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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Pombal, o “Filosofismo” e a degradação do povo português

Escrito por Teófilo Braga 





«Teófilo Braga é, certamente, o mais poderoso obreiro da literatura portuguesa na segunda metade do século XIX. Este juízo, que à primeira vista parece exagerado, poderá sem receio ser subscrito por quem se lembrar de quanto o fecundo escritor foi admirado, discutido e injuriado, quer em palavras perdidas nas maledicentes tertúlias literárias quer em documentos que permanecem a fixar os aspectos anedóticos e caducos da pequena história. A obra realizada por Teófilo Braga que parece falecer de valor quando comparada às dos seus mais célebres contemporâneos, reclui méritos que a tornam digna de ser lida e revalorizada quando se der uma mutação no critério de apreciar a actividade dos homens de cultura.

Este homem singular, de quem tanto bem e tanto mal se disse, ainda não foi estudado à luz da caracterologia. Tudo quanto os memorialistas testemunham e os historiadores certificam tem de ser revisto para que se distinga dos aspectos superficiais e dos reflexos circunstanciais a autêntica figura de Teófilo Braga. A explicação de um carácter há-de resultar do estudo das camadas constitutivas de uma personalidade, que, de uma maneira simplista, podemos dizer serem: a vontade, os sentimentos e as ideias.

Teófilo Braga através dos actos de escolher, deliberar e decidir, mantinha firme uma vontade que lhe mereceu o qualificativo de intransigente e de sectário. Entre os seus sentimentos se distinguem o amor da Família, da Pátria e da Humanidade, (alimentado por uma imaginação de poeta e robustecido pela observação de estudioso) e a admiração pelo talento de três filósofos da história que foram Vico, Hegel e Comte. Quanto às ideias, mais recebidas de cultura alheia do que elaboradas por mente própria, cobrem elas a camada mais superficial de tão notável personalidade.

Desenvolvido da exterior vestidura que são as palavras e as frases peculiares das escolas filosóficas e dos partidos políticos, o pensamento de Teófilo Braga, tão mal estudado, surge na configuração propícia de um precursor da filosofia portuguesa. Teófilo Braga soube, como bem poucos dos seus contemporâneos, situar a relação da filosofia com as formas de cultura, enunciando a problematização da política nacional. Não lhe foi dado o mérito de demonstrar a independência do nosso pensamento filosófico, embora alguma vez a pressentisse, por virtude do seu profundo, ardente e elevado patriotismo.»

Álvaro Ribeiro («Os Positivistas»).



«(...) ao mesmo tempo que proibia a posse e leitura de obras adversas ao Santo Ofício, o marquês de Pombal fazia atacar as crenças católicas, negando a supremacia do Papa, chasqueando-lhe a pretendida infalibilidade, escarnecendo-lhe os seus santos. O espírito agressivo de António Pereira de Figueiredo, um dos dóceis instrumentos dos seus planos, com um conto de réis por ano, não era mais suave para Roma que as invectivas dos grandes heresiarcas dos séculos XV e XVI. À sua custa mandava imprimir o marquês de Pombal o famoso livro do bispo dissidente de Miriófita, que, sob o pseudónimo de Justinus Febronius, escreveu – Do estado da igreja e poder legítimo do pontífice romano – uma diatribe contra a religião católica, vertida a expensas do marquês pelo coronel Miguel Tibério Pedegache. Leituras desta natureza indispensavelmente fomentavam o protestantismo no reino, a heresia que se identificava com Calvin e com Luther. Muitos leitores desses livros, desligados mentalmente da igreja romana, caíram na imprudência de manifestar a sua aversão ao Santo Ofício. Pois, senhores, esses desgraçados, embaídos pelos livros que lhes facilitava o marquês, se se deixavam desvairar, iam malhar com os ossos na polé da Santa Inquisição.

Quando nos dará a história um homem semelhante, uma tão impenetrável, tão absurda depravação? Quem me explicará a sinistra ideia do ministro-filósofo que permitia os tratos espertos nos heresiarcas, proibia com severidades acerbas a leitura e posse de obras hostis ao Santo Ofício, mandava ao mesmo tempo publicar livros eivados de jansenismo e do racionalismo de Voltaire, e fazia queimar os livros ortodoxos que alimentavam a piedade boçal dos seus contemporâneos?

Convinha, antes do centenário, trazer à luz a tenebrosa monstruosidade deste carácter incoercível e único na história!

(...) O duque de Choiseul em França, o conde de Aranda em Espanha, e Sebastião de Carvalho cooperaram de comum acordo na expulsão dos jesuítas. Sebastião de Carvalho veio da Áustria abeberado nas doutrinas de Hontheim contra o primado da jurisdição pontifícia. Justinus Febronius foi o seu mestre; e, discípulo grato, mandou-o traduzir e vulgarizar, como eu já disse, à custa do erário. Guerra, pois, sem armistício à autoridade eclesiástica e nomeadamente à Companhia de Jesus, que mais proeminente representava o partido da igreja! D’Alembert escrevia a Chatolais: “Dou-lhe os parabéns por ter visto filosoficamente que o espírito monástico é o flagelo dos Estados, e que era preciso começar pelos jesuítas como mais valentes.” Voltaire dizia a Helvécio em 1761: "Destruídos os jesuítas, venceremos a infame." [Schoell, Curso de História dos Estudos Europeus].

Sebastião de Carvalho não era homem para discussões serenas, nem achava a lógica e o sarcasmo dos enciclopedistas à altura da questão. As lutas da Universidade de Paris com a Companhia, a acção dissolvente mas vagarosa das Lettres provinciales, não condiziam com a sua índole impetuosa e brutal. Em França, onde havia as tradições sanguinárias dos Châtel e dos Ravaillac, a luta com os jesuítas digladiava-se nos parlamentos. Em Portugal não havia parlamentares nem inteligências que combatessem em lides incruentas os padres dominantes pela superioridade da instrução. E não era muita, comparativamente à do jesuíta estrangeiro, que possuía a ciência universal, aceitava os reptos da filosofia, raras vezes vacilava nas refregas, sabia as línguas de todo o mundo, e tinha vastos armazéns duns livros enormes de sabedoria estéril. O jesuíta português dava crónicas bem fraseadas, muito vernáculas, sermões culteranistas, apostilas de filosofia cediça e novenas. Sebastião de Carvalho e os da sua falange, auxiliados pelos frades carmelitas e oratorianos, não tinham ainda assim que fazer com os Oliveiras e com os Matos. Mas a questão não era reformar – era destruir.

