![]() |
| Fernando Pessoa |
«A doutrinação do saudosismo como movimento afastou Fernando Pessoa que, apoiado aos modernistas Sá-Carneiro, Armando Côrtes-Rodrigues, Almada Negreiros, Alfredo Guisado, Raul Leal e outros, se cindiu do aguilismo, para criar o Orpheu e, quanto este veio a determinar. No entanto, ao pensar e ao rescrever um estudo tão significativo como A Nova Poesia Portuguesa (1912), embora utilizando uma diversa metodologia, distante do abstraccionismo dos arquétipos de Pascoaes, Fernando Pessoa (1888-1935) acabava por aceitar, já as teses acerca da queda, postuladas por Bruno, Rêgo e Pascoaes, já os teoremas relativos a um ocultismo que o messianismo saudosista não previa de todo, ao menos no princípio, transferindo para a poesia a vinda do Encoberto, que outro ser não é o Super-Camões, profetizado por Fernando Pessoa, e que corresponde ao D. Sebastião do nacionalismo redentorista - tudo isso parafraseado no Infante de Sagres, que um Álvaro Ribeiro mencionou esperar para a Filosofia Portuguesa. Importa assinalar que tais menções devem ser lidas segundo o que significam, nunca segundo o que designam, por constituírem mitos dinamizadores e não crenças dogmáticas. Tanto quanto parece, a cisão pessoana deve-se a causas estéticas, se pensarmos em que Pessoa não só aderiu a uma exegese ôntico-psicológica do povo português, mas ainda levou o messianismo às instâncias propostas no poema Mensagem, que é uma outra forma de pensar a Arte de Ser Portguês, que Pascoaes intuíra, pensara e escrevera. O que afastou Pessoa de Pascoaes foi um formalismo estético, não um ideário filosófico, mesmo e ainda quando se admitia ter sido - ao menos do que se julga saber - Pessoa mais erudito do que Pascoaes, e que o racionalismo daquele tenha entrado em oposição ao intuicionismo deste.
Mas a teoria saudosista, que não fez, só por ela, cindir Pessoa, fez cindir António Sérgio, cujo espírito pragmático, informado por um certo maurrasismo esquerdista, jamais poderia conciliar-se com as visionações messiânicas, evolucionistas e ascensionistas de Pascoaes e de Leonardo Coimbra. A influência deste, patente na revista, havia implicitado uma prioridade à especulação filosófica, para situar, primeiro, a filosofia e, depois, a política, o que Sérgio de forma nenhuma aceitava, uma vez dar prioridade à pedagogia em função da vida política. Sérgio representava a ideologia, enquanto, mais próximos, Pascoaes insistia na etno-psicologia portuguesa, e Leonardo visava um dinamismo estritamente filosófico, criacionista e centrífugo, mas filosófico antes de mais. O ideário republicano dos primeiros tempos sentia-se segregado nas páginas aguilistas e a cisão deveio. A polémica contra o Saudosismo foi o definitivo pretexto. Na verdade, o que se passava, era a profunda oposição entre os que preferiam o compromisso ideológico (António Sérgio e aderentes) e os que visavam a ascética filosófica (Leonardo, Pascoaes e discípulos). Que a Seara Nova constitua uma bifurcação ideológica de matriz aguilista, é facto a considerar».
Pinharanda Gomes («A "Escola Portuense"»).
«... Compreende-se o doloroso espanto do Poeta ao desembarcar na Ribeira. Diante dele erguia-se a sombra da Pátria de olhos fechados - morta! Ei-lo divagando, entre fantasmas, pelas ruas da cidade, verdes de Primavera e do abandono... E o seu Poema sublime, onde marulham as ondas do mar e as estrelas brilham e as almas dos heróis? Ah! É um livro para ser lido aos defuntos! Camões devia ter chorado... Mas a sua angústia maior veio depois; depois, quando recitou o Poema aos vivos que o não sentiram nem amaram: aquela gente surda e endurecida.
Então o Poeta, corrigindo o último canto d'Os Lusíadas, acrescentou-lhe aqueles terríveis versos do seu desânimo: a dor da sua alma incompreendida...
Só um homem, na flor da idade e da beleza, onde o génio da Raça num último esforço, se entranhou para fulgir o último relâmpago sangrento - sentiu e compreendeu Os Lusíadas. Foi na serra de Sintra, futuro paraíso de Lord Byron, que Luís de Camões leu a D. Sebastião essas estrofes que voavam de encontro ao seu desejo de guerras e aventuras. A expedição a Marrocos, que o jovem Rei premeditava, seria nova matéria para novo canto. Ah! Como se lhe cravou na alma aquele verso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto...
