sábado, 14 de dezembro de 2013

Olavo de Carvalho e a redescoberta de Aristóteles

Escrito por Ângelo Monteiro




«(...) Com efeito, não diferem o historiador e o poeta, por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa) - diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta, o particular. Por "referir-se ao universal" entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e acções que, por liame de necessidade e verosimilhança, convêm a tal natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que dê nomes aos seus personagens; particular, pelo contrário, é o que fez Alcibíades ou o que lhe aconteceu».

Aristóteles («Poética», Tradução, Prefácio, Introdução, Comentário e Apêndices de EUDORO DE SOUSA).


«(...) O mundo acadêmico do século XX ainda subscreve a opinião de Sir David Ross, que por sua vez segue Andrônico: a Retórica tem "um propósito puramente prático"; "não constitui um trabalho teórico" e sim um manual para o orador". Mas à Poética, por seu lado, Ross atribui um valor teórico efetivo, sem reparar que, se Andrônico errou neste caso, pode também ter se enganado quanto à Retórica. Afinal, desde o momento em que foi redescoberta, a Poética também foi encarada sobretudo como "um manual prático" e interessou antes aos literatos do que aos filósofos. De outro lado, o próprio livro dos Tópicos poderia ser visto como "manual técnico" ou pelo menos "prático" - pois na Academia a dialética funcionava exatamente como tal: era o conjunto das normas práticas do debate acadêmico. Enfim, a classificação de Andrônico, uma vez seguida ao pé da letra, resulta em infindáveis confusões, as quais se podem resolver todas de uma vez mediante a admissão da seguinte hipótese, por mais perturbadora que seja: como ciências do discurso, a Poética e a Retórica fazem parte do Organon, conjunto das obras lógicas ou introdutórias, e não são portanto nem teoréticas nem práticas nem técnicas. Este é o núcleo da interpretação que defendo. Ela implica, porém, uma profunda revisão das ideias tradicionais e correntes sobre a ciência aristotélica do discurso. Esta revisão, por sua vez, arrisca a ter consequências de grande porte para a nossa visão da linguagem e da cultura em geral. Reclassificar as obras de um grande filósofo pode parecer um inocente empreendimento de eruditos, mas é como mudar de lugar os pilares de um edifício. Pode exigir a demolição de muitas construções em torno».

Olavo de Carvalho («Aristóteles em Nova Perspectiva»).


«Depois das obras de Álvaro Ribeiro, como Razão Animada, Estudos Gerais, Escola Formal ou a Arte de Filosofar, que reabriram em Portugal, no século XX, os mais altos horizontes da filosofia aristotélica, vejo agora em Olavo de Carvalho, e nesta sua obra, o estudo aristotélico actual mais relevante da Escola Formal, e com não menor relevância até na sua aptidão didáctica para quem se queira iniciar no que mais importa da obra aristotélica, aptidão ou valor que Álvaro também nunca desdenhou ou esqueceu nos seus livros.





OLAVO DE CARVALHO E A REDESCOBERTA DE ARISTÓTELES


Autor de uma obra que já merece um estudo mais acurado - ultrapassando uma dezena de títulos, entre os quais se destacam A nova era e a revolução cultural (1994), Os gêneros literários: seus fundamentos metafísicos (1993), O jardim das aflições (1995/2000) e O imbecil coletivo (1996) -, Olavo de Carvalho empreende em Aristóteles em nova perspectiva (1996) um esforço hermenêutico sem paralelo, tanto no Brasil como no exterior, sobre a unidade das ciências do discurso do Estagirita. Partindo apenas de umas breves indicações de Avicena e Santo Tomás de Aquino, opera uma verdadeira reconstituição do Organon aristotélico, até então sobrecarregado, historicamente, de interpretações equivocadas ou contraditórias.

Quantas vezes nos perguntamos como compreender o papel privilegiado atribuído à Poesia por Aristóteles, considerando-a mais filosófica e de caráter mais elevado que a História, diante da tendência dominante de considerar a lógica, tomada na qualidade de propedêutica, como a chave completa do sistema? Como conciliar o caráter dialético de sua argumentação com a rigidez esquemática com que pretenderam por tanto tempo encarcerar seu pensamento?

Ângelo Monteiro

Tais perguntas felizmente encontram respostas satisfatórias nesta obra, que aponta com extrema clareza os encaminhamentos necessários, mesmo de natureza histórico-filológica, para a compreensão dessa idéia, que não seria jamais captada, em sua inteireza, ao reduzir-se o Organon aristotélico apenas à lógica, sem levar em conta nem a poética, nem a retórica, e até mesmo a dialética. Olavo de Carvalho demonstra, com argumentos sólidos, a unidade da teoria aristotélica, do ponto de vista tanto epistemológico como metafísico, subjacente às quatro modalidades de discurso: a poética, a retórica, a dialética e a lógica. Em sua demonstração, consegue situar em novas bases não só a visão do Organon enquanto tal, mas a concepção geral de um pensamento ao mesmo tempo aporético e sistemático, porque antes de tudo, é orgânico.

A teoria dos Quatro Discursos, colhida no que ficou oculto ou subentendido no pensamento aristotélico, é o elemento-chave dessa hermenêutica, e a prova desse argumento está no fato de Aristóteles ser encarado ora como racionalista, ora como empirista. E tudo isso por conta de uma visão diminuída do seu alcance filosófico, em virtude de preconceitos sedimentados no Ocidente a respeito do papel da imaginação na poética, como de resto nas próprias origens do conhecimento, em favor da demonstração apodíctica, ou do desprezo pela verossimilhança da retórica em comparação com o grau de certeza da lógica. A estreiteza de um ponto de vista meramente lógico do discurso veio amesquinhar até o papel da dialética (por lidar com o domínio das probabilidades) na produção do conhecimento.

Mostrando-se que, entre os Quatro Discursos, há mais uma diferença de grau do que de natureza, Olavo de Carvalho reestrutura o Organon dentro dos quadros de uma história da cultura caracterizada pela "presença das quatro maneiras pelas quais o homem pode, pela palavra, influenciar a mente de outro homem (ou a sua própria)". Dessa forma,

(...) os quatro conceitos básicos são relativos uns aos outros; não se concebe o verossímil fora do possível, nem este sem confronto com o razoável, e assim por diante. A consequência disso é tão óbvia que chega a ser espantoso que quase ninguém a tenha percebido: as quatro ciências são inseparáveis, tomadas isoladamente não fazem nenhum sentido. O que as define e diferencia não são quatro conjuntos isoláveis de caracteres formais, porém quatro possíveis atitudes humanas ante o discurso, quatro motivos humanos para falar e ouvir: o homem discursa para abrir a imaginação à imensidade do possível, para tomar alguma resolução prática, para examinar criticamente a base das consequências e prolongamentos de juízos já admitidos como absolutamente verdadeiros, construindo com eles o edifício do saber científico.




O conhecimento humano, sendo orgânico, não se faz desligado das amarras do mundo sensível, nem desamparado da luz dos primeiros princípios, já que, em Aristóteles, a sua gnosiologia é inseparável de sua antropologia. Por isso a unidade do conhecimento é um dado por excelência, e, como ela se reencontra na multiplicidade dos seres sensíveis, bem como na diversidade das formas de captá-los, a teoria dos Quatro Discursos - desentranhada por Olavo de Carvalho na "circularidade dinâmica" por ele apontada no sistema aristotélico - é fundamental para a compreensão dessa mesma unidade. Pois o que torna particularmente rica a obra de Aristóteles é o número de interpretações que ela propicia, e que não propiciaria caso fosse unívoca e unilateral sua visão do conhecimento.

Se a riqueza dessa obra advém de sua concepção de que o Ser pode ser dito de vários modos, a compreensão do Organon, sobretudo após a recuperação da poética e da retórica, implica o desvelamento de toda uma metafísica implícita ou subentendida em seu sistema. São quatro, portanto, as formas assumidas pelo Logos ou palavra do Ser: o Logos pronuncia o Ser através da imaginação, alargando o campo do possível; chega a uma decisão prática, fundado na eloqüência da verossimilhança; questiona-se num jogo de múltiplas hipóteses ou probabilidades; e afirma-se, finalmente, na universalidade dos seus princípios. Mas o Logos é retroativo e prospectivo, ao mesmo tempo, por visar o Ser e não apenas o ente; por aspirar à universalidade, mas sem perder de vista a singularidade.

Aristóteles, unindo o céu das essências platônicas com a terra dos seres singulares e sensíveis, busca, através da unidade do diverso, mais do que uma episteme, uma sabedoria metafísica que, ascendendo do plano mitopoético à retórica das decisões humanas e destas à contraposição dialética das probabilidades até às afirmações universais dos primeiros princípios - nos leve finalmente ao conhecimento do conhecimento.

Dessa forma, Olavo de Carvalho, em Aristóteles em nova perspectiva (1996), consegue reabilitar Aristóteles de todos os equívocos que aderiram historicamente à longa e acidentada trajectória de seu pensamento, fazendo-nos redescobrir o sabor verdadeiro de sua filosofia ou sabedoria do Ser (in Escolha e Sobrevivência, Ensaios de educação estética, É Realizações, 2004, pp. 104-106).

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Lógica e trapaça

Escrito por Olavo de Carvalho





Época, 30 de junho de 2001


O abuso da palavra sofisma tornou-se hábito consagrado nos debates nacionais

Dois instrumentos usuais da patifaria intelectual são o entimema erístico e o sofisma. Entimema é um silogismo do qual uma das premissas, considerada óbvia ou de domínio público, vem omitida. Por ser leve e prestar-se bem à expressão literária, é o meio preferencial da persuasão retórica, a argumentação jornalística por excelência, que, não podendo demonstrar o certo ou o razoável, se contenta com o verossímil, isto é, com aquilo que, por afinar-se com as crenças do público, é aceito como verdadeiro sem maiores discussões. O verossímil, com freqüência, é também verdadeiro, mas às vezes não o é. O único meio de testá-lo é explicitar a premissa oculta, transformando o entimema num silogismo completo. Ao fazer isso, não raro descobrimos que a premissa oculta não era óbvia nem de domínio público, mas sim alguma estupidez infame, encoberta para poder extorquir a anuência sonsa da platéia distraída. Neste caso o entimema é dito erístico: erística é a arte da argumentação capciosa, a retórica pervertida dos charlatães.

Já o sofisma é um silogismo aparentemente perfeito, mas construído sobre premissas falsas difíceis de impugnar ou ardilosamente desviado na passagem crucial das premissas à conclusão.

Um público afeito à discussão vulgar, mas sem treino filosófico específico, engolirá sem a menor objeção doses maciças de entimemas erísticos, porém, diante de qualquer raciocínio lógico mais elaborado, facilmente será persuadido a armar-se de desconfiança caipira e a rejeitar como “sofismas” as provas mais sérias e fundamentadas, pelo simples fato de serem mais sutis que seu alimento discursivo habitual. Daí a freqüência com que o rótulo de “sofisma” é usado levianamente pelos patifes para impugnar qualquer raciocínio que leve a conclusões que os desagradem.

Nesses casos, caracteristicamente, jamais a acusação de sofisma vem acompanhada da devida indicação dos erros que a justificariam. Ou o rótulo vem sozinho, solto no ar como uma fórmula mágica, na esperança de que exerça automático efeito difamatório, ou sustenta-se em alegações que nada têm de uma refutação em regra e não passam em geral da expressão sumária de uma opinião antagônica à do argumento rejeitado, isto quando não são, elas próprias, entimemas erísticos da mais baixa qualidade.




Sofisma é termo técnico de lógica e seu uso legítimo requer a explicitação dos erros sofísticos correspondentes. Se, em vez disso, alguém o emprega informalmente como figura de linguagem, só pode ser para rebaixar como sofisma algo que não é sofisma.

Um exemplo recente é o do jovem redator de editoriais num grande jornal, que, nomeando-me “rei do sofisma”, dispara sobre mim a seguinte cobrança: “Por que, em vez de quantificar o placar das mortes, Olavo de Carvalho simplesmente não condena todas as ditaduras (chinesa, cubana, brasileira, chilena etc.)?”

Bem, a resposta é que não faço isso porque regimes de força que matam 300 pessoas em 20 anos, como a ditadura militar brasileira, e regimes que matam 3.200 pessoas por dia – tal foi a média da China comunista – simplesmente não são espécies do mesmo gênero, malgrado a comunidade do nome que os designa. O termo “ditadura”, indicando uma estrutura formal de governo e não o concreto modus agendi pelo qual esse governo se impõe e se mantém – numa gama de opções que vai do simples golpe parlamentar ao holocausto –, não dá conta de uma diferença essencial.

Correspondendo à de autoritarismo e totalitarismo, essa diferença é consagrada na distinção entre homicídio e genocídio, entre a violência esporádica e a extinção planejada de uma raça, classe ou nação. Deduzir da pura coincidência de nomes a identidade de fenômenos tão diversos é óbvia trapaça erística, tanto mais perversa se usada para legitimar o nivelamento moral de males incomensuráveis, clássico expediente erístico da propaganda totalitária.




domingo, 8 de dezembro de 2013

Regresso ao Admirável Mundo Novo (ii)

Escrito por Aldous Huxley




«Não é possível conceber uma política independente da ética, nem uma ética independente de um sistema de filosofia. É certo que muitas vezes os escritores políticos não confessam o sistema filosófico a que se encontram necessariamente submetidos, mas o facto não vale de argumento. George Orwell apresenta-nos a caricatura da filosofia alemã na medida em que eleva ao exagero de 1984 as consequências terríveis do comunismo e do nazismo. Convém, pois, não esquecer que a filosofia alemã, através dos seus intérpretes nacionais e estrangeiros, conseguiu dominar o pensamento europeu dos séculos XIX e XX. Em Kant vemos subordinada a razão teórica à razão estética e a razão estética à razão prática, o que tem por corolário inevitável o predomínio social dos técnicos. A vontade, com o seu dualismo de potência e resistência, assume em Fichte a representação dialéctica. Karl Marx propõe o mito da luta de duas classes (mito no qual será possível converter todas as representações dinâmicas da sociedade), para descrever a evolução em termos de materialismo histórico».

