quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Do lugar inlocalizável do eu

Escrito por Fernando Pessoa






Brincava a criança
Com um carro de bois.
Sentiu-se brincando
E disse, eu sou dois!

Há um a brincar
E há outro a saber,
Um vê-me a brincar
E outro vê-me a ver.

Estou por trás de mim
Mas se volto a cabeça
Não era o que eu qu'ria
A volta só é essa…

O outro menino
Não tem pés nem mãos
Nem é pequenino
Não tem mãe ou irmãos.

E havia comigo
Por trás de onde eu estou,
Mas se volto a cabeça
Já não sei o que sou.

E o tal que eu cá tenho
E sente comigo,
Nem pai, nem padrinho,
Nem corpo ou amigo.

Tem alma cá dentro
'Stá a ver-me sem ver,
E o carro de bois
Começa a parecer.




sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

O génio nacional, a filosofia portuguesa e os tratantes da política

Escrito por Orlando Vitorino








«As características da filosofia portuguesa encontram-se há muito enunciadas em obras de mérito, de talento e de génio. Se a alguns estudiosos pareceram até agora demasiado envolvidas em expressões de deficiente luminosidade racional, tornar-se-ão, porém, claras, nítidas e evidentes quando relacionadas com uma classificação realista das ciências filosóficas. Assim, se concedermos que a teologia, a antropologia e a cosmologia são as ciências fundamentais, e se com estas relacionarmos a filosofia do direito e a filosofia da arte, teremos o quadro onde mais bem se espelha a nossa aptidão para harmonizar a cultura com o culto.

Não tem sido, porém, este o critério adoptado no ensino liceal e superior. A filosofia dividida em quatro ou cinco partes, (psicologia, lógica, moral, teoria do conhecimento e metafísica), por imitação do que se observa na Europa Central, não pode ser disciplina que reconheça a autenticidade e a originalidade do pensamento português, e muito menos doutrina que estimule o desenvolvimento da nossa tradição. A adopção de um abstracto, parcial e falso universalismo, tem por consequência obrigatória, que parece necessária, a negação das filosofias nacionais, e, portanto, o desconhecimento da filosofia portuguesa».

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«Ao dizer-nos, a nossa 4.ª Tese, que a filosofia não se referencia à ciência, podemos pois perguntar-nos qual a ciência que ela tem em vista. Evidente é concluir que se trata da ciência moderna. Reconhecemos como isso é limitativo, mas compreendemos que, dada a convicção generalizada que descrevemos, tenhamos de admitir a redução de todas as ciências à moderna, situação que ela própria criou. Mas perante esta situação, forçoso é acrescentar aqui o seguinte. É certo que em qualquer caso, isto é, perante qualquer ciência, a filosofia não carece de a ela se referenciar mas, no caso da ciência moderna, e ao contrário do que acontece com a clássica, é a própria ciência que impossibilita a referenciação uma vez que supõe e afirma a inexistência da filosofia, ela também dada como um estádio ultrapassado, já não no progresso da ciência única, mas no do pensamento que habita o homem. Momentos definitivos e decisivos desta afirmação, em Descartes apenas anunciada, são o kantismo, o positivismo e o socialismo. Como Hegel discursivamente demonstrou na "Introdução" à sua Ciência da Lógica, a crítica kantista corta o caminho a qualquer desenvolvimento do pensamento filosófico. O positivismo, por sua vez, faz condição da sua doutrina a extinção da filosofia, consistindo num progressismo que vem do que chama a idade teológica à idade filosófica, ou metafísica, e, extinta esta, avança hoje pela idade positiva na qual todo o pensamento possível se reduz a pensamento dos conhecimentos científicos. O socialismo, finalmente, fecha todo o pensamento, seja ele pretensamente filosófico, e todo o conhecimento, seja ele científico, numa teoria social».

Orlando Vitorino («As Teses da Filosofia Portuguesa»).






O génio nacional, a filosofia portuguesa e os tratantes da política


1. Nota prévia sobre a liberdade de expressão e de como ela não passa de uma tácita convenção que convém ter o cuidado de não denunciar.

O escrito que se vai seguir é o comentário a um artigo de J. Gaspar Simões recentemente publicado no “Diário de Notícias", artigo que, na generalidade do contexto, este comentário enaltece. Gaspar Simões, por sua vez, é uma personalidade que o autor do comentário muito respeita e admira.

