domingo, 23 de outubro de 2022

Da necessidade metafísica

Escrito por Artur Schopenhauer


«A FILOSOFIA é aquilo que seus fundadores quiseram, não aquilo que seus sucessores fizeram dela. Só em SócratesPlatão Aristóteles você pode obter uma imagem veraz do que é filosofia.

(...) Não é isso o que lhe dirão os professores, mas eles mentem ou não sabem do que falam...».

Olavo de Carvalho («A Filosofia e seu Inverso»).


«(...) não têm faltado pessoas que se esforcem por tirar a sua subsistência desta necessidade metafísica e a explorem quanto podem: em todos os povos se encontram personagens que fazem dela um monopólio e a consolidam: são os sacerdotes. Mas, para assegurarem completamente o seu tráfico, precisam de alcançar o direito de insinuar cedo aos homens os seus dogmas metafísicos, antes que a reflexão saia das suas trevas, isto é, na primeira infância, porque então todo o dogma, uma vez enraizado, perdura, qualquer que seja a sua insânia. Se os padres tivessem que esperar que o juízo amadurecesse para realizarem a sua tarefa, veriam desmoronar-se todos os seus privilégios.

Uma segunda categoria de indivíduos, embora não menos numerosa, que tira a sua subsistência desta necessidade metafísica da humanidade, é a dos que vivem da filosofia. Entre os gregos chamavam-lhes sofistas; e, entre os modernos, professores de Filosofia. Aristóteles inclui, resolutamente, Aristipo entre os sofistas e Diógenes Laércio dá-nos a explicação disso: é que ele foi o primeiro, da escola socrática, que fez pagar as suas lições. Ele próprio quis pagar a Sócrates, que lhe devolveu o presente.

Entre os modernos – ao menos em geral e salvo raras excepções – os que vivem da filosofia são não só muito diferentes dos que vivem para ela, mas também, muitas vezes, seus adversários, seus inimigos irreconciliáveis, porque todo o estudo, pura e profundamente filosófico, projectaria demasiada sombra sobre os seus trabalhos e não se subordinaria às vistas e regulamentações da confraria. Por isso em todos os tempos ela se tem esforçado por abafar esses estudos, e, conforme a época e as circunstâncias, tem empregado habitualmente contra eles, quer o silêncio, quer a negação, a difamação, as invectivas, as calúnias, as denúncias e as perseguições. É assim que se têm visto grandes génios arrastarem-se penosamente pela vida, desconhecidos, e sem glória, até que por fim, depois da morte, o mundo os fica conhecendo e aos seus inimigos. Todavia, estes atingiram o seu objectivo, impedindo-os de se revelarem, e viveram da filosofia com suas mulheres e seus filhos, ao passo que o grande homem desconhecido vivia para ela. Mas, logo que morre, produz-se uma reviravolta completa: a nova geração de professores de Filosofia faz-se herdeira dos seus trabalhos, talha neles uma doutrina à sua medida e põe-se a viver dela. Se Kant pôde viver ao mesmo tempo para e da filosofia, foi devido a uma rara circunstância que só se produziu uma vez depois dos Antoninos e de Juliano. Apenas sob tais auspícios poderia ter aparecido a Crítica da Razão Pura.

Mas, mal o rei morreu, vemos logo Kant tranzido de pavor, porque pertencia à confraria. Modifica a sua obra-prima, na 2.ª edição, mutila-a, estraga-a, e, afinal de contas, está em riscos de perder o lugar, a ponto de Campe o convidar a vir para sua casa, em Brunsvique, para ali viver como em família.

Em geral, a filosofia das universidades é esgrima em frente de um espelho; no fundo, o seu verdadeiro fim é dar aos estudantes opiniões ao sabor do ministro que distribui as cadeiras. Nada melhor, no ponto de vista do homem de Estado; mas a consequência é que tal filosofia é, por assim dizer, nervis alienis, mobile lignum; não poderia considerar-se como séria: é uma filosofia para rir.

É certo que esta vigilância ou esta direcção se limitam à filosofia de escola e não se estendem à verdadeira, à filosofia séria. Porque, se há alguma coisa de desejável no mundo - e de tão desejável que até a multidão grosseira e estúpida, nos seus momentos lúcidos, a aprecia mais do que o ouro e a prata, – é ver tombar um raio de luz na obscuridade da nossa existência; é encontrar alguma solução para o misterioso enigma da nossa vida, em que só vemos miséria e vaidade. E, contudo, este benefício seria impossível se alguém, admitindo que isso fosse viável, impusesse determinadas soluções ao problema».

Artur Schopenhauer («Da Necessidade Metafísica»).


«(...) a obra, “O mundo como Vontade e como Representação”, publicada em Lípsia, em 1818, (...) contra a expectativa do autor, que nela tinha posto o melhor do seu talento, não obteve o menor êxito. A maior parte da edição foi vendida, dezasseis anos mais tarde, como papel velho. Schopenhauer sentiu amargamente este inêxito e, para se reconfortar, empreendeu uma viagem a Itália. Mais tarde, aludindo certamente a este facto, escreve ele: “Quanto mais um homem pertence à posteridade – ou, por outras palavras, à humanidade em geral – tanto mais incompreendido ele é dos seus contemporâneos, porque, desde o momento em que o seu trabalho lhes não é destinado como contemporâneos, mas apenas porque fazem parte da humanidade, nada há nas suas produções com a cor local, familiar, que poderia seduzi-los.”».

Prefácio de Lobo Vilela (in Artur Schopenhauer, «Da Necessidade Metafísica»).




«De Sócrates até hoje, a filosofia desenvolveu uma infinidade de técnicas para furar o balão da conversa estereotipada e trazer os dialogantes de volta à realidade. Zu den Sachen selbst – “ir às coisas mesmas” –, a divisa do grande Edmund Husserl, permanece a mensagem mais urgente da filosofia depois de vinte e quatro séculos. Ninguém mais que o próprio Husserl esteve consciente dos obstáculos lingüísticos e psicológicos que se opunham à realização do seu apelo. Todo o vocabulário técnico da filosofia – e o de Husserl é dos mais pesados – não se destina senão a abrir um caminho de volta desde as ilusões da classe letrada até à experiência efetiva. A conquista desse vocabulário pode ser ela própria uma dificuldade temível, mas decerto não tão temível quanto os riscos de ficar discutindo palavras vazias enquanto o mundo desaba à nossa volta. Ao incorporar-se à cultura ambiente como atividade academicamente respeitável, a própria filosofia tende a perder sua força originária de atividade esclarecedora e a tornar-se mais uma pedra no muro de artificialismos que se ergue entre pensamento e realidade.»

Olavo de Carvalho («A Filosofia e seu Inverso»).


