domingo, 6 de fevereiro de 2022

Study of 145 countries finds sharp rise in virus transmission and death AFTER introduction of Covid vaccines

Written by Cassie B.


See here

Despite growing awareness of the risks of COVID-19 vaccines, many people are willing to take their chances in hopes of slashing their odds of getting severely ill or dying from COVID-19. However, those who are calculating the risk versus reward might want to keep a recent study in mind that indicates an association between the vaccines and a higher rate of COVID-19 infections and deaths.

The study, Worldwide Bayesian Causal Impact Analysis of Vaccine Administration on Deaths and Cases Associated with COVID-19: A Big Data Analysis of 145 Countries, essentially found that vaccines are doing precisely the opposite of what everyone hoped they would accomplish.

As the title indicates, this was not a small study; it involved analyzing data from 145 countries, and the conclusions are mind-blowing: The vaccines were associated with a 38 percent rise in the number of Covid cases per million in the U.S. and a 31 percent rise in the number of deaths per million associated with Covid. And it’s not the only one to reach this conclusion; many other studies have shown that the overall situation seems to get worse, not better, with more vaccination.

Overall, the study found that 89.94 percent of the 145 countries studied experienced a rise in total deaths per million associated with Covid as a direct result of the causal impact of vaccines, while 86.78 percent of countries noted a rise in total cases per million of the virus as a direct result of the causal impact of vaccines.

The study reports: “Results indicate that the treatment (vaccine administration) has a strong and statistically significant propensity to causally increase the values in either y1 [variable chosen for deaths per million] or y2 [variable chosen for cases per million] over and above what would have been expected with no treatment.” 

See here

The study reached its findings after carrying out a causal analysis that compared pre-and post-treatment periods to determine the differences in cases and deaths since the vaccines were implemented using publicly available COVID-19 data. After eliminating the results from countries that had incomplete data or very low vaccination rates, they came up with 128 countries that had sufficient data on deaths and 103 for examining total cases, for a total of 145 unique countries.

Interestingly, the countries that noted the fewest Covid deaths in 2020 saw the biggest jumps in cases and deaths after the introduction of the vaccine, with some noting rises of as much as 1,000 percent. Some of the countries that fared the worst in this regard include Thailand, Taiwan, Vietnam, Seychelles, Cambodia and Mongolia.

It’s a very disheartening finding, particularly for the many people who got these vaccines because they believed what governments around the world were telling us: that getting vaccinated would help the world get back to normal and allow people to enjoy their freedoms. In many cases, people who had serious reservations about the potential risks of the jabs got them anyway because they faced losing their jobs and livelihoods. The vaccines were supposed to bring infections and deaths down, not up.

It’s time for a new approach

The study suggests a new approach to dealing with the pandemic: “These results should encourage local policy makers to make policy decisions based on data, not narrative, and based on local conditions, not global or national mandates. These results should also encourage policy makers to begin looking for other avenues out of the pandemic aside from mass vaccination campaigns.”

While there’s a lot more money to be made from giving the entire population vaccines followed by endless boosters, the only real way out of this is finding safe and effective prevention and treatments. From communicating the importance of having sufficient levels of nutrients to acknowledging the efficacy of treatments like Ivermectin, there is much more that could be done right now to alleviate the pandemic than focusing on vaccines that aren’t living up to their promises.

(In VACCINNES.NEWS)





















See here and here





See here

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Leonardo Coimbra na terra mais antifilosófica do Planeta

Escrito por Álvaro Ribeiro

 



«Victor Mendanha – As missões das pátrias são resultantes dos desígnios humanos ou dos desígnios divinos?

Agostinho da Silva – Até hoje todas as metafísicas têm procurado saber isso, mas ninguém conhece como se move a máquina da História nem como se move a nossa máquina pessoal, ela própria parte da máquina da História.

Cada um, segundo o seu desenvolvimento, inteligência e cultura, segundo a educação e as circunstâncias ambientais, se inclina para uma ou outra solução mas parece-me que seria muito interessante para Portugal que um dos objectivos em vista, no seu desenvolvimento cultural e no seu procedimento futuro, fosse o de encontrar uma Metafísica tão vasta e tão geral capaz de reunir, como casos particulares e legítimos, em cada indivíduo, todas as filosofias que têm existido até hoje e aquelas que se venham a inventar.

E sobretudo que essa Metafísica, essa Filosofia ou essa Teologia, como pretenderem, não seja uma coisa apenas cerebrada, apenas pensada, mas algo realmente praticado, vivido, a que se seja inteiramente fiel em cada procedimento do existir.

V.M. – Esse deve ser um caminho difícil. Que português atingiu essa fidelidade aos seus próprios pensamentos?

A.S. – Espinosa, o único grande filósofo português e, porventura, um dos maiores filósofos do Mundo, teve esse cuidado. Ele não pensou, apenas, uma determinada filosofia e a escreveu, como foi coerente com ela e procedeu, sempre, como se não existisse outra maneira de viver senão essa.

Recusou todas as cátedras de Filosofia oferecidas, saindo da Sinagoga quando achou não estar de acordo com a Sinagoga, além disso quando pensou que as suas inclinações cristãs podiam não ser, exactamente, a de todos os outros, retirou-se igualmente daí.

No seu procedimento, na sua maneira de ser individual, Espinosa comportou-se, sempre, como o mais humilde dos homens, vivendo do seu trabalho que era o fabrico da lente, gastando o menos possível e ainda dispondo-se a defender os seus direitos, quando achava que os tinha, uma coisa que, por vezes, parece repugnar às pessoas...».

Conversas com Agostinho da Silva


«Dá-nos Agostinho da Silva uma imagem de si que é a imagem do filho pródigo antes de regressar a casa de seus pais. A casa que abandonou é a escola de Leonardo Coimbra, a Renascença Portuguesa, a mitologia de Pascoaes, a filosofia portuguesa de Álvaro Ribeiro e José Marinho. Sempre a casa lhe esteve e está aberta, com o lume aceso e o pão na mesa. Amuos de Menino – ele é que é o Menino dos “Impérios” – prendem-no lá fora ao frio de um cientismo que deu o que não tinha a dar, à secura de um racionalismo sergista de que já se não vê o que ficou e coisas semelhantes que são o que mais há por esse mundo das universidades, das academias, das instituições, das teocracias sem Deus onde Agostinho parece dizer que gosta de fazer figura.



Da casa o viram a andar pelo Brasil e alegraram-se. Como os caminhos do Brasil passam perto da casa, esperam-no prestes, puseram mais um pão na mesa, mais uma acha ao lume. Em vão. Já velho, admirável velho, várias vezes passou à vista da casa, ouviu as vozes, parou, mas os amuos de menino foram mais resistentes. Álvaro Ribeiro ainda lhe demonstrou que o V Império, a ser coisa de Portugueses e do Espírito e se algum sentido tem, só pode ser a “filosofia portuguesa”. Inútil. Todavia, para ficar a meio caminho e ainda lhe chegar algum calor do lume, agarrou-se a Pessoa. Mas Pessoa está atirado à fama como um osso aos cães e é preciso esperar que, envenenados pelo osso, os cães o larguem. Teimou em retomar o blá-blá socializante da sua juventude sergista e, contentes, os dos poleiros dos galinheiros do Estado cobrem-no de flores, mostram-no na televisão, põe-no na capa de revistas, plebeízam-no.  


