domingo, 10 de junho de 2012

Homens e mulheres (iv)

Escrito por Álvaro Ribeiro



Dante e Beatriz nas margens do Letes, do pintor venezuelano Cristóbal Rojas.





«Curiosa é a transferência de géneros, ou sexos, da biologia para a cosmologia, e a tão difícil problema dedicou Grimm, que além de filólogo era etnólogo e mitólogo, um estudo de merecida celebridade. O problema continua, porém, insoluto, pois não sabemos qual a razão de atribuir género gramatical a entes sem características anímicas, a entes que nem sequer por alegoria podem merecer atributos de masculinidade ou de feminilidade. Se soubermos ler, com a devida atenção, os poemas célebres de Dante, Camões e Goethe, conseguiremos talvez discernir as razões pelas quais são femininas quase todas as palavras abstractas que designam ideias, ou actividades mentais, como a filosofia».

Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).


«Uma lógica que fosse a repetição da gramática, como erradamente a supõem alguns em Álvaro Ribeiro dizendo que ele não fez mais do que pensar uma filosofia da linguagem, é logo superada pela proposição de que os tropos é que realizam a relação da língua com o pensamento. Assim explica que entre a língua e o pensamento não há uma relação unívoca mas de convergência e de divergência. Esta afirmação implica que há pensamento sem palavras, como se verifica entre os amantes. Também aqui o pensamento aparece como mediação. O amor entre o homem e a mulher não é só o amor entre dois corpos distintos, mas entre duas imaginações que podem atingir o êxtase.

O homem foi criado por Deus, mas a criação não cessou com a queda do homem na história, depois do pecado original. A razão imagina pelo estudo científico do homem actual a antropologia revelada pelo texto sagrado, mas porque seria impiedade alterar uma letra deste texto tem de considerar pseudo-científicas as conclusões do evolucionismo darwinista.

(...) O pecado original é um pecado de imaginação ou, se preferirdes por ser mais claro, um pecado de magia. Álvaro Ribeiro insurge-se contras as explicações do pecado original que nele vêem a relação carnal entre o homem e a mulher. Já Adão tinha conhecido Eva quando se deu o pecado de que temos notícia pelo Génesis.

Há uma degeneração na carne que serviu de carro ou veículo ao amor de Adão por Eva quando ele a conheceu. Os cinco sentidos ou sensos, como prefere dizer Álvaro Ribeiro, puras irradiações do sentido interno, o sensorium communis dos escolásticos, pelo pecado original emergiram na carne e a imaginação passou a confundir-se com a sensação. Com efeito, sem a imaginação não seríamos capazes de reconhecer uma rosa. Sem a imaginação nunca a sensação seria percepção.

(...) Como o conhecimento não é (...) a relação de sujeito-predicado e não é também a relação sujeito-objecto da filosofia alemã, a descida da alma à sensação seria irreconhecível se, através dela, sensação, não fossem possíveis melhores relações. Referimo-nos, evidentemente, ao amor, porque a mulher é que é para o homem o verdadeiro mundo sensível. O conhecimento não é a relação sujeito-objecto mas sim uma relação de espíritos. Desta relação os amantes só tomam conhecimento pela imaginação e pela palavra. Daqui a suprema importância do ensino da arte de imaginar durante a puerícia e a adolescência. "O grau espiritual atingido ou grau de razão escreve o filósofo que é apenas o resultado, variável com os temperamentos e os caracteres, do exercício da imaginação"».

António Telmo («Teoria da Imaginação em Álvaro Ribeiro», in Álvaro Ribeiro e a Filosofia Portuguesa).

José Ortega y Gasset

«Pero hay otra razón más rigorosa y delicada para separar amor y deseo. Desear algo es, en definitiva, tendencia a la posesión de ese algo; donde posesíon significa, de uma u otra manera, que el objeto entre en nuestra órbita y venga como a formar parte de nosotros. Por esta razón, el deseo muere automáticamente cuando se logra; fenece al satisfacerse. El amor, en cambio, es un eterno insatisfecho.

(...)  En el modo de comenzar se parece, ciertamente, el amor al deseo, porque su objeto - cosa o persona - lo excita. El alma se siente irritada, delicadamente herida en un punto por una estimulación que del objeto llega hasta ella. Tal estímulo tiene, pues, una dirección centrípeta: del objeto viene a nosotros. Pero el acto amoroso no comienza sino después de esa excitación; mejor, incitación. Por el poro que ha abierto la flecha incitante del objeto brota el amor y se dirige activamente a éste: camina en sentido inverso a la incitación y a todo deseo. Va del amante a lo amado - de mí al otro - en dirección centrífuga. Este carácter de hallarse psíquicamente en movimiento, en ruta hacia un objeto; el estar de continuo marchando intimamente de nuestro ser al del prójimo, es esencial al amor y al odio. (...). No se trata, sin embargo, de que nos movamos físicamente hacia lo amado, que procuremos la aproximación y convivencia externa. Todos estos actos exteriores nacen, ciertamente, del amor como efectos de él, pero no nos interessan para su definición, y debemos eliminarlos por completo del ensayo que ahora hacemos. Todas mis palabras han de referirse al acto amoroso en su intimidad psíquica como processo en el alma.

No se puede ir al Dios que se ama con las piernas del corpo, y, no obstante, amarle es estar yendo hacia El. En el amar abandonamos la quietud y asiento dentro de nosotros, y emigramos virtualmente hacia el objeto. Y ese constante estar emigrando es estar amando».

José Ortega y Gasset («Estudios sobre el Amor»).


É de observar, porém, que o prolongamento da escolaridade na vida da mulher não vai sem o correlativo afastamento da família, das ocupações domésticas, do cuidado com o vestuário, do asseio no corpo. As raparigas vão perdendo nessas escolas o viço juvenil e a beleza natural, adquirindo precocemente rugas na testa, semi-cerrando os olhos no jeito da miopia, usando óculos que lhes dão um ar feio, tristonho e doentio. Mal vai a mulher quando passa a baixar os olhos, como quem procura um valor perdido, e a olhar para o chão. Ao conversarem com os rapazes, em vez de se exprimirem numa linguagem hiperbólica, tão característica do sexo feminino, passam a falar com ironia, em sinal evidente de doblez de personalidade. Os rapazes conversam com elas, mas procuram outras quando se propõem casar. Nenhum estudante prudente incorrerá no erro de namorar uma colega de curso, quer dizer, uma futura competidora na mesma profissão. Ele prevê que, tarde ou cedo, a mulher instruída será capaz de o criticar e de o humilhar, estabelecendo comparações com outros oficiais do mesmo ofício. A semelhança de estudos e de preocupações profissionais é contrária àquela complementaridade espiritual e anímica que convém para a boa harmonia conjugal. Quando os cônjuges exercem a mesma profissão superior, o marido surpreende-se a observar que a sua mulher, sujeita como ele à escolaridade oficial, não teve tempo de ser suficientemente instruída nos assuntos referentes à habitação, ao mobiliário, ao vestuário e à alimentação. Lembrar-se-á de sua mãe, ou de suas irmãs, lamentará que o seu lar tenha de ser confiado a outra pessoa de família, dotada de maior vocação feminina, ou entregue a serventes mercenárias, que anulam as tradições.





Nem todas as raparigas se submetem à escolaridade preparatória para os estudos superiores. As que desistem, desviam a sua actividade para o trabalho nos escritórios do comércio e da indústria. Está o erro na lei que considera o curso geral dos liceus um curso de cultura geral e também um curso de habilitação profissional, visto que exige a respectiva certidão a quem pretenda ingressar nos primeiros quadros da burocracia. Está o erro na lei que não considera diferenças de idade nem diferenças de sexo nas condições de acesso aos empregos particulares e públicos. Admitida nos ambientes de trabalho, a mulher deixa de dedicar as manhãs à vida doméstica, e até de aperfeiçoar os cuidados com a sua própria pessoa. Integrada nos ambientes de trabalho, a mulher perde a paciência de esperar até aos vinte e cinco anos a vocação, ou chamada, para o matrimónio. Atraída pelos enganos do ambiente social, a mulher deixa de cumprir a sua missão natural.

