aos filhos. É, acima de tudo, a coragem ou a força nos homens que as conquista afectivamente, porque essas qualidades são a garantia de uma geração de filhos robustos, e parecem assegurar-lhes no futuro um protector corajoso. Qualquer defeito físico do homem, qualquer desvio do tipo, pode a mulher suprimi-los na criança durante a geração, se os aspectos correspondentes da sua constituição, defeituosas no homem, são nela irrepreensíveis, ou ainda exageradas em sentido contrário. É necessário considerar apenas as qualidades do homem inerentes ao sexo masculino, e que a mãe pela sua natureza não pode transmitir por si só aos filhos; como, por exemplo, a estrutura masculina do esqueleto, uns ombros largos, as ancas estreitas, as pernas direitas, a força dos músculos, a coragem, a barba, etc. Daqui procede que as mulheres são atraídas muitas vezes por homens feios, mas nunca por homens desprovidos de qualidades viris, porque não podem neutralizar tais insuficiências.

A segunda ordem de observações relevantes no amor, diz respeito às considerações psíquicas. Indicaremos que são as qualidades de coração ou de carácter do homem que constituem a herança paterna. É, antes de mais, uma vontade determinada, a capacidade de decisão e coragem, talvez ainda a lealdade e a bondade do coração que seduzem a mulher. As qualidades intelectuais, pelo contrário não exercem sobre ela nenhuma acção directa ou instintiva, dado que o pai as não transmite aos filhos. A falta de inteligência não prejudica os homens junto das mulheres: um espírito superior, ou mesmo um génio, pela sua desproporção, têm muitas vezes um efeito contrário. Sucede com frequência um homem feio, estúpido ou grosseiro suplantar junto das mulheres um outro bem constituído, espirituoso, amável. Verificam-se, do mesmo modo, uniões bem sucedidas entre seres tão diferentes quanto é possível sob o ponto de vista das respectivas qualidades intelectuais: ele, por exemplo, brutal, robusto e estúpido; ela, meiga, impressionável, pensando elaboradamente, instruída, artista, etc; ou então ele, muito sábio, talentoso; ela alheia a tudo o que seja de natureza intelectual:

«Assim o julgou Vénus, que se comprazia com cruel alegria a subjugar ferreamente, diferentes formas e almas» (Horácio, Carmina I, 33, 10).


Sócrates e Xantipa


A razão é que os aspectos que aqui predominam nada possuem de natureza intelectual e pertencem ao domínio do instinto. No casamento, o que se tem em vista não é uma vivência espiritual, é a procriação de filhos: o casamento é uma união de corações e não de inteligências. Quando uma mulher afirma que está enamorada do espírito de um homem, é uma pretensão vaidosa e ridícula, ou porventura a exaltação de alguém degenerado. – Os homens, pelo contrário, no amor instintivo, não são determinados pelas qualidades de carácter da mulher; é por essa razão que tantos Sócrates encontraram as suas Xantipas, por exemplo Shakespeare, Albrecht, Dürer, Byron, etc. Contudo, são as qualidades intelectuais que apresentam uma grande influência, porque dependem da herança materna; mas essa capacidade de influência é excedida com facilidade pela da beleza física que actua directamente em pontos mais essenciais. Sucede, apesar disso, que muitas mães, inspiradas pela intuição ou pela experiência dessa influência, procuram ensinar às filhas as belas-artes, as línguas, etc., a fim de as tornar mais atraentes aos homens; tentam deste modo ajudar a inteligência por meios exteriores, assim como, em caso de necessidade, procurarão desenvolver fisicamente as ancas e os seios. Observemos que neste caso apenas se trata de atracção instintiva e imediata, a qual dá origem ao sentimento amoroso propriamente dito. Que uma mulher sensata e instruída aprecie a inteligência e o espírito num homem, que um homem equilibrado e reflectido valorize o carácter da mulher e o tenha em consideração, isso nada influi neste caso: procede assim a razão no casamento quando é ela que actua, mas não a paixão do amor de que nos ocupamos exclusivamente (ob. cit., pp. 30-38).



domingo, 13 de novembro de 2011

O génio da espécie (i)

Escrito por Arthur Schopenhauer





«No homem propriamente dito há qualquer coisa de não-biológico que activa o processo do sexo no momento em que atinge e movimenta o elemento físico conduzindo à fecundação. O instinto da procriação é um mito, sobretudo se o considerarmos à luz do finalismo selectivo imaginado pelos darwinistas ou por Schopenhauer. Não existe nenhuma ligação directa, isto é, vivida, entre o amor e a procriação».

Julius Evola («A Metafísica do Sexo»).


«...as necessidades da acção comum não são as mesmas para um formigueiro e para uma sociedade humana».

Henrique Bergson («A Evolução Criadora»).


«Da imitação da civilização das térmitas, o homem decadente passou à imitação da mais baixa das civilizações dos insectos: a das abelhas.

As velhas religiões conhecem sem dúvida os três estados:

As térmitas, que conservam o macho como incitador de forças numa autocracia perfeita;

As formigas, que se desinteressaram do macho para se democratizarem;

As abelhas, que suprimiram o macho e se mecanizaram totalmente.

Mais abaixo ainda estão as aranhas e os escorpiões, que devoram o macho».

Denis Saurat («A Religião dos Gigantes e a Civilização dos Insectos»).


«O socialismo é um matriarcado. Envolve, absorve e destrói as singularidades pessoais na uniformidade colectiva, como um grande seio maternal, e rodeia essa absorção de cuidados em que o Estado se imagina como uma grande mãe, providencialista, bonificadora, a todos obrigando, como as mães aos filhos, a viver em segurança: segurança contra a velhice, e substitui a família natural pelos lares da terceira idade; segurança contra a falta de habitação, e encerra toda a gente em bairros sociais a tantos metros quadrados por cabeça; segurança contra a invalidez e a doença, e cria as instituições da chamada "segurança social". Mas as coisas são o que são, e toda essa segurança matriarcal redunda em pobreza e servidão para todos. Sobre isso, redunda na mais desesperante banalidade. Banalidade, servidão e pobreza são as imagens dos países socializados. Mas o socialismo é terrível e, também, como as mulheres, tem a crueldade que foi simbolizada nas Amazonas, nas Euménides, nas Medeias, nas fúrias infernais, e assiste impávido ao cruel espectáculo da banalidade, da pobreza e da servidão a que sujeitou a sociedade dos homens».

Orlando Vitorino («Mulheres, Socialismo e Matriarcado», in A Capital de 4/11/85).



