quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

“Amor de homem e de mulher com a presença de Deus, eis aquilo a que Portugal e Galiza se encaminhavam no princípio de seu mundo...”

Escrito por Agostinho da Silva


Catedral de Santiago de Compostela





«Marcada personalidade levou Portugal a emancipar-se do Reino de Leão. Tal personalidade era, no fundo, comum à Galiza-humana e culturalmente. Só que essa personalidade obteve condições político-sociais autonómicas e resultantemente militares para cá do Minho, as quais na outra banda não foram possíveis pelo directo interesse e compromisso do feudalismo galego no jogo político leonês e pela articulação ao Continente do centro religioso de Compostela.

A fundação de um novo Estado representa muito; contudo na Idade Média pulularam, até na Península, casos similares, com base natural ou sem ela, quantas vezes por mero capricho de chefes audazes, talento político de outros, ou por conjunção dessas determinantes.

No caso portucalense não faltou decisão nem génio das oportunidades. A afirmação da independência teria por certo efémeras perspectivas cada vez mais no sentido continental e castelhanizante.

A oposição psicológica entre portugueses e castelhanos não influíra na fundação de Portugal. Depressa entrou em jogo, dada a evolução da Espanha, tornando-se depois a salvaguarda irredutível do pequeno reino atlântico.

Quando a Galiza se apercebeu de que os comandos lhe haviam fugido por completo, já estava reduzida por força das circunstâncias a uma província marginal, decapitada na sua nobreza, sorvida pelo poder centrípeto da grande monarquia que ia ser filipizada.

A independência portuguesa que alguns autores consideraram formada contra a Galiza, só teve quando muto inicialmente e nalguns aspectos esse motivo de querela familiar: rivalidade entre os prelados de Braga e Santiago, desforço dos barões portucalenses contra a influência, em D. Teresa, de Fernão Peres de Trava e da fidalguia além-minhota.

Só mais tarde pesou contra Castela a decisiva razão dos antagonismos continental e marítimo, e da dualidade psicológica. Em relação à Galiza esse imperativo de apartamento não se verificava, e caso a nossa independência tivesse sido feita contra ela, estaria condenada a vida breve.»

Francisco da Cunha Leão («O Enigma Português»).

 

«É evidente que o carácter marítimo e colonial da nação portuguesa, na segunda dinastia, não podia ter influído no facto já secular da independência. É sabido que D. Afonso Henriques, o autor dela, não tinha navios, servindo-se dos Cruzados para tomar Lisboa e Alcácer. A marinha foi uma criação da monarquia e um produto da nação, depois de constituída; o carácter marítimo é histórico, não é primitivo em um povo rural, como era o português dos primeiros tempos e ainda hoje o é o galego. O movimento de deslocação da capital do reino para o sul, as medidas de D. Dinis, as de D. Fernando, depois a empresa do Infante D. Henrique, são momentos sucessivos de uma história que é o nervo íntimo da vida portuguesa. Desde a reunião das esquadras cruzadas no Tejo para a conquista de Lisboa, desde a introdução dos genoveses, que vieram ensinar-nos a navegar, vê-se começar a formar-se essa nação cosmopolita, destinada à vida comercial, marítima e colonizadora.

É essa nação que a história forma; e por isso mesmo que a vida portuguesa foi marítima, e o destino da sua história o mar; por isso mesmo avultam os elementos que diariamente tornam cosmopolitas as cidades marítimas de um país cuja capital é um dos melhores portos do mundo. Portugal foi Lisboa, e sem Lisboa não teria resistido à força absorvente do movimento de unificação do corpo peninsular.»

Oliveira Martins («História de Portugal»).


Conquista de Lisboa (1147).

«Na dinâmica das nacionalidades há núcleos propulsores e a força do carácter destes é o que sobremaneira conta. As sobreposições rigorosas das fronteiras políticas com as da geografia, da etnia, da língua, são raras.

Neste caso concreto – da Península – dois núcleos principais se formaram, à parte outros secundários pela sua menor diferenciação ou capacidade afirmativa, e nos extremos do Douro: Portucale e Castela. O elemento intermédio e originário – asturo-leonês – subalternizou-se, imergindo nestas tendências mais fortes, mais progressistas e naturalmente superdotadas de espírito combativo.

A Reconquista foi uma correria. O espírito conservador leonês e a sua cunha linguística entre as evoluções mais rápidas do romance luso-galaico e do castelhano foram absorvidos. Certas bordaduras do romance ocidental ficaram fora das fronteiras portuguesas, no sentido do bojo da Lusitânia, que era pouco habitado. A castelhanização chegou aí tardiamente, mas chegou. Quanto à Galiza, muito povoada e pertencendo ao cerne nacional do estado desmembrado, a sua gente ficou fiel à fala medieva, à linguagem dos cancioneiros, ou seja o português arcaico. A sujeição política não permitiu que evoluísse. Há algumas gerações que uns punhados de intelectuais vêm transportando o adormecido idioma ao plano culto, para a expressão literária e até filosófica. O património culto moderno da língua galega renascida é já notável, e notável o esforço vocabular e sintáctico, no sentido de uma disciplina e da actualização da sua capacidade expressiva, suprindo alguns séculos de existência obscura em que andou relegada apenas à oralidade familiar e rústica.

Em Portugal, a distinção psicológica, tão denunciadora da etnia, tem sido apontada por alguns escritores em traços sugestivos. Estão nestes casos Oliveira Martins, António Sardinha, Teixeira de Pascoaes, Jorge Dias e a maioria dos críticos da literatura, como Teófilo Braga, Moniz Barreto, Fidelino de Figueiredo, Rodrigues Lapa e outros.

Contribuição notável é neste capítulo, a dos escritores galegos, e até de estrangeiros quais Aubrey Bell, Menéndez y Pelayo, Unamuno e Keyserling.