Transferidas, assim, das suas residências particulares para os lugares de maior ou menor acesso ao público, as mulheres vão involuntariamente aprendendo a falar como os homens, numa pobre estilização sem beleza. Talvez falem com rigor, com exactidão, com propriedade, como nunca falariam no recato doméstico ou nas reuniões mundanas, mas usam por isso mesmo de certos modos de dizer, ásperos e deselegantes, que os homens não gostam de ouvir. Com a garganta rouca e a voz seca, as mulheres já não sabem o que dizem. Não sabem, não saboreiam a terna e líquida linguagem da sua espontânea invenção. Em vez de causar encanto, a palavra feminina passa a causar atrito.

Vemos as mulheres envelhecendo nas repartições públicas, conversando umas com as outras acerca de descontos, faltas e licenças, ou comentando as diferenças e excepções que perturbam a rotina burocrática; depois, à mígua de assuntos mais emocionantes, apreciam as intrigas que constam acerca dos seus colegas e dos seus superiores. A inveja está sempre à espreita, e para que ela não fale, acabam-se os abusos, cortam-se as diferenças, restabelece-se a igualdade.

Vemo-las também nos postigos vidrados ou nos balcões de madeira, inspeccionando com azedume e minudência os papéis que lhe são apresentados pelo simples particular que requer um favor, pelo cidadão contribuinte que pretende exercer um legítimo direito, e até por quem deseja receber o devido pagamento de um trabalho já realizado. Elas não perdoam ao pobre desconhecido a ignorância de um artigo da lei, o erro de um algarismo ou de uma letra, a alteração de uma palavra do formulário, o atraso de uma hora no prazo. Recusam-se a receber os papéis, e alegam que cumprem ordens dos seus superiores, aos quais devem obediência. Não querem, não podem ou não sabem ser tolerantes para com quem anda a perder o seu dinheiro, o seu tempo e a sua paciência na via triste de repartição em repartição. A verdade é que em consequência de vários desenganos, as mulheres empregadas perdem a natural compaixão para com os que sofrem, e não se mostram condescendentes para com os erros alheios. Vendo sofrer os outros, por causas de que não são responsáveis, tiram como que uma inconsciente ou secreta vingança da severa disciplina a que estão submetidas.




Muitas vezes a funcionária sabe, porque a sua consciência lhe diz, que nem sempre o que é legal é por isso mesmo justo; mas tal ciência não a inibe de aplicar mecanicamente a lei, o decreto ou o regulamento. É que o mínimo afastamento da interpretação literal e da aplicação mecânica de qualquer lei pode ser interpretado como um abuso de poder, e, consequentemente, provocar represálias da parte dos superiores hierárquicos. Dá quase sempre mau resultado consultar os superiores quanto aos casos indefinidos, e mais ainda informar por escrito dos inconvenientes sociais que pode ter a prática rigorosa de um preceito legal, mas injusto. Aliás, a contribuição dos funcionários inferiores para o aperfeiçoamento do serviço público é quase sempre desdenhada, repelida ou anulada; não consta como elemento de promoção na carreira profissional; não é apreciada pelo seu valor moral. Tal indiferença dos superiores para com o zelo dos inferiores exerce um amargo desgaste sobre as possibilidades criadoras do trabalhador de qualquer ordem, seja homem ou mulher.

A deformação profissional, obrigando a ver na lei, no decreto ou no regulamento uma espécie de máquina intelectual cujos rodísios são os artigos, as alíneas e os números, espelha-se numa mentalidade de necessitarismo intelectual que actua inflexivelmente. As mulheres respeitam a ordem escrita, e trabalham com rigoroso jeito de dedicação aos seus superiores. Falta-lhes, por isso, o engenho capaz de lutar contra a rotina, de contornar os obstáculos burocráticos, de facilitar o serviço público. Os homens, pelo contrário, mostram-se muito mais compreensivos das dificuldades dos seus semelhantes, e quando querem usam da imaginação para resolver com rapidez os mais difíceis problemas administrativos.

Também no domínio do trabalho fabril o preceito moderno dos direitos iguais para homens e mulheres tem sido aplicado precipitada e levianamente, sem consideração das diferenças psicológicas entre os dois sexos. Foram esquecidas as verdades que eram conhecidas na Antiguidade e na Idade Média, mas que pareciam inadequadas ao ambiente onde existem máquinas, - máquinas metálicas ou máquinas mentais, - como nas oficinas, nos escritórios e nas repartições públicas.

Estudos recentes de sociologia do trabalho mostram que homens e mulheres cooperam de diversos modos no mesmo ambiente, conforme as mútuas disposições de simpatia ou antipatia. Entre os homens é relativamente fácil que sujeitem as suas amizades ou inimizades a uma disciplina comum. Nos ambientes mistos, em que trabalham pessoas dos dois sexos, já não é assim. As probabilidades do rendimento do trabalho variam conforme as tarefas são distribuídas a pessoas de um ou outro sexo, e diminuem por influência de factores de perturbação que só a pouco e pouco vão sendo determinadas pelos sociologistas (15).

A ascensão da mulher às profissões superiores que exigem preparação universitária deixa prever, e enunciar, o problema sociológico do destino moral das futuras gerações. A influência social da mulher será cada vez maior; mas há que distinguir entre a mulher cultivada segundo os padrões da mentalidade masculina, e a mulher cultivada segundo as tradições, de harmonia com os fenómenos naturais. Nos estritos limites da disciplina que cultiva, a mulher pensará segundo a ciência, e portanto será firme, não se sujeitará às oscilações da opinião. Nos outros domínios da influência social, a mulher seguirá predominantemente uma opinião conservadora. Compete-lhe mantes as instituições estabelecidas e respeitar os legítimos representantes. A mulher tende a ver em cada militar um herói, em cada professor um sábio, em cada sacerdote um santo; mas porque não meditou profundamente no que é a heroicidade, a sabedoria e a santidade, dificilmente admitirá que haja excepções à regra. Só por um motivo sentimental, por ódio ou por amor, se desviará da linha da apologia, quebrará a sua docilidade; mas, ainda assim, a admissão forçada de um caso excepcional não altera a aceitação benévola da sociedade que lhe convém conservar.


Conforme observam vários sociólogos, a mulher mostra-se pressurosa a resolver casos pessoais, numa solicitude admirável em comparação com o egoísmo masculino, socorrendo os degenerados, os desgraçados e os infelizes.

Herbert Spencer, ao tratar magistralmente da psicologia comparativa dos dois sexos humanos, observa «a aptidão da inteligência feminina para considerar o que está próximo e o que é concreto, de preferência ao que é abstracto e está distante. Na mulher, a faculdade representativa é pronta e nítida para o pessoal, para o especial e para o imediato, mas apreende com dificuldade o geral e o impessoal. A representação nítida das consequências directas e simples exclui quase sempre do seu espírito a das consequências complexas e indirectas». Depois de apresentar exemplos extraídos da vida doméstica prossegue: «Esta  diferença na maneira de apreciar as consequências influi nos seus juízos acerca das questões sociais; é por esta razão que as mulheres cometem, mais vezes do que nós, o erro de pensar no bem público imediato, que procuram realizar, sem pensar nos males públicos mais afastados» (16). Quer dizer, ainda quando se dediquem a trabalhar em instituições de assistência, prestando auxílio imediato a uma pessoa ou a uma família, não perguntam a si mesmas porque é que tais casos se repetem incessantemente, e agravam a estabilidade no erro que caracteriza as sociedades conservadoras. Incapaz de perscrutar até ao pecado original a causa secreta, mas operante, da infelicidade humana, porque na sua alma ignora os malefícios do instinto de nutrição e do instinto de agressão, a mulher será sempre incapaz de compreender o que é nos povos o verdadeiro anseio de Justiça (in ob. cit., pp. 138-144).