O génio da espécie



Qualquer inclinação amorosa, seja qual for a atitude etérea que afecte, tem, na realidade, todas as suas raízes no instinto sexual; e não é mesmo outra coisa senão um instinto especial, determinado, e perfeitamente individualizado. Deste modo, observemos o papel importante que o amor representa em todos os graus e em todas as fases, não só nas comédias e nos romances, mas também no mundo real, onde é, com o amor da vida, a mais poderosa e mais activa de todas as forças; ocupa continuamente as forças da parte mais jovem da humanidade, é o último fim de quase cada aspiração humana, tem uma influência perturbadora nos assuntos mais importantes, interrompe constantemente as actividades mais sérias, por vezes perturba as maiores inteligências, não tem escrúpulo em lançar as suas futilidades nos negócios de Estado e nos trabalhos dos sábios, chega até a introduzir as suas cartas meigas e as suas madeixazinhas de cabelo nas pastas dos ministros e nos manuscritos dos filósofos, não impede de ser todos os dias o causador dos piores e mais intrincados problemas -, rompe as mais preciosas relações, quebra os mais sólidos laços, torna vítimas ou a vida ou a saúde, a riqueza, a situação e a felicidade, faz do homem honesto um homem sem honra, do fiel um traidor, parece ser qual demónio hostil que se esforça por alterar, transtornar e destruir tudo; - sentir-nos-emos então prontos a gritar: Para quê tanto ruído, essa agitação, essa violência, essa angústia e essa miséria? Contudo, trata-se de uma coisa bem simples que cada um encontre a sua uma (1). Porque é que semelhante ninharia representa um papel tão importante e perturba sem cessar a vida regrada dos homens? – Mas, para o pensador consciencioso, o espírito da verdade desvenda pouco a pouco esta resposta: não se trata de uma coisa qualquer; longe disso, a importância do assunto é igual à seriedade e à violência com que é tratado. O fim último de todo o empreendimento amoroso, quer resvale na tragédia ou na comicidade, é de facto, entre as diversas finalidades da vida humana, o mais sério e o mais importante e merece a profunda atenção que todos lhe dedicam. Na realidade, esta questão é nada menos do que a constituição da geração futura.

(…) Todas as paixões amorosas da geração presente não são, portanto, para toda a humanidade, senão a séria meditação da composição da geração futura, da qual, por sua vez, dependem inúmeras gerações. De facto, não se trata, como em qualquer outra circunstância, da felicidade ou da infelicidade dos indivíduos, mas da existência e da constituição própria da humanidade futura: a vontade do indivíduo atinge, neste caso, a sua maior potência, como vontade da espécie. – É sobre este grande interesse que repousam o patético e o sublime no amor, a transcendência dos seus transportes e dos seus sofrimentos, que os poetas através dos milénios não se cansam de representar em exemplos infindos. Que outro assunto seria superior em interesse àquele que trata da felicidade da espécie? Porque o indivíduo é para a própria espécie o que a superfície dos corpos é para os próprios corpos. Eis porque se torna tão difícil motivar o interesse num drama onde se não introduza uma intriga amorosa; e, contudo, apesar da utilização no quotidiano que se lhe dá, o assunto nunca se esgota.

Quando o mero instinto sexual se manifesta na consciência de cada indivíduo de um modo vago e generalizado, sem objectivo preciso, é a vontade de viver em absoluto, exterior a todo o fenómeno, que irrompe. Quando num ser consciente o instinto do amor se apura num indivíduo, é essa mesma vontade que aspira a viver num novo ser, distinto, exacto e determinado. E, neste caso, o instinto sexual, na sua subjectividade, ilude a consciência, e sabe muito bem ocultar-se com a máscara de uma admiração objectiva, porque a natureza necessita desse estratagema para atingir os seus fins, a sua finalidade. Por muito objectiva e muito elevada que possa parecer a admiração por uma pessoa amada, a intenção é, na realidade, gerar um novo ser, determinado na sua natureza: demonstra-o com o facto de o amor não se limitar a um sentimento mútuo, mas exigir a posse, o essencial, ou seja, o prazer físico. A certeza de ser amado não poderia consolar a privação daquele que se ama; e, em semelhante caso, mais de um amante tem posto fim à sua existência. Sucede, pelo contrário, que existem indivíduos muito apaixonados que, não conseguindo ser correspondidos, se contentam com a posse, isto é, com o prazer físico.




É o que se verifica em todos os casamentos de obrigação, nos amores venais ou nos que se obtêm pela violência. Que um filho seja gerado, é esse o fim único, verdadeiro, de todo o romance de amor, embora disso os apaixonados não se apercebam: o modo e os meios para o atingir são acessórios. – As almas nobres, sentimentais, ternamente apaixonadas, podem protestar contra o áspero realismo da minha teoria; os seus argumentos não têm defesa nenhuma. Não é a constituição e o carácter preciso e determinado da geração futura, um fim infinitamente superior, infinitamente mais nobre que os sentimentos transcendentes e as suas quimeras ideais? Entre todos os fins que tem a vida humana, pode haver algum maior e mais importante? Só este explica os intensos ardores do amor, a seriedade com o qual ele se apresenta, a importância que atribui às coisas mais insignificantes que lhe dizem respeito e o condicionam. Não se deve esquecer esta finalidade, se quisermos explicar as inúmeras dificuldades, rodeios, esforços, esses tormentos sem fim visando a posse do ente que se ama, quando, em princípio, parecem tão pouco adaptados à situação. Porque é a geração futura, na sua determinação individual em absoluto, que tende para a existência através desses rodeios e desses esforços.

Sim, é ela própria que se movimenta já na selecção tão prudente, tão precisa, tão obstinada, que procura satisfazer esse instinto sexual que se chama o amor; é já a vontade de viver do novo ser, que os amantes podem e desejam gerar. Já na troca de olhares que se exprimem plenos de desejo se ilumina uma vida nova, se anuncia um futuro ser, completo e em harmonia. O desejo de uma união verdadeira, a fusão num único ser; esse ser que será gerado significará a extensão da sua própria existência e alcance da plenitude. Nele, os factores hereditários dos progenitores sobrevivem unidos. Pelo contrário, uma aversão recíproca e constante entre um homem e uma mulher resulta na impossibilidade de gerar senão um ser mal constituído, privado de harmonia interior, infeliz. O facto de Calderón descrever a impiedosa Semiramis, a quem chama uma filha do ar, como o fruto de uma violação, seguida pelo assassínio do marido, possui pois um profundo sentido.

