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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

A separação de Portugal

Escrito por Oliveira Martins






«Não há acordo sobre os elementos de que irrompeu a nacionalidade portuguesa. Não nos apontam os cronistas uma directriz. Nos textos não tem sido viável basear conclusões indiscutíveis. Nem a historiografia moderna, independente de critérios políticos e firmada na crítica das fontes, tem conseguido elucidar as origens. Herculano defendeu a tese românica ou municipalista. No âmbito das autarquias locais, decalcadas na lei romana, teria florescido a liberdade pública. Alargada aos vizinhos com interesses afins, haveria criado o ânimo de independência. Mas Herculano deixa pairar uma dúvida. Insatisfeito com a sua verdade, acrescenta algures, como explicação última, que somos independentes porque o quisemos ser. No meio das divisões, soubemos logo de início manter unidade moral; fosse qual fosse o seu partido, os barões portugueses mostravam-se conformes, ao menos passivamente, com o sistema que já então se podia classificar de política externa do país; e os actos dos príncipes eram mais o reflexo de um espírito colectivo do que a expressão de desígnios próprios. Mas é outro o caminho sugerido por Oliveira Martins. Este fundamenta a independência na vontade enérgica e na capacidade dos príncipes e barões. É a ambição individual destes que conduz à separação de Portugal da monarquia leonesa: os condes defendiam o que julgavam sua propriedade. Todavia, a esta tese simplista opõe Jaime Cortezão a tese geopolítica ou marítima. Nem a príncipes estrangeiros ou a impulsos individuais deve Portugal a sua nacionalidade. É a diferenciação geográfica, aliada à tipicidade do litoral, que dá uma feição de povo ao agregado ali estabelecido. Clima diverso do do resto da Península; abundância de largos estuários; funda penetração do oceano; existência de portos fluviais muito no interior do território; apoio marítimo estimulando o comércio transoceânico – constituem alguns dos factores fundamentais.

(...) Mas aquelas três teses não esgotam o problema das origens. Dois outros ângulos de visão têm sido encarados. Temos, antes de mais, a tese internacionalista. A independência portuguesa seria produto de uma equação internacional, de uma necessidade de equilíbrio europeu, que já então se começava a sentir; e a ligação entre o Conde D. Henrique e algumas ordens religiosas teria actuado naquele sentido, como um elemento impulsionador. E temos por último a tese lusitana. Funda-se sobretudo na tradição. Desde tempos remotos, mas sobretudo a partir do século XVI, foram os lusitanos havidos como os mais próximos ascendentes dos portugueses. Segundo Estrabão, eram “amigos da liberdade”. Ocupando a região entre Douro e Tejo, descendentes de celtas ou autóctones, foram romanizados; mas não teriam perdido pelo facto a individualidade de grande tribo, nem a autonomia como agregado social. Embora se afigure que permanece nebulosa, estudos modernos vieram dar alguma consistência para vincar a nossa diferenciação do resto da Península. Mas todas as investigações comprovam sem dúvida um facto: a existência, desde o século XII, de uma comunidade delimitada, com autonomia e unidade moral, e apresentando tipicidade perante os demais povos da Península. Poderá dizer-se, todavia, que o desenrolar da vida dessa comunidade empresta, talvez mais do que a outras, algum fundamento à tese exposta e documentada por Cortezão.»

Franco Nogueira («As Crises e os Homens»).






 

«...Galiza, Catalunha, Navarra, Andaluzia, Bascos, Levantinos, ao correr da história, pouco mais do que escravos de escravos: porque escravidão, no fim de contas, pelo que respeita a degradação humana, age para os dois lados, para o lado do opressor e para o lado do oprimido. Com uma grande vantagem a favor das regiões periféricas: é que, vencidas, jamais se submeteram; e, no momento oportuno, se poderão comportar como nações livres que jamais renegaram a sua liberdade e jamais, abandonando seus mortos, desistiram da luta.

E aqui, ao que me parece, se insere a grande façanha de Portugal. O que Portugal fez de maior no mundo não foi nem o descobrimento, nem a conquista, nem a formação de nações ultramarinas: foi o ter resistido a Castela. O ter mantido, através de sangue e fogo, o princípio da independência dos territórios periféricos. E o ter mostrado, naquilo que cabia em suas forças, e mais do que isso, porque verdadeira história só se faz assim, naquilo que estava muito para além das suas forças, de que modo uma Espanha livre e convivente poderia ter transformado a face do mundo. Aceita-se hoje em história de Roma que o assassínio de César, impedindo-o de levar por diante o seu projecto de romanização do mundo europeu, do Báltico aos Urais, veio pôr depois todos os problemas que resultaram da existência de bárbaros não romanizados; veio pôr o problema da Prússia e veio pôr o problema da Rússia. Uma Península livre e una, com regiões culturalmente autónomas e com descentralização administrativa; uma Península a que se tivesse estendido o sistema de governo peculiar da Idade Média portuguesa, isto é, o de, numa prefiguração da Commonwealth, haver uma companhia de repúblicas unificadas por uma coroa; uma Península que tivesse conservado aquele gosto de conversação, de "vida conversável", como diria mais tarde um navegador, para cristãos, judeus e árabes, essa Península, para lá de todas as contingências económicas, teria dado modelo ao mundo. Teria, como numa renda de bilros, dado o “pique” ao mundo. E o dito mundo, Europa inclusive, se podiam depois ter dado à tarefa de ir plantando alfinete e lançando ponto. Que foi decerto modo, o que fizeram, mesmo só com o trabalho de Portugal

Agostinho da Silva («Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa»).