D. Sebastião, ouvindo Os Lusíadas, antegozava a sua futura existência nas estrofes imortais de um Poema... Ser cantado não é o máximo desejo dos Deuses, dos Heróis e das Mulheres?
Mas o Herói e o Poeta estavam a dois passos do sepulcro.
Há sonhos que já parecem sonhados durante o sono da Morte. Têm mais amplidão e inconsistência, mais negrume sem estrelas, na sua indefinida curva misteriosa. O fundo em que eles se esboçam, é de uma fluidez incolor, uma distância inverosímil, abstracta. O nada, o nada absoluto vagamente a figurar-se, para além de tudo, é a fantástica matéria destes sonhos que a sombra da Morte próxima introduz no sono dos moribundos, - esse aflito prelúdio negro da calma Eternidade.
Assim, D. Sebastião sonhava um novo Império e Camões a sua Sebastianeida... O Poema não foi trasladado para o papel. Existe ainda gravado, por dentro, nos ossos de uma caveira, e a sua música divina ouve-se ainda naquele vento que chora, inconsolável, durante certas noites portuguesas... É um vento que não sopra em outros países, um vento estranho e fúnebre, levantado dos areais de Alcácer, feito de um negro bater de asas agoirentas, num clamor de almas penadas, que estiola as folhagens e mete medo...
A Sebastianeida ficou dispersa no Limbo. D. Sebastião no Deserto e na Saudade, e Portugal sob o jugo de Castela. A noite do cativeiro demorou-se sessenta anos acima do horizonte português. A nossa independência e liberdade ressurgiam, mais por esforço alheio que por virtude própria. Mas a alma cantada n'Os Lusíadas jaz ainda no deserto africano...
(...) Camões, talvez o maior e o mais imperfeito lírico do mundo, foi a voz suprema de uma Raça que nasceu das entranhas da terra, para morrer nas entranhas do mar. Mas a Voz sobrevive encantada no seu corpo de harmonia, como D. Sebastião, o sublime rei camoniano, em seu espectro de névoa...
Este Espectro e aquela Voz são hoje a velha Lusitânia, descarnada, reduzida ao seu espírito imortal: a sombra de eterna Beleza em que um Povo inteiro se dissolveu, pairando sobre uma Pátria defunta...
Mas o Encoberto, embriagado do canto de Camões, divaga ao luar da nossa evocação, na ilha do Encantamento... a ilha do nosso Desejo».
Teixeira de Pascoaes («Os Poetas Lusíadas»).
«... Os valiosos estudos da obra de Pascoaes que até agora têm vindo a ser feitos por pensadores da tradição portuguesa, os estudos de um Afonso Botelho, de um António Cândido Franco, de um Manuel Patrício, de um Paulo Borges ou de um Pedro Sinde, se obedeceram à preocupação de situar essa obra no quadro da nossa filosofia, nem sempre o fizeram de acordo com o conceito de filosofia portuguesa, e de tudo o que nela se implica, tal como foi formulado por Álvaro Ribeiro, o mestre entre nós dos que sabem...» .
António Telmo (Prefácio ao volume 21 das Obras de Teixeira de Pascoaes - Assírio & Alvim, 2002).
![]() |
| António Telmo |
(...) A réplica de Teixeira de Pascoaes
![]() |
| Solar de Gatão, onde viveu Teixeira de Pascoaes (Amarante). |
Mas voltemos aos ataques de António Sérgio ao saudosismo, que Pascoaes não teve qualquer dificuldade em aparar. Não sem ironia, mas com que outro voo! Antes de entrarmos no coração da polémica sobre o sebastianismo, entendamos que a querela de Sérgio não era só com os sebastianistas, era com quantos procurassem assumir, como o poeta do Maranus, o génio do lugar, a qualidade de uma estrutura cultural, o enigma, a paixão, a «obscuridade» luminosa de um povo e as «palavras intraduzíveis» da sua língua, que, afinal de contas, exprimem em profundidade a sua circunstância. Depois dos Sérgios e da sua acção «racionalista» e «cívica», surgiram decerto gerações de homens políticos empenhados numa acção cooperativista e socialista, mas Portugal tornou-se mais cinzento, mais medíocre, mais alinhado com os lugares comuns de todas as convenções europeias ou internacionalistas, cada vez mais divorciado da sua identidade psicológico-cultural, até se chegar à insignificância complexada em que se vê hoje, impotente para reencontrar uma autonomia cultural, intelectual e criadora capaz de corresponder, como um conteúdo, aos slogans formais de «independência nacional» ou de «país restituído ao seu destino», que não logram ultrapassar a esfera da demagogia política.