Esta força imperiosa que atrai um para o outro, exclusivamente, dois indivíduos de sexo diferente, caracteriza a vontade de viver presente em toda a espécie: procura a realização segundo os seus objectivos na criança que esses dois seres podem gerar; terá do seu pai a vontade ou o carácter; da sua mãe, o intelecto, a constituição física provirá de ambos: as feições serão transmitidas algumas vezes pelo seu pai, a figura semelhar-se-á por vezes à da sua mãe, em conformidade com essa lei, aparente no hibridismo animal, que estabelece que o tamanho do feto se adapta ao do útero. Se é difícil explicar o carácter muito próprio e a individualidade de cada homem, não é menos difícil compreender o sentimento igualmente particular e íntimo que impele duas pessoas uma para a outra; na realidade, estes dois factores são apenas um. A paixão é implicitamente, o que a individualidade é explicitamente. O primeiro movimento para a existência, o verdadeiro punctum saliens da vida, é na realidade o instante em que os progenitores começam a amar-se – to fancy each other, como é expresso admiravelmente pelos ingleses, e, como já foi expresso, é da troca e da atracção dos seus olhares cheios de desejo que nasce o primeiro gérmen do novo ser, gérmen frágil, susceptível de desaparecer como todos os gérmens. Esse novo ser é, de algum modo, uma nova ideia platónica; e, como todas as Ideias, empregam um esforço denodado para atingir a sua manifestação no mundo dos fenómenos, ávidos de obterem a matéria favorável que a lei da causalidade lhes proporciona em partilha, assim essa ideia própria de uma individualidade humana tende com avidez e em causa extrema na sua realização fenomenal. Essa energia, essa violência, é objectivamente a paixão que os futuros pais experimentam um pelo outro. Tem graus infinitos cujos extremos poderiam ser caracterizados por “amor vulgar” e “amor divino” (Banquete, 180d-182a): - mas, quanto à própria essência do amor, é sempre a mesma e em toda a parte. Nos seus diversos graus é tanto mais forte quanto mais individualizada, ou seja, é tanto mais poderosa quanto a pessoa amada, pelas suas qualidades e pela sua constituição, é mais apta em satisfazer o desejo do amante e à necessidade que fixa a individualidade própria deste último.


Grace Kelly


O amor, na sua essência e desde o primeiro impulso, é dirigido para a saúde, para a força, para a beleza, para a juventude que é a sua expressão, porque a vontade deseja antes de tudo criar seres capazes de viver, com o carácter integral da espécie humana; o amor vulgar não vai mais longe. (…) Mas esses graus mais elevados nascem na perfeita sintonia entre dois seres, ou seja, o carácter do pai e o intelecto da mãe consumam na sua união esse ser determinado no qual a vontade de viver em si, presente em toda a espécie, experimenta o desejo; este é proporcional à grandeza da vontade e por este facto ultrapassa os limites de um coração mortal, tal como esses motivos ultrapassam a capacidade do intelecto individual. Eis pois a alma de uma grande e verdadeira paixão. Ora, quanto mais perfeita for a conveniência de dois seres em cada um dos pontos de vista a enunciar, mais forte será sua paixão mútua.

E como não existem dois indivíduos semelhantes em absoluto, todo o homem deve encontrar numa determinada mulher as qualidades em função de um ser a procriar. Quanto mais raro é esse encontro, mais raro é também o amor no qual a paixão é verdadeira. E porque cada um tem em si essa grande paixão, compreende-se a expressão que o génio dos poetas nos faz desse sentimento. Verificando-se que dessa paixão amorosa é unicamente visado o ser futuro e as qualidades que deve possuir, pode suceder que entre jovens, aliás agradáveis e bem conformados, nasça uma afinidade de sentimento, de carácter e de espírito que origine uma amizade alheia ao amor sexual; pode mesmo suceder que, sobre este último aspecto, haja entre eles uma certa aversão. Resultaria na ausência, aos filhos que deles nascessem, de harmonia intelectual ou física, e, em geral, a sua existência e a sua constituição não corresponderiam aos objectivos a que se propõe a vontade de viver no interesse da espécie. Pode suceder, pelo contrário, que apesar das incompatibilidades dos sentimentos, do carácter e do espírito, apesar da repugnância ou da aversão que provoquem, o amor sexual nasça e sobreviva, porque é cego. Se daí resultar um casamento, essa união será forçosamente infeliz.

Passemos agora a um exame mais detalhado do problema – o egoísmo possui em cada homem raízes tão profundas que a motivação pelo egoísmo é a única com a qual se pode contar seguramente para provocar a acção de um ser individual. A espécie, de facto, tem sobre o indivíduo um direito anterior, mais imediato e mais considerável que o efémero da sua individualidade. Contudo, quando se torna necessário que o indivíduo actue e se sacrifique pela sobrevivência e pelo desenvolvimento da espécie, o seu intelecto totalmente orientado para as aspirações individuais, logo que se apercebe da imperiosidade desse sacrifício, submete-se-lhe logo. Para alcançar o seu fim, torna-se necessário que a natureza ludibrie o indivíduo com uma certa ilusão, através da qual ele considere a própria felicidade no que não é, efectivamente, senão o bem da espécie; o indivíduo torna-se assim, inconscientemente, em escravo da natureza, no momento em que julga obedecer apenas aos seus desejos. Uma pura ilusão, desde logo desfeita, paira diante dos seus olhos e faz com que actue. Esta ilusão não é senão o instinto. É o instinto que, na maioria dos casos, representa o sentido da espécie, os interesses da espécie perante a vontade. Mas como a vontade se individualiza, deve ser iludida de modo a que conceba por intermédio do indivíduo o determinismo que o sentido da espécie tem sobre ela; assim, julga actuar em benefício individual, quando efectivamente apenas trabalha para a espécie, no sentido mais restrito. É no animal que o instinto representa o maior papel e que a sua manifestação exterior melhor se pode observar; mas quanto aos percursos secretos do instinto, como para tudo o que é interior, não podemos aprender a conhecê-los senão em nós mesmos. Conclui-se, é verdade, que o instinto tem pouco poder no homem, ou pelo menos que só se manifesta no recém-nascido, ao procurar apoderar-se do seio da mãe. Mas, na realidade, há um instinto muito determinado, bem evidente e principalmente muito complexo, aquele que preside à escolha tão específica, tão séria, tão íntima de um outro indivíduo tendo em vista a satisfação de uma necessidade sexual. Se apenas se ocultasse sob o prazer dos sentidos a satisfação de uma necessidade dominadora, a beleza ou a sua ausência no outro indivíduo seria diferente. A procura apaixonada da beleza, o valor que se lhe atribui, a escolha que se efectua, são alheios ao interesse próprio daquele que escolhe, embora este assim o pense mas, evidentemente ao interesse do futuro ser, no qual importa manter o mais possível integral e puro a forma humana. Na realidade, inúmeros acidentes físicos e inúmeras desgraças morais podem provocar a imperfeição nessa forma: apesar disso, é sempre de novo recuperado, graças a esse sentimento da beleza que vulgarmente dirige o instinto dos sexos, sem o qual o amor não passaria de uma necessidade revoltante.