 


«Espanha ocupou tão grande lugar no mundo, impressionou tão fortemente o mundo pelo que fez, pelo modo por que actuou, pela coragem com que volveu em acção a sua concepção ética e política de tom arcaizante que na apreciação desse labor histórico para sempre se dividiram os juízos. A sua personalidade era tão caracterizada e tão forte que não se apagou mais a chocante impressão dela sobre a Europa, espectadora e vítima. E a Europa de além Pirenéus, aberta a todas as influências e, depois do apogeu espanhol, criadora de originalidades opostas à ideologia castelhana, divorciou-se do mundo hispânico. E essas diferenças e esses contrastes de matizes religiosos, políticos, morais e artísticos logo se patentearam bem flagrantes e logo foram interpretados, umas vezes pejorativamente – e surgiu a lenda anti-espanhola, a Espanha negra – outras, intelectualmente – e surgiu toda essa longa filosofia da decadência espanhola, os arbitristas e o ensaio crítico, que é uma peculiaridade da moderna literatura de Espanha e traduz a sua inquietação espiritual como o lirismo português expressa o mais típico da nossa sensibilidade. Uns espanhóis acolheram a lenda anti-espanhola ou a silhueta negra da Espanha quinhentista e nela colaboraram; outros repudiaram-na e procederam à revisão da história; uns e outros extraíram conclusões pragmáticas, pensamento e acção política desses dois hemisférios da alma espanhola, – dos seus escóis, porque o povo permanece indiferente a essas pugnas de gente cultivada, embora muitas vezes tenha sido o mar proceloso que recolhe e dilui em proporções de tragédia o que parecia simples conflito de teorias. A sua insurreição contra os franceses e a sua cooperação nas lutas doutrinárias do carlismo com o liberalismo mostram bem como ele pode ser, pelas energias profundas que armazena, o dado essencial da equação política de Espanha. Mesmo apartados do marulhar subterrâneo dessa letargizada massa, no simples plano da crítica e acção social, na vida quotidiana, esses dois hemisférios espirituais deram à sua doutrina coerência e demasias sistemáticas, carregaram-na de paixão, de força de carácter, a grande virtude e o grande risco da alma peninsular.

E a história de Espanha passou a ser, desde que Espanha recebeu mais do que criou, um contínuo choque desses dois extremismos inconciliáveis, mas indispensáveis um ao outro, como as valvas duma castanhola, opostas e inseparáveis para produzir os típicos estalidos.

Desde que se quebrou a sua unidade moral, Espanha viveu aos bordos, às guinadas sobre a esquerda e sobre a direita, como barco puxado à sirga por forças desiguais ou desencontradas, aos tombos de margem a margem. O choque dos dois hemisférios ou das duas cotilédones da célula cerebral espanhola é o que há de mais típico na consciência espanhola, tecido de contrastes violentos, operando por mútua reacção e agora anunciando-nos um relâmpago novo, que chispe do presente caos criador.


 

E quem foi que lançou esse perpétuo pomo da discórdia, quem realizou a definitiva divisão da consciência espanhola? O homem que, fiel a uma tradição multissecular e mandatário representativo duma asfixiante maioria, quis realizar a unidade política e religiosa da Espanha, conculcando nacionalismos e regionalismos, supeditando privilégios e regalias de classes, extirpando heterodoxias, asfixiando a liberdade individual, mas erguendo à maior altura o poder e o ascendente da Espanha na Europa.

Desde então os espanhóis discutem o que vale mais: a glória ou a liberdade? O paraíso ou o inferno? E, um a um, se vão colocando à direita ou à esquerda daquele túnel de braços do jogo infantil...

Passará, não passará,

Qual deles ficará?

 

Fidelino de Figueiredo («As Duas Espanhas»).

 

«Há (...) a observar que algumas das mais gradas figuras nacionais, das nascidas em Lisboa e no Sul, ou de naturalidade incerta, pelas suas genealogias ou caracteres psicológicos denunciam em proporções variáveis a mescla lusitano galaica. Assim acontece por exemplo com Nuno Álvares Pereira, Gil Vicente, Camões, D. João de Castro, e Camilo Castelo Branco, figuras em que o fundo sentimental do Noroeste, anda aliado a elementos lusitanos.

Outras grandes figuras nacionais acusam participação de sangues exóticos: quer das raças de cor quer das nórdicas; às vezes é evidente a marca semita. Nem por isso estes contingentes deixaram de produzir homens dos mais integrados e representativos; como o Padre António Vieira, Almada Negreiros, o Infante D. Henrique e Fernando Pessoa, respectivamente.

O português é uma combinação feliz. Isolado, o elemento galaico, tanto pela base geográfica não determinativa como por temperamento, arriscar-se-ia a perder-se nas nuvens ou num trabalho de obscuro formigueiro; isolados, os lusitanos, careceriam de uma subconsciência autonómica bastante para os tornar irredutíveis à absorção castelhana, antes e além dos campos de batalha.

A Grécia não perdurou politicamente porque Atenas e Esparta, incapazes de uma fusão, jamais ultrapassaram o entendimento efémero.

Em Portugal, os elementos humanos primários, fundindo-se a caminho do Sul, na capital e a partir dela criaram uma resultante dinâmico-sentimental que se derramou no Mundo com uma força integradora extraordinária.»

Francisco da Cunha Leão («O Enigma Português»).



«Para um futuro paraíso, não só seu próprio, mas de toda a Espanha, pois de que serve a paz que é só nossa, ou que ilusória paz é essa, precisavam talvez Galiza e Portugal de ser separados logo de início e de penarem suas duras penas de acção e de saudade.»

Agostinho da Silva («Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa»).




A SEPARAÇÃO DE PORTUGAL 

O condado portucalense, criado nos últimos anos do XI século a favor do conde borguinhão D. Henrique, genro de Afonso VI, pouco tempo existiu sob o regime de uma vassalagem indiscutivelmente reconhecida. Era essa a época em que a Espanha tendia a constituir-se num sistema de Estados independentes, à medida que sucessivas regiões iam saindo de sob o domínio muçulmano para o dos descendentes dos godos asturianos, ou dos seus actuais aliados[1]; e o condado portucalense obedecia a esta tendência geral, no empenho que o seu conde não mais encobriu desde a morte do sogro.

É com efeito da data do óbito de Afonso VI [1109] que deve contar-se a era da independência de Portugal; embora por largos anos ela seja mais uma ambição do que um facto; embora essa ambição traduza um pensamento que os acontecimentos posteriores da história impediram se realizasse. Qualquer que fosse o valor dado no XI século à expressão geográfica de Portucale, é facto provado, por todas as memórias e documentos desses tempos, que para ninguém deixava de considerar-se o território de entre Minho e Mondego como parte da Galiza. O facto da constituição do condado de nada vale contra esta opinião; porque demasiado se sabe que a formação dos Estados medievais, na Península e fora dela, jamais obedecia às prescrições geográficas ou etnológicas. Não se atribua pois a causas desta ordem, nem à consciência de uma solidariedade nacional, o facto da desmembração da Galiza dos fins do XI século. A cisão que o Minho demarcou obedeceu apenas a motivos de ordem política.

