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sábado, 30 de maio de 2026

Descobri a personalidade de Homero

Fragmento de José de Almada Negreiros




«Toda a doutrina aristotélica é uma doutrina aristocrática e teleológica, mas a doutrina liceal é especialmente uma propedêutica de liberdade, pelo que traz consigo a marca da tendência superlativa que era própria da comunidade helénica. A libertação promove-se pelo exercício do elemento superior do composto humano, no qual têm sido tradicionalmente distinguidos o corpo, a alma e o espírito. A educação intelectual, ou educação da inteligência, nem sempre pode ser exercida sem contrariar as paixões da alma e as sensações do corpo, mas deve ter a finalidade de alcançar a ciência mais pura que é a de objecto mais alto, ou seja, a teologia.

É o pensamento aristotélico caracterizado pelo mais puro monoteísmo, e portanto intransigente contra todos os modos do politeísmo que desvaloriza nas palavras desdenhosas com que se refere à mitologia, seguindo, neste ponto, o ensinamento de Platão que expulsaria da sua República ideal os idólatras e mitólogos. Sobre todos os modos possíveis da revelação divina, prefere Aristóteles o modo mais humano que é, evidentemente, a palavra. Assim, depurando de todos os ritos impuros a serena vida religiosa, atribuindo a Deus a máxima realidade e o máximo valor, para Deus faz convergir todo o esforço da educação do homem. Insistentemente doutrina que a felicidade humana não pode ser dada pelas sensações do corpo nem pelas paixões da alma, mas existe numa vida verdadeiramente intelectual e divina, com seus movimentos felizes de bem-aventurança [Aristóteles – Ética a Nicómaco, Livro X, capítulo 7].

Dado, de certeza, que a apreensão intelectual dos valores não é suficiente para lhes prestar a adesão da alma, detém-se Aristóteles nos livros dedicados à ética a desenvolver o quadro das virtudes cardiais que são a fortaleza, a temperança, a prudência e a justiça. Aqui se vê, porém, que as virtudes resultam da intelecção de valores, os quais só podem ser aceites ou escolhidos se para isso obtiverem as condições propícias do sentimento e da vontade. As virtudes são, portanto, paradigmáticas, seres ideais, essências socráticas, cuja adopção é proposta aos homens que de sua natureza estão mais ou menos inclinados para os vícios. As virtudes são apreciadas e julgadas pelos efeitos, segundo o método fenomenológico de estudo moderno das emoções, dos sentimentos e das paixões. É assim evidente que o aprofundamento da ética nos conduz aos estudos da psicossomática, com a admissão das verdades estabelecidas no paralelismo psico-físico ou psicofisiológico.

No mesmo livro da Ética a Nicómaco discorre Aristóteles sobre a simpatia, a amizade e o amor, expondo uma doutrina que não pode deixar de fazer lembrar a do Banquete de Platão, para no final, ao elogiar a divina vida contemplativa, nos dar a lição do que é a vida bem-aventurada, isto é, a teoria daquela felicidade de que o homem só pode fruir por instantes, felicidade que só é permanente e estável em Deus [cf. Padre Manuel de Góis – Moral a Nicómaco, de Aristóteles. Curso Conimbricense. Introdução, estabelecimentos do texto e tradução de António Alberto de Andrade. Lisboa, 1957]. 

 

É evidente a reacção de Aristóteles contra o quietismo e o misticismo orientais. Neste momento, importa rememorar que a relação da Natureza com a Graça, eixo ou dogma da doutrina cristã, é pelos filósofos aristotélicos muito mais entendida em termos de transcendência do que de imanência. Compreende-se, assim, que o suporte das quatro virtudes cardiais, embora seja considerado de moral naturalista e racionalista, independente dos dados da revelação ou dos métodos do sobrenatural, haja servido admiravelmente para instalar sobre ele a doutrina das três virtudes teologais – a fé, a esperança e a caridade. A fé na palavra divina, já que a palavra é o modo primordial da revelação, antecede o redentorismo cristão que opera pelos sacramentos implícitos numa religião de amor.»

Álvaro Ribeiro («Liceu Aristotélico»).

 

«Julgamos nós que a história pode ser contada de várias maneiras, embora nos inclinemos a crer que do historiável só uma verídica história é possível. Da filosofia dos gregos e dos povos helenizados do Mundo Antigo, pelo menos duas histórias haveria que contar; pois se, na história universal, a “Antiguidade” representa uma parte, na história do helenismo, ela representa o todo.

Não nos arreceemos do sugestivo poder da linguagem: a história de uma parte, terá de ser parcial. Quem narra a história da Antiguidade, no propósito de vir contando até à Modernidade, os passos de todo o humano filosofar, necessariamente deixará no caminho, grande e boa parte do Antigo que jamais passou a Moderno. Mas tenhamo-lo por certo: da autêntica filosofia antiga, história imparcial não haverá, senão aquela que saiba contar os passos de um pensamento que não passou, ou ainda não passou à história.

Se iludidos não fôssemos pelo prestígio de certos historiógrafos, há muito teríamos reconhecido que, da filosofia antiga, só passou à história uma parte da parte que os gregos tomaram na história universal da filosofia. Tudo o mais vem na história; mas não pertence à história. E não lhe pertence, porque à história da filosofia – serva apressada que é, de certa filosofia da história – mais interessa dizer o pouco que sabe, do que saber o muito que diz.

Pois bem; do muito que a história diz e não sabe, outra história poderíamos contar, que o soubesse.

Conta-nos uma história da filosofia antiga, que melhor denominada seria de história antiga da filosofia moderna, que a philo-sophia nasceu quando da philo-mythia a hora derradeira soou. É uma maneira de contar a história; mas não é a única nem a mais verídica. Leiam os desprevenidos de historiógrafos passados e presentes, os escritos dos Antigos, que da filosofia deles outra nos hão-de contar. Hão-de contar-nos a história de um pensamento de filósofos que nunca deixaram de ser filómitos.

