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| Templo de Salomão |
«Não é fácil traçar a história de uma organização como a maçonaria que, no dizer do historiador maçon espanhol "Danton", "procura a sombra para poder avançar com mais rapidez". É complicado discernir a sombra. Os muitos maçons que se dedicaram a redigir essa história estão de acordo quanto à dificuldade da empresa. Identificar os marcos mais salientes da história da maçonaria é simples, mas já no que diz respeito às origens da irmandade, existe uma disparidade total entre os próprios maçons.
Dentro da maçonaria, há quem coloque o ponto de partida da Ordem no nascimento dos grémios de canteiros medievais que já se chamavam maçons; há quem o faça recuar à sobrevivência dos collegia romanos que agrupavam os construtores; há quem aponte na direcção do Egipto; outros pensam directamente na construção do Templo de Salomão, outros na Pérsia, outros na Índia... e não falta quem pense simplesmente que foi Adão o primeiro maçon e a origem da transmissão iniciática dos segredos da irmandade. O doutor George Olivier (1782-1867) não teve pejo em escrever, nas suas Antiguidades da Franco-Maçonaria, que "a antiga tradição maçónica sustem - e eu sou inteiramente da mesma opinião - que a nossa Sociedade existia antes da criação deste globo terrestre, através dos diferentes sistemas solares".
A inteligente distinção do Grão-Mestre italiano Massimo della Campa, que separa a maçonaria instituição ou organização, por um lado, dos princípios maçónicos, por outro, simplifica a abordagem do problema histórico da maçonaria. A maior parte das dificuldades, na hora de determinar as origens da irmandade, resulta precisamente da confusão entre as duas realidades. Quando os autores maçónicos especulam sobre a génese da instituição, na realidade, estão a aventar hipóteses sobre a genealogia da doutrina maçónica: procuram as raízes dos princípios maçónicos. Neste sentido, o principal erro consiste em dar o salto lógico injustificado ao concluir que a organização maçónica também deve estar ligada com a origem intelectual. A falta de rigor histórico, somada a essa falha metodológica, propiciou que, em geral, a história maçónica ofereça um espectáculo de disparidade, desprovido de credibilidade. Em 1909, um membro do Conselho da Ordem do Grande Oriente de França e do Grande Colégio dos Ritos, Charles Bernardin, num exercício de auto-crítica carregado de ironia, escrevia que "entre as 206 obras [pretensamente históricas sobre a maçonaria, N.d.A.] que consultei e que tratam da origem da franco-maçonaria, encontrei (...) 39 opiniões diferentes" e, acto contínuo, desenvolvia a sua estatística. Realço alguns dados, extraídos das conclusões de Bernardin:
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| Egipto |
"Vinte e oito autores atribuíram a origem da maçonaria aos pedreiros construtores do período gótico; cinco autores, aos Stuart; um, à China; um autor, ao Japão; cinco autores, aos jesuítas; sete, aos antigos rosa-cruzes; cinco, aos cruzados; doze, aos templários; um, aos albigenses; dois, à sociedade Nova Atlântida de Bacon; quatro, aos druidas; nove, à antiga Roma; dezoito, ao Egipto; seis, aos judeus; um, à ordem dos assassinos; um, aos maniqueus; dez, aos primeiros cristãos ou mesmo a Jesus Cristo; três, aos construtores do Templo de Salomão; um, aos da Torre de Babel; três, aos sobreviventes do Dilúvio Universal; para vinte autores, as origens da maçonaria perdem-se, simplesmente, na noite dos tempos, e quinze autores recuam até à Criação, sublinhando que no Paraíso terreal já existia a maçonaria".
Bernardin também cita, sem mencionar o nome, o assombroso caso de Olivier, para quem não havia dúvida que a maçonaria já existia antes da criação do mundo.
Ninguém demonstrou nunca que existe continuidade material entre algumas dessas supostas e discutíveis origens intelectuais e a maçonaria histórica, tal como a conhecemos, excepção feita para aqueles que afirmam, com razão, que a maçonaria moderna, ou especulativa, só tem continuidade material com a chamada maçonaria operativa, isto é, com os grémios de construtores da Idade Média tardia.