Aqueles que não valorizam decisivamente os elementos geográficos nem os antropológicos, são levados à formulação de teses voluntaristas, políticas ou de circunstancialismo histórico. Alinham nesta ordem de ideias Herculano, Alfredo Pimenta, Damião Peres, Vieira de Castro, e em boa parte João Ameal. Também Oliveira Martins, apesar de intuído tão lucidamente o estrato psicológico português, propende a justificar pelo acaso a independência nacional. ... “O reino de Portugal formou-se pelos dous meios da revolução e da conquista” afirma Herculano. O severo historiador, atribuindo especial importância à política desenvolvida pelo conde D. Henrique, sua viúva e seu filho – primeiro rei de Portugal –, não chega a negar que para isso tenha concorrido também a vontade da população. Salienta a vontade e o calor dos chefes como determinantes da nova nacionalidade.

O mesmo pensa, sensivelmente, Alfredo Pimenta ao escrever: “Há já Estado. Ainda não há Nação”. E quando afirma que o “Estado português continha, em potência, a nação portuguesa” sendo precisos três séculos para que esta passasse de potência a acto. A Nação seria muito posterior ao Estado.

Somos levados a pensar inversamente. Já o Arcebispo de Braga no assédio de Lisboa, ao tentar persuadir os mouros a renderem-se não se limitou a aconselhar a devolução da cidade aos cristãos, mas a sua devolução à Lusitânia.

 

Damião Peres, admitindo embora, a partir dos meados do século IX “uma obscura elaboração político-económica” nas terras de restauração recente, atribui a independência à “aspiração política dos grandes barões”. Um acto de vontade está na base; Portugal segregou-se, distinguiu-se pela acção humana. D. Afonso Henriques é a suprema expressão da tendência, o chefe esclarecido de um grupo de valerosas vontades que fizeram Portugal “em oposição à Galiza”.

A importância dos factores internacionais na existência livre de Portugal tem sido realçada por muitos autores. Disse Herculano que “desde o século XVII é a rivalidade das grandes nações que nos tem salvado”. E a tese, retrotraída por Manuel de Oliveira Ramos até ao séc. XIV, pela qual somos mais ou menos “um produto da equação internacional” foi retomada com brilho por Luís Vieira de Castro validando-a para a própria fundação da nacionalidade, em acontecimentos germinados no séc. XI, fruto das estreitas relações de D. Hugo, abade de Cluny com o rei de Leão, instituidor dos condados da Galiza e de Portugal. Todo o procedimento do conde D. Henrique obedeceria a uma “inegável conexão com a Abadia de Cluny”. Examina o autor, com numerosas observações, a interferência dessa Ordem tão poderosa, ao tempo condutora da política da Igreja, nos acontecimentos eclesiásticos da Península, assaz determinativos no campo político, tais como a elevação de Bernardo a primaz das Espanhas (Toledo) e de Geraldo a arcebispo de Braga. Dada a radicação francesa da famosa ordem monástica, a independência de Portugal seria um galicismo conforme opinou o historiador Pedro de Azevedo.

Tese idêntica sustenta o espanhol Américo Castro, numa sua conhecida obra, em capítulo que intitula sem rodeios: “A Portugal lo hicieran independiente”. Cómoda maneira de arrumar um caso cuja evidência, pertinácia e grandeza não se compadecem com tão rudimentar e desatenciosa explicação!

A acção de Cluny foi sem dúvida determinativa na criação do Condado Portucalense como no da Galiza e em muitos outros acontecimentos do tempo que perduraram ou não na história. Hábeis foram sem dúvida o conde e o rei do tronco borguinhão em aproveitar a influência da Ordem e a facilitar-lhe, no que só eram favorecidos, a capacidade civilizadora. Algo, porém, foi base, moldura e decidiu de um pensamento, ou de uma simples ambição, a que a incipiente dinastia teve a intuição de obedecer, num rumo próprio e desligado da demais Espanha. A batalha de S. Mamede (na linha da anterior revolta do Conde Nuno Mendo) marca a definitiva convergência de uma obscura elaboração local com a família suserana, substituindo dentro desta uma autoridade por outra, capaz de interpretá-la com mais nitidez: – a do que veio a ser o primeiro rei.

Em restrição das teses que podemos chamar do voluntarismo aristocrático (dos senhores territoriais, seculares e eclesiásticos), opõem outros autores teorias democrático-burguesas. Estão nestes casos António Sérgio e Jaime Cortesão.

Para o primeiro, “as grandes navegações dos nossos avós e a criação do reino de que foram membros, parecem-nos duas fases de um fenómeno único, não só português mas geral e europeu” – da transformação da sociedade «aristocrático-rústica” em “comercial-burguesa”. A conquista de Lisboa como a conquista de Malaca, e também a de Ceuta em 1415, são elos do mesmo fenómeno. Aljubarrota teria sido um embate entre os dois sistemas.

Mosteiro da Batalha






E a condição natural para a criação e expansão da nação portuguesa esteve no “significado topográfico dos nossos portos” para o comércio europeu, na “costa acolhedora” e climaticamente propícia para tirar riqueza ao mar – pescado e sal.

Jaime Cortesão entende que “os elementos decisivos da germinação política do futuro Estado português estão na costa e no fundo dos estuários”. Dá grande importância à zona terminal do Mondego (Montemor, Coimbra) nesta germinação. A penetração marítima era maior, o rio mais navegável. O “comércio marítimo com base na agricultura” e “o movimento das comunas” são determinantes da nação e do seu conceito.

Preparação notável foi segundo o mesmo autor operada pelos romanos, especialmente com o sistema das estradas que, da foz do Guadiana a Lisboa, Santarém, Coimbra e Braga levou à “atlantização do povoamento” e à sua “unificação por meio de uma espinha no sentido meridiano”.