Vivemos agora num regime político que constitucionalmente faz da liberdade de expressão um ponto de honra intocável e um princípio sobre o qual jamais admitirá fazer a mínima concessão. Vamos, então, pôr a hipótese de que o autor deste comentário propõe a sua publicação a um dos jornais em que o actual regime se espelha, seja ele um jornal estatizado, como aquele mesmo “Diário de Notícias”, seja ele o jornal de uma empresa privada mas ligados aos órgãos do regime, a, por exemplo, um qualquer partido político. A proposta seria inevitavelmente recusada. Por múltiplas razões.

Uma dessas razões, talvez a primeira, resulta de o comentário reconhecer, aliás em concordância com Gaspar Simões e na expressão que ele próprio emprega, a existência de “um escol de pensadores que, no nosso tempo quiseram resgatar o génio nacional”. A discordância com Gaspar Simões pode, portanto, gozar da liberdade de expressão constitucionalizada enquanto o nosso comentário não pode ser publicado. E é assim, assim tem de ser, porquê? Porque se há um “génio nacional” a resgatar, isso significa que a Pátria está a ferros ou, como dizia o Dr. Mário Soares, que “Portugal está amordaçado”. Se o escol que o quis resgatar nada conseguiu, como pretende Gaspar Simões, então sempre fica a dúvida se esse génio nacional existe efectivamente, e o artigo pode publicar-se. Mas se, como nós demonstramos, ele foi resgatado, então o regime vigente é responsável de os portugueses estarem entregues a ideologias e doutrinas importadas, é um regime de ocupação, e o nosso comentário não pode ter direito à liberdade de expressão.

Parece-nos ocioso, e até ofensivo para a inteligência do leitor que vai ler o comentário, apresentar mais algumas das outras múltiplas razões. A que apresentámos é suficiente para que o leitor conclua que a constitucionalizada liberdade de expressão não passa de uma figura de retórica, de uma formal convenção impossível de cumprir mas que ninguém deverá atrever-se a denunciar como tal. E se acaso lhe vierem com comparações, como a de entre hoje e o antigamente, lembrar-lhe-emos, prezado leitor, uma observação de um livro famoso mas pouco lido: “Nas ditaduras, a violência tem rosto visível; nas democracias, o rosto da violência é invisível”.

Para completa elucidação do leitor, devemos ainda acrescentar que o que começámos por apresentar como mera hipótese a propormos a qualquer jornal do regime a publicação deste comentário – não é apenas uma hipótese pois a proposta foi de facto feita e a publicação foi de facto recusada.

Restava-nos, então, recorrer a um jornal que esteja fora do regime e das convenções sobre a liberdade de expressão. Recorremos a “O Diabo” e ao desassombro da nossa amiga Vera Lagoa. Um jornal que se situa fora do regime, é necessariamente um jornal de oposição. Mas também aqui o regime estabeleceu uma outra tácita convenção: a de chamar oposição apenas àqueles sectores do sistema que, durante os períodos rotativos em que não dispõem dos poderes do Governo, fazem críticas, também por convenção inócuas e inconsequentes, aos sectores que, nesses períodos, têm nas mãos aqueles poderes. Quando ao Partido X cabe a vez de estar no Governo, o Partido Y é a oposição. Deste modo hábil e eficaz, mas sinistro, o sistema declara aos quatro ventos haver lugar para todos, situacionistas e oposicionistas, e assim se defende de ter de reconhecer a existência da verdadeira oposição que assim se vê encurralada numa actividade quase clandestina e esmagada com os epítetos mais atemorizadores: reaccionária, fascista, saudosista, etc.




Estabelece-se, por estes e outros meios, aquilo a que os gregos chamaram uma oligarquia. Há tempos, na tribuna da Assembleia da República, o primeiro-ministro Nobre da Costa avaliou esta oligarquia em 500 mil pessoas, resultado que obteve somando todos os filiados nos partidos políticos existentes. Já seriam, esses, apenas um vigésimo da população portuguesa. Mas não são tantos porque a maior parte daqueles filiados constituem as bases em que assentam os oligarcas. Estes limitam-se, de facto, às direcções dos partidos, a uma clientela que lhes está mais próxima e a uma minoria das Forças Armadas, e outras instituições que, como as Universidades, há muitos anos se tornaram imprescindíveis a quem, em qualquer regime, nos queira governar. Bem feitas as contas, a diferença quantitativa entre o total dos oligarcas no actual e no anterior regime ou não será nenhuma ou será a favor do anterior regime. Aliás, a maior parte deles são os mesmos.