Pelo contrário, se se proceder à separação da história da organização maçónica da história dos princípios maçónicos, obtém-se uma maior clareza e claridade.
(...) No âmbito da maçonaria, não só se procurou o abrigo da sombra, como se tentou tirar partido propagandístico, dessa penumbra. Por um lado, como já salientava "Danton" (pseudónimo de um maçon espanhol desconhecido que elaborou uma monumental história da franco-maçonaria, nos anos 1882-83), para fazer recuar sem escrúpulos a origem da irmandade quanto mais atrás melhor; claro que a intenção era de, com isso, dotá-la de maior autoridade. Mas por outro lado, essa obscuridade em que se movimentou a maçonaria, também facilitou que se atribuísse, sem nenhuns escrúpulos, a condição de maçons a personagens extraordinárias com a mesma finalidade de engrandecer a auréola de excelência em torno da irmandade. Alec Mellor cita alguns Grão-Mestres fictícios e lendários que, por vezes, foram reivindicados pela maçonaria: Alexandre Magno; o Rei Artur; Cromwell; a Rainha Elfride de Inglaterra; Fo-Hi, imperador da China; Godofredo de Bouillon; Hugues de Payens; Jaime II de Inglaterra; Jacques de Molay; Jesus Cristo, Júlio César; Moisés; Noé; Numa; Ricardo Coração de Leão; Rómulo; O Rei Salomão; Santo Albano; São Miguel Arcanjo ou Tubam Caim.
A maçonaria moderna herdou esta mania de inventar uma história antiquíssima e repleta de membros egrégios, dos seus antepassados, os autênticos construtores medievais, cujos documentos transbordavam duma criatividade histórica exuberante. Mas se, no século XIV, essa opulência criativa era relativamente ingénua (as corporações de construtores reclamavam uma antiguidade remota para aumentar o prestígio social do grémio, e sem nenhum objectivo ideológico), a partir dos séculos XVII e XVIII, a elevação desse prestígio social transformava-se em lenda dourada para facilitar a difusão da nova doutrina maçónica... Ao dar-se conta desta realidade, o maçon Mellor mostra-se envergonhado:
"Os clérigos que, no século XIV, deram à franco-maçonaria operativa o manuscrito Regius ou o manuscrito Cooke, tinham a desculpa de serem hagiógrafos piedosos [Mellor tem um fraco conceito de hagiografia, como se vê. N.d.A.]. São menos desculpáveis as enormidades acumuladas por Anderson na parte histórica das suas Constituições. A um maçon de hoje entristece que, em pleno século XX, Ragon e Clavel [dois grandes historiadores maçons] sejam menos dignos de crédito do que São Gregório de Tours para a época merovíngia (...) Que, em plena época dos computadores, persistam as concepções oníricas em matéria de história ou de simbolismo, é um escândalo para a razão"».
José Antonio Ullate Fabo («O Segredo da Maçonaria Desvendado»).
«A obra da Revolução portuguesa é devida à Maçonaria exclusivamente».
Machado Santos
«(...) não foi por acaso que Machado Santos "sustentou, a propósito da proclamação da República Portuguesa, que "a Maçonaria tinha sido a verdadeira mãe das revoluções, porque os principais elementos do Carbonarismo estavam nela filiados". Com base numa tal relação, adianta Pinharanda Gomes:
"A Carbonária, introduzida [em 1822 ou 1823] pelo general italiano Pepe, surgiu como braço armado da Maçonaria, e as suas figuras de estilo são judaicas. Mantendo o estado de inocente e de tolerante, a Maçonaria utilizava a Carbonária como arma repressiva e coactiva. A Maçonaria nada fazia de mal; mas nada fazia para evitar o mal. Tinha as mãos lavadas, mesmo depois de as sujar.
«O seu interesse [do Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes] pela associação entre a rosa e a cruz é insofismável, expresso finalmente na sua própria sepultura... a sensibilidade, a disposição de espírito e a relativa adesão aos rosacrucianos e, por esta via, ao ideário da maçonaria parecem indesmentíveis».
António Teixeira Fernandes («Igreja e Estado. À volta do contraditório Bispo do Porto»).
