sábado, 30 de novembro de 2019

Um momento de compreensão

Escrito por Bruce Lee














Segue, em versão portuguesa, o escrito originalmente intitulado «A Moment of Understanding», inserto em Bruce Lee, The Tao of Gung Fu. A Study in the Way of Chinese Martial Art (editado por John Little, Tuttle Publishing, 1997, pp. 134-136). 

O Gung Fu é uma arte por excelência que não somente se reduz a uma actividade física. Trata-se, portanto, de uma arte que na sua subtileza procura combinar a essência da mente com o aparato técnico ao seu dispor. O seu princípio não é, à semelhança de uma ciência, algo que possa ser apreendido com a procura e a instrução na ordem dos factos. Tem, pois, qual uma flor, que se desenvolver espontaneamente através duma mente livre de emoções e desejos. Assim, o princípio fundamental do Gung Fu é a espontaneidade do universo, numa palavra: o Tao.

Tendo até ao limite praticado a arte do Gung Fu durante quatro anos, comecei então a sentir e a compreender o princípio da harmonia – a arte de neutralizar os efeitos produzidos pela acção do adversário, poupando assim a energia despendida. Ora, isto pode e deve ser realizado com tranquilidade com vista a evitar qualquer esforço desnecessário. À partida parecia uma coisa simples, embora a sua aplicação prática fosse extremamente difícil. E, de facto, deparando-me em combate com um oponente, a minha mente, de tão perturbada que estava, ficava imediatamente fora de si, de modo que, após alguma troca de golpes e pontapés, já toda a minha teoria sobre a harmonia se havia desvanecido, sobrando apenas um único pensamento: “tenho que o desancar e vencer custe o que custar!”.

Naquela época, o mentor da escola de Wing Chun, o Professor Yip Man, aproximou-se de mim dizendo: “Loong, relaxa e acalma-te mentalmente. Deixa que a mente, na sua autodeterminação, crie o contra-movimento sem que haja qualquer espécie de deliberação tua. Aprende, acima de tudo, a arte do despojamento.”

“É isso”, pensei eu. “Devo relaxar!”. Contudo, algo em mim estava nesse mesmo instante em irredutível contradição, ao dizer para mim: “devo relaxar”. A mais premente exigência subjacente ao “devo” era, pois, inconsistente com o não-esforço no acto de “relaxar”. Entretanto, por mais aparentemente evoluída que fosse a minha auto-percepção no sentido daquilo que os psicólogos denominam de duplo-vínculo, o meu mestre chamou-me novamente a atenção: «Loong, liberta-te seguindo os caminhos da natureza e não interfiras. Lembra-te: não te oponhas à natureza, evitando a exposição frontal a um problema, procurando antes resolvê-lo, adaptando-te a ele. Não pratiques mais esta semana. Vai para casa e pensa nisso».

Permaneci durante a semana seguinte em casa. E após muitas horas de prática e meditação, desisti e, sozinho, lancei-me ao mar num junco. Pude, então, recapitular todo o treino até aí feito, e, insatisfeito, desferi um murro na água! E foi nesse preciso momento que fui, então, surpreendido por um pensamento súbito: não era a água em si mesma a essência do Gung Fu? Não revelava ela, finalmente, qual era a fonte primeva da arte do Gung Fu? Ora, de facto, ao desferir o murro fi-lo sem que a água houvesse sofrido o mais leve dano. Voltei a fazê-lo canalizando ao máximo a minha força – porém, incólume, simplesmente incólume permanecia. Tentei em vão agarrá-la com a mão, coisa manifestamente impossível. A água, a substância mais informe do mundo, podendo ser contida numa pequena jarra, era só, à primeira vista, algo vulnerável que podia, ainda assim, penetrar na substância mais dura do mundo. Era isso mesmo! O meu desiderato doravante estaria em identificar-me com a natureza informe da água.

Mas eis senão quando surgiu, inopinadamente, um pássaro projectando o seu reflexo na água. Foi então que, ainda absorto na lição da experiência aquosa, me deparei com outro enlevo místico não menos elucidativo: não podiam as emoções e os pensamentos suscitados na presença de um oponente fluir tão naturalmente como o reflexo de um pássaro na água? Ora, isso fora precisamente o que o Professor Yip Man me sugerira ao aconselhar o despojamento – não que isso implicasse a ausência de emoções e sentimentos, mas apenas que uns e outros não deveriam transformar-se num factor de obstrução. E, assim, a fim de não mais perder o equilíbrio, compreendi o quão importa, decerto, fluir no mais perfeito acordo com a minha natureza e nunca, em circunstância alguma, ao invés.

Por último, recostei-me no junco, imediatamente sentindo o elo unitivo com o Tao, o mesmo elo operando-se simultaneamente com a natureza. Aí, despojado de mim próprio, deixei que a embarcação vogasse por si mesma ao acaso. Nesse momento, entrara, pois, num estado de profunda harmonia em que a mais exclusiva oposição se transmutara numa cooperação inclusiva, cessando assim todo o conflito na minha mente. Na sua totalidade o mundo era, agora, um só e o mesmo.

Yip Man e Bruce Lee


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Yip Man's Wooden Dummy


















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