Pela Estige juravam os deuses de Homero, porque era ela “o mais antigo e o mais venerando”. Não juram pela água os físicos de Mileto; mas a água elementar sustenta e suporta tudo quanto na terra nasce e perece. Em Homero é a Deusa quem canta o furor de Aquiles. E a Parménides, quem lhe disse que “o mesmo é pensar e ser”? – A Divindade que “no meio reside e tudo governa”! E o “imortal e incorruptível ápeiron, sem tempo e sem idade” e o Logos “comum a todos”, e o Noûs que tudo ordenou “da maneira como devia ser, da maneira como foi e já não é, da maneira como é e será”; e o Esfero que “firme reside nas densas moradas da Harmonia, gozoso de sua envolvente solidão”? Que ocultam ou revelam estes nomes? Conceitos filosóficos ou símbolos religiosos? Que é o “divino circundante”, senão o próprio Zeus, que Orfeu, o poeta-teólogo da Trácia, apelidara de “raiz da Terra e do Céu constelado”?

E depois? Onde acaba a mitologia? Em Platão? Em Aristóteles?

Em Aristóteles, talvez. Mas não obsta a aristotélica philo-sophia a que, no final, o pensamento grego regresse à inicial philo-mythia, por todas as portas que, de par em par, platónicos e pitagóricos lhe abriram.

A historiografia moderna não entende este progresso; por isso não resolve o problema que enunciou ao verificar o derradeiro passo da filosofia antiga ao encontro da sua origem antiquíssima. Digamo-lo claramente: quando se fala, com os olhos postos nos sequazes de Platão e nos sectários de Pitágoras, de um serôdio recrudescer do misticismo na decrépita Antiguidade, outra coisa não proclama a história, senão que tal problema lhe não concerne.

É que a história só crê no progresso; e, para maior glória de um crer que no querer tem sua razão de ser, em um rectilínio progresso se empenhou. Assim, bem compreendemos como, rectificados os ciclos ou a espiral dos tempos, viéssemos a escrever tantas histórias antigas da filosofia moderna, quantos os modernos conceitos de uma filosofia de sempre.

Mas filosofia de sempre é filosofia de nunca. Nunca a filosofia Antiga entrou de ser moderna; e a Moderna, decerto que da Antiga não provém, embora pareça que as principais páginas suas, alguns dos Antigos as tenham escrito. A história sim, que é história de sempre, ou talvez sempre moderna. Prova é que, da filosofia Antiga, ainda hoje outra história não conhecemos, que paráfrase não seja daquela que os Antigos escreveram.

Foi Aristóteles o primeiro historiador da filosofia que era a sua. Depois, à maneira do Estagirita, nem todos filosofaram; mas todos historiaram a filosofia como ele a historiou – mesmo a que não era a dele. Com uma diferença: o Filósofo sabia o que dizia, e até mais do que dizia; ao passo que os sucessivos historiadores, que muito menos sabiam, muito mais quiseram dizer. Tudo quiseram dizer, menos isto: que jamais a história de filosofias presentes e pretéritas se repartiu, sem que a história das partes deixasse de ser parcial em relação ao todo que cada uma delas representa.

A filosofia Antiga é um todo; uma filosofia inteira, com princípio, meio e fim, no princípio, no meio e no fim da Antiguidade. Se o não vemos claramente, não é porque a história Antiga realmente não tivesse fim; mas só porque nunca a história enunciou o problema do fim, por demasiado interessada em estabelecer um princípio. E, na verdade, só por uma característica se distinguem as conhecidas versões da mesma história: como ela começa a ser contada. Não quer isto dizer que outros problemas não surjam no âmbito da historiografia filosófica; esses, porém, não são problemas da história, mas, apenas, problemas históricos, cujas soluções virão por ser turno, uma vez resolvido o primeiro. 


 

Longe de nós o intuito de minorar a importância da questão de “origens”. Desde que Eduardo Zeller publicou a celebrada Filosofia dos Gregos, mais de um século de engenhosa, quando não genial historiografia, se empenhou em demonstrar que toda a história do pensamento filosófico depende de uma certeira concepção de originalidade desse pensamento. Não nos apercebemos é de como chegaram os historiadores à convicção de que a “originalidade” tinha de ser estabelecida exclusivamente no início da história. Porque o certo é que uma história original, há-de sê-lo até ao fim, ou não o será nem sequer no início. Se a filosofia Antiga, descrita por Zeller e por todos os demais famosos historiadores, cujos nomes ilustres também já passaram à história, começa em Tales e acaba em Proclo, não vemos motivo para que não se intentasse descobrir a originalidade do último neoplatónico, com o mesmo fervor com que se diligenciou revelar a originalidade do físico primeiro.»

Eudoro de Sousa («Orfeu, ou acerca do conceito da filosofia antiga», in Origem da Poesia e da Mitologia e Outros Ensaios Dispersos).

 

«Nos livros reunidos sob o capítulo de Metafísica é que o platónico Aristóteles nos diz ter a filosofia origem no sentimento de admiração, e nesses mesmos livros aproxima a filosofia da filomitia, pelo que nos convence de que o sábio não pode limitar-se ao estudo do que nasce e morre, ao estudo da Natureza, mas deve fazer por que a sua inteligência ascenda à intelecção do sobrenatural. Os esquemas da vontade não representam processos de inteligência, mas iludem o homem que não cultiva o sentimento e o pensamento, e impelem-no a usar de violência na experimentação, a perder a virtude da esperança, que é a virtude característica do estudioso. Violência intelectual é querer reduzir os fenómenos sobrenaturais a factos engenhosos de técnica ou a noções elementares de ciência.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«É bem certo que Aristóteles teoriza a história muito menos do que supõem os filólogos modernos...».

Eudoro de Sousa (In «Introdução» à Poética de Aristóteles, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 3.ª edição, 1992).


«Com efeito, não diferem o historiador e o poeta, por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa) - diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta, o particular. Por "referir-se ao universal" entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e acções que, por liame de necessidade e verosimilhança, convêm a tal natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que dê nome aos seus personagens; particular, pelo contrário, é o que fez Alcibíades ou o que lhe aconteceu.»

Aristóteles («Poética»).

 

«Era no tempo de Moisés, cinco séculos antes de HOMERO, treze séculos antes de Cristo. A Índia já no seu Kali-Yuga, na sua idade de trevas, apenas oferecia a sombra do seu antigo esplendor. A Assíria, pela tirania da Babilónia, desencadeara no mundo o flagelo da anarquia e continuava a esmagar a Ásia. O Egipto, muito grande pela ciência dos seus sacerdotes e Faraós, resistia energicamente a essa decomposição universal. Mas a sua acção não ia além do Eufrates e do Mediterrâneo. Israel iria estabelecer no deserto o princípio do Deus másculo, da unidade divina. Entretanto, a voz de Moisés ainda não ecoara pela terra. A Grécia estava profundamente dividida pela religião e pela ciência.



