quarta-feira, 23 de outubro de 2013

800 anos de Independência

Escrito por Oliveira Salazar





Em Oliveira Salazar admitira Franco Nogueira uma espécie de instinto divinatório aquando de certos acontecimentos na arena internacional. O instinto divinatório de Salazar ter-se-ia assim manifestado no decorrer dum acordo com a Inglaterra para a concessão de facilidades nos Açores, a 18 de Agosto de 1943. Daí que devido às pressões do Estado-Maior e de Winston Churchill, Salazar conduzira duramente as negociações visando salvaguardar os interesses portugueses até ao momento em que, prevenindo um ataque americano aos Açores, anuiu finalmente para a entrada em vigor do acordo luso-britânico.

No telegrama de Churchill para Campbell, aquele ataque seria, a breve trecho, praticamente inevitável: «Tenho de lhe dizer que esgotei aqui todos os argumentos em favor de um arranjo com os portugueses através de negociações. Se Salazar não aceitar a nossa última oferta, eu receio nada mais poder fazer. Então os acontecimentos seguirão o seu próprio curso. Lamentá-lo-ei profundamente, mas Salazar ter-se-á mostrado incapaz de estar à altura das circunstâncias». Ora, a este mesmo telegrama subjaz igualmente a esfera de influência que sobre Churchill granjeara Roosevelt quanto à implementação duma nova ordem na sociedade internacional do após-guerra. E se há, de facto, quem duvide duma tal ordem projectada à escala global, é porque, porventura, ignora os encontros secretos entre Churchill e Roosevelt em navios de guerra ingleses e americanos ao largo da Nova Escócia. De resto, foi então que Churchill pôde realmente compreender que ia o Império Britânico ser substituído por uma nova ordem internacional ditada pelo sistema financeiro de Nova Iorque.

Desta feita, diz-nos ainda Franco Nogueira: «Dirige-se Salazar aos Congressistas, e acentua que as suas palavras são "tanto para nosso uso como entendimento alheio". Muitas realidades estão sendo reveladas pela guerra, no plano económico e social, e algumas serão confirmadas pela paz. Mas "considero exagero pensar que tudo na vida nacional depende ou há-de depender da ordem internacional futura". No conjunto dos povos, nem todos os problemas são idênticos, nem todas as soluções são uniformes; e nem seria desejável que o fossem. Por isso, e quanto a Portugal, importa o "estudo dos princípios e meios de acção pelos quais nos propomos manter dentro de nós a ordem política e jurídica, a ordem social e económica, a ordem religiosa e moral", e isso porque precisamente todos estes aspectos estão dentro daquela "zona que nos parece irredutível, porque essencial à soberania e inacessível à actuação internacional". Mas outros conceitos são possíveis, e têm sido enunciados: "o da internacionalização dos interesses nacionais ou o da constituição de superestados, dirigentes, guardas e defensores do mundo". Três grandes afinidades - os eslavos, os anglo-latinos, os americanos - poderão emergir desta guerra; mas no fundo o conceito de "nação continuará a aparecer como núcleo primário, vivaz, irredutível e inassimilável"; e ao Estado caberá a sua representação, "sem que possam contra ele valer ou invocar-se os laços de empreendimentos ou organizações, mesmo que supranacionais". Neste particular, na hipótese de a guerra terminar "por inequívoca derrota alemã", estão criadas as condições para três grandes hegemonias, correspondentes ao Império Britânico e Europa, aos Estados Unidos, e à Rússia. E o risco consiste em aqueles países se colocarem "entre a tentação de continuar a guerra na paz e a de buscar a paz como única finalidade para que seria desculpável ter feito a guerra" (...) Parece dever -se considerar luminosa esta síntese de Salazar, e profética. "Continuar a guerra na paz" quer dizer ser a sociedade internacional do após-guerra condicionada e determinada pela continuação da luta entre hegemonias ou impérios que, sem usarem meios militares convencionais, nem por isso deixam de se combater, e de definir por esse combate os seus amigos ou inimigos. Será a guerra fria. E "buscar a paz como única finalidade para que será desculpável ter feito a guerra" quer dizer erigir a paz em valor supremo, acima do direito e da justiça, donde resulta que tem razão quem tiver força para impor a sua paz e a sua justiça, e será agressor o que procurar resistir em legítima defesa» (in Salazar, III, As grandes crises, 1936-1945, Livraria Civilização Editora, 1983, pp. 528-529).

