terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Górgias ou da retórica (ii)

Escrito por Platão



Colunas de Theseion em Atenas

Sócrates

Vejamos então este novo ponto: existe uma coisa que se chama «saber»?

Górgias

Existe.

Sócrates

E uma coisa que se chama «crer»?

Górgias

Também.

Sócrates

Achas que saber e crer são a mesma coisa, ou ciência e crença são coisas diferentes?

Górgias

Penso que são diferentes.

Sócrates

E pensas bem, como te vou já provar. Se alguém te perguntar «Górgias, existe uma crença falsa e outra verdadeira?», responderias afirmativamente, creio eu.

Górgias

Por certo.

Sócrates

E quanto à ciência? Há também uma ciência falsa e outra verdadeira?

Górgias

De modo nenhum.

Sócrates

É, portanto, evidente que ciência e crença não são a mesma coisa.

Górgias

Tens toda a razão.

Sócrates

Mas tanto os que sabem como os que crêem estão igualmente persuadidos.

Górgias

Assim é, de facto.

Paestum 


 
Sócrates

Concordas então em distinguir duas espécies de persuasão, a que produz a crença sem ciência e a que produz a ciência?

Górgias

Absolutamente.

Sócrates

Sendo assim, qual é destes dois tipos de persuasão aquele que é produzido pela retórica nos tribunais e nas outras assembleias, relativamente ao justo e ao injusto? Será aquele donde nasce a crença sem a ciência ou o que produz a ciência?

Górgias

É evidente, Sócrates, que é aquele donde nasce a crença.

Sócrates

Podemos, portanto, dizer que a retórica é obreira da persuasão que gera a crença, não o saber, sobre o justo e o injusto.

Górgias

Exacto.

Sócrates

Deste modo, o orador, nos tribunais e nas outras assembleias, não instrui sobre o justo e o injusto, limita-se a fazer que os outros creiam. A verdade é que ele não poderia, em pouco tempo, instruir tanta gente sobre matérias tão complexas.

Górgias

Sem dúvida nenhuma.

Sócrates

Ora bem, vejamos então o sentido exacto das nossas afirmações sobre a retórica. Pela minha parte, não consigo ainda ter dela uma ideia bem precisa.

Batalha de Salamina (480 a. C).

Quando uma cidade se reúne para escolher médicos, construtores de navios ou outro qualquer trabalhador especializado, será o orador a pessoa indicada para dar conselhos? É evidente que não, porque, em cada um destes casos, haverá que escolher os mais hábeis na sua profissão. Do mesmo modo, quando se tratar da construção de muralhas, portos ou arsenais, naturalmente que se consultarão os arquitectos; para a eleição de um general, a disposição de um exército em linha de batalha ou a conquista de uma posição, recorrer-se-á ao conselho dos especialistas na arte militar, não ao dos oradores. Qual é a tua opinião a este respeito, Górgias? Uma vez que te dizes orador e capaz de formar outros oradores, estás em óptimas condições para informar sobre as coisas da tua arte.

Repara, aliás, que estou afinal a defender os teus interesses. Talvez entre os presentes se encontre alguém que pretenda ser teu discípulo, e estou mesmo convencido de que há aqui muitos que, embora o desejem, sentem, no entanto, acanhamento em te interrogar. Considera, portanto, que são eles que, por meu intermédio, te perguntam: «Que benefício tiraremos nós, Górgias, do teu ensino? Sobre que assuntos ficaremos nós aptos a aconselhar a cidade? Será apenas sobre o justo e o injusto ou também sobre os temas que Sócrates acaba de citar?» Experimenta responder-lhes.

Górgias

Vou tentar, Sócrates, revelar-te claramente todo o poder da retórica, dado que tu me abriste admiravelmente o caminho para isso. Não ignoras por certo que esses arsenais e muralhas dos Atenienses e a criação dos portos se ficaram devendo, uma parte aos conselhos de Temístocles, a outra aos conselhos de Péricles, e nada aos homens da especialidade.

Sócrates

Diz-se, realmente isso, Górgias, a respeito de Temístocles. Quanto a Péricles, eu próprio o ouvi aconselhar-nos a construção da muralha interior de Atenas.

Górgias

E quando se trata de uma daquelas eleições de que há pouco falavas, Sócrates, vês que são os oradores que aconselham e que é a sua opinião que vence.

Sócrates

É isso que me espanta, Górgias, e daí interrogar-te há tanto tempo sobre o poder da retórica. À minha reflexão ela aparece assim como algo de grandeza quase divina.

Górgias

Mais surpreendido ficarias, Sócrates, se soubesses tudo, ou seja, que, por assim dizer, ela reúne em si e tem sob a sua jurisdição todos os poderes. Vou dar-te uma boa prova do que afirmo. Muitas vezes acompanhei meu irmão e outros médicos a casa de doentes que não queriam tomar um remédio ou submeter-se ao tratamento do ferro ou do fogo. Ora, quando o médico se mostrava incapaz de persuadir o doente, fazia-o eu, sem mais recursos do que a retórica. Mais ainda: se um orador e um médico se apresentarem numa cidade qualquer à tua escolha e se discutir na assembleia do povo ou em qualquer reunião qual dos dois deve ser eleito médico, garanto-te que o médico deixa simplesmente de existir e que aquele que domina a arte da palavra se fará eleger, se quiser.

Do mesmo modo, seja qual for o profissional com quem entre em competição, o orador conseguirá sempre que o prefiram a qualquer outro, porque não há matéria sobre a qual um orador não fale, diante da multidão, de maneira mais persuasiva do que qualquer profissional. Tal é a qualidade e a força desta arte que é a retórica.

Deve-se, porém, Sócrates, usar a retórica como todas as outras artes de competição. Lá porque se aprendeu o pugilato, o pancrácio e o combate com as armas de modo a poder vencer amigos e inimigos, não se vai agora fazer uso disso contra toda a gente, a ponto de ferir, trespassar ou matar os próprios amigos.

Note-se ainda, por Zeus, que, se alguém frequenta a palestra, onde adquire robustez e bom treino de pugilismo, e se serve depois dessas vantagens para maltratar o pai, a mãe ou qualquer dos parentes ou amigos, não devemos ver nisso razão para detestar e exilar das cidades os mestres de ginástica e os mestres de armas. É que estes instruem os seus discípulos para que eles façam um uso justo da sua arte contra os inimigos e contra os maus, para se defenderem, não para atacarem, mas os discípulos desviam-se por vezes da linha traçada e usam mal da sua força e da sua arte. Claro que não são os mestres que são maus nem a sua arte é culpada ou censurável; a culpa cabe exclusivamente, creio eu, àqueles que fazem mau uso do que aprenderam.