«As principais críticas de Aristóteles a todas as doutrinas da imobilidade encontram-se agrupadas nos livros da Metafísica, e com razão vemos incluída nessa miscelânea literária uma das mais belas obras de pura teologia. Só Deus é verdadeiramente imóvel, segundo a doutrina de Aristóteles. A Física é um desenvolvido tratado do movimento e do repouso, da quietação e da inquietação. Erro lamentável foi sempre o de confundir com a física a ciência da natureza, limitada esta aos entes que vivem sob as leis do nascer e do morrer, quer dizer, ao tempo. Erram os tradutores quando escrevem naturalmente por fisicamente, como na primeira frase do primeiro livro da Metafísica. Tudo está em movimento; imóvel, só Deus; impiedosas, efémeras ou falsas serão quaisquer representações da imobilidade.»

Álvaro Ribeiro («Estudos Gerais»).


«A partir do escrito Introdução à metafísica de 1935, o termo metafísica assume assim em Heidegger uma conotação decididamente negativa: metafísica é todo o pensamento ocidental que não soube manter-se ao nível da transcendência constitutiva do Dasein, ao colocar o ser no mesmo plano do ente. Por outras palavras, o conhecimento do ente pressupõe no estar-aí uma constitutiva compreensão prévia do ser (o projecto), e isto é o que se entende por transcendência do estar-aí a respeito do ente; essa transcendência reflecte-se no facto de, desde os começos da história do pensamento ocidental, a filosofia formular o problema do Ser do ente, isto é, daquilo que constitui o ente como tal (a sua “essentidade”; basta pensar na problemática aristotélica da ousía e, antes, em Parménides e em Platão; precisamente Ser e Tempo tem como epígrafe uma passagem de O Sofista de Platão [Platão, O Sofista, 244a: “Com efeito, é claro que há pouco tempo estais familiarizados com aquilo que entendeis quando empregais a expressão ‘ente’; também nós pensávamos antes que a compreendíamos, mas agora caímos na perplexidade”]; mas, ao levantar-se este problema, o pensamento tende imediatamente a resolvê-lo de uma maneira errada, a conceber o ser como uma característica comum de todos os entes, como uma espécie de conceito exageradamente geral e abstracto (daqui o desvanecimento do próprio conceito de ser e, por exemplo, a caída do ser no nada da Lógica de Hegel) que se obtém devido à observação daquilo que todos os entes têm de comum. Mas os entes são concebidos – e já se verá porque – como simples presenças; de maneira que também o ser se concebe em toda a história da filosofia ocidental como simples presença; isto é, de acordo com o modelo do ente, que, por sua vez, é entendido de uma maneira, conforme se viu em Ser e tempo, simplesmente “derivada”. Vista assim, a metafísica coincide com a compreensão (ou não compreensão) do ser que tem a existência inautêntica; esta conexão de metafísica com existência inautêntica está explicitamente indicada na Introdução à metafísica, ainda que esta obra expresse uma tese já implícita em Ser e tempo e nos escritos imediatamente posteriores; o termo metafísica chega a converter-se em sinónimo de esquecimento do ser, Seinsvergessenheit, um termo que no posterior desenvolvimento do pensamento heideggeriano adquire uma posição central.»

Gianni Vattimo («Introdução a Heidegger»).



«A observação é de Nietzsche: “(...) até aqui ainda em nenhuma filosofia se tratou da verdade”. Qualquer que seja o sentido que se atribua à observação, e embora se lhe possa contrapor que nenhuma filosofia tratou nem pôde tratar de outra coisa, ela fica aí.

Fugazmente nos fala Platão da “verdade em si”. Fugazmente nos diz Hegel que “a verdade é o todo”. Terá suposto, um, que o pensamento é sempre pensamento da verdade, tal como ninguém existe que não reconheça que sem a verdade não há pensamento possível? Terá suposto, o outro, que a todo o real, ao múltiplo real, até o mais imediato e dado naturalmente, não é possível entendê-lo se alheio à verdade? E nesse pressuposto ambos descansaram apesar de um deles ter recusado valor filosófico a toda a suposição?

Logo, aliás, ambos tornaram suspeito o que fugazmente disseram. Da verdade que seria o todo, depressa Hegel recua numa daquelas impressivas expressões de que possuía o segredo, a de que “a verdade não tem pressa”. Se é o todo não pode ser vagarosa nem apressada e a sua presença está dispersa sem limites, tornando-se indeterminável.

Por sua vez, ao falar da “verdade em si”, Platão utiliza a expressão com que fala das ideias. Em si significa realidade plena e independente que distingue as ideias do que, no mundo sensível, delas apenas participa e depende. Que distingue, por exemplo, o belo do que é belo, o movimento do que se move. Ora a verdade não é uma ideia porque, a haver dela participação, também as ideias participam, o que contradiz a realidade.

Um filósofo mais recente, e o mais divulgado na filosofia contemporânea que se ensina nas escolas, o alemão M. Heidegger, concebe romanticamente a verdade segundo a imagem da “flor azul” dada pelo poeta Novalis no romance Heinrich von Ofterdingen. Seria a verdade descobrimento ou desvelamento, bruma que se rompe, véu que se afasta, não o encoberto, não o velado. Estamos, pois, longe da verdade em si, de Platão, e da verdade que é o todo, de Hegel, um e outro filósofo muito suspeitos ao pensador contemporâneo. Firma ele a sua concepção, atribuindo-a aos mitólogos pré-socráticos, na etimologia da palavra grega aleteia, que traduzimos por verdade. Aleteia significaria desvelar ou descobrir. O que desvela e descobre, diz Heidegger, é o ser, o oculto ser.

Na linha do pensamento alemão, que se desvia do idealismo que culminou em Hegel, linha que encontra os seus mais notáveis representantes em Schopenhauer e Nietzsche, esta concepção integra-se numa tão absorvente filosofia do ser que os mesmos orientais viram nela “um traço de união” entre o Oriente e o Ocidente, entre o orientalismo e a filosofia. [Entrevista dada por Heidegger ao L’Express, n.º 954, de 22-26 de Outubro de 1969]. Compreende-se portanto que, ao mesmo tempo que atribui à verdade uma essência própria, Heidegger a veja como uma ilusão que, como o mundo real para os orientais, vela e encobre o ser.



Teremos de concluir que a filosofia cessa onde o pensamento se depara com a verdade? Teremos de concluir que ao pensamento está vedado o saber da verdade?

Esta interrogação está implícita em toda a filosofia, até a mais confiante nos poderes ilimitados do pensamento e do espírito. Isso explica que a filosofia não deixe de se dizer filosofia, isto é, amor do saber e não o saber, quando não há um sem o outro. Que ela seja o que José Marinho disse da razão, “o pequeno pensamento com que pensamos” e, não transpondo o limite dos múltiplos que compõem o todo, não ouse apresentar-se como metafísica.

Pouca coisa será, então, a filosofia, justificando que, na sequência de uma teologia que a tinha por instrumento e de uma mais remota mitologia do mundo sensível anterior ao seu aparecimento, modernas arrogâncias das ciências de certas regiões do real ou do múltiplo a tenham dado por acabada e interpretem a sua anterior, pertinaz existência como abusiva do menor saber de Deus, que dizem morto, e da menor ciência do mundo, que dizem exclusiva.