Sérgio troçara da definição de saudade de Duarte Nunes de Leão, retomada por Teixeira de Pascoaes, lembrança de alguma coisa com o desejo dela, «mostrando-a» como aplicável não só ao homem como a toda a animalidade; e compusera uma historieta satírica em que o saudosismo surgia descrito tem termos caricaturais e redutores, sob a sugestão da teoria dos reflexos condicionados de Pavlov.
Diz Pascoaes, na sua resposta, onde se sente uma projecção de autenticidade poética e intelectual:
«António Sérgio confessa todavia que o que caracteriza a Saudade é um certo quid de sentimento. Perfeitamente. É nesse quid que existe a sua essência original, representativa de uma Raça autónoma. Pois saiba o ilustre escritor que esse quid se contém na definição de Duarte Nunes e na minha. Consideramos a Saudade um sentimento-síntese, um sentimento-símbolo, resultante da fusão harmoniosa dos dois princípios do Universo e da Vida que, desde a origem, se digladiam: Espírito e Matéria, Desejo e Lembrança, Dor e Alegria, Treva e Luz, Vida e Morte.
«António Sérgio não quis compreender assim e afirma erradamente que nós não definimos a Saudade, mas um rude facto geral de toda a animalidade. E, como prova, apresenta uma chalaça canina que pode fazer arreganhar os dentes... só para rir, é claro.
«Sim, meu caro amigo, eu conheço alguns cães bem mais capazes de sentirem a Saudade que certos seres da espécie humana. Quanto mais conheço os homens, mais amo os cães».
E responde, em seguida, à troça incompreensiva de Sérgio:
«A Saudade, como todos os sentimentos, é susceptível de graus inferiores e superiores. Há a saudade rudimentar, acessível talvez às próprias árvores; e entre esta e a Saudade lusíada, há outros graus decerto não comuns a todos os países, mas também a todos os seres vivos... A Saudade de um belo almoço em dias de fome, de uma esposa, de um filho, etc., evidentemente que é um sentimento comum de todos. Pretender o contrário seria infinitamente ridículo» (18).
Mas Pascoaes falava de uma outra Saudade, que Sérgio não podia, no seu humanismo de curto voo, entender. A que já cantava Camões:
... a Saudade
D'aquela santa idade
D'onde est'alma descendeu.
E o poeta do Regresso ao Paraíso conceptua e define:
«Não há grande Poeta português que não viva dramaticamente esta Saudade. É ela a dolorosa essência metafísica da nossa autêntica literatura, incluindo a Poesia popular. É a Saudade do Céu, divina sede de perfeição e redenção, o eterno Sebastianismo da alma portuguesa e a sua transcendente e poética atitude perante o Mistério infinito!».
Pascoaes acrescenta esta nota com interesse:
«Deixe-me frisar ainda o seguinte: o que torna este alto Sentimento extraordinário e nosso, é o haver nascido da alma colectiva do Povo e não do temperamento excepcional de certos indivíduos».
Mas mais importante é a réplica de Pascoaes à acusação sergista de que o saudosismo seria reaccionário, voltado para o passado:
«Também erra, meu caro amigo, quando afirma que a Saudade é retrógrada e paralítica, o que, aliás, se depreende do já exposto. Não resulta ela da combinação activa e amorosa dos dois princípios da Vida? Na Saudade, o desejo e a lembrança perpetuamente se casam e fecundam, porque ela é o símbolo da Natureza, desenhado pelo nosso espírito lusíada... D'aqui tirou Leonardo Coimbra a sua filosofia criacionista, a filosofia de maior mobilidade, anticoisista por excelência, que só vê no Universo o seu constante devenir, a sua eterna criação espiritual.
«Sim: a Saudade é a grande criadora do futuro, mas não tira o Futuro do Nada, não consegue um Futuro de geração espontânea ou caído miraculosamente das estrelas. Ela constrói o Futuro com a matéria do Passado» (19).
E aqui, Teixeira de Pascoaes ironiza por seu turno a respeito de toda a cultura de base exclusivamente sociológica, que faz tábua rasa dos valores arquétipos, julgando assim ficar liberta de um peso de reacção:
«O meu querido camarada parece querer eliminar o Passado. É apenas um belo gesto quixotesco... O Passado é indestrutível, nele murmura a fonte onde bebemos as novas energias. Ai de nós, se não tivermos Passado! Ai da árvore, sem profunda terra onde mergulhar as raízes" Não pode frutificar» (20).