Álvaro Ribeiro («George Orwell, 1984 ou a verdade ao alcance das mãos», in prefácio a 1984, trad. port. de Paulo Santa Rita, 1955).


«Nos nossos dias, a utopia não deixou de ser cultivada, mas é significativo que, em vez de advogar a instauração do comunismo, se dedique precisamente a mostrar a relação que há entre ele e o industrialismo e a suscitar a sua mais extreme condenação. É o que acontece nas utopias de A. Huxley e G. Orwell, O Admirável Mundo Novo e 1984».

Orlando Vitorino («Refutação da Filosofia Triunfante»).


«Na educação das crianças [em Esparta] tinha-se principalmente em vista formar soldados obedientes, sofredores, ágeis e robustos. A criança que nascia doentia ou disforme era barbaramente precipitada das rochas do Taígeto, como inútil à pátria. As crianças que os magistrados julgavam dignas da vida, por serem robustas, eram desde tenra idade submetidas a um regime próprio para as acostumar ao trabalho e torná-las insensíveis à dor.

O espírito guerreiro predominava tanto nas instituições de Licurgo, que até as estátuas dos deuses estavam armadas. O culto de Ares (Marte), deus da guerra, tornou-se por vezes tão cruel, que chegaram a imolar-lhe vítimas humanas. Uma das orações que os espartanos dirigiam aos deuses era concebida nestes termos: Dai-nos um espírito são num corpo são».

Fortunato de Almeida («Curso de História Universal»).




«Ao ritmo de crescimento que prevaleceu entre o nascimento de Cristo e a morte da rainha Isabel I, foram necessários dezasseis séculos para que a população da terra duplicasse. No ritmo presente, a população mundial duplicará em menos de meio século. E esta duplicação fantasticamente rápida do número de seres humanos ocorrerá num planeta cujas áreas mais procuradas e produtivas já estão densamente povoadas, cujos solos estão a ser desgastados por esforços frenéticos de maus agricultores, com a finalidade de obterem mais alimento, e cujo capital de minerais facilmente utilizáveis está a ser dissipado com a extravagância estouvada de um marinheiro embriagado que se despoja rapidamente dos salários que acumulou.

(...) Nesta segunda metade do século XX, nada fazemos com carácter sistemático pela nossa procriação; mas, com o nosso modo ocasional e irregular, estamos não somente a superpovoar o nosso planeta, mas também, parece, procedendo seguramente para que estas massas de população cada vez maiores, sejam da mais pobre qualidade biológica. Nos maus dias de outrora, as crianças com defeitos hereditários consideráveis, ou até leves, raramente sobreviviam. Hoje, graças à higiene, à farmacologia moderna e à consciência social, muitas das crianças nascidas com defeitos hereditários atingem a maturidade e multiplicam a sua espécie. Sob as condições actualmente vigentes, cada avanço na medicina tenderá a ser superado por um avanço correspondente no ritmo de sobrevivência dos indivíduos atingidos por qualquer insuficiência genética. A despeito das novas drogas milagreiras e dos melhores tratamentos (de facto, em certo sentido, precisamente devido a estas coisas), a saúde física da população, em geral, não mostrará qualquer melhoria, e poderá piorar. E a par com um declínio da saúde média bem pode ir um declínio na inteligência média. Na verdade, algumas autoridades competentes estão convencidas de que tal declínio já ocorreu e está a continuar.

(...) Ajudar os desafortunados é obviamente bom. Mas, a transmissão maciça, aos nossos descendentes, dos resultados das mutações desfavoráveis, e a contaminação progressiva da reserva genética de que os membros da nossa espécie terão de beber, não é menos obviamente mau. Estamos nas pontas de um dilema ético, e para acharmos a via média é necessária toda a nossa inteligência e toda a nossa boa vontade.
(...) O caminho mais curto e mais largo em direcção ao pesadelo do Admirável Mundo Novo passa, como já indicámos, através da superpopulação e do aumento acelerado do número total de seres humanos - dois mil e oitocentos milhões hoje, cinco mil e quinhentos milhões no dobrar do século, com a maior parte da humanidade encarando a escolha entre a anarquia e o controlo totalitário. Mas a pressão crescente do número de seres humanos sobre os recursos disponíveis não é a única força que nos impele na direcção do totalitarismo. Este cego inimigo biológico da liberdade é aliado com forças muitíssimo poderosas, geradas precisamente pelos progressos efectuados no campo da tecnologia, de que mais nos orgulhamos. De que nos orgulhamos justificadamente, pode acrescentar-se; porque estes avanços são os frutos do génio, e do áspero trabalho persistente, da lógica, da imaginação, do sacrifício - numa palavra, de virtudes morais e intelectuais pelas quais se não pode ter senão admiração. Mas a Natureza das Coisas é tal que ninguém neste mundo pode atingir coisa alguma sem dar algo em troca. (...) Muitos historiadores, muitos sociólogos e psicólogos escreveram longamente, e com profunda aflição, acerca do preço por que o homem do Ocidente tem de pagar e continuará a pagar o progresso técnico. Eles sublinham, por exemplo, que pouca esperança se pode ter em que a democracia floresça em sociedades onde o poder económico e político está a ser progressivamente concentrado e centralizado.

(...) O auto-governo está na razão inversa do quantitativo de seres humanos. Quanto mais numeroso for o eleitorado, menor é o valor de qualquer voto individual. Quando não passa um entre milhões, o indivíduo eleitor sente-se uma quantidade irrelevante e impotente. Os candidatos em quem votou estão muito longe, no topo da pirâmide do poder. Teoricamente são os servidores do povo; mas, de facto, são os servidores que dão as ordens e é o povo, situado na base distante da grande pirâmide, que deve obedecer. O aumento do número da população e os progressos da tecnologia resultaram num aumento do número e da complexidade das organizações, num aumento da quantidade de poder concentrado nas mãos dos dirigentes, e numa diminuição correspondente da intensidade do controle exercido pelos eleitores, do mesmo passo que se dá uma diminuição do interesse do público pelos processos democráticos. Já enfraquecidas por vastas forças impessoais que operam no mundo moderno, as instituições democráticas estão a ser agora interiormente minadas pelos políticos e pelos seus propagandistas».

Aldous Huxley («Regresso ao Admirável Mundo Novo»).


«Um dos aspectos mais evidentes do desenvolvimento actual é a importância do tema do respeito pela vida, que não pode ser de modo algum separado das questões relativas ao desenvolvimento dos povos. Trata-se de um aspecto que, nos últimos tempos, está a assumir uma relevância sempre maior, obrigando-nos a alargar os conceitos de pobreza e desenvolvimento às questões relacionadas com o acolhimento da vida, sobretudo onde o mesmo é de várias maneiras impedido.


Papa João Paulo II

Não só a situação de pobreza provoca ainda altas taxas de mortalidade infantil em muitas regiões, mas perduram também, em várias partes do mundo, práticas de controlo demográfico por parte dos governos, que muitas vezes difundem a contracepção e chegam a impor o aborto. Nos países economicamente mais desenvolvidos, são muito difusas as legislações contrárias à vida, condicionando já o costume e a práxis e contribuindo para divulgar uma mentalidade antinatalista que muitas vezes se procura transmitir a outros Estados como se fosse um progresso cultural. Também algumas organizações não governamentais trabalham activamente pela difusão do aborto, promovendo nos países pobres a adopção da prática da esterilização, mesmo sem as mulheres o saberem. Além disso, há a fundada suspeita de que às vezes as próprias ajudas ao desenvolvimento sejam associadas com determinadas políticas sanitárias que realmente implicam a imposição de um forte controlo dos nascimentos. Igualmente preocupantes são as legislações que prevêem a eutanásia e as pressões de grupos nacionais e internacionais que reivindicam o seu reconhecimento jurídico.

A abertura à vida está no centro do verdadeiro desenvolvimento. Quando uma sociedade começa a negar e a suprimir a vida, acaba por deixar de encontrar as motivações e energias necessárias para trabalhar ao serviço do verdadeiro bem do homem. Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento de uma nova vida, definham também outras formas de acolhimento úteis à vida social. O acolhimento da vida revigora as energias morais e torna-nos capazes de ajuda recíproca...».

Carta Encíclica CARITAS IN VERITATE de Sua Santidade Bento XVI aos bispos, aos presbíteros e aos diáconos, às pessoas consagradas, aos fiéis leigos e a todos os homens de boa vontade sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade.



Persuasão subconsciente


Numa nota de roda-pé inserta na edição de 1919 do seu livro A Interpretação dos Sonhos, Sigmund Freud chamava a atenção para a obra do Dr. Poetzl, um neurologista austríaco, que havia publicado recentemente um artigo onde descrevia as suas experiências com o taquistoscópio. (O taquistoscópio é um instrumento que se apresenta sob duas formas - uma espécie de caleidoscópio em que o paciente olha, durante uma fracção de segundo, uma imagem exposta; ou uma lanterna mágica com obturador ultra-rápido que pode projectar, pelo espaço de uns segundos, uma imagem sobre uma tela). Nestas experiências, «Poetzl pedia aos pacientes que fizessem um desenho do que tinham notado conscientemente de uma imagem que fora exposta à vista deles no taquistoscópio... Depois chamava-lhes a atenção para os sonhos que os pacientes tinham tido na noite seguinte e pedia-lhes mais uma vez, que desenhassem aquilo de que se lembrassem. Os resultados mostravam, inequivocamente, que os pormenores da imagem exposta, que não haviam sido notados pelo paciente, forneciam os elementos da construção do sonho».




Com várias modificações e aperfeiçoamentos, as experiências de Poetzl foram repetidas várias vezes, mais recentemente, pelo dr. Charles Fisher que publicou três excelentes artigos sob o problema dos sonhos e «a percepção preconsciente», no Journal of the American Psychoanalitic Association. Entretanto, os psicologistas clássicos não ficaram inactivos. Confirmando as experiências de Poetzl, os seus trabalhos mostraram que as pessoas vêem e ouvem de facto muito mais coisas do que aquelas de que têm consciência de ver e de ouvir, e o que elas vêem e ouvem, sem que o saibam, é recordado pelo subconsciente, e pode afectar os pensamentos, sentimentos e comportamentos conscientes delas.

A ciência pura não permanece indefinidamente pura. Mais cedo ou mais tarde fica apta a tornar-se ciência aplicada e finalmente tecnologia. A teoria torna-se prática industrial, o saber torna-se em poder, as fórmulas e os experimentos de laboratório sofrem uma metamorfose, e emergem como a bomba H. No presente, o belo fragmento de ciência pura descoberto no campo da percepção pré-consciente, retiveram a sua prístina pureza durante um lapso de tempo surpreendemente longo. Depois, em começos do Outono de 1957, exactamente quarenta anos depois da publicação do primeiros artigos de Poetzl, anunciou-se que a pureza dessas descobertas pertencia ao passado; tinham sido aplicadas, haviam entrado no reino da tecnologia. A revelação fez considerável sensação, e em todo o mundo civilizado se falou e escreveu acerca disso. E não é para admirar; porque a nova técnica de «projecção subliminal», como lhe chamaram, estava intimamente associada com a distracção das massas, e na vida do ser humano civilizado a distracção das massas desempenha agora um papel comparável ao que foi desempenhado pela religião na Idade Média. Têm sido dados vários apelidos à nossa época - a Idade da Ansiedade, a Idade Atómica, a Idade do Espaço. Poder-se-ia chamar-lhe, com igual propriedade, a Idade do vício da televisão, a Idade do folheto estupidificante, a Idade do Gira-Disco. Em tal época, o anúncio de que a ciência pura de Poetzl havia sido aplicada sob a forma de uma técnica de projecção subliminal não podia deixar de despertar o mais intenso interesse entre os que distraem as massas em todo o mundo. Porque a nova técnica era-lhes directamente dirigida, e o seu objectivo era a manipulação dos seus espíritos sem que eles pudessem suspeitar do que lhes estava a ser feito. Por meio de taquistoscópios especialmente concebidos, seriam projectadas palavras ou imagens durante um milionésimo de segundo ou menos, sobre as telas dos aparelhos de televisão ou dos cinemas durante (não antes nem depois) o programa. «Bebam Coca-Cola» ou «Fume Camel» seriam projectadas sobre o beijo dos amantes, as lágrimas da mãe amargurada, e os nervos ópticos dos espectadores recolheriam estas mensagens secretas, os seus subconscientes responder-lhes-iam e, na devida altura, teriam o desejo consciente de coca-cola e do cigarro. E entretanto outras mensagens secretas seriam retransmitidas, demasiado baixo ou demasiado alto, para que pudessem ser apreendidas pela consciência. Conscientemente, o ouvinte apenas prestaria atenção a frases tais como «Querida, amo-te»; mas, abaixo do limite da consciência, os seus ouvidos incrivelmente sensíveis, registariam a boa notícia a desodorizantes e a laxantes.