Chama ao Porto “democracia urbana” e a Lisboa “empório cosmopolita” em obra que expõe inteligentemente uma concepção democrática da história portuguesa.

Alguns comentários nos suscitam as referidas teorias que acentuam traços dinâmicos da vida nacional.

A tendência para o trato marítimo, desenvolvimento do comércio em geral e da classe burguesa pode considerar-se constante histórica, manifestando-se logo que se restabelece ou campeia a paz. Tanto a seguir às cruzadas do Oriente, como do Ocidente isso aconteceu. O conhecimento da terra fê-la gradualmente, lentamente, progredir.

Foi a gigantesca devassa do globo efectuada pelos portugueses em poucas décadas que a fez sair do ritmo normal, imprimindo-lhe uma aceleração de consequências prodigiosas. Sem cairmos em facciosismo patriótico podemos afirmar que esteve em Portugal o motor que propulsionou, pela violação de todos os mares e continentes, a universalização do comércio e o gigantismo da burguesia.

Rectifiquemos, portanto, dizendo que Portugal neste aspecto foi antes causa que resultado ou simples elo de uma cadeia. Os nossos descobrimentos marítimos deram lugar a um autêntico megassismo económico social.

Quanto à determinação marítimo-burguesa, temo-la por quase nula na génese da nacionalidade. Não passava, então, quando muito, de obscura tendência nalgumas póvoas do litoral nortenho correspondente à área autonomista. Foram os senhores territoriais ou sustentáculos, senão os principais obreiros da independência. O desenvolvimento marítimo é um efeito, um vigoroso fruto desta.»

Francisco da Cunha Leão («O Enigma Português»).

 


«Por ter garantido a possibilidade, pelo menos em amostra, de arquitectar o que teria sido um universo verdadeiramente católico, vejo eu Aljubarrota como a maior batalha da história, a par daquela outra em que Constantino venceu Justiniano. Não apenas por isso, no entanto. Mas igualmente porque é só em Portugal que as outras nações da Península podem ver uma esperança e um ponto de apoio para uma futura liberdade. Por circunstâncias próprias, e evitarei o mais possível dizer da raça, ou de ambiente ou de economia ou de missão divina, e por vontade intrínseca e ainda por longo treinamento, porque estas coisas na realidade não se aprendem na fantasia, mas vendo e pelejando, Portugal, é, de todos os cantos da Península, o único que tem verdadeiramente génio político, talvez, de todas as gentes que falam latim pelo mundo, o único real herdeiro do povo romano.

Só que, por fatalidade, e logo desde o começo, faltou a Portugal, para uma plena acção, a companhia e a integração de seu complemento natural para os lados do Norte. A acção de Portugal no Brasil não teria sido o que foi, apesar de toda a actuação do minhoto nas Gerais, garantindo um Brasil interior, ou do transmontano sobre o Prata, garantindo afinal a fronteira de Oeste, se não tivesse havido o bandeirantismo dos seus alentejanos e, indirectamente, as suas guarnições algarvias para o Sul; a gente mais ou menos mourisca para o sul do Tejo, a gente já de falar crioulo, os que vinham do deserto e de seu gosto aventureiro e livre, serviram de complemento aos de Entre-Minho-e-Tejo, verdadeira base de Portugal, o Portugal da gente que finca pé na terra e obriga a terra a dar tudo o que tem, metal ou seiva, ou isso mesmo, base a conto de lança. Mas, para o Norte, a Galiza não estava.

Não estava a Galiza que, para empregar as palavras do dito popular em que se define a casa bem governada, podia ter arcado enquanto Portugal barcava. Com o tal galego "sórdido", no sentido camoniano, talvez o ouro da Índia e Brasil tivesse dado maior proveito e se não tivesse, em plena época de afluxo de riquezas, de fazer aportar ao Tejo frotas de cereal para pão. Por outro lado, talvez sua “nai” não tivesse sido sempre para o galego, que emigra sem ser aventureiro, a eterna figura velada pelas lágrimas dela e pelas lágrimas dele; talvez as “campanas de Bastabales” não ressoassem na delida chuva com o tão melancólico chamar. Mas tempo vem, atrás de tempo; se há “talvez” para o passado da História, há "talvez" igualmente para o futuro da História; pode ser que um dia a reintegração da Península em si mesma, na sua liberdade essencial, se faça através da reunião de Portugal e de Galiza. Dos dois noivos que a vida separou.»

Agostinho da Silva («Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa»).


“Amor de homem e de mulher com a presença de Deus, eis aquilo a que Portugal e Galiza se encaminhavam no princípio de seu mundo...”

 

Oh que cousa de sentir

 haver homem de partir,

 namorado! 


DIOGO BRANDÃO

 

SEPARADOS noivos. E então o podemos ver exactamente à maneira do que frequentemente acontece na vida, como um acidente comum. O destino, ou o que mais se queira dizer para mascarar a nossa falta de razões de carácter racional, veio e afastou um do outro para os quais a vida só teria uma verdadeira razão de ser se lhes tivesse sido possível construí-la unidos. Mas podemos igualmente olhar o acontecimento de dois outros modos. Será um de supor que são os noivos separados porque de outro modo lhes correria a existência de uma forma feliz; e, se era verdade que matavam cedo os deuses pagãos aqueles a quem verdadeiramente amavam, talvez um Deus cristão, aquele sob cujo signo Portugal se forma, cresce e é, talvez ele, aos que muito ama, goste não de dar a felicidade que em geral tanto limita, mas a experiência, a tal experiência madre da vida e das coisas, que tanto enriquece e, se bem compreendida e cristãmente aceite, vem no fim a produzir aquela paz que mais vale do que felicidade. Para um futuro paraíso, não só seu próprio, mas de toda a Espanha, pois de que serve a paz que é só nossa, ou que ilusória paz é essa, precisavam talvez Galiza e Portugal de ser separados logo de início e de penarem suas duras penas de acção e de saudade.