Noutro passo da sua segunda carta, António Sérgio não só repelia a ideia das palavras intraduzíveis (ignorava ainda a lição de Heidegger, que foi bem mais longe do que Pascoaes, dizendo: «Só se pode traduzir o grego para o grego» (21) ou ainda, «ser grego é pensar grego», como ainda recusava originalidade à palavra saudade. Neste ponto, Pascoaes dá uma lição de filologia a Sérgio, para quem as palavras são meros instrumentos polémicos ou casuísticos, e não, como dizia Heidegger, a morada do ser. Depois de sublinhar que a saudade galega ou a anyoranza catalã estão próximas da saudade portuguesa, por evidentes parentescos culturais, escreve: «De resto, eu sei lá o sentido íntimo d'essas palavras arrevesadas, doru, saknad, savn, saknor, etc!!! Eu não sei, nem o meu caro amigo!».
E ainda, com ironia:
«O meu caro António Sérgio ama a chalaça; a Europa deu-lhe cepticismo de mistura com electricidade e carvão de pedra... As suas palavras modernistas são aviadoras; pairam, portanto, sobre as coisas, sem pousar...
«Desça, desça, um pouco à alma da sua Raça...» (22).
Por último, Teixeira de Pascoaes dá a Sérgio o conselho que ele nunca será capaz de seguir: «Uma Pátria necessita de se afirmar constantemente na sua individualidade esculpida pelos séculos. De contrário, será uma sombra apagada, um ninguém neste mundo. Para agir, é preciso ser antes de tudo» (23).
Ideia profunda, esta última, e antecipadamente heideggeriana, ideia de que os pragmatistas, os activistas, os racionalistas judicativos, os materialistas ou os marxistas ficaram sempre aquém. Trinta e três anos mais tarde, Heidegger diria praticamente o mesmo, na Carta sobre o Humanismo. Assim principia esse texto de 1946, traduzido para português em 1973: «Vamos longe de pensar, com suficiente radicalidade, a essência do agir. Conhecemos o agir apenas como o produzir de um efeito. A sua realidade efectiva é avaliada segundo a utilidade que oferece. [É o conceito vulgar dos racionalistas judicativos e voluntaristas como Sérgio, e também dos marxistas]. Mas- continua o autor de Sein und Zeit -, a essência do agir é o consumar. Consumar significa: desdobrar alguma coisa até à plenitude da sua essência; levá-la à plenitude, producere. Por isso, apenas pode ser consumado, em sentido próprio, aquilo que já é. O que, todavia, "é", antes de tudo, é o ser» (24).
![]() |
| Martinho Heidegger |
Assim, Heidegger confirma a posteriori a fulgurância das intuições de Pascoaes, jamais entendidas por Sérgio. Pascoaes disse, efectivamente: «Todas as línguas têm as suas palavras intraduzíveis. São elas que mostram o que há de original e característico na alma de um Povo» (25). Heidegger escreveria: «A linguagem é a casa do ser. Nesta habitação do ser mora o homem» (26).
Pascoaes: «Para agir é preciso ser, antes de tudo». E Heidegger: «... a essência do agir é consumar [...] apenas pode ser consumado, em sentido próprio, aquilo que já é. O que, todavia, "é", antes de tudo, é o ser».
Pascoaes, precursor de Heidegger? A muitos títulos o é, como inspirador que foi de filósofos portugueses, tais Leonardo Coimbra e José Marinho. Pascoaes, inesperadamente mais moderno do que Sérgio? Certamente (in ob. cit., pp. 285-291).
Notas:
(18) A Águia, loc. cit., pp. 104-105.
(19) Ibid., p. 106.
(20) Ibidem.
(21) Martin Heidegger, Qu'apelle-t-on penser? (trad. francesa), Paris, Presses Universitaires de France, 1959.
(22) A Águia, loc. cit., p. 106.
(23) Ibid., p. 109.
(24) Martin Heidegger, Carta sobre o Humanismo, tradução portuguesa de Arnaldo Stein, com prefácio de António José Brandão, Lisboa, Guimarães Editores, 1973, p. 37.
(25) A Águia, loc. cit., p. 109.
(26) Carta sobre o Humanismo, p. 37.





.jpg)

Nenhum comentário:
Postar um comentário