Isto mesmo, porém, deu causa a uma ambição, na qual devemos reconhecer o princípio da vitalidade da nação portuguesa, durante estas primeiras e ainda indecisas épocas da sua existência. A solidariedade nacional espontânea existia de facto para os galegos; e desde que a Galiza fora dividida pela política em duas, aquém e além Minho, restava saber qual dessas metades tomaria sobre si o papel de representar um sentimento de independência, comum a todos os membros ainda então desconexos do corpo peninsular.







"Brasão de Armas" do Conde D. Henrique

Várias causas concorriam para atribuir este papel à metade portuguesa da Galiza; e porventura acima de todas o facto do merecimento pessoal do conde português. Circunstâncias desta ordem eram decisivas numa época em que a anarquia sistemática da constituição da sociedade fazia principalmente depender os destinos imediatos dela da perspicácia ou da bravura dos seus chefes. Nada há de comum entre a vida destes tempos e a dos posteriores; e num certo sentido pode até dizer-se que os factos de ordem política são independentes dos de ordem social, porque a sociedade é como um elemento passivo que por este lado (mas por ele apenas) obedece às consequências do desordenado capricho dos actos e caracteres dos chefes militares que a governam, sem propriamente a representarem.

Nos primeiros três séculos, isto é, na primeira época da história portuguesa, a independência é um facto originado no merecimento pessoal dos chefes militares dos barões de aquém Minho. Nacionalidade propriamente dita, não a há; ou pelo menos não no-la revelam os monumentos históricos, unânimes, também, em revelar uma ambição colectiva ou social que se estende a toda a Galiza. Ao merecimento pessoal reúne-se, nos primeiros monarcas portugueses, a circunstância de serem os intérpretes deste sentimento. Por isso a tendência permanente e o princípio claramente definido da política portuguesa, nos primeiros séculos, é unificar a Galiza, constituindo a noroeste da Península um Estado tão homogéneo como o Aragão ou a Navarra a nordeste.

Neste propósito se filiam todas as guerras civis – se este nome convém ainda aos conflitos entre Portugal e Leão – e as repetidas alianças dos barões galegos das duas zonas divididas pelo Minho. A facilidade com que os reis portugueses transpõem armados as águas desse rio, e se apossam por várias vezes dos territórios da Galiza leonesa, são provas evidentes da opinião exposta.

Não quis a sorte que chegasse a realizar-se este primeiro pensamento político, a que chamaremos hegemonia de Portugal na Galiza, para usarmos de expressões modernas; antes ordenou que os limites convencionais do condado portucalense apenas inscrevessem o ponto de partida da formação de uma nação, cujo carácter, ulteriormente definido, proveio principalmente da fisionomia geográfica da região; de uma nação, repetimos, que veio a perder a tradição dessa primitiva origem, desde que o génio das populações de entre Mondego e Tejo sobrepujou o das do Norte, na direcção e impulso dados à vida colectiva portuguesa.

Se nesta primeira época da nossa história o pensamento oculto que dirige com maior ou menor consciência a política, é incontestavelmente o da hegemonia de Portugal na Galiza, seria absurdo supor que, ao lado deste princípio, decadente desde certa época, se não fossem também manifestando de um modo correlativo, e cada vez mais pronunciado, os sintomas da deslocação do centro vital da nação.

Inscrição rupestre em «língua lusitana» de Lamas de Moledo, Castro Daire.

A circunstância que mais decisivamente determina este carácter da nossa história primitiva é a conquista dos territórios sarracenos de aquém Mondego, levada a cabo pelos barões portugueses, sem os auxílios do suserano de Leão. É este movimento que, principiando por quebrar os laços de solidariedade entre os galegos leoneses e os portugueses, vai gradualmente adicionando a estes últimos os lusitanos (seja-nos lícito dizer assim, para mais claramente definir o nosso pensamento), até o ponto de os últimos predominarem na fisionomia posterior da nação, transferindo de Guimarães e de Coimbra, para Lisboa, a capital do reino; fazendo substituir, à vida rural, primeiro quase exclusiva, a vida comercial e marítima depois predominante e quase absoluta.

A primeira época da história portuguesa oferece pois à observação do crítico dois movimentos[2], opostos num sentido, concordes em outro, que é o da afirmação positiva da independência. Mas, se essa afirmação, terminante nas guerras leonesas, e também nas sarracenas, exprime de um lado a política de hegemonia na Galiza, do outro exprime, de um modo todavia inteiramente inconsciente e espontâneo, uma tendência contrária. É a formação de uma nação lusitana, de que a Galiza portuguesa desce à condição de província ao norte, como o Algarve, mais propriamente turdetano, vem a sê-lo ao sul. O Entre-Douro e Guadiana, isto é, a espinha dorsal da Estrela, ladeada pelas Beiras ao norte, pelo Alentejo a sul, pela Estremadura a poente: eis aí o que, logo desde o XIV século, começa a representar o corpo homogéneo da nação portuguesa.

(In Oliveira Martins, História de Portugal, Guimarães Editores, Lisboa, 22.ª edição, 2007, pp. 63-65).


[1] V. História da Civilização Ibérica, O. C., L.º III, p. 1.

[2] Resumimos à política o campo das nossas observações, por termos deixado na História da Civilização Ibérica desenhados os traços gerais dos movimentos propriamente sociais. V. livro III.


terça-feira, 11 de novembro de 2025

Os Lusitanos

Escrito por Oliveira Martins


«Até hoje todas as sucessivas tentativas para descobrir a nossa raça têm falhado. Latinos, celtas, lusitanos e afinal moçárabes têm passado: ficam os portugueses cuja raça, se tal nome convém empregar, foi formada por sete séculos de história.»

Oliveira Martins («História de Portugal»).

 

«A tradição fez sempre coincidir a fronteira oriental da Lusitânia com a actual linha de fronteira entre Portugal e Espanha e portanto, a Lusitânia era Portugal e os Portugueses, os descendentes dos Lusitanos.

Não sabemos o que pensaram dos Lusitanos os povos que se seguiram aos Romanos na ocupação do território que antes tinha sido deles, mas a recordação manteve-se pois autores tardios nos falam dos Lusitanos e são mesmo preciosas fontes para o seu estudo.

Na Idade Média, a “Crónica Geral de Espanha”, de 1344 apresenta Viriato como um herói sem pátria definida, tanto podendo ser português como espanhol, mas resistente à ocupação ibérica e compara-o a Hércules, o mítico herói grego.