No fundo, porém, ainda o têm por suspeito. Por isso o querem atirar agora para os confins da África perdida. O que lhes é suspeito é “aquela luzinha no alto dos céus” que ele um dia nos disse ser donde lhe vem toda a filosofia. É o que o fez dizer que “ Portugal é um dos nomes de Deus”. É o patriotismo e a Pátria que nele dá pelo nome de V Império. É o que fez dele um dos nossos mestres. É o que o fará, inevitavelmente, regressar à casa de seus pais.»

Ernesto Palma (Leonardo, Ano I, n.º 4, Dez. de 1989).


«A ciência não pode coisar em nenhuma das suas noções, mas, quando chega à pessoa, o dinamismo dialéctico da actividade moral deixa de ser o determinismo das noções inferiores para ser a própria noção de pessoa livre, que põe para si e [a] sociedade, por meio dos determinismos inferiores como instrumentos, a acção moral eficaz, fecunda e generosa. Já, em ciência, nós vimos que, ao chegar à psicologia e sociologia, o vício coisista se manifestava pelo reverso de não querer aceitar a realidade da ideia, do pensamento e do sentimento, sempre pela mesma cegueira da inteligência vulgar, que é uma inteligência táctil. A ciência só permite realizar, em sistema completo, a personalidade moral. Porque não há-de ser ela a suprema realidade?

Qual a noção de ordem científica que a isso se oponha?

O desaparecimento da pessoa e da vida e a permanência da matéria? Mas nós só assistimos ao desaparecimento da forma empírica duma dada personalidade, isto é, ao desaparecimento do sistema de determinismos inferiores, que a pessoa tenha dirigido.

Não assistimos ao desaparecimento da Vida, nem da Consciência. Sabemos, pelo contrário, que é impossível tirar, da matéria, a vida e a consciência: são noções cientificamente irredutíveis.»

Leonardo Coimbra («O Criacionismo»). 


«Na sua serena e fecunda velhice, Goethe parece ter dito algumas vezes este preceito sibilino: “aquele que aspira ao Infinito só tem um trajecto a seguir: é percorrer todos os caminhos do finito”. Leonardo Coimbra sem ter, afigura-se-nos, estudado Goethe, no bom sentido da palavra “estudo” (o que foi seguramente para ele um grande mal, pois nenhum outro homem poderia tanto tê-lo ajudado a obter o equilíbrio e a sabedoria que os seus dons espontâneos baldadamente esperaram) cumpriu, pode dizer-se, como poucos, esse fado. A sua curiosidade universalista recorreu a todas as expressões particulares de esclarecimento e informação: a poesia, o romance, o espiritismo, a teosofia, a mística, a metapsíquica, a psicanálise, a teologia. Mas, acima de todas, foi à ciência, nas suas múltiplas especializações, que o seu espírito frequentemente recorreu. Por este lado poucos homens nos nossos dias (sem distinção de país) terão tido uma informação mais variada e vasta. E não basta dizer “informação” – porque Leonardo Coimbra, de facto, não era apenas uma pessoa “informada” mas dotada de um conhecimento profundamente reflectido de todas as ciências fundamentais, tanto no que diz respeito à genética dos seus conceitos gerais como sobre os progressos experimentais, de cada uma. E como ele possuía uma visão rigorosamente lúcida e historicamente informada das vicissitudes do pensamento filosófico europeu, desde os gregos aos modernos, e uma reflexão amadurecida no estudo das interferências dessas vicissitudes do pensamento especulativo sobre o caminhar das ciências (e o inverso), a sua inteligência possuía o dom raríssimo de ver simultaneamente os problemas metafísicos mais graves, implícitos nas noções ou teorias científicas, e apontar o significado das descobertas mais discretas de cada uma. O seu primeiro e já citado livro O Criacionismo é um testemunho significativo dessa duplicidade de dons, já possuídos em esboço por Antero, mas sem a segurança e a acuidade que nesta obra é manifesta. Por esse primeiro ensaio de filosofia tenta-se pela primeira vez, em Portugal, uma crítica do valor das noções científicas conjugada com uma crítica geral do conhecimento aplicada a todos os sistemas filosóficos importantes, em vista de uma tentativa de síntese unificadora de todas as contribuições para a compreensão do real, desde a contribuição das ciências do chamado inerte até às experiências morais, artísticas e religiosas. Quer dizer: Leonardo Coimbra tenta nessa obra precoce (e ofegantemente escrita – como aliás, todas as que escreveu) realizar este intento: achar uma imagem total da realidade, fundada na intuição de que na essência dessa realidade há, a despeito de todos os indícios de esmorecimento e usura, uma outra tendência invencível e contrária: a da criação ascensional de cada instante, a do aumento de Ser das formas ou estádios inferiores de ser no sentido das superiores, a lei do trânsito do mecânico para o vivo, do vivo para o espiritual, do espiritual para o consciente! Esta intuição optimista Leonardo Coimbra não desejava, porém, simplesmente afirmá-la, mas pô-la simultaneamente à prova dura de todos os factos e modalidades de conhecimento; e, principalmente, pô-la à prova, como ele mesmo diz, do conhecimento detentor de maior crédito social: a Ciência. Daí a obrigação que ele a si próprio se impôs de examinar os conceitos últimos de cada ciência e, a seguir, a óptica, que cada uma possui, na focagem dos seus factos particulares, inquirindo dos primeiros a origem (o que lhe permite mostrar que todos têm a proveniência comum e metafísica das Ideias), e, quanto à óptica, mostrar que os factos superiores da realidade concreta, a Vida, o Espírito e a Convivência, são gravemente lesados no que têm de específico (a espontaneidade e a luta contra a entropia) pela tendência notória nas ciências mais novas a verem esses factos pela “óptica” relativamente justificável para estudar e exprimir o procedimento dos factos do Inerte (ou tido como tal). Mediante esta demonstração (que, é certo, já estava feita por Boutroux e Bergson, mas que no nosso país era inteiramente ignorada) Leonardo Coimbra intentaria então, e intentou, denunciar a deficiência da óptica científica determinista e entrópica e provar que a óptica da contingencialidade e da espontaneidade ascensional está mais de acordo com a maneira de ser dos factos mais importantes, até aí lesados nos seus caracteres específicos pelo prestígio do mecanismo materialista: os factos vitais, sociais e espirituais. – Claro que uma empresa desta natureza era grande demais para um homem da sua idade (28 anos), nas circunstâncias desfavoráveis (para não dizer o qualificativo de Schopenhauer), em que a realizou, desajudado inteiramente das condições elementares de ambiência propiciatória à realização de uma tarefa tão nova e tão difícil. Não é, pois, de admirar que nesse livro hajas páginas intempestivas e precoces, muitas precipitações críticas, muitas dissonâncias afectivas, inadequadas à gravidade intelectual da tarefa que nele se tenta realizar. Em todo o caso esse esforço não pode deixar de ser tido como um testemunho estranho, de uma individualidade culturalmente orientada num sentido nitidamente inexplorado por nós. A despeito de todas as suas deficiências (e arrogâncias adolescentes!) esse livro é, na verdade, a primeira demonstração da amplitude singular da inteligência de Leonardo Coimbra; é por ele que se pode avaliar o drama do homem que quebra a tensão superficial do ambiente intelectual em que nasce e se esforça, ele mesmo, por criar outro ambiente mais de acordo com as solicitações viscerais do seu espírito; é por essa obra insólita, exclamativa e interrogativa talvez em demasia, mas honesta com todas as suas audácias ingénuas, que pode admirar-se a intensidade da sua amizade de saber e a sua capacidade de espontânea iniciação em problemas que eram literalmente virgens no nosso meio; é, finalmente, por esse livro, tão tocado, como todos os que se lhe seguiram, de inquietação, e todo ele percorrido por um indefinível halo de fatalidade, que se deixa vislumbrar (estamos em dizer) o presságio da morte que rondava o lar deste homem, e mais longinquamente, o pressentimento do seu fim trágico!»