Este género de propaganda comercial é realmente eficaz? Os dados trazidos pela empresa comercial que usou, pela primeira vez, um processo de projecção subliminal são vagos e, de um ponto de vista científico, pouco satisfatórios. Repetida a intervalos regulares durante a exibição de um filme num cinema, a ordem de comprar milho torrado fez aumentar, dizem-nos, de cinquenta por cento, a venda de milho torrado durante o intervalo. Mas uma só experiência prova muito pouco. Além disso, esta experiência particular tinha sido mal montada. Não havia controle e não se fazia qualquer tentativa para ter em conta as inúmeras variáveis que indubitavelmente afectam o consumo do milho torrado por uma assistência num cinema. E, além disso, era esta a maneira mais eficaz de aplicar o conhecimento acumulado havia alguns anos pelos investigadores científicos da percepção subconsciente? Era provável, segundo a teoria, que a mera projecção do nome de um produto e a ordem de o comprar fossem bastantes para quebrar a resistência à compra e recrutar novos consumidores? A resposta a estas duas perguntas é evidentemente negativa. Mas isto não significa, talvez, que as descobertas dos neurologistas e dos psicologistas não tenham qualquer importância prática. Habilmente aplicado, o bocadinho de bela ciência pura de Poetzl pode muito bem tornar-se num instrumento poderoso de manipulação de espíritos desprevenidos.




Para escolhermos algumas sugestões reveladoras, desviemo-nos dos vendedores de milho torrado para aqueles que, com menos barulho mas com maior imaginação e melhores métodos, fizeram experiências no mesmo domínio. Na Inglaterra, onde o processo de manipulação dos espíritos abaixo do nível da consciência é conhecido pelo nome de Strobonic injection, os investigadores sublinharam a importância prática de criarem as condições psicológicas adequadas à persuasão subconsciente. Uma sugestão feita acima do nível da consciência é mais susceptível de ser eficaz se aquele que a recebe está num estado de ligeira hipnose, sob a influência de certas drogas, ou se encontra debilitado pela doença, pela inanição ou não importa que tensão psíquica ou moral. Mas o que é verdadeiro para sugestões feitas acima do limiar de consciência é também verdade em relação a sugestões feitas abaixo deste limiar. Numa palavra, quanto mais inferior for o nível psicológico de uma pessoa, tanto maior será a eficácia das sugestões estrombonicalmente injectadas. O ditador científico de amanhã estabelecerá as suas máquinas de transmitir mensagens secretas e os seus projectores subliminais nas escolas e nos hospitais (as crianças e os doentes são altamente sugestionáveis), e em todos os lugares públicos onde os auditórios possam receber um amaciamento preliminar por intermédio de um discurso ou de rituais que aumentam a sugestibilidade.

Das condições sob as quais podemos esperar que a sugestão subliminal seja eficaz passamos agora à própria sugestão. Em que termos deverá dirigir-se o propagandista ao subconsciente das suas próprias vítimas? Ordens directas («Compre milho torrado» ou «Vote em Jones») e afirmações peremptórias («O Socialismo cheira mal» ou «A pasta de dentes X suprime o mau hálito») só terão provavelmente efeito naqueles espíritos que já são por Jones e pelo milho torrado, já despertos para os perigos dos odores do corpo e da propriedade pública dos instrumentos de produção. Mas para fortalecer a fé existente não basta isto; o propagandista, se é digno desse nome, deve criar nova fé, deve saber como levar o indiferente e o indeciso para o seu lado, deve ser capaz de amolecer e até de convencer os que lhe são hostis. À asserção subliminal e à ordem, deve acrescentar a persuasão subliminal.

Acima do limiar de consciência, um dos métodos mais eficazes da persuasão não-racional é o que pode chamar-se persuasão «por associação». O propagandista associa arbitrariamente o seu produto escolhido, ou o seu candidato ou a sua causa com uma ideia, uma imagem de uma pessoa ou de uma coisa, que muita gente, de uma dada cultura, considera indiscutivelmente um bem. Assim, numa campanha de vendas, a beleza feminina pode ser arbitrariamente associada com qualquer coisa, desde o «bulldozer» até um diurético, numa campanha política o patriotismo pode ser associado com qualquer causa desde a segregação até à integração, e com qualquer género de pessoa, desde Mahatma Gandhi até ao senador McCarthy. Há alguns anos, na América Central, observei um exemplo de persuasão por associação que me encheu de admiração aterrada pelos homens que a imaginavam. Nas montanhas da Guatemala, as únicas obras de arte importadas são os calendários coloridos gratuitamente distribuídos pelas companhias estrangeiras que vendem os seus produtos aos Índios. Os americanos representavam cães, paisagens, jovens beldades seminuas sobre os seus calendários; mas para os indígenas, os cães não passam de objectos úteis, as paisagens nevadas, que se fartaram de ver todos os dias e as loiras seminuas parecem-lhes sem nenhum interesse, talvez até um pouco repugnantes. Por consequência, os calendários americanos tinham muito menos sucesso do que os calendários alemães, porque os anunciantes germânicos haviam tido o cuidado de procurar o que os Índios apreciavam, o que lhes interessava, e lembro-me em particular de uma verdadeira obra-prima de propaganda comercial. Era o calendário distribuído por um fabricante de aspirina. Ao fundo da imagem, via-se a marca familiar sobre o familiar tubo de comprimidos brancos. Por cima, nada de paisagens nevadas ou florestas no Outono, cães felpudos ou de beldades despidas. Não - os hábeis alemães haviam associado o seu analgésico a um quadro extremamente colorido e vivo da Santíssima Trindade, sob uma nuvem horizontal, ladeado por S. José e pela Virgem Maria, de um sortido de santos e de revoadas de anjos. As virtudes miraculosas do ácido acetil-salicílico eram garantidas deste modo, nos espíritos simples e profundamente religiosos dos índios, pelo Deus Pai e por toda a corte celeste.




Este género de persuasão por associação é algo a que parecem prestar-se particularmente bem as técnicas de projecção subconsciente. Numa série de experimentos levados a efeito pela Universidade de Nova York, sob os auspícios do Instituto Nacional de Saúde, descobriu-se que os sentimentos de uma pessoa acerca de qualquer imagem conscientemente vista podem ser modificados pela sua associação, ao nível subconsciente, com outra imagem, ou melhor ainda, com palavras portadoras de valor. Assim, quando associada ao nível subconsciente, com a palavra «feliz», uma face sem expressão parecerá que sorri, que olha amigavelmente, acolhedoramente. Quando a mesma face era associada, também no plano subconsciente, com a palavra «furioso», parecia agressiva, desagradável e hostil. (Para um grupo de mulheres jovens, a figura parecia muito masculina - ao passo que, quando era associada com a palavra «feliz», viam a face como se ela pertencesse a um membro do seu próprio sexo. Pais e maridos, façam favor de tomar nota). Para o propagandista comercial e político, estas descobertas são, como é óbvio, altamente significativas. Se puder pôr as suas vítimas num estado anormalmente elevado de sugestibilidade, se puder mostrar-lhes, quando se encontram neste estado, a coisa ou pessoa ou, mediante um símbolo, a causa que tem para lhes vender, e se, no plano subconsciente, pode associar essa coisa ou pessoa  ou símbolo, com qualquer palavra, ou imagem portadora de valor, o propagandista pode ser capaz de modificar os sentimentos ou opiniões das pessoas, sem que elas tenham a mais pequena ideia do que ele está a fazer. Será possível, segundo um grupo comercial empreendedor de Nova Orléans, aumentar, mediante o emprego desta técnica, o valor distractivo dos filmes e peças de televisão. As pessoas gostam de sentir emoções fortes e, portanto, gostam de tragédias, de melodramas, de filmes policiais e de narrações de grandes paixões. A dramatização de uma batalha ou de um beijo produz emoções fortes nos espectadores. Podia produzir até emoções mais fortes se fosse associado, ao nível subconsciente, às palavras ou símbolos adequados. Por exemplo, na versão filmada do Adeus às Armas, a morte da heroína, durante o parto, pode ser tornada mais lancinante do que já é, mediante a repetida projecção subliminal, sobre a tela, durante o desempenho da cena, de palavras tão ominosas como «dor», «sangue» e «morte». As palavras não serão conscientemente vistas; mas o seu efeito sobre o subconsciente pode ser muito grande, e estes efeitos podem reforçar poderosamente as emoções evocadas, ao nível da consciência, pela acção e o diálogo. Se, como parece certo, a projecção subliminal pode intensificar poderosamente as emoções sentidas pelos frequentadores de cinema, a indústria cinematográfica pode ser salva da bancarrota - se os produtores de peças de televisão se não apropriarem, em primeiro lugar, da ideia.

À luz do que se disse acerca da persuasão por associação e da intensificação de emoções por sugestão subliminal imaginemos o que será uma reunião política no futuro. O candidato (se ainda se tratar de candidatos), ou o representante qualificado da oligarquia dirigente fará o seu discurso que todos ouvirão. Entretanto, os taquistoscópios, as máquinas de transmitir mensagens secretas e segredadas, os projectores de imagens tão fracas que só o subconsciente lhes pode reagir, reforçarão o que ele diz, por intermédio da associação sistemática do homem e da sua causa, as palavras carregadas de valores positivos e de imagens veneradas, e pela «injecção estronbónica» de palavras carregadas de valores negativos e de símbolos odiosos, sempre que ele mencione os inimigos do Estado ou do Partido. Nos Estados Unidos da América, rápidos reflexos de Abraham Lincoln e as palavras «governo pelo povo» serão projectadas na tribuna. Na Rússia, o locutor será decerto associado a imagens rápidas de Lenine, com palavras «democracia do povo», e a barba profética do Pai Marx. Porque tudo isto se passará num futuro ainda tranquilizadoramente distante, podemos sorrir. Mas, daqui a dez ou vinte anos, provavelmente, um pouco menos divertido. Porque o que é, agora, mera ficção científica, tornar-se-á um facto político de todos os dias.




Poetzl foi um dos profetas que descurei ao escrever o Admirável Mundo Novo. Na minha fábula não há qualquer referência à projecção subliminal. É um erro de omissão que, se voltasse a escrever o livro agora, eu corrigiria certamente (ibidem, pp. 165-178).

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Regresso ao Admirável Mundo Novo (i)

Escrito por Aldous Huxley






«O único progresso em psicologia foi o começo da exploração das profundezas, das zonas subconscientes. Nós cremos que existem também cumes a explorar, uma zona superconsciente. Ou antes, as nossas pesquisas e reflexões convidam-nos a admitir como hipótese a existência de um equipamento superior do cérebro, em grande parte inexplorado. No estado de vigília normal da consciência fica em actividade um décimo do cérebro. Que se passa nos nove décimos aparentemente silenciosos? E não existe um estado onde a totalidade do cérebro se acharia em actividade organizada? (...) Ora ainda não existe nenhuma psicologia orientada em relação a esse fenómeno. Sem dúvida será necessário aguardar que a neurofisiologia progrida para que nasça uma psicologia, e sem querer prever os resultados, queremos simplesmente chamar a atenção para esse domínio. Pode ser que a sua exploração se revele tão importante como a exploração do átomo e a do espaço.

Até aqui, todo o interesse se fixou naquilo que está por debaixo da consciência; quanto à própria consciência, não deixou de aparecer, no estudo moderno, como um fenómeno proveniente das zonas inferiores: o sexo para Freud, os reflexos condicionados para Pavlov, etc. De forma que toda a literatura psicológica, todo o romance moderno, por exemplo, corresponde à definição de Chesterton: "Essas pessoas que, ao falarem do mar, só falam do enjoo". Mas Chesterton era católico: ele cria na existência de Deus. Tornava-se necessário que a psicologia se libertasse, como qualquer outra ciência, da teologia. Nós apenas pensamos que a libertação ainda não é completa; que existe também uma libertação em altura: pelo estudo metódico dos fenómenos que se situam acima da consciência, da inteligência que vibra a uma frequência superior.

O espectro da luz apresenta-se assim: à esquerda, a larga faixa de ondas hertzianas e do infravermelho. Ao centro, a estreita faixa da luz visível; à direita, a faixa infinita: ultravioleta, raios x, raios gama e o desconhecido.

E se o espectro da inteligência, da luz humana, lhe fosse comparável? À esquerda, o infra ou subconsciente, ao centro, a estreita faixa da consciência, à direita, a faixa infinita da ultraconsciência. Até aqui os estudos só atingiram a consciência e a subconsciência. O vasto domínio da ultraconsciência não parece ter sido explorado, a não ser pelos místicos e pelos mágicos: explorações secretas, testemunhos pouco esclarecedores. A pequena quantidade de informações conseguidas faz com que se expliquem certos fenómenos inegáveis - como seja a intuição e o génio, correspondendo ao princípio da faixa direita - com os fenómenos da infraconsciência, correspondendo ao final da faixa da esquerda. Aquilo que sabemos do subconsciente serve-nos para explicar o pouco que sabemos do superconsciente. Ora, não se pode explicar a direita do espectro de luz com a esquerda, os raios gama com as ondas hertzianas: as propriedades não são as mesmas. Assim, pensamos que, se existe um estado para além do estado de consciência, as propriedades do espírito são aí totalmente diferentes. Outros métodos, diferentes dos da psicologia dos estados inferiores, devem ser encontrados».

Louis Pauwels e Jacques Bergier («O Despertar dos Mágicos. Introdução ao Realismo Fantástico»).


«Experiência não é o que acontece ao homem, é o que o homem faz com o que lhe acontece».