Zeus


Idêntico raciocínio pode aplicar-se à retórica. O orador é, sem dúvida, capaz de falar de tudo e contra todos e poderá, melhor que ninguém, persuadir a multidão em qualquer assunto que lhe interesse, mas isso não é motivo para privar da sua reputação os médicos ou os outros profissionais, não basta estar em condições de o fazer. A retórica, como qualquer arte competitiva, deve ser usada com justiça. Portanto, entendo que, se um homem adquire uma preparação retórica e depois se serve deste poder e desta arte para praticar o mal, não há o direito de odiar e desterrar da cidade aquele que o ensinou. Este ministrou conhecimentos em ordem a um uso legítimo e o outro utiliza-os de um modo inteiramente oposto. A justiça manda, pois, que não seja o mestre mas este, que abusou da sua arte, a sofrer o ódio, o exílio ou a morte.

Sócrates

Estou a pensar, Górgias, que deves ter assistido como eu a muitas discussões e observado que, quando dois homens se propõem conversar, é sempre com dificuldade que limitam o âmbito da discussão e raramente se separam depois de se ter instruído e esclarecido reciprocamente. Pelo contrário, se divergem em relação a algum ponto e um deles pensa que o outro fala com pouca exactidão ou clareza, perdem a cabeça, convencem-se de que o interlocutor age por maldade, levados mais pelo espírito de disputa do que pelo desejo de esclarecer o tema proposto. Alguns deles acabam por se injuriar grosseiramente e se despedem depois de ter dito e ouvido tais coisas que os presentes chegam a deplorar a ideia de ter sido auditório de gente de tal categoria.

Porque digo eu estas coisas? É que me parece que tu, neste momento, estás a fazer afirmações que não são inteiramente consistentes e harmónicas com as que fizeste a princípio sobre a retórica. Temo, no entanto, refutar-te, não vás tu supor que, nesta discussão, me movem quaisquer razões pessoais contra ti, em vez do simples propósito de dilucidar a questão. Se vês as coisas como eu, terei muito gosto em continuar a interrogar-te; de outro modo, fico por aqui.

Que espécie de homem sou eu? Sou daqueles que gostam de ser refutados quando estão em erro e que gostam de refutar os outros quando são os outros que erram, não sentindo nunca mais gosto em refutar do que em ser refutado. É que esta última situação é para mim muito mais vantajosa, porque reputo maior bem ser libertado do maior dos males do que libertar outrem. Nada, efectivamente, me parece mais prejudicial a um homem do que ter ideias falsas sobre a matéria que tratamos.

Se a tua maneira de pensar é semelhante à minha, prossigamos na nossa conversa; se, pelo contrário, te parece melhor desistir da discussão, desistamos já e terminemos aqui o nosso diálogo.

Górgias

Também eu, Sócrates, pertenço ao número das pessoas que acabas de referir, mas talvez conviesse atender também aos interesses dos presentes. Antes da vossa chegada, já eu tinha ocupado largamente o auditório com a exposição das minhas ideias e a sessão vais estender-se ainda muito, se continuarmos esta conversa. Devemos, pois, pensar nas conveniências dos ouvintes, não aconteça que estejamos a reter aqui alguém que tenha mais que fazer.

Querefonte

Estais a ouvir, Górgias e Sócrates, o murmúrio de aprovação dos assistentes à ideia de escutar as vossas palavras. Pela minha parte, nunca eu tenha ocupações tão urgentes que me forcem a considerá-las mais importantes do que uma conversa desta natureza, entre pessoas de tal categoria!

Cálicles

Pelos deuses, Querefonte, também eu tenho assistido a muitas discussões, mas não me lembro de ter assistido a nenhuma que me desse tanto prazer com esta. Pelo que me toca, poderíeis falar todo o dia, que eu só teria gosto nisso.

Sócrates

Pois bem, se Górgias quiser, eu não tenho nada a opor.

Górgias

Depois de tudo isto, Sócrates, teria vergonha de não aceitar o convite, quando eu próprio me comprometi a responder a todo aquele que quisesse interrogar-me. Portanto, se os presentes concordam, continuemos a nossa conversa, pergunta o que quiseres.

Sócrates

Escuta, então, Górgias, aquilo que me surpreende nas palavras que proferiste. Admito, aliás, que tenhas falado com justeza e que simplesmente eu não te tenha entendido bem. Afirmas que és capaz de ensinar a retórica a quem a quiser aprender contigo?

Górgias

Afirmo.

Sócrates

De tal modo que essa pessoa fique em condições de ganhar o assentimento de uma assembleia sobre qualquer assunto, sem a instruir e recorrendo apenas à persuasão?

Górgias

Absolutamente.

Sócrates

Dizias há pouco que até em questões de saúde o orador é mais persuasivo do que o médico.

Górgias

Sim, perante uma multidão.



Sócrates

Perante uma multidão quer dizer, certamente, perante aqueles que não sabem, porque perante aqueles que sabem, o orador não pode ser mais persuasivo do que o médico.

Górgias

Dizes bem.

Sócrates

Nesse caso, se ele for mais persuasivo do que o médico, será mais persuasivo do que aquele que sabe.

Górgias

Sem dúvida.

Sócrates

E isto sem ser médico, não é verdade?

Górgias

Sim.

Sócrates

Mas aquele que não é médico não é ignorante nas matérias em que o médico é entendido?

Górgias

Claro que é.

Sócrates

Então, quando o orador é mais persuasivo do que o médico, é um ignorante a ser mais persuasivo do que um entendido perante uma multidão de ignorantes. É realmente isto que sucede ou é outra coisa?

Górgias

No caso presente é o que sucede.

Sócrates

E não estão o orador e a retórica na mesma situação relativamente a todas as outras artes? Não precisa a retórica de conhecer a natureza das coisas, mas tão-somente de encontrar um meio qualquer de persuasão que a faça aparecer aos olhos dos ignorantes como mais entendida do que os entendidos.

Górgias

Não é de uma grande comodidade, Sócrates, que uma pessoa não tenha de aprender as outras artes mas esta só, para não ser inferior em nada a todos os especialistas?

Sócrates

Se, por esse processo, o orador é ou não inferior aos outros, vê-lo-emos já, se a análise do nosso tema o exigir. De momento, vejamos primeiro se, relativamente ao justo e ao injusto, ao feio e ao belo, ao bom e ao mau, a situação do orador é a mesma que em relação à saúde e aos objectos das outras artes, ou seja, se, sem conhecer as coisas, sem saber o que é bom e o que é mau, o que é belo e o que é feio, o que é justo e o que é injusto, lhe basta imaginar um processo de persuasão a este respeito para, apesar de ignorante, parecer mais entendido que os entendidos aos olhos dos ignorantes. Ou será necessário o conhecimento prévio destas coisas a todo aquele que te procura para ser instruído na retórica? Se não é, tu, que és mestre de retórica, sem ensinar nada disto aos teus discípulos (não é essa, de facto, a tua função), farás que, aos olhos da maioria, eles pareçam saber estas coisas não as sabendo, e que pareçam homens de bem, sem o serem? Ou não estás, realmente, em condições de ensinar a retórica a quem não tenha, antecipadamente, aprendido a verdade acerca destes assuntos? Que pensar de tudo isto, Górgias? Por Zeus, revela-me, como há pouco disseste, todo o poder da retórica.