Sant’Anna Dionísio («Leonardo Coimbra»). 




«O preço de ser consciente, lembra-nos então Leonardo Coimbra, é cindir, limitar, distinguir. Sensação e imaginação, memória e amor existem originariamente como formas mais profundas de relação com o Ser que por elas exprime no homem tudo quanto pode, mas não tudo quanto é ou sabe. Tal é o sentido do pecado “impropriamente chamado original”: pois na criança, como no ser auroral, como em toda a forma inicial de ser ou de consciência, há uma “promessa infinita”, que no homem não dá tudo quanto anunciara. Por isso Leonardo Coimbra nos diz ser inviável qualquer cosmologia autêntica sem restituir à sensação como à imaginação, à memória como ao amor, o seu valor originário de “insofismáveis” caminhos do conhecimento. Do Amor e da Morte assinala, como vimos, o imprescindível sentido e valor da iniciação cósmica pelo amor.

Para compreender tudo quanto em várias linhas de visão, alegoria ou conceito o pensador por tais caminhos estabelece, importa introduzir a noção de símbolo ou correspondência simbólica. Sem isso, A Alegria, a Dor e a Graça permanece um livro cerrado. Há, assim, correspondência explícita entre o processo cósmico – aurora, manhã, luz meridiana, tarde, crepúsculo e noite – e o próprio ritmo da vida do homem – nascimento e infância, puberdade, juventude, maturidade, velhice e morte; essa correspondência, aqui mais difícil de determinar, estende-se aos graus e formas da consciência e da razão, da arte, do saber e da acção, do conhecimento e da religião. Neste sentido já antes vimos uma correspondência entre a Aurora, a Infância e a Sensação. No Cosmos vivente, no homem vivente e na consciência, são formas de relação entre o Universo, o homem e o mais íntimo ser de tudo.

Se tais formas nos dizem apenas o que ocorre em tais e tais circunstâncias determinadas, é porque não atendemos ao mais fundo sentido que possuem, porque não as consideramos como os já referidos “núcleos de realidade” nos quais o ser aparece em sua plenitude substancial e significativa. Uma imperativa mas falsa concepção do tempo dispõe tais formas de ser ou de intuição em “cadeias de causalidade”; entretanto, sob essa relação extrínseca, é sempre possível ao homem, alguma hora, algum dia, penetrar na intrínseca relação. Nenhum homem deixa de viver nela ou dela, nenhum ser ou forma de ser, por mais humilde. E uma nova ideia aparece na filosofia de Leonardo Coimbra.»

José Marinho («O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra»).


Leonardo Coimbra na terra mais antifilosófica do Planeta

A palavra filosofia significa etimamente o amor da verdade, ou a primeira forma de amor. É o amor académico, ou platónico. Em estudo novel de prefácio à primeira tradução portuguesa do Banquete, ou Simpósio, Leonardo Coimbra explicou luminosamente o que significa essa ascensão da Terra para o Céu, cuja doutrina Sócrates atribuiu iniciaticamente à Mulher de Mantineia.

Oráculo de Delfos

O filósofo português, seguindo a tradição católica em que havia sido doutrinado, compõe o platonismo com o cristianismo, para concluir pelo preceito religioso de conhecer, amar e servir a Deus. A tal mandamento subordinou a sua actividade de pensador, de orador e de escritor. Qualquer nota sobre a conversão do filósofo à apologética católica da tríade Deus, Cristo, Igreja, excederá o propósito de elucidar a unidade consciente de uma dedicação à Pátria Portuguesa.

Este breve resumo do sistema filosófico de Leonardo Coimbra, dividido segundo a teoria do pensamento, a teoria do conhecimento e a teoria do procedimento, não comporta bem a temática múltipla e vária de uma intervenção atenta e operante que procurou inserir-se na cultura da sociedade contemporânea. A extensão e a dispersão dos escritos de Leonardo Coimbra, que não estão reunidos em volumes dignos de uma edição completa, dotada dos índices onomásticos e ideográficos, impede, dificulta e adia a composição de um estudo de profundidade, analítico e sintético. Não deixa, porém, de nos inquietar a interrogação sobre o problema de como uma obra ímpar, original e superior de um filósofo não exerceu notável influência docente sobre os escritores contemporâneos, nem foi integrada no património cultural da sociedade portuguesa.

Os livros publicados pelo autor de O Criacionismo não provocaram a responsabilidade dos estudiosos competentes que se mantiveram num prudente ou dúbio silêncio; não obtiveram dos periódicos culturais grande recensão informativa ou grande crítica judicativa; não deslindaram mais do que meras notícias bibliográficas. Até mesmo nas revistas de que Leonardo Coimbra era colaborador foram escassos os artigos próprios para projectar voz eloquente sobre uma actividade editorial que causava estranheza e merecia o respeito de estudiosos interessáveis. Escritores contemporâneos, dotados de alguma preparação filosófica, como Alfredo Pimenta, António Sardinha ou António Sérgio, em poucas palavras expressaram a sua atitude emulativa e competitiva perante uma obra que ia sendo construída na coerência séria de uma tecnicidade perfeita.

A fidelidade à filosofia não é frequente nos escritores portugueses, os quais cedo se desinteressaram da teoria pura e da valoração especulativa para aplicarem a sua cultivada inteligência a actividades menores ou inferiores, como a história, a política, a economia, a geografia, onde realizam trabalhos subsidiários mas subordinados, quando não se deixam absorver pelo jornalismo partidário ou pela crítica literária, onde satisfazem as suas veleidades ou as suas vaidades. A filosofia exige condições de dedicação, isenção, instrução que a sociedade portuguesa não garante nem respeita, antes pelo contrário ofende ao praticar injustiça na distribuição legal dos vencimentos, das recompensas e dos prémios. Num momento de sombria amargura referiu-se Leonardo Coimbra ao criacionismo como um conjunto de doutrinas expostas na terra mais antifilosófica do Planeta [1].