Notas: 

(15) Jorge Simmel, Cultura feminina y outros ensayos, Traducción directa del alemán, Quinta Edición, Buenos Aires, 1943. É o volume número 38 da Colección Austral.

(16) Herbert Spencer, Introduction à la Science Sociale, Deuxième Édition, Paris, 1875, Cap. XV, pp. 410-411.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Homens e mulheres (iii)

Escrito por Álvaro Ribeiro




«Entram as sociedades em desagregação quando esquecem, ou desconhecem que a vocação da mulher consiste essencialmente na maternidade, no amor pelo varão eleito, na dedicação pelos que sofrem. Desviar a mulher do seu caminho natural, propondo-lhe fins artificiais ou artificiosos, a que só por prestígio é dada a aparência de elevados, equivale a perverter a mentalidade feminina. A perversão será sempre perversão forçada onde houver instrução e ensino comuns a ambos os sexos.

A doutrina de que o ensino das escolas para o sexo feminino não deve ser igual ao ensino das escolas para o sexo masculino, é a doutrina da educação sexuada, o que facilmente se entende e se aprova logo que se der à palavra sexo o significado sociológico que lhe convém. Há que preservar, pelo menos durante o período que vai da infância à puberdade, as faculdades próprias da alma feminina, cujo desenvolvimento será vantajoso para a harmonia social. Esta precaução não vai de encontro ao movimento reivindicador de iguais direitos civis para ambos os sexos, nem retira à mulher a possibilidade de frequentar as mesmas escolas especializadas, de exercer as mesmas profissões sociais, ou de cumprir os mesmos deveres políticos que os homens.

A existência de dois tipos de ensino, com programas, métodos e livros diferentes, permitirá a existência de duas perspectivas perante a mesma realidade, uma e outra indispensáveis à ciência. A cultura feminina e a cultura masculina, apresentando-se como complementares, exercem na sua reciprocidade estímulos convenientes para melhor compreensão do Universo. Educados diversamente até à puberdade, e habilitados depois para diferentes funções sociais, os dois sexos mutuamente corrigiriam as teorias unilaterais e uniformizantes que atrasam ou paralisam a evolução da humanidade.

A tendência da alma feminina para a personificação, para compreender mais facilmente as relações de pessoas com pessoas, do que as relações das pessoas com as ideias e com as coisas, é doutrina assente nos bons livros de psicologia. É pessoal a mediação da mulher com o Universo. Transferindo para a pedagogia os ensinamentos da psicologia, facilmente chegaremos à conjectura de qual deva ser a didáctica do jogo, da arte e do trabalho na escola feminina».

Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).


«...O que de divino os pagãos atribuem às mulheres - a insaciedade nunca satisfeita, a possessão sem limites, a crueldade inesgotável - faz delas, ao exercerem poderes como são os da política, o pior dos flagelos. Exemplo: Indira Gandhi esterilizando os homens para travar o crescimento demográfico.


Mahatma Gandhi e Indira Gandhi (1920).



 Indira Gandhi



Yasser Arafat e Indira Gandhi


O que de divino os cristãos atribuem às mulheres - dádiva sem reservas, ternura sem descanso, dedicação sem fronteiras - faz delas, ao exercerem poderes como são os da política, vítimas flageladas: quantas Joanas d'Arc queimadas por bruxaria».

Orlando Vitorino («O processo das Presidenciais 86»).



«Ah! mas o teu olhar não tem fundo, através dele eu vejo o Universo.

Ele é para a minha alma uma janela donde olho Deus».

Leonardo Coimbra («Adoração»).



Exemplos destes podem ser extraídos dos diálogos que constituem peças de teatro, mas também dos diálogos que formam parte indispensável dos contos, dos romances e das novelas. Agrupando tais exemplos por suas semelhanças retóricas, poderemos ver que os respectivos grupos se classificam e escalam segundo um critério muito interessante.

Consideremos, por exemplo, o insulto, e não esqueçamos que ele tem um poder mágico. A injúria é, por isso, mais do que uma agressão; é uma forma de domínio sobre a outra pessoa, ou um processo de a convencer de que não possui o valor que a si própria se atribuía. É um juízo de não valor. Ainda que a pessoa ofendida resista pelo orgulho a acreditar nesse juízo, fica, no entanto, sujeita a proceder como se acreditasse, a tirar vingança, a corrigir os defeitos de que toma consciência. Sugestionada, tende por fim a relaxar-se com o defeito incorrigível. Se a injúria não tivesse este efeito, ninguém compreenderia que ela soasse inutilmente, como um flatus vocis.

Consideremos, em segundo lugar, o processo feminino de atribuir ao homem intenções que ele não tem, e sobre essa hipótese reconstituir a motivação dos actos masculinos. O homem vê-se embaraçado para justificar, explicar e enunciar os motivos do seu procedimento, mas é quase sempre dominado pela retórica da mulher.

Neste domínio, a mulher inculta mostra-se muito melhor psicóloga do que os políticos doutorados. Estes conhecem os motivos gerais das acções humanas, dizem que determinado sujeito se move pelo medo, pelo interesse ou pela ambição, procedem a argumentos retóricos. Ignoram, porém, que o homem é um ser pensante, e que o essencial está em saber como é que cada pessoa pensa o seu medo, o seu interesse ou a sua ambição. Sem este conhecimento, o político erra, porque só tem diante de si a estatística.

Em terceiro lugar a mulher actua pelo processo da sugestão que é o recurso à mentira. Ela conhece, digamos assim, os pontos fracos do homem, e agudamente lhe incute desconfiança sobre o seu próprio valor. O processo mais frequente é o de obrigar o homem a pôr em dúvida o valor da memória, levá-lo a admitir que por vezes esqueceu os factos de que foi testemunha, e até as promessas que não cumpriu. Como, entre nós, a memória costuma ser desprezada, visto que o ensino público permite julgar que a boa memória não é sinal de inteligência, o homem não se sente humilhado com a acusação de esquecido, de distraído ou de desatento. Ao ceder, assim, por fraqueza, fica privado da luz espiritual que permitiria argumentar contra a mulher.




É curioso observar, num estudo de retórica, que os mesmos esquemas servem para a mulher se reconciliar com o homem. Bastará preenchê-los com valores opostos na mesma axiologia.

Dominando a economia doméstica, e determinando os encargos da casa, a mulher tem a  possibilidade de demonstrar que não basta ao sustento da família o salário, o ordenado ou o vencimento obtido por trabalho honesto. Na incessante repetição dos seus dizeres aflige o homem até ao momento em que ele, desesperado, toma uma decisão imprevista, mas subordinada aos imperativos do seu carácter moral. A mulher, capaz de realizar maravilhas de economia doméstica, para garantir a alimentação e a educação dos filhos, não se eximirá a atormentar o marido com sucessivas exigências que aumentam os encargos familiares mas que satisfazem as suas ambições.

Muitos homens casados se vêm assim obrigados a desistir das profissões intelectuais a que haviam sido chamados por vocação, e na frenesia de ganharem mais dinheiro que ostentam no lugar da casa em que a mulher domina, desistem de exprimir o seu talento ou de revelar o seu génio em obras de arte. Este caso, frequente entre os escritores, será talvez o mais eloquente para demonstrar que o homem do nosso tempo ignora efectivamente o que seja o amor.

Alegar-se-á, talvez, que esta descrição se encerra no quadro da sociedade burguesa, e que a sociedade burguesa tende a desaparecer. Será talvez, assim. Nessa hipótese, admitamos também que, em consequência do progresso socialista, o homem beneficiará com o adiantamento da cultura estética, ética e religiosa. Efectivamente, quanto mais educado, mais instruído e mais culto for, tanto mais desejará que a mulher amada se afaste dos trabalhos que a desfeiam, debilitam ou envelhecem. A natureza tende a ser aperfeiçoada pela graça. O homem, deixando de ter o egoísmo brutal que observamos nas civilizações decadentes, será cada vez mais afectuoso para com a sua companheira, libertá-la-á de todas as espécies de servidão, preferirá admirá-la e exaltá-la sem fim. Casado, o homem desejará que a mulher concilie a conservação dos seus encantos com a atenção aos deveres domésticos, e não manifestará gratidão para com a mulher que, por motivos moral ou economicamente respeitáveis, ignore a higiene, despreze o toucador, descure o vestuário, desdenhe da moda, abandone o lar. O que o homem não encontrar na sua casa, procurá-lo-á em casa alheia. Eis o motivo principal dos casos de adultério masculino (14).