Górgias

Pensa, Sócrates, que quem, porventura, não conheça já essas coisas aprendê-las-á também contigo.

Sócrates

Um momento: acabas de fazer uma boa afirmação. Para fazer de alguém um orador é imprescindível que esse alguém conheça o justo e o injusto, ou por o ter aprendido antes ou por o teres ensinado tu.

Górgias

Absolutamente.

Sócrates

Mas vejamos: aquele que aprendeu a arte da construção é construtor, não é verdade?

Górgias

É.

Sócrates

E é músico o que aprendeu música?

Górgias

É.

Sócrates

E médico o que aprendeu medicina e assim por diante: aquele que aprende uma coisa passa a ser aquilo que a aprendizagem dessa coisa determina, não será assim?

Górgias

Naturalmente

Sócrates

Pela mesma ordem de ideias, será justo aquele que aprendeu a justiça.

Górgias

Sem dúvida alguma.

Sócrates

E aquele que é justo pratica acções justas.

Górgias

Sim.

Sócrates

É, portanto, forçoso que o orador seja justo e que um homem justo não queira agir senão segundo a justiça.

Górgias

Assim parece.

Sócrates

E um homem justo nunca quererá praticar a injustiça.

Górgias

Necessariamente.

Sócrates

Assentemos, portanto, que, de acordo com o nosso raciocínio, o orador é necessariamente justo.

Górgias

Está bem.

Sócrates

E que nunca o orador desejará cometer uma injustiça.



Pancrácio
Górgias

Parece que sim.

Sócrates

Lembras-te de me teres dito há pouco que não se deve acusar os professores de ginástica nem expulsá-los das cidades, se acontecer que um pugilista se sirva da sua técnica para praticar o mal? E que, do mesmo modo, se um orador fizer mau uso da retórica, não é ao mestre que se deve acusar e expulsar da cidade, mas tão-só àquele que procedeu mal, fazendo um uso indevido da retórica? Disseste isto ou não?

Górgias

Disse.

Sócrates

Mas agora parece que chegámos à conclusão de que o orador é incapaz de cometer uma injustiça. Não foi assim?

Górgias

Assim parece (454d-460e).

Continua

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Górgias ou da retórica (i)

Escrito por Platão




(...) Querefonte

Pois bem, diz-me então qual é a arte exercida por Górgias e qual o nome que, consequentemente, lhe devemos atribuir.

Polo

Querefonte, muitas são as artes cultivadas pelos homens, que as descobriram experimentalmente através de experiências. Na realidade, é a experiência que orienta a vida do homem segundo as regras da arte, ao passo que a inexperiência a faz caminhar ao acaso. Perante estas variadas artes, uns declaram-se por umas, outros por outras, e os melhores escolhem as melhores. Górgias pertence ao número destes últimos, e a arte que cultiva é a mais bela de todas.

Sócrates

Tenho a impressão, Górgias, de que Polo está muito bem equipado em matéria de discursos, mas não me parece que esteja a cumprir a promessa que fez a Querefonte.

Górgias

Explica-te melhor, Sócrates.

Sócrates

Acho que ele ainda não respondeu ao que se lhe perguntou.

Górgias

Pergunta-lhe então tu, se preferes.

Sócrates

Não, gostaria muito mais de te interrogar a ti, no caso, evidentemente, de estares disposto a responder-me. Do que acabo de ouvir a Polo deduzo que ele se tem dedicado mais à chamada retórica do que à dialéctica.

Polo

Porquê, Sócrates?

Sócrates

Porque Querefonte te perguntou qual era a arte cultivada por Górgias, e tu, em vez de dizeres qual é, limitaste-te a elogiá-la, como se alguém a estivesse a atacar.

Polo

Não respondi eu que era a mais bela das artes?

Sócrates

Respondeste, mas ninguém te perguntou quais eram as qualidades da arte de Górgias: perguntaram-te apenas que arte era e qual o nome que convém atribuir a Górgias. Relativamente aos exemplos que há pouco te apresentou Querefonte, respondeste com justeza e concisão. Diz agora da mesma maneira qual é a arte de Górgias e como devemos designá-lo. Ou antes, Górgias, diz-nos tu próprio como devemos chamar-te em função da arte que exerces.

Górgias

A minha arte é a retórica, Sócrates.

Sócrates

Devemos então chamar-te orador?

Górgias

E bom orador, Sócrates, se me queres chamar aquilo que «me glorifico de ser», como diz Homero.

Sócrates

Sem dúvida que quero.




Górgias

Chama-me então assim.

Sócrates

E poderemos dizer que és capaz de formar outros oradores?

Górgias

Essa é a profissão que exerço, não apenas aqui, mas em toda a parte.

Sócrates

Estarias tu disposto, Górgias, a continuar o nosso diálogo como até aqui, com perguntas e respostas, deixando para outra altura os longos discursos com que Polo começou? Mas, por favor, não faltes à promessa, responde sempre com brevidade ao que eu te perguntar.

Górgias

Há respostas, Sócrates, que não podem deixar de ter longos desenvolvimentos. Esforçar-me-ei, no entanto, por usar da maior brevidade. Esta é afinal uma das coisas de que me orgulho, a de que ninguém é capaz de dizer o mesmo que eu em menos palavras.

Sócrates

É exactamente aquilo de que eu preciso, Górgias. Faz-me agora uma demonstração de brevidade, deixando para outra altura a abundância.

Górgias

Com todo o gosto, e hás-de convir que nunca encontraste ninguém que falasse mais concisamente.

Muito bem. Ora, uma vez que te apresentas como alguém versado na arte da retórica e capaz de formar outros oradores, diz-me qual é o objecto da retórica. A tecelagem, por exemplo, trata da fabricação do vestuário, não é verdade?

Górgias

Trata.

Sócrates

E o objecto da música é a composição de melodias?

Górgias

É.

Sócrates

Por Hera, Górgias, admiro as tuas respostas, que mais breves não podiam ser.

Górgias

Também creio, Sócrates, que não me saio disto nada mal.

Sócrates

Tens razão. Diz-me então da mesma maneira a respeito da retórica qual é o objecto de que ela é ciência.

Górgias

Os discursos.

Sócrates

Que discursos, Górgias? Aqueles que indicam aos doentes o regime que devem observar para se restabelecerem?

Górgias

Não.

Sócrates

Nesse caso, a retórica não se ocupa de toda a espécie de discursos.

Górgias

Claro que não.

Sócrates

Mas tu tornas os teus discípulos hábeis em discursos.




Górgias

Exacto.

Sócrates

E também os ensinas, certamente, a pensar sobre aquilo que dizem.

Górgias

Evidente.

Sócrates

Mas não é verdade que a medicina, de que tratávamos há pouco, também ensina a pensar e a falar sobre os males dos doentes?

Górgias

Necessariamente.

Sócrates

Então a medicina, segundo parece, também tem discursos por objecto.

Górgias

Sim.