Aldous Huxley


Lavagem de cérebro


Retrato de Ivan Pavlov, de Mikhail Nesterov

(...) No decurso das suas experimentações, que fizeram época, sobre os reflexos condicionados, Ivan Pavlov observou que, quando sujeitados a uma tensão física ou psíquica prolongada, os animais de laboratório exibiam todos os sintomas de uma profunda depressão nervosa. Recusando-se a afrontar por mais tempo uma situação intolerável, os seus cérebros entravam em greve, por assim dizer, e, ou paravam completamente de funcionar (o cão perdia a consciência) ou então recorriam à marcha lenta e à sabotagem (o cão comportava-se de maneira incoerente, ou exibia o género de sintomas físicos que, num ser humano, chamaríamos histéricos. Alguns animais são mais resistentes à tensão do que outros. Os cães que possuíam o que Pavlov chamava uma constituição «fortemente excitável» soçobravam mais rapidamente do que os cães dotados de um temperamento «vivo» (em oposição ao temperamento colérico ou agitado). Similarmente, os cães «fracamente inibidos» esgotavam a sua resistência muito mais depressa do que os «calmos imperturbáveis». Mas até os cães mais estóicos eram incapazes de resistirem indefinidamente. Se a tensão a que era submetido, fosse suficientemente intensa ou suficientemente prolongada, o cão acabava por soçobrar de uma maneira tão abjecta como o animal mais fraco da sua espécie.

As descobertas de Pavlov foram confirmadas da maneira mais angustiante, e numa escala muito ampla, durante as duas Guerras Mundiais. Em resultado de uma só experiência catastrófica, ou de uma sucessão de terrores menos violentos mas frequentemente repetidos, os soldados apresentam um certo número de sintomas de desmantelamento psicofísico. Inconsistência temporária, agitação extrema, letargia, cegueira ou paralisia funcional, respostas totalmente desconexas ao estímulo dos acontecimentos, alterações estranhas de comportamentos habituais - todos os sintomas que Pavlov observara nos seus cães reapareceram entre as vítimas do que foi chamado na Primeira Guerra Mundial «o horror nervoso à guerra» e, na Segunda, «a fadiga de guerra». Cada homem, como cada cão tem o seu próprio limite individual de resistência. A maioria dos homens atingem esse limite depois de cerca de trinta dias de tensão, mais ou menos contínua sob as condições do combate moderno. Os mais sensíveis sucumbem em quinze dias. Os mais fortes duram quarenta e cinco ou até cinquenta dias. Fortes ou fracos, todos acabam finalmente por soçobrar. Todos, quer dizer, todos aqueles que eram inicialmente saudáveis. Porque, diga-se com ironia, as únicas pessoas que podem suportar indefinidamente a pressão da guerra moderna são os psicopatas. A loucura individual está imunizada em relação às consequências da loucura colectiva.


O facto de cada indivíduo ter o seu limite de resistência foi conhecido e explorado desde tempos imemoriais de uma maneira deploravelmente pouco científica. Em alguns casos, a terrível desumanidade do homem para com o homem foi inspirada pelo amor da crueldade, devido à horrível fascinação que esta exerce. Com muita frequência, todavia, o puro sadismo foi temperado pelo utilitarismo, pela teologia ou por razões de Estado. A tortura física e outras formas de violência foram infligidas pelos homens de leis com a finalidade de soltarem a língua das testemunhas relutantes; por eclesiásticos, a fim de punirem os não-ortodoxos e os induzirem a mudarem de opiniões; pela polícia secreta, a fim de extraírem confissões de pessoas suspeitas de serem hostis para com o governo. Com Hitler, a tortura, seguida pelo extermínio em massa, era usada em relação a esses heréticos biológicos, os judeus. Para um jovem nazi, uma temporada de serviço nos campos de extermínio era (segundo as palavras de Himmler), «a melhor doutrinação sobre os seres inferiores e as raças sub-humanas». Dada a qualidade obsessional do anti-semitismo contraído por Hitler durante a juventude, nos bairros miseráveis de Viena, esta revivescência dos métodos empregados pelo Santo Ofício contra os heréticos e feiticeiros era inevitável. Mas, à luz das descobertas de Pavlov e dos conhecimentos adquiridos pelos psiquiatras no tratamento das neuroses de guerra, tal revivescência parece um anacronismo grotesco e repugnante. Agressões amplamente suficientes para causarem um colapso cerebral completo podem ser efectivadas por métodos que, posto que abominavelmente inumanos, ficam aquém da tortura física.

Seja o que for que possa ter-se passado outrora, parece mais ou menos certo que a tortura não é muito usada pela polícia comunista de hoje. Esta inspira-se não do inquisidor ou do SS, mas sim do fisiologista e dos seus animais de laboratório, metodicamente condicionados. Para o ditador e para a sua polícia, as descobertas de Pavlov têm consequências práticas importantes. Se o sistema nervoso central dos cães pode ser levado a sossobrar, o sistema central dos prisioneiros políticos pode sê-lo igualmente. É apenas uma questão de aplicar a quantidade exacta de tensão durante a quantidade de tempo adequada. No fim do tratamento, o prisioneiro estará em estado de neurose ou de histeria, e estará apto a confessar o que os seus captores quiserem que ele confesse.

Mas a confusão não é suficiente. Um neurótico incurável não pode ser útil a ninguém. O ditador inteligente e prático não necessita de um paciente para ser hospitalizado, ou de uma vítima para ser abatida, mas sim de um convertido que trabalhe pela causa. Voltando-se mais uma vez para Pavlov, o ditador aprende que, no seu caminho para o colapso final, os cães se tornam anormalmente sugestionáveis. Quando o paciente se encontra perto do limite da resistência cerebral, é fácil fazerem-lhe adoptar novos comportamentos que ficam radicados para sempre. O animal em que tais formas de comportamento foram implantadas não pode voltar a ser descondicionado; o que o animal aprendeu sob o seu estado de tensão, permanecerá como parte integrante do seu ser.

A tensão psicológica pode ser produzida de muitas maneiras. Os cães ficam perturbados quando os estímulos são anormalmente fortes; quando o intervalo entre o estímulo e a resposta habitual é indevidamente prolongado, e o animal é deixado num estado de suspensão psíquica, quando o cérebro fica confundido pelos estímulos que surgem em oposição ao que o cão aprendeu a esperar, quando os estímulos não fazem sentido dentro da estrutura de referência do paciente. Além disso, constatou-se que, provocando deliberadamente o medo, a cólera ou a ansiedade, se aumentava sensivelmente a sugestibilidade do cão. Se estas emoções forem levadas a um alto ponto de intensidade, durante um tempo suficientemente longo, o cérebro põe-se «em greve». Quando isto acontece, podem instalar-se, com o maior sucesso, novos padrões de comportamento.


Entre as causas físicas que aumentam a sugestibilidade de um cão encontram-se a fadiga, os ferimentos e todas as formas da doença.

Para o aspirante a ditador, estas descobertas contêm importantes consequências práticas. Estas observações provam, por exemplo, que Hitler tinha toda a razão ao sustentar que as reuniões em massa eram mais eficazes à noite do que de dia. «Durante o dia», escreveu Hitler, «a vontade do homem revolta-se com maior energia contra qualquer tentativa de o forçarem a submeter-se a outra vontade e a outra opinião. À noite, porém, o homem sucumbe mais facilmente à força dominante de uma vontade mais forte.

Pavlov teria concordado com ele; a fadiga aumenta a sugestibilidade. (É por essa razão, entre outras, que as firmas que patrocinam um programa de televisão preferem as emissões nocturnas e estão prontas a pagarem caro a sua preferência).

A doença é ainda mais eficiente do que a fadiga, no que diz respeito à intensificação da sugestibilidade. No passado, os quartos de doentes eram teatro de incontáveis cenas de conversão religiosa. O ditador do futuro, cientificamente treinado, terá todos os hospitais dos seus domínios prontos a receberem o som e equipados com almofadas alto-falantes. Persuasão em conserva estará no ar vinte e quatro horas por dia, e os pacientes mais importantes serão visitados por salvadores do espírito, precisamente como no passado os seus pais eram visitados por padres, freiras e laicos piedosos.

O facto das emoções fortes e negativas tenderem a aumentar a sugestibilidade e a facilitarem, assim, uma mudança de opiniões, foi observada e explorada muito antes da época de Pavlov. Como sublinhou o Dr.William Sargant no seu tão esclarecedor livro, Battle for the Mind, o enorme sucesso de John Wesley como pregador estava baseado no conhecimento intuitivo do sistema nervoso central. John Wesley abria o seu sermão com uma descrição longa e minuciosa dos tormentos a que os seus auditores seriam certamente condenados por toda a eternidade, a menos que se convertessem. Depois, quando o terror e um sentimento de culpabilidade torturante haviam levado o auditório à beira da vertigem, ou até, em certos casos, a um afundamento cerebral completo, mudava de tom e prometia a salvação àqueles que cressem e se arrependessem. Com este género de pregação, Wesley converteu milhares de homens, de mulheres e de crianças. O medo intenso e prolongado levava-os a soçobrar e produzia um estado de sugestibilidade extremamente intensificada. Neste estado, as pessoas eram capazes de aceitar sem discussão as afirmações teológicas do pregador. Depois disso, eram restabelecidos na sua integridade com palavras de reconforto, e saíam da provação com padrões de comportamento, novos, e geralmente melhores, implantados de modo indestrutível nos seus espíritos e no seu sistema nervoso.

A eficácia da propaganda religiosa e política depende dos métodos empregados, não das doutrinas ensinadas. Estas doutrinas podem ser verdadeiras ou falsas, sãs ou perniciosas - pouca ou nenhuma diferença faz. Se a doutrinação é efectuada de maneira adequada no estado adequado da exaustão nervosa, será eficaz. Sob condições favoráveis, praticamente qualquer pessoa pode ser convertida praticamente a qualquer coisa.
Emblema da NKVD (Ministério do Interior da URSS, criado em 1934).


Possuímos descrições pormenorizadas dos métodos pela polícia Comunista no seu tratamento dos prisioneiros políticos. Desde o momento em que é detida, a vítima é sistematicamente submetida a muitas espécies de pressões físicas e psicológicas. É mal alimentado, é alojado desconfortavelmente, não é autorizado a dormir durante mais de algumas horas por noite. E é mantido durante esse tempo num estado de suspensão psíquica, de incerteza e de aguda apreensão. Dia após dia, - ou antes, noite após noite, porque estes polícias pavlovianos compreendem o valor da fadiga como intensificador da sugestibilidade - é interrogado frequentes vezes, durante muitas horas seguidas, por inquiridores que se esforçam por amedrontá-lo, por confundi-lo e por desorientá-lo. Após algumas semanas ou meses de tal tratamento, o seu cérebro põe-se em greve, e confessa tudo o que os seus captores querem que ele confesse. Então, oferecem-lhe o conforto da esperança. Se ele quiser aceitar a nova fé, pode ser, todavia, salvo - não, certamente, numa vida futura (porque, oficialmente, não há vida futura) mas na vida presente.

Métodos semelhantes, se bem que menos drásticos foram utilizados durante a guerra da Coreia em prisioneiros de guerra. Nos campos chineses onde se encontravam, jovens prisioneiros Ocidentais foram sujeitados sistematicamente a pressões. Assim, pelas mais insignificantes infracções das regras, os transgressores eram chamados ao gabinete do comandante, submetidos a um interrogatório, tratados com arrogância e publicamente humilhados. E o processo repetir-se-ia, várias vezes, a qualquer hora do dia ou da noite. Esta hostilização contínua produzia nas suas vítimas uma impressão de desorientação e de ansiedade crónica. Para lhes intensificar o sentimento de culpa mandavam que os prisioneiros escrevessem e tornassem a escrever, com pormenores cada vez mais íntimos, longos relatos autobiográficos das suas infracções. E depois de terem confessado os seus próprios pecados, era-lhes requerido que confessassem os pecados dos seus companheiros. O objectivo visado consistia em criar dentro do acampamento uma sociedade de pesadelo, em que cada pessoa espiava e denunciava as outras. A estas pressões mentais adicionavam-se as pressões físicas da subalimentação, do desconforto e da doença. O aumento da susceptibilidade assim obtido era habilmente explorado pelos Chineses, que inundavam estes cérebros anormalmente receptivos com grandes doses de literatura pró-comunista e anticapitalista. Estas técnicas pavlovianas eram notavelmente eficazes. Em cada sete, havia um americano culpado de grave colaboração com as autoridades chinesas, informam-nos oficialmente, um entre três da colaboração técnica.

Não se deve supor que esta espécie de tratamento esteja reservado exclusivamente para os seus inimigos pelos comunistas. Os jovens trabalhadores cujo ofício era, durante os primeiros anos do novo regime, actuarem como missionários e organizadores do comunismo, nas inúmeras cidades e aldeias da China, eram levados a seguir um curso de doutrinação muito mais intenso do que aquele a que qualquer prisioneiro de guerra foi submetido. No seu livro China under Communism, R. L. Walker descreve os métodos por intermédio dos quais os dirigentes do partido puderam fabricar, a partir de homens e mulheres vulgares, os milhares de fanáticos decididamente devotados que lhes são necessários para propagarem o evangelho comunista e fazerem cumprir as suas ordens. Sob este sistema de treino, o material humano bruto é enviado para campos especiais, onde é completamente isolado do seus amigos, famílias e do mundo exterior em geral. Nestes campos, mandam-lhes que realizem trabalhos esgotantes, físicos e mentais; nunca estão sós, estão sempre em grupos; são encorajados a espiarem-se uns aos outros; mandam-lhes que escrevam autobiografias acusatórias; vivem num estado de medo crónico do terrível destino a que podem ser votados devido ao que tenha sido dito acerca deles por informadores, ou do que eles próprios confessaram.