A Lusitânia é utilizada muitas vezes pelos cronistas e pelos reis portugueses como uma forma de justificar a independência de Portugal e os primeiros reis comparados a Viriato.

No Renascimento, com a redescoberta dos clássicos, os humanistas vão fazer a identificação dos heróis antigos com os vestígios e lugares de Portugal e curiosamente, um dos primeiros a fazer a identificação da Lusitânia com Portugal foi Gil Vicente em 1532. No seu Auto da Lusitânia, representado perante D. João III, por ocasião do nascimento do Príncipe D. Manuel, em 1532, os dois personagens principais chamam-se “Lusitânia” e “Portugal”. A “Lusitânia” é uma bela filha do Sol e de Lisibeia (Lisboa), de uma beleza estonteante e pela qual se apaixona um cavaleiro grego chamado “Portugal”, com quem vem a casar. Temos aqui a identificação perfeita de Portugal com a Lusitânia que, por esta época, já se começava a fazer cada vez com mais força. Outros personagens que aparecem neste auto são os demónios Belzebu e Dinato que são testemunhas do casamento e assistem a um diálogo curioso entre outros dois intervenientes que são “Todo o Mundo” e “Ninguém”. Todo o Mundo representa a arrogância, a prepotência, a vaidade, a cobiça e o amor às coisas materiais e Ninguém representa a pobreza, o desprendimento das coisas materiais, identificando-se com a maioria das pessoas e com uma pequena minoria, ou seja Todo o Mundo e Ninguém, respectivamente. Atendendo ao contexto de casamento em que estas personagens aparecem, de Portugal com a Lusitânia, representarão os principais intervenientes do casamento de Viriato, ou seja, o próprio Viriato, aqui representado por Ninguém e Astolpas, representado por Todo o Mundo.

É, no entanto, na obra Antiguidades da Lusitânia, de André de Resende que se marca o início da Arqueologia em Portugal e da identificação dos Portugueses com os Lusitanos e de Portugal com a Lusitânia. André de Resende foi o primeiro a fazer dos Portugueses os verdadeiros herdeiros dos Lusitanos, em linha directa e sequencial, apesar de reconhecer a falta de coincidência entre Portugal e o território lusitano. A Resende se devem ainda as inovações do termo lusíada e a duplicação do Monte Hermínio, contrapondo um Hermínio Maior a um Hermínio Menor, que seriam a Serra da Estrela e a Serra de S. Mamede, respectivamente. Começa-se aqui a forjar a identidade nacional lusitana que não mais iria abandonar a nossa historiografia.

Serra da Estrela


Escultura de Nossa Senhora da Boa Estrela esculpida na rocha granítica.


Poço do Inferno

Luís de Camões utiliza para a sua principal obra o neologismo introduzido por Resende, e dá-lhe o sugestivo título de Os Lusíadas, fazendo a plena identificação dos Portugueses com os Lusitanos e os seus chefes, nomeadamente Viriato. Acerca deste, escreve Luís de Camões, no Canto VIII, estrofes 5, 6 e 7.

(...) Antes, no Canto III, estrofes 22 e 23 já havia identificado Portugal com a Lusitânia...

Camões faze-se eco da tradição que corria sobre a vida de Viriato, apresentando-o como o esforçado pastor que se converteu pelas suas qualidades e pelo seu esforço, em condutor e pastor de gentes.

Frei Bernardo de Brito escreve a sua bem conhecida Monarquia Lusitana, tentando justificar a ideia da Pátria a partir da antiguidade e das personagens conhecidas de então. Não se deve esquecer que o primeiro volume é publicado em 1597, em plena ocupação espanhola e em que era importante e necessário alimentar a Alma portuguesa na sua resistência ao invasor.

Portugueses e Lusitanos eram um só povo e confundiam-se nas suas obras. Era o tempo da identificação de tudo com os clássicos e todos os actos da vida se pautavam pela imitação dos Gregos ou Romanos. Esta identificação tinha apenas como objectivo glorificar os Portugueses pois que, tal como os Lusitanos tinham sido os heróis da antiguidade e o povo que mais se opôs aos Romanos, assim deviam ser agora os Portugueses, seus verdadeiros herdeiros, que deveriam seguir o exemplo e libertar-se do jugo espanhol.

Nos finais do século XVII, publica-se o Viriato Trágico, poema heróico de Brás Garcia de Mascarenhas, o mais notável poema nacionalista escrito na altura do domínio espanhol em Portugal. Viriato é o herói deste poema épico, ressaltando as suas qualidades de estratega militar e de condutor de povos que, inclusive, recusa a luta quanto sente que a derrota é certa, pois

 



Não é melhor, antes que o mal suceda,

Não ir à luta que leva à queda?

Lute quem sabe, quem não sabe aprenda.

 

Logo depois diz que:

 

Não lhe negue a nação, porque merece

Ser collocado em seu eterno archivo

Todo foi portuguez no esforço e manha,

Sem ter mistura de nação estranha (...)

 

Nasceu naquella serra que chamada

Hermínia foi, hoje se chama Estrella.

 

Brás Garcia de Mascarenhas, como Bernardo de Brito, ao contrário de André de Resende, eram beirões de nascença, pois Mascarenhas nasceu em Avô, na Serra da Lousã e Bernardo de Brito em Almeida, dá a Viriato a nacionalidade portuguesa e como local de nascimento a Serra da Estrela.

(...) Brás Garcia de Mascarenhas vai mesmo mais longe e atribui a Viriato a construção da Cava de Viriato em Viseu... É mais uma identificação da Beira com Viriato e os Portugueses legitimamente considerados herdeiros dos Lusitanos enquanto os Espanhóis representavam os Romanos nesta verdadeira novela peninsular.

Esta ideia da identificação de Viriato com a Beira vai fazer com que se faça a sua reivindicação regional, como aconteceu com Viseu por estes séculos XVII e XVIII.


Cava de Viriato

Sendo os Portugueses descendentes directos dos Lusitanos, o território Português actual também era, em grande parte, o território lusitano. Viriato era originário da Serra da Estrela, o lendário Mons Herminius, as lutas de Viriato tinham-se desenrolado nas faldas da Serra e nas planícies ribatejanas e alentejanas, Évora tinha sido transformada por Sertório na Roma lusitana com uma administração à maneira romana. É a época da formação dos grandes mitos da nossa história com a ligação dos nomes antigos às povoações contemporâneas e às figuras da antiguidade entretanto descobertas ou inventadas.