O ministro de D. José foi quem primeiro vingou a empresa em que estava confederado, porque associou à conspiração dos fidalgos a cumplicidade dos jesuítas. Mentiu, mas triunfou. Se as testemunhas falsas ou verdadeiras do processo inconfidencial tivessem provado que os jesuítas conspiraram com os Távoras e Mascarenhas, Sebastião de Carvalho tê-los-ia feito rodar, macetar e queimar no patíbulo de Belém. Quem o impediria? O respeito ao hábito? As puas do remorso?

O ministro não encontrou reagentes impeditivos nem na opinião geral, nem nas classes poderosas, nem na clerezia. Era um país pequeno, desonrado, esmagado e covarde. Estava tudo amordaçado pelo terror e enervado pela corrupção; genuflectiam todos aos pés do tirano; e os desembargadores, tartufos de ferocidade, encheram-se de um rancor postiço para granjearem a simpatia do valido. Nem ainda em livros clandestinos havia quem protestasse contra as párvoas calúnias de Sebastião de Carvalho estampadas na Dedução Cronológica. Ele escreveu que Châtel era da Companhia de Jesus. Châtel que tentara contra a vida de Henrique IV apenas tinha dos jesuítas a ciência rudimentar dos seus colégios. Escreveu que era jesuíta o regicida Ravaillac – um pobre diabo de mestre-escola místico e mendigo.

O duque de Choiseul vingou prostrar morta a instituição odiada; mas não se foi contra o cadáver às punhaladas, não encarcerou nem queimou os padres; pelo contrário, deu casa e pão aos que ficaram em penúria. E o espanhol conde de Aranda mandava sustentar em Roma os jesuítas desterrados.»

Camilo Castelo Branco («Perfil do Marquês de Pombal»).


«A decadência dos estudos filosóficos no período do liberalismo religioso, político e económico que sucedeu ao “reinado” do Marquês de Pombal, explica perfeitamente que os estudiosos mais sérios vissem no sistema de Augusto Comte um plano aceitável para a reforma da educação portuguesa. A tal apostolado se dedicou Teófilo Braga, que tendo sido primeiramente atraído por Hegel e Vico, assimilou, ensinou e divulgou o sistema positivista, logo que para tal obteve cadeira no Curso Superior de Letras de Lisboa (1872). Entendia o ilustre professor que a reforma filosófica deve preceder a reforma política, já que tal era a motivação do Partido Republicano Português, mas os revolucionários impacientes e apressados desrespeitaram a ordem normal, impuseram ao País instituições determinadas pela fraseologia mitológica e metafísica, e precipitaram os acontecimentos para o abismo retrógrado que tem sido julgado pelos historiadores esclarecidos.

A filosofia portuguesa, disciplinada durante quatro séculos pelos textos de Aristóteles, traduzidos em latim, segundo os comentários de Santo Tomás, não poderia crescer, florescer e frutificar perante a literatura romântica e realista do liberalismo religioso, político e económico. A Universidade não aceitou a lição de Jorge Hegel ou de Augusto Comte, dois escolásticos, na construção da enciclopédia das ciências filosóficas. O século XIX foi, por isso, um século de decadência nos estudos liceais e universitários, e caracterizado por reduzida produção de escritos originais de estudos especulativos.»

Álvaro Ribeiro («Memórias de Um Letrado», II).



«Todos os sinais e todas as provas indicam que já não existe o povo português...».