Fátima e a Maçonaria (i)
«A escolha que temos não é entre mais revolução e mais ou menos conservadorismo reaccionário, mas sim entre prosseguir na organização do processo de mudança tendente a produzir uma nova ordem mundial, ou sofrer um total e talvez irreparável colapso».
H. G. Wells
A ideia de um Anticristo, uma entidade que se assemelha a Cristo, mas que é de facto o seu oposto, foi dada na Bíblia e tem sido muitas vezes referida pelos mais diversos comentadores nos tempos modernos. «Roma perderá a sua fé e tornar-se-á o trono do Anticristo», disse Nossa Senhora de La Salette às duas crianças que viram uma aparição da Virgem Maria, numa pastagem perto de Grenoble, em 1846. Os Adventistas do Sétimo Dia e vários ramos da Igreja luterana defendem que o Anticristo reside no Vaticano. Deputado europeu e líder da Igreja Presbiteriana Livre do Ulster, Ian Paisley ficou famoso por denunciar João Paulo II como o anticristo em Estrasburgo. Mas a denúncia mais forte, mais atendida e mais duradoura veio de dentro da própria Igreja Católica, especialmente do movimento sedevacantista.
O sedevacantismo é um movimento fragmentado, feito de muitos pequenos grupos. O número total de pessoas que se auto-qualificam sedevacantistas é de talvez uns duzentos mil. Vivem sobretudo nos Estados Unidos, Canadá, Brasil, Reino Unido, Austrália, França e Itália. Embora a sua mensagem seja extremista, os sedevacantistas não vão geralmente para a luta nos púlpitos. São católicos tradicionais devotos que acreditam no papado e na infalibilidade do Papa, mas estão profundamente convictos da ideia teológica segundo a qual o actual Papa, como os quatro que o antecederam, não devem ser reconhecidos como membros legítimos da Igreja, muito menos sucessores de S. Pedro.
Aria Daniele, um piloto de aviões reformado, natural do Brasil, que viveu em Aljustrel, Fátima, a partir de 1988, articulou de forma erudita a visão sedevacantista da perspectiva de Fátima. Considera os acontecimentos de Fátima em 1917 os mais maravilhosos e mal-entendidos da era moderna do Cristianismo. «Quando o mundo entrou no catastrófico período das duas guerras e da atroz carnificina do comunismo, cobrando dezenas de milhões de vítimas, Deus todo-Poderoso na Sua misericórdia realizou um grande milagre e ofereceu-se para realizar a conversão de um poderoso império de forma a poupar a humanidade do processo de auto-destruição». Escreveu Daniele numa obra intitulada Entre Fátima e o Abismo.
«A oferta de ajuda divina foi resposta às orações da Igreja pedidas pelo Papa Bento XV, o Vigário de Cristo, que carrega a responsabilidade de garantir a fé católica, que é na sua essência uma fé na intervenção divina na Terra. Ainda assim, esta oferta foi recusada. Hoje, passado esse período de violência catastrófica, vivemos no meio de uma imundície moral e religiosa causada pelo trágico desprezo do mundo pela Fé; uma fé que está ela mesma ameaçada de aniquilação às mãos dos inimigos materialistas e modernistas. O Segredo de Fátima, como profecia da paz e da salvação para os nossos tempos, é um apelo constante a esta fé e um alerta daquilo que podemos esperar em consequência de uma cegueira espiritual que recusa o seu único remédio: a conversão às regras e ao amor de Deus», escreveu Daniele.
Da sua casa em Aljustrel em 2009, Daniele resumia assim os seus pensamentos sobre o estado da Igreja Católica no pós-Concílio Vaticano II: «Em todo o mundo, a fé Católica tornou-se a mais odiada e atacada de todas as religiões. É desprezada por aqueles que ocuparam a antes sagrada Cidade do Vaticano. O Vaticano tornou-se porta-voz de um falso ecumenismo determinado em obliterar a Verdade revelada de Jesus Cristo. Tais heresias são propostas por pastores que vendem uma nova religião sob o disfarce do catolicismo. Não admira que nos nossos tempos, o mundo, contaminado pelos fumos do sincretismo, esteja profundamente confuso por uma avassaladora degradação mental e moral».