Esta ideia, da identificação dos Portugueses com os Lusitanos, “estava fortemente radicada entre os escritores, que a haviam recebido sem exame, lisonjeados com o lustre que criam vinha à sua pátria deste parentesco”, como escreveu Herculano na sua História de Portugal. Estas palavras de Herculano soam, claramente, a um olhar crítico sobre essa identificação pois, nos séculos seguintes ao Renascimento, esta ideia manteve-se fortemente arreigada entre os intelectuais e deles passou ao povo que a adoptou como sua.

O século XIX é o século do aparecimento da crítica histórica e da ciência arqueológica, começando o arqueólogo a distanciar-se cada vez mais do antiquário imaginativo. As reformulações começam a fazer-se sentir e muitos dos mitos que se tinham criado na História de Portugal não resistem e Herculano é um dos espíritos mais lúcidos a esse respeito. Apesar das revisões críticas que são feitas, esta teoria que identificava os Portugueses com os Lusitanos vai, no entanto, resistir às análises mais objectivas do século e ainda hoje muitos continuam a afirmar essa identificação.

O poeta e nacionalista Almeida Garrett, em 1824, em plena Guerra Civil, na sua obra Flores sem Fruto, inclui um grande poema heróico a Viriato que intitula “A Caverna de Viriato”. Nela faz o panegírico de Viriato e compara os Lusitanos, Lusos lhes chama, com os Portugueses do seu tempo que se tornaram traidores uns dos outros e que vão destruir a Pátria.

(...) Antes, Almeida Garrett tinha-se já referido aos Montes Hermínios como o local de origem de Viriato, imbuído do “espírito da serra” onde se situava a sua caverna, e o lugar de onde ele vai descer para atormentar o mundo.

Os finais desse século XIX e os inícios do século XX são marcados por personalidades arqueológicas como Martins Sarmento e Leite de Vasconcelos e pela polémica questão da União Ibérica.


J. Leite de Vasconcelos


 

Francisco Martins Sarmento torna-se no grande estudioso dos castros do Norte e considerava os Lusitanos de origem lígure, originários portanto do Norte da Itália, e diz que a palavra Lusitani, provirá do nome que um ramo lígure possuía na língua original, Ligusitani. Afirma assim uma origem exterior à Península Ibérica, proveniente, portanto, da zona dos Alpes, não lhe reconhecendo qualquer origem céltica ou autóctone.

A influência céltica na Península Ibérica ter-se-ia ficado pelo noroeste e pelas terras hoje espanholas das nascentes do rio Douro e do rio Ebro.

Leite de Vasconcelos, pelo contrário, reagiu contra a sugestão da evolução linguística proposta por Martins Sarmento, mas concorda e tenta provar a ascendência lusitana dos Portugueses, “em alguns ramos da Ethnologia”. É o primeiro a tentar uma sistematização dos povos lusitanos, estudando as divindades do mundo que ele considerava lusitano e que verteu na clássica obra “Religiões da Lusitânia”. A Lusitânia, objecto do seu estudo, é essencialmente a província romana que ultrapassa em muito a Lusitânia que atrás definimos e para evitar confusões ele faz logo a advertência de que “começo naturalmente por explicar qual a acepção que lhe dou nesta obra”. Podemos dizer que toda a investigação de Leite de Vasconcelos teve como objectivo fundamental provar que havia uma relação directa entre Portugueses e Lusitanos, apesar da falta de coincidência entre os territórios, pelo menos numa grande área. Tentou ainda ir mais longe e provar que no território português vinham existindo, desde a Pré-História, culturas próprias que moldaram o homem lusitano e, consequentemente, o homem português.

Nos inícios do século XX, Mendes Correia foi uma das figuras mais acérrimas defensoras da ligação entre Portugueses e Lusitanos, contestando fortemente Alexandre Herculano. Atravessando toda a primeira metade do século XX, veio a ser uma das figuras de que o regime do Estado Novo se serviu para tornar essa teoria numa afirmação científica e na afirmação de uma raça portuguesa distinta das outras conhecidas, chegando mesmo a considerar um tipo de hominídeo próprio do território português, o “selvagem homo taganus” que teria vivido nas margens da Ribeira de Muge. Ora, o que hoje se sabe desta população dos finais do Neolítico/Mesolítico é que se alimentavam à base de moluscos de que nos deixaram imensos vestígios, os chamados concheiros e praticavam o enterramento colocando os corpos em posição fetal. As análises antropológicas nada revelam de diferente em relação a outros homens do mesmo período neo/mesolítico.

Teófilo Braga, intelectual e político, primeiro Presidente do Governo Provisório após a instauração da República Portuguesa escreveu, em 1904, um romance intitulado Viriatho em que faz a descrição do Lusitano combativo e atribuindo-lhe a construção da Cava de Viseu onde imagina que decorreram os seus funerais. Era português, sem dúvida e tinha sido um dos pais da Pátria portuguesa.



O alemão Adolfo Schulten escreveu, em 1926, uma bibliografia de Viriato e uma obra sobre a Hispania e aí refere que o nome Lusitanos provém do celta, considerando-os por isso como celtas. O nome tem a raiz lus- que entra na composição de outros nomes da Península. Apesar dos elementos linguísticos apontarem para uma origem celta dos Lusitanos, outros levam-no a concluir por uma origem ibérica. Conclui, pois, Schulten que se deve “portanto, admitir que nos Lusitanos foi celtisada uma população ibero-africana mais antiga pela emigração celta, principalmente quanto à língua”. Esta hesitação de Schulten em relação à origem celta dos Lusitanos ou a sua origem ibérica é uma questão que tem atravessado praticamente todos os tempos e historiadores e ainda hoje se mantém em aberto. O Viriato de Schulten tem sido a obra mais citada desde a sua publicação até aos anos noventa do século passado e ainda hoje continua a ser um clássico para o estudo desse período.

O Estado Novo fez da questão da raça uma ideia fundamental do orgulho nacional e por isso era importante manter e propagandear o mais possível esta ideia da relação umbilical com os Lusitanos. A História ensinada nas escolas primárias, Liceus e Escolas Industriais transmitia a ideia da formação da Pátria a partir da Lusitânia, enaltecia-se a bravura dos Lusitanos e apresentava-se a dedicação de Viriato à Pátria como um exemplo a seguir.

