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domingo, 14 de dezembro de 2025

20 teses acerca da formação e sobrevivência de Portugal

Escrito por Francisco da Cunha Leão





«As causas da independência portuguesa não são geográficas. A caractereologia geográfica pode resumir-se em simples frases: apesar de algumas diversidades, as fronteiras naturais entre Portugal e Espanha são inexistentes. As fronteiras geográficas costumam indicar-se por acidentes orográficos e hidrográficos que, em virtude da fortaleza telúrica, compartimentavam as terras. Mas agora? Para que servem essas longas pontes sobre os estuários, e esses profundos e canudos túneis sob os montes, senão para aproximar o que estava separado? Mesmo aos olhos distraídos do turista, a Hispânia ressaltará como a unidade peninsular na diversidade da paisagem.

Oliveira Martins anotou as variedades e as variações geo-sociológicas da Península mas, convém ter em mente a ideologia iberista e desligada do contexto ultramarino do ilustre membro da geração de 1870, para melhor entendermos a sua perspectiva, em muito semelhante à de Garrett. De facto, está ainda por estudar o desinteresse metropolitano no decurso do século XIX. A metrópole oitocentista viveu na sombria ausência da dimensão de Portugal. Porventura voltados para os novos interesses de uma sociedade, abriram as portas à cisão brasileira, amorteceram a visão imperial, estavam mais atentos à evolução da política prussiana do que à realidade portuguesa e, uma vez pesado Portugal, tal como o viam na balança europeia, logo se viu que Portugal não pesava o bastante.

Contudo, o bloco peninsular só geograficamente é um bloco, um caldeirão, uma fortaleza, uma ilha, a flecha avançada da cristandade, da arabidade e da hebreidade, a charneira onde os opostos se unem, ponte, refúgio, entreposto, fonte da vida, ovo genesíaco dos mundos e dos povos que são a Europa continuada, a Europa ultrapassada.

Ora, na Península, Portugal e Espanha, os dois poderes políticos mais fortes, fizeram sucumbir os poderes políticos mais fracos, esses de âmbito regional , como são os da Catalunha e Galiza. Mais: o destino peninsular português, segundo a lógica deduzida dos trâmites históricos, seria naturalmente o mesmo das outras regiões hispânicas: embora mantendo as tradições locais, designadamente as linguísticas, Portugal tende a ser englobado na Espanha, pelo poder político espanhol, e a Espanha tende a englobar Portugal. Nós podemos hoje dizer: talvez isso tivesse sido possível nos tempos da monarquia mas actualmente, em regimes de orientação democrática, a conveniência da existência de dois países peninsulares é evidente, porque, em caso de revoluções internas num desses países, o poder, ou alguns membros do poder, têm onde buscar fácil e próximo exílio e, por conseguinte, as forças políticas hão-de respeitar o estado presente da dualidade hispânica, muito útil, como ficou provado durante a guerra civil, na medida em que os nacionalistas contaram com a ajuda portuguesa, impossível se Portugal não fosse um país autónomo.»

Pinharanda Gomes («Meditações Lusíadas»).

 

«Mas que era a Galiza? Uma finis-terra resguardada por forte maciço montanhoso. No extremo dos Cantábricos, este conjunto orográfico vai até ao Vouga (galaico-duriense). Ângulo pronunciado para noroeste, sobre o oceano. Costas, na maior parte, profundamente recortadas.

Cabo Finisterra (Galiza).

Como em regra as finisterras, etnicamente diferenciadas. Termo de invasões, resíduo de velha raça, tais os Peloponesos, as Bretanhas, as Escócias, as Escandinávias.

Os sábios corroboram-no, desde remotas eras. Com mais ou menos celtas, mais ou menos suevos, é uma finisterra assaz caracterizada, de boa defesa, propícia para mais à fixação agrícola de numeroso povo. Que assim foi, demonstra-o a teimosa vitalidade da sua gente: centro de irradiação de dólmenes nos tempos pré-históricos; a resistência dos brácaros às legiões de Augusto; a heresia de Prisciliano, quando da introdução do Cristianismo; a individualização e renitência do Estado Suevo; o florescimento de lirismo próprio, a denunciar enraizada ruralidade, de muita e dispersa população, convivendo em romarias (Pidal); a rivalidade de Leão e Castela, na qual Menéndez y Pelaio descortina a oposição mais funda entre o espírito galego e o castelhano; e, precedida de outros factos de rebeldia, a independência de Portugal, física e espiritualmente originada na Galiza, e que o ensaísta Otero Pedrayo considera uma prova da vitalidade desta.

Fosse Douro ou o Mondego e Coimbra (finis Galeciae) o seu limite meridional, importa reconhecer que por aí (do Douro litoral para Coimbra) se desenha a charneira humana na Galiza com a Lusitânia, inclinada sobre esta pelo sentido norte-sul da linha de força.

(...) E a Lusitânia, que era a Lusitânia? Mais que uma província romana, interessa considerá-la núcleo populacional, cujo músculo estaria no extremo oeste do espinha, corográfico da Península.  Finisterra do relevo, os montes Hermínios e outros dessa região eram sentinelas por excelência sobre os desgastes ocidentais da Meseta e seus vales férteis que decaíam para o Atlântico, dele beneficiados; esses e outros, já da Espanha (Gata, Peña de Francia, etc.), davam para as vastas estremaduras, boas para a hibernação dos gados, cortadas por grandes rios.