Deve-se notar que o desmantelamento da Igreja Católica começou em força no início dos anos 60. Tanto os ensinamentos da Igreja como as mensagens de Fátima foram classificados como fora de moda e supérfluas face às necessidades do mundo moderno. Prevaleceu a ideia de que a Igreja Católica deve pôr-se a par do "progresso" da nova ordem mundial ou desaparecer». Os itálicos são de Daniele.
A sua opinião é partilhada por muitos católicos que não se qualificam de sedevacantistas ou parte de qualquer movimento, mas discordam fortemente dos desenvolvimentos no seio da Igreja introduzidos pelo Vaticano II. Dão a Maçonaria como raiz da mentira sobre o Terceiro Segredo. A causa da potencial calamidade que o mundo e a Igreja Católica pode sofrer foi apelidada de «revolução maçónica».
Deixando para já de parte as teorias da conspiração, vejamos o que é factualmente bem conhecido acerca da Maçonaria. A Irmandade, como se tornou conhecida, esteve sempre mergulhada em segredo e ofuscação, impossibilitando ou dificultando muito a separação dos factos da fantasia. Mesmo as suas origens estão envoltas em mistério. É provavelmente um movimento muito antigo. Existem registos na Escócia pelo menos do século XVI, mas os historiadores da Maçonaria concordam, geralmente, que a instituição moderna pode ser encontrada com precisão a partir de 24 de Junho de 1717. Era dia de S. João. Membros das quatro lojas de Londres encontraram-se na cervejaria Goose And Gridiron, junto à Catedral de S. Paulo. Concordaram unir-se numa Grande Loja, a primeira do mundo. A partir desta decisão histórica, as Grandes Lojas proliferaram, na Irlanda em 1725 e em França em 1733, no mesmo ano em que a Maçonaria pôs pé pela primeira vez nos Estados Unidos, onde é hoje numericamente a mais forte do mundo. Actualmente, a fraternidade de cerca de cinco milhões de membros está espalhada por muitas lojas locais, cada uma com a sua agenda própria, mas partilhando os princípios das Grandes Lojas nacionais, estatais ou regionais. A actual Maçonaria cresceu a partir da Idade das Luzes quando a liberdade de raciocinar através da filosofia e da ciência foi promovida como preferível à fé irracional e ao dogma religioso. Atraídos em muitos casos pela promessa de um conhecimento secreto e muita promoção pessoal, os maçons partilhavam um sentimento de camaradagem, alta rectidão moral e caridade. Era uma boa desculpa para os homens se reunirem, a comer, beber e falar. Revestiam a sua fraternidade em alegorias e símbolos associados ao trabalho dos pedreiros que construíram o templo do Rei Salomão.
Tudo isto, juntamente com rituais clandestinos, palavras-passe furtivas e gestos sub-reptícios ajudaram a ligar os iniciados, mas semearam a desconfiança entre os de fora. A única qualificação para membro, muito incompreendida pelos não-membros, era a crença num Criador ou Ser Supremo. A natureza ou filiação religiosa desta divindade única não importa. A Irmandade acolhia pessoas de todas as raças e credos. O «Grande Arquitecto do Universo» da Maçonaria representava o todo-Poderoso, independentemente da escolha pessoal de cada membro.
Em 1877, os franceses deixaram cair a obrigação de que os membros acreditassem num Ser Supremo. Assim, permitiram que os ateus aderissem ao Grande Oriente de França (GOdF). Esta separação radical da norma estabelecida entre os anglófonos espalhou-se a outros países europeus, incluindo Portugal.
A Maçonaria Continental ou Latina separou-se, portanto, das Grandes Lojas anglófonas. O cisma mantém-se nos nossos dias.