É certo que os autênticos pensadores nunca, com firmes razões, deixaram de confiar que o pensamento filosófico, alcance ou não o saber dela, é sempre pensamento da verdade. E que sempre dele resulte algum saber, sob pena de não haver saber algum, nenhuma ciência, pois não há saber que não seja obtido pelo pensamento. Todavia, Hegel, talvez prevendo a negação da filosofia que o kantismo, para defender a ciência, preparara e em breve se iria declarar, não hesitou em sistematizar o seu pensamento filosófico como saber, já não como amor do saber, e em apresentá-lo e defendê-lo como uma metafísica. E talvez prevendo também que a negação viesse da teologia segura da sua linhagem, lembrou aos teólogos que quando Deus está morto – e sempre Deus vive para morrer e morre para reviver – a filosofia é “a sexta-feira santa da paixão especulativa”. Da morte de Deus guarda a religião, muito especialmente o cristianismo, a imagem e o símbolo, mas da “paixão especulativa” que preenche a morte de Deus é a teoria da verdade que, como veremos, tem o seguro pensamento.

Quanto ao saber da verdade, não o pode a filosofia alcançar enquanto a verdade não tem o saber de si. O ponto de partida da teoria da verdade é isso mesmo: não ter ela o saber de si. E aí reside também, já não a originalidade mas a mesma origem não apenas do pensamento mas de todo o real. Aí a verdade se impõe, já não como a veracidade ou o verdadeiro, mas como o que Platão imperfeitamente designou por “verdade em si”. Imperfeitamente, dizemos, porque a verdade não tem o saber de si e nada é em si sem o saber de si.»

Orlando Vitorino («As Teses da Filosofia Portuguesa»).




«Desviados da linha medieval, erraram os escolásticos modernos quando aplicaram à Física de Aristóteles o canon de escrituras sagradas, lendo como texto perene os livros que haviam resultado de sérios processos de observação e experimentação naturais. A obra lógica, ética e metafísica de Aristóteles permaneceu válida nas suas linhas essenciais e resistiu a todas as críticas impertinentes; assim o entenderam os componentes do escol nos povos peninsulares; mas seja-nos permitido afirmar que a interpretação portuguesa da filosofia de Aristóteles é superior à interpretação alemã. Lida directamente, e não através de comentadores que adaptaram às circunstâncias contingentes e às oportunidades pretéritas, a obra de Aristóteles refulge no brilho do seu pensamento essencial, e continua a ser saudada por quantos actualizam a sua cultura.»

Álvaro Ribeiro («A Literatura de José Régio»).



Da necessidade metafísica

A física (no sentido mais lato do termo) também se ocupa em explicar os fenómenos do mundo. Mas a própria natureza das suas explicações é a causa da sua insuficiência. A física não poderia viver duma vida independente. Por mais desdenhosa que seja a sua atitude em face da metafísica, tem necessidade do seu apoio. Ela própria explica os fenómenos por qualquer coisa de mais desconhecido ainda do que eles, – por leis naturais, de que a força vital é um espécime.

Sem dúvida, o estado actual de todas as coisas do mundo ou na natureza deve poder explicar-se por causas puramente físicas. Mas uma tal explicação, ainda que se conseguisse, seria necessariamente contaminada por duas imperfeições essenciais e, por assim dizer, por duas taras que fazem que todos os fenómenos fisicamente explicados continuem, na realidade, inexplicados. Também Aquiles era vulnerável no calcanhar; e o Diabo ainda se representa com patas de cavalo.

Em primeiro lugar, nunca poderia atingir-se o começo desta série de causas e de efeitos, isto é, de modificações ligadas entre si: este começo recuaria sem cessar até o infinito, como os limites do mundo no espaço e no tempo.

Em segundo lugar, o conjunto das causas efectivas pelas quais se pretende explicar tudo assenta sobre qualquer coisa de absolutamente inexplicável. Quero referir-me às qualidades primordiais dos objectos e às forças naturais que neles se manifestam, forças que permitem às qualidades agir de um modo determinado. Tais são: a gravidade, a solidez, a força de impulsão, a elasticidade, o calor, a electricidade, as energias químicas, etc. Toda a explicação física dá estas forças como resíduo, tal como uma equação algébrica em que todos os outros termos fossem resolvidos, mas em que subsistisse uma quantidade desconhecida e indeterminável. Segue-se daqui que nem o mais ínfimo fragmento de argila deixa de ser composto por qualidades tão inexplicáveis como as outras.

Estas duas irremovíveis imperfeições de toda a explicação física, quer dizer, causal, mostram que tal explicação não pode deixar de ser relativa e o método das ciências positivas não é o único, o último, o método suficiente, o que conduz a uma solução satisfatória do difícil problema das coisas, à verdadeira inteligibilidade do mundo e da existência, mas que a explicação física, como tal, carece de uma explicação metafísica que lhe dê a chave de todas as suas suposições. Somente resulta daí que o método metafísico deve diferir profundamente do método físico.



O primeiro passo a dar nesta nova via é compenetrarmo-nos nitidamente, e de uma vez para sempre, da diferença, entre física e metafísica. Esta diferença assenta, no essencial, na distinção kantiana do fenómeno e da coisa em si. Kant declarava esta absolutamente inexplicável e por isso não poderia haver, segundo ele, nenhuma metafísica: só é possível, o conhecimento imanente, por consequência a física, e, a par dela, a crítica da razão, nas suas aspirações metafísicas.

Permita-se-me que note, desde já, o ponto de contacto da minha filosofia com a doutrina kantiana e que Kant, na sua bela explicação da coexistência da liberdade e da necessidade (1), demonstra que a mesma acção que, por um lado, é perfeitamente explicável como consequência necessária do carácter do homem, das influências que ele sofreu durante a vida e dos motivos actuais que o solicitam, deve, por outro lado, ser considerada como obra da sua livre vontade. No mesmo sentido, diz no § 53 dos Prolegómenos:

«Sem dúvida, a necessidade natural será inerente a toda a combinação de causas e de efeitos no mundo sensível, mas a liberdade será conferida às causas que não sejam fenómenos (embora sirvam de fundamento a fenómenos). Por consequência a necessidade (literalmente a natureza) e a liberdade podem ser atribuídas, sem contradição, ao mesmo objecto, conforme se considere sob aspectos diferentes, ou como fenómenos ou como coisa em si.»

O que Kant diz do fenómeno do homem e da sua actividade torna-o a minha doutrina extensivo a todos os fenómenos da natureza, dando-lhes por fundamento comum a Vontade como coisa em si. O que justifica, em primeiro lugar, esta maneira de proceder é a impossibilidade de admitir que o homem seja especificamente distinto (toto genere e radicalmente) de todos os seres e objectos da natureza: não pode haver entre eles senão uma diferença de grau.