Sócrates

Os discursos relativos às doenças.

Górgias

Precisamente.

Sócrates

E o objecto da ginástica não são os discursos referentes à boa ou má disposição dos corpos?

Górgias

Absolutamente.

Sócrates

E assim por diante com todas as outras artes: cada qual tem por objecto os discursos relativos aos assuntos que lhe são específicos.

Górgias

Assim parece.

Sócrates

Então porque não chamas tu retórica às outras artes, também relativas a discursos, uma vez que chamas retórica a uma arte cujo objecto são os discursos?

Górgias

É que todas as outras artes se ocupam praticamente apenas de operações manuais e coisas dos mesmo género, ao passo que a retórica não tem nada que ver com esses aspectos, pelo contrário, toda a sua acção e eficácia se realizam através da palavra. É por isso que eu digo que a retórica é a arte dos discursos e estou convencido de que digo bem.

Sócrates

Estarei eu a compreender bem o carácter desta arte que, em tua opinião, se deve chamar «retórica»? Em breve o verei mais claramente. Ora responde: existem artes, não é verdade?

Górgias

Existem.

Sócrates

Entre todas as artes, umas atribuem, creio eu, um papel fundamental à acção, necessitando de muito poucas palavras; algumas prescindem inteiramente do discurso, podendo realizar toda a sua obra em silêncio, como é o caso da pintura, da escultura e muitas outras. Suponho que é destas que dizes que nâo têm relação nenhuma com a retórica. Não será?

Górgias

A tua suposição está perfeitamente certa, Sócrates.

Há, pelo contrário, outras artes que realizam todos os seus objectivos pela palavra e não carecem praticamente de nenhuma ou quase nenhuma acção. É o caso da aritmética, do cálculo, da geometria e, certamente, também do jogo do tabuleiro e de muitas outras artes em que o discurso desempenha, por vezes, um papel quase igual ao dos actos materiais e, na maioria dos casos, um papel superior, dado que toda a actuação e eficácia se verificam nestas artes através da palavra. É do número destas últimas que suponho dizes pertencer a retórica.

Górgias

É exactamente assim.

Sócrates

Não creio, que tu quisesses dar o nome de retórica a nenhuma destas artes e, no entanto, a tomar à letra a tua afirmação de que a retórica concentra toda a sua virtude no discurso, poderia alguém, interessado em jogar com as palavras, perguntar-te: «Será, Górgias, que dás o nome de retórica à aritmética?» Não estou, claro, a pensar que tu chamas retórica à aritmética ou à geometria.









Górgias

Ainda bem, Sócrates; estás a pensar como deve ser.

Sócrates

Acaba então agora de responder à minha pergunta. Uma vez que a retórica é uma arte que faz largo emprego do discurso e que muitas outras estão no mesmo caso, procura explicar-me qual é o objecto específico desta arte, actuante pela palavra, a que chamas retórica. Se, por exemplo, referindo-se a uma das artes que acabo de mencionar, alguém me perguntasse: «Sócrates, o que é a aritmética?», responder-lhe-ia, como tu fizeste há pouco, que é uma das artes que se realizam pelo discurso. E se a mesma pessoa depois me perguntasse: «Relativamente a que objecto?», diria que o seu objecto era o conhecimento do par e do ímpar nas suas respectivas grandezas». Da mesma maneira, se me perguntassem: «Que entendes por cálculo?», diria que é também uma das artes que assenta na palavra. E se insistissem: «Qual é o seu objecto?», responderia, nos termos dos que redigem os decretos, que quanto ao resto, não há diferença entre a aritmética e o cálculo, que se ocupam igualmente do par e do ímpar. Diferem, no entanto, em que o cálculo considera a grandeza do par e do ímpar, não só em relação a cada um deles em particular, mas também nas relações entre si. E se me interrogassem sobre a astronomia e eu dissesse que também ela realiza todos os seus objectivos por meio da palavra e depois acrescentassem: «Mas a que se referem os discursos da astronomia?», responderia que se referem à velocidade relativa do movimento das estrelas, do Sol e da Lua.

Górgias

Terias respondido muito bem, Sócrates.

Sócrates

É a tua altura de responder, Górgias. É exacto que a retórica seja uma das artes que tudo executam e acabam por meio do discurso?

Górgias

Perfeitamente exacto.

Sócrates

Diz-me então agora sobre que versam os discursos da retórica. Qual é das realidades existentes aquela que constitui o objecto dos discursos de que a retórica se serve?

Górgias

São as maiores e as melhores coisas humanas, Sócrates.

Sócrates

Mas, Górgias, o que acabas de dizer é não só discutível como bastante vago. Suponho que já ouviste cantar em festins aquela canção-de-mesa onde se enumeram os bens da vida, dizendo-se que o primeiro de todos é a saúde, o segundo a beleza e o terceiro ser rico sem fraude, na expressão do autor.

Górgias

Claro que já ouvi; mas a que propósito vem isso?

Sócrates

A propósito de dizer que, se estivessem aqui presentes os artífices destes bens elogiados pelo autor da canção, ou seja, o médico, o professor de ginástica e o financeiro, observaria em primeiro lugar o médico: «Górgias está a enganar-te, Sócrates. Não é a arte dele que se ocupa do maior bem do homem, mas a minha». E se eu lhe perguntasse: «Mas quem és tu para falar dessa maneira?», responderia, creio eu, que era médico. «Que estás tu a dizer? Que o maior bem de todos é produto da tua arte?» A isto replicaria certamente: «Tens dúvidas a este respeito, sabendo que a minha arte produz a saúde? Que bem há mais precioso para o homem do que a saúde?».

Seria depois a vez do professor de ginástica: «Também eu me espantaria, Sócrates, se Górgias conseguisse demonstrar-te que da sua arte deriva um bem maior do que da minha». Eu perguntar-lhe-ia: «Quem és tu e a que trabalho te dedicas?» «Sou professor de ginástica - diria ele -, e dedico-me a tornar belos e fortes os corpos dos homens».

Finalmente, viria o financeiro que, cheio de desprezo por todos os outros, falaria mais ou menos deste modo: «Vê Sócrates, se junto de Górgias ou de qualquer outra pessoa podes achar algum bem maior do que a riqueza» «O quê? - dir-lhe-ia -, és um artífice de riqueza?» «Sou». «Na realidade de quê?» «Na de financeiro». Quer dizer, na tua opinião a riqueza é para o homem o maior dos bens». «Sem a menor dúvida». «No entanto - acrescentaria eu -, Górgias, aqui presente, sustenta que a sua arte produz um bem maior do que a tua». É evidente que nesta altura ele me perguntaria: «Mas que bem é esse? Cabe a Górgias explicá-lo».

Imagina, Górgias, que estás portanto a ser interrogado por eles e por mim e explica-nos que coisa é essa que dizes ser o maior bem para o homem e de que te consideras criador.

Górgias

É a que, na realidade, constitui o maior de todos os bens, proporcionando a quem a possui ao mesmo tempo liberdade para si próprio e domínio sobre os outros na cidade.