Depois, e será esta a nossa segunda perspectiva, nada incompatível com a primeira, e que, pelo contrário, a lança mesmo numa mais larga concepção da História, pode ser que aqui tivessem os destinos do mundo tomado Portugal e Galiza como um perfeito espelho e um resumo de toda a restante tragédia universal. Perdido um céu primeiro, quer o céu de que falam os textos sagrados, quer aqueles que a mais moderna antropologia vai assinalando nos povos realmente primitivos, a grande marca da queda não esteve em ter que se ganhar o pão com o suor do rosto ou na dor se criar ou em se ter que arquitectar toda a complicada aparelhagem social que hoje nos envolve. O ponto realmente sério, aquilo que marca a que distância se veio parar da existência edénica, é que foi possível passar a discutir se a civilização deve ser de carácter predominantemente masculino ou predominantemente feminino; foi possível haver partidários de patriarcados e de matriarcados e foi possível à humanidade experimentar a uma e outra forma de governo; e foi-lhe sobretudo possível estar tão desatenta das verdadeiras realidades e de seu direito destino, que lhe passaram despercebidas advertências como a de Aristófanes com os seus andróginos ou a de Vinci com o seu S. João Baptista: a advertência de que só há uma forma de harmoniosa existência humana; aquela em que o homem e mulher funcionem como as duas partes de um todo, como as duas faces de uma una essência; sem patriarcados nem matriarcados. Com o governo, numa vinda do Espírito Santo consolador, do intrínseco amor que um ao outro une.

Amor de homem e de mulher com a presença de Deus, eis aquilo a que Portugal e Galiza se encaminhavam no princípio de seu mundo; e eis aquilo exactamente que teria, pelas forças criadoras do amor, só ele fecundo, dado liberdade e personalidade às outras regiões da Espanha; inclusive a Castela, liberta de possuir escravos, o que arruína os melhores; e, porque também só o amor é santificante, despido de seus impulsos de destruição e de morte. Só que, por uma ou outra razão, tudo se dispôs de outro modo; e, realisticamente, como convinha a político, Portugal se lançou à tarefa que tinha diante, tal como ele era e tal como ela, tarefa, era.

Ponte Romana sobre o Minho em Lugo (Galiza).

Mas, por aquelas íntimas relações que unem a unidade e o múltiplo e por aquele íntimo ser que faz serem o mesmo o que é e o que vai sendo, o destino de separação que marcara a nacionalidade, vai marcar praticamente a vida de cada um dos membros dessa nacionalidade. Cada casal português, como cada casal galego, funciona como Galiza e como Portugal. A acção o chama e ele vai; a lembrança lhe fica e ela chora. De um lado e doutro se estabelece a saudade, que poderia ser apenas a mágoa e o desespero, embora calmo. É, porém, muito mais do que isso. Por um lado aquelas saudades do céu que faziam andar inflamado o Arcebispo de Braga; saudosa pena de amor de um céu que já foi e que, só por se ter desobedecido à ordem para sempre dada, pôde alguma vez deixar de ser um domínio dos homens. Por outro lado, o gosto amargo de sofrer o que se entende necessário para que um dia o paraíso se possa reconquistar. Em cada mulher de luto que passa, com seu marido vivo, é afinal dando esta faixa ocidental da Península foros de representação universal, um símbolo de toda a humanidade que temos diante dos olhos. Não há outro remédio senão embarcar nas barcas que mandou lavrar el-rei; não há outro remédio senão o de se incorporar na hoste que el-rei aprestou; os pecados se pagam; mas se sabe, no íntimo, que a distância que se interpõe está afinal apagando a distância; e que, quando se reencontrarem, com a tal reconcedida presença de Deus, é o passado, o já longe passado, que afinal verão como futuro. Isto é: depois de terem afrontado tempo e história, nada mais haverá que eternidade.

Acontece, porém, que uma das marcas essenciais do homem está, com todos os males que tal possa acarretar, na sua possibilidade de se opor, de resistir a Deus, e eis um ponto em que deviam meditar todos os que pretendem conduzir homens aos seus fins deles, não dos próprios homens; mas também é verdade que esses, por seu turno, estão resistindo a Deus. O Português podia ter resistido ao apelo do longe, Portugal podia-se ter recusado à acção. Tudo esteve afinal em pôr ou não o Minho como fronteira. Esse primeiro rio que separou foi a origem de todos os outros rios que depois separaram; rios de lágrimas. Todos podiam ter ficado quietos em suas casas, sem que as mulheres vestissem luto, e sem que, simbolicamente, as casas se fechassem para só reabrirem no dia em que eles voltam, se para ficar, dobrado riso, se para retornar dobrada mágoa.




E então voltaríamos ao tal princípio dos antropologistas. Também teria sido possível a todo o conjunto da humanidade, quando as circunstâncias se tornaram adversas, jogar-se no mato como um bicho doente e se deixar morrer. O homem, no entanto, que além de tudo tinha à sua disposição os dois instrumentos maravilhosos de um cérebro que lembra e correlata e de um polegar que se pode opor aos outros dedos, o homem tomou a atitude que, depois, se foi repetindo pela história: recusou render-se; e, batendo-se, sofreu, e, sofrendo, descortinou caminho de regresso ao paraíso. Portugal, então, no seu lugar da História, também se não rendeu e quando el-rei, o Rei dos Reis, o chamou para seu apelido contra o infiel, também se não furtou a seu lugar na hoste.