Deixo agora esta digressão para voltar às minhas considerações sobre a importância da física para fornecer a explicação última das coisas. Digo pois: sem dúvida, tudo é físico, mas então nada é explicável. Do mesmo modo que o movimento da bola de bilhar que se impele, a função pensante do cérebro deve comportar, em última análise, uma explicação física que a torne tão inteligível como o movimento da bola. Ora, mesmo este movimento, que julgamos compreender tão plenamente, é, no fundo, tão obscuro como o pensamento, porque a última essência da expansão do espaço, da impenetrabilidade, da faculdade de ser movido, da resistência, da elasticidade e do peso, continua a ser, depois de todas as explicações físicas, um mistério como é o pensamento. Somente, como a impossibilidade de explicar este último nos choca à primeira vista, se apressaram a dar um salto da física para a metafísica e a hipostasiar uma substância de natureza inteiramente diferente da das coisas corporais. Transportou-se para o cérebro uma alma.

Se o nosso intelecto não fosse tão embotado que é preciso um fenómeno extraordinariamente surpreendente para o chocar, teríamos explicado a digestão por uma alma estomacal, a vegetação por uma alma vegetativa, as finalidades electivas pela presença de uma alma nas reacções, a queda de uma pedra pela presença de uma alma nessa pedra, porque as propriedades de qualquer corpo inorgânico são tão misteriosas como a vida no ser vivo. Deste modo, a explicação física vem cair sempre numa explicação metafísica que a suprime, quer dizer, que lhe rouba o seu carácter de explicação. Em rigor, poder-se-ia dizer que todas as ciências da natureza se limitam, como a botânica, a reunir e classificar os objectos da mesma espécie.

Uma física que sustentasse que as suas explicações das coisas (em pormenor, por meio de causas e, de um modo geral, por meio de forças) são verdadeiramente suficientes e, por consequência, esgotam a essência do mundo, seria naturalismo propriamente dito. De Léucipo, Demócrito e Epicuro, até o «sistema da natureza», e depois a Lamarck, a Cabanis e ao materialismo requentado dos últimos anos, podemos seguir a tentativa, sempre continuada, de estabelecer uma física sem metafísica, quer dizer, uma doutrina que faça do fenómeno a coisa em si. Mas todas as explicações destes físicos não são mais do que tentativas para dissimular, tanto aos explicadores como ao público, que elas supõem simplesmente a coisa essencial.

Os naturalistas esforçam-se por mostrar que todos os fenómenos, mesmo os fenómenos espirituais, são físicos e nisso têm razão; o seu erro está em não verem que toda a coisa física é igualmente, por outro lado, uma coisa metafísica. Sem dúvida, é difícil reconhecer esta verdade, visto que ela supõe a distinção do fenómeno e da coisa em si. No entanto, Aristóteles, apesar da sua tendência para o empirismo e afastado como estava da hiperfísica platónica, soube, mesmo sem o socorro dessa distinção, manter-se fora desta estreita concepção: «portanto, se não existe alguma outra substância, além daquelas que constituem a natureza, a física será, seguramente, a primeira ciência; porém, se existe alguma substância imóvel, a filosofia será a primeira e, assim, universal, precisamente porque é a primeira; e, como o ser provém do ser, a especulação é própria deste» (2).

Uma física absoluta, tal como a que acabámos de descrever, que não deixaria lugar para nenhuma metafísica, faria da Natura naturata a Natura naturans: seria uma física implantada no trono da metafísica; mas é provável que, neste lugar elevado, ela se comportasse como o estanhador de Holberg depois de ser nomeado burgomestre. É esta ideia obscura duma física absoluta sem metafísica que inspira, no fundo, a censura insípida, e as mais das vezes malévola, de ateísmo; é ela que lhe dá sentido íntimo de verdade e, portanto, de força. Tal física seria, certamente, destruidora de toda a ética, e, se é falso considerar o teísmo inseparável da moralidade, esta não pode, aliás, conceber-se sem uma metafísica qualquer, isto é, sem uma doutrina que reconheça que a ordem da natureza não é a única nem a ordem absoluta das coisas. Por isso, o Credo obrigatório de todos os justos e de todos os bons pode formular-se assim: «Eu creio numa metafísica.»

Neste sentido, é importante e necessário que o homem esteja persuadido da impossibilidade de se agarrar a uma física absoluta, tanto mais que esta, o naturalismo por excelência, é um modo de ver que por si mesmo se impõe continuamente ao homem e só pode ser destruído por uma especulação profunda, especulação que os diversos e as diversas religiões desenvolvem, de acordo com a sua força e enquanto supostos verdadeiros.

O que nos explica como uma concepção radicalmente falsa pode impor-se por si mesma ao homem e deve ser afastada, por meios artificiosos, é que o intelecto não se destina, primitivamente, a instruir-nos sobre a essência das coisas, mas apenas mostrar-nos as relações com a nossa vontade; o intelecto não é mais do que o centro dos motivos. É acidentalmente que nele o mundo se esquematiza de maneira completamente diferente da ordem absolutamente verdadeira e não poderia censurar-se por isso o intelecto, visto que nos mostra apenas o invólucro exterior, não o nódulo das coisas; a censura seria tanto mais injusta quanto é certo que o intelecto encontra em si mesmo o meio de rectificar este erro, estabelecendo a distinção do fenómeno e da coisa em si. Esta distinção, a bem dizer, foi percebida sempre; mas, as mais das vezes, só se teve dela uma noção imperfeita e, por consequência, exprimiu-se insuficientemente, apresentando-se algumas vezes até sob estranhos disfarces. Já os místicos cristãos, por exemplo, recusam ao intelecto (designando-o pelo nome de luz da razão) a faculdade de apreender a verdadeira essência das coisas. Ele é, de certo modo, uma simples força superficial, como a electricidade, e não penetra no âmago das realidades.

Mesmo no ponto de vista empírico, a insuficiência do naturalismo puro manifesta-se logo no facto de que a explicação física vê, já o dissemos, a razão do facto particular na sua causa, e a série destas causas, como sabemos, com inteira certeza, a priori, desenvolve-se numa regressão ao infinito, de modo que nenhuma coisa pôde ser a primeira, dum modo absoluto. Depois, a acção desta causa é reduzida a uma lei natural e esta a uma força natural, que fica absolutamente sem explicação. Mas este elemento inexplicável, a que são reduzidos todos os fenómenos, desde o mais elevado até o mais ínfimo, deste mundo tão claramente dado e tão naturalmente explicável, não estará aí para nos revelar que todas as explicações deste género são condicionadas, de certo modo ex concessis, e que não são a explicação verdadeira e suficiente? Por isso eu disse que fisicamente tudo é explicável e nada o é.




Este elemento absolutamente inexplicável que atravessa todos os fenómenos, que aparece com tanto brilho nos fenómenos superiores, os da geração, por exemplo, mas que se encontra também nos mais rudimentares, nos fenómenos mecânicos, entre outros, é o índice de uma ordem de coisas inteiramente diferente da ordem física e que lhe serve de fundamento. Esta ordem, a que Kant chamava a ordem das coisas em si, é o termo da metafísica.