Orlando Vitorino



Pombal, o “Filosofismo” e a degradação do povo português

Nunca povo algum da terra foi mais estupidamente governado do que Espanha e Portugal; a desmembração odiosa dos dois países, e ao mesmo tempo a unificação administrativa e material dos diversos estados peninsulares que possuíam condições essenciais de autonomia, revelam a acção violenta e contraditória de dinastias, que exploraram estes dois povos em vista de um interesse egoísta, e o embrutecimento sistemático exercido em benefício da realeza pelo catolicismo, que em paga dos serviços de polícia das consciências recebeu o exclusivo poder espiritual até à crueldade canibalesca. Os ministros que usavam e abusavam da autoridade eram favoritos sem inteligência, que só procuravam imobilizar em si o poder; de ordinário eram cardeais astutos, como Alberoni, ou mentecaptos, como os que cercavam D. João V, que servia a causa pública mandando dizer missas por alma dos seus súbditos. Quando um dia algumas ideias de administração puderam penetrar no cérebro de um ministro, como Aranda em Espanha, ou Carvalho em Portugal, essas ideias, apesar do conflito de mil preconceitos seculares, e da incompleta compreensão dessas noções transplantadas de repente e à força, frutificaram de súbito e de um modo pasmoso, de sorte que esses ministros se acharam inconscientemente inauguradores de uma nova época de civilização. Desde o casamento de Afonso VI e Pedro II com uma princesa francesa, mesmo já do tempo de D. João V e da regência da sua viúva, alargaram-se as nossas relações políticas com a França, de um modo fecundo para a conquista e manutenção da nossa liberdade nacional. Era um meio de ferir a Espanha, e Richelieu usou-o em nosso favor. Porém, a monarquia e a aristocracia não viram na França senão os hábitos da elegância e do bom tom, usavam as modas, os estilos, os produtos industriais desse povo, mas entregavam-nos por tratados ruinosos e cheios de perfídia à exploração comercial da Inglaterra. O governo de Pombal assinala-se por um espírito de reacção contra a exploração dos ingleses, e pela adesão aos princípios económicos e administrativos de Sully; hoje consideram-se como grandes monstruosidades económicas as companhias privilegiadas como a de Grão-Pará, como as dos Vinhos do Alto Douro, violências que custaram a ruína de muitas fortunas individuais e ondas de sangue pelo castigo desumano de todas as reclamações colectivas. No entanto Pombal infundiu pela energia e regulamentação administrativa um vigor novo à nação que definhava. Possuía o ministro de D. José o génio da acção, mas o seu verdadeiro motor foram as ideias francesas. O que significam estas palavras as ideias francesas já se compreende bem pela influência das teorias económicas de Sully; porém, uma das suas fases mais brilhantes é essa que em Portugal era conhecida pelo nome de Filosofismo, que levou o Marquês de Pombal a estabelecer a separação entre a causa da monarquia e o interesse do clericalismo. Se o espírito de Pombal não estivesse orientado segundo o critério dos enciclopedistas, se não conhecesse a aspiração dos reis-filósofos, como José II, Frederico da Prússia ou Catarina da Rússia, ele nunca teria tido a coragem de imitar a obra de Choiseul e de Aranda, executando corajosamente a destituição dos jesuítas de Portugal, pela lei de 3 de Setembro de 1759. Só um acto desses é que pode resgatá-lo da torpeza de mandar sepultar na enxovia o jurisconsulto que redigiu a representação de alguns negociantes contra a Companhia do Grão-Pará. No seu excesso de zelo pela monarquia, que ele procurava desafrontar da absorção do clericalismo, Pombal colaborou inconscientemente no caminho para a liberdade, dividindo esses dois poderes deprimentes, que desde o século XVI estavam ligados, apesar da mútua má fé com que se tratavam, má fé bem expressa pela moral de ambos resumida nas palavras Maquiavelismo e Jesuitismo. Depois que Pombal vibrou o golpe contra os jesuítas, precedendo a actividade papelística do regime constitucional, mandou fazer longos relatórios, como a Dedução cronológica e analítica, o Compêndio histórico, para demonstrar perante a Europa a pravidade jesuítica como causa da ruína de todas as instituições portuguesas. Pombal considerava a realeza acima dos povos como uma guarda providencial do turpe pecus; para ele toda a barbaridade refinada pela tortura não bastava para castigar os crimes de lesa-majestade, cuja ciência certa e vontade soberana eram os fundamentos de todas as leis. Quem procurasse outros fundamentos era criminoso de alta traição: foi assim que Pombal desenterrou das bibliotecas o ignorado livro da Justa Aclamação, por que ali se proclamava o princípio da soberania nacional. Mandou submeter o livro ao exame de cinco lentes da Universidade de Coimbra para decidirem que um tal livro era evidentemente obra apócrifa, sem autoridade jurídica e sem a força da opinião do célebre Velasco de Gouveia. Reuniram-se os cinco obscuros doutores da Universidade e em assento datado da Ajuda, de 10 de Abril de 1767, concluíram que esse livro da Justa Aclamação era obra dos jesuítas, inspirada pelos livros «de Belarmino, Soares, Mendonça, Molina, Azor, Valença e outros semelhantes sequazes dos sectários do Buchanano, Rosses, Hotmano, Bucherio, e outros libertinos, que haviam pretendido, que não houvesse no mundo um supremo poder, que coibisse as suas sediciosas e mal-entendidas liberdades...»[1]. Às doutrinas tão lucidamente expressas por Velasco de Gouveia chama-lhes «cinco absurdos contrários a todo o direito divino e natural, formalizados pela Sagrada Escritura nos Testamentos Velho e Novo e entendidos pelas doutrinas dos apóstolos, autores eclesiásticos e concílios, sem admitirem dúvida em contrário, que não seja ímpia e temerária...»[2]



Não contente de opor ao grande facto natural da soberania da nação as opiniões caducas de instituições e documentos que exploraram as sociedades humanas, entendeu também torná-lo odioso como instrumento de ambição da Companhia de Jesus. Era um golpe com a espada de dois gumes, contra o clericalismo e contra os gérmens da democracia, que bem cedo agitaram a sociedade exausta do fim do século XVIII: «É enfim, o quinto e último fundamento para se concluir que o referido livro intitulado Justa Aclamação não foi escrito por Francisco Velasco de Gouveia, mas sim pelos ditos regulares (jesuítas) porque assim o manifesta com igual evidência a inspecção das mesmas quatro abomináveis proposições, que oferece para assuntos da Parte I do referido tratado, fazendo-se por elas evidente, que não foram escritas para com elas se sustentar o direito da casa sereníssima de Bragança, mas sim para arruinar e destruir o supremo poder da coroa, que era o principal objectivo dos ditos regulares».[3]

Podia com toda a sua autoridade discricionária Pombal declarar o livro da Justa Aclamação como maquinação jesuítica, mas o que ele não podia era tornar apócrifas as cortes de 1641, que reconheceram a soberania nacional. Com a queda de Pombal as ideias francesas, na sua parte administrativa, foram repelidas bruscamente, e o governo da nação confiado ao arcebispo-confessor, que bestializou a rainha D. Maria I com uma irreparável alucinação religiosa; o príncipe herdeiro D. José, por isso que tinha relações com José II, e queria na administração do reino seguir os planos de Pombal, morreu repentinamente, crê-se que envenenado. As ideias francesas, na sua parte crítica, ou o filosofismo, foram combatidas por um sistema de reacção e perseguições do Santo Ofício, e a essa época de negrura chama-se na nossa história o intolerantismo; uma das vítimas mais gloriosas desta época foi o insigne matemático José Anastásio da Cunha, e o poeta repentista Bocage também sofreu violência policial acarretada pelo ciúme da sua popularidade. Os homens de verdadeira ciência, como Félix de Avelar Brotero e o abade Correia da Serra, refugiavam-se no estrangeiro, e para França fugiu também Filinto Elísio, pelo crime de lhe atribuírem algumas frases de um denodado criticismo. A perseguição contra os homens exercia-se também contra os livros, que eram examinados na alfândega, e os que falavam em liberdade eram queimados pela mão do carrasco no Terreiro do Paço. A Mesa Censória graduava a liberdade dos que pensavam, examinando previamente os seus escritos, destruindo-os, truncando-os, ou emendando-os segundo o seu modo de ver.