Em 1936, o corpo expedicionário português de voluntários enviado para combater na Guerra Civil Espanhola, ao lado das tropas de Franco, chamava-se Os Viriatos.

Damião Peres ao publicar o seu livro “Como Nasceu Portugal”, em 1944 foi demolidor desta teoria da ligação umbilical dos Portugueses com os Lusitanos e da ideia de ir buscar as raízes da Nação tão longe e, ao sustentar que a formação de Portugal se devia fundamentalmente à vontade política de D. Afonso Henriques, provocou a ira de Mendes Correia e do regime político. Para Damião Peres, Portugal era uma realidade medieval que nasceu fruto das circunstâncias em que a vontade do conde D. Henrique e D. Teresa e, depois do filho de ambos, D. Afonso Henriques, foram determinantes.»

João Luís Inês Vaz («Lusitanos – No Tempo de Viriato»).

 

«A situação geográfica da Espanha destinava-se a ser o campo de batalha onde viriam a encontrar-se as ondas de povos que do alto da Europa descessem em busca de novas presas, e as vagas que da África namorassem esse parayso de Dios que lhes ficava fronteiro.

Quaisquer que tivessem sido os embates de povos, anteriores aos de que a história nos dá notícia, é facto que na Espanha se encontram romanos e cartagineses, vindos, uns de além dos Pirenéus, outros da Mauritânia, continuar na Península as guerras púnicas. É também facto que, depois e da mesma forma, se encontram os visigodos e os árabes. Por duas vezes a Espanha representou para a Europa o papel que no Oriente mais tarde coube à Hungria: foi a atalaia avançada e como que o baluarte da sociedade europeia contra as invasões sarracenas.

(...) A geografia diz-nos, porém, que uma região geognosticamente constituída por formas tão diversas, dividida em bacias hidrográficas separadas entre si por cordilheiras elevadas e espessas, e cortadas de rios inavegáveis na maior parte do seu curso, favorece a formação de individualidades nacionais distintas; por isso que impedindo as comunicações fáceis entre as diferentes tribos localizadas em cada uma das zonas embaraça e demora a fusão ou penetração de umas pelas outras.

Nada se parece menos com o castelhano grave e indolente, observa um moderno historiador da Espanha, do que o andaluz fanfarrão e leviano.

Sob as mesmas condições físicas de posição e clima, vemos o catalão industrioso que esquadrinha todos os cantos do mundo em busca de fortuna, e o valenciano cabisbaixo e sedentário que não sai da sua viçosa huerta, desse torrão que seus avós já cultivaram. Vem depois o galego, paciente e laborioso, a oferecer por toda a parte o trabalho dos seus braços e os seus ombros possantes para a carga. Ao lado do aragonês, nobre e altivo nos seus farrapos, encontramos o biscainho, vivaz, sacudido, tão vaidoso dos seus fueros, quanto o de Aragão o é da sua antiga e atrevida advertência aos reis, si non, non! – E nós próprios portugueses, não somos tão diversos, os do Minho, praticamente laboriosos mas obtusos, cheios de teima e prosápias, que formámos sobre um chão de granito um prado, como uma Irlanda, a formigar de gente – dos do Sul, bizarros como castelhanos? dos do extremo Algarve, verdadeiros andaluzes.

Se a geografia é a nosso ver uma causa das graves diferenças que, segundo as regiões, distinguiram os espanhóis na história e os distinguem ainda hoje, mantendo visíveis caracteres etnológicos nem sempre fáceis de determinar nas suas afinidades, essa causa não basta para que, acima de tais diferenças, a história nos não mostre a existência de um pensamento ou génio peninsular, carácter fundamental da raça, principalmente afirmado, de um lado no entusiasmo religioso que pomos nas coisas da vida, do outro no heroísmo pessoal com que as realizamos. Daqui provém o facto de uma civilização particular, original e nobre.»

Oliveira Martins («História da Civilização Ibérica»).

 

«Oliveira Martins não é um historiador-filósofo, quer no sentido mais crítico e judicioso, quer no sentido mais sintético e integrativo do termo. A sua concepção veemente da história da pátria não se dirige de maneira singular ao espírito, mas dirige-se às almas: dirige-se ao subtil liame entre querer e ver, configurando-se na relação entre sentir e saber que vive e pervive na tão desdenhada imaginação evocativa ou vidente.

É um historiador de raiz tradicional realizando-se no seio da cultura adversa: historiador peninsular, ibérico, profundamente ligado, e por vínculo anterior a todo o estudo, à tradição activa e pragmática da pátria. Di-lo-íeis sob certo aspecto um espartano que, como podeis discernir neste mesmo livro sobre o Helenismo e a Civilização Cristã, louva e admira as maravilhas da poesia e da filosofia de Atenas, permanecendo afinal fiel ao ideário simples de quantos por vários modos recusam a grande aventura do espírito. No entanto, ele sabe, e o disse nas obras às quais primeiro lembrámos, que Portugal, vivendo, segundo a secreta vocação da sua alma, a grande aventura do mundo, ficou desde Alcácer Quibir ressentido, e não completou a aventura. Será, seria esta a aventura do espírito

José Marinho («Estudos sobre o Pensamento Português Contemporâneo»).

 

«Não é de hoje, aliás, a refutação da filosofia da história em nome de uma pretensão científica. Numa carta escrita a Oliveira Martins em 1872, Alexandre Herculano chamava-lhe “género de romance impertinente”. No seu lugar, antevia a “fixação das leis gerais que, a posteriori, resultarem da identidade e universalidade dos factos políticos e sociais em identidade universal de circunstâncias, leis cujo conhecimento tornarão a história uma verdadeira ciência”. E depois de mais algumas considerações secundárias, Herculano concluía: "Fora disto, filosofias históricas, pura conversa!" [De Carta a Oliveira Martins (25-12-1872), cit. in Alexandre Herculano, biografia de António Borges Coelho, Ed. Presença, Lisboa, 1965.

Vale a pena citar este outro trecho da mesma carta, bem reveladora da posição incompreensiva de Herculano perante a filosofia da história: “Generalizações de factos que não se conhecem ou se conhecem imperfeitamente, fazem rir, e rir ainda mais quando se tomam por factos erros por vezes bem grosseiros. Quando as monografias das nações do globo estiverem feitas, o que há-de ser daqui a alguns centos de anos, então é possível a filosofia da história. Até lá, romance ou comédia.” Herculano “profetiza” afinal o que viria a ser muito mais tarde a recolha exaustiva de Toynbee, comparando 22 civilizações...].