Em segundo lugar, a insuficiência do naturalismo puro resulta desta verdade filosófica fundamental que estudámos em pormenor na primeira parte de «O Mundo como Vontade e como Representação» e constitui também o tema da «Crítica da Razão Pura», isto é, que todo o objecto é condicionado pelo sujeito pensante, tanto na sua existência objectiva como na forma particular dessa existência, e, por consequência, que o objecto é um simples fenómeno, não uma coisa em si. Isto foi largamente exposto no § 7 do 1.º volume, onde se mostrou a inépcia dos que, à maneira dos materialistas, tomam dum modo inconsiderado o objectivo como dado absolutamente, sem atenderem ao elemento subjectivo por meio do qual apenas, direi mesmo, no qual somente o objectivo existe.

O materialismo hoje em moda fornece numerosos exemplos deste processo; por isso mesmo é uma filosofia de aprendizes de cabeleireiro e de praticantes de farmácia. Na sua ingenuidade, ele vê a coisa em si, na matéria que toma inconsideradamente por qualquer coisa de absolutamente real; segundo ele, a força de impulsão é a única faculdade de uma coisa em si, visto que todas as outras qualidades não podem ser senão fenómenos desta força.

O naturalismo ou a física pura nunca será, portanto, uma explicação suficiente; poder-se-ia compará-lo a um cálculo cujo último termo nunca se encontrasse. Séries causais sem fim nem princípio, forças insondáveis, um espaço infinito, um tempo sem começo, a divisibilidade da matéria ao infinito, todas estas coisas determinadas por um cérebro pensante, só no qual elas existem, do mesmo modo que o sonho, e sem o qual desaparecem: tal é o labirinto em que nos passeia, sem cessar, a concepção naturalista.

As ciências da natureza chegaram, na nossa época, a um grau de perfeição que os séculos precedentes estavam longe de prever, espécie de cume a que a humanidade ascende pela primeira vez. Mas, por maiores que sejam os progressos da física (compreendida no sentido lato que os antigos lhe atribuíam), não contribuirão nada para nos fazer avançar um passo para a metafísica, do mesmo modo que uma superfície, por mais que se prolongue, não se converterá em volume.

Os progressos da física só completarão o conhecimento do fenómeno, ao passo que a metafísica aspira a ultrapassar o fenómeno para estudar a coisa que se apresenta como tal. Ainda que a nossa experiência fosse absolutamente acabada, a situação não se modificaria. Quanto maiores forem os progressos da física, tanto mais vivamente se sentirá a necessidade de uma metafísica. Com efeito, se, por um lado, um conhecimento mais exacto, mais extenso e mais profundo da natureza mina e acaba por derrubar as ideias metafísicas em curso até então, serve por outro lado para pôr mais nítida e mais completamente em relevo o problema da metafísica, para desembaraçá-lo melhor de todo o elemento físico.

Quanto mais completo e exacto for o nosso conhecimento da essência dos objectos particulares, tanto mais imperiosamente se nos imporá a necessidade de explicar o conjunto e o geral; e quanto mais justo, preciso e completo for o conhecimento empírico deste elemento geral, mais misterioso e mais enigmático ele nos aparecerá. É verdade que o sábio ordinário, o que se confina num ramo especial da física, não tem a menor ideia do que acabámos de dizer; dorme feliz ao lado da serva que escolheu na casa de Ulisses, sem um pensamento para Penélope.



Assim, nos nossos dias, a casca da natureza é estudada minuciosamente: conhecem-se por miúdos os intestinos dos vermes intestinais e a vérmina da vérmina. É-se tentado a chamar esmiuçadores da natureza a estes físicos microscópicos e micrológicos. E certamente os que pensam que o cadinho e a retorta são a verdadeira e única fonte de toda a sabedoria não têm o espírito menos pervertido do que o tinham outrora os seus antípodas – os escolásticos.

Do mesmo modo que estes estavam prisioneiros na rede dos seus conceitos abstractos, fora da qual não conheciam nem examinavam nada, os nossos físicos conservam-se inteiramente confinados no seu empirismo, não admitem como verdade senão o que vêem com os seus olhos e julgam ter penetrado, assim, na essência última das coisas. Não suspeitam que entre o fenómeno e aquilo que se manifesta, a coisa em si, há um abismo profundo, uma diferença radical; que para se elucidar a este respeito é preciso conhecer e delimitar, com precisão, o elemento subjectivo do fenómeno e chegar a compreender que as últimas informações, as mais importantes sobre a essência das coisas, só podem procurar-se na consciência de nós mesmos; sem estas operações preliminares é impossível dar um passo para além do que é imediatamente dado aos sentidos, ou, por outras palavras, ultrapassar o problema.

Notemos todavia que, por outro lado, para pôr com precisão o problema da metafísica, é necessário um conhecimento da natureza tão completo quanto possível. Por isso, ninguém deveria tentar abordar a metafísica antes de ter adquirido um conhecimento, pelo menos geral, mas exacto, claro e coordenado dos diversos ramos do estudo da natureza, pois o problema precede, necessariamente, a solução. Porém, uma vez posto o problema, é preciso que o olhar do investigador se volte para dentro, porque os fenómenos morais e intelectuais são mais importantes que os fenómenos físicos, do mesmo modo que o magnetismo animal, por exemplo, é um fenómeno incomparavelmente mais importante que o magnetismo mineral.

O homem traz no seu íntimo os mistérios últimos e fundamentais e é o seu íntimo que lhe é mais imediatamente acessível. Só ali ele pode encontrar a chave do enigma do mundo e o único fio que lhe permite apreender a essência das coisas. O domínio próprio da metafísica é, pois, o que se chama filosofia do espírito.

(1) «Crítica da Razão Pura» e «Crítica da Razão Prática».

(2) Metafísica, V-I.

(In Artur Schopenhauer, Da Necessidade Metafísica, Editorial Inquérito, pp. 43-57).



terça-feira, 18 de outubro de 2022

O Dragão Ataca

Escrito por Shannon Lee



 

 

«Não são permitidos mestres

“Cada homem tem de procurar, por si mesmo, a realização. Mestre algum lha pode dar.”

O meu pai nunca quis que lhe chamassem mestre. Dizia: “Quando dizes que alcançaste o topo, então só podes continuar para baixo.” Em vez disso, considerava-se o eterno estudante – sempre aberto a novas ideias, novas possibilidades, novas direcções e novos crescimentos.

Via o seu processo como o retirar de camadas de uma cebola interminável – descobrindo constantemente camadas novas da alma e revelando níveis de compreensão diferentes:

“A minha vida, ao que parece, é uma vida de auto-análise: um destacar de mim mesmo, pouco a pouco, dia após dia. Está a tornar-se cada vez mais simples para mim, enquanto ser humano, procurar cada vez mais fundo, e as perguntas sucedem-se a um ritmo mais rápido. E vejo com mais clarividência. Sou feliz porque estou a crescer todos os dias, e, sinceramente, não sei onde se encontra o meu limite. É verdade que todos os dias pode ocorrer uma nova revelação ou posso fazer uma nova descoberta.”