A filosofia não tem lugar de distinção, identidade e independência nas instituições culturais da sociedade portuguesa, em contraste nítido com a literatura, a história e a tecnologia. Ninguém observa que os problemas filosóficos, tal como aparecem enumerados na sua nudez lógica, são os promotores do aperfeiçoamento da ciência pura. Tal atitude condenatória da razão explica o lamentável predomínio de uma mentalidade assente no empirismo da imaginação e da sensitividade, e explica a causa, ou a origem, de muitos estranhos acontecimentos sociais.

Leonardo Coimbra não se deixou intimidar pela aversão que a sociedade portuguesa apresentava à filosofia e aos filósofos, pois enfrentou com superior ironia os remoques e as galhofas que costumam recair sobre os pensadores teóricos, especulativos e contemplativos. Ele vivia a síntese subjectiva da sua aptidão para os trabalhos a que se dedicava e plena certeza de que cumpria a obrigação de servir a verdade. De livro para livro ia completando, corrigindo e aperfeiçoando a exposição de uma doutrina a que fora fiel desde a hora da sua primeira intuição religiosa.

Como fiel de Deus, revendo a sua personalidade na imagem da sua obra escrita, tinha plena consciência de que era um homem superior. Sem falsa modéstia, mantinha com os seus contemporâneos um convívio afável e agradável, já que em monadologia aceitava o princípio moral da «equivalência metafísica das almas». Atraía a si a curiosidade de alguns admiradores que se agrupavam para formação de uma tertúlia sem paralelo na vida da cidade política e industrial.

O Mestre era dotado de um espírito de escol e de um temperamento aristocrático. Elevava o pensamento de quantos o escutavam. Com efeito, ele teve frequentes ocasiões de mostrar que a divulgação cultural, política ou religiosa, era uma ilusão, uma mentira, uma fraude, porque fazendo apelo ao bom senso repartido entre os homens, segundo o aforismo cartesiano, fingia facilitar o entendimento do que só a exigente razão filosófica pode ceder a quem praticar o respectivo esforço especulativo.

Entre quantos falam de política, só poucos serão capazes de pensar o significativo étimo de cada termo da nomenclatura, só raros estão habilitados para dizer uma definição certa, segundo as normas jurídicas constitucionais. A democracia afirma que a qualquer homem, votador, eleitor ou crítico, bastará a boa volição para dizer quem é justo e quem é injusto nos negócios públicos e nos ócios particulares.

Porque a liberdade não assenta na vontade, mas na inteligência, a discussão política não passa, na maior parte das vezes, de um processo singular de julgar pessoas, quando o seu fito verdadeiro deveria ser o de analisar os critérios legítimos de tais juízos, ou as lícitas premissas do silogismo formal.

Tem sido discutido o problema de saber se Leonardo Coimbra, sempre pronto a ensinar por discurso todos quantos desejassem ouvi-lo, pretendia, ou não, criar discípulos quando usava o método socrático, platónico e aristotélico de dialogar. Inclinamo-nos para a resposta afirmativa. De outro modo não poderemos entender a prática dialéctica e didáctica do filósofo português, nem a intervenção do político nos departamentos da escolaridade pública.

A preferência espiritual do autor de Adoração ia para os poetas da nova onda, a quem traduzia o autêntico valor das mais altas, belas e significativas obras de Antero, Junqueiro e Pascoaes. A hermenêutica daquelas palavras que em português são comuns à poesia e à liturgia – tais como admiração, adoração, iniciação, mistério, entusiasmo, boaventura ou felicidade, paraíso terrestre e celeste, – era a chave esotérica que lhe permitia abrir e expor os segredos recônditos na consciência, e na inconsciência, dos génios. Os discípulos davam prova de gratidão pelo ensinamento do Mestre, dedicando-lhe sonetos publicados nas revistas literárias ou pedindo-lhe humildemente a honra de um prefácio para o primeiro livro de versos.


Ver aqui

A confessada relação da poesia com a filosofia na história do pensamento português alarga um tópico dos nossos estudos humanísticos que havia sido pela primeira vez enfrentado por Fernando Pessoa, nos seus célebres artigos de A Águia. O movimento da «Renascença Portuguesa» procurava associar, na sua temática poética, a inspiração haurida na Natureza e a inspiração haurida na História. Ensinou Fernando Pessoa que a Religião, – digamos, a transnatureza e a transhistória –, se desenvolve culturalmente no quadro da teologia católica, ortodoxa ou heterodoxa.

Exemplos vivos de poetas inquietos, oscilantes e dubitativos, foram Teófilo Braga, Gomes Leal e Guerra Junqueiro, afirmando a oposição dialéctica, pondo Deus oposto ao Anti-Deus, Cristo oposto ao Anti-Cristo, Jeová oposto a Satã. É de observar que no catolicismo português avultam São Paulo, Santo Agostinho e S. Francisco de Assis como figuras carismáticas da predilecção dos humanistas mais ou menos democráticos. Muitas poesias religiosas são motivadas pelo calendário litúrgico ou consagradas ao devocionário dos santos e dos anjos, o que convém notar etnograficamente, visto que Portugal tem sido, apesar de tudo, excessivamente santeiro na antroponímia e na toponímia.

Eis porque a leitura da Divina Comédia, catedral insuperada da poesia católica, continua a ser recomendada aos verdadeiros poetas pelos verdadeiros filósofos. Augusto Comte teria desejado também que a poesia humana se depurasse segundo a lei dos três estados, deixasse a mitologia vulgar e a lei metafísica pretensiosa, doutrina que aparece mais belamente explicitada na teoria da arte de João-Maria Guyau. O processo positivo de análise poética foi realizado por Leonardo Coimbra nos estudos que dedicou à psicologia de alguns autores e à síntese sociológico-religiosa de alguns poemas, em textos de alto comentário para exaltação e glória da literatura portuguesa.

Motivo certo de útil monografia minuciosa seria o estudo comparativo das obras poéticas que Leonardo Coimbra leu, estudou e meditou, com suas notas decisivas sobre as vivências essenciais, estruturais e existenciais, estudo que nos deixaria ver os temas preferidos pelo filósofo: a contradição da Natureza, o nascer e o morrer, a vida e a morte, a luta pela imortalidade, o destino das almas, a fenomenologia e a ontologia do amor. A filosofia portuguesa, esboçada já por precursores românticos, atinge no criacionismo a consciência formal, a expressão técnica e a comunicação didáctica a que pensadores, os leitores e escritores não estavam habituados. Os seus traços distintivos, digamos agora sem imagem – diferem e divergem das doutrinas europeias que mais divulgadas foram no século XX, mas agrupam-se e articulam-se de modo coerente, racional e transcendente na construção majestosa do genial, ou geniado, filósofo português.

Em um número da revista Atlântida, expressamente elaborado para situar Portugal na cultura complexa e complementar da Europa, deteve-se Leonardo Coimbra a escrever uma resenha subtil da evolução cronológica e ideológica da nossa poesia para a nossa filosofia. Alude apenas aos trabalhos dispersos de Amorim Viana, Antero de Quental e Sampaio Bruno, que considera sinais de crise e trabalhos de crítica, sem função adunativa de intuição original. «Filosofia sistemática temo-la nós; – afirma modestamente Leonardo Coimbra; – não nos compete, pois, referi-la. Apenas diremos que nos nossos livros – O Criacionismo, O Pensamento Criacionista, A Morte, A Alegria, a Dor e a Graça – ele está exposto e que seria interessante compará-lo com o que dissemos sobre o pensamento poético.