(...) Por trás da Grécia, havia a Trácia, rude, selvagem. Rumo ao Norte, sucediam-se as montanhas, recobertas de carvalhos gigantescos, coroadas de rochedos, nas extensas filas de cimos ondulosos e de maciços alterosos. Os ventos de setentrião aravam os seus flancos e um céu muitas vezes tempestuoso varria os seus picos. Pastores dos vales e guerreiros da planície pertenciam à forte raça branca, a grande reserva dos Dórios da Grécia, raça masculina por excelência, cuja beleza estava na acentuação dos traços e na decisão do carácter. A sua fealdade mostrava-se no que há de horrível e de grandioso na máscara das Medusas e das antigas Górgonas.

Como todos os povos antigos que receberam a sua organização dos Mistérios, como o Egipto, Israel e a Etrúria, a Grécia teve a sua geografia sagrada, onde cada província era símbolo de uma região puramente intelectual e supraterrestre do espírito. Por que foi a Trácia considerada pelos Gregos como um país essencialmente sagrado, o país da luz, a verdadeira pátria das musas? Naquelas altas montanhas erguiam-se os mais velhos santuários de Cronos, Zeus e Uranos. De lá tinham descido, em ritmos eumólpicos, a poesia, as leis, as artes sagradas. A prova disso são os fabulosos poetas da Trácia. Os nomes de Tâmiris, Lino, Anfião, talvez correspondam a personagens reais. Mas, antes de tudo, segundo a linguagem dos templos, eles personificam géneros poéticos. Cada um desses nomes consagra a vitória de uma poesia sobre a outra.

Naquela época, nos templos, só se escrevia história alegoricamente. O indivíduo nada valia, a doutrina sobrepujava tudo. Tâmiris, cego pelas Musas, cantou a guerra dos Titãs, é o prenúncio da derrota da poesia cosmogónica por metros novos. Lino, que introduziu na Grécia os melancólicos cantos asiáticos e foi morto por Hércules, significa a invasão da Trácia por uma poesia emocional, voluptuosa, que o espírito varonil dos Dórios do Norte logo repeliu. Também essa poesia significa a vitória de um culto lunar sobre um culto solar. Pelo contrário, Anfião, que, segundo a lenda alegórica, com os seus cantos movia as pedras e erguia templos ao som da lira, representa a força plástica que a doutrina solar e a poesia dórica exerceram sobre as artes e sobre toda a civilização helénica.»

Eduardo Schuré («Os Grandes Iniciados. Esboço da História Secreta das Religiões»).

  


DESCOBRI A PERSONALIDADE DE HOMERO

Diz Eudoro de Sousa que «afinal o Grego antigo é ainda uma língua viva», e isto é tremendamente verdade.

É tão tremendamente verdade que veremos cedo na praça pública o que é afinal o clássico. Veremos finalmente na praça pública quem foram os culpados de que a Arte tivesse perdido a sua espontânea e sagrada acessibilidade nas gentes, tanto mais que é às gentes que ela pertence e faz casa.

Nos dois países mais nossos conhecidos, a Espanha e o nosso, assistimos ao nascer de várias gerações. Estas gerações que nascem luminosas, geniais, e ao entrarem no que se entende chamar a vida, cada componente destas várias gerações luminosas, geniais, apaga-se «numa apagada e vil tristeza»!

A toda esta gente o mundo da Arte ficou, a um por um, intacto ou, o que é pior, incumprido. Porque a Arte é o dom de cada homem acompanhar-se inteiro, a si próprio, até o fim. Este dom que está dentro de cada ser humano, este dom que é o único dom nato em cada ser humano, é por isso mesmo o dom sagrado, o que não se lhe toca, e que ainda menos se lhe tira! É o dom da adivinhação, o dom da adivinhação do próprio entendimento, o qual não tem outro instrumento, nem outro veículo, nem outro trânsito, nem outro objecto senão cada ser humano! Todas as feições do espírito, tenham elas todos os poderes do Céu, tenham elas os maiores poderes da Terra, sejam elas detentoras da Sabedoria Divina ou da Sabedoria Humana, não têm nunca outra missão senão a de reconduzir constantemente cada qual para esse dom que Deus deu a cada ser humano, de ter nas suas mãos individuais as rédeas de guiar-se a si próprio!

E nesta missão das várias feições do Espírito, a mais flagrante é a da Arte porque é o próprio retrato deste dom!

Se a criação de Arte é efectivamente de raros, este dom é de todos e sobretudo de cada um. Está tudo e estão todos dentro do mesmo mundo, o mundo da Arte.

Mas vamos, agora, um instante aos tempos herdeiros da Grécia, aqui no Ocidente da Europa, filha da Grécia, mais perto de nós na idade e no espaço. Imediatamente surgem factos e estes nossos conhecidos. Pois vamos à eloquência dos factos que é melhor que a das palavras.

No século passado viveu na França um verdadeiro iluminado, Carlos Baudelaire. A sua nomeada é grande para que seja necessário ainda determiná-la. A estética e a poesia foram brilhantemente cultivadas por ele e as interrogações que uma e outra suscitaram nas gentes, foram pouco a pouco desfazendo-se para dar lugar a afirmações claríssimas as quais já não eram afinal de Baudelaire mas de outro! Este outro era pintor: Eugénio Delacroix!

Foi a própria França a acabar por pôr estas arrumações nos seus devidos lugares.

Baudelaire era efectivamente um iluminado, mas o seu astro luminoso era o pintor Delacroix.



Eugénio Delacroix (1798.1863), Autorretrato com colete verde

Cristo no Mar da Galileia, 1841

Talvez não tanto pela pintura de Delacroix como pelos seus escritos e cartas, fez-se justiça. E então, mais uma vez a palavra chegou primeiro que a mensagem que ela transmite.

Outro exemplo igual a este é do mesmo século e passa-se em Inglaterra: toda a gente conhece o nome e a obra de Oscar Wilde e raros o pintor americano James Whistler.

Pois este caso é surpreendentemente paralelo ao de Delacroix-Baudelaire.

E sem falarmos nos casos da vida portuguesa e paralelos a estes, para não deixarmos cicatrizes nacionais.