Estas são as palavras de um homem apaixonado pela aprendizagem. Este entusiasmo concentrado na compreensão e no crescimento iluminavam-no e libertavam-no. Davam-lhe autorização para explorar e criar e eram um traço distintivo do seu génio. Estabelecia ligações entre disciplinas e ideias para as quais os outros não estavam sequer a olhar, porque tinha uma mente aberta e era um experimentador consumado.


Por exemplo, quando se tratou de desenvolver a arte do jeet kune do, mergulhou não apenas nas artes marciais comuns em busca de inspiração e informação; olhou também para o boxe ocidental, para a esgrima, para a biomecânica e para a filosofia. Admirava a simplicidade do boxe, tendo incorporado as suas ideias no trabalho de pés e nas ferramentas do tronco (golpe seco, cruzado, de gancho, balançar, ziguezaguear, etc.). No caso da esgrima, começou por olhar para o trabalho de pés, para a amplitude e para o momento do bloqueio e da resposta, duas técnicas que respondem aos ataques e às defesas com movimentos de antecipação. E, na filosofia, leu amplamente tanto autores orientais como ocidentais, por exemplo, Lao Tzu, Alan Watts e Krishnamurti, ao mesmo tempo que se debruçava sobre alguns livros de autoajuda populares na altura. Estava aberto a todas as inspirações e a todas as possibilidades – o seu único limite era o limite da sua própria imaginação e compreensão.»

Shannon Lee («Sê Água, Meu Amigo»).

 










«The Yin and Yang of Filmmaking

Bruce was sensitive to dialogue in the film that might lower his standing in the eyes of the Chinese community. This was his turf. He would often react violently to an item in a newspaper or a word overheard. He had been denied roles in the States he should have had and he took a lot of knocks. All of this heightened the problem of his low-tolerance comments he found unfair or injust.

Bruce’s concern over dialogue soon involved the film’s writer, Michael Allin. Michael did not get a lot of money for his script, but was offered a trip to Hong Kong in lieu of financial compensation. Many airline and hotel deals were available in those days that film producers could manipulate. Anyway, Bruce wanted to have several things in the script changed and decided to take advantage of the fact Michael would be on hand during filming. It turned out they did not work well together.

“Bruce had some very specific requests in terms of what his Chinese character should say and the philosophy behind the applications of kung fu,” Andre remembered. “Bruce took that very seriously, probably more than the rest of us. Michael made the mistake of being real smart alecky and talking back to Bruce. Bruce’s attitude was, ‘Hey, there’s only one reason this movie’s being made and that’s because people believe that with Bruce Lee in the movie it’s going to make back its negative cost. It’s not being made because it’s a fine piece of literature.’

“Bruce started out being really nice to Michael,” Andre added. “He was being quite gracious to Michael, but it didn’t work. Bruce had a fairly short fuse and it went very rapidly from ‘Let’s all work together on this’ to ‘Get him out of here. I don’t want to deal with him anymore.’ Unfortunately, Michael had been promised a vacation in Hong Kong and was there to stay.”

Several things happened next that seriously affected the film and Bruce’s relationship with the producers. First, Fred Weintraub promised Bruce Michael would leave Hong Kong the next day. Instead, Fred moved Michael to another hotel and told him not to make himself conspicuous. At the same time Bruce had been interviewed by several reporters and told them of his unhappiness with Michael and how he had been told to leave Hong Kong and had, in fact, left that very day.

To digress a moment: the Star Ferry Company runs ferries from Tsimshatsui in Kowloon across the harbor to central in Hong Kong. Before the Japanese built a subway under the harbor, it was the way across the harbor for most people. There were eight ferries in service at peak periods and it cost six cents for first class and four second class. Today it costs nine cents for first class. In the ‘70s, 100,000 people made the trip each day.

As fate would have it, Bruce’s latest picture had opened and large posters were installed in Kowloon and across the harbor in Hong Kong. Bruce decided to put on his sunglasses and go to see how the new posters looked after he talked to the reporters. Michael happened to take the same ferry across to Hong Kong. When Bruce came across Michael among thousands and thousands of people who make that trip each day, he was dumbfounded, confused and ultimately very, very angry. What of a reporter came across this? Bruce suddenly realized he had been deceived and misinformed the press.


To know Bruce is to understand how cataclysmic this was. First, he refused to continue shooting the film (not to be the last time) and then went about summoning up every Chinese curse he could against Fred. It was an extreme case of lost face. He went into a rage that lasted several days. When Paul or Fred came into a restaurant where Bruce was seated, Bruce got up and left. It took quite some time to smooth things out so everyone could work together again. But Bruce never totally forgave the producers.

Later Michael said Bruce told him Hong Kong was not big enough for both of them. To get even, Michael claims he rewrote the script to include as many “r’s” in Bruce’s dialogue as he could. Everyone knew Bruce had trouble saying the letter “r”.

Fred was becoming more and more impatient with Bruce and the delays he was causing. At one point he yelled he was going to fire Bruce and get another Chinese actor to play the part. “Who needs this guy?” he was heard to say. No one could take that seriously. Bruce was the reason we were all there.

Things were not going as speedily as we had hoped. Plus, rumors and professional opinions began mounting in Hollywood and Hong Kong. They were saying there was no way a Chinese crew and an American crew could work closely together to get filming underway, let alone finish the picture. This was going to be the first true co-production between an American company and a company from Asia. American film companies had traditionally brought all their own people and equipment from the States. They could maintain control this way, but it was very costly.

The Woman Behind the Man 

About a week into filming I got a call from Linda, Bruce’s wife. She wanted to meet me and Raymond at a restaurant near the hotel for coffee. She said Bruce wasn’t to continue to make the film. Bruce was angry about a lot of things, but he was still feeling betrayed by Fred and Paul. To complicate matters, Warner Bros. sent another martial arts film script. Bruce decided to abort Enter the Dragon for the new script and wanted to send everyone home, though he asked me to stay on and direct the newest offering. I told him this was madness. He had to be talked out of it and that’s what I set about doing. Too much money and effort had already been spent to be thrown aside at this late hour. Bruce had made up his mind, but little by little he came around. It was another long night.

Once again Bruce let real and imagined hurts get in the way of his better judgment. All he need was someone to sit down with him and quietly review the problem. Almost always, it was Linda who filled this role. She kept him from going “too far” on many occasions. She was very important to Bruce, but she never played the dreaded “star’s wife”. She gave Bruce confidence and calmed him when he was at his most volatile. She was in the difficult position of being many people to Bruce. She was his father confessor when he had problems and anxieties that had to be faced. At the same time she had to be the tough business woman when it came to delivering messages Bruce wanted delivered. At other times she played the devil’s advocate by saying, “No, I don’t think this is such a good idea.” She was unassuming, yet strong in a trying position.