11/9/2001: embate de dois aviões nas Torres Gémeas em Nova Iorque.

Mas é agora caso para perguntar que tipo de internacionalismo é aquele que se nos apresenta nos dias de hoje. Ora, a nosso ver, trata-se de um internacionalismo que prescinde de quaisquer hegemonias ou imperialismos nacionais para dar lugar a poderes e organizações multilaterais empenhadas em abolir toda e qualquer forma de soberania nacional. E os Estados Unidos, hoje considerados uma superpotência hegemónica com o aparente desaparecimento da União Soviética, estão também em vias de verem completamente abolida a sua independência enquanto país livre e soberano.

Basta, para o efeito, levar em linha de conta algumas figuras americanas sobre o iminente colapso dos Estados Unidos - mau grado algumas delas periclitantemente envoltas em polémica - tais como Edward Griffin, Edwin Vieira, Jr., Aaron Russo, Alex JonesDavid Ray Griffin ou Ron Paul (ver também o britânico David Icke e, a propósito dele, o filme de Chris White). Atente-se igualmente nos avisos e nas várias prevenções oriundas da John Birch Society na pessoa de Arthur R. Thompson, no que principalmente respeita ao governo mundial sob a égide das Nações Unidas. Estamos, portanto, perante uma elite globalista conduzida por dinastias metacapitalistas que controlam as principais indústrias da comunicação social, como o Washington Post, o New York Times, o Wall Street Journal, o Daily News, a National Review, além das grandes redes televisivas dos Estados Unidos como a NBC, a CBS e a ABC, para só dar aqui alguns exemplos do outro lado do Atlântico.

Além disso, existem no mundo diversas organizações que procuram abolir todo e qualquer resquício de soberania nacional, designadamente o Clube Bilderberg, a Comissão Trilateral e o Conselho das Relações Exteriores sediado em Nova Iorque e financiado pelas fundações Ford, Carnegie e Rockefeller, assim como por trusts de relevo internacional: IBM, ITT, Standard Oil of New Jersey (Exxon), etc. E, nessa medida, ressaltam ainda uma série de objectivos transnacionais que passam pela repressão da prosperidade ou Crescimento Zero, pela criação artificial de crises sucessivas a par do controlo centralizado da educação segundo as directivas da UNESCO, bem como pela criação dum sistema jurídico à escala global, sancionado pelo Tribunal Internacional de Justiça.




No referente à ONU, existem já objectivos de longa data para o desmantelamento das forças armadas nacionais a fim de promover o aparelho militar das Nações Unidas em nome da paz e da segurança internacional. Um tal objectivo está, pois, em plena sintonia com um programa de desarmamento global subordinado a um dos mais completos sistemas de vigilância e controlo internacionais. E, no final, ninguém poderá mais adquirir ou possuir armas de fogo ou até armas brancas para uso e defesa pessoal, excepto a polícia e os militares.

Nisto, há ainda quem acredite que a superestrutura política e dos serviços de informação da Rússia desapareceu da noite para o dia. Mas também há quem, em contrapartida, afirme que um tal sistema jamais deixou de vigorar a par dos respectivos beneficiários: «O antigo coronel do KGB, Viktor Kichikhin, que serviu na primeira Directoria Principal, responsável por coacção ideológica, testemunhou o processo em primeira mão: "Em 1989-1990, a maior parte das empresas conjuntas soviético-ocidentais foi criada pela nossa directoria, à excepção das que foram constituídas directamente pelo Comité Central do PCUS".

O processo estava tão integrado que o antigo general do KGB, Timofeyev, fez o seguinte comentário: "O mercado está ocupado pelo aparelho dirigente e pelo KGB, porque têm a oportunidade de controlar o processo de privatização e a criação de novos empreendimentos. Têm as licenças e a influência. Isto não é tanto para o bem do partido mas antes para a autopreservação", e acrescentou, "há indubitavelmente aqui um elemento de uma retirada organizada... em que as forças em retirada procuram manter um elemento ou ordem e a possibilidade de preservar um núcleo, e depois talvez, a seu tempo, regressarem ao passado» (in Daniel Estulin, Os Senhores da Sombra, Publicações Europa-América, 2010, p. 71).