Sócrates

Mas, insisto em perguntar, que coisa é essa?

Górgias

É a capacidade de persuadir pela palavra os juízes no Tribunal, os senadores no Conselho, o povo na Assembleia, enfim, os participantes de qualquer espécie de reunião política. Com este poder farás teus escravos o médico e o professor de ginástica, e até o grande financeiro chegará à conclusão de que arranjou o dinheiro não para ele, mas para ti, que sabes falar e que persuades a multidão.



Sócrates

Agora é que me parece, Górgias, que definiste, com a possível exactidão, a espécie de arte que é a retórica e, se te compreendi bem, afirmas que ela é obreira de persuasão, que tal é o objectivo e a essência de toda a sua actividade. Ou pensas que a retórica tende a mais do que a fazer nascer a persuasão na alma dos ouvintes.

Górgias

De modo nenhum, Sócrates, acho que a definiste perfeitamente: essa é com efeito a sua característica fundamental.

Sócrates

Escuta, Górgias. Se há pessoas que, quando conversam, desejam saber exactamente qual é o tema da conversa, podes estar certo de que eu pertenço a esse número, e o mesmo creio que se passa contigo.

Górgias

Está bem; e depois, Sócrates?

Sócrates

Já vais saber. A questão é que eu não entendo claramente que espécie de persuasão é essa que tu dizes que a retórica produz e qual o objecto sobre que se exerce. Tenho, evidentemente, uma ideia do que tu pensas a este respeito. Gostaria, no entanto, de te perguntar qual é, em tua opinião, a natureza dessa persuasão que nasce da retórica e a que objecto se aplica. Mas, fazendo eu uma ideia do teu pensamento, porque te interrogo, em vez de apresentar simplesmente as minhas conjecturas? Não é, certamente, para te pôr à prova, mas apenas em atenção à conversa, que desejo se processe de maneira a ficar perfeitamente claro o assunto de que tratamos. Vê tu próprio se tenho ou não razão para te interrogar deste modo. Se, por acaso, eu te tivesse perguntado que espécie de pintor era Zêuxis e tu me respondesses que era um pintor de figuras, não era natural que eu quisesse saber o género de figuras que ele pintava? Não concordas com isto?

Górgias

Absolutamente.

Sócrates

E a razão não está em que há outros pintores que pintam também figuras?

Górgias

Exacto.

Sócrates

Claro que, se Zêuxis fosse o único a pintá-las, a tua resposta teria sido correcta.

Górgias

É evidente.

Sócrates

Pois bem, diz-me agora a respeito da retórica: pensas que é a única arte capaz de produzir persuasão ou que há outras artes que fazem o mesmo? O que quero dizer é o seguinte: aquele que ensina alguma coisa persuade ou não os outros daquilo que ensina?

Górgias

Fá-lo no mais alto grau, Sócrates.

Sócrates

Regressemos àquelas artes de que falávamos há pouco. A aritmética e aquele que é entendido na aritmética não nos ensinam tudo o que diz respeito ao número?

Górgias

Claro que ensinam.

Sócrates

Logo, também persuadem.

Górgias

Também.

Sócrates

A aritmética é, pois, também ela, obreira de persuasão.

Górgias

Assim parece.

Sócrates

E, se nos perguntarem a natureza e o objecto desta persuasão, responderemos certamente que se trata duma persuasão didáctica relativa à série completa dos números pares e ímpares. Poderíamos, do mesmo modo, demonstrar que todas as outras artes que há pouco citámos são obreiras de persuasão e indicar o carácter e o objecto desta persuasão. Não será assim?

Górgias

É

Sócrates

Portanto, a retórica não é a única obreira de persuasão.

Górgias

Dizes bem.

Scuola di Atene, de Rafael
Sócrates

Mas se ela não é a única a produzir este efeito, havendo outras artes nas mesmas condições, parece justo que façamos uma pergunta idêntica à que fizemos há pouco a propósito do pintor: De que persuasão é a retórica a arte e sobre que incide esta persuasão? Não achas razoável esta pergunta?

Górgias

Acho.

Sócrates

Responde então, Górgias, já que essa é a tua opinião.

Górgias

Entendo que a persuasão em causa é a que se realiza nos tribunais e em outras assembleias, como há pouco afirmei, e que o seu objecto é o justo e o injusto.

Sócrates

Já suspeitava, Górgias, que era dessa persuasão e desse tipo de objectos que falavas, mas, mesmo assim, fiz a pergunta para não te admirares se, daqui a pouco, te interrogar sobre coisas que parecem evidentes e que, no entanto, me obrigam a interrogar-te de novo. Se assim procedo, é, repito, para conduzir de forma coerente a discussão, não por qualquer espécie de má vontade pessoal. Penso que não nos devemos habituar a adivinhar-nos mutuamente o pensamento, antecipando as palavras que ainda estão por proferir; importa que tu desenvolvas livremente os teus raciocínios segundo os princípios que tu próprio estabeleceste.

Górgias

Parece-me esse um método excelente, Sócrates (in Górgias, Edições 70, 1997, 448b-454c).

Continua

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Portugal e o iberismo (v)