À medida que as ideias francesas tendiam para as formas do jacobinismo da grande época da Revolução, assim a polícia e o Santo Ofício redobraram de cuidado contra a entrada dos livros dos enciclopedistas; e nas contas secretas da Intendência para os ministros acusa-se o duque de Lafões por mandar vir desses livros perversos, delatam-se os estudantes da Universidade de Coimbra que liam Bayle, Voltaire, Rousseau, Reyal, Helvetius e Holbach. Todo o homem dotado de uma inteligência acima do vulgo era suspeito e espionado, davam-se buscas aos seus livros, faziam-lhe carga das suas conversas, tomavam como aliciação as suas relações pessoais. Foi preciso o grande favoritismo do duque de Lafões, e as suas relações com os sábios europeus, para ousar instituir a Academia Real das Ciências de Lisboa, que contou entre os seus sócios correspondentes d’Alembert. É este o período glorioso da Academia das Ciências, o único foco de luz nessa época do intolerantismo; glorioso não só pelo seu espírito revolucionário, mas pelas provas sérias de uma fecunda actividade. Alguns refugiados franceses, como o convencional Bretonnau, viveram à sombra do duque de Lafões em Portugal e as cantigas francesas da revolução popularizaram entre nós o espírito do jacobismo.

Em 1773, em conferência de 29 de Abril, a mesa censória, denegando licença para a impressão das teses de filosofia racional e moral do padre Fr. Joaquim de Santa Clara, que veio a ser mais tarde arcebispo de Évora, ordenava ao reitor da Universidade de Coimbra «que o advertisse e admoestasse para reformar e melhorar de sistema, informando-se dos livros de que usa o dito religioso, por constar que tem algumas obras inglesas, que podem ser de mau carácter e que o conduzam a precipício, e que destas, quando as haja, mandará fazer apreensão, e remetê-las à secretaria da mesa, e determinadamente o livro em duodécimo De la primauté du Pape». O reitor da universidade mandou dar a competente busca aos livros de estudo de Fr. Joaquim de Santa Clara, e nada achou condenável; escrevendo para a mesa censória, diz: «Mandei igualmente chamar o dito religioso, e o admoestei para que se deixasse dos seus entusiasmos e virasse toda a sua aplicação para o estudo da língua hebraica e das Escrituras, cujas aulas frequenta nesta universidade.»[4]

Depois deste assombroso documento devia seguir-se o processo inquisitorial contra o insigne matemático José Anastácio da Cunha, mas esse documento extraordinário só por si reclama um livro. Outros homens de letras eram envolvidos nas suspeitas de filosofismo, e depois de 1789 em perseguições e espionagens como jacobinos; assim entre as contas secretas da intendência da polícia, cita-se «o colegial do colégio dos militares de Coimbra, opositor às cadeiras de leis, Joaquim José Ferreira Gordo, sócio da Academia das Ciências e... amigo do abade Correia».[5] O abade Correia da Serra acha-se com a carga de ter relações com o convencional Brussonet: «Todos declaram ser perigoso o dito Brussonet, que era do partido de Robespierre e havia sido secretário de Neccar. É conhecido a todos hoje em Lisboa estar aqui este pedreiro livre Brussonet, que olham com horror, em ter sido apoiado e andar com o abade Correia na carruagem em algumas partes onde não deveria entrar e estar hospedado na Academia das Ciências de Portugal...». O padre Teodoro de Almeida é também espiado pela polícia como jacobinista, e por dar agasalho na casa do Espírito Santo ao referido convencional.[6] A adesão ao espírito revolucionário dava-se em Portugal, ao inverso de todos os países, nas classes conservadoras, entre a aristocracia, como o duque de Lafões e António de Araújo, e o clero e homens de ciência autoritária, como os que acabamos de citar; tal era a degradação do povo bestializado pelo intolerantismo, e segundo os gritos que lhe ouvia o intendente da polícia era ele o reaccionário: Leve o diabo os franceses!, gritavam os fanatizados, e as mulheres da Praça da Palha tinham pena de não serem homens para espancarem os emigrados franceses que encontravam. De repente as cantigas revolucionárias entoaram-se nos cafés, o Cá ira repetiu-se, e os muros desta Jericó do absolutismo e do queimadeiro não se sentiram seguros. Manique fala da tripulação de um navio surto defronte do cais de Belém «e as palavras que proferiam, cantando pelas ruas daquele lugar, eram: Viva a liberdade e morram os aristocráticos, e ponham-se todos à lanterna, e irá sempre avante o que se acha principiado».[7] O terror do Manique, o Briareu a quem estava confiada incondicionalmente a segurança de Portugal, subiu de ponto, quando constou que «andam por aquele sítio com uma gaitinha, dizendo em francês, Viva a liberdade e morra a nobreza, e que têm ido cantar defronte do Paço da Ajuda, na presença da Guarda».



As cantigas espalham-se vertiginosamente, e o intendente avisa o ministro de que «em uma casa de pasto na Rua Formosa, se juntam inumeráveis gentes e entre eles muitos estrangeiros, particularmente franceses, e que também há um jogo da bola; domingo passado, 3 do presente (Agosto de 1794) houve um grande ajuntamento e o seu entretenimento foi cantarem-se em português as cantigas revolucionárias, proferiram-se quantas liberdades daquelas que se proferem na infeliz França contra os reis, e em uma palavra, até dizerem que era melhor que na Praça do Comércio se levantasse a árvore da liberdade em lugar da estátua de sua majestade...».[8] Após as cantigas vinham as conversas, e Manique fala dos «que andavam espalhados por esta corte, entrando pelos cafés e bilhares a referir os factos da liberdade que haviam praticado os franceses para se tirarem da escravidão em que se achavam sujeitos ao poder de um homem, que era o rei que os governava e os tinha como que em escravidão, contando para abonar o sossego e tranquilidade em que estava a França, as festas de alegria que o povo de um e outro sexo tinham feito por terem conseguido a sua liberdade, e que até duzentas donzelas em Bayona fizeram a sua festa, levantando dois mastros, um com a bandeira inglesa, outro com a bandeira dos americanos, e por baixo de uma e outra bandeira se viam as palavras – Viva a liberdade e morram aqueles que a impedirem! – V. Ex.ª conhecerá quanto são perigosas estas gentes, e que se espalhem pelo povo rústico, e se entretenham  em ouvirem estes contos».[9]