E, com efeito, mais adianta o autor de origem lituana: «A máfia russa, conhecida como Vorovskoi Mir, ou "Mundo dos Ladrões", uma federação informal de mafiosos soviéticos, percebeu de imediato que a "retirada" do comunismo anunciava um glorioso mundo novo de ordem criminosa que a favorecia» (ibidem, p. 71).

Posto isto, convém ainda assim relembrar que o internacionalismo foi uma constante ao longo de todo o século XX, tendo como um dos seus mais atentos observadores Oliveira Salazar, a avaliar pelo que já então cuidara a respeito do conflito internacional travado na Guerra Civil de Espanha (1936-1939):

«Temos reivindicado como atributo indispensável da independência política a nossa independência mental e moral, o nosso poder de revisão e de crítica das ideias feitas, das noções assentes, dos compromissos tomados, dos conluios de interesses, das sombras, dos vaticínios, das tétricas profecias. E contrariamente aos que puderam confundir independência e isolamento ou hostilidade, verificou-se, ao pormos claramente sobre a mesa das conferências os dados da nossa experiência - as nossas razões - que mantínhamos mais firmes as amizades antigas e granjeávamos novas simpatias e o respeito de todos.

Marechal Carmona e Oliveira Salazar

Temos procurado que os princípios políticos e morais que seguimos e a que estamos ligados se distingam por uma vez corajosamente das fórmulas vazias, hipócritas, a ameaçarem converter a vida internacional em fariseísmo intolerável, em sábio processualismo inútil, já sem poder sequer salvar as aparências. A esses altos princípios da vida social, entre os indivíduos e entre os povos, entendemos que tudo o que lhes é inferior se deve sacrificar; mas o que por vezes se sacrifica são realidades tangíveis a concepções abstractas sem alicerces na razão nem vida no espírito dos homens.

Temos em terceiro lugar e semelhantemente ao que praticamos na ordem interna, defendido que a ordem internacional seja de direito e de facto resultante da conciliação de interesses nacionais, fora da abusiva intervenção de grupos ou partidos de uma outra nação, convencidos de que por outro modo só se conseguiriam multiplicar as dificuldades existentes e de que piores que nacionalismos, mesmos agressivos, são alguns internacionalismos da hora presente. Minando-se a segurança interna dos Estados, debilitando-se a coesão nacional, permitindo-se a criação de partidos políticos com acção e influência exterior, não se caminhou para uma Humanidade mais amiga, mais fraterna ou pacífica, mas para a hegemonia de um partido que, parodiando a raça eleita do Senhor, promete sacrilegamente a todos os povos a redenção pelo crime...» («A Guerra de Espanha e a Suspensão de Relações Diplomáticas», in Discursos e Notas Políticas, II, 1935-1937, Coimbra Editora, pp. 223-224).

Oliveira Salazar foi o Estadista que no decurso do século XX procurou, na verdade, preservar a existência histórica de Portugal perante as demais forças e potências ocidentais e asiáticas. E, de facto, fê-lo sem jamais vacilar num mundo à beira do caos e da subversão revolucionária no seio dos Estados, aliada ao uso e manipulação de elementos internos de uma nação para servir os conluios do internacionalismo invasor e inimigo dos povos. Ora, Salazar, a seu modo, chegou também a descrevê-lo aquando das eleições de deputados para a Assembleia Nacional em 1961, numa altura em que tinha já deflagrado, por instigação externa, o terrorismo em Angola:

«... Ao que todos podemos assistir a presente campanha foi na verdade triste e altamente preocupante: os problemas básicos de política internacional e ultramarina foram versados de modo a não servir, antes a prejudicar os interesses da Nação. A argumentação repetida foi a dos inimigos de Portugal; e não pode constituir honra para ninguém que as oposições sejam saudadas pelos que combatem contra Portugal aqui, na ONU ou no Ultramar. Conhecimento mais completo dos motivos da campanha movida contra o País nos meios internacionais e que conduziram e alimentam a guerra contra territórios portugueses, aconselharia as oposições a maior discrição e a não serem cá dentro o joguete de grandes interesses em causa. As oposições tiveram a maior dificuldade em sacar do imbróglio das suas concepções o reconhecimento da integridade da Nação como imperativo dos Portugueses, e do dever de a defender; mas os que não são cegos compreendem que, pelos caminhos entrevistos e mal definidos, não se chegaria a garanti-la efectivamente, como todos disseram desejar.
Entretanto a nossa gente bate-se e morre em Angola, como já se bateu e morreu noutras partes do território ultramarino. Bate-se e morre pelo Governo actual? Que ideia! Vai bater-se amanhã pela democracia? Que engano! Bate-se e bater-se-á com este ou outro Governo pela Nação que é uma realidade tangível, e que o povo sente bem na pureza do seu instinto patriótico e à margem da torcida filosofia dos doutores.

Diante de coisas tão sérias como sermos ou não sermos, cumprirmos ou não cumprirmos a nossa missão no Mundo, eu sou o primeiro a não estranhar que o Chefe de Estado não tenha entregue o Governo aos oradores da oposição.

Temos pois de concluir que foi cometido grave erro por alguns condutores do povo, e que tem de ser o mesmo povo, cerne da Nação, a corrigir agora tal erro no acto eleitoral. Ele tem de corroborar por votações maciças uma política de salvação nacional; ele tem de destruir a ideia que pudesse ficar deste debate de um país dividido que não conheceria o seu norte. O que se passou há-de entender-se apenas como a infelicidade de alguns pastores se haverem perdido nos caminhos da serra, sem terem conseguido extraviar o rebanho.

O povo português compreende a minha linguagem. Sabe que nada me interessa senão servir o melhor possível o interesse comum. E se eu lhe digo que a retaguarda é para ser defendida tal como a frente em África ou na Índia, é porque sei que isso é condição da vitória e esta tem de ser ganha por todos» (in «Apelo ao Povo», palavras proferidas por Sua Excelência o Presidente do Conselho, Prof. Oliveira Salazar, ao Microfone da Emissora Nacional, em 9 de Novembro de 1961, SNI).

Por conseguinte, agiganta-se Oliveira Salazar cada vez mais perante os pigmeus da mais infame e criminosa política que nos últimos quarenta anos entregaram Portugal aos poderes e organizações do globalismo invasor. Foi, além do mais, o último grande Estadista português que ficará na memória das futuras gerações - caso as haja! -, e que assim procurem estudá-lo e compreendê-lo se para tanto tiverem a virtude necessária. Quanto aos pretensos e nominais democratas de ontem e de hoje, jamais ninguém se lembrará deles senão pelas piores razões, entre elas a de vil traição de lesa-pátria.

Miguel Bruno Duarte


800 anos de Independência


Castelo de Guimarães





Sala de Armas - Paço dos Duques de Bragança (Guimarães).







Serei muito breve, pois toda a palavra a sinto inferior ao momento e todo o discurso se me afigura profanar o recolhimento das almas e a comunhão espiritual desta hora. Por todo o Portugal do continente, das ilhas, do ultramar, e em terras hospitaleiras de todas as partes do mundo, milhões de portugueses se recolhem, de alma ajoelhada diante deste castelo, e comungam connosco nos mesmos sentimentos de devoção, de exaltação, de fé.