Os montanheses da actual Serra da Estrela já sobressaem na história de Cartago e Roma pelo seu carácter independente, inassimilável. Às fáceis infiltrações que a Bética permitia ao imperialismo estranho, os lusitanos opunham ali a sua indomável barragem.

Na Beira serrana e mais relevos centro-ocidentais, se encontra o outro grande núcleo populacional português, do mais puro e persistente, pela irredutibilidade natural que lhe serve de suporte.

Assim raciocinamos, quanto à Lusitânia (exceptuando o Algarve, que é um caso à parte e mais tardiamente reintegrado), por a maior parte do Alentejo, Ribatejo e mesmo Estremadura contarem ainda nos primeiros tempos da Monarquia pequena população, reduzida a alguns centros, embora importantes de solidez pouco estável, no meio de grandes espaços vazios e infindáveis matagais.

Será de estranhar que me impressione com a desproporção de população que ainda hoje existe entre o Norte e o Sul, após oito centúrias de drenagem de gente daquele para este? Creio ser uma impressão baseada objectivamente.

Os dois grandes blocos de irradiação demográfica (Além-Douro e Beira) ultrapassam quatro milhões de habitantes, enquanto o resto do País, em área maior, só conta cerca de três milhões, incluindo Lisboa com todo o seu poder aglutinador.

Um pormenor: pelo censo de 1940, 49% da população da capital nem sequer era nascida no distrito.




Qual a mistura que originou a etnia de cada um desses blocos, quais os elementos simples que os constituíram, ao caso não interessa agora. Comparticipando em maior ou menor grau de sangue celta, romano ou germânico – factores comuns que alguns sejam – basta-me a afirmação de caracteres distintivos, em relação aos demais peninsulares, de galegos e lusitanos, e a verificação da persistência desses caracteres nos tempos históricos.

As importantes fracções destes dois povos, para sempre ligados na pátria portuguesa, creio que apresentavam entre elas aspectos diferenciais que hoje se notam ainda, a despeito de incontestáveis afinidades que tão longo destino comum reforçou, juntando-lhe marca própria.»

Francisco da Cunha Leão («Do Homem Português»).

 

«Apesar da mentalização proveniente da disciplina de História Pátria, Castela sempre levou a melhor; perdeu batalhas mas venceu guerras, e, se perdeu guerras no campo militar, ganhou-as nas secretarias. O que teve de ceder em Tordesilhas, (metade do mundo), ganhou-o todo à morte do Cardeal D. Henrique, ficando com o mundo inteiro, mas, no concerto peninsular, foi Afonso VII de Leão que, liquidando os projectos de Peres de Trava, ganhou para Castela a Galiza, pondo fim à integração do genuíno espaço lusitano.»

Pinharanda Gomes («Meditações Lusíadas»).

 

«É certo que com a propagação dos estudos históricos começou logo a filosofia da história; género de romance impertinente ... ».

Alexandre Herculano

 

«Uma vez perdido o pensamento da História, isto é, não achado o princípio filosófico da História de Portugal, continuar seria uma violência por assim dizer automática; Herculano obedeceu a essa falta de estímulo que vem de um pensamento, e deixou-se ficar na inércia, abandonando a História de Portugal como um edifício interrompido, não pela falta de material, mas pela falta de destino.»

Teófilo Braga


20 TESES ACERCA DA FORMAÇÃO E SOBREVIVÊNCIA DE PORTUGAL

 

Por certo, muitas circunstâncias foram apontadas, nem faltaram suposições sagazes para explicar a independência e sobrevivência livre de Portugal. Esses factores, ainda que a sua ordenação se discuta, são na maioria integráveis numa hipótese explicativa. A fluidez e um sentimento de insuficiência deles ressalta, no entanto, em contraste à nítida resultante histórica e sua pronta, eficaz, inconfundível afirmação através dos tempos. O país não constitui uma ilha, uma península, um compartimento definido, unidade ou indivíduo geográfico, nem porção substancial de uma unidade; não passa de pequena parte de um todo individualizado fortemente; de uma das varandas e praias do portentoso polígono arquitectónico da Ibéria; couraçado embora em muitas zonas da fronteira setentrional, o sistema defensivo acaba-lhe a meio do território na linha de água do Tejo, ficando a outra metade amplamente vulnerável; quanto à caracterização económica, não faltam outros litorais, até na Península, bastante diferenciados.

Os elementos antropológicos são flutuantes e as observações positivas, tanto da História como somáticas, não chegam por si mesmas para explicar o fenómeno. São débeis em relação à sua grandeza. É preciso ir às manifestações civilizacionais e interpretá-las, prospectar a alma do nosso povo, construindo hipótese que incorpore os estudos feitos e, mediante novas observações, possa ganhar foros de teoria.

As justificações políticas, ainda que ponderáveis, também não convencem, mesmo apoiadas em parte da argumentação das teses geográficas e antropológicas.