Neste estado de sugestibilidade aumentada, fazem-lhes seguir um curso intensivo do Marxismo teórico e aplicado - um curso em que o fracasso no exame com que termina, pode significar não importa que sanção, desde a expulsão ignominiosa até à estadia num campo de trabalhos forçados, ou até à liquidação. Depois de seis meses desta espécie de treino, a prolongada tensão mental e física produz resultados que as descobertas de Pavlov fariam prever. Um após outro, ou por grupos inteiros, os pacientes soçobram. Surgem sintomas neuróticos e histéricos. Algumas das vítimas suicidam-se, outras (até vinte por cento do total, dizem-nos) contraem uma doença mental grave. Aqueles que sobrevivem aos rigores do processo de conversão, emergem com novos e indeléveis padrões de comportamento. Todas as suas ligações com o passado - família, amigos, tradições - foram rompidas. São homens novos, recriados à imagem dos seus novos deuses e totalmente dedicados ao seu serviço.

Em todo o mundo comunista dezenas de milhares destes jovens, disciplinados e devotados, são formados todos os anos em centenas de centros de formação. O que os Jesuítas fizeram na Igreja Católica da Contra-Reforma, estão a fazê-lo agora estes produtos de um treino mais científico e ainda mais duro, e continuarão sem dúvida a fazê-lo nos partidos comunistas da Europa, da Ásia e da África.

Em política, Pavlov parece ter sido um liberal da velha guarda. Mas, por uma estranha ironia do destino, as suas investigações e as teorias que nelas baseou trouxeram à existência um grande exército de fanáticos dedicados de alma e coração, de reflexos e de sistema nervoso, à destruição do liberalismo à moda antiga, seja onde for que ele se encontre.

A lavagem de cérebro, tal como é agora praticada, é uma técnica híbrida, em parte dependente, no que diz respeito à sua eficácia, do uso sistemático da violência, em parte da habilidade de manipulação psicológica. Representa a tradição de 1984 na sua marcha para se tornar a tradição do Admirável Mundo Novo. Sob uma ditadura estabelecida há longo tempo e bem organizada, os nossos métodos correntes de manipulação semi-violenta parecerão, sem dúvida, absurdamente primários. Condicionado desde a mais tenra idade (e talvez também biologicamente predestinado) o indivíduo de casta média ou baixa, jamais terá necessidade de se converter, ou até de seguir um curso que lhe refresque a nova fé. Os membros da casta superior terão de ser capazes de pensar novos pensamentos, a fim de responderem a novas situações, e consequentemente, o seu treino será muito menos rígido do que o treino imposto àqueles cujo ofício não é pensarem, mas simplesmente trabalharem e morrerem com um mínimo de complicações. Estes indivíduos da casta superior serão além disso, membros de uma espécie selvagem - treinadores e guardas, eles próprios também ligeiramente condicionados, de um vasto rebanho de animais domésticos completamente domesticados. A sua selvajaria tornará possível que se tornem heréticos e rebeldes. Quando isto acontecer, terão de ser liquidados, ou de sofrer uma lavagem de cérebro que os devolva à ortodoxia, ou (como no Admirável Mundo Novo) serão exilados para uma ilha, onde não possam causar mais perturbações, excepto, certamente, uns aos outros. Mas o condicionamento universal da infância e outras técnicas de manipulação e controlo ainda estão afastados de nós pelo lapso de algumas gerações. No caminho que leva ao Admirável Mundo Novo os nossos dirigentes têm de contentar-se com técnicas de lavagem de cérebro provisórias e transitórias (in Regresso ao Admirável Mundo Novo, Edição «Livros do Brasil» Lisboa, pp. 127-143).





Continua

domingo, 1 de dezembro de 2013

O Sal da Terra (iii)

Entrevista a Joseph Ratzinger




«Existiu efectivamente uma ars amandi - uma arte ou cultura do amor - que nem sempre se reduziu a um conjunto de expedientes e de técnicas em função da mera luxúria. Esta arte foi conhecida na antiguidade e ainda é praticada por alguns povos orientais. Neles existiram, contudo, mulheres que, peritas nessa arte, eram tão estimadas e respeitadas como aqueles que possuíam os segredos de outra arte qualquer e os sabiam aplicar. É notório que na Antiguidade Clássica as heteras fossem tidas em alta estima por homens como Péricles, Fídias, Alcibíades; Sólon mandou erigir um templo à deusa da "prostituição", o mesmo sucedendo em Roma em certas formas do culto de Vénus. No tempo de Políbio encontravam-se estátuas de heteras em templos e edifícios públicos, ao lado de chefes militares e políticos. No Japão, algumas destas mulheres foram celebradas em monumentos. E como em qualquer outra arte veremos que, no mundo tradicional, será preciso supor relativamente à ars amandi a existência de uma ciência secreta, sobretudo nos casos em que se tem conhecimento de ligações de mulheres de posse dessa arte com determinados cultos.

Será, com efeito, difícil que se manifestem e desenvolvam as possibilidades superiores da experiência do eros quando permitimos que esta experiência se desenrole por si própria nas suas formas mais grosseiras, cegas e naturalmente espontâneas. A questão essencial será de verificar se, ao desenvolverem-se na experiência erótica as formas-limite de sensações de que é susceptível, se mantém e até predomina a dimensão mais profunda do eros, ou se as suas formas degeneram numa procura libertina e exterior do "prazer". Isto conduz-nos à definição de dois aspectos possíveis e bem definidos da ars amandi.

(...) É muito conhecido o papel desempenhado pelo coração na linguagem dos amantes e pertence geralmente ao campo do sentimentalismo mais adocicado e deliquescente. Contudo, até neste caso será possível entrever o reflexo de um facto profundo, se nos lembrarmos daquilo que o coração sempre significou nas tradições esotéricas e doutrinais. Mais do que a sede de emoções estas tradições consideram o coração como o centro do ser humano e também como o local para onde se transporta a consciência durante o sono, abandonando o cérebro, o centro em que se localiza habitualmente o estado de vigília. O equivalente consciente do estado do sono é portanto (...) o estado "subtil", particularmente na tradição hindu; do mesmo modo, porém, o espaço interior, secreto, do coração é considerado por diversos místicos como o centro da luz supra-sensível ("a luz do coração"). Quando Dante ao falar da primeira e subtil percepção do eros se refere à "câmara mais secreta do coração", não se trata já aqui de uma alusão banal e aproximativa de linguagem amorosa, mas de algo muito mais preciso e real. Não há nada mais banal que o coração trespassado por uma flecha (a flecha que justamente com o facho era para os antigos atributo do Amor personificado): este é também um dos temas preferidos nas tatuagens dos marinheiros e dos criminosos. Ao mesmo tempo, porém, é como que um hieróglifo que considerando tudo quanto até agora foi dito, tem uma singular intensidade de sentido. O eros manifesta-se nas suas formas mais típicas como uma espécie de traumatismo, no fulcro do ser individual, que esotericamente é constituído pelo coração. Segundo tradições concordantes, foi no coração que se estabeleceu o vínculo do Eu individual, e que será preciso quebrar se quisermos participar numa vida mais elevada, numa liberdade superior. O eros actua, neste caso, como a ferida mortal duma flecha. Veremos que os "Fiéis de Amor" medievais, e com eles Dante, elevaram este facto conscientemente, transportando-o para um plano muito para além da experiência profana dos amantes. A marca persiste, porém, nesta experiência como em cada amor. A expressão fat'hul-qalb (abertura ou descerramento do coração) pertence ao esoterismo islâmico tal como a de "luz do coração". Poderemos encontrar inúmeras correspondências na linguagem dos místicos. No Corpus Hermeticum (VII, 11, VI, 1) encontramos as expressões: abrir os "olhos do coração", compreender com "os olhos do coração". Será assim possível estabelecer-se uma relação entre esta condição, já em certa medida desindividualizante, do afrouxamento do vínculo do coração, e a experiência de novidade e quase que de uma transfiguração fresca e activa do mundo, que, como já dissémos, acompanha o estado de amor: seria possível ver nela como que um esboço daquilo que, no sufismo se denomina, justamente, a percepção do mundo com os olhos do coração, ayn-el-qalb».

Julius Evola («A Metafísica do Sexo»).


«(...) o cristianismo tomou partido de tudo o que é fraco, baixo e incapaz, fez da oposição aos instintos de conservação da vida forte, um ideal; e até corrompeu a razão das naturezas intelectualmente poderosas, ensinando que os valores superiores do intelecto não passam de pecados, desvios e tentações.

(...) O cristianismo possui na sua base alguns requintes que lhe vêm do Oriente. Antes de mais sabe que é de todo indiferente que uma coisa seja verdadeira em si, mas que é da maior importância que ela seja tomada como verdadeira. A verdade e a crença em que algo seja verdadeiro: eis os dois mundos de interesse absolutamente divergentes, mundos quase antagónicos - a um e a outro se chega por caminhos radicalmente diferentes. O facto de se estar iniciado nesta matéria quase produz o sábio no oriente: assim o entendem os Brâmanes, assim o entende Platão e todos os discípulos da sabedoria esotérica. Se, por exemplo, existe felicidade em alguém julgar-se livre do pecado, não será necessário, como condição prévia, que o homem seja pecador, o essencial é que se sinta pecador. Ora se a crença é o mais necessário, tornar-se-á obviamente imprescindível lançar o descrédito sobre a razão, o conhecimento, a pesquisa: o caminho da verdade torna-se caminho interdito. A forte esperança é um muito maior stimulans para a vida do que qualquer felicidade isolada que se realize no plano da realidade. Para aqueles que sofrem é necessário uma esperança que a realidade não possa contradizer - e da qual satisfação alguma os consiga afastar: uma esperança de além-túmulo. (É precisamente por causa desta sua capacidade de entreter os desgraçados, que a esperança era considerada entre os Gregos como o mal entre os males, o mais astucioso de entre todos: deixavam-no no fundo da Caixa de Pandora. Para que o amor seja possível, Deus deve ser uma pessoa; para que os instintos subjacentes se possam expandir é necessário que o Deus seja jovem. Para o fervor das mulheres põe-se em primeiro plano um belo santo; para o dos homens, uma virgem. Isto na pressuposição de que o cristianismo queira imperar num terreno onde o culto de Afrodite ou o de Adónis tinha já determinado o carácter da adoração. A exigência de castidade reforça a veemência e a interioridade do instinto religioso - torna o culto mais fervoroso, mais exaltado, mais intenso -. O amor é o estado em que os homens têm mais probabilidades de ver as coisas como elas não são. A força ilusõria encontra-se aqui no seu paroxismo, bem como a força lenificante e glorificante. No amor suporta-se mais que o habitual, tolera-se tudo. Tratava-se pois de inventar uma religião onde se pudesse amar: pois o amor permite esquecer o que de pior a vida tem - já nem sequer se dará por tais coisas -. E eis o que chega para explicar as três virtudes cristãs, fé, esperança, caridade: chamo-lhes as três habilidades cristãs.

(...) O Deus antigo, inteiramente "espírito", inteiramente grande sacerdote, perfeição acabada, passeia no seu jardim; contudo, aborrece-se. Os próprios deuses lutam em vão contra o tédio. E que faz ele? Inventa o homem, o homem distrai. Mas ah! o homem também  se aborrece. A piedade de Deus para a única pena que é a propriedade de todos os paraísos, não conheceu limites: então criou ainda outros animais. Primeiro equívoco de Deus: o homem também não soube divertir-se com os animais, reinou sobre eles, nem mesmo quis ser "animal". Deus, pois, criou a mulher. E, efectivamente, cessou o aborrecimento, mas também muitas outras coisas! A mulher foi o segundo equívoco de Deus. A mulher é, por essência, uma serpente, "Heva", isto todo o sacerdote sabe; "pela mulher vem todo o mal ao Mundo", isto igualmente todo o sacerdote sabe. "Logo a ciência também vem dela?"...


A mulher fez comer ao homem o fruto da árvore da ciência e que sucedeu? O Deus antigo foi presa do pânico. O próprio homem veio a ser o seu maior equívoco, havia criado um rival, a ciência torna igual a Deus, pobre dos sacerdotes e deuses se o homem chega a ser científico" Moralidade: a ciência é a coisa proibida em si, só ela é proibida. A ciência é o primeiro pecado, o germe de todo o pecado, o pecado original. A moral é só isto: "Tu não conhecerás nada", o resto deduz-se disso. O pânico de Deus não o impede de ser astuto. Como defender-se contra a ciência? Foi este por longo tempo o seu grande problema. Resposta: saía o homem do paraíso! A felicidade, a ociosidade evocam os pensamentos, todos os pensamentos são maus pensamentos... O homem não deve pensar. E o "sacerdote" em si inventa a pena, a morte, o perigo mortal do embaraço, toda a espécie de misérias, a velhice, a inquietação, antes de tudo, a doença, nada mais senão meios de luta contra a ciência! A miséria não permite que o homem pense... E, apesar de tudo, ó espanto! A obra do conhecimento eleva-se gigantesca, escalando o céu, dando o toque do crepúsculo dos deuses. Que fazer? O antigo Deus inventa a guerra, separa os povos, faz com que os homens se aniquilem reciprocamente (os sacerdotes tiveram sempre necessidade da guerra...) A guerra é, entre outras coisas, um desmancha-prazeres da ciência. Incrível! O conhecimento, a emancipação do jugo sacerdotal aumentam apesar das guerras. E o Deus antigo adopta como derradeira decisão: "o homem tornou-se científico, é uma coisa que não serve para nada, cumpre afogá-lo!..."».

Frederico Nietzsche («O Anticristo»).