Também por esta via terá o leitor de concluir que, já não apenas a liberdade de expressão, mas a liberdade como princípio geral, é apenas, no actual regime, uma figura de retórica política. A tácita convenção sobre a liberdade de expressão não é mais do que uma forma de a oligarquia se afirmar, se defender e se impor.


2. Comentário a um artigo de Gaspar Simões. O que ele assevera, exprimindo a versão da “cultura oficial” sobre a filosofia portuguesa e sobre José Marinho e como se corrigem as suas asserções. 

Ao longo da sua carreira de perfeito homem de letras, Gaspar Simões sempre suspeitou da filosofia e, muito especialmente, dos filósofos que, entre nós, atribuem à literatura uma dimensão a que os homens de letras, irreflectidamente, se consideram alheios. Sempre suspeitou, em suma, da “filosofia portuguesa”, designação que, já hoje impropriamente, continua a ser dada àqueles que, nos termos do próprio Gaspar Simões, constituem “o escol de pensadores que, no nosso tempo, quiseram resgatar o génio nacional”.

Naturalmente nos surpreendeu, portanto, que num nobre artigo publicado no “Diário de Notícias” de 2 do corrente, Gaspar Simões tenha assumido uma autoridade filosófica que nunca antes assumira e tenha, em consequência, exarado, sobre a filosofia portuguesa e sobre José Marinho, alguns juízos menos correctos num assunto que é o mais importante da vida espiritual portuguesa.

O que de mais grave contém o artigo de Gaspar Simões é a asserção de que José Marinho “não chegou a concretizar os termos desejados de uma autêntica especulação filosófica em tudo digna desse nome”. E mais adiante: “para ele, José Marinho, o pensar filosófico não pressupõe o rigor sistemático dos Descartes e dos Hegels mas, antes, o impreciso aventar de hipóteses que, de algum modo, permitem certos dos nossos poetas situar-se na esfera dos pensadores de mente filosófica”. E ainda: “nenhum dos discípulos do autor de A Alegria, a Dor e a Graça chegou a concorrer com ele obrando o prodígio que ele não obrou, que seria o de distinguir o poético do filosófico, o improviso da teoria, o aceitar o princípio de Hegel segundo o qual a ideia não tem pressa, coisa que, ao que parece, não se verificou em qualquer dos que entre nós filosofaram – muito em particular em Leonardo Coimbra – todos eles mais ou menos preocupados com a pressa da ideia”.

Tudo isto se afigura um desarrazoado de razões que importa corrigir. Vejamos rapidamente como, revertendo do fim para o início dos juízos enunciados.

O que Hegel disse, conviria traduzir-se por a verdade não tem pressa, expressão que ele, aliás, utilizou. E não o disse no sentido, que Gaspar Simões lhe atribui, de a verdade não ter pressa de ser escrita por este ou aquele pensador, mas no de se realizar e impor no mundo e no tempo. Aqui, o erro de Gaspar Simões é erro natural de um homem de letras. Mas até no errado sentido que atribui à sentença de Hegel, não haverá pessoa alguma a quem, como a José Marinho, ela menos se possa aplicar. Em vida, apenas publicou dois livros que, resistindo à pressão de amigos, companheiros e discípulos, vagarosos e demorados anos levou a elaborar. Gaspar Simões conheceu bem José Marinho – foi dos seus raros amigos de geração que me lembro de ter visto no enterro dele – e sabe certamente como assim aconteceu. Aliás – e aqui vem a diferença entre o filósofo e o homem de letras – um livro de filosofia poderá, por vezes, ser escrito depressa, mas é sempre demoradamente pensado. Em filosofia, ao contrário do que acontece na inspirada literatura, o que importa não é escrever, é pensar.




Diz depois G. Simões que nenhum dos discípulos de Leonardo Coimbra conseguiu fazer o que também ele não terá feito, a saber: distinguir o poético do filosófico. Ora acontece que, precisamente, e como G. Simões antes dissera, o que a “filosofia portuguesa” tem em conta é a verdade suposta ou contida na expressão, não a forma que a expressão adquire, coisa bem demonstrada, e de vários modos, por Leonardo Coimbra. Logo, Leonardo não podia ter feito o que G. Simões quer que ele tivesse feito e, no mesmo passo, dispensou os seus discípulos ou epígonos de o repetirem.