O homem sofre, e a sua dor só encontrará anestesia, calma ou prazer junto da mulher. Se não obtiver a felicidade do amor, ou porque seja obrigado a manter-se no estado de celibatário, ou porque seja incapaz de chegar a ajustamento afectivo com a mulher que escolheu, procurará compensar a sua frustração pelo exacerbar do instinto agressivo. Este reflexo da vida familiar nota-se na vida profissional, no comportamento para com os subordinados, para com os colegas e até para com os superiores, mas torna-se mais do que notável, porque evidente, onde a opinião se transforma em acção, queremos dizer, na vida pública. O homem infeliz no amor progride às cegas numa estrada ladeada pelo crime ou pela loucura.




Há que integrar o estudo dos factores afectivos na ciência ou disciplina que costuma ser designada por ética. As doutrinas alemãs, que acima de tudo postulam o dever, a obediência ou a vontade, mostraram-se insuficientes para garantir os valores morais. O dever é como a dívida, pressupõe uma restituição ou um regresso. Não é uma graça, como a dádiva. Efectivamente, só a religião do amor, em tudo contrária à religião da dor, só a religião da dádiva em tudo oposta à religião da dívida, se mostrou até agora capaz de estimular o aperfeiçoamento ético da humanidade. Mal vai ao educador que prefere fixar-se na servidão a uma ideologia, em vez de enfrentar estas verdades, ou quando postula, isto é, pede e exige, uma ética inadequada às condições do nosso tempo. O voto de castidade, pobreza e obediência, por muito admirável que seja, só pode ser cumprido por homens superiores, e em perfeitas condições de liberdade. Não é lícito propô-lo à maioria dos seres humanos, nem fazer dele um princípio regulativo do procedimento moral. Faltando à verdade, os homens enredam-se em legislações confusas ou encareceram-se em instituições complexas, que os tornam infelizes, sem que do sofrimento resulte sequer um estímulo de redenção.

Convém que o homem reconheça que a sua infelicidade provém da frustração no amor, e que não receei proclamar a verdade. Importa, a seguir, demonstrar que a mulher também não poderá ser feliz numa vida que a afaste do amor, da maternidade e da família.

Incitar a mulher a que troque o ambiente da família pelo ambiente da escola, incitar a rapariga a que estude em escolas análogas às dos rapazes, sem conhecer a utilidade ou o destino de tais estudos indiferenciados, é um erro social. Toda a escolaridade que a mulher sofrer depois da adolescência estará longe de contribuir para o desenvolvimento da personalidade feminina. Motivos diversos, entre os quais o desejo de se libertar da tutela dos pais, ou da pressão moral do ambiente da família, impelem a adolescente a prolongar os seus estudos em escolas instituídas para rapazes, mas sem finalidade profissional, como o liceu, ou destinadas a profissões masculinas. Ninguém contestará o direito de a rapariga se inscrever nessas escolas, de obter os respectivos diplomas e de exercer as respectivas profissões, porque ninguém deseja ouvir as reivindicações feministas acerca da igual liberdade para ambos os sexos. O argumento de que as condições sociais, ou as barreiras jurídicas, hajam impedido a revelação de génios entre as mulheres que se dedicaram às artes, às letras e às ciências, deve ser afastado da retórica política, para que, depois de estabelecida a igualdade, se torne ainda mais evidente a desigualdade que resulta das diferenças naturais. Assim se fará ver que, constituída como estiver a sociedade, sempre os medíocres se hão-de coligar contra os homens de génio, de modo tal que sobrevivam na fama apenas aqueles que conseguiram vencer todas as adversidades (in ob. cit., pp. 133-138).


(14) Gina Lombroso, La Femme dans la Société Actuelle, Traduit de l'italien par François Le Hénaff, Paris, 1929.




Continua

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Homens e mulheres (ii)

Escrito por Álvaro Ribeiro

«Quando a mulher diz não, em sinal de recusa ao pedido ou ao desejo do homem, deve entender-se a negativa como expressão dilatória que significa um modo de submeter a provas o procedimento do requerente. A mulher diz não para observar e julgar o comportamento do pretendente, e só depois de ter procedido com a devida prudência, explicitará de modo menos insincero a sua meditada deliberação. Só o homem tímido, geralmente um voluntarioso sem experiência, encara como derrota o que é apenas desafio; mas ensinado ou educado saberá elevar-se até aquele plano superior em que situou, ou deseja situar, a mulher preferida. Todo este problema dialéctico é o da cortesia e das cortes de amor, onde a mulher atraiu a si o homem decaído.

(...)  Crer no brilho das aparências é próprio do esteticismo infantil, mas falar cronologicamente representa ainda imatura subjectividade que não imagina a explicação. Classificar pelo vestuário é mais ilusório do que julgar pela pessoa. Há quem se limite a olhar para o trajo, a observar saias e calças, a verificar de que lado estão as casas e de que lado estão os botões, já que nem pelo penteado nem pelo calçado é certo distinguir o homem da mulher. No rosto alheio desaparecem aqueles caracteres distintivos sobre os quais assentava a inspecção do fisiognomista, e a mesma indiferença sexual vai descendo até às mãos. Muitos se contentam com a observação dos mais aparentes caracteres anatómicos, que tanto basta para o comportamento civil, sem suspeitarem que para além da aparência cutânea, divisora dos corpos, o exame fisiológico divisará o que mais profundamente fixa a distinção entre o homem e a mulher. Raros suspeitam que no sistema nervoso há-se necessariamente reflectir-se a mesma distinção fisiológica, e por isso a muitos repugna, como se mistério fosse, admitir que para cada sexo existe uma psicologia diferenciada. No estudo da relação entre a alma, que é a forma do corpo, e o seu falar, evidenciam-se contudo as diferenças de atitude emocional. Onde, porém, cessa até para os mais instruídos a relação filosófica entre as essências e as aparências é na evasiva, mas subtil distinção entre a mentalidade masculina e a mentalidade feminina, caracterizando uma e outra pela singularidade dos processos intelectivos. Conforme for animada, assim a razão procederá na sua investigação de verdade; e se há duas espécies de almas no género humano, não há razão comum que possa ser identificada com a transcendente razão pura».

Álvaro Ribeiro («Estudos Gerais»).


«O que distingue, do ponto de vista católico, o pensamento de Álvaro Ribeiro do daqueles que o precederam é a valorização do sacramento do Matrimónio sobre o sacramento da Ordenação. A reflexão sobre as diferenças no corpo, na alma e no espírito entre o homem e a mulher está sempre presente em tudo quanto escreveu. Haverá uma linguística para o dizer masculino e outra para o dizer feminino, duas psicologias, dois ensinos... É evidente que o leitor comum (...) não pode deixar de considerar antipática esta doutrina. Álvaro Ribeiro aparece-lhe portador de um espírito retrógrado: esse leitor já não a diferença entre o macho e a fêmea; a distinção presente é entre homossexuais e heterossexuais; e, como qualquer dos dois sexos pode participar no homossexualismo ou no heterossexualismo, estes é que dividem, realmente, a humanidade em dois géneros...».

António Telmo («Filosofia e Kabbalah»).