Escrito por Franco Nogueira






A que doutrinação se encosta o moderno iberismo espanhol? Sob forma aparentemente nova, retoma a linha tradicional. No historiador Juan Beneyto podemos encontrar uma clara expressão da tese actual (15). Convém observá-la, ainda que em síntese. Na tradição e na mitificação do Centro, este está ligado ao Círculo, que depende daquele e de Deus. Quando está dentro do Círculo, é o Cosmos; para além do Círculo, é o Caos. Firmar-se-ia esta análise em concepções de Platão, e depois na filosofia cristã; a Renascença exaltara o Centro; e durante a Idade Moderna o Centro é utilizado como esquema ordenador da vida e da convivência. Do Centro partem as vias radiais; e esta realidade deve comandar as estradas e os caminhos-de-ferro (e portanto comunicações e transportes) (16) e actividades culturais também. Em termos políticos, o Centro seduz e arrasta. Do Centro manda-se melhor, e de maneira mais firme. Por isso o Centro tem a vocação de coagir; e historicamente todas as periferias têm sido subordinadas aos poderes instalados no Centro (17). Este e a periferia são assim quantidades que se completam, e os pormenores dessa conjugação reflectem-se nas suas variáveis de Meseta e Litoral. Aliás, já Sanchez Albornoz sustentava parecer semelhante: considerava Castela um país de Meseta, onde a vida de pobreza e de luta contra a natureza áspera produz uma força expansiva que arrasta à procura, para além do território, de uma vida amável e mais doce, e da fortuna. Em termos políticos, Centro e Periferia, Meseta e Litoral são variáveis que dependem do elemento telúrico, que é particularmente ligado à proximidade ou ao afastamento do mar. E os Espanhóis, instalados numa terra subordinada ao Continente por uma montanha de fogo, têm ao invés toda a periferia encostada ao mar, pois que Espanhóis são também ao modo antigo os Portugueses. A Oeste, quedava-se Portugal, que se havia afirmado para lá da órbita de Castela, eximindo-se à identificação da Espanha política com a Espanha física (segundo o que se alega ser uma terminologia antiga), e isso numa Península que deve estar sob um único mando, rodeada como está pela França e com a saída para o Atlântico por Lisboa. Esta foi a suprema obsessão de Filipe II; e essa continua a ser a maior tragédia de Castela, que vê morrer o Douro fora da sua terra. Castela - Centro e Meseta - jamais tomou consciência de que a periferia e a meseta fossem coisa diferente; e não teve em conta os reinos em seu derredor. Se Maquiavel sublinhou o dilema em que se debatem os príncipes - serem amados ou serem temidos - Castela usou de ambos os instrumentos: o amor de Deus e o temor do Rei. E para compreender a Espanha e filiar as suas estruturas tradicionais, importa investigar o que é Castela. Se a invasão islâmica impediu o surto do Feudalismo - e consequentemente um forte alheamento da história europeia - a conquista de novo mundo atrasou o impulso que a levaria a ocupar toda a Península. Apenas a utilização por Filipe II do poder marítimo marítimo português conduziu à integração da velha Lusitânia no mecanismo político-administrativo, aproveitando-se do problema sucessório; e parece assim evidente que o esforço militar necessário para eliminar o separatismo no resto da Espanha foi deslocado para as Índias, isolado e abandonado o Litoral. No entanto, tudo foi gradualmente submetido. Portugal foi a única entorse à política de homogeneidade da Península. Saavedra Fajardo dissera que Portugal abandonara a coroa de Castela como condado e a esta regressaria como reino. Seriam diferentes os métodos; mas impunham-se os mesmos mecanismos sociais. Tentaram-se os casamentos, fundindo-se interesses e obrigações; e também o intercâmbio de funções. Em súmula, era esta aliás a famosa defesa do conde-duque dirigida a Filipe IV, a quem acusava de não ter querido proceder como Filipe II. Mas Portugal, nascido cedo para a liberdade, possuía uma identidade tão arreigada, nota Beneyto, que não se podia assimilar por Castela. E deste conjunto de circunstâncias - que concluir? Para prosseguir e completar a epopeia política castelhana, de avanço da Meseta para o Litoral, pode prever-se uma alteração de porte, de que a Espanha necessita. À castelhanização dos não-castelhanos deve seguir-se uma espanholização do todo, e que, progredindo num desenvolvimento convergente, atinja como ponto de coincidência o sentido de uma Pátria Nova, numa concepção integral hispânica, sem anexações nem secessões; e uma integração que avance até ao Litoral, aceitando as estruturas dos que aí habitam mas subordinando-as também.