Os mercadores britânicos em Lisboa, provavelmente protestantes, criaram a primeira loja em Portugal no ano de 1727. Oito anos depois, já uma segunda loja tinha sido criada com diferente tipo de membros, que incluía mercadores irlandeses, mercenários estrangeiros do exército português, marinheiros, médicos e um padre dominicano. Esta segunda loja dissolveu-se em 1738 quando o Papa Clemente XII lançou uma proclamação proibindo os católicos de pertencerem a lojas ou tomarem parte nas suas actividades. «Ordenamos aos fiéis que se abstenham de ter relações com tais sociedades... de forma a evitar a excomunhão, que será o castigo imposto àqueles que não cumprirem esta nossa ordem. Ninguém, excepto às portas da morte, pode ser absolvido deste pecado senão por nós ou pelo então Pontífice de Roma», declarava a Bula Papal de Clemente In Eminent Apostolatur Speculatae. Dava também ordem aos agentes da Inquisição para perseguirem os maçons.
John Coustos, um suíço naturalizado britânico, criou uma terceira loja em Lisboa em 1741. Tinha sido iniciado numa loja em Londres em 1730 e mais tarde graduou-se em Grão-Mestre numa loja em Paris. Em Lisboa, trabalhava como lapidador de diamantes. Diz-se que o seu êxito financeiro levou a mulher de outro lapidador a denunciar Coustos à Inquisição. O suíço, juntamente com outros maçons, foi preso e brutalmente torturado em 1744. A igreja de um convento serviu de cenário ao seu julgamento.
Acusado de ser protestante, um herege e de ofender os católicos montando uma loja maçon, Coustos enfrentava a pena de morte. Esta foi comutada em cinco anos de trabalhos forçados nas galés, na condição de ele não revelar a brutalidade que sofreu na prisão. Lord Charles Compton, embaixador de Inglaterra em Portugal à época, intercedeu. Uma carta pessoal do rei Jorge II de Inglaterra ao rei D. João de Portugal conseguiu clemência para o condenado. Coustos partiu para a Inglaterra a bordo de um navio muito apropriadamente chamado The Diamond, O Diamante. Ignorando o seu compromisso com o tribunal da Inquisição, escreveu um livro acerca das suas experiências nas mãos dos carrascos. Entretanto, três dos seus co-réus foram mesmo para as galés.
A Maçonaria, a Igreja Anglicana e a família real britânica tiveram sempre boas relações entre si.
Um período semelhante de bom clima existiu em Portugal na década de 60 do século XVIII. O crescimento da Maçonaria neste período, particularmente entre o exército, a aristocracia e os intelectuais, coincidiu com a expulsão dos imensamente ricos jesuítas que controlavam o ensino católico. O poderoso Marquês de Pombal conduzia o país, mas depois da sua queda em desgraça os maçons foram de novo calados. A actividade maçónica era vista com muita desconfiança pelos monarcas absolutos, bem como pela Igreja Católica devido às suas preocupações com as ideias liberais e actividades subversivas. A Maçonaria em Portugal sobreviveu, mas apenas sob um estrito véu de secretismo.
Ao contrário da Maçonaria no Reino Unido e nos Estados Unidos onde a discussão política sempre foi oficialmente proibida nas lojas, o ramo continental envolveu-se determinadamente, ainda que de forma clandestina, na política. A Grande Loja de Inglaterra retirou o seu reconhecimento às lojas portuguesas quando estas alinharam com o Grande Oriente de França. Em 1877, no mesmo ano em que a Maçonaria Continental retirou a Bíblia das lojas e passou a admitir ateus, Pio IX disse a peregrinos portugueses: «Vocês têm um inimigo terrível e poderoso. É a impetuosa Maçonaria que pretende destruir entre vós todos os vestígios do catolicismo». O Papa Leão XIII lançou este alerta contra a Maçonaria em 1884: «A seita declara abertamente que, em segredo entre eles, têm há muito vindo a conspirar para que o sagrado poder dos pontífices seja abolido e que o próprio Pontificado, fundado no direito divino, seja por fim destruído».
A Maçonaria em Portugal fez o seu grande regresso nos primeiros anos do século XX. Historiadores como Oliveira Marques e o Grão-Mestre A. M. Gonçalves reconheceram que houve um envolvimento considerável dos maçons na revolução que derrubou a monarquia em 1910. Os católicos tradicionalistas vão mais longe e chamam «Revolução maçónica» ao golpe que trouxe a «República maçónica» com o seu governo feito de «todos os principais maçons». É provavelmente mais rigoroso do ponto de vista histórico dizer-se que o derrube da monarquia e subsequente ataque às instituições da Igreja Católica foram obra de ardentes republicanos ligados a uma sociedade secreta paramilitar, com quarenta mil membros, conhecida por carbonária. Ambos os grupos incluíam, sem dúvida, e eram grandemente apoiados por maçons.