Que o pensar filosófico não pressupõe, para José Marinho, “o rigor sistemático dos Descartes e dos Hegels”, é a nova incorrecção de G. Simões. O que José Marinho na verdade entende é que a filosofia está para além, não do rigor sistemático, mas dos cânones lógicos que caracterizaram, não apenas Descartes e Hegel, mas toda a filosofia moderna. Ora a filosofia portuguesa está fora dos domínios da filosofia moderna. É, antes, uma filosofia clássica, não no sentido colegial de uma filosofia antiga, mas no da harmonia e conciliação entre a filosofia antiga e o cristianismo e no da persistência e vitalidade, em nossos dias, dessa harmonia. Sendo assim, é lamentável que G. Simões se tenha autorizado a acrescentar que “sempre, para José Marinho, a filosofia seja um impreciso aventar de hipóteses”. Lamentável, dizemos, porque “o impreciso aventar de hipóteses nada tem a ver com qualquer espécie de filosofia mas é apenas um momento do método das ciências derivadas da filosofia moderna, não da filosofia clássica.

Por fim, o mais grave. É quando G. Simões afirma que José Marinho “não chegou a concretizar os termos desejados de uma autêntica especulação filosófica em tudo digna desse nome. Claro que em tudo digna desse nome não há, nunca houve nem nunca haverá, entre nós como lá fora, especulação filosófica alguma. Aparte esta universal e humana impossibilidade, basta lembrar que José Marinho é o autor de um livro, “Teoria do Ser e da Verdade”, onde sistematicamente expõe tudo aquilo sem o qual não pode haver filosofia ou, nos termos de G. Simões, “autêntica especulação filosófica”. Trata-se de um livro único em toda a história da filosofia e, aparecendo em nossos dias, é o contrapolar positivo da certidão de óbito da filosofia moderna passada pelos últimos pensadores nórdicos, desde Kierkegaard e Nietzsche até Marcuse e Heidegger.

Isso que continua a designar-se por “filosofia portuguesa” é já, graças a José Marinho e Álvaro Ribeiro – que incompreensivelmente G. Simões não refere –, graças ao que, na epigonia de Leonardo, ambos pensaram e escreveram, é já de uma importância universal e de um significado a que, por enquanto, só os portugueses têm imediato acesso mas de que ainda estão longe, e impedidos de se aperceberem. Tão certo é, e mais uma vez se confirma, que “a verdade não tem pressa”.


3. As falsas “vítimas do fascismo”, os tratantes da política e o exemplo ético de José Marinho.

Tão sucintamente quanto possível, expusemos o que era nosso dever não deixar passar em claro. Outras, menos importantes, omissões, essas de carácter um tanto pessoal e um tanto político, poderemos ainda registar. Por exemplo: Gaspar Simões tem a rara probidade de dizer que José Marinho sofreu as consequências de se haver recusado, jovem professor do liceu, a um acto de subserviência a Salazar, enquanto a totalidade das “vítimas do fascismo” (é ele quem sublinha a expressão), vítimas que nada ou quase nada perderam, foram reconfortadas depois com benesses que não mereceram”. Das falsas vítimas a que assim se refere, toda a gente conhece alguns exemplares. O que não diz, e ninguém ainda disse, é que a quase totalidade delas ou faziam da oposição política ao regime salazarista uma carreira profissional ou eram tratantes de calculadas oposições políticas por si mesmas rendosas. Entre os primeiros, encontram-se os militantes ou funcionários do Partido comunista. Dos segundos, a gama é mais variada. Abrange, em primeiro lugar, certos advogados, como Salgado Zenha e Mário Soares, que se viam particularmente incumbidos, pelos marechais ou capitães de indústria do regime que publicamente consideravam opressor, de chorudos cargos e causas jurídicas, mais fictícias do que reais, que os fizeram enriquecer. Abrange depois, certos “escritores e artistas malditos”, como Bernardo Santareno e João Abel Manta, ou as suas organizações, como a do “Grupo 4”, que se viam privilegiadas pelas instituições oficiais do regime opressor na atribuição de prémios, subsídios, de encomendas, além de gozarem de utilização quase exclusiva da máquina de publicidade e de propaganda que hoje é, como já era então, descrita como um instrumento de opressão e obscurantismo. Abrange finalmente certos carreiristas, como Eduardo Lourenço, Vieira de Almeida e mais 50%, pelo menos, dos seus confrades universitários e ainda os 17 directores-gerais marxistas (segundo uma publicação do episcopado) dos 19 que havia no Ministério da Educação, que simultaneamente detinham o rendoso monopólio das Universidades do Estado fascista do qual se apresentavam como opositores, dando-se hoje ao execrando desfastio, como recentemente fez o primeiro citado, de acusar de serventuários do Estado fascista o “escol de pensadores que quiseram resgatar o génio nacional”, esses que, como José Marinho e Álvaro Ribeiro, se viram condenados à maneira mais dura de ganhar o pão e sempre tiveram fechadas as portas do lauto banquete em que “fascistas” e “vítimas dos fascistas” alegremente e odiosamente se banqueteavam juntos. Já é tempo de dizer estas verdades, que não são verdades sem pressa. Como é tempo de descrever os tais das “benesses que depois vieram a receber sem as merecerem”, como diz Gaspar Simões.