O intendente da polícia lançou as suas Moscas, ou espiões secretos, pelos botequins, e os cocares da liberdade, as alegorias das caixas do rapé, os livreiros e os livros chegados à alfândega, os inocentes versos neoarcádicos, tudo era pretexto para ser posto fora de Portugal, e sendo português desaparecer misteriosamente, indo morrer sem processo, ignorado, nas Pedras Negras! Era assim que procedia contra os «que pretenderam espalhar no público aquelas liberdades que têm adoptado os tais chamados filósofos modernos». No livro Vida de Bocage e Sua Época Literária, já deixámos esboçado este período, em que ao terror das execuções pombalinas, como a de António Pele, e das procissões canibais ou autos de fé, se seguiu o terror policial, que acabou de amoldar este desgraçado povo português para aceitar todas as ignomínias. Foi por estes meios que o povo português chegou ao estado de conhecer que o exploram sem contudo sair da sua apatia, conservando uma extraordinária antinomia entre a consciência e a vontade. Um tal estado acha-se explicado num pensamento do moralista francês Vauvernagues: «A servidão rebaixa os homens até ao ponto de se fazer amada.» Quando se chega a este estado, nem invasão francesa, nem protectorado inglês, nem forças miguelistas, nem violências cabralinas farão mover os fiéis vassalos.

(In Teófilo Braga, História das Ideias Republicanas em Portugal, Vega, 3.ª edição, 2010, pp. 25-32).





[1] Ap. Dedução cronológica, part. I, divis. X, §. 657.

[2] Ibidem.

[3] Ibid. Part. I, div. XII, § 662.

[4] Na biografia, por J. Hel. da Cunha Rivara. Panorama. III, 335.

[5] Contas, t. IV, fl. 220 (Arquivo da Intendência.)

[6] Ibid., fl. 235 (17 de Dezembro de 1794).

[7] Contas, liv. III, fl. 281 (9 de Novembro de 1792).

[8] Contas, t. IV, fl. 163.

[9] Ibid., t. III, fl. 232.


quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Baladro de guerra

Escrito por Teófilo Braga



 

«[Em 155 a. C.] começa o período que é considerado como o período clássico das guerras lusitanas. Os Lusitanos, aliados aos Vetões e comandados por um chefe chamado Púnico, derrotam as legiões do pretor Mânio Manílio e chegam até ao mar do Sul, provavelmente à zona de Cádiz. Não sabemos se havia algum plano específico de ocupação das terras conquistadas, mas a morte de Púnico, com uma pedrada, deve ter alterado os planos da aliança anti-romana. Elegem como chefe a Césaro ou Caisaros, que é derrotado pelo novo cônsul, Lúcio Múmio que se lança em perseguição dos Lusitanos. Inicia-se aqui o plano de batalha que mais usado vai ser pelos Lusitanos, a emboscada e o fingimento da fuga e o regresso repentino ao combate, surpreendendo assim totalmente o inimigo. Confiante na sua vitória irreversível, porque desconhecia a estratégia lusitana, Lúcio Múmio acaba por perder nove mil dos trinta mil homens (entre tropas próprias e tropas dos aliados peninsulares) que tinha ao seu dispor, a crermos na informação de Apiano.

Esta vitória de Césaro levou os Lusitanos do lado de cá do Tejo, citra tagum, a revoltarem-se também. Comandados por Cauceno, atacaram os Conii, que habitavam o actual Algarve e parte do Baixo Alentejo destruindo-lhes a cidade-capital, Conistorgis, que não sabemos onde ficava situada. Outros seguiram o exemplo e os povos peninsulares começaram todos a sublevar-se o que deve ter provocado alarme em Roma que, no ano seguinte, envia novo exército com Marco Atílio no comando. Este consegue penetrar na Lusitânia enquanto os Lusitanos andavam pela Bética e destrói-lhes a sua principal cidade que seria Oxtracas, cuja localização se desconhece, enquanto o governador da Citerior destruía Nertobriga que ficaria próximo de Fregenal de la Sierra, província de Badajoz.

Os anos seguintes vão ser os mais complicados de toda esta situação, pois são nomeados para as duas províncias da Hispânia duas das mais sinistras figuras da História de Roma e da Hispânia, Lúcio Licínio Lúculo para a Província Citerior e Sérvio Sulpício Galba para a Província Ulterior. Ambos vinham dispostos a recorrer a todos os meios para pacificar a Hispânia fosse a que custo fosse.

O primeiro recontro entre as tropas de Galba e os Lusitanos correu mal para as tropas romanas. Derrotado pelos Lusitanos, Galba retira-se para Carmona para recuperar forças e Lúculo vem em seu auxílio e, juntos, derrotam os Lusitanos que são empurrados para a costa, não os deixando atravessar o Estreito de Gibraltar quando estes o pretenderam fazer.

No ano seguinte, em 150 a. C., os Lusitanos, convencidos da sua superioridade, atacam os dois pro-cônsules divididos em grupos, o que leva a que sejam completamente massacrados. Os dois pretores, a partir daí, devastam a Lusitânia, destruindo e roubando e não deixando que os Lusitanos se reorganizassem. É o que se pode deduzir do que se passa a seguir, com os Lusitanos a fazerem uma proposta de paz aos Romanos. Para demonstrarem a sua boa vontade sacrificaram um homem e um cavalo e Galba, fingindo aceitar a sua proposta, fez saber por toda a Lusitânia que iria proceder a uma divisão de terras novas e férteis. Todos os que as pedissem teriam direito a elas e apenas teriam que se apresentar em local combinado e entregar as armas com que combatiam os Romanos. Reuniram-se cerca de 30000 homens, com idade de pegar em armas e Galba aproveitou para lhes fazer o discurso da miséria, quase decalcando as palavras que Aníbal, uns anos antes, havia pronunciado quando quis incentivar os seus homens a lutar contra os Romanos e a marchar sobre Roma. As causas da guerra eram a miséria em que viviam e a falta crónica de boas terras para cultivarem e ele iria acabar com isso, distribuindo-lhes novas terras onde poderiam apascentar os seus gados e dedicar-se à agricultura. Galba ficou conhecido na História pelas suas qualidades oratórias que o próprio Cícero lhe chegou a elogiar e, portanto, poderemos imaginar o contentamento e sentimento de alívio que os Lusitanos não terão sentido quando Galba lhes propôs esta paz duradoura. 