Quantos chefes de valor presidiram até com certa continuidade, a feudos ou Estados, sumidos mais tarde em conjuntos geográficos ou étnicos maiores? Quantos localismos fortes, organizados mesmo, não soçobraram sacrificados às grandes unidades políticas? Para mais Portugal não surgiu de nenhum tratado de conveniência ou compromisso entre potências. Se teve apoios internacionais para opor às sucessivas forças que no decurso histórico arriscavam a sua integridade, ganhou-as, conseguiu-as pela própria iniciativa: – a Santa Sé, primeiro; a Inglaterra, uma constante; de outra vez, a França; o Brasil, e até a Espanha.

Acresce que, depois de fundado (e diversas nacionalidades brotaram contra o Islão na Península), o Reino sofreu várias gravíssimas crises de independência, que chegou mesmo a ser perdida por seis dezenas de anos – tempo bastante para a comprometer definitivamente se as razões da autonomia não fossem na realidade muito profundas. Mais da ordem intrínseca do que da extrínseca, essas razões. Frutos de um impulso interior, de um cerne irredutível, de uma vontade que buscou, torceu, aproveitou as circunstâncias. A independência não só deflagrou com incrível pujança e tenacidade como se reforçou em formas originais. Ao reflectirmos sobre os seus efeitos e suportes psicológicos condicionados teremos a chave da intrigante irredutibilidade portuguesa e da sobrevivência nacional. E do presente para o pretérito; a partir dos apogeus representativos pela sua eficácia e das depressões tão esclarecedoras como os fenómenos patológicos em Psicologia.



Muito haverá a corrigir, a rever até ao ponto de se lhe mudar o sinal – de menos para mais, de mais para menos. Ou Portugal seria absurdo. Não poderia sequer existir.

Temos um enigma de génese e sobrevivência agravado pelo de uma alma – conteúdo mental, emocional e actuante – cuja interpretação corrente, cujas aparências e sintomas surgem paradoxais, desajustados ou opostos à cada vez mais evidente documentada grandeza de um curso histórico singular, fértil em acções e êxitos.

Tentemos compreender. Nesse sentido formulamos as seguintes proposições:

1. Uma parte da Galiza e outra da Lusitânia formaram Portugal. Só razões de ordem política, de condicionalismo religioso e estratégia militar condenaram a circunscrever-se à terra portucalense a completa autonomia de toda a Galiza.

2. Dois blocos regionais, secularmente emissores de população, e que não se misturam entre si, ainda hoje nos permitem, pela sua relativa natureza, ajuizar dos elementos humanos constitutivos de Portugal: – O Noroeste, cujos habitantes são identificáveis aos galegos espanhóis; a zona montanhosa das Beiras, para os lusitanos.

3. Lusos e galaicos distinguem-se, posto que povos individualizados em finisterra, de parentesco próximo e afinidades incontestáveis.

4. O Português é uma síntese de lusitano e galaico, um luso-galego e só metaforicamente lusitano.

5. O tipo do Português formou-se a partir da linha do Douro e Vouga – a charneira luso galaica – ao longo da faixa de trânsito litoral, e daí por toda a Estremadura, Lisboa, Riba e Além-Tejo, com assimilação dos elementos exóticos.

6. A população portuguesa tende para a homogeneidade, pelo intenso convívio dentro de fronteiras oito vezes seculares que a fácil articulação das comunicações ao corredor de trânsito litoral assegura, na estreiteza do seu território.

O Português é uma combinação feliz. Estudadas as duas grandes reservas humanas relativamente intactas quanto a caracteres, – do Além-Douro interamnense e transmontano e do bloco beirão – nas manifestações espirituais encontramos estremadas as suas características harmoniosamente complementares.

7. A idealidade sonhadora, a contextura sentimental branda, mas rica em tonalidades e teimosia surda, o fundo instável de inquietação, a mundi-visão saudosa, o pathos da alma portuguesa radicam-se no viveiro galaico, em semelhança flagrante com a Galiza propriamente dita; o espírito realista, de organização jurídica e independência pessoal, o talento político, a afirmação intrépida são principalmente lusitanos.

8. Sentimentos dominantes do português tidos aparentemente, comummente por negativos e até por suicidas escondem carácter contraditório. Se fossem na essência assim depressivos, e patenteando-se eles há tantos séculos, a História de Portugal surgir-nos-ia absurda, por inexplicável e impossível.

9. A Saudade, fulcro da sensibilidade portuguesa, de modo algum é apenas retrospectiva; encerra um conteúdo insuspeitado de indeterminação e sentido futurante, pleno de impulso dinamogénico, por força do que insere de subconsciente, esperançoso apego à vida. A Saudade impregna toda a vida religiosa, sentimental e activa dos portugueses.

10. A forma de resistência nacional à adversidade é o Sebastianismo, inteiramente diversa da forma de resistência espanhola: – o Senequismo.

11. A História de Portugal é uma história do Sentimento aproveitado, temperado pela Reflexão. Uma aventura consciente caracteriza-lhe os momentos mais densos, eficazes e significativos. Aventura consciente a independência, os descobrimentos, a formação do Brasil. A rotura entre aqueles elementos, ora traz o domínio da Paixão, ora o da Razão correctiva.

Aparta-se flagrantemente da História da França e da História da Espanha.

12. A História de Portugal, partindo da exiguidade geográfica, ao longo de um corredor marítimo, numa linha de força norte-sul é uma história em trânsito contínuo, compensando-se maritimamente da escassez continental correspondente à sua idiossincrasia.