«Ao amor entre homem e mulher, que não nasce da inteligência e da vontade mas que, de certa forma, se impõe ao ser humano, a Grécia antiga deu o nome de eros. Diga-se, desde já, que o Antigo Testamento grego só usa duas vezes a palavra eros, enquanto o Novo Testamento nunca a usa: das três palavras gregas relacionadas com o amor - eros, philia (amor de amizade) e ágape - os escritos neotestamentários privilegiam a última, que, na linguagem grega, era quase posta de lado. Quanto ao amor de amizade (philia), este é retomado com um significado mais profundo no Evangelho de João para exprimir a relação entre Jesus e os seus discípulos. A marginalização da palavra eros, juntamente com a nova visão do amor que se exprime através da palavra ágape, denota sem dúvida, na novidade do Cristianismo, algo de essencial e próprio relativamente à compreensão do amor. Na crítica ao Cristianismo, que se foi desenvolvendo com radicalismo crescente a partir do Iluminismo, esta novidade foi avaliada de forma absolutamente negativa. Segundo Frederico Nietzsche, o Cristianismo teria dado veneno a beber ao eros, que, embora não tivesse morrido, daí teria recebido o impulso para degenerar em vícío [Jenseits von Gut und Böse, IV, 168). Este filósofo alemão exprimia, assim, uma sensação muito generalizada: com os seus mandamentos e proibições, a Igreja não nos torna, porventura, amarga a coisa mais bela da vida? Porventura, não assinala ela proibições precisamente onde a alegria, preparada para nós pelo Criador, nos oferece uma felicidade que nos faz pressentir algo de Divino?


Mas, será mesmo assim? O Cristianismo destruiu verdadeiramente o eros? Vejamos o mundo pré-cristão. Os gregos - aliás de forma análoga a outras culturas - viram no eros sobretudo o inebriamento, a subjugação da razão por parte duma "loucura divina" que arranca o ser humano das limitações da sua existência e, neste estado de transtorno por uma força divina, falta-lhe experimentar a mais alta beatitude. Deste modo, todas as outras forças, quer do céu quer da terra, resultam de importância secundária: "Omnia vincit amor - o amor tude vence", afirma Virgílio nas Bucólicas e acrescenta: "et nos cedamus amori - rendamo-nos também nós ao amor" [X, 69]. Nas religiões, esta posição traduziu-se nos cultos da fertilidade, aos quais pertence a prostituição "sagrada" que prosperava em muitos templos. O eros foi, pois, celebrado como força divina, como comunhão com o Divino.

A esta forma de religião, que contrasta, qual fortíssima tentação, com a fé no único Deus, o Antigo Testamento opôs-se com a maior firmeza, combatendo-a como perversão da religiosidade. Ao fazê-lo, porém, não rejeitou de modo algum o eros enquanto tal, mas declarou guerra à sua subversão devastadora, porque a falsa divinização do eros, como aí se verifica, priva-o da sua dignidade, desumaniza-o. De facto, no templo, as prostitutas, que devem dar o inebriamento do Divino, não são tratadas como seres humanos e pessoas, mas servem apenas como instrumentos para suscitar a "loucura divina": na realidade, não são deusas, mas pessoas humanas de quem se abusa. Por isso, o eros inebriante e descontrolado não é elevação, "êxtase" até ao Divino, mas queda, degradação do homem. Fica assim claro que o eros necessita de disciplina, de purificação para dar ao ser humano, não o prazer de um instante, mas uma certa amostra do vértice da existência, daquela beatitude para a qual tende todo o nosso ser.

Dois dados resultam claramente desta rápida visão sobre a concepção do eros na história e na actualidade. O primeiro é que entre o amor e o Divino existe alguma relação: o amor promete infinito, eternidade - uma realidade maior e totalmente diferente do dia-a-dia da nossa existência. E o segundo é que o caminho para tal meta não consiste em deixar-se simplesmente subjugar pelo instinto. São necessárias purificações e amadurecimentos, que passam também pela estrada da renúncia. Isto não é rejeição do eros, não é o seu "envenenamento", mas a cura em ordem à sua verdadeira grandeza».

Carta Encíclica Deus Caritas Est do Sumo Pontífice Bento XVI



O Sal da Terra



Que importância tem a crise actual da Igreja? É o maior desafio de sempre? E o que significa a crise da Igreja para o mundo? Declarou uma vez que a extinção da Igreja levaria a um desmoronamento espiritual cuja dimensão não podemos medir.

Quanto à primeira pergunta, não sei. É, com certeza,  um dos maiores desafios. Mas na Igreja antiga também tivemos dois enormes desafios. Um foi a gnose, quando se deu uma transformação gradual na Igreja, tanto do culto como da fé, em ideologias, em mitos e em imagens. Parecia estar a apoderar-se, pouco a pouco, de toda a Igreja. Quando hoje se lê isso, pensa-se que havia, de um lado, os gnósticos e, do outro lado, os Padres da Igreja. Mas não é verdade, pois as correntes estavam completamente envolvidas umas nas outras, o que só devagar pôde ser levado à clarificação. Também houve a tentativa, que se compreendia muito bem e que era muito convidativa, de afastar o Antigo Testamento para se limitar a S. Paulo. Houve momentos orientados para a busca da própria identidade, que eram extremamente complexos. Existia, quanto muito, um magistério central que se encontrava numa fase inicial e que poderia ter tido uma intervenção eficaz. Por isso, a disputa teve de ser resolvida, pouco a pouco, no interior. E o cristianismo poderia, facilmente, ter vindo a ser outra coisa. Julgo que foi uma grande crise, precisamente no início da Cristandade, quando esta tinha de se formar a si mesma.

Uma segunda crise, que não foi tão grave nem tão grande como a primeira, mas que foi um desafio importante, foi a crise ariana. Os imperadores apostaram temporiamente no arianismo, porque se conciliava mais facilmente com a mentalidade dominante. O modelo era que há um Deus, e depois há Cristo, que é um ser semelhante a Deus. Qualquer pessoa podia perceber isto. Todo o aparelho político foi usado para impor isto. Até os bispos cederam em grande número, conferências episcopais inteiras, se se quiser dizê-lo assim. Por fim todo o mundo germânico se tornou ariano, até que o mundo antigo (os romanos) era católico, e o mundo novo (os germanos) era ariano. Assim, também se julgava poder reconhecer facilmente em que direcção se encontrava o que é novo, onde se encontra o futuro.

Julgo que a crise do século XVI também foi grave, mesmo que não tocasse tanto as raízes, porque tinha permanecido a aceitação comum das confissões da fé. Mas as confusões internas da Igreja eram muito grandes, porque o elemento reformador se tinha dividido logo em movimentos diferentes, em partes radicais.

O que hoje vivemos talvez não seja, portanto, a partir deste ponto de vista, o maior desafio desde o início da História, mas é um desafio que chega às raízes.


Como foi possível que a crise da Igreja se pudesse agravar de tal modo? Gostaria primeiro de perguntar se não existem razões que possivelmente se possam encontrar fora da Igreja?

Há desde o início do Iluminismo uma forte corrente, à qual a Igreja parece ser algo antiquado. Quanto mais se desenvolvia o pensamento moderno, mais radical se tornou a questão. Mesmo que se desenvolvessem movimentos de retorno no século XIX, em geral, a tendência manteve-se. O que é aceitável de um ponto de vista científico, torna-se no critério supremo; mas assim surge - como se vê claramente em Bultmann - uma imposição da chamada concepção moderna do mundo, que se afirma de modo extremamente dogmático e que exclui intervenções de Deus no mundo, tais como milagres e a revelação. O Homem pode ter religião, mas ela encontra-se então na dimensão subjectiva e não pode, portanto, ter conteúdos objectivos, válidos para todos e dogmáticos; tal como o dogma parece contradizer a razão do Homem. Nestes ventos contrários da História, por assim dizer, encontra-se a Igreja, e estes ventos contrários da História continuarão.

Apesar disso mostra-se então, naturalmente, também a dimensão unilateral de uma posição iluminista radical, porque uma religião reduzida ao domínio simplesmente subjectivo já não tem força formadora, mas é o sujeito que se confirma a si mesmo. A racionalidade simples, que se limita às ciência naturais, também não pode responder às interrogações relevantes, às questões - donde vimos, o que sou, como devo viver, por que razão existo? Estas interrogações situam-se noutro nível de racionalidade. Não se podem entregar simplesmente à subjectividade ou à racionalidade. A Igreja, por isso, já não será, num tempo previsível, a forma de vida de uma sociedade inteira, já não haverá nenhuma Idade Média, pelos menos nos tempos mais próximos. Será sempre, por assim dizer, um movimento, ou até um movimento contrário à concepção predominante do mundo, mas, ao mesmo tempo, voltará também a mostrar sempre de novo como é, na sua necessidade e na sua fundação humana.

Já no fim do Iluminismo, antes da Revolução Francesa, se disse que o Papa, esse Dalai Lama da Cristandade, deve desaparecer definitivamente para que comece a época da razão. Ele desapareceu, de facto, por pouco tempo - no exílio em França. Mas o papado tornou-se mais forte no século XIX do que nunca tinha sido antes. E o cristianismo no século XIX não voltou a experimentar nenhuma força medieval nem nenhuma forma medieval, mas, em vez disso, viveu algo de muito mais belo, nomeadamente enormes ressurgimentos e efeitos sociais. Continuarão a existir duas correntes, grandes forças independentes uma da outra, mas que têm de procurar colaborar uma com a outra. A nova situação mundial torna a fé mais complicada, e decidir-se pela fé torna-se mais pessoal e difícil, mas não se pode deixar o cristianismo por o considerar antiquado.



A Igreja tem novos concorrentes, as pessoas comparam, medem e procuram novos refúgios. Talvez já fosse mais fácil para as gerações passadas preservar a força da fé, porque consideravam a sua religião como uma religião provada pelos antepassados, que já não se tem de pôr em questão. Hoje introduziu-se, nessa relação, um preconceito fundamental. Surgiu uma espécie de dogma secular moderno, segundo o qual a Igreja de baseia, em primeiro lugar, na opressão e no poder. Uma vez que, actualmente, as pessoas estão esclarecidas e os estados secularizados, seria consequente que a Igreja se tornasse cada vez menos popular.

Em relação a essa questão diria duas coisas; em primeiro lugar mostrou-se precisamente em sistemas repressivos que a Igreja não se deixa adaptar a uma concepção unitária do mundo, mas permanece como pólo contrário e existe como comunidade mundial, como uma força contra a opressão. O século XX mostrou de forma até então desconhecida que é precisamente a união comunitária, constituída pela Igreja, que forma uma força contrária que se opõe a todos os mecanismos políticos e económicos de opressão e de uniformização do mundo; dá um lugar de liberdade às pessoas e coloca, por assim dizer, um último limite à opressão. Os mártires viveram isto sempre, de modo exemplar, pelos outros. Observa-se tanto no Leste da Europa como na China, assim como na América do Sul e em África, que a Igreja é um elemento de liberdade. É precisamente um elemento de liberdade porque tem uma configuração comunitária que também inclui um compromisso comunitário. Se, a partir daí me empenho contra a ditadura, não o faço apenas em meu nome particular, mas a partir de uma força interior que vai para além do meu próprio eu e da minha subjectividade.

Quanto à segunda questão, diria que há uma ideologia que, no fundo, reduz tudo o que existe a um comportamento de poder. E essa ideologia destrói a humanidade e destrói também a Igreja. Dou um exemplo muito concreto: se só se vê a Igreja sob a perspectiva do poder, cada um que não exerce um ministério é logo um oprimido. E, então, por exemplo, a questão da ordenação das mulheres torna-se, como questão de poder, numa questão obrigatória, porque cada um tem de ter poder. Julgo que esta ideologia da suspeita, segundo a qual, no fundo, só se trata de poder em todo o lado, não destrói apenas a união na Igreja, mas destrói-a na vida humana em geral. Também dá uma perspectiva completamente falsa, como se o poder na Igreja fosse um fim último. Como se o poder fosse a única categoria para explicar o mundo e a comunidade que nele existe. Nós não estamos na Igreja para nela exercermos o poder numa associação. Se faz algum sentido pertencer à Igreja, então faz sentido porque nos dá a vida eterna e, assim, a vida verdadeira. Tudo o mais é secundário. Se isto não é assim, também todo o "poder" na Igreja que desce então para o nível de uma associação, é teatro absurdo. Julgo que temos de deixar essa ideologia de poder e essa redução, que ainda provêm da suspeita marxista.
O dogma da infalibilidade

(...) Permita que comecemos com um ponto que os protestantes resolveram realmente muito cedo, o dogma da infalibilidade. O que exprime este dogma, realmente? Está bem ou mal interpretado, quando se parte de que tudo o que diz o Santo Padre é automaticamente santo e está certo? Quero pôr esta questão no início deste cânon da crítica, porque, manifestamente, toca especialmente as pessoas, seja por que razões for.

Referiu-se a um erro. Este dogma, realmente, não significa que tudo o que o Papa diz é infalível. Significa simplesmente que no cristianismo existe uma última instância decisória, pelo menos, segundo a fé católica. Que, finalmente, as questões essenciais podem ser decididas de modo definitivo e que podemos ter a certeza de que a herança de Cristo está bem interpretada. Esse carácter absoluto está, de algum modo, presente em cada comunidade cristã de fé, só que não se refere ao Papa.

Também é claro para a Igreja Ortodoxa que as decisões do Concílio são infalíveis, na medida em que posso confiar nelas, quando dizem que aqui a herança de Cristo está bem interpretada, e é a nossa fé comum. Não é preciso que cada um, por assim dizer, o destile e o retire da Bíblia, mas à Igreja é dada a possibilidade da certeza comum. A diferença da ortodoxia é apenas que o cristianismo romano conhece, para além do concílio ecuménico, outra instância de confirmação, que é o sucessor de Pedro, que pode igualmente dar essa confrmação. O Papa aí está naturalmente ligado a condições que garantem - e que, além disso, lhe dão essa obrigação profunda - que não se decida segundo a própria consciência subjectiva, mas na grande comunidade da tradição.