«O seu anti-cousismo, o seu pluralismo social, o carácter do equilíbrio social, permanentemente reinventado pelos seres sociais, o poder criador do pensamento, a realidade metafísica das memórias, o princípio da conservação e evolução da memória, tudo isto é de molde a fazer pressentir o seu parentesco espiritual com o pensamento poético português» [2].

Outras características determinam também a originalidade da filosofia leonardina. A distinção entre a análise científica ou regressiva, e a síntese filosófica, ou progressiva, que está na linha paralela à distinção entre cousismo e criacionismo, mas também a ontologia da alma e a fenomenologia do amor na estética, na ética e na política, pensadas contrariamente às oposições dialécticas, polémicas e trágicas, enfim, a relação religiosa das almas com Deus e de Deus com as almas, são teses que poderiam ter sido anotadas no belo ensaio do modesto escritor. Só o estudo assíduo da obra de Leonardo Coimbra poderá demonstrar que o filósofo português foi em algumas críticas precursor de outros filósofos europeus, seus contemporâneos, graças ao talento poético, fecundo e valioso com que foi agraciado pelo Espírito Santo.

Leonardo Coimbra era em 1917 um homem ciente e consciente do seu valor. Em 1912, quando estava prestes a completar 30 anos de idade, elaborou um livro, O Criacionismo, que concluía com estas ingénuas palavras: «Eis a filosofia que um pensador português pensou na sua terra natal, diante a evocação de todos os homens e seres, na mais pura sinceridade e na mais verídica, premente e directa curiosidade» [3]. Tal apresentação de um pensamento filosófico original merecia ser acolhida e saudada como a promessa de uma série de trabalhos que o autor poderia expor, desenvolver e fundamentar.

Com efeito, Leonardo Coimbra continuou a estudar a fundamentação do seu sistema filosófico, e a expor a sua teoria do conhecimento. Viu com extraordinária lucidez as doutrinas dos filósofos mais célebres, ou mais celebrados, abrindo com uma crítica notável os horizontes fechados pelos sistemas de Kant, Schopenhauer e Nietzsche. Não só nos seus livros mais conhecidos, mas também em muitos artigos insertos na imprensa concelhia, municipal ou regional, de norte a sul do País, Leonardo Coimbra repartiu a verdade de que vivia e de que se nutria, luminosamente anunciada em A Alegria, a Dor e a Graça (1916).

Leonardo Coimbra tinha perfeita consciência de que assumira na cultura portuguesa uma posição singular, adquirida não só por um decénio de profundos estudos literários, científicos e filosóficos, mas também pelo que da sua palavra luminosa iam dizendo os ouvintes e os leitores, os quais exprimiam a sua estranheza em juízos levianos, provenientes de inveja, maledicência ou admiração estulta. Leonardo Coimbra não se considerava por isso um homem superior, um super-homem, ou um génio, como provou na modéstia de uma vida dedicada à missão generosa de ensinar, explicar e educar, própria de um espírito transigente, tolerante e bondoso; mas reconheceu e apontou a inferioridade das «aparências ou dos esboços de alma» que a injustiça social ia situando nos postos mais eminentes, onde se faz a distinção entre o bem e o mal, o crime e o castigo. «A filosofia – explicou em um momento mais alto da sua carreira – é o depoimento de cada época sobre o grau da sua cultura, e é sobretudo o depoimento das almas mais esclarecidas e leais sobre a relação da consciência moral do homem com a mais provável realidade que a actividade científica tenha atingido» [4].

(In Memórias de Um Letrado, II, Lisboa, Guimarães Editores, 1979, pp. 135-144).



[1] O Pensamento Filosófico de Antero de Quental. 240 – Porto, 1921.

[2] Leonardo Coimbra. A poesia e a filosofia moderna em Portugal. Artigo publicado em Atlântida. Mensário artístico, literário e social para Portugal e Brasil. Volume VII, número 25. Lisboa, 15 de Novembro de 1917.

[3] O Criacionismo, 311.

[4] A Razão Experimental, 85.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Apologia de Leonardo Coimbra

Escrito por José Marinho




«De facto os aplausos e a admiração que Leonardo Coimbra colhia (como ele não podia deixar de o perceber) eram puramente espectaculares, dirigidos apenas à sua personalidade exterior de tribuno e homem estranho: na realidade, ninguém o compreendia; e o homem de valor o que deseja é que participem das suas preocupações e não que admirem a sua figura, ou timbre de voz, ou facilidade de palavra; o que ele quer, em suma, é que o compreendam e não que o aplaudam. Leonardo Coimbra sentia com nitidez a sua incomunicabilidade, e sofria como todos os homens superiores a têm sofrido, em todos os tempos e lugares, e sofrerão sempre; sob a máscara do tribuno que frequentemente subia aos estrados para falar, falar, falar, dando-se o ar de homem que tinha a satisfação de transferir as suas ideias, havia o rictus secreto, cheio de amargura, do pensador que sabia que as suas obras somente eram vendidas nas feiras do livro a preços irrisórios, para não serem vendidas a peso. Quantas vezes nos últimos anos, quando os amigos lhe perguntavam de longe a longe se andava a pensar algum livro, ele replicava com rápida mordacidade – “ – Mas para quê? Neste país não se pensa: neste país...».

Sant´Anna Dionísio («Leonardo Coimbra»).


«A obra filosófica de Leonardo Coimbra, como a de Bruno, carece de estilo clássico, no sentido de uma forma constante, rigorosa e severa. Entretanto, podemos preguntar-nos: ao lado de uma filosofia mais especulativa e noética, não existirá uma filosofia ética ou estética ou religiosa, mais próxima daquelas formas de ser, sentir ou pensar que não são susceptíveis de verificação fácil e geralmente acessível? Pode ser única a forma de filosofias em que é diversa a origem, diversos os caminhos de conceber?

O pensamento de Leonardo Coimbra vale pelo seu contraste fortemente acusado: nenhum outro filósofo português realizou a sua filosofia com consciencialização tão ampla e profunda do saber científico, com tão ampla informação das várias formas de cultura; mas nenhum também considerou tão reflexiva e intensamente o drama de ser, nenhum foi tão profunda e consequentemente caracterizado pela inquietação religiosa. A este contraste importa meditar com atenção, pois tudo depende disso.