13. Com esse trânsito, de tendência oceânica, correspondente à sua idiossincrasia, o Português aprendeu a triunfar do meio geográfico, obteve as maiores vitórias sobre o espaço.

14. Os descobrimentos e a colonização constituem por isso a suprema afirmação dos portugueses, a linha das cumeadas do seu contorno histórico, e bem assim o complexo fenomenal que mais aproveita à interpretação da Grei.

15. Na base da sua causalidade há que primeiro inscrever entre outros estímulos uma raiz antropológica, tão obscura como evidente, de interesse pelo mundo com apetência do desconhecido e novo, a par do apego sentimental à pátria, a qual é condicionadora de plasticidade à natureza e às gentes, que vai a ponto de lhes aderir por inteiro, levando à incorporação no exótico das formas originais.

16. O Cristianismo teve na maneira de ser e actuação dos portugueses o mais decisivo esforço no sentido de destruição das barreiras raciais e das incompatibilidades do apostolado, e bem assim a instituição das mais belas formas de socorro humano.

17. Por sua vez, o curso histórico, além de individuar Portugal no quadro do mundo moderno, influiu na psique portuguesa num sentido activista, apurando-lhe as aptidões de adaptação e enriquecendo-a com experiência, exotismo, calor e claridade. Com isso a distanciou da galega.

18. O fundo temperamental do Nordeste mantém-se, no entanto como «limite» da sensibilidade portuguesa e da posição perante a vida.

A afirmação é válida para os luso-descendentes.

19. A grandeza, a intensidade do movimento histórico, a absorção e natural desgaste pelas desmedidas áreas e tarefas universais, retardaram a sistematização do conteúdo pensante português, já de si do tipo emocional e assistemático. Nos escritos poéticos e de viagens estão os expoentes do nosso génio.

20. No quadro hispânico a oposição psicológica, em muitos aspectos diametral, de portugueses e castelhanos tem sido a prima razão e a salvaguarda instintiva da independência nacional.

(In Francisco da Cunha Leão, O Enigma Português, Guimarães Editores, Lisboa, 4.ª Edição, 1998, pp. 95-100).

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Da índole amorosa do português

Escrito por Francisco da Cunha Leão


Serra do Marão

«(...) À voz do sangue responde a voz da terra; e este diálogo misterioso mostra os caracteres da nossa íntima fisionomia portuguesa.

A Ibéria foi primitivamente povoada por diversos Povos de que descendem os actuais castelhanos, vascos, andaluzes, galegos, catalães, portugueses, etc.

Aqueles Povos pertenciam a dois ramos étnicos distintos, diferenciados por estigmas de natureza física e moral.

Um dos ramos é o ariano (gregos, romanos, godos, celtas, etc.); e o outro, é o semita (fenícios, judeus e árabes).

O Ária criou a civilização greco-romana, o culto plástico da Forma, a beleza concebida dentro da Realidade próxima e tangível, o Paganismo; o Semita criou a civilização judaica, a Bíblia, o culto do Espírito, a unidade divina, a beleza concebida para além da Matéria.

O Ária cantou, nos cumes do Parnaso, a verde alegria terrestre, a infância, a superfície angélica da Vida; o Semita glorificou, nos cerros do Calvário, a dor salvadora que nos eleva para o céu, o céu da Redenção, pelo sacrifício do individual ao espiritual.

Vénus é a suprema flor do Naturalismo grego; a Virgem Dolorosa, a suprema flor do Espiritualismo judaico. A primeira simboliza o amor carnal que continua a vida, esta, o amor ideal que a purifica e diviniza.

O Ária (celtas, gregos e romanos) trouxe, portanto, à Ibéria o Naturalismo, e o Semita, (árabes e judeus) o Espiritualismo.

Povos destes dois ramos étnicos tão diferentes, misturam-se na Península, originando as antigas Nacionalidades que Castela submeteu à sua hegemonia, com excepção de Portugal. Todavia, conservam uma certa independência moral revelada pelos idiomas ainda hoje falados na Espanha.

Portugal resiste, há oito séculos, ao poder absorvente de Castela. Demonstra este facto que, de todas as velhas Nacionalidades peninsulares, foi Portugal a dotada com mais força de carácter ou de raça.»

Teixeira de Pascoaes («Arte de Ser Português»).

 

«Se o corpo de Vénus é feito de espuma do mar, a Virgem Maria é a mais alta e translúcida espuma da Alma.»

Leonardo Coimbra («Camões e a Fisionomia da Pátria»).


O Nascimento de Vénus, do pintor William-Adolphe Bouquereau.

«A arte de amar, ensinada por vários tratadistas que se limitam a explicar o que é explicável, não preceitua mais do que exercício incessante da imaginação. Quem pela primeira vez declara o amor, por palavras bem ou mal inspiradas, assume o compromisso de repetir diariamente essa declaração, mas obriga-se também a inventar processos sempre diferentes de manifestar a fidelidade e a lealdade ao ente amado. Fazer voto de amor, por qualquer fórmula de juramento, é devoção que logo se transforma em obrigação.