E se Portugal não tivesse embarcado, quem teria embarcado? O longínquo viking em que põem tanto empenho historiadores que não compreendem não ter importância descobrir a América se não se trata de cristianizar a América? Franceses que, quando embarcaram, o fizeram sob o signo de Calvino e fizeram funcionar entre cristãos um capitalismo que pode ter sido muito útil, mas é essencialmente anticristão? Ingleses que, quando embarcaram, foi para estender pelo mundo aquela defesa da usura que logo Bentham codificou? Toda essa Europa cujo embarque, a par de todos os benefícios que lhe possamos creditar, o que fez, no essencial, foi tornar quase odiado ou risível entre outros povos o nome de Cristo? Se a alguém competia fazer-se ao mar, e eu conto o fazer-se ao mar, metaforicamente, desde que principiou a conquista e ocupação do Alentejo, se a alguém competia fazer-se ao mar para levar a boa nova ao infiel, esse alguém era evidentemente o português.

Tinha a resolução de ataque, a energia de combate e a resistência sob o tempo adverso que faltava à doce, lírica, feminina Galiza. Tinha, como nenhum outro povo da Espanha, aquela noção de fraternidade interna sem a qual todo o cristianismo é mero vácuo. Fraternidade interna, fraternidade pela fusão íntima, pela transformação ao ígneo sopro do amor de Deus e do serviço de Deus. O Português lembrava-se, e da única forma perfeita em que o lembrar existe, que é vivendo-o, o Português lembrava-se da irmandade antiga de mouros, de cristãos e de judeus, antes de franceses e almorávidas; irmandade que não vinha de conciliações e de concessões e de todos os mesquinhos arranjos a que está demasiado habituada a nossa época, educada em tratados de comércio. A fraternidade que ali havia era a outra, a que vinha de São Paulo proclamando que depois do Cristo era absurda toda a distinção entre judeu e gentio, entre incircunciso e circunciso. A que, tendo a sua raiz em Cristo, dera, além das palavras de São Paulo, as palavras de S. João e permitia que um pintor português fizesse assistir à missa do Espírito Santo judeus e mouros sem que uns e outros abdicassem de suas crenças religiosas. Isto exactamente tentou Portugal e não lhe consentiram as circunstâncias do mundo que até agora o levasse por diante: tentou espalhar pelo universo um catolicismo tão católico que até o infiel nele coubesse. À dimensão do catolicismo, à verticalidade do catolicismo que lhe permite reunir a velha que humildemente reza seu padre-nosso e S. Tomás que humidelmente constrói uma teologia; ao comprimento, digamos assim, do catolicismo que o faz ter bispos africanos e chineses; Portugal tentou acrescentar uma outra dimensão que, por não ser geométrica, não é menos real: a largueza. Portugal foi o missionário da largueza do Reino de Deus e a isso se prende provavelmente muito do seu anticlericalismo; e, no plano antropológico, muito do seu gosto pela mestiçagem.




Se este era, a Portugal, o chamamento de Cristo, como haveria de recusar-se? Se este era o apelo do Menino que não queria mais nada do que dirigir-se a casa de seu pai, a qual casa, quando viesse, seria todo o mundo inundando-se na luz de eterna aurora, como haveria de recusar-se este S. Cristovão que, além de tudo, não estava, como o outro, trôpego e cansado e quase moribundo, mas de pura energia fervia e ruflava? Como havia de pôr impedimento de amores e de saudades, embora fossem esses amores, com tudo o que da terra podem ter, retrato de amores celestes, e embora fossem essas saudades aquelas de que se acaba por morrer, porque são, na Babilónia, saudades de Sião e, na Jerusalém terrestre, a cadente visão, a visão destruidora da Jerusalém celeste?

Falando a todas as Senhoras, partiam sempre delas, tristes, os olhos dos poetas, «tão tristes por vós, meu bem»; e falando de todos os poetas, desejavam todas as amadas, como as da Nazaré, que «o mar tivesse varanda, para ir ver o seu amor nos bancos da Griolanda». Mas Cristo, como uma era nova para o mundo; e a Espanha que deveria ter sido e que não foi e a Europa que, mais tarde, desviada pelo protestantismo, outras missões teria, tudo lhe ordenava que partisse. A literatura portuguesa como a vida portuguesa abrem-se sob o signo do dever de acção e sob o signo da saudade; e esses dois signos marcaram a vida do português para a história, tanto no que respeita à acção externa de Portugal como à sua vida interna. Tudo o que o Português realizou, com todas as imperfeições que são da raça humana, é de jeito missionário. E tudo o que o Português reclamou sempre de todos os governos que sucessivamente tomaram conta do país foi isso mesmo: que lhe dessem o direito de cumprir o seu dever de ser católico: isto é, fraternal e universal.

(In Agostinho da Silva, Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa, Guimarães Editores, Lisboa, pp. 35-44).



domingo, 7 de dezembro de 2025

O Conde D. Henrique

Escrito por Fernando Pessoa




Todo começo é involuntário

Deus é o agente,

O herói a si assiste, vário

E inconsciente.

 

À espada em tuas mãos achada

Teu olhar desce.

«Que farei eu com esta espada?»


Ergueste-a, e fez-se.