Acentuando ainda como a forma do pensamento é adequada ao pensamento que traduz, poderemos atender com proveito às diferenças entre Bruno e Leonardo subsistentes, apesar de todas as afinidades. Bruno pertence, pelo contrário, ao grupo de pensadores que vivem na constante exigência, mais ou menos dolorosa, de exprimirem uma ideia remota e obscura, sempre fugitiva. Nada disto se revela, pelo menos com constância, na obra do pensador que estudamos. O seu pensamento é espontâneo e rápido, e a obra que deixou apresenta sinais disso. Apesar dessa espontaneidade, ou por virtude dela, Leonardo Coimbra, como os pensadores do seu tipo, tem uma unidade na sua obra que ao unilateral critério formalista escapará. Os seus livros têm de uns para os outros relações tão próximas, quer pareçam facilmente apreensíveis, quer mais dificilmente, por mais profundas, que o espanto não pode deixar de surgir em quem, vencidas as dificuldades da forma ou formas de expressão, penetra no âmago especulativo. Tais correlações não se apresentam apenas se atendermos ao pensamento geral e essencial, ao enigma que o suscita e aos problemas propostos, pois são neste caso muito visíveis –, tais correlações surgem-nos também quanto aos problemas tratados em cada escrito e à maneira como são postos noutro, ao tema de cada livro, sempre antecipado, de alguma maneira, no que precede, sempre correlacionado com o anterior ou posterior.»

José Marinho («O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra»).


«Nas lições e nas conferências, Leonardo Coimbra não se demorava a enunciar o problema nos seus melhores termos, a enumerar as soluções apresentadas, a eliminar pela crítica as hipóteses mais fracas, e a fazer, por fim, o encómio da tese sobrevivente. Nada havia na sua oração que recordasse os métodos escolares, porque perorava de maneira tal que parecia estar criando a própria ciência na presença dos ouvintes admirados. Eis porque, descurando os efeitos práticos, menos se ocupava com o grau de instrução, a capacidade do auditório e parecia por vezes esquecer, perdido, as circunstâncias exteriores do local onde fazia as suas conferências e lições.

De milhares de discursos aventados por Leonardo Coimbra, resistiram ao esquecimento os poucos proferidos na Câmara dos Deputados, entre os quais figura, como obra-prima de eloquência, aquele que ficou conhecido pela designação de A Questão Universitária. A mesma rapidez do orador eloquente se manifestava no modo por que o pensador escrevia artigos para os jornais e revistas e, bem assim, alguns dos trabalhos de menor tomo. Esta facilidade, que por vezes lhe foi condenada como um desleixo, representa, porém, riqueza e fluência de expressão, testemunha uma caridosa resposta a várias solicitações, mas significa também a séria atitude do filósofo que sabe que a sua missão não é escrever.

Leonardo Coimbra e Teixeira de Pascoaes

A atitude sempre juvenil de Leonardo Coimbra era manifestada pela irreverência perante as hierarquias postiças, especialmente por aquelas de que poderia ser beneficiado, pois temia a sonolência da consideração social como pressão contra a liberdade da inteligência. Desde o anarquismo que se exercitava a inverter paradoxalmente a ordem dos valores consagrados, embora na intimidade da alma se conservasse muito fiel à axiologia cristã. Não se julgava mais sábio por adquirir a mestria de refutar os argumentos dos seus adversários, nem por chegar a posições sociais excessivamente altas para o alcance da crítica, porque não confundia o envelhecimento mundano com o progresso da filosofia. 

Leonardo Coimbra escreve sempre como um homem moço, como quem ainda não está ciente das diferenças de memória entre velhas e novas gerações. Todo o mundo do pensamento lhe parece viver em estação primaveril, compreendido e assimilado no instante primeiro da criação, sem as cores amarelentas da história e sem a poeira das antecedências revolvida por cansativo labor de homens decepcionados. Não cura, pois, da ciência ou da ignorância dos seus leitores, inibe-se de apresentar as credenciais de todas as ideias que vai sucessivamente descobrindo, e se, por vezes, desenvolve, descreve ou narra, em súmulas expressivas, assim procede apenas para a sua comodidade de expositor.

É de observar que o erudito Leonardo Coimbra pouco tinha de estilo paleográfico, pois nas páginas dos seus livros raramente aparecem parágrafos transcritos de livros alheios e, muito menos, lugares comuns de citações, frases bíblicas, versos latinos, locuções francesas, enfim, quaisquer vestígios banais daquela cultura de segunda mão com que costumam enfeitar seus textos os escritores facilmente compreendidos e vulgarmente celebrados. Leonardo Coimbra não ignorava a deontologia da citação e bem sabia, portanto, que a citação pressupõe a leitura de todo o livro a que o texto pertence e obriga à indicação da fonte bibliográfica, geralmente omitida nos livros de menor valia. Porque se manteve mais leal para com os leitores do que fiel para com os autores, e sobretudo porque da filosofia não sobrevalorizava os livros, nem sequer os seus, mas o pensamento vivo e influente, limitava as suas referências de erudito apenas ao nome do pensador visado, não se demorando a ir buscar à estante o livro que comprovaria a sua extraordinária erudição.» 

Álvaro Ribeiro («A Arte de Filosofar»).


«O pensamento de Leonardo Coimbra não é, entretanto, aquele dinâmico ser do espírito que visa à quietude do absoluto. Nenhuma síntese definitiva o espera, a nenhum conhecimento pode atingir que semelhe o terreno lago de águas plácidas onde se remirasse o céu imóvel. Por isso o pensamento permanece indefinidamente aberto, “avançando na síntese progressiva que é a sua vida e encerrando-se, não no sistema estático do conhecimento, mas nas próprias fecundas entranhas, para se apreender como infinito, eterno e criador.» 

José Marinho («O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra»).


«O pensamento medieval construía a realidade com as noções dum Aristóteles emagrecido.

Era um coisismo dessas noções. O materialismo é também um coisismo de noções.

(...) Quando o pensamento sossega na ruminação das noções elaboradas, há um período de distinções formais, uma escolástica, que acaba de sentir a impossibilidade dum perpétuo movimento sem novo combustível; surge, então, o grito de regresso à Natureza.» 

Leonardo Coimbra («O Criacionismo»).


«Enquanto formos homens, não podemos escapar de ser, em grande medida, aristotélicos, pois... em muitos assuntos, pensar correctamente é pensar como [ou porventura com] Aristóteles; e somos seus discípulos querendo ou não, embora possamos não sabê-lo.»

Cardeal John Henry Newman


«Um desses assuntos foi, decerto, a lógica, e o que Aristóteles pensou a respeito é que ela não é nem mesmo uma parte integrante da filosofia, e sim apenas um treinamento preliminar que, uma vez absorvido, pode ser esquecido no fundo e deixar espaço a modalidades menos formalizadas de investigação, mais compatíveis com a natureza esquiva de certas questões. Embora ensinando que a lógica é a forma por excelência da prova científica, Aristóteles adverte que em todas as investigações o problema fundamental não é a exata demonstração lógica, mas a descoberta das premissas, para o que a lógica é absolutamente impotente, devendo ceder lugar à dialética, à retórica e até à imaginação poética. Uma filosofia que pretendesse reduzir-se à lógica, ou mais ainda à lógica das ciências, seria no entender de Aristóteles-Newman a aberração das aberrações.»

Olavo de Carvalho («A Filosofia e seu Inverso»).





«A demonstração retórica da tese consiste em propor um meio adequado aos extremos. Descobrir o conceito mediador ou terceiro termo, enfim, pensar por tríades, é que é verdadeiramente raciocinar.