Toda a arte do homem amante está em fazer louvar a mulher amada, em evitar a repetição que mecaniza, banaliza e adormece a vida sentimental, em reconhecer a gradação subtil dos diferentes vínculos de amor. A graciosidade da linguagem do adolescente que perpassa na dialéctica dos amantes, o ideal de fidelidade electiva que enobrece e sublima os mútuos juramentos, o encanto sentimental que se corporiza no apogeu da volúpia, constituem graus de uma fenomenalidade que só o escritor de génio pode exprimir sem banalidade, estultícia ou profanação. Torna-se patente a inépcia do romancista que se demora no descritivo e no narrativo, por preconceitos naturalistas ou realistas, quando seria o momento literário de vencer o empirismo pelo raciocínio e o realismo pela imaginação.

Na penumbra propícia a um ritual sagrado existem segredos naturais que o literato vulgar não sabe descrever. Quem não os respeita, reverencia e venera, quem sobre eles se propõe projectar a cruenta luz meridiana, confessa por isso não compreender a analogia profunda da morte com o amor, patenteia ignorar a significação da palavra metamorfose. Confessa assim, e também, que ainda não soube atribuir significado religioso aos actos habituais da vida quotidiana.

Conhece talvez o literato a antiquíssima comparação do sono com a morte, mas não aproveita, antes despreza, essa comparação que a literatura tornou banal. Nunca meditou, porém, na analogia do cerrar dos olhos com a cerração da noite, do leito com o túmulo, dos brancos lençóis com os alvos mármores. Ao despir-se, ao deitar-se, o homem desenvolve-se das roupas que o aquecem, protegem ou mascaram; goza um prazer que não é mais do que alívio do sofrimento inconsciente que lhe deu a canseira do trabalho quotidiano; não repara, porém, que no acto prefigura o despir das faculdades vigilantes que a alma há-de perder para atingir a nudez esotérica.

O artista que não respeita o ritual da desnudação, é artista que não compreende o nascimento, o amor e a morte; não sabe distinguir a verdade nua da verdade revelada; tenderá sempre a descrever o encontro dos amantes em termos de pornografia ou, seja, de profanação. Não compreenderá a beleza secreta da palavra sacrifício, nem, portanto, o encanto eloquente da renascença ou, que o mesmo é dizer, da ressurreição.»

Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).


Marte sendo desarmado por Vénus, por Jacques-Louis David.


Da índole amorosa do português



«De amor escrevo, de amor trato e vivo.»

Luís de Camões


O carácter do amor foi por nós observado, a traços largos, numa rubrica de «O Enigma Português, onde vincámos neste aspecto e sobre o fundo comum peninsular, a diferença entre portugueses e castelhanos, tão denunciada na literatura e na história.

Aliás esse carácter é dos mais versados pelos estudiosos das nossas letras. Na definição das linhas míticas em que se dispuseram determinadas tendências nacionais fixámos uma que respeita à sublimação da mulher e outra à supervivência do amor [1].

Interessa-nos agora focar as contradições estranhas que a sensibilidade e o comportamento dos portugueses neste capítulo retratam.

Embora menos estremados que nos castelhanos o amor e a sexualidade, esta distorsão não deixa de nos aparecer, às vezes, em termos chocantes.

Logo na poesia trovadoresca se bifurcam duas linhas com atitudes diametralmente opostas em relação à mulher – o que foi observado por numerosos críticos. Uma de idealidade, em que a mulher querida é como que entronizada, posta em adoração, e objecto de culto cujo teor se apresenta devotado e casto; boa parte dessas cantigas – as «de amigo» – coloca o troveiro na boca da namorada, protagonista de um sentimento que então já se revela inquieto, magoado – o amor saudoso. «Quem tem amores não dorme» viria a traduzir a sabedoria do povo, num conceito que os poetas esgotadamente glosariam – eles e os novelistas.

O gosto de sofrer aliado ao gosto de amar em termos de «amar é sofrer» vem salientado por José Régio e Alberto de Serpa na antologia que organizaram da nossa poesia de amor [2]. Nas palavras introdutórias a esse trabalho, também se fala do «dom de sublimação do instinto primário», da «transfiguração do desejo em admiração e saudade» como traços característicos. «Min tormenta», lá diz João Lobeira nos lais de Leonoreta. «Morte, morte de amor melhor que a vida!» (Bocage) exprime o pathos erótico de um povo a que não falta certo masoquismo e saboreada renúncia [3]. O «morrer de amor» é uma das características da literatura portuguesa, segundo Carolina Michaëlis.

A extrema vivência amorosa ressalta da «pequena história» às vezes decisiva, tornada grande, ilustra a poesia e a novelística, dos Cancioneiros e do Amadis, à lírica de Camões, às églogas, a Gonzaga e Bocage, às Cartas de Soror Mariana, às novelas de Camilo, a João de Deus, Nobre, Florbela, etc...


Não minguam testemunhos de vária procedência acerca disso, a começar pelos Espanhóis, que personalizavam a obsessão amorosa, galanteadora, a um tempo intrépida e torturada, em portugueses. Esse renome passou os Pirenéus e a Mancha para exprimir um determinado tipo de amor «à portuguesa».

Anote-se a primazia, mesmo a realeza do amor na temática do género literário que mais nos distingue. Sem aquela especial compleição amorosa teríamos sido tão grandes em Poesia? Decerto que não, pois se eliminarmos do nosso florilégio a lírica de amor ele fica extraordinariamente empobrecido [4].