Enfim, ficamos sem saber por que aparecem intermediários àqueles que não chamaram intermediários para falarem por eles às gentes; e tanto mais que não levam as gentes onde parecia indicado levá-las, já que a si mesmos se fizeram intermediários deles!

Isto tudo chega a parecer um sistema organizado. A verdade, porém, é que toda a confusão da Arte e Ciência começa precisamente aqui nestes casos paralelos e em vários povos. Ora, Arte e Ciência ao mesmo tempo é impossível!

Esta confusão dos mundos da Arte e da Ciência faz com que se julgue pertença da Ciência o que é da Arte, e vice-versa.

Que a Arte e a Ciência troquem entre si os seus valores é o direito de ambas, mas a promiscuidade é envenenadora e mortal.

Foi esta promiscuidade que atrasou imperdoavelmente a decifração do enigma de Homero, enigma que contém em si a Mensagem Grega, Mensagem onde está «sem interpretação, em leitura única, o que a Europa deseja há séculos!»

Claro está, antes dos exemplos paralelos que apontámos, havia já outros desvios no destino Grego da Europa. Referimo-nos ao profundo golpe dado na Unidade Europeia pela Reforma do começo do século XVI, e agravado pela circunstância da Contra-Reforma, para opor-se à sua inimiga, ter lançado mão do poder mais pesado que ainda caiu sobre a Europa: a Anti-Arte!

Hoje podemos provar no livro Ver que, até ao começo do século XVI, não era um enigma por decifrar a identidade de Homero na Europa!

Foi desde os primeiros dias do século XVI, ao desfazer-se o Todo europeu, que a Europa perdeu os seus olhos Gregos da Idade-Média e da Renascença. E as nações Europeias repartiram entre si os sentidos da Arte, dividindo os povos da Europa em visuais e auditivos, tornando desta maneira impossível o equilíbrio entre os dois sentidos nobres do Homem, o equilíbrio divino, e o qual como ides ver, se chama Homero!

Homero é velho e cego porque já viu tudo. Quem já viu tudo precisou de muita idade para isso: e quem já viu tudo não necessita de olhos para mais nada.

«Errante de cidade em cidade, cantando os seus versos», quer dizer: a Poesia da linguagem universal ligando todos os povos indistintamente, ou errantemente de povo em povo, sem preferências, sem predileccões.

«Sete cidades da Grécia disputaram o seu nascimento», quer dizer que «sete cidades da Grécia» entende-se por toda a Grécia, porque «sete» é o número total, o do todo, e o do Todo com T grande, o número sagrado, e por isso a Grécia disputa para si o nascimento da Divindade Verdadeira e única ou o do seu verdadeiro anunciador e achador, Homero, o descobridor da dupla personalidade sagrada do Homem: a personalidade universal e a personalidade individual.

Apesar de decifrado, este enigma de Homero é inesgotável. Mas o que nele há de milagroso é, em duas linhas de texto, ser o portador de toda a mensagem grega para a posteridade.

«Velho e cego» é a Antiguidade portadora da Luz.

Explicação: o Grego, depois de descoberta a Verdade, vestia-a de símbolo, e depois de vestida de símbolo, brincava-a em enigma, e levava genialmente este enigma com toda a Arte até ficar com uma aparência oposta à evidência.

Assim é que em vez de Antigo diz Velho, mas Velho ao lado de cego e com o que se segue descobre o Antigo.

Diz cego e quer dizer exactamente a vista, o sentido da Luz.

«Errante de cidade em cidade, cantando os seus versos» é a babilónia dos povos reunidos pela língua universal. É o tópico dos telúricos e o do universal.

«Sete cidades da Grécia disputaram o seu nascimento» é a apoteose de Homero, o advento final da Divindade Única, selado em cada ser humano com a sua respectiva individualidade pessoal, a sua personalidade individual.

De modo que, em duas linhas de texto, ficamos com todo o caminho desde o princípio do Princípio, pelo Meio e até ao fim do Fim, este selo grego!

A Antiguidade, a Luz, o telúrico, o universal, o individual, a Divindade. Isto é, a perpétua actualidade.

Confessamos ignorar onde se encontra o texto original grego e do qual teria sido copiada esta transcrição da tradição grega: confessamos que a citação encontrámo-la no dicionário Larousse.

O verdadeiro interesse da decifração do enigma de Homero começa efectivamente quando com estes olhos vamos reler a história de cada povo do Ocidente.

E aqui a emoção é demasiado grande para nós, pois não podemos prolongar-nos precisamente no momento de dizer ao admirável e exemplar povo português que ele ignora a sua elevada estatura nacional, europeia e universal e à cabeça ainda hoje, como disse Camões, da Europa toda!



Quem o desconheça há-de aprender com o português, o povo mais antigo do Ocidente, e por isto mesmo o que melhor equilibra na sua correctíssima unidade telúrica o nacional, o europeu, o universal e o individual!

Neste momento, sim, que venho pelo prémio da florescência que representa a leitura deste trabalho e no qual podeis contar em boas contas a minha vida inteira, pois quero dizer que devo tudo quanto sou ao meu desenfreado instinto de artista, que sempre viu no português mais o cristão e o grego do que o romano, e agora sou testemunha desta transplantação da Grécia Antiga no nosso Portugal e sem passar pela Roma dos Césares!

Muito breve mostrar-vos-ei Portugal, na Europa e no Mundo, com os olhos de Homero e então vereis que a aliança dos povos da mesma língua centuplicou e os da mesma linguagem também!

A nossa Europa, que desde há tantos séculos se virou e ficou virada para sempre para a Grécia, fartou-se de beber sangue grego sem conhecer-lhe a mensagem, a mensagem de um povo inteiro metido por toda a vida a forjar o homem, este único desiderato da Grécia: o Homem!

A mensagem grega fica gloriosamente para sempre no universal para cada homem universal. É a mensagem do espírito universal que nunca mais se repetirá em nenhum povo da terra, o exemplar único que foi exclusivamente telúrico para vir a ser exclusivamente universal.

Depois da mensagem da Grécia nenhum povo da Terra poderá isolar-se, ou por razões suas ou por razões alheias. Os povos da Europa são mais gregos e cristãos do que se imaginam, e a América, as duas Américas, filhas queridas da Europa, mais gregas e cristãs do que se imaginam os europeus.