Mensagem


Afonso VI de Leão e Castela entrega o Condado Portucalense a D. Henrique em 1096.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

A separação de Portugal

Escrito por Oliveira Martins






«Não há acordo sobre os elementos de que irrompeu a nacionalidade portuguesa. Não nos apontam os cronistas uma directriz. Nos textos não tem sido viável basear conclusões indiscutíveis. Nem a historiografia moderna, independente de critérios políticos e firmada na crítica das fontes, tem conseguido elucidar as origens. Herculano defendeu a tese românica ou municipalista. No âmbito das autarquias locais, decalcadas na lei romana, teria florescido a liberdade pública. Alargada aos vizinhos com interesses afins, haveria criado o ânimo de independência. Mas Herculano deixa pairar uma dúvida. Insatisfeito com a sua verdade, acrescenta algures, como explicação última, que somos independentes porque o quisemos ser. No meio das divisões, soubemos logo de início manter unidade moral; fosse qual fosse o seu partido, os barões portugueses mostravam-se conformes, ao menos passivamente, com o sistema que já então se podia classificar de política externa do país; e os actos dos príncipes eram mais o reflexo de um espírito colectivo do que a expressão de desígnios próprios. Mas é outro o caminho sugerido por Oliveira Martins. Este fundamenta a independência na vontade enérgica e na capacidade dos príncipes e barões. É a ambição individual destes que conduz à separação de Portugal da monarquia leonesa: os condes defendiam o que julgavam sua propriedade. Todavia, a esta tese simplista opõe Jaime Cortezão a tese geopolítica ou marítima. Nem a príncipes estrangeiros ou a impulsos individuais deve Portugal a sua nacionalidade. É a diferenciação geográfica, aliada à tipicidade do litoral, que dá uma feição de povo ao agregado ali estabelecido. Clima diverso do do resto da Península; abundância de largos estuários; funda penetração do oceano; existência de portos fluviais muito no interior do território; apoio marítimo estimulando o comércio transoceânico – constituem alguns dos factores fundamentais.

(...) Mas aquelas três teses não esgotam o problema das origens. Dois outros ângulos de visão têm sido encarados. Temos, antes de mais, a tese internacionalista. A independência portuguesa seria produto de uma equação internacional, de uma necessidade de equilíbrio europeu, que já então se começava a sentir; e a ligação entre o Conde D. Henrique e algumas ordens religiosas teria actuado naquele sentido, como um elemento impulsionador. E temos por último a tese lusitana. Funda-se sobretudo na tradição. Desde tempos remotos, mas sobretudo a partir do século XVI, foram os lusitanos havidos como os mais próximos ascendentes dos portugueses. Segundo Estrabão, eram “amigos da liberdade”. Ocupando a região entre Douro e Tejo, descendentes de celtas ou autóctones, foram romanizados; mas não teriam perdido pelo facto a individualidade de grande tribo, nem a autonomia como agregado social. Embora se afigure que permanece nebulosa, estudos modernos vieram dar alguma consistência para vincar a nossa diferenciação do resto da Península. Mas todas as investigações comprovam sem dúvida um facto: a existência, desde o século XII, de uma comunidade delimitada, com autonomia e unidade moral, e apresentando tipicidade perante os demais povos da Península. Poderá dizer-se, todavia, que o desenrolar da vida dessa comunidade empresta, talvez mais do que a outras, algum fundamento à tese exposta e documentada por Cortezão.»

Franco Nogueira («As Crises e os Homens»).






 

«...Galiza, Catalunha, Navarra, Andaluzia, Bascos, Levantinos, ao correr da história, pouco mais do que escravos de escravos: porque escravidão, no fim de contas, pelo que respeita a degradação humana, age para os dois lados, para o lado do opressor e para o lado do oprimido. Com uma grande vantagem a favor das regiões periféricas: é que, vencidas, jamais se submeteram; e, no momento oportuno, se poderão comportar como nações livres que jamais renegaram a sua liberdade e jamais, abandonando seus mortos, desistiram da luta.

E aqui, ao que me parece, se insere a grande façanha de Portugal. O que Portugal fez de maior no mundo não foi nem o descobrimento, nem a conquista, nem a formação de nações ultramarinas: foi o ter resistido a Castela. O ter mantido, através de sangue e fogo, o princípio da independência dos territórios periféricos. E o ter mostrado, naquilo que cabia em suas forças, e mais do que isso, porque verdadeira história só se faz assim, naquilo que estava muito para além das suas forças, de que modo uma Espanha livre e convivente poderia ter transformado a face do mundo. Aceita-se hoje em história de Roma que o assassínio de César, impedindo-o de levar por diante o seu projecto de romanização do mundo europeu, do Báltico aos Urais, veio pôr depois todos os problemas que resultaram da existência de bárbaros não romanizados; veio pôr o problema da Prússia e veio pôr o problema da Rússia. Uma Península livre e una, com regiões culturalmente autónomas e com descentralização administrativa; uma Península a que se tivesse estendido o sistema de governo peculiar da Idade Média portuguesa, isto é, o de, numa prefiguração da Commonwealth, haver uma companhia de repúblicas unificadas por uma coroa; uma Península que tivesse conservado aquele gosto de conversação, de "vida conversável", como diria mais tarde um navegador, para cristãos, judeus e árabes, essa Península, para lá de todas as contingências económicas, teria dado modelo ao mundo. Teria, como numa renda de bilros, dado o “pique” ao mundo. E o dito mundo, Europa inclusive, se podiam depois ter dado à tarefa de ir plantando alfinete e lançando ponto. Que foi decerto modo, o que fizeram, mesmo só com o trabalho de Portugal

Agostinho da Silva («Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa»).

 