O "Ovo do Mundo"


Estas considerações esclarecem luminosamente sobre a natureza própria de todo o instinto; como se depreende delas, o seu papel consiste quase sempre em fazer com que o indivíduo proceda para bem da espécie. Porque, evidentemente, a actividade de um insecto em procurar uma certa flor, um determinado fruto, um excremento ou um pedaço de carne, ou então, como o icneumon, a larva de outro insecto para aí depor os ovos; a indiferença com que enfrenta o trabalho e o perigo quando se trata de o conseguir, são muito semelhantes à preferência exclusiva do homem por uma certa mulher, para satisfação do instinto sexual, aquela cuja natureza própria corresponde à sua: procura-a com tão apaixonado zelo que, a despeito da razão, é mais fácil sacrificar a felicidade da sua vida do que perder o seu objectivo; não pondera perante um casamento insensato, nem perante ligações ruinosas, nem perante a desonra ou actos criminosos como o adultério ou a violação, e isto unicamente para servir a finalidade da espécie, sob a soberana lei da natureza, em detrimento do próprio indivíduo. Na generalidade, o instinto parece dirigido por uma intenção individual, embora a ela seja completamente estranha. Sempre que o indivíduo, entregue a si próprio, for incapaz de compreender os determinismos da natureza, ou por impulso lhe resista, ela provoca o instinto; eis porque este é atribuído aos animais inferiores mais desprovidos de inteligência; porém o homem não se lhe submete senão no particularismo de que nos ocupamos. Não porque o homem fosse incapaz de compreender o fim da natureza, mas não o levaria a efeito com todo o zelo necessário, mesmo à custa da sua própria felicidade. Também neste instinto, como em todos os outros, a verdade escuda-se na ilusão para agir sobre a vontade. É na ilusão da volúpia que os olhos do homem brilham perante a imagem mistificadora de uma felicidade sem medida e sem limites nos braços de alguém tão belo que, a seu ver, qualquer outra criatura humana será incapaz de igualar; outra ilusão ainda, quando imagina que a posse de um único ser no mundo lhe assegura, do mesmo modo, a felicidade suprema. Julga sacrificar ao seu próprio prazer todas as dificuldades e esforços, quando na realidade só trabalha para a conservação do tipo específico da espécie, para a procriação de um certo indivíduo perfeitamente determinado que necessita dessa união para se realizar e participar da existência. É tão característico do instinto proceder deste modo – com vista a uma finalidade que não identifica claramente –, que o homem, levado pela ilusão que o invade, por vezes se horroriza perante o fim a que está destinado, que é o da procriação dos seres; desejaria mesmo evitá-lo; é o que sucede em quase todas as ligações ilegítimas. A partir da nossa caracterização precedente da paixão, uma vez satisfeita, todo o amante experimenta uma decepção invulgar; descobre que o objecto de tanto desejo e paixão só lhe proporciona uma vulgar satisfação sexual, a que se segue um rápido desencanto. Esse desejo é comparável com outros desejos que invadem o coração do homem, tal como a espécie o é para o indivíduo, ou como o infinito é para o finito. Só a espécie, pelo contrário, aproveita da realização do desejo, mas disso o indivíduo não toma consciência; todos os sacrifícios a que se impôs, impelido pela vontade da espécie, serviram para uma finalidade que não lhe pertencia. Também todo o amante, após ter realizado a grande acção da natureza, se encontra iludido; porque a ilusão que o tornava vítima da espécie, desapareceu. Eis porque Platão disse muito bem: «O prazer é de todas as coisas a mais vã» (Filebo, 65c).

Estas considerações lançam nova luz sobre os instintos e o sentido estético dos animais. Também estes são dominados por essa faceta da ilusão que lhes oferece a imagem enganadora do seu próprio prazer, enquanto trabalham com tanto empenho e de modo tão desinteressado para a conservação da espécie: eis porque a ave constrói o ninho, o insecto procura o local ideal para a postura dos ovos, ou se entrega à caça de uma presa de que ele não aproveitará, a qual irá servir de alimento às futuras larvas e colocará ao lado dos ovos; assim é também a abelha, a vespa, a formiga, as quais trabalham nas suas engenhosas construções de acordo com a complexidade da sua economia. O que determina todos estes animais, é uma ilusão evidente que coloca ao serviço da espécie a ilusão de um interesse próprio. É esta a única explicação verosímil do fenómeno interno ou subjectivo que determina as manifestações do instinto. Mas, exteriormente, ou de modo objectivo, observamos nos animais mais sujeitos ao poder do instinto, principalmente nos insectos, o predomínio do sistema ganglionar, isto é, do sistema nervoso subjectivo sobre o sistema cerebral ou objectivo; de onde se conclui que os animais são impelidos não tanto por uma inteligência objectiva e exacta como por representações subjectivas geradoras de desejos que provêm da acção do sistema ganglionar sobre o cérebro, o que bem demonstra que se encontram sujeitos a uma espécie de ilusão: e esse será o procedimento fisiológico de todo o instinto. – Irei referir ainda outro exemplo, ainda que menos determinante, do instinto no ser humano: o apetite caprichoso da mulher grávida parece ter origem no facto de que a alimentação do embrião provoca por vezes determinadas modificações específicas do sangue que a ele aflui; deste modo, o alimento que produz esta modificação é representado de imediato no espírito da mulher grávida como objecto de vivo desejo, ainda que ilusório. É assim que a mulher possui a mais um instinto do que o homem: o sistema ganglionar é igualmente bastante mais desenvolvido na mulher. – A maior preponderância do cérebro explica porque o ser humano possui menos instinto que os animais e porque é que os seus instintos algumas vezes se desviam da norma. Assim, por exemplo, o sentido do belo que determina instintivamente a escolha tendo em vista a satisfação sexual, é nulo quando este degenera em vício contra a natureza; este caso é comparável ao da mosca azul (musca vomitoria) que, em vez de dispor os ovos segundo o seu instinto, sobre carne em decomposição, depõe-os sobre a flor do arum dracunculus iludida pelo aroma pútrido dessa planta.