My wife says, “I went out to their house and Bruce was seated behind his desk in his study. Linda was sitting on a camel stool listening to Bruce as he told me some philosophical thoughts he was working on. He showed me interesting sketches he had done and read me some notes he had written. His conversation was frequently laced with experiences he had making the difficult passage to where he had found himself at that moment. As he was telling me about one of these incidents, I happened to look over at Linda who was riveted by Bruce and silently mouthing every word that he said. It was as if she had memorized his life. I was amazed by her complete admiration of him. She seemed to breathe his air. Her only problem – or so it seemed at the time – was her fear the children might be kidnapped for ransom, something not uncommon in Hong Kong. It was perhaps the only thing that distracted her from being totally absorbed by Bruce.”»

Robert Clouse («The Making of Enter the Dragon»).

       




  

O Dragão Ataca

Um dos alunos do meu pai era Ted Ashley, na altura director do estúdio da Warner Brothers. A Warner Brothers tinha tentado arrancar com uma série de televisão em que o meu pai era a estrela (essa série, Kung Fu, acabaria por ser filmada por um actor branco, a desempenhar o papel de um chinês) e também revelara algum interesse em desenvolver um projecto que o meu pai tinha criado com o escritor (e aluno) Stirling Silliphant, chamado Círculo de Ferro [Circle of Iron ou The Silent Flute], em que o meu pai e James Coburn seriam as estrelas, mas fora malsucedido. No entanto, agora que o meu pai abandonara Hollywood em troca de um desvio por Hong Kong e que estava a alcançar todos os recordes de bilheteira com um filme após outro, os seus defensores na Warner Brothers tinham, por fim, a prova de que necessitavam para convencer o estúdio a fazer um filme com Bruce Lee.

O Dragão Ataca foi a oportunidade de sonho tornada realidade pelo meu pai: um filme de Hollywood em que seria a estrela. Dito isso, Hollywood escolheu dois actores principais para o caso de a aposta no meu pai não dar certo, em parte devido ao intenso preconceito e preocupação envolvidos na xenofobia do público da altura. Mas o meu pai não estava preocupado com isso. Sabia que tinha o que era preciso, ainda que os outros não estivessem tão certos. Estava pronto a aproveitar ao máximo aquela oportunidade e a cumprir o seu objectivo de apresentar a glória do gung fu chinês ao mundo ocidental e de se expressar plenamente numa representação verdadeira, cinematográfica, de um homem chinês.

Só havia um problema. O guião era terrível. Tão terrível, na realidade, que o meu pai foi inflexível na sua decisão de que o autor fosse despedido e enviado de volta para a Califórnia, enquanto ele reescrevia febrilmente grande parte do roteiro. Claro que o estúdio não deu ouvidos ao meu pai e manteve o autor em Hong Kong, realizando pequenas afinações a este filme de acção cujo título inicial era Blood and Steel e, mais tarde, o inventivo Hand’s Island (ao mesmo tempo que mentiam ao meu pai e lhe diziam que o tinham enviado de volta para Los Angeles). Este guião original não tinha nenhuma das cenas icónicas que hoje inclui. Não havia um «dedo a apontar para a Lua». Não havia «arte de lutar sem lutar». Não havia qualquer cena filosófica com o monge a debater a verdadeira natureza da mestria: «Eu não bato. Ele bate sozinho».

Era da maior importância para o meu pai que este filme reflectisse a sua arte e cultura de forma exacta e com profundidade. Este era o seu momento de mostrar ao mundo quem era e o que um homem do gung fu chinês podia fazer, e não se ia contentar com algo medíocre. Por isso reescreveu o guião e apresentou o resultado aos produtores. Também discutiu constantemente com o estúdio por causa do título. O seu nome de palco chinês era Siu Loong, que se traduz por «Pequeno Dragão», e este filme seria a sua apresentação ao Ocidente. O título O Dragão Ataca tinha poder e uma especificidade que Hand’s Island e Blood and Steel não tinham. Escreveu inúmeras cartas à Warner Brothers a pedir que alterassem o nome: «Considerem atentamente o título O Dragão Ataca. Acho verdadeiramente que é um bom título porque sugere o advento de alguém com qualidade.» Esse alguém com qualidade» a que se refere era, claro, ele próprio! 
































Ver aquiaqui e aqui
































 






 













































































O estúdio acabou por sucumbir aos seus pedidos e concordou em alterar o nome do filme. O meu pai treinou como nunca treinara antes e trabalhou constantemente no guião para o tornar tão bom quanto possível. A sua produtora, a Concord Productions, tornou-se a entidade de Hong Kong que produziria o filme (embora o meu pai não surja nos créditos como produtor), e Bruce também ficou responsável por coreografar todo o filme. Trabalhou de noite e de dia para aproveitar ao máximo esta oportunidade que lhe fora dada. Ia mostrar Bruce Lee ao mundo.

 Como escreveu numa carta a Ted Ashley:

“Estou certo de que concordas comigo em que a qualidade, o trabalho árduo e o profissionalismo estão no cerne do cinema. Os meus 20 anos de experiência, tanto nas artes marciais quanto na actuação, conduziram a uma harmonia de sucesso de um homem de espectáculo e a uma expressão genuína, eficaz, artística. Em suma, é isto, e ninguém o sabe tão bem quanto eu. Perdoa-me a franqueza, mas sou assim! Sabes, a minha obsessão é fazer, perdoa-me a expressão, o melhor filme de acção que alguma vez foi feito. Para terminar, dar-te-ei o meu coração, mas, por favor, não me dês apenas a tua mente. Em troca, eu, Bruce Lee, sentirei para sempre o mais profundo apreço pela intensidade do teu envolvimento”.

Eis que chegou o primeiro dia de filmagens, e a equipa de Hong Kong e a equipa norte-americana estavam preparadas para começar, com diversos tradutores no set para ajudarem as duas equipas a comunicar uma com a outra. O meu pai, contudo, não aparecia: recusou-se a ir ao set. O guião final fora divulgado e não incluía as páginas que escrevera. Nenhuma das suas alterações fora introduzida.

Poderia argumentar-se que, nesse momento, o meu pai deveria ter feito o filme como desejavam e depois esperar que saísse suficientemente bem para que lhe dessem outra oportunidade, em que talvez conseguisse um maior controlo criativo: uma maneira de meter o pé na porta e tentar abri-la ligeiramente a cada projecto. Mas o meu pai já o tentara em Hollywood e sabia que não funcionava. Sabia que, se não marcasse uma posição, seria repetidamente marginalizado pelas pessoas que «davam as cartas».

E assim começou o impasse.

A equipa começou a filmar as cenas que podia sem o envolvimento do meu pai, e o meu pai permaneceu em nossa casa e recusou-se a sair até as alterações terem sido feitas. Os produtores vinham a nossa casa e tentavam chamá-lo à razão. Falavam com a minha mãe, que agia como intermediária quando o meu pai se fartava e se recusava a ouvir os seus argumentos acerca do porquê de não fazerem o que ele queria. E o meu pai continuava a bater o pé. Disse-lhes que tinha o guião para o filme que queria fazer e que, se usassem esse guião, apareceria alegremente no set.