«Espanha ocupou tão grande lugar no mundo, impressionou tão fortemente o mundo pelo que fez, pelo modo por que actuou, pela coragem com que volveu em acção a sua concepção ética e política de tom arcaizante que na apreciação desse labor histórico para sempre se dividiram os juízos. A sua personalidade era tão caracterizada e tão forte que não se apagou mais a chocante impressão dela sobre a Europa, espectadora e vítima. E a Europa de além Pirenéus, aberta a todas as influências e, depois do apogeu espanhol, criadora de originalidades opostas à ideologia castelhana, divorciou-se do mundo hispânico. E essas diferenças e esses contrastes de matizes religiosos, políticos, morais e artísticos logo se patentearam bem flagrantes e logo foram interpretados, umas vezes pejorativamente – e surgiu a lenda anti-espanhola, a Espanha negra – outras, intelectualmente – e surgiu toda essa longa filosofia da decadência espanhola, os arbitristas e o ensaio crítico, que é uma peculiaridade da moderna literatura de Espanha e traduz a sua inquietação espiritual como o lirismo português expressa o mais típico da nossa sensibilidade. Uns espanhóis acolheram a lenda anti-espanhola ou a silhueta negra da Espanha quinhentista e nela colaboraram; outros repudiaram-na e procederam à revisão da história; uns e outros extraíram conclusões pragmáticas, pensamento e acção política desses dois hemisférios da alma espanhola, – dos seus escóis, porque o povo permanece indiferente a essas pugnas de gente cultivada, embora muitas vezes tenha sido o mar proceloso que recolhe e dilui em proporções de tragédia o que parecia simples conflito de teorias. A sua insurreição contra os franceses e a sua cooperação nas lutas doutrinárias do carlismo com o liberalismo mostram bem como ele pode ser, pelas energias profundas que armazena, o dado essencial da equação política de Espanha. Mesmo apartados do marulhar subterrâneo dessa letargizada massa, no simples plano da crítica e acção social, na vida quotidiana, esses dois hemisférios espirituais deram à sua doutrina coerência e demasias sistemáticas, carregaram-na de paixão, de força de carácter, a grande virtude e o grande risco da alma peninsular.

E a história de Espanha passou a ser, desde que Espanha recebeu mais do que criou, um contínuo choque desses dois extremismos inconciliáveis, mas indispensáveis um ao outro, como as valvas duma castanhola, opostas e inseparáveis para produzir os típicos estalidos.

Desde que se quebrou a sua unidade moral, Espanha viveu aos bordos, às guinadas sobre a esquerda e sobre a direita, como barco puxado à sirga por forças desiguais ou desencontradas, aos tombos de margem a margem. O choque dos dois hemisférios ou das duas cotilédones da célula cerebral espanhola é o que há de mais típico na consciência espanhola, tecido de contrastes violentos, operando por mútua reacção e agora anunciando-nos um relâmpago novo, que chispe do presente caos criador.


 

E quem foi que lançou esse perpétuo pomo da discórdia, quem realizou a definitiva divisão da consciência espanhola? O homem que, fiel a uma tradição multissecular e mandatário representativo duma asfixiante maioria, quis realizar a unidade política e religiosa da Espanha, conculcando nacionalismos e regionalismos, supeditando privilégios e regalias de classes, extirpando heterodoxias, asfixiando a liberdade individual, mas erguendo à maior altura o poder e o ascendente da Espanha na Europa.

Desde então os espanhóis discutem o que vale mais: a glória ou a liberdade? O paraíso ou o inferno? E, um a um, se vão colocando à direita ou à esquerda daquele túnel de braços do jogo infantil...

Passará, não passará,

Qual deles ficará?

 

Fidelino de Figueiredo («As Duas Espanhas»).

 

«Há (...) a observar que algumas das mais gradas figuras nacionais, das nascidas em Lisboa e no Sul, ou de naturalidade incerta, pelas suas genealogias ou caracteres psicológicos denunciam em proporções variáveis a mescla lusitano galaica. Assim acontece por exemplo com Nuno Álvares Pereira, Gil Vicente, Camões, D. João de Castro, e Camilo Castelo Branco, figuras em que o fundo sentimental do Noroeste, anda aliado a elementos lusitanos.

Outras grandes figuras nacionais acusam participação de sangues exóticos: quer das raças de cor quer das nórdicas; às vezes é evidente a marca semita. Nem por isso estes contingentes deixaram de produzir homens dos mais integrados e representativos; como o Padre António Vieira, Almada Negreiros, o Infante D. Henrique e Fernando Pessoa, respectivamente.

O português é uma combinação feliz. Isolado, o elemento galaico, tanto pela base geográfica não determinativa como por temperamento, arriscar-se-ia a perder-se nas nuvens ou num trabalho de obscuro formigueiro; isolados, os lusitanos, careceriam de uma subconsciência autonómica bastante para os tornar irredutíveis à absorção castelhana, antes e além dos campos de batalha.

A Grécia não perdurou politicamente porque Atenas e Esparta, incapazes de uma fusão, jamais ultrapassaram o entendimento efémero.

Em Portugal, os elementos humanos primários, fundindo-se a caminho do Sul, na capital e a partir dela criaram uma resultante dinâmico-sentimental que se derramou no Mundo com uma força integradora extraordinária.»

Francisco da Cunha Leão («O Enigma Português»).



«Para um futuro paraíso, não só seu próprio, mas de toda a Espanha, pois de que serve a paz que é só nossa, ou que ilusória paz é essa, precisavam talvez Galiza e Portugal de ser separados logo de início e de penarem suas duras penas de acção e de saudade.»

Agostinho da Silva («Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa»).




A SEPARAÇÃO DE PORTUGAL 

O condado portucalense, criado nos últimos anos do XI século a favor do conde borguinhão D. Henrique, genro de Afonso VI, pouco tempo existiu sob o regime de uma vassalagem indiscutivelmente reconhecida. Era essa a época em que a Espanha tendia a constituir-se num sistema de Estados independentes, à medida que sucessivas regiões iam saindo de sob o domínio muçulmano para o dos descendentes dos godos asturianos, ou dos seus actuais aliados[1]; e o condado portucalense obedecia a esta tendência geral, no empenho que o seu conde não mais encobriu desde a morte do sogro.