Nem eu sei o que havia de dizer. Em vão procuro, no tropel de ideias e de emoções, focar pensamento ou imagem, facto ou anseio, nome ou sentimento que aos outros sobreleve e me prenda. Passam pelo espírito séculos em revoada - oito séculos da vida de Portugal - com seus reis e seus cavaleiros, seus descobridores e seus legistas, seus capitães e seus nautas, seus heróis e seus santos, sofrimentos e glórias, esperanças e desilusões. Passam séculos, e o português a expulsar o mouro, a firmar a fronteira, a cultivar a terra, a alargar os domínios, a descobrir a Índia, a apostolizar o Oriente, a colonizar a África, a fazer o Brasil - glória da sua energia e do seu génio político. Para tanto discutiu nas Cúrias e nos Concílios, ensinou em escolas e Universidades de fama, fez uma língua e uma cultura, pintou obras primas antes dos maiores mestres, prodigalizou-se em maravilhas de pedra, cantou em versos imortais a sua própria epopeia - ainda hoje tão simples e tão modesto que é pobre em face dos opulentos e fraco junto dos poderosos. Abisma-se a inteligência a perscrutar o mistério, confunde-se com a desproporção dos meios e dos resultados, extasia-se ante a permanência do milagre, e não se sabe que homem, ideia, rasgo ou sacrifício há-de pôr acima dos mais - a não ser exactamente o facto fundamental e primeiro de haver a raça portuguesa estabelecido o seu lar independente e cristão nesta faixa atlântica da Península. Quis o povo ser independente, livre no seu próprio território, e quiseram os reis que ele fosse, conquistando-lhe e mantendo-lhe a independência; e porque mandava em seus destinos, a Nação definiu um pensamento de vida colectiva, um ideal de expansão e de civilização a que tem sido secularmente fiel.

Mosteiro dos Jerónimos (Belém).

Nas nações, como nas famílias e nos indivíduos, viver, verdadeiramente viver é sobretudo possuir um pensamento superior que domine ou guie a actividade espiritual e as relações com os outros homens e povos. E é da vitalidade desse pensamento, da potência desse ideal, do seu alcance restrito ou universal e humano que provém a grandeza da nação, o valor da sua projecção na terra. Ser escasso em território, reduzido em população ou em força ou em meios materiais não limita de per si a capacidade civilizadora: um povo pode gerar em seu seio princípios norteadores de acção universal, irradiar fachos de luz que iluminem o mundo.

Para isso nos serviu a liberdade; de nós se não pode afirmar que não soubemos que fazer da nossa independência: trabalhando e recebendo em nossa carne duros golpes, descobrimos, civilizámos, colonizámos. Através de séculos e gerações mantivemos sempre vivo o mesmo espírito e, coexistindo com a identidade territorial e a unidade nacional mais perfeita da Europa, uma das maiores vocações de universalismo cristão.

Eis porque esta solenidade é ao mesmo tempo acto de devoção patriótica, acto de exaltação, acto de fé.

Primeiro: acto de devoção. Cobrimos de flores, trazidas dos quatro cantos do mundo, as pedras mortificadas sobre que se ergue este castelo, como se piedosamente se beijassem as feridas de um herói ou se alindasse o berço de um santo. Vimos de longe, alguns de muito longe visitar a velha casa de seus velhos pais, a cidade augusta onde primeiro bateu, com o coração do primeiro rei, o coração de Portugal. Sabemos dever-lhe o que fomos, e o que somos dele vem ainda - vivermos livres na nossa terra e honrados na terra alheia.

Mosteiro da Batalha

Acto de exaltação. A Pátria Portuguesa não foi o fruto de ajustes políticos, criação artificial mantida no tempo pela acção de interesses rivais. Foi feita na dureza das batalhas, na febre esgotante das descobertas e conquistas, com a força do braço e do génio. Com trabalho intenso e ingrato, esforços sobre-humanos na terra e no mar, ausências dilatadas, a dor e o luto, a miséria e a fome, almas de heróis amalgamaram, fizeram e refizeram a História de Portugal. Não puderam erguê-la com egoísmos e comodidades, medo da morte e da vida, mas lutando, rezando e sofrendo. Cada um deu, na modéstia ou grandeza dos seus préstimos, tudo quanto pôde, e por esse tudo lhe somos gratos. Do fundo porém dos nossos corações não podem deixar de erguer-se, ao comemorarem-se oito séculos de História, hinos de louvor aos homens mais que todos ilustres que os encheram com os seus feitos. Acto de exaltação.