O universal está a dar a sua volta ao Mundo, de Oriente para Ocidente, o mesmo sentido do Sol e da primeira viagem do homem à volta da Terra por Fernão de Magalhães, e o telúrico dos vários lugares do Mundo não é senão a própria condição da existência do universal e a sua garantia.

Dizia Dostoievski, e seguramente aos russos: «Queiramos ou não, o Mundo hoje nasce a Ocidente.»

Tinha em grande vista Dostoievski: efectivamente, depois dos gregos e de Cristo, o Mundo tem vindo a nascer constantemente nos crepúsculos e onde o Sol se põe, que é a hora em que Deus gosta de estar com o homem para o suavizar da dupla carga do dia pessoal e do dia universal, carga incomparavelmente mais suportada e até apetecida desde este momento em que, tendo vindo cada um com o seu anjo da guarda, vai com dois e ambos seus!

(In Manifestos e Conferências, Assírio & Alvim, 2006, pp. 314-318).





quarta-feira, 8 de abril de 2015

Arte, a Dianteira

Fragmento de José de Almada Negreiros






«Arte vem do latim ars, artis. É uma raiz na língua latina. É natural que venha também do grego. A etimologia desconhece-lhe a procedência.

Temos pois que seguir por outro caminho. Vamos, por exemplo, às palavras compostas com a raiz latina Arte. E temos imediatamente artelho, articular, artificial, isto é, palavras que designam não só o movimento como também o próprio fornecimento do movimento. Além disto, encontramos também a palavra inerte que quer dizer "sem movimento" ou à letra: sem arte.

E a seguir aparece-nos o mais extraordinário destes exemplos, a palavra artilharia. Extraordinário porque é anterior à invenção da pólvora e dos canhões. Mas incomparavelmente mais anterior do que possa imaginar-se. E nesse caso o que significava então artilharia? Exactamente isto: o poder do engenho, a força do artifício.

E ficamos sabendo então o que quer dizer Arte através destas palavras que são suas filhas legítimas.

Mas onde está a ligação da palavra latina Arte com a palavra grega architekton? Vai agora:

Não será Arte uma palavra feita com a primeira sílaba de cada uma das duas palavras que foram a palavra architekton? Ar de archos e te de tekton?

Se o não é, ainda ninguém disse que não o era, pela simples razão de que ninguém propôs até hoje, que fosse desta maneira que dizemos, agora, aqui, pela primeira vez.

Ligadas que ficam estas duas palavras Arte e architekton, salta aos olhos da cara uma única conclusão:

Architekton significa o operário-chefe da colectividade. Arte não pode deixar de ser a própria cabeça da colectividade.

E é o que é: Arte é a cabeça da colectividade.

(...) Nesta hora do mundo e na qual são impossíveis quaisquer iniciativas dos particulares, em que o Estado é por isso mesmo e por direito próprio o único capitalista do capital da colectividade, é ao Estado a quem compete atender à sorte dos indivíduos da sua colectividade e que ele representa.

Não estamos a mostrar mazelas do Estado nem a pedir asilo ou esmola para indigentes. Não! Conhecemos sem rancor, sem queixas nem delírios o que acontece exactamente com a colectividade portuguesa e cada um dos seus indivíduos. As faltas da colectividade portuguesa para com os seus indivíduos são as mesmas que as destes indivíduos para com a sua colectividade. Absolutamente as mesmas de parte a parte. O fiel da balança marca zero, inutilmente: são iguais as faltas onde deviam estar apenas os valores.

Mas, os imediatamente mais prejudicados são, claro está, os indivíduos. Nós todos, portugueses, um por um, estamos expiando hoje essas faltas duma e dos outros.

Nas recentes entrevistas de Salazar com o Diário de Notícias há uma frase sua onde diz: "Nem a colectividade pode prescindir do indivíduo, nem o indivíduo pode prescindir da colectividade". É o conhecimento exacto de como funciona a máquina social. Ninguém pode estar em desacordo com isto. E nós ainda menos do que ninguém, pois cremos ter sido os primeiros a escrever e a proferir publicamente essa mesma frase, com as mesmas palavras, na nossa conferência Direcção Única, em Lisboa e Coimbra, Maio passado.




Estas coincidências que muito nos honram vêm confirmar que o Estado em Portugal conhece finalmente o seu verdadeiro posto de intermediário entre a colectividade portuguesa e cada um dos seus indivíduos».

Mestre Almada Negreiros («Arte e Artistas. II e III partes»).



ARTE, A DIANTEIRA


PÍNDARO


«VÓS SOIS DEUSES»

NÚMERO

Número = Númen


Primeiro captámos o Todo.

O arquétipo primeiro é o sagrado.

Sagrado não tem plural, tem singularidades: Artes, Religiões.

O único Absoluto é o Sagrado e suas aparências primeiras Arte e Religião.


ANTIGUIDADE PRIMEIRA


Templo de Poseidon (Grécia).


Humanidade é incomparavelmente mais antiga do que sabemos.

Quanto mais sabemos mais nos afastamos da fronteira Pré-História - História.

O milagre Grego: depois das civilizações faltava a universal.

Europa é nome mitológico.

Europa é a Dianteira da civilização universal.


MITOLOGIA É A ANTERIORIDADE DE HISTÓRIA


Histórico não elimina o mitológico, revive-o, isto é, tem pela segunda vez a virtude da mónada. Do mesmo modo, o lógico não elimina o pré-lógico. Pelo contrário, a única constante é o pré-lógico, a Mónada, o Uno, o Todo, o uno e o múltiplo do Todo, ao passo que lógico pretende ser o modo mesmo da constante do Todo.

Ficam então duas versões da unidade: a da Mónada e a da lógica.

No significado de enteléquia diz Aristóteles estas duas versões:

«O conhecimento que pode fazer ciência e a observação que conhece».

Isto é, com ciência ou sem ela, o que importa é conhecer.

Há, por conseguinte, conhecimento anterior a ciência, e mais, conhecimento que não passa por esta.

Assim é que Aristóteles dá esta definição de unidade:

«Unidade, isto é, o ponto não-espacial».

A ciência é espacial.

A seguir, ainda Aristóteles, e para que se veja ser movimento a sua definição da unidade, diz:

«O desigual, isto é, o relativo».

Aristóteles

TEKNÉ


Palavra grega designando ao mesmo tempo Arte e Ciência.