Os escritores políticos que defendem a fórmula, aparentemente generosa, dos direitos iguais para ambos os sexos, necessariamente concluem que à mulher deve ser permitido o acesso a todas as escolas e a todas as profissões. De direito assim será, embora nunca o venha a ser de facto. Passado o momento da exaltação retórica, logo o homem reflectirá, e considerará misericordioso, se não justo, proibir que as mulheres exerçam determinadas profissões. Empregar as mulheres nos trabalhos de Marte ou de Vulcano seria atentar contra as leis da maternidade, e consequentemente, da humanidade. O princípio igualitário passa a ter excepções, as quais apelam por outras, num movimento que tende a restaurar as bases saudáveis da sociedade.

Jennifer Garner




Convém de novo proclamar a verdade de que o aspecto jurídico do casamento interessa muito mais ao sexo masculino do que ao sexo feminino, conforme se prova pelos conceitos fundamentais da legislação da família. O que se observa na abstracta ciência do direito está garantido pelos dados reais das ciências concretas. A fisiologia logo nos diz que o homem é fraco, e de uma fraqueza tal que não pode viver sem companhia feminina; o lar significa, para ele, o calor da alma da mulher, o «fuocolar» de extraordinárias virtudes e prodígios; não apraz ao homem dormir em hotéis, comer em restaurantes, perder-se no anonimato das multidões. É de observar, aliás, como os homens livres manifestam aversão pelo chamado internato, monstruosa empresa na qual a indústria hoteleira domina sobre a indústria escolar, para exploração económica das famílias ricas ou remediadas. A nosso ver, o exercício simultâneo das duas indústrias deveria ser vedado aos estabelecimentos de assistência e de educação; seria de bem público distinguir e separar tanto as duas competências como as duas funções.

Mais do que a mulher, repetimos, o homem anseia pela vida da família. O casamento é um factor de moralidade, mas por casamento entendemos mais a situação de felicidade conjugal do que o acto jurídico. Longe da protecção feminina, longe da família, o homem transforma-se de desequilibrado em degenerado, e de degenerado em deliquente. Está estatisticamente verificado que o maior número de suicídios, de homicídios e de crimes é praticado por homens que vivem fora do perfeito, autêntico e carinhoso ambiente da família (6).

É indispensável abrir os olhos para a verdade, e reconhecer a inferioridade biológica do sexo masculino. O homem saudável é dotado de maior força muscular, mensurável pelo dinamómetro, e portanto apto para os trabalhos violentos da indústria ou da guerra; poderá até, em casos raros, adquirir pela prática desportiva a imponente compleição atlética. Em tudo o mais se verifica, porém, que o homem é fisiologicamente menos resistente que a mulher. Não como comparar os dados estatísticos, dos nascimentos, da longevidade, das doenças e da mortalidade para verificar quanto o sexo feminino resiste, por defesas próprias, a vicissitudes que o homem não pode suportar (7).




A fisiologia tem as suas consequências na patologia. Erradamente se ensina, em psicologia e em ética, que existe uma relação de polaridade entre o prazer e a dor. Não é assim. Quem tiver lido Matéria e Memória saberá dizer que os dois pólos são a estesia e a anestesia. A alma humana, corruptível depois do pecado original, sofre, suporta ou padece a condição carnal. Toda a fisiologia, devidamente simplificada, nos mostra os alternados fenómenos de alimentação e de excreção num ser de natureza que não pode viver só de graça. A dor corresponde a uma dificuldade de expulsão, de excreção e de secreção. Quanto mais intensa, tanto mais susceptível de localização num orgão, ou numa célula. Toda a vida humana é excitada pela dor, com a consciência do respectivo orgão, para que atinja a anestesia que é a inconsciência da vida fisiológica. O médico, ao observar o queixoso, não lhe pergunta se tem prazer ou dor, limita-se a perguntar se o orgão dói ou não dói. A medicina procederá imediatamente a uma forma de anestesia, antes do processo da cura. Muito sensível à dor, o homem, queremos dizer o adulto, pode resistir-lhe pela vontade heróica, pela energia moral, pela representação intelectual, o que significa não ser tão favorecido como a mulher pelo poder regenerador da natureza. Não podemos aludir mais claramente ao mistério, ou sacramento, do matrimónio.

Ao aproximar-se dos vinte e um anos, o mancebo já não suporta o estado de solteiro, procura a companhia da mulher, e consequentemente dispõe-se a casar. Se for saudável, experiente e afectuoso, julgar-se-á suficientemente sábio de amor para cortejar, namorar ou seduzir a mulher. Deitará as suas vistas para aquela que lhe parecer mais formosa, porque crê que a beleza promete felicidade, conforme o dito de Stendhal; mas, por falta de educação estética, confundirá a formosura da adolescente com o esplendor do viço juvenil, mais efémero do que a bondade e a inteligência (8). Estando em condições de fazer a proposta de casamento, de fácil expressão oral, atribui essa facilidade aos seus próprios méritos de sedutor, sem ver que a mulher, ao dar o seu consentimento, não faz mais do que escolher o pai dos seus futuros filhos.

Doutrina certa é a de que a mulher olha sempre para cima, e honra assim aquele que adopta por marido. Já em rapariga preferirá conversar e conviver com rapazes mais idosos do que ela, repelindo com desdém e com ironia os seus coetâneos ou os mais novos pretendentes. Ela procurará realizar o casamento com homem de categoria social superior à sua própria família, preferirá o homem mais rico, mais educado, mais forte, enfim, aquele que melhor realize o seu ideal de superioridade. Se a iniciativa da proposta de casamento compete ao homem, também é verdade que à mulher cabe o direito de aceitá-la ou recusá-la, pelo que a consciência moral protesta contra todas as formas de violação de tal direito, defendido hoje pelas instituições políticas e religiosas. Triste figura apresenta o homem que, na ignorância da psicologia feminina, se jacta de predicados que ostenta em vão.


Vénus

A mulher, repetimos, tem apenas a preocupação inconsciente ou consciente da maternidade, e para esse fim considera como meio o casamento. Por outras palavras: a mulher sente que o fim natural do casamento é a procriação dos filhos, e admite perfeitamente que, depois de os haver educado, o casamento se transforme ou dissolva. A mulher está longe de entender que o matrimónio tenha um fim sobrenatural. Nem sequer a dama religiosa, habituada à prece suplicante da graça e do milagre, se encontra suficientemente instruída para imaginar o que seja o fim sobrenatural do sacramento (9).

Eis porque nos parece falsa, mas própria para as ficções literárias, a doutrina segundo a qual a mulher tem por destino o amor. O que é triste é que o homem assimile essa doutrina, deixando-se iludir pela interpretação errada de um fenómeno verdadeiro. Este modelo literário, teatral e cinematográfico da mulher que se dedica principalmente a amar um só homem, quer por fatalidade de temperamento, quer por inclinação do coração, quer por razão de segurança pessoal, parece-nos a excepção aberrante que se desvia para os caminhos do adultério. A mulher fixa-se a proteger e a educar os filhos. A literatura chamada realista, seguindo a literatura chamada romântica, mostra-se inferior neste ponto à literatura clássica, porque ignorante das leis naturais e sobrenaturais (10).

Esta influência da literatura teve a sua confirmação anti-filosófica no chamado positivismo. Este, negando a introspecção e excluindo a psicologia, considera no amor um resíduo ridículo do romantismo, combatido pelas novas expressões da literatura de intenção socialista. A acção do positivismo chegou ao ponto de suprimir a palavra amor do sistema pedagógico, da legislação política a até do ritual religioso.

O movimento contrário pressupõe a atenção à verdade de que em doutrina positivista, materialista ou naturalista não há lugar para a justificação da monogamia. A literatura clássica dá-nos exemplos das relações de afecto do homem para com a mulher que não correspondem ao nosso conceito de amor. Só uma civilização que reconheça a imortalidade, e portanto a espiritualidade da alma feminina, poderá difundir um conceito de amor em que a natureza se complete com a graça, ou com a arte. Assim se explica que, com conhecimento de causa, só os homens hajam escrito sobre o amor, e entre os homens os filósofos (11).