Saramago e E. Lourenço




Pena é que Gaspar Simões tenha ignorado que a condenação de que José Marinho foi vítima, não se deveu apenas à recusa de assinar o telegrama a Salazar que todos os funcionários públicos então assinaram. É que ele, e com ele Almeida Braga, acrescentaram a esta recusa o envio de um outro telegrama que mais profundamente feriu o ditador. E pena é que também tenha ignorado que quando, depois do 25 de Abril, os assaltantes das “benesses que não mereceram” vieram incitar José Marinho a também apresentar a sua conta – os ordenados de cerca de 50 anos de professor do liceu, mais as respectivas actualizações, indemnizações, etc., somando uma verba de alguns milhares de contos – ele viu nisso uma indignada moral e recusou-se a fazê-lo.

Afirma também Gaspar Simões que José Marinho foi uma das “inteligências que o fascismo aniquilou” e que o posterior social-fascismo “enterrou… vivo”. Ora a verdade é que não houve, não há e não haverá forma alguma de totalitarismo que tenha poder para aniquilar inteligências como a de José Marinho. O que dele ficou no mundo – e aí estão os seus livros, os seus discípulos e os seus epígonos – é prova provada dessa impotência da política que por vezes desperta o desespero sanguinário dos políticos.

Entende, finalmente, Gaspar Simões que José Marinho, “frustrado como professor, homem espantosamente dotado para o professar teórico e especulativo do pensar filosófico, se viu condenado à escrita”. Parece assim ignorar o que foi, durante uma vida inteira e diariamente, o convívio dialogante travado entre Marinho e Álvaro Ribeiro e o que foi o magistério oral que, também durante a vida inteira e diariamente, José Marinho exerceu junto de sucessivas gerações.

Com tudo isto, não deixa de ser um nobre e leal artigo o de Gaspar Simões. É ele também mais um sinal de que, embora com seus vagares, a verdade vai abrindo caminho. E, aqui, este abrir caminho coincide com o facto de terem sido os últimos oitenta anos o período mais fecundo e original de toda a história espiritual portuguesa. Nele surgiram três dos seus quatro maiores poetas, Pascoaes, Pessoa  e Régio – e os seus três maiores pensadores: Leonardo, Marinho e Álvaro Ribeiro. É certo que, no mesmo período, o manto da “Senhora da Noite”, que Pascoaes via aproximar-se, ou da “noite antiquíssima”, que Pessoa invocava, traz consigo o “finis Patriae” desacertamente descrito por Junqueiro. Mas devemos também aqui lembrar a antiga sabedoria que um dos filósofos citados por Gaspar Simões gostava de lembrar: a de que o pássaro de Minerva levanta voo ao anoitecer.

Poderá o mundo ignorar a aventura espiritual vivida no anoitecer do nosso povo. Bastará, porém, que os portugueses se não vejam impedidos de a conhecer. Porque, como dizia Régio, “o mundo é vasto mas repete-se, e é fácil esgotá-lo…”. (in O Diabo, Lisboa, 26 de Outubro, 1982, p. 4).



terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Target: World Government

Written by William F. Jasper



John Ruskin






«Ruskin's Disciples 

Ruskin's disciples at Oxford included Arnold Toynbee, Andrew Lang, Alfred Milner, and Cecil Rhodes, all of whom would later attain fame and spread the Ruskin influence through their respective roles as historian, poet, statesman and empire builder.