E não havendo palavra grega apenas para Arte ou apenas para Ciência.

Evidentemente há conhecimento que antecede Ciência, pois há conhecimento que pode fazer ciência. E também há acto de conhecimento que não passa por ciência. De modo que, na mesma palavra Tekné, Arte não pode deixar de ser como conhecimento a anterioridade mesma que pode ou não fazer Ciência. De ambos modos é anterioridade a esta. Porque Ciência não pode produzir artes. Arte é «conhecimento de nascença». Não se aprende, não se ensina. É o nosso élan vital pessoal. Ou se desoculta ou morre sem contemporização possível.

Ao passo que ciência, ou melhor, o espírito científico contemporiza fomentando técnicas imediatas suficientemente duradoiras para simular o da plenitude pessoal.

Enquanto que Arte é o recheio mesmo duma plenitude pessoal. Nascemos com o nosso recheio.

Não pode portanto Ciência ficar limitada pelo lógico demonstrável. Ciência excede o demonstrável. Ciência é palavra neutra que não tem fim senão de gente, e se este fim significa reabilitação de paraíso ou de idade d'oiro, esta reabilitação implica transmutação total de seres humanos esquecidos ou desviados das suas natais capacidades.

Estamos aqui talvez na causa de gregos não separarem em duas palavras o da Arte e o da Ciência. São dois os modos do conhecimento que é um, os do tu-cá-tu-lá com o sagrado:

Um que antecede Ciência e a excede sem passar pelos seus chamados modos científicos, ou o de ciência que é ultrapassar-se constantemente, perenemente, perpetuamente, até o seu fim ser o homem mesmo, este mesmo o espelho mesmo do sagrado, senão o sagrado mesmo.

Oráculo de Delfos


A Sibila de Delfos, de Michelangelo


Arte e Ciência, Religião e Mitologia nascem comuns aparências do sagrado.

Mas qual seja destas aparências a que nos marque sina, nós somos também veículo do sagrado.

Os gregos tinham palavra própria para designar este nosso modo meramente pessoal da nossa voz.

Essa palavra era a que hoje chamamos Poesia.

E por então ela não corria perigo de a confundirmos com a lógica Poética, a qual lhe estava inconcebivelmente posterior e outra.

Poesia é pujança da nascença pessoal.

Nasce-se Poeta. Todos. Cada um.

Que a ninguém se lhe tire a sua única via, a via pessoal, a sua Poesia, a sua voz, a sua vocação.

«O menino segue sempre pela primeira via até envelhecer» (Salomão)

A primeira via: a vocação.

Não deve haver palavra de sentido mais completamente perdido que a de vocação. Vocação é o intransmissível secreto de cada um conhecer tudo sem que lho ensinem.

Os Gregos, ao perpetuar os dados da sua civilização universal, dispuseram-nos de modo que nada e ninguém interviessem na vocação natal.

Dissemos dados, no plural. Deve-se pôr o singular, dado. O único dado para a civilização e cultura universais: não tocar na vocação pessoal.

Que nem o próprio toque na sua vocação pessoal.

A vocação é sagrada. Tanto como o sagrado.

Não há mais sagrado nem menos sagrado. Há sagrado. Não se lhe toca. Temos sagrado connosco, em cada um e em todos. Nascemos Poesia.

É depois da Poesia que vem o jogo, as recreações da Tekné, Arte e Ciência (in Manifestos e Conferências, Assírio & Alvim, 2006, pp. 320-323).













quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O Desenho

Conferenciado por José de Almada Negreiros




Retrato de Fernando Pessoa (óleo s/tela)de Mestre Almada (1954).


« - Eu [Almada], não posso afirmar que o espírito do mal não tenha colaborado comigo na criação do retrato. Mas do que pode ter a certeza é que a minha intenção foi precisamente contrária da que imagina. Eles não mereciam que se lhes desse a verdadeira imagem do grande poeta [Fernando Pessoa]. Pense o retrato como uma fotografia. Dessa fotografia só lhes dei o negativo. Fica sempre a possibilidade para aqueles que o merecem de revelar esse negativo. A imagem do poeta aparecer-lhe-á, depois do banho, com a forma da primeira figura do Tarot.

E acrescentou:

- Não foi essa forma que ele quis dar e deu à sua alma?».

António Telmo («O Bateleur»).


«Autoridade quer dizer autoria. A autoridade é assim correlativa com a liberdade. Este significado eminente de autoridade mantém-se ainda no domínio literário, onde autor é o escritor que comunica por meio de livro o seu livre pensamento».

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«Uma coisa é fazer arte e outra tratar de arte. Tão diferentes uma da outra, tão apartadas que chegam de facto a bastarem-se a si-mesmas.

Arte de criação é um mundo; história de arte outro mundo. Emprega-se aqui a palavra mundo como símbolo do que é inteiro.

(...) O erudito de arte depende da arte criada e sem a qual não haverá a sua erudição; mas pode situar a arte criada apenas no passado, e ser ou fazer-se cego para a arte dos nossos dias. Ao passo que ao artista basta-lhe a presença eterna da natureza.

Este saber estar diante da natureza é o oposto a saber estar diante de obra de arte. Porque uma obra de arte que não nos elucide a maneira de estarmos nós também diante da natureza não é uma obra de arte.

(...) Outros irão ver a obra do artista, uns como eruditos outros como sensíveis, mas a natureza não se entrega senão a olhos que se lhe entregarem. E é isto que faz com que o artista seja o menos amador de todos os profissionais, mesmo quando nada realize; isto faz com que o artista possa cada vez menos acumular outros deveres com os da sua arte.

Sabeis que o que importa não são os idiomas mas sim a linguagem, e por aqui vereis onde o artista se aparta dos eruditos.

Se o artista não vê, se não sente correspondidos os seus legítimos passos, morre. E vimos morrer artistas antes da sua morte natural. Correspondidos? Sim. Correspondidos, não como possa ser aproveitado o artista, mas seja no que ele nos trouxer; não no que nós esperemos que ele nos dê, mas precisamente no que ele nos der; tão generosa e abnegadamente como quem se arrisca a tomar um aventureiro por um herói.

(...) A formação de um artista é sempre caso tão inédito neste mundo que francamente ninguém pode estar prevenido desse acontecimento, e muito menos o próprio artista. Há pois um único processo para receber artistas: estimá-los. Estimá-los muito antes de admirá-los».