É nesta altura que convém ao pensador estar ciente da doutrina do silogismo, tal como se encontra apresentada por Aristóteles nos Primeiros Analíticos. Muito menos do que considerar o silogismo constituído por duas premissas e uma conclusão, conforme se diz nos compêndios escolares, convém estudar o problema na própria ordem do progresso retórico. O que é dado, ou apresentado, em primeiro lugar é o logismo da conclusão; o que é postulado, ou exigido, é o elemento capaz de unir os extremos, o conceito mediador da razão. Conforme esse trabalho de pesquisa intelectual se afastar ou se aproximar das regras necessárias, assim teremos o silogismo ou o seu contrário, o paralogismo.

Utilizando o exemplo clássico, diremos que o problema consiste em demonstrar que Sócrates é mortal. S é P. Os extremos são Sócrates-mortal. Há que procurar o conceito mediador, que por extensão abranja o indivíduo Sócrates e que por compreensão inclua a qualidade de mortal. É o conceito de homem. Está virtualmente constituído o silogismo.

A regra de que na conclusão, quer dizer, na tese a defender, a demonstrar, ou a provar não entra o conceito mediador é regra de primordial valor prático. Veremos então que sendo duas as premissas, e cada uma delas constituída por dois termos, não será difícil discernir no termo repetido o verdadeiro ou falso mediador. Todos os homens são mortais, Sócrates é homem. Na conclusão desaparece, por inútil, o intermediário: Sócrates é mortal.

Estudando analiticamente o silogismo, isto é, prestando atenção aos extremos da proposição a demonstrar, e vendo que o problema consiste em procurar o meio adequado para com ele dispor e compor as premissas, ninguém considerará inutilidade retórica a silogística de Aristóteles.

(...) Todo o Organon de Aristóteles é digno de estudo actual. O silogismo é objecto de minuciosa elucidação nos livros Analíticos. Se é certo que nos primeiros, o silogismo figura apenas como elementar processo de retórica, indiferente à verdade da tese que convém demonstrar, já nos segundos livros o silogismo aparece tratado como um processo de investigação científica, segundo a doutrina propriamente aristotélica.

A disposição do silogismo, com duas premissas seguidas de conclusão, tal como costuma ser apresentada nos livros escolares, representa já o segundo estádio da retórica, quando o orador e o escritor pretendem mais convencer do que persuadir. Assim, admitida a primeira premissa, quase sempre a maior, e admitida também a segunda, o ouvinte, ou o leitor não poderá deixar de admitir também a conclusão, que será de consequência necessária se o silogismo for composto segundo as regras. É neste carácter de necessidade, muito mais do que na verdade de uma ou duas premissas, que reside a força (vis formae) do constrangimento silogístico.»

Álvaro Ribeiro («Estudos Gerais»).


Apologia de Leonardo Coimbra

A compreensão do pensamento de Leonardo Coimbra não depende apenas de nos interrogarmos sobre o que é a filosofia. Só isso não seria já certamente fácil, pois nem filosofar é dado a quantos de filosofia se ocupam, nem tão-pouco a interrogação séria admite resposta definitiva e rígida. O conceito de filosofia desloca-se com o mesmo filosofar na mutante série dos conceitos; por outro lado, como Leonardo Coimbra de vários modos mostrou, aquele sério pensamento ao qual move o amor autêntico e imperioso da verdade não pode contentar-se de deambular na rasa planura uniforme do mundo natural, social e cultural, ou do pensar que nasce e morre, mas ascende, pelo contrário, e necessariamente, dos planos mais baixos da vida para os mais altos.



Assim, ler o filósofo responsável é acompanhar um espírito que sugestiva e imperiosamente interroga, ler o filósofo responsável não é apenas receber a luz útil, mas resolver um enigma e situar-se, sem ilusões, perante o Mistério. Por isto mesmo se ignorar, tantos juízos vãos têm sido proferidos sobre Leonardo Coimbra, como sobre os filósofos mais antigos e mais modernos da longa e nobre tradição europeia. E não cabe duvidar de que ler um filósofo não é apenas receber luz de útil candeia como implacável e sagrada perante a ignorância atrevida que acaba sempre por tornar-se perigosamente dominadora nas épocas de homens «diligentes e adormecidos», desatentos e incapazes de séria reflexão. Como os seus pares, Sampaio Bruno, Junqueiro e Teixeira de Pascoais, Leonardo Coimbra pagou pesado tributo às circunstâncias terríveis em que surgiu. Mas, é bem verdade, os caminhos por ele abertos e o melhor sentido da sua mensagem, as imagens inabituais, a expressão multímoda e as ideias subtis – tudo seria demasiado difícil, e até mesmo em época mais propícia e compreensiva. Ser poeta ou filósofo com alto, inquietante e original sentido religioso da vida, é coisa anómala e paga-se sempre caro.

Quantos tentaram já inventariar a obra escrita de Leonardo Coimbra procurando ter em conta os dispersos e também os discursos que proferiu, tentando o aproximado cômputo das lições dadas durante uma vida activíssima e num labor gigantesco, sem hiatos, suspendem-se e regressam atónitos perante a vastidão de formas que ficaram, ou passaram, jorrando, do poderoso caudal. Assim também a vida que ante nós decorreu, e só por ângulos parciais apreendemos, na multiplicidade das formas assumidas, quando evocada em horas de meditação solitária, ao tentarmos penetrar-lhe o enigmático sentido – também essa, a vida riquíssima e complexíssima, nos deixa perturbados, também aí a multiplicidade parece irresolúvel; se preferimos um caminho de compreensão, a breve trecho advertimos que outros começam a ficar para trás, mas se passarmos, com novo critério, a seguir caminho diferente, logo nos escapa alguma coisa que no primeiro começáramos a explorar. Ora, para um filósofo e um Mestre como Leonardo Coimbra, pertencente à cada vez mais rara família dos espíritos universais, não está tudo em seguir a linha de luz, nem vida tão significativa em todos os momentos pode alcançar-se, num deles sequer, sem penetrar-lhe todo o sentido. Onde haveremos, porém, de situar-nos para a ver plenamente sem injustiça ou falsidade, desde onde haveremos nós de considerá-la? Qualquer visão se revela afinal inadequada, por mais cuidadosa e fiel que se tenha esforçado por ser. Talvez metodologicamente a visão simplificadora, nos quadros da filosofia tradicional ou da ética comum, seja requerida para começar, pois de algum modo é forçoso começar; mas tal limitação metodológica não é aceitável se acaso se insiste em mantê-la como definitiva. Aliás, seria isso renegar o próprio espírito patente do magistério e da obra de um homem assim. Ensinou sempre Leonardo Coimbra, mostrou sempre e escreveu sempre de modo a não sacrificar a verdade divina no humano sistema e a não encerrar a vida infinita em qualquer fóssil fórmula, por mais bela ou nobre que parecesse, por mais alta tradição que apresentasse. Muitas vezes disso nos advertiu, muitas vezes o comunicou em palavra e exemplo; e no seu livro sem dúvida alguma mais original, A Alegria, a Dor e a Graça, advertiu como importa não apenas considerar no estudo da realidade e do homem “a fanerogâmica rútil de sol, mas também a criptogâmica das sombras».