O facto de na contemporaneidade alguns dos melhores poetas terem fugido ao tema, ou iludido o tema, por influxo de moda universal, não invalida a afirmação. É avultada a legião dos que graças ao amor entram a versejar.

Muitos dos principais poetas continuaram a sacrificar-lhe poemas dos melhores como Teixeira de Pascoais (leia-se a genial «Elegia do Amor»), Afonso Duarte, José Régio, o próprio Torga, cuja «Ode a Vénus» é uma das mais belas sublimações do «génio da espécie»; e o tema subsiste de primeira plana com aspectos novos também, no sentido de evitar a monotonia que afectara a lírica amorosa, em David Mourão-Ferreira e Tereza Horta, por exemplo.

Apesar do grande esforço de renovação desta poesia, menos estremada do sexo, mais intelectualizada ou ironizada, o velho fundo absorvente e idealista mantém-se. Na sua própria degradação, o fado reflete-o, nostálgico de pureza.

A outra corrente, da sátira também de amor, tende ao obsceno, é com frequência grosseira e pornográfica. A mulher que não corresponde àquela idealidade, ou a trai, aparece desrespeitada em termos boçais e bem assim o marido enganado ou condescendente. Aí o trato é assoalhado ao vivo e com a mais desbocada linguagem. Os cancioneiros medievais e a obra de Bocage são exemplos flagrantes desta extremação [5] que tantas vezes co-habita em paredes meias.

Dificilmente se encontram a picante malícia, os subtis mal-entendidos das letras francesas. Dos satiristas do amor e da mulher, bem poucos, além de Augusto Gil, e nem sempre, conseguem aproximar-se desse espírito. O cosmopolita Feijó não deixa de ter a mão pesada.

Não que a sensualidade abandone a poesia sublimadora do amor. Ela entrelaça-se num tipo de lirismo de teor dominantemente casto, e a partir dos mesmos trovadores. Na sua forma espiritualista é o que o ensaísta galego Daniel Cortezón chama «amor-saudade», tem carácter avitalista, em contraposição ao amor biológico, subordinado ao «génio da espécie» [6]. Exemplifica o primeiro caso Macias, o Namorado, famoso poeta. No segundo, podemos incluir o mitológico D. João Tenório, em que a sexualidade totalmente se extrema, tomando ganas de força devastadora e subversiva das barreiras ético-sociais.

Quando estranha ao factor sentimental, a sensualidade dos portugueses mostra-se pouco selectiva, indiscriminada, o que os favoreceu no entendimento com os povos de cor e esteve na base da extensa mestiçagem que prestes franjou, consolidando-a, a fixação lusíada nos trópicos, onde surgiram numerosos grupos étnicos, de ligação com as sociedades aborígenas da Ásia, África e América, nas quais o elemento europeu comum garante um mínimo de unidade inter-continental com fulcro metropolitano.

Não são propriamente as ligações ilícitas que o escandalizam, e muitas foram admitidas sem chalaça. Não respeita, porém, a poliandria, nem mesmo casamentos, além do segundo.

Implacável na exigência do amor, desde que o reconheça vê nele um sinal de predestinação, admite-o como coisa séria, tocada de transcendência, que invalida os juízos dos mortais. Foi o caso dos amores de Dom Pedro e Dona Inez, feitos florir pelo tempo fora, em sequência condigna do louco enlevo e fidelidade cega desses amantes, cuja trágica desgraça respeitou e redimiu, transmudando-a em mito de amor eterno.

Neste país onde uma adoração amorosa abundante e obsessiva marcou a expressão literária, é de estranhar o prosaísmo, a reserva mental, o tom sardónico do seu adagiário a propósito da mulher. São de velha data usuais anexins como estes: «A mulher e o pedrado quer-se pisado», «Ainda não é nascida, já espirra», «O homem na praça, a mulher em casa», «Mula que faz him e mulher que fala latim, raramente tem bom fim», «A mulher e a galinha, com o sol recolhida», «A mulher e a cachorra, a que mais cala é a mais boa», «De má mulher te guarda e de boa não fies nada», etc...

Ditos deste jaez, classificáveis em marialvismo e machismo, se adoptássemos a acepção de Cardoso Pires [7] dariam longo rol. Machismo, sem dúvida, e estremado, que é de homem suspeitoso, ciente dos seus costumes abusadores e do semelhante, este que reduz a fêmea, cativa ou a trabalhar para ele, que lhe desdenha a ilustração e se teme da sua tagarelice [8].

Os hábitos já evoluíram mas sem alteração substancial da mentalidade, porquanto no sub-consciente de muitos portugueses, até dos que se ufanam de liberais e progressistas, chibantemente engravatados, em maior ou menor grau ainda perdura.

Em que medida os costumes sarracenos teriam influído nesse espírito restrito da liberdade feminina? É possível que no rastro de uma dominação mourisca demorada nos ficasse tal herança, a par das «mouras encantadas».


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Não obstante do Noroeste, e desde épocas imemoriais, veio-nos uma tradição de matriarcado, atestada por arqueólogos como Caro Baroja, e confirmada pela história. A preponderância das mulheres foi grande no priscialinismo e nunca deixou de exercer-se na faixa ocidental, especialmente na Galiza. A poesia dos Cancioneiros documenta-a, como vimos. Até o extraordinário culto de Nossa Senhora denuncia uma étnica tendência para a sublimação da mulher.