Entre o Génesis, com seu relato do amor de Adão por Eva, até ao mito de Amor e Psique, transcrito na mais bela obra de Apuleio, oscilam as interpretações dos poetas de génio, como Dante, Milton ou Pascoaes, sem que fique alterada a verdade de que o amor é de essência sobrenatural.






Amar é próprio do homem, quando iluminado pelo espírito, como prova o seu ardente culto pelo eterno feminino (12). Se assim é, cumpre-nos explicar a contradição: a verdade de que na sociedade nossa contemporânea tende a ser eliminado o amor, não só pelo ridículo que sobre ele projecta o homem indigente, mas também pela tendência que o sexo feminino manifesta para imitar o sexo masculino. Oculta-se, a nossos olhos, a causa na falta de cultura, na ausência de cultura, ou na incultura que o positivismo incutiu na nossa sociedade, quando preconizou um ensino só constituído por ciências e técnicas.

Acontece, assim, que a maioria dos homens julga ser o amor um fenómeno natural e um acto espontâneo. Desde que seja saudável, experiente e afectuoso, convencer-se-á o homem medíocre de estar em suficientes condições de ensinar à mulher o que é o amor por que ela espera. Visto, porém, que no domínio do natural e do espontâneo já a rapariga sabia muito mais do que o rapaz, visto também que a mulher sabe muito mais do que o homem, a chamada iniciação amorosa, fora do casamento ou dentro do casamento, revela-se muitas vezes uma frustração seguida de uma decepção. Os positivistas não sabem, não podem saber, o que é o amor. Seja, portanto, reconhecido ao existencialismo o mérito de procurar resolver o problema filosófico, interrogando a literatura acerca da essência do amor (13).

Compete ao homem esclarecer a alma pelo espírito. A mulher, confiando no homem, diz-lhe os seus sonhos, os seus devaneios e as suas fantasias. Fala incessantemente, mas espera que o homem esteja atento e pronto para lhe responder. Ela tem ansiedade de se libertar da terra, mas o seu pensamento não vai além das nuvens evasivas. Custa-lhe atingir a altura dos sentimentos claros e das representações distintas, e apela para a generosidade intelectual do homem. Se ele não souber aproveitar esses momentos de rapto e de assunção, com jupiterna magia de fogo, não será merecedor da dádiva da mulher, porque não completa a obra de amor com a palavra de luz.

Desistindo de ensinar a arte de amar, decai o homem aos olhos da sua companheira que lhe foi dada por Deus. Está neste erro a fraqueza, a demissão, a humilhação do sexo masculino, com todas as consequências morais, ou imorais, de dissolução das sociedades civilizadas. O homem europeu parece já não saber vencer a crise da adolescência: sofre a fixação das categorias mentais pueris e continua a pensar como um andrógino quando segue os estudos comuns a rapazes e raparigas. Tal acontece em consequência de adaptar o meio escolar ao fim profissional, que ignora sexo e carácter, para ver apenas a progressiva maquinização.






Todos verificamos o que está acontecendo, na dificuldade que o homem encontra para seduzir, conquistar e dominar a mulher depois do casamento. Esta arte é mais difícil do que aquela que costuma ser ensinada aos adolescentes, os quais acreditam que por meio da lisonja, da fraude ou da violência conquistam a mulher solteira. Mas é também da arte que depende a felicidade masculina e, consequentemente, a estabilidade moral da sociedade e a conservação das respectivas instituições. O homem que não atinge a felicidade conjugal tirará vingança a exercer o seu instinto agressivo contra os contemporâneos, usando quer de expressões sublimadas que tantas vezes surgem no jornalismo, na política e na guerra, quer de expressões irracionais que tocam as raias do crime.

É indispensável, antes de mais, que o homem conheça a lógica feminina. A bem dizer, não há lógica feminina, porque a mulher não se interessa pelos processos racionais de indagação da verdade. A verdade é pela mulher recebida da palavra do pai, do professor ou do sacerdote. Diremos, portanto, que compete ao homem conhecer a retórica feminina, porque a mulher é exímia na arte de persuadir, convencer e vencer pela palavra, acompanhada do elemento patético ou patológico, quer dizer, da expressão das emoções, dos sentimentos e das paixões.

Nunca devemos esquecer a lição dos fisiologistas que nos dizem que na mulher o campo visual periférico é muito mais amplo do que no homem, graças à mobilidade dos músculos dos olhos que lhe permite uma visão lateral. Além disso, na mulher a fisiognomia é quase que um dado instintivo. É capaz de ver, de descrever e de dizer os sintomas da emoção, do sentimento e da paixão do homem, além dos sintomas da doença e da dor. Usando da sua inteligência, ela descobrirá a causa oculta desse estado afectivo, por uma simpatia de essência divinatória. Simplesmente, incorre muitas vezes no erro de querer obrigar o homem a confessar o que ela sabe ou pressente, usando de perguntas irritantes que abrem caminho paras as dissensões e as zangas. É que o estado de quezília revoga, dissolve ou anula as camadas mais superficiais de uma educação errada, feita à custa de hábitos, exercícios e repetições de retórica. A civilidade estremece e desaparece, para dar vez ao instinto agressivo.

A retórica do instinto agressivo presta-se a uma análise estilística que abre intervalos de luz na psicologia profunda, tanto do homem como da mulher. Veremos que ela vai a pouco e pouco perdendo o seu modo feroz que tem por limite grosseiro o homicídio, que incide no corpo. Deixa de ser a palavra que mata, fere ou humilha para ser a palavra que tortura a alma e o espírito, por modos subtis. Mas ainda aqui são diferentes o comportamento do homem e o da mulher.

A mulher realiza pela zanga uma experimentação caracterológica, porque é nesse momento de contrariedade que o ente humano mais claramente revela o seu próprio ser, normalmente encoberto pelos efeitos da educação e pelas conveniências sociais. Quando está em oposição ao homem, a mulher não desenvolve um encadeamento de raciocínios explicativos e justificativos, mas procede directamente, a golpes imediatos. Ela actua com os seus extraordinários dons de atriz, porque sabe o efeito das suas palavras sobre a mentalidade rígida do homem que a escuta. Este recurso ao espectacular é uma característica do procedimento feminino que se manifesta nos fenómenos patológicos e até inconscientes do que tem sido estudado sob o nome de histerismo (in ob. cit., pp. 125-133).


Notas:

(6) Émile Durkheim, Le Suicide - Étude sociologique, Paris, 1893.

(7) Ashley Montagu, The Natural Superiority of Women, London, 1954.

(8) Stendhal, De L'Amour, Paris, 1822.


(9) Vladimiro Soloviev, A Verdade do Amor, Tradução de Álvaro Ribeiro, Lisboa, 1958.

(10) Honoré de Balzac, Physiologie du Mariage, 1824-1830.

(11) Henri Bergson, Les Deux Sources de la Morale et de la Religion, Paris, 1932, p. 38.

(12) Denis de Rougement, L'Amour et l'Occident, Paris, 1939.

(13) Jean Guitton, Ensaio sobre o Amor Humano, Tradução de Costa Maia, Braga, 1957.

Continua

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Homens e mulheres (i)

Escrito por Álvaro Ribeiro





Sobre a Escola Formal

Um tal de Artur Manso acusa agora Álvaro Ribeiro de machista, dando-o como egoísta perante as mais notórias diferenças corporais, anímicas e espirituais entre o homem e a mulher (in «Nova Águia», n.º 8). E mais diz levianamente que Álvaro Ribeiro era um pensador retrógrado e reaccionário, pois manifestava «o sentimento de um homem, ainda educado sobre o predomínio varonil, a falar dos instintos humanos que não conhece directamente, pois a maternidade é algo que a sua natureza nunca poderá experimentar». 

Ora, exibindo uma estéril quão enfadonha «prosa» académica, Manso mostra, ademais, a sua inépcia em expor e interpretar um pensamento cuja genuína expressão é um dom do espírito e jamais o reflexo de uma educação apodada de retrógrada e reaccionária. E por isso mesmo não há nada como poder ler, à margem de toda e qualquer vulgaridade preconceituosa, o ilustre pensador portuense sobre a oarística ou o diálogo amoroso entre o homem e a mulher.