Efectivamente levou muito tempo até que essa solução fosse encontrada.

Também houve concílios antes de haver uma teoria sobre os concílios. Os Padres do Concílio de Niceia, em 325, o primeiro Concílio, nem sabiam o que era um concílio; tinha sido o Imperador a convocá-lo. Apesar de tudo, já compreendiam que não tinham sido só eles a falar, mas que podiam dizer (o que depois também diz o Concílio dos Apóstolos): "Agradou ao Espírito Santo e a nós" (Act. 15, 28) - quer dizer que o Espírito Santo decidiu connosco, através de nós. O Concílio de Niceia fala de três primados que existem na Igreja - Roma, Antioquia e Alexandria. Nomeia instâncias de confirmação que estão todas as três ligadas à tradição segundo S. Pedro. Roma e Antioquia são as sedes episcopais de S. Pedro. Alexandria, como sede episcopal de S. Marcos, foi igualmente ligada à tradição de S. Pedro, nesta tríade.

Os bispos de Roma souberam muito cedo e muito claramente que se encontravam na tradição de S. Pedro e que tinham também, com essa responsabilidade, a promessa que os ajuda a corresponder-lhe. Isso tornou-se muito claro na crise ariana, quando Roma foi a única instância capaz de enfrentar o Imperador. O Bispo de Roma, que tem de escutar toda a Igreja e que não cria sozinho a fé, tem uma função que se encontra, em primeiro lugar, na sequência da promessa feita a S. Pedro. Só foi formulado conceptualmente, em definitivo, em 1870.

Martírio de S. Pedro em Roma

Talvez se devesse ainda referir que entretanto se compreende cada vez melhor, também fora da Cristandade católica, que, para o todo, é necessária uma instância capaz de manter a unidade. Isso manifestou-se, por exemplo, no diálogo com os anglicanos. Os anglicanos estão dispostos a reconhecer que existe, por assim dizer, uma condução providencial na ligação à tradição do primado de Roma, sem quererem relacionar directamente as palavras de S. Pedro com o Papa. Também noutras partes da Cristandade protestante se reconhece que a Cristandade deve, por assim dizer, ter um porta-voz que a exprime em pessoa. E na Igreja Ortodoxa também se elevam vozes que se manifestam de modo crítico perante a desintegração da Igreja em igrejas autocéfalas (igrejas nacionais) e, em vez disso, consideram que faz sentido o recurso ao princípio de S. Pedro. Não é um reconhecimento do dogma romano, mas as convergências tornam-se cada vez mais evidentes.


(...) O celibato

Curiosamente, não há nada que enfureça tanto as pessoas como a questão do celibato. Embora só diga respeito a uma parte minúscula do povo da Igreja. Por que razão existe o celibato?

Liga-se a uma palavra de Cristo. Nela se diz que há aqueles que renunciam ao casamento por causa do Reino dos Céus e que dão testemunho, com toda a sua existência, do Reino dos Céus. A Igreja chegou, muito cedo, à convicção de que ser padre significa dar este testemunho pelo Reino dos Céus. Podia referir-se objectivamente de modo análogo a um paralelo, de outra natureza, no Antigo Testamento. Israel entra na terra prometida. Cada uma das onze tribos recebe a sua terra, o seu território. Só a tribo de Levi, a tribo dos sacerdotes, não recebe nenhuma terra, não recebe nenhuma herança; a sua herança é Deus só. De um ponto de vista prático, isto significa que os que pertencem a essa tribo vivem de ofertas para o culto e não, como outras tribos, do cultivo da terra. O ponto essencial é que não têm propriedade. No salmo 16 diz-se: Tu és a parte da minha taça, és Tu que garantes a minha sorte, Deus é a minha herança. Esta figura, que a tribo dos sacerdotes no Antigo Testamento é uma tribo sem terra e vive, por assim dizer, de Deus - e, assim, dá realmente testemunho d'Ele - foi, mais tarde, traduzido do seguinte modo, em ligação à palavra de Jesus: a terra de vida do padre é Deus.

Hoje é tão difícil compreender esta forma de renúncia, porque mudou consideravelmente a atitude em relação ao casamento e aos filhos. Antigamente, ter de morrer sem filhos significava que se tinha vivido em vão; desaparece o meu próprio rasto de vida, e estou completamente morto. Se existem filhos meus, continuo a viver neles, e tenho uma espécie de imortalidade através da descendência. Por isso, ter descendência e permanecer, desse modo, na terra dos vivos, é a condição suprema de vida.

A renúncia ao casamento e à família deve ser compreendida a partir desta perspectiva, do seguinte modo: renuncio ao que, de um ponto de vista humano, não é apenas o mais normal, mas também o mais importante. Renuncio a produzir na árvore da vida, a ter uma própria terra da vida, e vivo na fé de que a minha terra é, realmente, Deus - assim torno crível para os outros que existe o Reino dos Céus. Não dou somente com palavras testemunho de Jesus Cristo, do Evangelho, mas com este modo específico de existir, e ponho, desta forma, a minha vida à disposição d'Ele.


Assim, o celibato tem, ao mesmo tempo, um sentido cristológico e apostólico. Não se trata simplesmente de poupar tempo, porque, como não sou pai de família, até disponho de um pouco mais de tempo; isto seria demasiado primitivo e pragmático. Trata-se, realmente, de uma existência que aposta inteiramente em Deus e que omite aquilo que normalmente torna uma existência humana adulta e auspiciosa.

Por outro lado, não se trata de nenhum dogma. Será que um dia se poderá rever a questão, no sentido de uma livre escolha entre forma de vida celibatária e não-celibatária?

Não é certamente um dogma. É um hábito de vida que se estabeleceu muito cedo na Igreja, por bons motivos bíblicos. Investigações mais recentes revelam que o celibato é muito anterior - que chegou a existir no século II - do que indicam as fontes jurídicas conhecidas. No Oriente, primeiro também esteve muito mais difundido do que pudemos verificar até à data. Aqui, os caminhos só se separam no século VII. No Oriente, a vida monástica continua a ser o estrato que suporta o sacerdócio e a hierarquia; o celibato tem, portanto, uma importância muito grande.

Não é nenhum dogma. É uma forma de vida que se desenvolveu na Igreja e que naturalmente envolve sempre o perigo de uma queda. Quando se aposta tanto, há quedas. Julgo que o que hoje revolta as pessoas contra o celibato é verem quantos padres, no fundo, não concordam com ele, que ou o vivem de uma forma hipócrita ou mal, ou que não o vivem de todo ou que só o vivem de modo atormentado e dizem...


... ele destrói as pessoas...


Quanto mais pobre é uma época no que respeita à fé, mais frequentes se tornam as quedas. Desse modo, o celibato perde a credibilidade, e o que significa realmente não se manifesta. Mas é preciso perceber que épocas de crise do celibato são também épocas de crise do casamento. Porque hoje não observamos apenas as rupturas do celibato, o próprio casamento torna-se cada vez mais frágil como fundamento da nossa sociedade. Nas legislações dos Estados ocidentais vemos como o casamento é, cada vez mais, posto num mesmo nível com outras formas de vida, e assim também é, em grande medida, dissolvido como forma jurídica. O esforço de realmente viver o casamento, também não é, afinal, menor. Para o dizer de uma forma prática: depois da abolição do celibato só teríamos outro tipo de problemática com os padres divorciados. A Igreja protestante não desconhece isto. Vê-se assim que as formas elevadas da existência trazem em si o seu grande risco.

Não deduziria daí que agora achemos que já não podemos mais, mas que temos de voltar a aprender a acreditar. E que, claro, tenhamos de ser ainda mais cuidadosos na escolha dos candidatos ao sacerdócio. Trata-se de que alguém só o aceite realmente de livre vontade e não diga; enfim, quero ser padre, não tenho outro remédio senão o de levar também esse fardo. Ou que alguém diga: não ligo muito a isso, não há-de ser nada. Isto não é um ponto de partida aceitável. O candidato ao sacerdócio tem de reconhecer a fé como uma força na sua vida, e tem de saber que só pode viver o celibato na fé. Então o celibato também se poderá tornar num testemunho que volta a dizer algo às pessoas e que também lhes volta a dar coragem para o casamento. Ambas as instituições estão estreitamente ligadas. Se uma fidelidade já não é possível a outra também já não existe; apoiam-se mutuamente.

João Paulo II e Joseph Ratzinger

É uma suposição, quando diz que existe uma relação entre a crise do celibato e a crise do casamento?

Parece-me que isso é evidente. Em ambos os casos, encontramos a questão de uma decisão de vida definitiva no centro da própria personalidade: posso dispor já hoje, digamos, com vinte cinco anos, de toda a minha vida? É algo que se adequa ao Homem? Será possível aguentar isso e crescer vivamente e amadurecer - ou não tenho antes de me manter constantemente aberto a novas possibilidades? No fundo, a questão é a seguinte: faz parte do Homem a possibilidade do definitivo no âmbito central da sua existência? Pode aguentar uma ligação definitiva, precisamente na decisão que respeita ao seu modo de vida? Diria duas coisas, ele só o pode quando se encontra realmente num grande enraizamento de fé; e, segundo, só então ele chega à forma plena do amor humano e da maturidade humana. Tudo o que não é casamento monogâmico é de menos para o Homem.

Mas se os números sobre as rupturas do celibato estão certos, então o celibato de facto já não existe há muito tempo. Pergunto-lhe outra vez: não será um dia possível negociar esta questão no sentido de uma escolha livre?

A escolha tem, em todo o caso, de ser livre. Antes da ordenação, até tem de se fazer uma promessa solene, confirmando que é o que se quer e que se faz livremente. Por isso, não me agrada muito que depois se diga que se tratou de um celibato obrigatório, e que foi imposto. Isso contradiz a palavra dada no início. Na formação dos padres é preciso prestar especial atenção a que esta palavra seja levada a sério. É o primeiro ponto. O segundo é que também se desenvolve esta força onde a fé está viva e na medida em que uma Igreja vive a fé.

Julgo que ao desistir destas condições, no fundo, nada melhora, mas que se procura passar por cima de uma crise de fé. Claro que é uma tragédia para uma Igreja, quando muitos levam mais ou menos uma vida dupla. Infelizmente, não é a primeira vez na História que acontece. Na Baixa Idade Média tivemos uma situação semelhante que acabou por ser uma das causas da Reforma protestante. É um processo trágico, sobre o qual é preciso reflectir, quanto mais não seja por causa das pessoas que, na verdade, sofrem profundamente. Mas julgo que, e segundo se concluiu no último Sínodo dos Bispos, a convicção da maioria dos Bispos é que a verdadeira questão reside na crise da fé; através desta chamada dissociação entre o sacerdócio e o celibato não teríamos nem melhores nem mais padres, mas estaríamos a iludir uma crise de fé e a procurar soluções de uma forma superficial.





(...) A contracepção

Senhor Cardeal, muitos fiéis não compreendem a atitude da Igreja em relação à contracepção. Compreende por que não a compreendem?

Sim, pode-se compreender muito bem, é realmente complicado. Com as dificuldades do mundo actual em que o número de crianças não pode ser mais elevado, por causa das condições de habitação e por muitas outras razões, compreende-se muito bem. Devíamos agarrar-nos menos à casuística do caso individual, mas olhar para as grandes intenções da Igreja.

Julgo que, neste contexto, se trata de três opções essenciais. A primeira é adoptar, fundamentalmente, uma atitude positiva em relação ao lugar da criança na humanidade. Verifica-se neste domínio uma mudança curiosa. Enquanto que a benção dos filhos era considerada uma benção por excelência nas sociedades simples até ao século XIX, hoje as crianças são quase consideradas como uma ameaça. Pensa-se que nos tiram o lugar do futuro, ameaçam o nosso espaço vital, etc. Trata-se de uma primeira intenção, de voltar a encontrar a perspectiva originária, a verdadeira perspectiva, segundo a qual a criança, o Homem novo, é uma benção. Que é precisamente por darmos a vida que também recebemos a vida e que este sair de si e aceitar a benção da criação é fundamentalmente bom para o Homem.

O segundo ponto é que hoje estamos perante uma divisão entre sexualidade e procriação, que antes se desconhecia, que torna necessário que se considere a relação interior entre ambas.




Entretanto são feitas declarações espantosas por representantes da geração de 68, que fizeram essa experiência. Rainer Langhaus, por exemplo, que dantes procurava nas suas comunidades a "sexualidade orgásmica", afirma que "através da pílula, a sexualidade foi isolada do seu elemento espiritual. As pessoas foram enviadas para um beco sem saída". Langhaus lamenta que agora "já não haja nenhuma doação de si mesmo, nenhuma entrega". O "mais elevado" da sexualidade, assim afirma hoje, é a "paternidade e a maternidade". Chama a isto "colaboração com o plano de Deus".

Desenvolve-se cada vez mais no sentido de serem duas realidades completamente separadas. Encontramos em Aldous Huxley, no célebre romance de ficção Admirável mundo novo, uma visão muito fundada e muito clara, na sua dimensão trágica humana, de um mundo vindouro em que a sexualidade está totalmente separada da procriação. As crianças são planeadas segundo regras e fabricadas em laboratórios. É uma caricatura intencional, mas, como todas as caricaturas, revela alguma coisa; que a criança deve ser planeada e fabricada, e sujeita ao controlo da razão. E, assim, o Homem destrói-se a si mesmo. As crianças transformam-se em produtos em que as pessoas se querem representar a si mesmas; antes das crianças nascerem, já se lhes roubou o seu próprio projecto de vida. E a sexualidade, por sua vez, tornou-se nalguma coisa de substituível. Claro que também se perde a relação entre mulher e homem; vemos como esta situação se desenvolve.