José de Almada Negreiros («Manifestos e Conferências»).





O Desenho

Senhoras e senhores:


Vou falar-vos do desenho e creio poder dizer-vos alguma coisa de novo sobre a mais antiga das expressões. Nenhuma outra forma de pensamento chegou até nós mais próximo do seu aspecto primitivo do que o desenho. Todas as origens se dispersaram pelas infinitas direcções do tempo e da geografia, mas as rochas conservam os traços que nem o tempo desfez nem a geografia mudará jamais.

Tem o desenho um sentido universal que o distingue de qualquer outra expressão universal do homem. Se fosse possível reunir os desenhos de crianças de todo o mundo e desconhecendo as respectivas nacionalidades, ninguém saberia, através desses desenhos, indicar as pátrias dos seus autores. As crianças de todo o mundo são iguais na espontaneidade dos traços instintivos do homem. São iguais até que o instinto deixa de ser a única força que as conduz. Em cada criança a natureza procede a uma renovação total como se fosse a humanidade primitiva, ela-própria, na pessoa da criança. Depois o ambiente influi sobre ela como a sua ascendência, e é então que ao lado do instinto começa a surgir a consciência.

No desenho há instinto e consciência.

O meu propósito é falar do desenho como força determinada que faz parte da vida de cada um, seja quem for, artista ou negação da Arte.

Os frades dum mosteiro acordaram em pintar as paredes do seu refeitório. Procuraram um pintor e encarregaram-no dos frescos. Veio o pintor, encostou uma escada à parede, abriu a caixa das tintas, pôs os pincéis em ordem e, quando tudo estava preparado, foi-se embora, dizendo: - até amanhã. No dia seguinte não apareceu, nem tão-pouco em toda aquela semana; nem passado um mês. No entanto tudo estava preparado para que ele começasse a pintar.

Passados uns meses, um frade, ao regressar do seu passeio, contou aos seus companheiros que tinha visto na feira o pintor, rodeado duma multidão de curiosos e feirantes. E pareceu-lhe que o pintor tinha esquecido para sempre as paredes do refeitório. Passados três meses, outro frade encontrou-o no campo, sentado numa pedra, mas não quis dar-se a conhecer, não fosse ele julgar que era para recordar-lhe das pinturas. Passados quatro meses, viram-no em plena noite, à luz do luar. Outra vez, num dia de sol, encontraram-no muito longe do mosteiro, por entre as árvores duma estrada. Outro frade, no seu peregrinar, tinha-o visto à beira-mar, com as mãos nos bolsos, sem lápis nem papel, nem aparência de quem toma notas ou apontamentos. Na praia ninguém diria que era um pintor. Passado um ano, os frades tornaram a ver o pintor no mosteiro. Aproximou-se da escada, das tintas e dos pincéis como se os tivesse deixado na véspera. E começou a pintar as paredes do refeitório. Enquanto pintava, não falava com ninguém. E os frades começaram a ver que ele ia reproduzindo os lugares onde cada um deles o tinha visto. A feira, o mar, a noite, a lua, as pessoas, o campo, as árvores, o sol, tudo nascia nas paredes do refeitório pela arte do pintor que durante um ano andou procurando o assunto para as suas cores.

Grande foi este pintor e bons os frades, que não lhe pediram o assunto, mas somente a pintura. Estes bons frades andaram neste caso como sábios, não tirando a escada, nem as tintas, nem os pincéis de onde o pintor os tinha deixado, e apesar dele não ter voltado durante todo um ano. Mas ele voltou. Voltou passado um ano. O ano simbólico desta história antiga.

Mas não esqueçam V. Excias que, primeiramente, o pintor andou um ano a ver! Esta é a ordem dos factos e só falaremos precisamente do que aconteceu ao pintor durante esse ano, pois que em verdade a pintura que ficou nas paredes do refeitório não é o que mais interessa agora.

Os frades encarregaram-no dos frescos porque sabiam que ele era pintor. Mas, na realidade, só depois de passado um ano, o ano simbólico, o pintor foi pintor, porque além das tintas e pincéis, ele tinha também o que é principal na pintura, na arte, na ciência e em toda e qualquer posição social do homem: a autoridade pessoal.

Não há mais moral nem maior valentia que a autoridade pessoal. Se há no mundo postos ambicionados, só um há de direito para cada um: a sua autoridade pessoal.

Esta velha história, escolhida para iniciar estas palavras, foi intencionalmente escolhida. Nela está claramente apontado o que nos interessa mais do que a própria arte que fica nas pinturas: o caminho do pintor, desde as paredes nuas do refeitório até à pintura dos frescos, ou seja até que as suas cores deixaram de ser tintas e passaram a ser a sua autoridade pessoal.

Na anedota não se disse o nome do pintor e não se disse porque ele pode ser qualquer, desde que tenha autoridade pessoal.

Giotto, por exemplo, e independentemente da História, está dentro deste caso, com a sua autoridade pessoal. E para mais sabemos que Giotto não viu nunca outros pintores, não soube o que se tinha feito em pintura antes dele, não recebeu lições de arte de pintar e, ao contrário, como acontece na referida história, só viu a paisagem, as pessoas, a natureza, e sobretudo o que tinha dentro dos seus olhos. Desconhecendo toda a ciência e sabedoria da Arte, Giotto foi o iniciador da arte naturalista, representativa da arte europeia, ocidental.

Mas, repetindo, não falaremos da pintura, mas sim do caminho que conduz a ela. A pintura é já o campo da personalidade e nós vamos ainda a caminho desse campo.

E, embora não sejamos os donos da nossa personalidade e por longe que ainda estejamos de o ser, não teremos pressa de possuí-la antes do devido tempo. Nós seguimos o nosso caminho, seguros, mais atentos à nossa autoridade pessoal de hoje do que a uma personalidade que conseguiremos talvez um dia. Em verdade, o que imediatamente nos interessa é a nossa autoridade pessoal. Esta, sim, que já nos pertence hoje mesmo e antes de termos direito a uma personalidade.

Quer dizer, melhor, muito melhor que o valor da nossa arte de hoje é a claridade e a dignidade do nosso caminho até amanhã.