"Ruskin's message had a sensational impact," Professor Carroll Quigley records in Tragedy and Hope, his massive study of the Insider network. "His inaugural lecture was copied out in longhand by one undergraduate, Cecil Rhodes, who kept it with him for thirty years. Rhodes (1853-1902) feverishly exploited the diamond mines and goldfields of South Africa, rose to be prime minister of the Cape Colony (1890-1896), contributed money to political parties, controlled parliamentary seats both in England and in South Africa, and sought to win a strip of British territory across Africa from the Cape of Good Hope to Egypt and to join these two extremes together with a telegraph line and ultimately with a Cape-to-Cairo Railway."

With financial support from Lord Rothschild and Alfred Beit, records Quigley, Rhodes "was able to monopolize the diamond mines of South Africa as DeBeers Consolidated Mines and to build up a great gold mining enterprise as Consolidated Gold Fields. In the middle 1890s Rhodes had a personal income of at least a million pounds sterling a year (then about five million dollars) which was spent so freely for his mysterious purposes that he was usually overdrawn on his account. These purposes centered on his desire to federate the English-speaking peoples and to bring all the habitable portions of the world under their control. For this purpose Rhodes left part of his great fortune to found the Rhodes Scholarships at Oxford in order to spread the English Ruling class tradition throughout the English-speaking world as Ruskin had wanted."

Quigley explained that Ruskin's most devoted disciples, including Toynbee, Alfred Milner, Arthur Glazebrook and George Birchenough at Oxford, as well as Cambridge men Reginald Baliol Brett, Sir John B. Seely, Albert Grey, and Edmund Garrett, devoted their lives to carrying out the ideas of Ruskin.

In February 1891, with Rhodes and journalist William Stead (whom Quigley describes as an "ardent social reformer and imperialist"), these men formed a secret society which Rhodes had been planning for years. Quigley explains: "In this secret society Rhodes was to lead; Stead, Brett (lord Esher), and Milner were to form an executive committee; Arthur (Lord) Balfour, (Sir) Harry Johnston, Lord Rothschild, Albert (Lord) Grey, and others were listed as potential members of a 'Circle of Initiates'; while there was to be an outer circle known as the 'Association of Helpers' (later organized by Milner as the Round Table organization).... Thus the central part of the secret society was established by March 1891."

Quigley states that after Rhodes' death in 1902 this group gained access to Rhodes' fortune, as well as that of some of his wealthy supporters, and thus were able to "extend and execute the ideals that Rhodes had obtained from Ruskin and Stead."

"In 1919," Quigley noted, "they founded the Royal Institute of International Affairs (Chatham House) for which the chief financial supporters were Sir Abe Bailey and the Astor family (owners of The Times). Similar Institutes of International Affairs were established in the chief British dominions and in the United States (where it is known as the Council on Foreign Relations) in the period 1919-1927."».

William F. Jasper («Bill Clinton: A "Rhodie" in the White House», in The New American, 25 January 1993).


Target: World Government


Shortly before the opening of the 1995 United Nations World Summit on Social Development in Copenhagen, Denmark, the Commission on Global Governance issued its much-heralded report, Our Global Neighborhood, which was presented as a guiding star to the summit. In the foreword to the report, written by Commission co-chairmen Ingvar Carlson, former socialist president of Sweden, and Shridath Ramphal, former president of the World Conservation Union, we are assured that the Commission on Global Governance is not advocating world government. "The development of global governance is part of the evolution of human efforts to organize life on the planet," write the co-chairmen. "As this report makes clear, global governance is not global government. No misunderstanding should arise from the similarity of terms. We are not proposing movement towards world government...."








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What It Is 

However, one need only recur to a standard dictionary to glimpse the semantic sleight of hand at work here. Webster's New Collegiate Dictionary gives but a one-word definition for "governance," and that is "government." And world government is precisely what the Commission on Global Governance is proposing. That is plainly evident on the face of their proposals, all of which invariably advocate increasing strictures on national sovereignty and the transferring of legislative, executive, and judicial powers to the United Nations or its subsidiary multilateral institutions — always in the name of peacekeeping, nationbuilding, saving the environment, helping the poor, disarmament, fighting organized crime, etc.

"There should be no question of which way we go," assert Carlson and Ramphal. "But the right way requires the assertion of the values of internationalism, the primacy of the rule of law worldwide...." Ah yes, the "rule of law." Favorite weasel words of globalists seeking to conceal their true world-government ambitions. Obviously, it takes government to promulgate law, and for that law to have any meaning and effect, it must be backed up by government force. Genuine world law requires real world government force capable of overwhelming any national resistance to its rule. That is elementary and indisputable.