A nossa história, com mais ou menos fantasia, floresce de heroínas. Não lhe falta um longo friso de mulheres ilustres, do povo às mais altas estirpes. Nomeá-las seria fastidioso, mas o seu renome vai dos feitos da defensão militar e ultramarina, às práticas virtuosas, à iniciativa de obras sociais, às letras, às artes, aos actos de governo. Mostraram heroísmo tanto na guerra e no amor, quanto em santidade.

O maior poeta da Galiza foi mulher – Rosalia –, igualmente o maior romancista: Emilia Pardo Bazán, Entre as combatentes, Maria Pita, defensora da Corunha contra os ingleses. Unamuno, verificando essa importância da mulher, entende ser característica de raça velha, cansaço de civilização.

Oliveira Martins também chamou a atenção para a importância da mulher do Minho, a propósito de «Maria da Fonte», a Joana d’Arc do Setembrismo», no que foi chasqueado por Camilo, chamando à mulher do Minho «besta de carga» e à lendária cabecilha do movimento patuleia nada menos que «beberrona e malandra» [9]. D. António da Costa chega a dizer: «Nesta província... a mulher é que toma verdadeiramente o lugar do homem, e o homem não passa de acessório» [10].

Deste novelo de factos e comportamentos antagónicos, bastante poderá inferir-se numa tentativa de interpretação. O português é de índole amorosa, vive com intensidade os seus afectos, insofrido, sôfrego, absorvente na fase da efervescência do amor, cujo objecto poeticamente exalta, mesmo nos desvairos sensuais. Mas se a dona o desilude, facilmente descamba para a recriminação satírica, tanto mais que não admite no sexo feminino a volubilidade carnal que ao macho reserva, e de que tem mais ou menos consciência. Há nesta atitude, em transposição colectiva, o que os psico-analistas chamam processo de «projecção», de que atribui a outrem intenções que se nega a reconhecer em si mesmo, ou defeitos que pressente possuir.

O temperamento apaixonado, exclusivista dos portugueses faz deles grandes amorosos e porventura, na continuidade, incómodos amantes. De um ponto de vista libertino, do erotismo intelectual puramente hedonista, do prazer pelo prazer, são maus amantes, porque emotivos em demasia. Amor que «não sossega a coisa amada» servindo-nos de uma expressão de Vinícius de Morais.


D. Juan, no momento da luta.

Haverá no entanto amor digno desse nome, verdadeiro amor, sem busca desesperada e ardente do absoluto? Não estará nisso a mais bela transcensão do homem, o aniquilamento na realização plena? Tal procura, não tem entre nós o cunho elementar só de extremismo físico, a sanha de fornicação do galaroz D. Juan Tenório. A compleição afectiva interfere no sentido de uma posse mais total, em humana plenitude, cópula de corpos e almas; subtiliza, comove a crueza do sexo. Bem viu um actual ficcionista português no incontestável donjuanismo autóctone, feição de compromisso, com amolecimentos sentimentais e sociais, que lhe minoram a «crueldade testicular» e o apartam do genuíno donjuanismo, repelido e satirizado cá [11]. Porventura a aceitação, o êxito amoroso do português (o «portuguesismo valente») provenha de ser um sedutor incorrigível, atrevido, mas facilmente enamorável; de constituir uma presa possível como afinal o rei D. Fernando tão amador de mulheres e «achegador a elas», mas sua vítima, ainda que formoso e inconstante.

No amor consolidado pelo casamento ou ligação estável, acentua-se o preconceito do prestígio masculino que o meio aliás impõe ao homem, pelo que este se encosta aos ditames de uma sabedoria vulgar assente na autoridade do pater e na suspicácia dos defeitos da mulher («As verdades são dos homens, as mentiras das mulheres»).

Tal reserva em parte demonstra, pelo carácter de defesa, certo reconhecimento implícito do valor do outro sexo, cujo vantagem chega a ser temida, em alguns aspectos.

A despeito da fraseologia sentenciosa e mordaz, fruto de um realismo rural cônscio da sujeição biológica da fêmea e da sua fraqueza provocante em relação ao ímpeto e à mobilidade natural do macho, e apesar do brio varonil muito agudo em povo criado no prez das coisas másculas e pronto a captar o ridículo, aquela sisudez também se filia no ideal do lar com fulcro na virtude da mulher, cuja inspiração cristã é evidente. Vê na esposa, ou nela exige ver, depositária das virtudes tradicionais da gens – a mãe que prolonga outra mãe cujo exemplo é exalçado – e que mantém na ara doméstica um fogo paralelo ao dos altares.

As famílias assim robustas aglutinam-se como corais e proliferam. Nelas estão os viveiros do génio terrantês e os abrigos seguros dos filhos ainda que pródigos.

Houve quem denunciasse na mulher portuguesa um ressaibo oriental; a meiguice dos olhos, uma doçura de ser, a um tempo grave e submissa que é de quem nasceu para ser amada («para la caricia y el rendimiento», observou Unamuno).

Ao centro: Miguel de Unamuno.

Dos olhos vem por transparência muito da vida interior. Não é o brilho intenso e dominador das espanholas que «barren la calle com sus miradas», nem o picante frívolo e inteligente das francesas, nem aquele olhar que nas britânicas tem «um arcanjo e um demónio a iluminá-lo» misto de angélico devaneio e frieza, ou a bruma indecifrável das nórdicas e seus relâmpagos de iniciativa.