Então, perguntar-se-á, e eu também me pergunto, não foi Leonardo Coimbra um pensador solar, não foi ele, como eu próprio tentei mostrar, a estupenda excepção num povo e numa região espiritual cuja vida religiosa e cuja filosofia são sombrias, intermitentes e nocturnas, estupenda, inesperada e magnífica excepção nesta Ibéria pressurosa de renegar o dia do Renascimento como se não fosse sequer madrugada? Quantas coisas sérias e fundas desdenhadas pelos nossos críticos e pelos historiadores da nossa cultura, sempre desatentos ao autêntico sentido universal da vida, bem diferente do mero universalismo abstracto, construção do intelecto sem fundas raízes no seio do Universo e no âmago do espírito! Também neste ponto hoje escapa todo o sentido do magistério e da obra de Leonardo Coimbra, como antes da sua vinda escapara já o mais oculto, obscuro e nocturno sentido da obra de Sampaio Bruno, os dois homens que com os poetas significativos do nosso país e da nossa época, procuraram dizer-nos que a autêntica vida de espírito só vale quando radicada no originário amor da verdade e no sentido fundo deste homem e desta terra, não em métodos ou resultados que se importam da sábia Europa. Quantos se aperceberam de que na sublime poesia de Pascoais estão solidários a árvore e o céu? A equivocada geração de Antero continua a dominar e a absorver a mente. E assim, o sentido da mensagem de Leonardo Coimbra e dos que imediatamente o precedem ou acompanham está injusta e gravemente desatendido ou deturpado.



Dotado daquele imperioso amor da verdade, tão raro, que move e abrasa a alma inteira, e como tal filósofo primacial, para tal sagrado naquele sem distância onde não chegam os juízos dos homens, Leonardo Coimbra foi portador da raríssima forma do Logos à qual os gregos sábios chamaram logos genesíaco: foi, como tal, Mestre, e no mais nobre sentido da palavra. Ora, quem de mestres alguma coisa sabe, e não só por ter tido a graça de receber a lição de um deles, mas por ter estudado longamente os admiráveis diálogos platónicos, e neles ter surpreendido tudo quanto a ideal sabedoria calou ou transmutou, esse e esses sabe e sabem como é raro um Mestre e quanto é absurdo julgar em nome do pensamento filosófico escrito, metodizado e sistematizado, aquela viva fonte que o torna possível. E se o dizem e o repetem, é por verem quanto estão cegos e surdos aqueles mesmos que deviam ver e ouvir.

Leonardo Coimbra surge, pois, como um Mestre no mais nobre sentido da palavra. Isto quer dizer que jamais transmitiu saber feito, nem método para o alcançar. Tendo dado testemunho da verdade, falou-nos não só da primeira, a que ilumina subitamente a alma, mas também da que surge depois, pelos longos e tenazes combates interiores. A sua exigência racional existia num grau que não vemos em qualquer outro pensador da sua pátria, e este contraste entre os subtis caminhos da fé, ou da intuição que a semelha, e a exigência da razão, tal contraste, digo, explicaria só por si os difíceis caminhos do seu pensamento. Como todos os homens da rara estirpe, sabia ele desde início que a verdade vem aos homens e neles se implanta por uma forma de fé autêntica e subtil, e que filosofia só da razão ou da intuição sem fé é coisa que dá glória humana ou gloríola terrestre, mas jamais abriu as cerradas portas do Templo sem materiais formas que se encontra a todo o momento submerso sob o caudal da vida fictícia, insignificativa e passageira.

Considerado em seu conjunto, perscrutado em sua activa essência, seu pensamento, e a vida e a obra que exemplarmente o exprimiram, fundem-se em harmoniosa ideia, viva e fecunda. Quem pudera não só tê-la sugerido, mas dado por completo! Foram maiores nalguns dos seus próximos os dons estéticos, outros (mas quantas vezes para apurarem insignificantes ninharias) raciocinaram mais rigoroso, nenhum entreabriu mais extraordinárias perspectivas ao espírito, nem deu tão admirável exemplo de inquieta e incessante busca da verdade. Até ao fim, até à conversão, e na mesma conversão, seu pensamento e sua vida perseguem um fim rigoroso e desenvolvem-se com harmonia sem par. Deveria saber-se que, em todo o tempo, de excesso de razões e formal logicismo adoeceu e morreu o pensamento sem originárias garantias e sério intento.

Três sinais, que nunca mentem, distinguiram sua alma profunda, assinalaram sua vida, se exprimiram em sua fisionomia, seu gesto, seu magistério poderoso, seu juízo implacável, sua imaginação alada, seu verbo fecundo e inolvidável: a exigência de verdade, o sentido da liberdade e a dádiva de amor espiritual aos discípulos, aos amigos, a qualquer classe, turma ou assembleia que o ouvisse, por mais impreparada ou ignara, fluindo através desses, para aqueles mesmos seus detractores, inocentes colaboradores e indirectos arautos da sua glória, que foram, e são, à direita e à esquerda, seus e nossos contemporâneos triunfantes.

Tal como a de todos os desdenhados pensadores portugueses do passado mais remoto e do século XIX, carece a obra de Leonardo Coimbra de leitura e interpretação completa, de estudo longo e compreensivo. No seu caso, é a obra, e mormente se nela incluirmos os dispersos, decisiva para nós, porque formula em nossa língua, e em termos mais próximos da tradição portuguesa, as frementes questões desta perturbada época e põe em linguagem actual, os eternos problemas. Todo o seu significado tornou-se-me mais evidente desde que estudei as suas relações com o pensamento de outro e desdenhado filósofo português, ao qual já antes aludi: Sampaio Bruno. Mas a obscura e profunda obra de Bruno, qualquer que seja o seu valor, e eu próprio tentei demonstrá-lo, não tem certamente par com a obra luminosa, imperiosa e decisiva de Leonardo Coimbra.



Sob certo aspecto exprime essa obra um mundo que morre, exprime-o na maneira de pôr os problemas, na forma de expressão, nos conceitos; sob outro aspecto, nas imagens mais raras e nas ideias mais fundas, assinala o mundo que alvorece. Para além do que se derruba ou do que desponta na linha incerta do horizonte, propõe significativamente, como nenhuma outra nossa, relações pensadas e meditadas com a vida profunda e sempiterna. E certamente, dado o plano a que ascendeu a sua fé e com ela o seu pensamento, o influxo espiritual de Leonardo Coimbra não depende já da vária sorte da filosofia, da cultura, da política ou mesmo da religião, na parte ou no aspecto em que esta permanece ligada e encadeada ainda nas formas da ignorância e da pequenez dos homens. O influxo do magistério e da obra ampla e multímoda, mas constante e consequente de Leonardo Coimbra, seguramente depende daquilo que é mais fundo e subtil na alma dos homens e, para além disso, do que excede o homem.

(In Obras de José Marinho, Estudos sobre o Pensamento Português Contemporâneo, Biblioteca Nacional, Lisboa, Gráfica Eme Silva, Travessa do Fala-Só, 1981, pp. 105-109).