A ideia de que todo o amor tem por fundamento o instinto dirigido para a reprodução da espécie ficará mais evidente se analisarmos em detalhe esse instinto que vamos ver (in Metafísica do Amor, Pequena Biblioteca, 2002, pp. 13-30).


(1) Não me atrevi a exprimir-me aqui com precisão: que a benevolência do leitor traduza pois esta frase na língua de Aristófanes (Nota do Tradutor).

Continua

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Do aristotelismo camonino

Escrito por Luís de Camões





Transforma-se o amador na cousa amada
Por virtude de muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
E o vivo e puro amor de que sou feito
Como a matéria simples busca a forma.

(In «Sonetos»).



terça-feira, 8 de novembro de 2011

Diálogos de Amor (ii)

Escrito por Leão Hebreu





«Aristóteles foi o mais notável dos discípulos de Platão. (…) Abandonou Platão, sendo este ainda vivo, o que levou Platão a afirmar que Aristóteles o espezinhara como um potro, que dá uma parelha de coices na mãe».

Diógenes Laércio


«Aristóteles estudou demoradamente a dialéctica socrática, de que descreveu o processo nos livros de Tópicos, distinguindo-a nitidamente dos dizeres sofísticos, aos quais dedicou também um livro especial. Quanto ao método platónico, que combina a mitologia órfica com a ciência pitagórica, critica-o Aristóteles com maior respeito, não só pela gratidão para com o mestre, mas também porque lhe reconhece o intento de investigação da verdade. A exigência socrática da definição perfeita realiza-se no conceito, dotado de extensão e de compreensão. O erro platónico verifica-se na transformação mitológica do conceito em ideia, conceito sem extensão, portanto sem plural, guardando uma singularidade misteriosa que só a poucos seria dado ver por processos mnésicos, gnósicos e teoréticos. A singularidade ou unicidade da ideia, separada do mundo sensível quando meramente inteligível, suscitava problemas que não poderiam ser resolvidos pelo uso oportuno da palavra participação».

Álvaro Ribeiro


«Houve já vários intérpretes que o fizeram notar: a "forma" de Aristóteles é apenas a "ideia" de Platão trazida do céu para a terra. E, com efeito, Aristóteles nega a existência separada de uma oliveira em si, de um cão em si, de um homem em si, segundo os quais seriam construídos ou dos quais participariam as oliveiras, os cães e os homens particulares».

André Cresson


«Se entre as acções virtuosas, as que o homem pratica na vida civil e na vida militar prevalecem sobre todas as outras pelo heroísmo, pela beleza e pela magnanimidade, certo é que dependem por sua vez de valores mais desejados, e por isso não constituem propriamente virtudes. Falta-lhes, aliás, a paz de alma, indispensável à verdadeira felicidade.

A actividade da inteligência apresenta, pelo contrário, esta particularidade distintiva mais importante: é especulativa, e não está subordinada a outro fim; é acompanhada de uma alegria bem sua e perfeita, que lhe dá maior vigor; basta-se a si própria num lazer sem fadiga, pelo menos tanto quanto é possível ao homem, e parece reunir todas as condições da felicidade. A actividade pura da inteligência constituiria a perfeita felicidade do homem, se pudesse preencher a duração total da vida, já que nada de incompleto pode constituir a felicidade. Uma vida tal seria demasiado bela para ser uma vida humana! Se ao homem é por momentos dado viver assim, tal não acontece por virtude da sua condição de homem, mas porque há dentro dele algo divino; e tanto quanto esta faculdade difere do composto humano, tanto a sua actividade difere das outras virtudes. Se a inteligência é, portanto, divina em relação ao homem, a vida inteligente é também divina, em comparação com a vida humana. Diremos, por consequência, que ao homem não basta, como muitos preceituam, ter pensamentos humanos, nem aos mortais pensamentos mortais; tanto quanto nos seja possível, cumpre-nos sermos imortais, esforçando-nos por viver segundo o que, para a nossa vida, considerarmos melhor; este melhor tem certamente pouco lugar na nossa vida, mas pelo seu poder e pela sua dignidade está sem dúvida acima de tudo!».

Aristóteles


«Saber era subir da sombra à luz, da imagem ao objecto, (…) das aparências aos seus princípios com Platão, ou era, com Aristóteles, ver nos indivíduos as formas que são o acto da sua existência, reduzir os fenómenos às causas e razões pela sua participação na luz dos princípios.






Se a física de Platão é uma promoção da matemática, seja uma anamnese do inteligível pitagórico, a de Aristóteles, pela hierarquia das potências actualizando-se até ao acto puro, é, no pensamento, uma ascensão para os princípios universais e é, no objecto, uma aspiração para o inacessível vértice da pirâmide da natureza, que é o Motor Imóvel».

Leonardo Coimbra


«Platão e Aristóteles se reúnem sem contradição, como complementares e indispensáveis um ao outro, num Deus, já não pessoa da Trindade, mas reunião indefinível, supraconceitual, de todas elas três; se reúnem no único Deus total e verdadeiro que existe: o que, não sendo, vai sendo o quando, o como e o enquanto somos. A esse Deus, sem culto, cultuaremos com todo o culto; em todo o culto».

Agostinho da Silva


«Participar vem do latim participare, e de participatio, participação. Etimologicamente vem de capio, capere, que dá cipere e de partis, parte, cipere, sinónimo de recipere. Em seu sentido etimológico, participar é receber de outrem algo. Mas o que é recebido é recebido não totalmente (totaliter), pois totaliter recipere seria receber em totalidade algo (áliquid). É intuitivo que o conceito de participar implica um receber parcial de algo (aliquid) de outro (ab alio). O que participa é o participante, o qual participa do participável (participable = o que pode ser recebido) de outro, o participado.

(...) Assim, entre as formas e os seres do mundo sensível, há uma certa univocidade. E essa univocidade foi pressentida por Tomás de Aquino ao comentar o livro décimo da Metafísica de Aristóteles. A espécie é univocamente predicada da espécie como forma, e da espécie na singularidade, mas as duas espécies são distintas, por ser incorruptível a primeira, e corruptível a segunda.

As formas platónicas não estão submetidas ao devir, nem ao nascimento nem à morte, e Tomás de Aquino, na "Suma Teológica", referindo-se a elas, disse: "aos olhos de Platão as formas separadas são absolutas e, por assim dizer, universais, e nos seres sensíveis, ao contrário, elas se encontram misturadas e limitadas"».