Esta a tese. Importa ensinamentos e autoriza ilações. Alicerçada no que se considera a própria natureza das coisas, baseada numa especiosa interpretação da geografia, firmada em dados quase havidos por sacrossantos, invocando unilateralmente uma raiz telúrica, apresentando-se como necessidade filosófica evidente, a tese estriba-se em elementos que por definição não desaparecem nem se alteram na essência, e assim tem de se dizer que se pretende atribuir-lhe validade permanente. Na actualidade, a tese não cumpre; mas porque é sempre válida, haverá de cumprir-se mais tarde ou mais cedo. E então as perguntas são: qual o motivo do seu não cumprimento? e que se impõe fazer para transformar em realidade o princípio implícito numa tese válida? Estão encontradas as respostas desde Filipe II: porque Castela se empenhou distraidamente noutras tarefas (as Índias, isto é, as Américas), e porque se não aplicaram os mecanismos previstos (e preconizados desde Carvajal e Floridablanca até Pelayo e Pidal, Unamuno e Maragall, Albornoz e Madariaga, e os demais iberistas). Mas Castela está agora bem consciente das distracções a que se entregou no passado; e está livre de se dedicar doravante à concretização da tese. Por outro lado, Portugal oferece hoje uma oportunidade rara, e portanto a não desperdiçar: reduzido ao mínimo nos seus recursos e no seu espaço; enfraquecido nas suas estruturas; trabalhado por forças que tentam destruir no seu cerne os mecanismos psicológicos de defesa; infiltrado por interesses económicos e financeiros alheios, e que não raramente obedecem a comandos estrangeiros, e a que naturalmente são inconvenientes a soberania, a independência e a integridade portuguesas; fascinado por construções internacionalistas, efémeras como sempre; convencido de que estão ultrapassados os valores essenciais (nacionalismo, patriotismo), ainda que os demais países os cultivem com empenho e os respeitem com fervor; e descrente de si próprio. Todas estas realidades foram inspiração para um expressivo e premonitório editorial no jornal A B C, assinado por Florentino Perez-Embib, que prevê um adeus ao Portugal Grande, e concluiu com esta pergunta elucidativa: «que será na Península um Portugal pequeno?» (editorial de 7. V. 1974). E tempo depois o mesmo A B C, em artigo de Alfonso de La Cerna, saúda o reencontro com a Espanha de António Sardinha (editorial de 14-VIII-1977). E ainda mais tarde, de novo o A B C, em artigo de Manuel Fraga Iribarne, antigo ministro de Franco e integrado na situação portuguesa post-franquista, não cita o nome de Portugal mas a este se aplica a sua doutrina. E esta é integradora: «negar a tendência integradora e seus benefícios é falsificar a história»; e a «pressão exterior actua hoje em favor da integração, justamente porque os desafios externos são mais agudos» (artigo de 28-III-1984). E neste particular importa acaso abrir um rápido parêntesis. Manuel Fraga é tido em Portugal, por muitos, como não partilhando, quanto a Portugal, das correntes iberistas, e o próprio Fraga se apresenta como desejoso de construir um sonho: uma região aparte constituída pela Galiza e Portugal (não o Minho apenas, mas Portugal); e esse seria um pequeno mundo diferenciado de tudo o mais na Península. Mas não é esse, no fundo, o seu pensamento, nem o seu sentimento. Num volume recente, acaso sem o pretender, fugiu-lhe a pena para a sua verdade: Escreveu: «O resultado tem sido uma penalização injusta para a maioria das regiões fronteiriças. Este tem sido o caso na maior parte da fronteira hispano-portuguesa: todas as nossas províncias ocidentais, como parte oriental de Portugal, viram-se cortadas nas suas relações económico-sociais mais naturais. Chegou o momento de dar solução aos seus problemas, no marco da integração comum da Europa, e em particular da nova política estrutural da Comunidade». Por outras palavras, Manuel Fraga pretende o desenvolvimento em comum das regiões fronteiriças de Portugal, cujas relações económico-sociais normais seriam com a Espanha. Acrescenta mais Manuel Fraga: «As estatísticas indicam que a integração económica de Portugal e Espanha continua a um ritmo superior ao da integração do conjunto da Península Ibérica no contexto da CEE com um ritmo quase duplicado das correntes comerciais». Dito de outro modo: ainda que venha a acabar a CEE, a integração económica de Portugal na Espanha será um facto. E para o fim do volume escreve Manuel Fraga: «Não podemos continuar a desertificar a nossa Meseta; é preciso enchê-la de oásis, ligados entre si, que sejam verdadeiros depósitos de inovação e humanismo» E a região Galiza-Portugal idealizada por Fraga tem evidentemente a sua sede em Tui - sede histórica, psicológica, geográfica, política. Manuel Fraga, em suma e explicitamente, adere à tese Meseta-Litoral, a Portugal ficando reservado o papel de ser um oásis no conjunto da Meseta (Manuel Fraga, Iribarne, A Galiza e Portugal no Marco Europeu, pp. 27, 29, 78, na colecção Textos da Presidência da Xunta de Galicia, Santiago de Compostela). Mais elucidativo é Ramon Villares. Traçando o ideário do nacionalismo galego, com base no histórico Manifesto da Asamblea Nazionalista de Lugo, Villares resume-o assim: «no plano político, expõe-se em primeiro lugar a necessidade da autonomia integral para a Galiza, a organização federal da Península (já que Portugal deveria entrar na federação) e a casualidade das formas de governo, embora a simpatia que se preconiza por aquela forma de governo que torne mais fácil a federação com Portugal, suponha uma clara opção antimonárquica. Nacionalismo, republicanismo, federalismo e iberismo são os conceitos que dominam as posturas políticas» daquela Assembleia (Ver Ramon Villares, História da Galiza, Livros Horizonte, 162). Estas palavras, tanto de alguns anos atrás como de hoje, poderão acaso penetrar e dissipar a candura dos portugueses entusiastas do Movimento Minho-Galiza como do igualmente cândido Movimento Algarve-Andaluzia. Mas feche-se o parêntesis. De um outro ângulo, a revista Cambio 16 (número de Julho de 1983) interpreta a seu modo a situação, e não é ambígua: ocupa-se do iberismo; defende a integração de Portugal na Espanha; e considera que o ingresso dos dois países no Mercado Comum constituiria um excelente caminho para a União Ibérica, através da união económica, da união aduaneira e do desaparecimento das fronteiras. Destes comentários a conclusão pode ser uma só: procura-se a execução dos princípios da tese Meseta e Litoral. Excluída a violência, ocorrem métodos tradicionais desde Filipe II. E a doutrinação retoma as linhas constantes. Julian Marias, que sem embargo da sua avançada idade é ensaísta prestigioso e comentador político, escreve muito nitidamente: «A Espanha, como um todo, mais do que uma recordação, é uma meta, um destino. A separação de Portugal foi um fracasso, uma rebelião contra a geografia. A Península Ibérica está preparada, desde o princípio do tempo, para ser a morada dos Espanhóis» (J. M., Cinco años de España, Espasa Calpe, 1982, pp. 24, 25). Julian Marias é havido como admirador, acaso discípulo de Pelayo, de Maragall, de Unamuno, de Sanchez Albornoz, de Madariaga, sobretudo de Ortega y Gassett, dos iberistas integradores em suma; e por isso é análoga a sua concepção da Espanha. E por isso insiste em que Portugal independente é contra a estrutura primária do conjunto; o Brasil não faz sentido fora do mundo hispânico; e a nova fusão entre Portugal e Espanha, a fazer-se, deve ser impulsionada pelos povos da América Hispânica (ob. cit., p. 227). Através dos seus volumes - A Espanha Real, La devolución de España, España en nuestras manos - sustenta uma visão global de que um vivo iberismo faz parte integrante, e muito intensa. Em síntese, pode neste particular, do lado português, dizer-se: «do lado espanhol, raros são, mesmo entre os melhores desses homens, os que aceitam sem azedume esta bizarra mutilação que nós representamos no todo geográfico da Península; e os que podiam orientar os governos, repetidas vezes quiseram emendar o que lhes parecia defeituoso; éramos um enfermo crónico do el morbo do separatismo, mas a cura devia tentar-se» (Alberto Martins de Carvalho, Iberismo, Vol. III do Dicionário da História de Portugal, dirigido por Joel Serrão). E tudo isto continua a ser o eco do pensamento de Lafuente, nome já mencionado, e que Hernâni Cidade citou como fonte essencial da matéria: «não podemos reconhecer nunca, nem ao filho de Henrique de Borgonha, nem aos Portugueses, o direito à emancipação». A tese Meseta e Litoral, actualizada e modernizada, constitui a forma do iberismo neste fim de século e de milénio. Para se avaliar da sua excepção, de que elementos objectivos dispõe?