Opunha-se Herculano, arrebatada e sarcasticamente, ao que considerava a influência nefasta da filosofia da história sobre o jovem Oliveira Martins. Mas pedia o impossível – a fixação de leis gerais, base de uma história científica – para minorizar a intuição de um dinamismo histórico, que Oliveira Martins, inspirado pelas teorias dos filósofos românticos alemães, traduzia em termos sociais. Evidentemente, a sociologia de Oliveira Martins foi contestadíssima, quer por António Sérgio, quer, mais recentemente, por António José Saraiva e Alberto Ferreira – e foi tanto mais contestada quanto pretendia fazer doutrina numa esfera que se afirmava ser totalmente racionalizável (Sérgio) e científica (A. J. Saraiva, A. Ferreira).

Oliveira Martins descobrira, no entanto, ao observar o passado, que o elemento social não era uma presença totalitária em todas as manifestações humanas, tendo de admitir, por conseguinte, uma margem superior ou menor de indeterminação, de liberdade, de criacionismo gratuito da parte de certos homens superiores ou de certas nações ou complexos civilizacionais, movidos por vagas de fundo míticas, religiosas ou psicológicas (daí a sua valoração, mais tarde considerada indevida pelos cientistas pragmáticos ou pelos cultores de uma Razão discursiva e imanente toda-poderosa – Eduardo Lourenço falaria, a propósito, do novo farisaísmo da Razão –, daí a sua valorização, dizíamos, de figuras consideradas arquetipais como as de Nuno Álvares Pereira ou de D. João II e de movimentos colectivos nacionais, como o sebastianismo). E descobrira, por outro lado, que fundar uma historiografia unicamente nos documentos paleográficos não passava de ilusão: os documentos omitem, os documentos mentem, os documentos representam, a par de um testemunho até certo ponto irrecusável, uma falsificação da realidade, por parte de observadores mal apetrechados, geralmente não independentes na sua transposição testemunhal, exprimindo fragmentária e aleatoriamente uma verdade estilhaçada, lacunar e descontínua que o historiador se esforça por tornar coerente e lógica. Mas como? Deixemos para os ingénuos ou para os mal-intencionados a pretensão de afirmarem que conseguiram a transposição científica de toda a zona enigmática para a verdade, é o ponto de vista de Oliveira Martins. Ele diz: “É quimérico, é absurdo até, imaginar construir cientificamente a história” e, aindam “ciência e história são termos que se excluem”. Só através da imaginação e da faculdade intuitiva, aliadas à razão conceptiva e à investigação, poderá o historiador reconstruir, “na sua totalidade indefinida ou caótica a realidade das coisas”. “A história não é, pois, uma ciência, mas uma arte” Uma arte narrativa, uma arte literária. A filosofia da história a pode interpretar, porque a filosofia convive com a liberdade; não a ciência da história, porque a ciência aponta à necessidade e à lei.»

António Quadros («Introdução à Filosofia da História»).

 


OS LUSITANOS

«O povo desde o qual os historiadores têm tecido a genealogia portuguesa está achado: é o dos lusitanos. Na opinião desses escritores, através de todas as fases políticas e sociais da Espanha durante mais de três mil anos, aquela raça de celtas soube sempre, como Anteu, erguer-se viva e forte; reproduzir-se, imortal na sua essência; e nós os portugueses do século XIX temos a honra de ser os seus legítimos herdeiros e representantes.»

Com esta ironia encoberta mas grave, fustigava Alexandre Herculano[1] os seus predecessores, historiógrafos nacionais, e, segurando com valor a férula magistral, castigava o povo culpado de acreditar numa tradição que tem para o erudito, além de outros defeitos, o de ser recente. Só desde o fim do XV século o nome de lusitani começa a substituir o de portucalenses, nos livros; mas essa inovação, perpetuando-se entre os eruditos, torna-se por fim uma crença nacional e quase popular.

Que valor merece a inovação? Nenhum, e por vários motivos: «Tudo falta: a conveniência de limites territoriais, a identidade da raça, a filiação da língua, para estabelecermos uma transição natural entre os povos bárbaros e nós.» Ora estes argumentos, decisivos para o sábio historiador, não nos parece a nós – perdoe-se-nos o atrevimento – que o sejam. Outro tanto sucede com todas as nações ou quase todas, desde que procuramos estabelecer a árvore genealógica, indo aos arcanos de um passado ignoto reconhecer a fisionomia dos mortos de muitos séculos e determinar de entre eles os primeiros avós de uma nação. Seria absurdo exigir conveniência de limites territoriais, ou por outra, identidade de fronteiras, entre a localização de uma tribo primitiva, e a de uma nação moderna: nem aos povos que hoje mais indiscutivelmente representam, pura, uma raça, poderia fazer-se tal exigência. Se há ou não identidade de raça, é exactamente o problema que deveria agitar-se; e, sem isso, negá-lo é proceder dogmática e não cientificamente.

Alega-se que são indecisas as noções de Estrabão com respeito às fronteiras dos lusitanos; diz-se mais que não coincidem com as que Augusto deu à província da Lusitânia[2]. O geógrafo antigo, ora parece incluir os calaicos nos lusitanos, estendendo as fronteiras destes últimos até à costa do norte da Península, ora os separa, dando-lhes o Douro como divisória. A demarcação de Augusto adoptou esta segunda versão. As fronteiras orientais estendiam-se, quer para o geógrafo, quer, depois, para a administração romana, muito além da raia portuguesa, incluindo Salamanca, e subindo quase até próximo de Toledo. Daí para o sul, e depois para o nascente, seguindo o curso angular do Guadiana, os lusitanos de Estrabão e a Lusitânia de Augusto tinham como limite este rio, quase desde as suas fontes, e até à sua foz, na costa do nosso Algarve.


Mapa da Lusitânia sob o domínio romano, indicando rios e povoações e a rede conjectural de vias de comunicação, segundo Hübner.

Se ligássemos, pois, um valor positivo às resenhas dos antigos geógrafos, e um alcance social-histórico à identidade das fronteiras primitivas e actuais, parece-nos que poucas nações poderiam com melhores motivos achar na etnologia dos antigos o fundamento da sua vida moderna. Alargue-se a fronteira do norte ao Minho (conquista da Lusitânia sobre a Galécia), retraia-se a fronteira de leste ao Douro (conquista da Tarraconense sobre a Lusitânia) e teremos feito coincidir os antigos com os actuais limites. Qual é, dos primitivos, o povo que no decurso da sua vida histórica deixou de conquistar e de ser conquistado? Qual é o que não ganhou ou não perdeu, de um lado ou de outro, sobre ou para os vizinhos?