Neste momento em que ficam bem delimitados os diferentes conceitos de personalidade e de autoridade pessoal, meditemos um pouco sobre esta e deixaremos aquela aos que a têm já. Assim como há pouco nos abstivemos de falar de pintura, para ver melhor o caminho que nos conduz a ela, também agora a personalidade nos interessa menos do que a autoridade pessoal daqueles que a buscam. Temos, pois, um caminho até à personalidade: autoridade pessoal, e um caminho até à pintura: o desenho. Quer dizer, a pintura coincide com a personalidade, enquanto o desenho corresponde à autoridade pessoal. Deve ser este o sentido do que Ingres disse do desenho: «Le dessin est le probité de l'art».

O desenho não é, como pode julgar-se, simplesmente um conjunto de linhas ou traços, um gráfico representando qualquer coisa existente.

O desenho é o nosso entendimento a fixar o instante.

A célebre frase de Napoleão, dizendo: «vale mais um pequeno croquis do que um longo relatório» contém todo o sentido do desenho.

Ao contrário do trabalho, da construção que exige tempo, composição e volume, o nosso entendimento é rápido, claro e simples. A perfeição do entendimento é momentânea e, por consequência, há que fixá-la.

Por isso o desenho é o melhor amigo do entendimento.

É corrente, quando alguém não percebe o que se lhe diz, acrescentar: precisas que te faça um desenho?

E o facto é que este é o processo definitivo.

De uma boa descrição literária se costuma dizer: parece um desenho. Não é indispensável fazer linhas ou traços para desenhar.

Tudo o que contém clareza de entendimento tem a função do desenho.

Mas entendimento não é o mesmo que inteligência. Esta é a ligação e a harmonia entre os entendimentos pessoais.

O povo que não conhece a palavra inteligência tem, todavia, o seu entendimento. Diz a gente do povo de quem sabe muito: que boa memória tem! Quer dizer, memória é o que fica para sempre no entendimento.

Perguntaram a alguém porque desenhava e este respondeu: para fixar a atenção.

Um livro do século XVIII sobre o desenho começa com estas palavras: «o desenho é a única maneira de fixar a atenção».

E a verdade é que não sendo todos desenhadores, todos temos desenhado, Porquê?

É necessário o respeito pelo desenho.





O desenho, se marca a nossa iniciativa, começa por impor-nos uma obediência absoluta, única condição de êxito. E esta obediência não é senão a nossa lealdade para com nós-próprios, para com os nossos sentidos, orgãos do entendimento.

Se o entendimento ao abrir o seu caminho parece agressivo perante a inteligência humana, bom é que o parece para depois provar que o não foi.

É tão pessoal o entendimento que, quando não oferece originalidade desaparece o autor.

Nós, das raças meridionais, onde a precocidade é espontânea e natural, devemos buscar a compensação no oposto, isto é, na maturidade.

Pascal, que não é da nossa raça, tem autoridade para nos dizer que no melhor livro do mundo, o catecismo, há um erro grave no que se refere à idade da razão. Diz Pascal que a idade do uso da razão é muito posterior. Mas antes de chegar a esta idade e no nobre sentido que lhe atribui Pascal, já a consciência tem o seu papel na função do entendimento. É já a autoridade pessoal de cada um quando, contudo, ainda não é consciente nem desfruta da sua personalidade: é o segredo pessoal.

A atenção pelo desenho em nossas forças iniciais ou instintivas é a base de formação da nossa personalidade futura.

Duas épocas tem o desenho: a primeira, época da atenção respeitando o instinto, a outra, a da correcção do instinto procurando a harmonia. Passa de sinceridade primária ou romântica à impossibilidade construtiva ou clássica naquele mesmo sentido em que Ingres definiu a obra clássica: a que não faz rir nem chorar.

O desenho tem o seu valor e o seu limite. O desenho é o meio e o homem a finalidade.

Porém, aqueles que procuram, principalmente, a própria expressão vivem muito preocupados com os aspectos da época do que com o valor do próprio entendimento.




Preocupa-os demasiado a palavra modernismo.

Seguramente ignoram que a personalidade não se recebe dos outros, mas sim necessita que cada um a liberte de si-próprio.

Então, onde fica o modernismo para aquele que procura, todavia, a sua personalidade?

Uma época não é apenas uma questão de tempo mas essencialmente um sentido do novo no eterno.

Tão-pouco a novidade é uma impressão recebida do exterior - mas é o próprio fundo da alma que faz sua aparição do sol.

Entretanto, os artistas de hoje vivem preocupados com o estilo caligráfico do nosso tempo, julgando-se descobridores da autêntica novidade.

Isto de ser moderno é como ser elegante: não é uma maneira de vestir mas sim uma maneira de ser.

Ser moderno não é fazer a caligrafia moderna, é ser o legítimo descobridor da novidade.

O pintor Henri Matisse manteve durante anos uma academia, até que um dia e sem dizer nada a ninguém, a abandonou para sempre. Entretanto, os seus discípulos continuavam a esperá-lo para o prosseguimento das suas lições. Intrigados de princípio, depressa compreenderam que o mestre alguma coisa lhes queria significar com a sua ausência.

Um dia um discípulo encontrou-o a pintar um porto de mar.

Porque nos abandonou o mestre?

Porque, depois de tantos anos de academia não consegui nunca que um só dos meus discípulos fizesse um traço, uma linha que fosse sua.

Tinha razão Henri Matisse. O seu apostolado da arte produzia, afinal, nos seus discípulos um resultado igual ao que ele tão decididamente combatia. E assim a sua experiência levou-o à mesma conclusão de Picasso: Não há discípulos, há só mestres.


Pablo Picasso


O erro do que estuda não é sofrer as influências dos mestres mas sim ficar preso da influência de um único.

É a nossa admiração pelos vários mestres que melhor pode conduzir-nos ao descobrimento da grande novidade: a nossa personalidade.

O homem moderno não fixa nunca a sua posição, nem antes, nem durante, nem depois da sua personalidade.

Disse Balzac que o mundo se divide em três classes de pessoas: os ociosos, os ocupados e os artistas. Quer dizer que o artista não é nem ocioso nem ocupado. Pois bem, é esta em definitivo a expressão do homem moderno: a de artista.

Não é a ociosidade o que nos apetece, nem a ocupação o que procuramos. Amanhã o mundo saberá o que é.

Madrid, Junho de 1927

(In Manifestos e Conferências, Assírio & Alvim, 2006, pp. 149-156).