Santiago de Compostela

Com a evidência dos factos, e só esta, e que deve recusar-se a qualquer emoção ainda que legítima, haverá de dizer-se que do lado espanhol se estão a utilizar instrumentos culturais, económicos, políticos, militares. No plano cultural, e em síntese: penetração da televisão espanhola, que cobre bem um terço do território nacional; exibição de filmes espanhóis não legendados em português; aliciamento da juventude portuguesa raiana para se deslocar a território espanhol; esmagamento dos descobrimentos portugueses com os descobrimentos espanhóis, que já conseguiram chegar aonde nunca chegaram; multiplicação dos encontros de poetas de expressão ibérica, de técnicos de expressão ibérica, de comerciantes e empresários de expressão ibérica, de jornalistas de expressão ibérica, e houve mesmo um encontro ibérico de municípios (em Lagos, em 1988, segundo a imprensa); sugestão por alguns da possibilidade de a língua espanhola ser uma opção nos liceus portugueses (18); e uniformização da História de Portugal e da de Espanha, de modo a eliminar da primeira quanto a possa exaltar e quanto possa desagradar à segunda. Reitores das Universidades do Minho, Porto e Vila Real, reuniram-se com os das Universidades espanholas de Corunha, Santiago de Compostela e Vigo, e concordaram em que os alunos portugueses daquelas universidades do Norte de Portugal poderiam fazer a sua formação académica naqueles três centros de ensino superior da Galiza (Diário de Notícias, 4-XII-91). Tudo isto na orientação preconizada por Sinibaldo de Más: criar a habitualidade do iberismo no espírito e na alma do povo português. E depois o uso de instrumentos económicos: compras de excelentes locais na cidade de Lisboa e nos arredores do Porto, e outros sítios; aquisição do controle de bancos, companhias e empresas de Portugal por capitais espanhóis; compras por parte de espanhóis feitas com financiamentos portugueses; investimentos espanhóis que não se destinam a criar riqueza nova mas a financiar simples transferências de propriedade; desenvolvimento em comum dos territórios fronteiriços, estando naturalmente os Espanhóis prontos a tomar à sua custa o maior quinhão das despesas e ficando cerca de dois terços do continente português cobertos por esse desenvolvimento comum (veja-se, por ex., António Pintado e Eduardo Barrenchea, La Raya de Portugal, la frontera del subdesarrollo, Cuadernos por el dialogo, Madrid); construção de vias rápidas para Espanha, aparentemente na convicção de que se estão a lançar para a Europa; acolhimento de esquemas como o eixo Minho-Galiza ou Andaluzia-Algarve, já velhos desde antes de Filipe II, e cujo real significado e propósito vimos há pouco; abandono da marinha mercante, passando a usar os transportes terrestres para a esmagadora maioria das nossas exportações e importações; e por tudo não deverá causar surpresa que a mesma revista Cambio 16 haja escrito em largas parangonas que o «capital espanhol pôs cerco à economia portuguesa» (número de Dezembro de 1989). Neste particular, e neste contexto, cabe lembrar o apólogo conhecido: o da panela de barro e a panela de ferro que procuram resistir à corrente (Alberto Martins de Carvalho, artigo citado). Neste contexto, há que registar um artigo publicado da imprensa portuguesa, sob o título de «Bolsa ibérica é provável». Aí se escreve: «comentando a hipótese de uma fusão entre Lisboa e Madrid», considera-se que «em termos económicos Portugal não deixa de ser um prolongamento de Espanha», e a «verdade» - acrescenta um responsável, segundo o jornal, «é que os espanhóis já estão aí a comprar tudo, podendo dar-se o caso de não se pôr sequer esse problema no futuro» (o da bolsa ibérica), «uma vez que grande parte das empresas portuguesas poderão já ser detidas maioritariamente por espanhóis» (Semanário, 4-I-92). E encaremos o terreno propriamente político. No que há de fundamental, teremos de ver o seguinte; constitui grave risco pertencer Portugal conjuntamente com a Espanha à mesma estrutura internacional e multilateral político-militar e económica (assunto levantado, por ex., por Medeiros Ferreira. Um século de problemas), estimulando-se assim uma tendência, encorajada naturalmente pela Espanha, para se tratar a Península como um conjunto em que Portugal se dilui e para se adoptarem soluções que correspondam mais ao peso da Espanha (por exemplo, exigir a sede de multinacionais em Madrid, mas com jurisdição em toda a Península). Um exemplo frisante, e elucidativo: a comissão de transportes e comunicações da Comunidade Europeia, ao planear as ferrovias trans-europeias, atribuiu à Península um triângulo ferroviário para alta velocidade: Porto, Lisboa, Madrid. Quer isto dizer que a CEE entende que para Portugal a Europa é Madrid. Por todas estas razões, procurou sempre Portugal pertencer a estruturas de países periféricos - de que a aliança luso-britânica é o mais expressivo exemplo - e não a estruturas continentais, ao contrário da Espanha, que prefere estas, sempre mais saudosa de Carlos V do que da aventura atlântica. Mas o uso de instrumentos políticos, por parte de Madrid, importa ainda uma outra coordenada: a obsessão de substituir a presença ou a influência de Portugal por toda a parte, desde o Brasil até aos países africanos de expressão oficial portuguesa. E finalmente o quadro militar. E aqui ganha toda a sua virtualidade a frase inicial: fazer coincidir a geoestratégia da Península com a sua geopolítica. Logo à sua entrada para o Pacto do Atlântico, mostrou a Espanha empenho vivo em se responsabilizar pela defesa do flanco ocidental e sul da aliança; não sentiu a menor dificuldade ou hesitação em reivindicar toda a responsabilidade por aquela zona; e assim, muito naturalmente, os meios espanhóis são dispostos por forma envolvente, pondo em causa a liberdade irrestrita das nossas costas (sul e ocidental), e também a do triângulo estratégico português, ou seja o Atlântico decisivo, de que fala o professor Borges de Macedo (cf. Álvaro de Vasconcelos, Portuguese/US Relations in the Field of Security, em Portugal: An Atlantic Paradox, 64, 65). Enfim, estamos perante a política permanente. Há que repisar o comentário: os tempos não são novos, nem são outros: e os fantasmas do passado estão bem vivos no presente - porque não são fantasmas.


Quanto fica para trás, suscita naturalmente uma interrogação: por que havia de mudar a Espanha? Por que abandonar um sonho multissecular? E que se opõe à execução prática da tese Meseta e Litoral? Em verdade, nada, rigorosamente nada - salvo a vontade, a resolução, a lucidez, a capacidade, a consciência nacional, o rasgo dos Portugueses. Em qualquer caso, objectivamente, não há por que criticar a Espanha. É um grande povo; está no seu papel; está na sua lógica; mas não está no seu direito. Quando dizemos a um francês, ou a um inglês, ou a um italiano, que admiramos o seu país, mas não queremos ser franceses, ingleses ou italianos, acham a afirmação óbvia: admiram também muito Portugal mas não querem ser portugueses. Se com toda a simplicidade afirmamos a um espanhol a nossa admiração pelo seu país, mas acrescentamos que não queremos ser espanhóis - este mostra-se surpreendido e afrontado, tem-se por ofendido, e considera que se está a ser anti-espanhol. Como explicá-lo? Nós, Portugueses, parecemos porém não estar por vezes à altura dos destinos que são os nossos, e dos nossos incontestáveis direitos. Se o iberismo avançar, são culpados os Portugueses. Todos os Portugueses. Em consciência, com objectividade e com isenção, não podemos responsabilizar este ou aquele vulto político, este ou aquele partido, este ou aquele círculo social ou económico. São responsáveis - apenas todos os Portugueses. E «todo o povo que se esquece da terra em que nasceu e contempla indiferentemente as cores estrangeiras que a proclamam vencida - é um povo morto, uma nação cujo espírito passou enquanto o corpo se dissolve» (Rebelo da Silva, Bosquejos Histórico-Literários, I, 72) (19).

(in ob. cit., pp. 143-151).

Notas:

(15) Já atrás citado, España y Litoral, Madrid Siglo XXI, 1980.

(16) Como se sabe, quem dominar transportes e comunicações domina tudo o mais. Transportes e comunicações significam império.

(17) Esta teoria poderia também explicar (a especulação é minha) por que motivo a Inglaterra sempre se opôs a um continente europeu unido. E também explicaria a luta permanente de Portugal contra e em face do Centro.

(18) Este ponto suscita alguns reparos. Para lerem os livros da grande cultura espanhola, os Portugueses não precisam de aprender espanhol. São outros, portanto, os objectivos. Acaso se julgará que optar pelo espanhol é o mesmo que optar pelo italiano, ou sueco, ou sânscrito? Há que reflectir em que, por detrás da opção pelo espanhol, há logo a poderosa vontade de Espanha, os poderosos meios de Espanha, e o aliciamento e exploração que se fariam de quantos jovens portugueses fizessem tal opção, através de subsídios, bolsas de estudo em Espanha, etc.


(19) Julgo estar bem consciente de que o problema do iberismo, para ser tratado em toda a extensão e profundidade, requereria um grosso tomo pelo menos. O autor sabe que muito e muito ficou por dizer; e ainda haverá mais a dizer e que o autor não sabe. Mas as páginas que antecedem serão talvez bastantes, como ponto de partida, para o leitor curioso ou preocupado se lançar nas suas reflexões ou até nas suas investigações.