Ser membro da fraternidade era agora vantajoso para quem pretendia fazer carreira nas armas ou na diplomacia. O primeiro-ministro, o ministro do Interior e o ministro da Justiça nos primeiros governos da República eram todos eles maçons. O número de membros das lojas duplicou para quatro mil entre 1910 e 1926 e a proporção de ministros maçónicos no governo manteve-se nos cinquenta por cento durante toda a Primeira República.
A Maçonaria em Portugal estava assim no auge da sua força política nos anos que rodeiam a criação e ulterior desenvolvimento do culto de Fátima.
As dissensões internas em breve criaram divisões na mais antiga obediência maçónica em Portugal, o Grande Oriente Lusitano Unido, que coincidiam com as divisões crescentes que destruiriam o movimento republicano, O tumulto em que viviam abriu caminho fácil ao golpe de estado de 1926 que conduziu à ditadura de Salazar. No clima de repressão que o fascismo do «Estado Novo» instalou, a Maçonaria voltou a tornar-se um alvo prioritário. A Irmandade foi obrigada a regressar, de novo, à clandestinidade. Um grande grupo de maçons portugueses escolheu o exílio.
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| José Cabral é o primeiro da esquerda nesta foto de 24 de Outubro de 1936. Oliveira Salazar está ao centro. |
Depois de meio século na clandestinidade, a história de altos e baixos da Maçonaria portuguesa voltou a iniciar uma fase de subida com a revolução anti-ditatorial que devolveu a democracia ao país em Abril de 1974. Segundo as últimas contas havia sete «Obediências» distintas, ou ramos, sendo o maior o Grande Oriente Lusitano com mil e cem membros e a Grande Loja Legal de Portugal com novecentos membros. Havia até um ramo para as mulheres, com a Grande Loja Feminina de Portugal, com trezentos membros e um ramo misto, o Direito Humano, com duzentos.
Historicamente, os maçons portugueses viam a Igreja Católica juntamente com as monarquias absolutas como opressores, como os pilares que se erguiam no caminho para a meta tão querida do liberalismo de espírito aberto. Pela sua parte, a Igreja Católica tinha boas razões para estar vigilante face à Maçonaria e aos seus objectivos anticatólicos na Europa Continental, se não também na Grã-Bretanha. Isso explica por que, desde 1738 até há muito pouco tempo, o Vaticano proibiu inequivocamente os católicos de aderirem à Irmandade. Vários papas fizeram ecos das palavras de Clemente XII e condenaram a Maçonaria antes de Leão XIII se focar no problema na sua encíclica Humanum Genus, de 1884. Em resposta às afirmações da Maçonaria de que o movimento era mal compreendido e injustamente condenado, Leão XIII urgia os bispos a «arrancar a máscara» e denunciar a Maçonaria como uma «praga fatal».
No seu longo e vigoroso ataque, Leão XIII escrevia: «Como forma conveniente de encobrimento, assumem as personagens de homens de letras e académicos associados no propósito do ensino. Falam do seu zelo por um refinamento da cultura e no seu amor aos pobres; e declaram que o seu único desejo é melhorar as condições de vida das massas e partilhar com o maior número possível de pessoas todos os benefícios da vida civil. Mais, para serem alistados, é necessário que os candidatos prometam e se empenhem em obedecer estritamente aos seus líderes e mestres com a mais rigorosa submissão e fidelidade, e para estarem prontos a executar os seus deveres à mais pequena expressão da sua vontade; ou, se desobedientes, submeter-se às mais drásticas punições e à própria morte. De facto, quem for considerado de traição às actividades da seita ou de resistir às ordens dadas, recebe castigo certo e com tanta audácia e habilidade que o assassino muitas vezes escapa à detecção e castigo pelo crime» (in O Fenómeno de Fátima, Guerra e Paz, 2010, pp. 217-224).
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| Arcanjo S. Miguel calcando o Demónio |











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