Mapa da conquista da Península Ibérica

As palavras de Lúcio Sérvio Galba, no dizer de Apiano, foram as seguintes:

“Foram recebidos amigavelmente e, em seguida, pactuou com eles, fingindo lamentar a situação em que, por necessidade, se viam obrigados a dedicar-se ao saque, a fazer a guerra e a faltar aos compromissos acordados. A pobreza dos vossos solos e a indigência em que viveis – dizia – é que vos força a fazer estas coisas; eu darei boa terra aos amigos necessitados e distribui-la-ei, sem regatear, para que seja colonizada, dividindo-a em três partes. Atraídos por estas palavras, deixaram as suas próprias casas e partiram para o lugar preparado por Galba. Dividiu-os em três grupos, levou cada um para um lugar plano e ordenou que permanecessem aí até que ele voltasse, assim que encontrasse o território definitivo. Dirigindo-se aos primeiros, ordenou-lhes que, como amigos que eram, entregassem as suas armas; e, quando as entregaram, encurralou-os numa cerca, enviou contra eles os soldados armados e matou-os a todos, embora estes se lamentassem aos deuses e invocassem as juras feitas. Do mesmo modo, com grande rapidez, matou os do segundo grupo e os do terceiro, que ignoravam ainda o ocorrido aos primeiros.”

Como diz o texto de Apiano, Galba mandou-os dividir em três grupos para facilitar a tarefa da distribuição de terras. Após isso, as suas tropas cercaram os Lusitanos e Galba ordenou o massacre de todos os ali presentes. Hoje diríamos que Galba estava a praticar com os Lusitanos, uma política de genocídio, pois, matando os homens em idade de lutar, os mais jovens e mais fortes, estava a evitar a procriação dos Lusitanos. Uma forma de acabar com a guerra, era acabar com a raça lusitana. Galba, como dissemos, estava disposto a lançar mão de todos os meios para acabar com aqueles que havia tantos anos incomodavam os Romanos, lutando com eles e sublevando as populações ibéricas para essa mesma luta. Teriam sido assassinados à volta de nove mil lusitanos e vinte mil vendidos como escravos, dos trinta mil que estariam presentes. Apenas cerca de mil teriam conseguido escapar a este massacre de Galba e, entre eles, um lusitano cuja memória não mais se perdeu até aos nossos dias, Viriato... É esta a primeira presença de Viriato na História de Roma e da Lusitânia e uma das poucas vezes em que os historiadores romanos se referem a ele.

No ano seguinte, Galba e Lúculo, os dois governadores, partem para Roma, carregados de riquezas roubadas aos Vetões, aos Vaceus, aos Lusitanos e outros povos peninsulares mas, conhecidas as suas acções em Roma, em vez das honrarias do Senado e do gáudio da população tiveram a repulsa e a reprovação dos seus actos.

A ambos são movidos processos no Senado, mas Lúculo, politicamente bem colocado, com grandes amizades e com grandes subornos, consegue ver-se livre do processo senatorial e chega mesmo a erguer um templo em honra de Felicitas, a entidade divina a quem mais efectivamente devia. Galba, pelo contrário, pouco hábil politicamente, mas excelente tribuno, excelente orador e melhor ainda explorador dos sentimentos, não só se defendeu a si próprio no Senado, como levou a teatralização da sua defesa ao rubro quando compareceu no Senado com os seus filhos, solicitando ao povo de Roma que os protegesse no caso de ser condenado à morte. Mas nem assim conseguia a absolvição para os seus actos e então, num golpe final, prometeu dar metade do que obtivera na Hispânia à cidade de Roma. O vil metal falou bem alto e Galba foi absolvido e, passados cinco anos apenas, foi nomeado cônsul, o cargo máximo a que qualquer político podia aspirar.

A traição de Galba e Lúculo, este contra os Celtiberos, mas sobretudo, as extorsões, as destruições de populações, os roubos e mortes, as atrocidades que estes dois pretores fizeram na Península Ibérica foram de tal ordem considerados contra os valores tradicionais e pátrios que a República Romana defendia que o Senado acabou por criar uma lei que regulava o poder dos administradores provinciais e constituir um Tribunal para o julgamento dos abusos do poder e da corrupção que o enriquecimento súbito proporcionava e ameaçava minar a estabilidade do Império ainda a formar-se. Foi assim que surgiu um tribunal especial chamado Quaestio de pecuniis repetundis e uma lei para enquadramento jurídico destes casos que ficou conhecida como Lex Calpurnia

João Luís Inês Vaz («Lusitanos – No Tempo de Viriato»).

 

«Após a matança promovida por Galba, parece ter-se seguido um curto período de acalmia. No ano de 147 a. C., porém, um novo bando de lusitanos irrompeu na Ulterior. O governador Vetílio venceu-os e propôs-lhes de novo uma distribuição de terras onde se pudessem instalar. Nesta altura interveio Viriato, ao que parece um sobrevivente da matança de Galba, lembrando-lhes a perfídia dos Romanos e sugerindo-lhes que resistissem, em lugar de negociarem a rendição. O lusitano, aparentemente aclamado como chefe pelo grupo, conseguiu atrair o governador a uma emboscada, em que o venceu e matou. Reagiram os Romanos, enviando contra Viriato um exército composto por mercenários celtibéricos, que foram, por uma vez, totalmente chacinados. Com diversas vitórias obtidas ao longo do ano seguinte, os Lusitanos conseguiram firmar posições em toda a periferia da Andaluzia, conduzindo, mesmo, importantes expedições que penetraram nas regiões sob o domínio de Roma.»

(In «História de Portugal», Direcção de José Mattoso, Primeiro Volume).