Mário Ferreira dos Santos



S. Tomás de Aquino


Aristóteles não nega as ideias platónicas, antes, pelo contrário, confirma-as

Fílon Longo discurso fora necessário para dizer em que consiste a discrepância entre Aristóteles e Platão, seu mestre, quanto a isto das ideias e das razões de cada uma das partes e sobre quais são as que mais convencem. Não tas direi agora, porque seria afastar-nos muito do nosso propósito e fazer prolixa esta nossa conversa. Só te digo, para tua satisfação, que isto que te dissemos sobre as ideias não é negado por Aristóteles, nem pode negá-lo, embora as não chame ideias, porque ele põe que preexiste na mente divina o Nimos do universo (10), que é a ordem sábia do mundo. Desta ordem deriva a perfeição e ordenação do mundo e de todas as suas partes, assim como preexiste na mente do capitão-mor a ordem de todo o seu exército. Desta ordem procede a boa disciplina e os feitos de todo o seu exército e de cada uma das suas partes. Assim que vemos que as ideias platónicas, efectivamente, na mente divina, segundo diversos vocábulos e vários exemplos, são aceites por Aristóteles.

Sofia – Percebo a conformidade. Mas indica-me agora alguma coisa da diferença que há entre eles quanto ao ser das ideias, que tanto Aristóteles, como os seus, se esforçam em negar.


Diferença entre Aristóteles e Platão acerca das ideias

Fílon – Eu já ta direi. Saberás, em suma, que Platão pôs nas ideias todas as existências e substâncias das coisas. E fez isto de tal maneira que tudo o procriado delas no mundo corpóreo se julga que seja mais facilmente sombra da substância, que poder-se dizer essência nem substância. E assim, despreza as formosuras corpóreas nelas mesmas, porque diz que, não sendo elas para outra coisa mais que para mostrar-nos as ideias e guiar-nos no conhecimento delas, segue-se que a sua formosura por si é pouco mais que nada. Aristóteles quer ser mais temperado nisto, porque lhe parece que a suma perfeição do artífice deve produzir perfeitos artificiados neles mesmos. Daqui vem que ele defende que no mundo corpóreo e nas suas partes há essência e substância própria de cada uma delas e que as notícias ideais não são as essências e substâncias das coisas, mas sim causas produtivas e ordenativas delas. Daqui vem o defender ele que as primeiras substâncias são os indivíduos e que em cada um deles se salva a essência das espécies. Destas espécies ele não quer que as universais sejam ideias, que são causa das coisas reais, mas sim os conceitos intelectuais da nossa alma racional, conceitos tirados da substância e essência que há em cada um dos indivíduos reais. E por isto ele chama segundas substâncias aos conceitos universais, por serem abstraídos pelo nosso entendimento dos primeiros individuais. E não quer que as ideias sejam primeiras substâncias, como diz Platão, nem sequer segundas, mas primeiras causas de todas as substâncias corpóreas e de todas as essências compostas de matéria e forma. Na verdade, ele defende que a matéria e o corpo entram na essência e substância das coisas corpóreas e que na definição de toda a essência, definição que se faz por género e diferença, entra primeiro matéria ou corporalidade ou forma material comum por género, e a forma específica por diferença, porque a sua essência e substância são constituídas ambas duas por matéria e forma. E, posto que nas ideias não há matéria e corpo, não cai nelas, segundo ele, essência e substância, mas estas são o divino princípio de quem dependem todas as essências e substâncias, convém a saber, as primeiras como efeitos corporais, e as segundas como imagens espirituais das primeiras. Defende também que as formosuras do mundo corpóreo são verdadeiras, embora sejam causadas e dependentes das primeiras formosuras ideais do primeiro entendimento divino. Desta diferença que há entre os dois teólogos nascem todas as outras que se encontram entre eles sobre as ideias, assim como resulta daqui a maior parte das suas diferenças teologais naturais (11).

Sofia – Agrada-me muito conhecer a diferença. E da mesma maneira agradar-me-ia saber com qual deles se conforma mais o teu parecer neste assunto.




A diferença que há entre Platão e Aristóteles consiste mais nos vocábulos que no significado dos mesmos

Fílon – Quando souberes considerar bem esta diferença, encontrá-la-ás mais facilmente nos vocábulos com a imposição dos mesmos do que no significado deles, sobre a maneira como se devem usar, convém a saber, que quer dizer essência, substância, unidade, verdade, bondade, formosura e outros semelhantes, que se usam para exprimir a realidade das coisas.


Aristóteles deve ser preferido a Platão no uso dos vocábulos

Assim que sigo ambos na sentença, porque é uma mesma a dos dois. No uso dos vocábulos talvez seja de seguir Aristóteles, porque o homem mais moderno lima melhor a linguagem e costuma apropriar os vocábulos às coisas mais subtilmente. Quero também dizer-te isto. Platão, dando-se conta de que os primeiros filósofos da Grécia não estimavam outras essências, substâncias e formosuras senão as corpóreas e vendo ainda que pensavam que não havia nada fora dos corpos, foi-lhe necessário curá-los com o contrário, como verdadeiro médico, ensinando-lhes que os corpos por si mesmos não possuem nenhuma essência, nenhuma substância, nenhuma formosura, como isso é em boa verdade, nem têm outra coisa que a sombra da essência e formosura incorpórea, ideal da mente do sumo artífice do mundo.


Declaração da diferença que há entre Platão e Aristóteles acerca das ideias

Aristóteles, que se deu conta dos filósofos pela doutrina de Platão, filósofos já de todo afastados dos corpos e que julgavam que toda a formosura, essência e substância estava nas ideias e nada no mundo corpóreo, vendo que eles por isto se faziam negligentes no conhecimento das coisas corpóreas e seus actos, movimentos e alterações naturais e nas causas de sua geração e corrupção, da qual negligência havia de resultar defeito e falta de conhecimento abstracto de seus espirituais princípios, porque o grande conhecimento dos efeitos certamente induz a perfeito conhecimento de suas causas, pareceu-lhe por isto tudo que era tempo de temperar o extremo que nisto havia, extremo que, por ventura, viria em processo a exceder o intento platónico. E mostrou, como te disse, existirem propriamente essências no mundo corpóreo e substâncias produzidas e causadas pelas ideias, e existirem nele também verdadeiras formosuras, embora dependentes das puríssimas e perfeitíssimas ideias.


Metáfora bizarra sobre os médicos prudentes

Assim que Platão foi médico que curou a doença com excesso de medicina, e Aristóteles curou-a com o uso do temperamento: foi médico conservador da saúde, já induzida pela indústria de Platão.