A major problem we face today is that most one-worlders avoid explicit references and paeans to world government: It is viewed as counterproductive "because it frightens people." So admits former Senator Alan Cranston (D-CA), a former national president of the United World Federalists and a member of the Council on Foreign Relations (CFR) and the Trilateral Commission (TC). Back in 1949 Cranston successfully pushed through the California legislature a resolution memorializing Congress to call a national convention to amend the U.S. Constitution to "expedite and insure the participation of the United States in a world federal government." He still wants the same thing; he just knows he has a better chance of obtaining it if he goes about it quietly and calls it by another name.

Cranston says he remains a World Federalist because "I believe deeply in the need for world law..... I believe in the concept of federalism on the world scale." But, said Cranston in an interview in the April 1976 issue of Transition, a publication of the Institute for World Order, "the more talk about world government, the less chance of achieving it, because it frightens people who would accept the concept of world law." Obviously, he understands that a lot of folks still have a strong suspicion of and aversion to big government. And a world government is about as big as government can get.

Like Mr. Cranston, Messrs. Carlson and Ramphal are longtime advocates of socialist world government. They note in Our Global Neighborhood, "It was Willy Brandt who brought the two of us together as co-chairmen of the Commission on Global Governance." The late Willy Brandt was at the time (and for many years before) the president of the Socialist International, and Mr. Carlson was a vice president of the same socialist-world-government-advocating group.

The Rhodes Vision 

The necessity of world government is, of course, a fundamental tenet of the communists as well. Addressing the 1920 Congress of the Communist International, Lenin stated: "This task is the task of the world proletarian revolution, the task of the creation of the world Soviet republic." The official "Program of the Communist International" adopted in 1928 called for "a World Union of Soviet Socialist Republics uniting the whole of mankind under the hegemony of the international proletariat organized as a state."

Odd as it may seem to the uninitiated, the communists and socialists have been aided and abetted toward this goal by organizations founded and funded by some of the world's wealthiest capitalists. Cecil Rhodes' biographer Sarah G. Millin wrote of that South African diamond and gold mogul, "The government of the world was Rhodes' simple desire." And to fulfill that desire, he established, in 1891, a "secret society" (the words are his) called the "Society of the Elect." In his first will (1877) he explained that his plan for world dominion must entail "the foundation of so great a power as to hereafter render wars impossible." In establishing this "power," Rhodes wrote to his associate William Stead, "The only feasible [way] to carry this idea out is a secret [society] gradually absorbing the wealth of the world to be devoted to such an object."

Toward accomplishing this grandiose goal, which Rhodes frankly described as "a scheme to take the government of the whole world," a system of sister organizations was established, the most prominent being the Royal Institute of International Affairs (RIIA) in England and the CFR in the United States. These groups have drawn into Rhodes' "scheme" some of the most influential men from the fields of finance, industry, politics, communications, academe, science, and philanthropy.

Throughout this century, these internationalist schemers have worked hand in hand with (usually while publicly denouncing) communists, socialists, and fascists of every stripe. Which is not surprising, since, while a student at Oxford, Rhodes had become (and remained until his death) a fervent disciple of Professor John Ruskin, a revolutionary utopian socialist. (Ruskin wrote that "indeed, I am myself a communist of the old school — reddest also of the red.")


Cecil Rhodes

















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Education for the Elite 

One of the important instruments Rhodes created to implement his breathtaking global "vision" was the Rhodes Scholarships, through which (said Stead) he intended his network would help into influential positions thousands of "men in the prime of life scattered all over the world, each one of whom, moreover, would have been specifically — mathematically — selected toward the Founder's purposes." And what qualities would be demanded of these men? According to Rhodes: "smugness, brutality, unctuous rectitude, and tact."

One young American who apparently exhibited those desired attributes was Strobe Talbott, now special adviser to President Clinton on Russian affairs. A Clinton roommate and fellow Rhodes Scholar at Oxford, Talbott (CFR, TC) provided critical support for the Clinton campaign at Time magazine, where he was editor-at-large. He also provided heavy support for the RIIA/CFR/TC drive for world government. Declared Talbott in a May 1992 Time piece: "The U.N. as a whole needs more power and resources for peacekeeping, including an ability to call on American troops to serve under the world body's flag." In a July 20, 1992 paean to one-worldism in Time entitled, "The Birth of the Global Nation," he proclaimed that "it has taken the events in our own wondrous and terrible century to clinch the case for world government."