 


BALADRO DE GUERRA

Em Roma não se formava uma ideia clara das monstruosidades praticadas por Galba. Diante destes planos de forte administração, e pelas doutrinas da política de interesse, o quadro da mortandade de trinta mil indivíduos desarmados, convocados juridicamente pela autoridade do pretor, e chacinados traiçoeiramente, pouca impressão fazia na alma do povo romano: a falta de sensibilidade moral preparava a sua marcha decadente para a servidão. Mas o crime de Galba era daqueles que fazem levantar as pedras! D’entre os montões de cadáveres, meio incinerados e cobertos de pedregulhos, quando a noite viera pôr termo à carnificina, levantaram-se cautelosamente algumas das raras vítimas, que a casualidade resguardara dos golpes sucessivos que esmagavam aquela multidão inerme; e esses desgraçados, fugindo por entre as trevas cerradas, espalharam-se pelas montanhas e vales, e foram, de povoação em povoação, de cidade em cidade, clamando, bradando, fazendo a narrativa da tremenda catástrofe com que os romanos invasores queriam extinguir os Povos Lusitanos.

Esses foragidos, ainda cobertos de sangue e de lama tábida, rotos e estropiados, levados num desvario de quem perdeu a razão pela enormidade do terror, dispersaram-se pelos campos e foram dar às grandes cidades municipais como Olissipo, aos Conventos jurídicos como Scalabbis e Jerabriga, narrando o espantoso sucesso. Por pobras e aldeias, por casais e vilares, por citânias no alto dos montes, por toda a parte correu o rumor sinistro da mortandade atrocíssima e iníqua, e não houve fôlego vivo que se não estorcesse em ímpetos de cólera impotente, em revolta moral contra o maior atentado que à luz do sol se tinha praticado contra a lei humana. O grito delirante dos foragidos, que iam de terra em terra repetindo a trágica narração, tornava-se contagioso, e acordava um profundo instinto de revolta, que ia crescendo como uma onda até rebentar numa convulsão irreprimível. Os Arevacos, os Tittes e os Belli, povos que andavam sempre em mortais conflitos, agora achavam-se unidos no mesmo protesto. Rugidos de cólera irrefreável irrompiam entre os Astúrios, Callaecos, Vacceos e Carpetanos. Estes olhavam com ansiedade quem daria começo a uma luta, para a qual nada estava preparado, a não ser um temperamento sempre resistente. Para o sul os Oretanos, Bastitanos e Edetanos ardiam num rancor exacerbado pela inqualificável traição de Galba, legítimo representante da fé romana. Já soavam no ar cânticos de guerra, que levantavam as almas. E até por essas povoações remotas e mal conhecidas, como Lubara, Aritium, El-bocoris, Araducta, Verurio, Vellade, Arabriga, Tacubis, cujos nomes os geógrafos romanos e naturalistas não queriam repetir por considerá-los bárbaros, por onde quer que passaram os foragidos que escaparam casualmente da horrífica matança, já se formavam troços de gentes armada com hozes, ou fateixas de arremesso, catanas grossas, pelo instinto natural da defesa de seus lares.

Esses poucos foragidos levaram na palavra o incêndio, que se espalhava de cidade em cidade, de povoado em povoado, narrando desenfeitadamente o crime do governo de Roma. É certo que a população lusitana estava cansada das recentes e ineficazes lutas; as cidades confederadas e estipendiárias queriam o sossego da sua vida laboriosa, suportando sacrifícios da liberdade. Nas cidades dos Turdetanos, como Balsa, Salácia, Cetóbriga ecoara imprevistamente o caso nefando da carnificina, e lamentavam não existirem chefes que organizassem a resistência contra o brutal e monstruoso atentado. E se esta impotência, ao menos, assegurasse alguns anos de tranquilidade para o sul da Península! Outro pretor que venha, diante da impunidade deste, até onde levará as depredações e os morticínios!

Os povos que gozavam das garantias de Município romano não queriam mover-se para não decaírem dos privilégios que fruíam concedidos pelo conquistador. Os povos que participavam dos direitos do antigo Lácio obedeciam à mesma tendência egoísta. Somente entre os povos na situação de tributários poderia surgir um impulsivo instinto, mas impotente de revolta. Nas cidades dos povos denominados Célticos e Iberos havia um certo ciúme contra a aspiração hegemónica dos Lusitanos, mas nem por isso se ligou menos interesse às narrativas dos foragidos da matança de Galba. Os seus gritos repetidos de terra em terra chegaram a Laucóbriga, a Castraleuco, Arandis, Mirebriga, e os trabalhadores do campo interrompiam as bessadas para escutarem esse caso estupendo. As festas religiosas e as nupciais suspendiam-se à chegada dessas figuras sangrentas, que pareciam fantasmas ressurgidos do campo da matança para virem reclamar a eterna vindicta.

Ouvireis o que bradavam esses foragidos, quase em delírio, alguns caindo no chão esgotados de sangue que ainda vertiam das feridas, outros borbotando sangue pela boca, aos gritos convulsivos com que narravam o caso da mortandade.

“O pretor Sérvio Sulpício Galba convocou para uma assembleia nas campinas da margem direita do rio Tagus, os três Conventos da Lusitânia Emeritense, Pacense e Scalabitano com as trinta e seis cidades estipendiárias, recomendando que viessem sem armas, porque se tratava da distribuição de terras, do estabelecimento de novas colónias, e de elevar alguns povos tributários aos privilégios de cidades confederadas, de município romano e do antigo Lácio.

Confiados nas palavras do édito do pretor, concorreram ao local que lhes fora aprazado, muitos povos, interrompendo as suas lavouras. E como se fosse para uma festa de paz e congratulação levaram consigo suas mulheres e filhos, e os anciãos mais venerandos das tribos, como arreféns do seu ânimo pacífico.

O pretor ordenou que se ajustassem na campina em que tinha mandado plantar uma Árvore de Maio, junto da qual se devia assinar o pacto perpétuo da concórdia com as tribos lusitanas.