De resto, é comummente sabido como o establishment universitário se limita a deformar sistematicamente, em nome da objectividade científica, o pensamento dos mais significativos autores da cultura portuguesa. E, nisto, quem por certo melhor o sabia era Orlando Vitorino, que, além do mais, memorara o seguinte:

«Ao atravessarmos a Serra d’Ossa, lugar dos primeiros eremitas cristãos, descemos ao Vale do Infante, antiquíssimo convento rodeado de pomares, para almoçarmos com o Mário Rui que, depois de ter feito as guerras de África e “casado” com a filha de um soba, ter sido príncipe de uma ilha de negros, ter vivido com os árabes do Saara durante uns anos, agora se dedica particularmente à agricultura e ao estudo da filosofia portuguesa. Mostra-me dois grossos cadernos manuscritos de Álvaro Ribeiro. Espantoso e exemplar documento de trabalho intelectual: os cadernos são todos preenchidos com listas de palavras classificadas segundo nexos mentais. De vez em quando, para abonação, aparece um aforismo do próprio Álvaro. Este, por exemplo: “A mulher tem o cérebro no sexo, o homem tem o sexo no cérebro”.

Serra d'Ossa



Imediatamente me lembro de que José Marinho costumava recomendar, na primavera, aos jovens que estavam na idade dos grandes cios e da iniciação filosófica: “Tens de pôr os testículos na cabeça, meu rapaz!» (in «O processo das Presidenciais 86»).

Miguel Bruno Duarte


HOMENS E MULHERES


«En pocas cosas aparece tan de manifiesto la estupidez habitual de las gentes. Como si el amor no fuera, a la postre, um tema teórico del mismo linaje que los demás, y, por tanto, hermético para quien no se acerque a él con agudos instrumentos intelectuales!»

José Ortega y Gasset («Estudios sobre el Amor»).


Quanto mais estudarmos a mulher, tanto mais nos convenceremos que o destino natural do sexo feminino é a maternidade. A observação anatómica do sistema ósseo, do sistema muscular e do sistema nervoso dizem-nos pouco em relação ao muito que nos é ensinado pela fisiologia. A mulher difere do homem quanto ao sistema respiratório e ao sistema sanguíneo, quanto às glândulas de secreção interna, quanto aos orgãos sexuais, primários ou secundários. A fisiologia da mulher tem, por conseguinte, uma patologia diferente da do homem, isto é, um modo diferente de reacção à dor, e portanto, um diverso condicionamento das emoções, dos sentimentos e das paixões. Como é sabido, o sexo feminino difere principalmente do sexo masculino no período que vai da puberdade à menopausa, visto que quando perde a possibilidade de ser mãe, a mulher a pouco e pouco se afasta do seu destino natural (1).

Logo ao sair da infância, quando começa a falar, a menina parece proceder como se tivesse consciência da sua missão social, como se pressentisse já na puerícia aquela vocação que só na puberdade lhe será revelada. O seu equilíbrio natural, que se manifesta em movimentos rítmicos e em expressões de simetria; o seu carinho pelas plantas, pelos animais e pelas pessoas, numa atenção cuidadosa a tudo quanto seja de ternura; o seu pudor que se completa pela modéstia, pela humildade e até pela intenção de servir; conformam-se e configuram-se no tipo superior daquele ser amável que é para nós a mulher.


Comporta-se a menina em conformidade com o desejo de ser mãe muito antes de ter sido instruída sobre as noções elementares da função genesíaca. Ela prossegue na sua tendência para o lugar natural. Ela pensa na maternidade, muito antes de pensar no amor. A rapariga fica desagradavelmente surpreendida na primeira vez que é informada de que a reprodução humana se realiza por processo comum ao das espécies animais; depois conforma-se com os ensinamentos da biologia. Nova perturbação lhe é oferecida quando os educadores demasiado puritanos ou preocupados com a castidade, ensinam a falsidade corrente de que o pecado de Adão e Eva foi o pecado da carne. Esta interpretação maliciosa, mais própria de escritores libertinos, não tem garantia alguma nos textos do Génesis (2). Há que procurar outra interpretação para o pecado da alma, visto que Deus não condenou o amor. A donzela continua a pensar na redenção pelo matrimónio. Da sociologia recebe a advertência de que a maternidade só é honrosa, e honrada, quando resultante do casamento, segundo a ética da monogamia, visto que a moral reprova, condena e persegue as mães solteiras. Tudo isto induz a adolescente a pensar na escolha daquele que há-de ser legítimo pai dos seus filhos. Na inteligência feminina, de arquétipo natural, a maternidade é o fim, de que a relação conjugal é apenas o meio (3).

A mulher inteligente usará do direito obtido ao longo dos séculos, de recusar qualquer pretendente, apoiando-se na doutrina de livre vontade, cuja fórmula permanece na liturgia cristã. Mais difícil lhe foi obter o direito de livre escolha, a iniciativa de sedução, porque a tanto obstaram as tradições sociais e os preconceitos de família. Há na alma feminina a justa aspiração de escolher o homem que lhe parece superior, e essa constante feição do seu romantismo vai variando apenas com os tipos sociais. A mulher despreza o homem medíocre, o homem que não se distingue, o homem incapaz de heroísmo. Dir-se-ia que anseia pelo super-homem. É imensa a literatura que narra os episódios dramáticos da luta por este modo de liberdade, e também imensa a literatura demonstrativa de que nem sempre a mulher ficou vencida. A imaginação feminina, de atracção e repulsão, de motivos e quietivos, é como que a magia da carne. Mais natural do que o homem, a mulher situa o seu afecto na carne da sua carne, dá prioridade afectiva às relações de consanguinidade, ignorando talvez as relações espirituais com o amor.

Quando a adolescente diz que ama o pretendente, o namorado ou o noivo, representa-se mentalmente a imagem do homem escolhido, evoca essa figura entre sentimentos de afecto, pelo que podemos julgar que ela não está a mentir. Usa e abusa do verbo amar e do verbo amor porque foi ensinada a expressar-se como um homem. É vítima sentimental dos equívocos de uma linguagem comum. Não mente à pessoa a quem fala, autosugestiona-se, e por consequência mente a si própria. «Falando muito de amor acaba por ficar amorosa. Tal lhe acontece com muita facilidade» (4).
O verbo aimer, com sua gradação semântica, mostra-nos como do simples gosto é possível chegar à complexa paixão. Não negamos que a adolescente seja capaz de ternura, de dedicação, de fidelidade ao homem eleito, nem pomos em dúvida a sinceridade dos seus afectos; discutimos, sim, se a tais qualidades, ou a tais virtudes, corresponde realmente o conceito de amor.

Atendendo ao mundo exterior, onde se realiza o casamento, ela desatende à sua vida interior, de que está inconsciente. O que no íntimo a mulher deseja é obedecer às leis da Natureza, é cumprir a missão conservadora da espécie humana, inspirada por uma teleologia superior que lhe ensina a utilizar a inteligência, a subordinar os meios aos fins (5).

É certo que, na mesma ordem de ideias, a mulher deseja a estabilidade doméstica, pelo menos durante a gravidez, e não é sem razão que pensa na casa antes de pensar no casamento. O vínculo jurídico interessa muito mais ao homem do que à mulher, e com efeito a legislação da família está em todos os países nitidamente subordinada a conceitos masculinos. Que a mulher concorde total ou parcialmente com essa legislação, porque recebeu determinado ensino moral, político ou religioso, não é argumento que invalide a nossa doutrina.