 












 

 







 




 





 













 











  












































Os produtores criaram diversas histórias acerca de quão nervoso o meu pai se sentia por estar num filme de Hollywood e poder falhar, estando aterrorizado com a possibilidade de aparecer no set. Em livros que foram escritos muitos anos depois da morte do meu pai, Fred Weintraub apresentou esta história de medo paralisante da parte do meu pai – para grande desagrado e desilusão da minha mãe e da minha família. Bruce Lee não temia esta oportunidade. De facto, era a única pessoa que reconhecia a plena natureza da oportunidade e do que esta podia representar, e preferia nem sequer a ter a desperdiçá-la realizando algo mal-amanhado. Sabia que só teria uma oportunidade de ser apresentado ao mundo. A minha mãe incitou os produtores e o realizador a prestarem atenção, dizendo-lhes: «Ele sabe do que fala. Deviam dar-lhe ouvidos.»

O impasse manteve-se durante duas semanas. À medida que o tempo ia passando, a equipa foi ficando sem cenas para filmar onde não figurasse a sua estrela e coreógrafo e acabou sentada, sem fazer nada, com um custo substancial para o estúdio. A tensão entre o elenco e a equipa era elevada. Os produtores começaram a ser pressionados pela Warner Brothers para repor a produção, e só havia uma maneira de o fazer.

Os produtores acabaram por ceder às exigências do meu pai. Implementaram as alterações no guião que ele tinha feito e concordaram em filmar o filme que imaginara.

Quando perguntei à minha mãe, vários anos depois, se ele estava disposto a perder a oportunidade em vez de se submeter às suas exigências, ela respondeu-me sem hesitar: «Podes crer!» Bruce Lee adoptara uma posição e mantivera-se firme. Aplicou toda a força da sua expressão e do seu ser porque sabia o que era importante para a sua alma. Permanecera fiel à sua identidade e, ao fazê-lo, a plena força do tornado que era alterou a paisagem à sua volta, para sempre.

O Dragão Ataca tornou-se um fenómeno global e cimentou o meu pai como um ícone das artes marciais e da cultura.

No meu próprio processo

Curiosamente, graças ao diligente processo de escrita do meu pai, sabemos o que lhe estava a passar pela cabeça um mês ou dois antes de ter começado a filmar o seu último filme. No início de 1973, o meu pai estava mergulhado na filmagem do seu filme Jogo da Morte ao mesmo tempo que terminava as negociações para aparecer na produção de Hollywood que há tantos anos procurava. Teria de interromper o Jogo da Morte para perseguir o seu sonho de um filme de acção de Hollywood em que o Oriente e o Ocidente se cruzam, que acabaria por se tornar O Dragão Ataca.

Foi neste momento, durante um período da sua vida que não podia ter sido mais atarefado, antecipatório e importante (e que, por coincidência, também antecedeu a sua morte) que o meu pai tentou escrever um artigo a que chamou «In My Own Process». O artigo nunca foi terminado. Em vez disso, temos vários rascunhos manuscritos que parecem uma espécie de manifesto. Declara a sua identidade e parece estar desejoso de expressar por escrito algumas verdades essenciais que lhe foram dadas a conhecer: acerca de si mesmo e da vida.

“Estou, neste momento, a preparar o meu próximo filme O Dragão Ataca, uma produção entre a Concord e a Warner Bros., bem como outra produção da Concord, O Jogo da Morte, que ainda está a meio. Ultimamente, tenho estado atarefado e ocupado com emoções contraditórias”.


























  





 





































Parecia estar a precisar de tirar um fardo de cima. Talvez fosse o resultado de a energia gerar energia. Quando as coisas aceleram e se afadigam, a energia parece expandir, e uma expressão ainda mais criativa pode desejar manifestar-se ou ser transmitida. Ou talvez tivesse um sentido cósmico de que estava a ficar sem tempo. Ou isso fosse apenas uma parte natural da sua maneira de ser. Fosse como fosse, era um homem prestes a realizar o seu maior sonho e que sentia necessidade de se centrar e expressar.

Outra coisa espantosa em relação a estes rascunhos é serem algo febris, marcados por muitos riscos e inserções. São, na realidade, difíceis de ler. A caligrafia normalmente bela é sacrificada ao serviço de uma urgência de dizer algo vital.

"Resume-se à revelação sincera e honesta de um homem chamado Bruce Lee... Quem é exactamente Bruce Lee? Para onde se dirige? O que espera descobrir?... Oh, sei que não me é pedido que escreva uma verdadeira confissão, mas quero ser sincero, é o mínimo que um ser humano pode fazer. No fundo, fui sempre praticante de artes marciais por escolha e actor de profissão. Mas, acima de tudo, espero actualizar-me de modo a tornar-me um artista da vida, pelo caminho”.

Estes rascunhos são ricos em ideias e desejos, mas refiro-me a eles porque também serviram, num momento crucial da sua vida, como recordação bastante oportuna e uma fonte de enraizamento. Parece estar a incitar-se a recordar quem é, o que deseja e o que é importante para ele, de modo a poder continuar verdadeiro para si próprio, a raiz do seu ser, em momentos ainda por vir. «Acima de tudo», disse, «espero actualizar-me de modo a ser um artista da vida». Acima de tudo.

É aqui que conduz a nossa viagem: a compreensão de que a mais grandiosa expressão que podemos ter, e o maior crescimento e impacto, tem origem na raiz do nosso ser. (...) Quando estamos enraizados, quando temos fé e confiança absolutas no nosso propósito e em nós mesmos, estamos livres. Livres para escolher. Livres para criar. Livres para marcar uma posição. Livres para ser: independentemente das circunstâncias ou da situação. E, embora isto possa parecer fácil, quando escolhemos directamente assumir uma dificuldade, é para sermos livres.

O Dragão Ataca é um feito cinematográfico, mas não por ser uma excelente obra do cinema. O enredo é bastante banal e previsível, e o kitsch dos anos de 1970 está em pleno efeito (ainda que o kitsch seja bastante bom!). O Dragão Ataca é icónico porque Bruce Lee pôde ser Bruce Lee e transmitir a sua visão num registo que tinha a capacidade para viajar pelo mundo. Nos rascunhos de «In My Own Process», escritos poucos meses antes, o meu pai disse: «Sou feliz porque estou a crescer todos os dias e, sinceramente, não sei onde se encontra o meu derradeiro limite. Certo é que todos os dias pode ocorrer uma nova revelação ou que posso fazer uma nova descoberta. No entanto, o mais gratificante ainda está para vir; ouvir outro ser humano dizer: “Olha, aqui está alguém real.”»

E quando se assiste a O Dragão Ataca, é isso que se vê. É a experiência de ver um ser humano auto-actualizado, que se expressa, confiante, sem nada a esconder, a resplandecer no ecrã e a entrar na nossa imaginação. De repente, o que uma pessoa pode ser torna-se real, e é enfeitiçante. Pondo de parte o kung fu, ver Bruce Lee é como ver uma libelinha a sério.

(In Shannon Lee, Sê Água, Meu Amigo, Nascente, 1.ª edição: Maio de 2021, pp. 243-252).