Enquanto se esperava o pretor cercado da sua Coorte, começaram a aparecer quatro legiões, que se formaram em orbis, estendendo em ordem de batalha as suas fileiras, e envolvendo como numa grande muralha toda aquela multidão inerme! Ninguém suspeitava o intuito do súbito envolvimento.

Os manípulos da legião, com as suas bandeirolas foram marcando os lugares, que à frente de todos ocuparam os hastários. Por trás destes ficaram os príncipes dispostos de modo a por entre eles poderem recuar os que lhes estavam em frente; na terceira linha estendiam-se os triários, como barreira de resistência.

Depois disso apareceu a cavalaria, correspondendo quinhentos cavaleiros a cada legião, armados com o gládio hispânico de dois gumes. Foi então que um gélido terror se apoderou daquele povo indefeso. As lanças e chuços dos hastários colocaram-se por um movimento repentino em riste, como formando uma muralha cerrada de espetos.

O pretor Galba não aparecia! Um pressentimento de morte se estampou na lividez de todos os rostos, quando viram por detrás dos triários moverem-se torres de madeira, catapultas e balistas.

Com certeza Galba planeara uma infamíssima traição! Como fugir-lhe? As mulheres, em lamentos atroadores, abraçavam os filhos, sem perceberem ainda o perigo. Os velhos aconselhavam prudência, esperando serenos as ordens do pretor.



Neste momento de angústia pesados calhaus foram de longe arremessados por catapultas contra aquela multidão compacta, esmagando ali algumas centenas de lusitanos. O grito de espanto parecia uma tempestade. Os que tentavam fugir foram espetar-se e morrer nas fileiras cerradas dos hastários; os que se estreitavam uns aos outros num pânico inconsiderado abafavam-se.

E enquanto iam chovendo os grandes calhaus arrojados pelas catapultas, caíam sobre a multidão as falaricas ou lanças incendiárias, que os Romanos tinham tomado dos costumes hispanos, e outros engenhos arremessavam panelas de pez e estopa ardendo, que os cestrofendones faziam cair no meio da assembleia.

E como se não bastasse tudo isto para destruir aquela gente desarmada, os fundibulários baleares mantinham um chuveiro de pedras sempre certeiras, coadjuvados pelos arcubalistas.

A multidão ainda se movia, embora não oferecesse resistência alguma, mas Galba, querendo terminar a sua hediondíssima traição e vendo que o sol já declinava, resolveu o final extermínio antes do descer da noite. Os cavaleiros recusavam-se à fadiga de passar à espada tantíssima gente inerme que ainda sobrevivia. Foi então que Galba se lembrou de como na guerra da Macedónia, Paulo Emílio deveu a vitória decisiva ao emprego da táctica dos elefantes; e deu logo ordem a que os dez elefantes oferecidos por Massinissa aos Romanos para servirem nas guerras contra os Celtiberos, se empregassem agora para acabarem de esmagar os temerosos rebeldes Lusitanos.

Os elefantes couraçados com chapas guarnecidas de espadas foram conduzidos para aquele montão de gente, cuja carne e sangue formava com a terra recalcada uma massa horrenda. De baixo das patas dos dez elefantes sentiam-se fracassar os ossos das vítimas, e o sangue respingava-lhes até aos peitos, prendendo-se-lhe nas pernas as tripas que eram causalmente arrancadas na sua passagem.

A noite vinha descendo caliginosa e um vapor espesso se erguia dos vales fundos. Foi então, que ainda d’entre o montão dos cadáveres se ergueu um vulto sorrateiramente, e saltando ao pescoço de um elefante, o pesado animal caiu redondamente morto em terra! As trevas iam-se engrossando, e o vulto ágil e escorreito foi assim saltando sobre cada um dos elefantes, que por seu turno iam caindo mortos! Quem seria esse vulto extraordinário, que sabia o segredo de dar a morte instantânea a tão poderosos animais, em cuja pele não penetravam os mais pujantes dardos? Quem quer que fosse, ele sabia o segredo aprendido nas guerras púnicas: de que a mais leve picadela no bolbo pela vértebra que toca no crânio do elefante fazia-o cair fulminado instantaneamente. Assim foram mortos os dez elefantes.

A noite era já cerrada; e enquanto Galba mandara lançar fogo ao montão dos cadáveres entre os quais foram encontrados os dez elefantes de Massinissa, d’entre esses cadáveres escaparam-se alguns indivíduos que se tinham ocultado debaixo dos corpos exânimes, e que se fingiram mortos: são esses os que anda de cidade em cidade da Lusitânia e da Turdetânia pedindo vingança! Vingança! Vingança!”

Por vales e serras, e ressoando de monte a monte, entoava-se um canto de guerra, que fazia referver o sangue nas veias, exaltando os espíritos ainda os mais acabrunhados. O Canto pedia mais do que a reflexão, e cada povo acrescentava-lhe uma nova estrofe, como a aspiração do resgate. A palavra poética é alada, o prestígio da tradição transpõe idades repercutindo-se na alma dos vindouros.

 

BALADRO DE GUERRA

 

Terra da Lusitânia,

Ensopada em sangue

Por horrendo baldão!

Chamou-nos o Romano

Para a aliança da paz,

Mata-nos à traição!

Vírus de Iniquidade,

Desse fermento de ódio

Brote a destruição.

Que a lança dos Quirites

Se quebre, e em nossa frente

Não se erga legião!

Quem sobrevive ao crime,

E escuta estes lamentos

Da atroz desolação;

Quem perdeu lá seus filhos,

Os pais, entes queridos,

O esposo, o irmão;

Que se revoltem todos,

Peitos sejam escudos,

Lanças raios na mão!

Sofrimento e opróbrio,

A morte e a vingança

Forçam à união!

Vós, Povos da Callaecia,

De Oretânia, Betúria,

 Cinésia região;

Robustos Carpetanos,

Tartéssios, desmembrados

Da Lusónia nação!

Que o mesmo ódio nos una,

Vingai mortos, e os vivos

Salvai da escravidão!

Reviva a Lusitânia,

Ensopada no sangue

Da romana traição.


(In Teófilo Braga, Viriato – A Epopeia Lusitana, Zéfiro, 2.ª Edição, 2015, pp. 23-28).