Na questão da contracepção trata-se, pois, de tais opções fundamentais, que a Igreja quer que o homem seja ele mesmo. Porque a terceira opção, neste contexto, é que não se pode resolver grandes problemas morais, simplesmente com técnicas, com química, mas que é preciso resolvê-los moralmente através de um estilo de vida. Este é, julgo eu, independemente da contracepção, um dos nossos grandes perigos; o facto de também querermos dominar a existência humana com a técnica e de já não sabermos que existem problemas humanos originários que não podem ser resolvidos através da técnica, mas que exigem um estilo de vida e certas decisões de vida. Em relação à contracepção diria que se devia considerar mais estas grandes opções fundamentais em que a Igreja luta pelo ser humano. E pô-lo em evidência é o sentido das intervenções da Igreja, que talvez não sejam sempre formuladas de modo feliz, mas nas quais estão em jogo as grandes orientações da existência humana.


(...) A ordenação das mulheres


Conversão de Paulo de Tarso na estrada de Damasco.

Também em relação a outra questão, à questão da ordenação das mulheres, o não absoluto foi apresentado "pelo magistério de modo infalível". Isto voltou a ser confirmado pelo Papa no Outono de 1995. "Não temos o direito de mudar isso", assim se diz na declaração. É, mais uma vez, o argumento histórico que conta. Mas se se leva isto a sério, nunca poderia ter havido um S. Paulo, porque tudo o que é novo também tem de abolir coisas sagradas antigas. S. Paulo fez coisas novas. A questão é: quando se pode acabar com determinada regra? O que acontece com o que é novo? E encurtar a História não pode ser uma idolatria que não é compatível com a liberdade do cristão?

Julgo que aí é necessário precisar alguns pontos. O primeiro é que S. Paulo fez algo de novo em nome de Cristo, mas não em seu próprio nome. E também apresentou, de modo muito claro, que age mal quem, por um lado, reconhece a revelação do Antigo Testamento como sendo válida e, por outro lado, muda algumas coisas por iniciativa própria. O novo pôde vir, porque Deus o tinha colocado em Cristo. E, como servidor desta novidade, ele sabia que não a tinha inventado, mas que isso emanava da novidade do próprio Jesus Cristo. Esta novidade tem, pelo seu lado, as suas ligações; e aí ele era muito severo. Se pensar, por exemplo, no relato da última ceia, ele diz explicitamente: "Eu mesmo recebi o que vos transmiti", e deste modo, explica claramente que está ligado ao que o Senhor fez na última noite e que ele recebeu da tradição. Do mesmo modo, quando fala do anúncio da Ressurreição, diz novamente: recebi isto e também O encontrei pessoalmente. E assim ensinamos a todos; e quem não o faz, afasta-se de Cristo. S. Paulo distingue muito claramente entre o novo que vem de Cristo, e a ligação a Ele, que é o que lhe dá legitimação para fazer o que é novo. É o primeiro ponto.

O segundo ponto é que, de facto, se realizam constantemente mudanças em todos os domínios que não são realmente determinados pelo Senhor e pela tradição apostólica - também hoje. A questão é a seguinte: vem do Senhor ou não vem do Senhor? E como se reconhece se vem d'Ele ou se não vem d'Ele? A resposta, confirmada pelo Papa, que nós, a Congregação para a Doutrina da Fé, demos sobre o tema da ordenação das mulheres, não diz que o Papa agora se pronunciou infalivelmente sobre este ponto. O Papa constatou, antes de mais, que a Igreja, os bispos em todos os lugares e em todos os tempos ensinaram sempre assim e mantiveram essa prática. O Concílio Vaticano II diz: é infalível, é expressão de uma ligação que não criaram eles mesmos, onde os bispos, ao longo de muito tempo, ensinam e praticam, unitariamente. A resposta apoia-se neste passo do Concílio (Lumen gentium 25). Não é, portanto, como já referi, um acto de infalibilidade estabelecido pelo Papa, mas o carácter obrigatório baseia-se na continuidade da tradição. E essa continuidade da origem tem, realmente, importância. Porque nunca foi evidente. As religiões antigas tiveram sacerdotisas, e nos movimentos gnósticos voltou a ser assim. Um investigador italiano descobriu há pouco que no Sul de Itália, nos séculos V e VI, diversos grupos tiveram sacerdotisas, e que os bispos e o Papa se opuseram logo. A tradição não se desenvolveu a partir do mundo em redor, mas a partir do interior do cristianismo.




Ainda acrescentaria uma informação que me parece ser muito interessante. É um diagnóstico sobre este problema, feito por uma das feministas católicas mais importantes, Elisabeth Schüssler-Fiorenza. É alemã, uma exegeta conhecida, que estudou exegese em Münster, se casou lá com um italo-americano e que hoje ensina na América. Começou por participar fortemente na luta pela ordenação das mulheres, mas actualmente diz que se tratou de um objectivo errado. A experiência feita com mulheres ordenadas na Igreja Anglicana levou-a a reconhecer: ordination is not a solution ("a ordenação não é solução"), não é o que queríamos. E também explica, porquê. Diz: ordination is subordination, portanto, a ordenação é subordinação - significa inserir-se numa ordem estabelecida e subordinar-se, e é exactamente o que não queremos. E aí faz um diagnóstico correcto.

Entrar numa "ordo" significa sempre entrar numa relação em que uma pessoa se insere na ordem existente e se subordina. No nosso movimento de libertação, assim diz Elisabeth Schüssler-Fiorenza, não queremos entrar numa "ordo" nem numa "subordo", numa subordination, mas é precisamente este fenómeno que queremos superar. A nossa luta - assim nos diz ela - não deve, portanto, visar a ordenação das mulheres; se é esse o objectivo, fazemos o que está errado, mas a nossa luta deve visar que a ordenação acabe de todo e que a Igreja se transforme numa comunidade entre iguais em que só haja uma shifting leadership, portanto, uma liderança que mude. Viu isto correctamente, a partir de motivações interiores, a partir das quais se luta pela ordenação das mulheres, em que, na realidade, se trata de participação no poder e de libertação da sujeição. É então preciso dizer que por detrás se esconde, realmente, a pergunta: o que é o sacerdócio? O sacramento existe ou deve apenas existir uma liderança que mude em que não seja dado a ninguém o acesso permanente ao "poder"? Julgo que, neste sentido, a discussão talvez mude um pouco no decorrer dos tempos mais próximos.

(...) Neste contexto, formou-se manifestamente algo como um cristianismo de civilização ocidental-liberal, uma espécie de fé secularizada, à qual muitas coisas são indiferentes. Esta cultura, que muitas vezes já não tem muito a ver com a essência do cristianismo - ou, neste contexto, com a essência do catolicismo - parece tornar-se, claramente, mais atraente. Tem-se a impressão que, pelo menos de um ponto de vista teológico, a Igreja hierárquica não tem quase nenhuma objecção a fazer a esta filosofia representada especialmente por Eugen Drewermann

A onda Drewermann já está a deixar de estar na moda. O que ele defende é apenas uma variante da cultura geral de uma fé secularizada de que falou. Diria que não se quer prescindir da religião, mas pretende-se que ela se limite a dar e não a colocar exigências ao Homem. Quer-se ter a dimensão misteriosa da religião, mas não ter o esforço da fé. As formas múltiplas desta religião, da sua religiosidade e da sua filosofia estão hoje reunidas na expressão "New Age". O objectivo é uma espécie de união mística com o fundamento divino do mundo; diversas técnicas devem conduzir a este fim. Julga-se que assim se pode experimentar a religião na sua forma mais elevada e, ao mesmo tempo, permanecer inteiramente na concepção científica do mundo. Perante isto, a fé cristã parece ser complicada; não é, sem dúvida, fácil para ela. Mas graças a Deus não faltaram grandes pensadores cristãos no nosso século e figuras exemplares da vida cristã. Nelas torna-se visível a presença da fé cristã, e vê-se que ela ajuda no sentido da realização plena do ser humano. Por isso há, precisamente, na geração jovem, novos ressurgimentos de uma vida cristã decidida, mesmo que não se possa tornar um movimento de massas.









(...) O cristianismo nunca esteve tão difundido no mundo inteiro como hoje. Mas a sua propagação não significa logo o bem no mundo.

De facto, a propagação quantitativa do cristianismo, que não se mede pelo número dos que o professam, não leva automaticamente à melhoria do mundo, porque nem todos os que se dizem cristãos o são realmente. O cristianismo só tem indirectamente efeito na formação do mundo, através das pessoas e da liberdade delas, Não é, só por si, a instituição de um novo sistema político e social que excluiria a desgraça.

Que significado tem a existência do mal em relação à redenção ou à não-redenção?

O mal tem poder através da liberdade do Homem e cria então as suas estruturas. Porque existem, manifestamente, estruturas do mal. Elas formam-se numa pressão exercida sobre o Homem, também podem bloquear a sua liberdade e construir um muro perante a entrada de Deus no mundo. Deus, em Cristo, não venceu o mal no sentido em que o mal já não pudesse tentar a liberdade do Homem, mas Ele ofereceu levar-nos pela mão e conduzir-nos, mas Ele não nos força.

Quer dizer que Deus tem poder de menos sobre este mundo?

Em todo o caso, Ele não quis exercer o poder como nós o imaginamos. Claro que esta é, precisamente, a pergunta que também eu, como formulou no início deste diálogo, faria ao "espírito do mundo": por que é que permanece tão impotente? Por que é que exerce o poder deste modo curiosamente fraco, como Crucificado, como alguém que fracassou? Mas é, manifestamente, o modo como Ele quer exercer o poder, é o modo divino de poder. E noutro modo, na imposição e no uso da violência, encontra-se manifestamente, um modo de poder que não é divino.

Volto à pergunta inicial: o estado do mundo não tem de nos abalar, tal como se exprime nas palavras "requiem satânico" do século XX?

O que sabemos, enquanto cristãos, é que o mundo está sempre nas mãos de Deus. Mesmo que o Homem se desligue d'Ele e caminhe para a destruição, no fim do mundo Ele instituirá um princípio novo. Mas nós, ao crermos n'Ele, agimos para que o Homem não se desligue d'Ele e para que, nessa medida, na medida em que nos é possível, o mundo possa viver de novo como Sua criação e o Homem como Sua criatura.

Mas também é possível o diagnóstico pessimista. Que a ausência de Deus - Metz, usando uma expressão curiosa, falou de Gotteskrise (crise de Deus) - se torne tão forte que o Homem seja lançado na confusão moral e que nos encontremos perante a destruição do mundo, o Apocalipse, o fim. É alguma coisa com que também temos de contar. O diagnóstico apocalíptico não pode ser excluído, mas mesmo então Deus protege os homens que O procuram; o amor é, afinal, mais poderoso do que o ódio.





(...) Ecumenismo e unidade

Já referiu que para o Papa João Paulo II a unidade dos cristãos é a grande perspectiva do milénio que chega ao fim. A Igreja Católica Romana fez propostas de abertura, fez com que houvesse diálogos interconfessionais a nível teológico. Na encíclica ""Ut unum sint", publicada em Maio de 1995 sobre as questões do ecumenismo, o Papa expressa a esperança de que "no limiar do novo milénio..., um momento extraordinário..., a unidade entre todos os cristãos possa desenvolver-se, até que se chegue à comunidade plena". Porque "a divisão contradiz manifestamente a vontade de Cristo, é um escândalo para o mundo..." Será que esta unidade da Cristandade é possível? Porque na encíclica que citei também se diz que "qualquer forma de redução ou de concordância fácil" tem de ser absolutamente evitada.

A questão sobre os modelos de unidade é uma questão grande e difícil. Primeiro trata-se de perguntar: o que é possível? O que podemos esperar, o que não podemos esperar? E, em segundo lugar: o que é realmente bom? Não ouso esperar uma unidade absoluta da Cristandade, inerente à História. Vemos como, enquanto hoje se verificam esforços de unificação, há, continuamente, mais fragmentações. Não se formam apenas constantemente novas seitas, entre as quais também seitas sincretistas com grandes componentes pagãs e não-cristãs; também as divisões nas próprias igrejas se tornam maiores, tanto nas igrejas reformadas, nas quais é cada vez mais profunda a divisão entre os elementos mais evangélicos e os movimentos modernos (também verificamos no protestantismo alemão como ambas as correntes de afastam uma da outra), como também na ortodoxia. Aqui existe sempre, por assim dizer, uma unidade menos forte por causa das igrejas autocéfalas, mas aí também há movimentos de divisão; vemos o mesmo fermento em acção. E na Igreja Católica também há divisões muito profundas, de modo que às vezes se tem realmente a sensação de que numa Igreja vivem duas igrejas ao lado uma da outra.

É preciso ver ambos os aspectos, por um lado, a aproximação da Cristandade separada, por outro lado, como, ao mesmo tempo, surgem mais divisões internas. É preciso acautelarmo-nos com a esperança utópica. É importante que reflictamos sempre sobre o essencial. Que cada um tente, por assim dizer, ultrapassar-se a si mesmo e apreender, com fé, a verdadeira essência. Já se conseguiu muito se não houver mais divisões. E se compreendermos que, estando divididos, podemos estar unidos em relação a muitas questões. Não penso que possamos chegar mais rapidamente a grandes "uniões confessionais". É muito mais importante que nos aceitemos mutuamente com grande respeito interior, sim, com amor, que nos reconheçamos como cristãos e que procuremos dar um testemunho nas questões essenciais, tanto para a formação correcta na ordem do mundo como para a resposta às grandes perguntas sobre Deus, a origem e o destino do Homem.

(Ibidem, pp. 124-125; 127-129; 152-159; 163-166; 171-172 e 187-188).