Há que ver as leis, redigidas por homens, e que ler as sentenças, exaradas por homens, para analisar o pensamento dos legisladores e juízes que obrigam o sexo masculino a cumprir os deveres constitutivos e defensivos da família. A severidade das sanções aplicáveis ao homem que enganar a mulher com promessas de casamento atinge às vezes o grau de uma crueldade por demais eloquente. Embora a opinião pública esteja esclarecida por noções actualizadas do que significam a virgindade, a puberdade e a nubilidade para a mulher do nosso tempo, domina ainda em certos ambientes sociais o preconceito ridículo de considerar ingénua, ainda nos joelhos da mãe, a rapariga que já passou pela escola. O velho Código Penal legitima a injustiça de atribuir ao sexo masculino maior responsabilidade dos crimes que lesam a família, e portanto maior culpabilidade, quando é evidente que não pode ser alegada mútua ignorância num acto comum. Se as leis da família tivessem sido redigidas por mulheres, mas por mulheres de alma feminina, já a compreensão de que a culpa é bilateral, quando culpa existe, suavizaria as sanções morais. Tal não aconteceu, porém; e em consequência assistimos ao absurdo de ser entre nós muito mais defendida a mulher virgem do que protegida a mulher grávida. É de notar ainda que, nos mesmos ambientes mal doutrinados, se acentua a tendência para agravar a legislação determinativa de direitos e deveres, o que infringe um princípio elementar da ética, segundo o qual o cônjuge não deve formular contra o outro qualquer acusação que suba ao tribunal. Esta inviabilidade jurídica dos aspectos do divórcio tem fundamento na moral cristã, quando estiver vigente o preceito do infinito perdão das ofensas; confirma-se ela também com a doutrina segundo a qual os conflitos conjugais devem ser entre si resolvidos pelos dois ministros do sacramento, e em último recurso pelo sacerdote.


Grace Kelly


A autenticidade do casamento está em residirem os cônjuges na mesma casa, ou seja, na coabitação. Assim pensa com naturalidade a mulher. O pensamento masculino é capaz de se afastar desse ponto concreto, e de regressar ao dado abstracto ou extracto do registo civil. O jurista não pensa na carne nem na alma, mas só no espírito de uma instituição, e utopicamente constrói uma doutrina da família sobre as relações legais de parentesco, com seus direitos e obrigações. A concretização opera-se nos bens materiais, económicos e financeiros. Ensinadas, no nosso tempo, a pensarem de modo masculino, e aconselhadas até pelos serviços públicos, muitas mulheres sabem já conciliar uma separação de facto com um vínculo fictício, quando requerem ao tribunal a protecção da lei.

O divórcio é, de facto, o contrário da coabitação; de direito é a sentença que legaliza o facto. Para o divórcio tende quanto vá agravando a separação entre os cônjuges. A ficção jurídica não é suficiente para defender a família e garantir a tradição. Quando a mulher trabalha fora do lar, deixa de haver lar.

Não está nas actuais condições económicas, mas na infiltração de sofismas na ordem moral, a motivação do processo dissolvente do lar. Divulgou-se a tese de que a mulher já não se sente dignificada quando recebe o seu sustento em troca de um trabalho familiar, julga mais honroso receber o dinheiro de uma entidade patronal, ou de um patrão, do que da sua própria família. Ora o dinheiro é a figuração mais nítida do útil, do utilizável e portanto de um poder que desloca, altera e adultera os valores. A exortação a que seja independente do pai, do irmão e até do marido, estimula a vontade da mulher que se propõe sair de casa para trabalhar por conta alheia. É verdade que o trabalho familiar não tem sido reconhecido por lei, nem gratificado pela moral. O homem abusou da dedicação da mulher, mas tal injustiça é hoje evidente. Nestes motivos de ordem ética e de ordem psicológica, que não devemos nem podemos confundir com qualquer necessitarismo sociológico, baseado em descrições de circunstâncias contingentes, é que está a causa do movimento chamado de emancipação da mulher.

A mulher, dotada de superiores recursos de adaptação, encontrará emprego em mais baixo ou mais alto grau da escala social. Começará por trabalhar nos mais rudes serviços de limpeza das habitações, se não tiver quaisquer graus escolares, mas preferirá utilizar as suas aptidões nas indústrias da alimentação, do vestuário e do mobiliário. Na medida em que tiver habilitações escolares equivalentes às dos homens, irá competir com eles nos escritórios, nas repartições públicas, nas profissões liberais. Seja dito que, em igualdade de condições e de circunstâncias, a mulher fará trabalho superior ao do homem, mas para se colocar nessa igualdade de circunstâncias, terá a mulher de desistir de algumas das suas características e resignar-se a perder a sua vocação.

A argentina Mia Maestro

O trabalho muscular, que em qualquer profissão é exigido à mulher, não lhe aumenta a beleza. Com efeito, pelo exercício os músculos vão-se desenvolvendo e tomando o lugar das camadas gordurosas. Os músculos fusiformes que ladeiam o cúbito e o rádio são denunciados pela aparência dos respectivos tendões, tornando mais escuro o antebraço, menos roliço e mais polifacetado, mais feio o pulso. Nos cotovelos, que as mangas curtas deixam ver, a pele endurece, torna-se tão áspera que parece suja. A mão nervosa obriga a emagrecer os dedos. As ancas vão alargando, em progressiva adaptação às cadeiras, e a cinta vai tomando a medida dos ombros. Os músculos extensores da tíbia e do perónio deixam aparecer saliências, e já não há tornozelo delicado que os sapatos realcem. Um corpo que trabalha é marcado pela fadiga. A pele deixa de ser aveludada; torna-se sedosa e depois rugosa. O sulco naso-labial regista o sofrimento, quando a testa começa a estar vincada de rugas, e os olhos mortiços pedem o auxílio dos óculos. A mulher perde a natural magia e, consequentemente, o poder da sedução.

A mulher não suportará sem perigos para a saúde, e para o equilíbrio moral, o voto de virgindade perpétuo, mas em compensação suportará longamente o celibato, a desistência de coabitação com o homem, afirmando com orgulho que se basta a si própria. Em muitos casos declarará que não tem pena de não se ter casado, mas chegará quase sempre a confessar o desgosto de não poder ter sido mãe. Se a transferência do instinto maternal realiza por vezes admiráveis obras de misericórdia que constituem uma coroa de glória para a mulher, certo é também que a involuntária esterilidade se exprime na maior parte das vezes por um ressentimento contra as causas de frustração e exprime-se em formas larvadas de instinto combativo.

É a maternidade, e não o casamento o que verdadeiramente interessa à mulher. Ao homem cumpre fixar a mulher no casamento, porque só desse modo assegura a estabilidade moral. Curioso é, porém, observar que o homem assista indiferente à nova justificação que a mulher alega para não se casar. Há falta de sinceridade, para não dizer hipocrisia, nesta situação em que se colocou o sexo masculino. Ao consentir para as mulheres dos outros o que não deseja para a sua mulher, quer dizer, para a mulher que ama, para aquela a quem dá o melhor do que possui, a quem liberta de cuidados, encargos ou obrigações, segundo as leis constantes do coração humano e praxes dificilmente alteráveis, o apologeta do trabalho feminino exprime em crueldade o seu requintado egoísmo. Se o doutrinador atribuísse o mesmo sentimento a cada um dos seus semelhantes, lhe concedesse o mesmo direito, e pretendesse organizar a sociedade em consequência dessa doutrina, rapidamente desapareceriam das fábricas, dos escritórios e das repartições todas as mulheres casadas (in Escola Formal, Guimarães Editores, pp. 117-124).

Notas:

(1) Jules Michelet, L'Amour, Paris, 1859.

(2) Mgr. Bernard Bartmann, Tomo I, p. 321, Mulhouse, 1951.

(3) Maurício Maeterlinck, A Inteligência das Flores, Tradução de Cândido de Figueiredo, Lisboa, 1918.

(4) «À force de parler d'amour, on devient amoreux. Il n'y a rien de si aisé. C'est la passion la plus naturelle à l´homme». Discours sur les passions de l'amour, atribuído a Pascal (1623-1662).

(5) Arthur Schopenhauer, Metafísica do Amor, Capítulo XLIV, Apêndice ao Livro IV da obra intitulada O Mundo como Vontade e Representação.




Continua