Se a maneira porque, a partir do século XV ou XVI, os historiógrafos nacionais filiam o Portugal moderno na antiga Lusitânia justifica as fundadas ironias do nosso grande historiador, não nos parece que o processo por ele seguido para negar a doutrina seja conveniente, nem até verdadeira a opinião de que entre portugueses e lusitanos nada haja de comum. Quando hoje vimos renascer de um modo erudito, e daí afirmar-se no espírito popular, a tradição nacional germânica, a italiana e até a romana, que valor tem o facto da tradição lusitana ter estado obliterada por séculos, para só ressurgir numa época relativamente próxima e de um modo erudito? Se os portugueses da Idade-Média não sabiam de seus avós lusitanos, acaso saberiam de seus avós ítalos, romanos ou teutónicos os piemonteses, os valáquios ou os prussianos até o XVIII século? Acaso, também, ser-lhes-á mais possível do que a nós estabelecer uma transição natural e uma história ininterrupta desde as primeiras idades até às modernas? Não, decerto. Se a erudição pudesse demonstrar a unidade da raça ibérica, então os lusitanos baixariam à condição de uma variedade sem autonomia: facto é, porém, que pouco ou nada sabemos, nem de iberos em geral, nem de lusitanos em particular, e por isso as fábulas dos velhos antiquários não merecem a atenção moderna. Não haverá, porém, acaso outro caminho para atacar este problema? À falta de monumentos escritos, nada poderá valer-nos? Entre a fábula ingénua dos antiquários e as exigências secas e formais dos eruditos modernos, não estará outra via? Afigura-se-nos que sim[3].

Todos reconhecem hoje a indestrutível tenacidade das populações primitivas. Raízes profundas que nenhuma charrua destrói apesar de revolta a leiva pelo ferro das conquistas, depois de esmagados as folhas e troncos pelo tropear dos cavalos de guerra, depois de queimados e reduzidos a cinzas pelos incêndios das invasões: embora se lancem novas sementes à terra e nasçam vegetações novas, essas raízes profundas tornam a reverdecer, crescem, dominam um chão que é seu, e afinal convertem ou esmagam, transformam ou exterminam, de um modo obscuro, lento, mas invencível, as plantas intrusas.

A permanência dos caracteres primitivos dos povos, facto hoje indiscutível, permite fazer – consinta-se-nos a expressão – a história ao inverso: julgar de hoje para ontem, inferir do actual para o passado. A questão da raça lusitana apresenta-se-nos pois nestes termos: há uma originalidade colectiva no povo português, em frente dos demais povos da Península. Cremos que a há circunscrita porém a traços secundários. Cremos que as diversas populações da Espanha, individualizadas sim, formam, contudo, no seu conjunto, um corpo etnológico dotado de carateres gerais comuns a todas. A unidade da história peninsular, apesar do dualismo político dos tempos modernos, é a prova mais patente desta opinião[4].


Povos da Península

Este dualismo, porém, leva-nos também a crer que entre as diversas tribos ibéricas, a lusitana era, senão a mais, uma das mais individualmente caracterizadas. Não esquecemos, decerto, a influência posterior dos sucessos da história particular portuguesa; mas eles, por si só, não bastam para explicar o feitio diverso com que coisas idênticas se representam no nosso espírito nacional. Há no génio português o que quer que é de vago e fugitivo, que contrasta com a terminante afirmativa do castelhano; há no heroísmo lusitano uma nobreza que difere da fúria dos nossos vizinhos; há nas nossas letras e no nosso pensamento uma nota profunda ou sentimental, irónica ou meiga, que em vão se buscaria na história da civilização castelhana, violenta sem profundidade, apaixonada mas sem entranhas, capaz de invectivas mas alheia a toda a ironia, amante sem meiguice, magnânima sem caridade, mais que humana muitas vezes, outra abaixo da craveira do homem, a entestar com as feras. Trágica e ardente sempre, a história espanhola difere da portuguesa, que é mais propriamente épica: e as diferenças da história traduzem as dissemelhanças do carácter.

Poderemos regressar ao passado, e perguntar-lhe a causa primária deste fenómeno? Decerto não. Ou sombras impenetráveis o encobrem, ou a escassez do nosso saber nos não deixou ainda desvendá-lo. Como hipótese – e do nosso atrevimento será escusa a nossa modéstia – somos levados a crer que a individualidade do carácter dos lusitanos (quer neles incluamos os calaicos, quer não) provém de uma dose maior de sangue céltico ou celta (questionou-se outrora sobre isto) que gira em nossas veias, de mistura com o nosso sangue ibérico. Os nomes próprios de lugares, os nomes de pessoas e divindades, tirados das inscrições latinas da Lusitânia e da Tarraconense, que constituem o nosso Portugal, provam a preponderância de um elemento céltico. As vagas indicações dos antigos falam-nos nos celtas das margens do Guadiana, e dão-no-los na costa ocidental da Península. Vale porém mais do que isso a analogia evidente entre as manifestações particulares dos lusitanos e dos galegos, e aquela fisionomia que os estudos eruditos sobre os celtas da França e da Irlanda têm determinado a estes últimos[5]. Tentámos há pouco esboçar a nossa fisionomia diferencial: escusado é tornar agora ao assunto.

Se a ideia de uma filiação dos lusitanos foi expressa de um modo ridículo pelos antiquários clássicos, a ideia de uma filiação céltica ou celta teve já a mesma sorte quando, quase em nossos dias, houve quem pretendesse filiar directamente o português na língua dos bardos. Paz do esquecimento a todas as quimeras!

(In Oliveira Martins, História de Portugal, Guimarães Editores, Lisboa, 2007, pp. 27-30).





[1] V. o seu retrato em Portugal Contemporâneo, III, O. C., pp. 155 a 164.

[2] V. História da Civilização Ibérica, O. C., pp. 47 e 48.

[3] V. acerca dos lusitanos As Raças Humanas, O. C., I, pp. 268 a 284, e II, pp. 209 nota.

[4] V. História da Civilização Ibérica, O. C., pp. 23 a 322.

[5] V. As Raças Humanas, O. C., II, v. p. 7.