Sofia – Não tive pouca satisfação em ouvir e perceber o que quer dizer ideias e como o ser delas é necessário e também que Aristóteles não as nega absolutamente, assim como a diferença que há entre Platão, quanto ao entender e falar delas. E voltando a ele, tu disseste-me que as verdadeiras formosuras são as ideias intelectuais ou notícias exemplares e a ordem do universo e de suas partes preexistentes na mente do seu sumo artífice, isto é, no primeiro entendimento divino. E, embora seja de conceder que nelas exista maior formosura e primeira que a corpórea, como em causas, parece que não é de conceder que as ideias sejam a verdadeira e absolutamente primeira formosura, pela qual toda a outra coisa é formosa, ou formosura. Na verdade, as ideias são muitas, como convém ao dizermos que são as notícias exemplares do universo e de todas as suas partes. Estas são tantas que são quase inumeráveis. E se cada uma das ideias é formosa ou formosura, convém que verdadeira e primeira formosura seja outra mais superior que as ideias, formosura por cuja participação toda a ideia seja formosa, ou formosura. Na verdade, se a verdadeira fosse a própria duma daquelas ideias, nenhuma das outras seria verdadeiramente formosa, nem primeira, mas sim segunda por participação da primeira. Convém, portanto, que me declares qual é a primeira formosura da qual todas as ideias a recebem, porque a verdadeira formosura ideal não satisfaz nisto em virtude da sua multidão.



Os defeitos e imperfeições dos efeitos não procedem de suas causas

Fílon – Agrada-me esta dúvida que levantaste, porque a solução dela porá termo satisfatório ao desejo que tens de saber qual é a verdadeira e primeira formosura. E antes de todas as coisas digo-te que te enganas, crendo que nas ideias há diversidade e multidão dividida, como nas partes mundanas que procedem delas. Na verdade, os defeitos não procedem dos efeitos e não se encontram nas coisas perfeitas os efeitos porque são efeitos, e por causa deles, mas sim porque são próprios do ser efectivo e estão muito distantes da perfeição da causa. E por isto temos defeitos nos efeitos, mas esses defeitos não preexistem nem vêm de suas causas (12).

Sofia – Pelo contrário, parece que das boas causas vêm os bons efeitos, e os efeitos devem ser tão semelhantes às causas, que por eles se possam conhecer essas mesmas causas.


Diferença que há entre a causa e o efeito

Fílon – Embora da boa causa venha o bom efeito, nem por isso se iguala a bondade e perfeição do efeito à da causa. E, embora o efeito se assemelhe a sua causa, nem por isso a iguala nas coisas perfeitas. Bem é verdade que a perfeição da causa induz perfeição no efeito, perfeição proporcionada ao mesmo efeito, mas não igual à da causa. Na verdade, se assim fosse, o efeito seria causa, ou a causa seria efeito, e não causa.


Igualdade de efeito e causa: só diferem na perfeição

Embora seja verdade que tão bom e perfeito é o efeito para efeito como a causa para causa, mas só na perfeição não são iguais. Pelo contrário, ao efeito falta muito da perfeição da causa. E por isto encontram-se defeitos no efeito, defeitos que não se encontram na causa.

Sofia – Entendo bem a razão, mas desejava algum exemplo.

Fílon – Sabes bem que o mundo corpóreo procede do incorpóreo, como efeito próprio de sua causa e artífice. Contudo, o corpóreo não tem a perfeição do incorpóreo. E bem vês quanto falta ao corpo em comparação com o entendimento. E, embora tu encontres muitos defeitos no corpo, como a medida, a divisão e nalguns a alteração e a corrupção, nem por isso deves julgar que preexistem nas causas intelectuais deles sob forma defeituosa, mas julgarás que isso está só no efeito por seu defeito em relação com a causa.


De que maneira as ideias são muitas e é una e indivisível

Assim, pois, a pluralidade, divisão e diversidade que se encontram nas coisas mundanas, não penses que preexistem nas notícias ideais delas. Pelo contrário, o que no entendimento divino é uno e indivisível, multiplica-se idealmente em direcção às causadas partes do mundo, e em relação com elas as ideias são muitas, mas nesse entendimento a ideia é una e indivisível.

Sofia – Como queres tu que as notícias de muitas e diversas coisas seja una em si?

Fílon – Não são partes do universo essas muitas coisas?

Sofia – Sim, o são.

Fílon – E o universo todo, com todas as suas partes, não é uno em si?

Sofia – Em grande verdade o é.

A ideia do universo é una em si, e não em muitas.

Fílon – Portanto, a notícia do universo e sua ideia é una em si, e não em muitas.

Sofia – Assim é. Mas, como o universo, sendo uno, tem muitas partes diversamente essenciadas, assim aquela notícia e ideia do universo terá em muitas diversas ideias.




A ideia que está no entendimento divino, embora seja multiplicada com ordem em direcção às muitas partes do universo, nem por isso admite diversidade em si, nem divisão, nem número dividido

Fílon – Quando realmente eu te concedesse que a ideia do universo contém muitas ideias das partes do universo, não há dúvida que, assim como a formosura de cada uma é participada da formosura do todo, assim a formosura da ideia de todo o universo precede a formosura das ideias parciais, e esta, como primeira, é verdadeira formosura. E, ao ser participada às outras ideias particulares, torna-as formosas gradualmente. Contudo a multiplicação das ideias apartadamente uma da outra não é de conceder, porque, embora a primeira ideia do universo que está na mente do sumo Criador, seja multiforme, isto é, de muitas maneiras com ordem às essenciais partes do mundo, nem por isso aquela multiformidade induz pela diversidade essencial separável, nem participação dimensional, nem número dividido, como faz nas partes do universo, mas é de tal maneira multiforme, que fica indivisível em si, pura e simplicíssima e em perfeita unidade, contendo justamente a pluralidade de todas as partes do universo produzido, com toda a ordem de seus graus, de tal maneira que, onde está uma, estão todas e o serem todas não impedem a unidade de uma. Ali, um contrário não está dividido do outro em lugar, nem é diverso em essência oponente, mas está juntamente na ideia de fogo e na de água, e na de simples e na de composto, e na de cada parte encontra-se a do universo todo, e na de todo está a de cada uma das partes. Isto é de tal maneira que a multidão no entendimento do primeiro artífice é a pura unidade e a diversidade é de verdadeira identidade (13).


A materialidade das palavras impede a ostensão precisa das coisas espirituais

Isto é de tal maneira assim que o homem pode mais facilmente compreender isto com a mente abstracta que dizê-lo com língua corpórea, porque a matéria das palavras impede a precisa demonstração de tanta puridade, fortemente alheia do pintar corpóreo.

Sofia – Parece-me que percebo esta elevada abstracção e como na unidade consiste multiforme causação e como do uno simplicíssimo dependem muitas coisas apartadas, mas, se me desses algum exemplo sensível, isso agradar-me-ia muito.