For this outburst of internationalist ardor, Talbott received the Norman Cousins Global Governance Award from the World Federalist Association (WFA, the renamed United World Federalists). At the award ceremony on June 24, 1993, WFA President John Anderson (CFR, TC) read a letter from Bill Clinton (CFR, TC) noting that "Norman Cousins worked for world peace and world government" and stating that Talbott "will be a worthy recipient of the Norman Cousins Global Governance Award. Best wishes ... for future success."

Yes, the President of the United States, a "Rhodes man," was praising the WFA and its most famous leader (Cousins), and wishing "success" for the treasonous decades-long campaign to destroy America's national sovereignty and submerge us in a world government.

In 1961, another internationalist President, John F. Kennedy, presented to the United Nations his plan (which was actually crafted by his CFR-dominated State Department, run by CFR one-worlder Dean Rusk) for disarming America, entitled Freedom From War: The United States Program for General and Complete Disarmament in a Peaceful World. That program called for "progressive controlled disarmament ... to a point where no state would have the military power to challenge the progressively strengthened U.N. Peace Force." In other words, the President of the United States, who had taken an oath to uphold and defend this country and its constitutional government, proposed to transfer all U.S. armaments to the UN and then subject America to an all-powerful world government under the UN. This treasonous objective was made even more unmistakably clear a few months later, in 1962, when Freedom From War was superceded by a similar disarmament document entitled Blueprint for the Peace Race. This policy of disarmament has remained the official policy of the U.S. government through both Democratic and Republican administrations and has been incorporated piecemeal into subsequent disarmament agreements.

Eroding Our Sovereignty 

In 1974, the Rhodes Scholar who is now President Clinton's Ambassador to Spain, Richard N. Gardner (CFR, TC), penned a signal article in the CFR jornal Foreign Affairs entitled "The Hard Road to World Order." Since hopes for "instant world government" had proven illusory, he noted that the best hope for building "the house of world order" lay in a long-range "end run around national sovereignty, eroding it piece by piece." This could best be done, he noted, on an ad hoc basis with treaties and international "arrangements" — on environment, trade, security, etc. — that could later be brought within "the central institutions of the U.N. system." This is what Our Global Neighborhood calls "the hardening of so-called soft law." These treaties, which initially appear soft and non-threatening, are gradually given "teeth" to rend national sovereignty asunder.

Rather than speak openly of world government, the globalists more frequently employ code terms such as "world order," "world law," "global transformation," "interdependence," "convergence," "economic integration," "multilateral institution building," "global community," "collective security," etc. But there is no mistaking the fact that the intent is to do away with the United States.

During the first half of this century, prominent advocates of global governance — socialists, communists, and capitalist internationalists — wore their colors more openly than their successors of today. Many volumes on world government by these political, business, and academic figures of yesteryear can be found in major libraries. There, too, will be found a multitude of volumes of more recent vintage on "world order" and related code themes.

In 1976, Professor Saul Mendlovitz (CFR), director of the World Order Models Project (WOMP), prophesied that there "is no longer a question of whether or not there will be world government by the year 2000." We are fast approaching that millennial milestone, and unless sufficient numbers of Americans become aware of the planned destruction that faces us and actively join the freedom fight, the forces of "smugness and brutality" (and utter ruthlessness), as exemplified by Rhodes, Mendlovitz, Talbott, Clinton, et al., will triumph. (in The New American, 16 September 1996).






























sábado, 9 de fevereiro de 2019

O Espírito do Aikido

Escrito por O'Sensei Morihei Ueshiba



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Atacando com um sabre comprido
o inimigo crê que estou perante ele.
Ah, atrás dele.
Já ali estou.

Embora cercado estejas
por vários inimigos prestes a atacar,
luta pensando
que formam um só inimigo.

Quando entrares numa floresta
de lanças e te rodearem,
recorda: o espírito
é o teu 'escudo protector'.

Com a tua mão direita
mostrando yang,
e a tua mão esquerda mostrando yin,
dispõe do teu adversário.

Quando o inimigo irrompe
para te atingir,
ladeia, esquivando-te;
num relance, ataca e corta.

Por que fixas o teu olhar
no sabre oscilante?
empunhá-lo revela já
aonde quer cortar.

(In Kisshomaru Ueshiba, El Espiritu del Aikido
Poema traduzido por Miguel Bruno Duarte).