Abandono sonhador e uma ajuizada ternura denunciam a mulher portuguesa. Em novas são garotas, meninas ou raparigas, termos que impressionam Valéry-Larbaud [12]. Capaz de heróica devoção, resistente, sofrida, revela-se realista no casal e defende, pela pressão dos sentimentos, o seu domínio. Este aspecto celoso foi notado há muito pelos nossos vizinhos [13].

Em que medida tais caracteres determinam o comportamento do homem e as contradições discernidas? O citado grande pensador espanhol inclina-se a explicar pelo nosso tipo feminino o tom erótico-patético do lirismo.

Reflectindo um pouco, vê-se que o amoroso que exalta a namorada e a conduz à igreja para uma união definitiva, não tarda em apossar-se do comando, em reaver, cauteloso, uma situação de que só transitoriamente abdicara.

O prosaísmo suspeitoso que ressuma do adagiário e o comportamento vulgar do marido traiem assim, como observámos, intenção defensiva perante o ascendente inicial da donzela-dona. Este é susceptível de reforço para o que indirectamente concorrem a volubilidade do homem e um espírito de aventura que em vários aspectos, até no económico, o afecta enquanto viril.

Uma filosofia prudente, apoiada no consenso moral, ajuda-o a restringir o poder feminino além do círculo estreito do lar. Não falta quem pendure, logo à entrada da porta, um azulejo de mau gosto onde se lê: «Cá em casa manda ela, mas nela mando eu». Jactância, ao fim e ao cabo subvertida pela emoliente erosão das mulheres, mais persistentes no seu fito, mais concretas.

O homem vai «em contrapartida procurar no café ou em reuniões de homens a expressão da sua personalidade viril» diz um autor contemporâneo [14], no que afinal confirma a estranheza de muitos estrangeiros pela superabundância de homens nos lugares públicos.

Paul Descamps, em livro de 1935, apontou entre nós a radicação de costumes que insere em matriarcais, tais como o papel primacial da mulher na educação dos filhos e a frequente designação destes pelos nomes das mães (e até dos maridos pelos nomes das mulheres), muito usada nalgumas províncias. Não somos apesar de tudo, o país da Lei Sálica e do monsieur-dame.




A mulher espera, sabe esperar, eminentemente conservadora da etnia nacional, e a verdade é que pela confiança, nem sempre só com os anos [15] ou a viuvez, consegue uma situação de chefia, apoiada na maternidade, cujo prestígio é enorme em povo comovediço, radicalmente cristão. Ela prolonga a família, elemento estável que em regra sobrevive ao consorte, e refaz os patrimónios tantas vezes comprometidos pelo marido estroina.

(In Francisco da Cunha Leão, Ensaio de Psicologia Portuguesa, Guimarães Editores, Lisboa, 1971, pp. 105-117).


[1] Ver «Linhas míticas da História nacional», no volume «O que é o Ideal Português» – Edições Tempo, 1961.

[2] «Alma minha gentil...» – Portugália Editora.

[3] Alguns psicanalistas (Freud, Helene Deutsch) estabeleceram conexão entre masoquismo e feminilidade, o que foi confirmado em motivações mais culturais que sexuais por Karen Horney, revisionista da Psicanálise (Ver: «El nuevo Psicanálisis», da autoria de Karen Horney, tradução do inglês – Fondo de Cultura Economica – México – Buenos Aires). Tem sido observado no temperamento português algo de feminino, o que pode estar em secreta relação com o amor torturado que tanto o caracteriza.

[4] Denis de Rougement no livro «L’amour et l’Occident (Livraria Plon – Paris) observa: «Ce qui exalte le lyrisme occidental ce n’est pas le plaisir des sens, ni la paix féconde du couple. C’est moins l’amour comblé que la passion d’amour. Et passion signifie souffrance».

Isto é dito a propósito da sua profunda análise do mito de Tristão, em que há o acordo do Amor e da Morte. No entanto se é característica ocidental ela deve singular vivência entre nós, onde o velho mito céltico se repetiu com nova formosura na história de Dom Pedro e Dona Inez. Ressonância étnica profunda?

[5] Ver a notável edição crítica das «Cantigas de escárneo e mal dizer» de Rodrigues Lapa.

[6] «De la Saudade y sus formas».

[7] «Cartilha do Marialva».

[8] Francisco Xavier de Oliveira, apesar de homem do Século das Luzes, tem opiniões como esta: «Verdadeiramente a mulher é ligeyríssima por natureza, e emprega-se gostosamente nas cousas de pouca importância pela debilidade do seu juíso». «Cartas familiares, históricas e críticas».

[9] «Maria da Fonte» – Lello & Irmão – Porto.

[10] «No Minho».

[11] Urbano Tavares Rodrigues, «O mito de D. João e o donjuanismo em Portugal» – Livraria Ática.

[12] «Divertissement philologique».

[13] Ver «Portugal e os portugueses em Tirso de Molina» por Manuel de Sousa Pinto – 1914.

[14] Ruben A, «Autobiografia», vol. I, p. 34.

[15] Liberdade e iniciativa que «apenas ganham quando caducas», segundo o mesmo escritor, acima citado.