É com efeito da data do óbito de Afonso VI [1109] que deve contar-se a era da independência de Portugal; embora por largos anos ela seja mais uma ambição do que um facto; embora essa ambição traduza um pensamento que os acontecimentos posteriores da história impediram se realizasse. Qualquer que fosse o valor dado no XI século à expressão geográfica de Portucale, é facto provado, por todas as memórias e documentos desses tempos, que para ninguém deixava de considerar-se o território de entre Minho e Mondego como parte da Galiza. O facto da constituição do condado de nada vale contra esta opinião; porque demasiado se sabe que a formação dos Estados medievais, na Península e fora dela, jamais obedecia às prescrições geográficas ou etnológicas. Não se atribua pois a causas desta ordem, nem à consciência de uma solidariedade nacional, o facto da desmembração da Galiza dos fins do XI século. A cisão que o Minho demarcou obedeceu apenas a motivos de ordem política.

Isto mesmo, porém, deu causa a uma ambição, na qual devemos reconhecer o princípio da vitalidade da nação portuguesa, durante estas primeiras e ainda indecisas épocas da sua existência. A solidariedade nacional espontânea existia de facto para os galegos; e desde que a Galiza fora dividida pela política em duas, aquém e além Minho, restava saber qual dessas metades tomaria sobre si o papel de representar um sentimento de independência, comum a todos os membros ainda então desconexos do corpo peninsular.







"Brasão de Armas" do Conde D. Henrique

Várias causas concorriam para atribuir este papel à metade portuguesa da Galiza; e porventura acima de todas o facto do merecimento pessoal do conde português. Circunstâncias desta ordem eram decisivas numa época em que a anarquia sistemática da constituição da sociedade fazia principalmente depender os destinos imediatos dela da perspicácia ou da bravura dos seus chefes. Nada há de comum entre a vida destes tempos e a dos posteriores; e num certo sentido pode até dizer-se que os factos de ordem política são independentes dos de ordem social, porque a sociedade é como um elemento passivo que por este lado (mas por ele apenas) obedece às consequências do desordenado capricho dos actos e caracteres dos chefes militares que a governam, sem propriamente a representarem.

Nos primeiros três séculos, isto é, na primeira época da história portuguesa, a independência é um facto originado no merecimento pessoal dos chefes militares dos barões de aquém Minho. Nacionalidade propriamente dita, não a há; ou pelo menos não no-la revelam os monumentos históricos, unânimes, também, em revelar uma ambição colectiva ou social que se estende a toda a Galiza. Ao merecimento pessoal reúne-se, nos primeiros monarcas portugueses, a circunstância de serem os intérpretes deste sentimento. Por isso a tendência permanente e o princípio claramente definido da política portuguesa, nos primeiros séculos, é unificar a Galiza, constituindo a noroeste da Península um Estado tão homogéneo como o Aragão ou a Navarra a nordeste.

Neste propósito se filiam todas as guerras civis – se este nome convém ainda aos conflitos entre Portugal e Leão – e as repetidas alianças dos barões galegos das duas zonas divididas pelo Minho. A facilidade com que os reis portugueses transpõem armados as águas desse rio, e se apossam por várias vezes dos territórios da Galiza leonesa, são provas evidentes da opinião exposta.

Não quis a sorte que chegasse a realizar-se este primeiro pensamento político, a que chamaremos hegemonia de Portugal na Galiza, para usarmos de expressões modernas; antes ordenou que os limites convencionais do condado portucalense apenas inscrevessem o ponto de partida da formação de uma nação, cujo carácter, ulteriormente definido, proveio principalmente da fisionomia geográfica da região; de uma nação, repetimos, que veio a perder a tradição dessa primitiva origem, desde que o génio das populações de entre Mondego e Tejo sobrepujou o das do Norte, na direcção e impulso dados à vida colectiva portuguesa.

Se nesta primeira época da nossa história o pensamento oculto que dirige com maior ou menor consciência a política, é incontestavelmente o da hegemonia de Portugal na Galiza, seria absurdo supor que, ao lado deste princípio, decadente desde certa época, se não fossem também manifestando de um modo correlativo, e cada vez mais pronunciado, os sintomas da deslocação do centro vital da nação.

Inscrição rupestre em «língua lusitana» de Lamas de Moledo, Castro Daire.

A circunstância que mais decisivamente determina este carácter da nossa história primitiva é a conquista dos territórios sarracenos de aquém Mondego, levada a cabo pelos barões portugueses, sem os auxílios do suserano de Leão. É este movimento que, principiando por quebrar os laços de solidariedade entre os galegos leoneses e os portugueses, vai gradualmente adicionando a estes últimos os lusitanos (seja-nos lícito dizer assim, para mais claramente definir o nosso pensamento), até o ponto de os últimos predominarem na fisionomia posterior da nação, transferindo de Guimarães e de Coimbra, para Lisboa, a capital do reino; fazendo substituir, à vida rural, primeiro quase exclusiva, a vida comercial e marítima depois predominante e quase absoluta.

A primeira época da história portuguesa oferece pois à observação do crítico dois movimentos[2], opostos num sentido, concordes em outro, que é o da afirmação positiva da independência. Mas, se essa afirmação, terminante nas guerras leonesas, e também nas sarracenas, exprime de um lado a política de hegemonia na Galiza, do outro exprime, de um modo todavia inteiramente inconsciente e espontâneo, uma tendência contrária. É a formação de uma nação lusitana, de que a Galiza portuguesa desce à condição de província ao norte, como o Algarve, mais propriamente turdetano, vem a sê-lo ao sul. O Entre-Douro e Guadiana, isto é, a espinha dorsal da Estrela, ladeada pelas Beiras ao norte, pelo Alentejo a sul, pela Estremadura a poente: eis aí o que, logo desde o XIV século, começa a representar o corpo homogéneo da nação portuguesa.

(In Oliveira Martins, História de Portugal, Guimarães Editores, Lisboa, 22.ª edição, 2007, pp. 63-65).


[1] V. História da Civilização Ibérica, O. C., L.º III, p. 1.

[2] Resumimos à política o campo das nossas observações, por termos deixado na História da Civilização Ibérica desenhados os traços gerais dos movimentos propriamente sociais. V. livro III.