Exemplo do Sol para a unidade e relativa diversidade e multiplicidade da primeira ideia



Fílon – Lembro-me de ter-te dado já sobre isto um exemplo visível do Sol com todas as cores e luz particular, porque todas elas dependem dele e consistem nele, como na ideia, todas as essências das cores não estão multiplicadas e divididas no Sol, como o estão nos corpos inferiores que ele ilumina, mas é uma luz essencial que com sua unidade contém todos os graus e diferenças das cores e a luz do universo. Por aqui verás que quando esse puro Sol se imprime nas nuvens húmidas e opostas, faz o arco chamado íris, composto de muitas e diversas cores misturadas de tal sorte, que não poderás conhecer se estão todas juntamente ou cada uma de por si. E assim também, quando se representa esse Sol nos nossos olhos, causa na nossa pupila uma multidão de cores e luzes diversas todas juntamente, de tal modo que sentimos que a multiplicação está com a unidade sem poder dar entre elas diversidade alguma separável. Desta maneira também faz lustrosas outras coisas, porque no ar e na água imprime-se com multidão de cores e de luz juntamente sem divisão uma da outra, sendo ela uma simples. Assim que a simplicíssima luz solar, embora em si contenha em unidade todos os graus de luz e cores, representa-se com multidão de cores e de luz nos diversos corpos diversos apartadamente uma da outra, e em nossos olhos e em nossos diáfanos, como o ar e a água, com multiformes e resplandecentes cores tudo juntamente, porque o transparente dista menos de sua simplicidade que o corpo escuro, para recebê-la unidamente. Desta maneira o entendimento do sumo Criador imprime a sua pura e formosíssima ideia. Esta contém todos os graus essenciais da formosura dos corpos do universo, com multidão afastada de formosas essências e diversos graus graduados. E no nosso entendimento e nos outros angélicos e celestiais representa-se com multiformidade, isto é, de muitas maneiras, como formosura unida quanto o entendimento que as recebe é mais excelente em actualidade e claridade. E a maior união causa-lhe maior formosura e mais próxima da primeira e verdadeira formosura da ideia intelectual que está na mente divina. E, para maior satisfação tua, além deste exemplo da semelhança do Sol, vou dar-te outro do entendimento humano, que em natureza é conforme ao exemplar.


Exemplo do conceito intelectual para a unidade e pluralidade da ideia divina do primeiro entendimento

Bem vês que um conceito simples intelectual é representado na nossa fantasia ou é conservado na nossa memória, não naquela una intelectual simplicidade, mas nunca multiforme e unida imaginação, que emana do conceito simples e único, e se representa na nossa pronúncia com multidão apartada de vozes divisamente numeradas, porque em nossa fantasia ou na memória está a representação do conceito de nosso entendimento, da mesma maneira que o Sol se imprime no diáfano e como a formosura divina está em todo o entendimento. E no prolongamento aplicativo imprime-se o conceito, como a luz do Sol se representa nos corpos opacos e como a formosura e sabedoria divina se representa nas diversas partes do mundo criado. De maneira que a semelhança da participação da suma formosura e sabedoria te poderá vir a ser conhecida, não só na luz solar visiva, mas também no simulacro mais próprio da representação dos nossos conceitos intelectuais no sentido interior ou no ouvido exterior (14).

Sofia – Deste-me inteira satisfação com o exemplo da representação da luz solar nas duas maneiras de recebê-la, que são grosso opaco e subtil diáfano, semelhantes à representação da divina ideia intelectual no universo criado nas duas naturezas que a recebem, que são a corpórea e a espiritual intelectiva (in ob. cit., pp. 221-220).


Notas:

(10) Na progressão dos seres há mudanças que não podem continuar-se indefinidamente. Por isso tem de haver um Ser superior que esteja em acto total sem haver n'Ele a mais ligeira potência. Este Ser é a ordem de todo o universo, isto é, podemos chamá-lo NIMOS, porque ele próprio é o pensamento, que se pensa a si mesmo; é o pensamento do pensamento (Metafísica, Delta, 1074 b, 33).






(11) Para nos darmos conta cabal da noção de ideia em Platão, registaremos aqui as seguintes palavras segundo o diálogo Parménides, logo de início: «Se pusermos dum lado as ideias, e do outro as coisas que participam delas, podemos, efectivamente, e facilmente conceber como uma coisa pode ser una e múltipla. É que o um e o múltiplo existem fora das coisas e são diferentes delas, podendo uma mesma coisa participar, ao mesmo tempo, das duas ideias. É assim que uma mesma coisa real pode ter sem contradição semelhança e dessemelhança, grandeza e pequenez». Está clara a separação entre ideia típica e realidade.

Platão esforça-se por provar que a ideia é o ser primeiro e verdadeiro, a fonte e o princípio de todos os seres. [Para] Aristóteles (...) as ideias não existem senão nos indivíduos, pois as ideias não existem senão nestes e são conhecidas por estes. Para ele, as ideias não são mais do que abstracções do espírito, abstracções essas que são obtidas generalizando os caracteres comuns a muitos indivíduos. Por isso, resulta daqui que o princípio e a causa dos indivíduos, não é a ideia, é o próprio indivíduo. Será sempre uma coisa particular actual a que gerará outra coisa particular. Sabemos que assim como um arquitecto faz uma casa, assim é o «homem que gera o homem» (Metafísica, Alfa, 9,991 a 8-11; Zheta, 8, 1033 b 26-32). Eis a base de discussão do assunto que Fílon está a elucidar. Veremos, na parte que se segue do diálogo de L. Hebreu, como ele se inclina para Aristóteles, embora tente explicar as doutrinas platónicas com certa acomodação aos ensinamentos do Estagirita.

(12) Eis o resumo desta fala. Não podemos atribuir os defeitos dum ser efectivado à causa do mesmo, mas sim ao mesmo ser da efectividade, que pode não estar em condições para receber e transmitir as perfeições do causante.

(13) Todos os seres criados foram criados segundo a ideia que existe no entendimento divino, ideia que se identifica com o próprio Deus. Segue-se daqui que essa ideia é una em si mesma, mas diversa na multiplicidade das suas participações pelos seres criados. Eis o rigor teológico com que nos conduz o nosso genial compatriota.

(14) Estabelecido o conceito da unidade de Deus, quer uma Ideia por essência, quer como Formosura total, L. Hebreu apresenta alguns exemplos de participação dessa ideia e dessa formosura pelas criaturas, mostrando-nos a maneira como devemos seguir e interpretar essas participações tão mesquinhas e limitadas.