Mas nós realizamos hoje também acto magnífico de fé: fé na nossa vitalidade e na capacidade realizadora dos portugueses, fé no futuro de Portugal e na continuidade da sua História. Não somos só porque fomos, nem vivemos só por termos vivido; vivemos para bem desempenhar a nossa missão e perante o mundo afirmamos o direito de cumpri-la. Com a solidez das raízes seculares ligados à História Universal, que sem nós seria ao menos diferente, sentimos com a glória desta herança as responsabilidades e o dever de aumentá-la. Estamos aqui precisamente por confiarmos nos valores eternos da Pátria; e quando dentro de pouco - e nenhum de nós pode mais reviver este momento - subir no alto do castelo a bandeira sob a qual se fundou a nacionalidade, veremos, como penhor que conforma a nossa fé, a cruz a abraçar, como no primeiro dia, a terra portuguesa (in Discursos e Notas Políticas, III, 1938-1943, do Castelo de Guimarães, no dia 4 de Junho de 1940, começo das festas centenárias, na cerimónia comemorativa da fundação da nacionalidade, Coimbra Editora, pp. 255-259).



sábado, 19 de outubro de 2013

Portugal e o Hemisfério Ocidental (iv)

Escrito por Franco Nogueira






«... logo após a invasão japonesa, e depois de acrescentado o protesto, Salazar procura negociar com Tóquio a retirada das forças nipónicas. Argumenta o gabinete japonês, porém, que não pode satisfazer Lisboa enquanto no interior das montanhas timorenses vaguearem grupos armados de holandeses e australianos. E então Salazar dá ordem à expedição militar portuguesa para se dirigir a Colombo, no Ceilão, e aí aguardar ulteriores directivas, e destas resulta a ida posterior para Mormugão.

Na mesma altura, a 4 de Março de 1942, Salazar recebe Campbell. Este torna ao problema político-militar da evacuação do governo português em caso de emergência. Mas de algum modo a evolução da guerra - envolvimento alemão na campanha da Rússia, extensão do conflito ao Extremo Oriente, entrada dos Estados Unidos - parecia dar menor acuidade à hipótese. Por outro lado, com o apoio americano intensifica-se o bloqueio inglês, e Portugal sente-se mais afectado; e por sua parte a Inglaterra encara com irritação crescente os fornecimentos de volfrâmio à Alemanha, que há por exagerados. Aumentam os embaraços portugueses no abastecimento de alguns géneros e matérias-primas, e para tentar uma solução é enviado a Londres Tomaz Fernandes, consultor económico dos Estrangeiros; mas não se mostram compreensivas as autoridades britânicas. E então, ao serem debatidos estes assuntos, põe-se áspera a entrevista entre Salazar e Campbell. Depois, Salazar alude a um aspecto do plano de evacuação: o das destruições a fazer no continente, no caso de invasão por forças hostis. Ora a polícia portuguesa, diz Salazar a Campbell, descobrira uma organização secreta, dirigida e financiada por ingleses, que se propunha também fazer aquelas destruições, mas em bases mais extensas do que as do plano oficial. "Era inútil sublinhar que o governo português não estava disposto a trabalhar em tais termos; era preciso que o governo inglês acabasse por escolher entre o governo português e a actividade secreta conduzida por ingleses conchavados com alguns portugueses". E acentua o chefe do governo: "no caso de o governo inglês preferir a actividade dos seus organismos secretos, o governo português recusa-se a mais negociações do género com o governo britânico; e este apenas contará com as suas forças ocultas, é evidente, só enquanto a polícia não conseguir desmanchar as suas maquinações". Campbell reconhece a existência da organização secreta; mas afirma que já dissera para Londres dever a mesma ser desmantelada. Salazar não comenta....

(...) Salazar concede uma entrevista ao Temps, de Paris, que destaca algumas afirmações: "não vemos na solidariedade russo-anglo-americana, tal como é hoje afirmada, um elemento muito tranquilizador para os povos que deverão adaptar-se à nova ordem europeia"; e "estamos decididos a nunca admitir que a autoridade do Estado ignore os direitos da consciência ou que o Estado absorva toda a vida da Nação".

(...) Entretanto, Roosevelt e Churchill reúnem-se em Casablanca, e aí discutem o uso dos Açores; e no seu regresso a Washington o presidente americano passa pelo Brasil, encontra-se com Getúlio Vargas, e sugere a este a ocupação do arquipélago por tropas brasileiras. Conhecedor do facto, o Foreign Office reage; lembra as garantias dadas, por ocasião do desembarque na África do Norte, de que seriam respeitados o território português metropolitano e ultramarino; e recorda que na altura Roosevelt e Churchill haviam felicitado Salazar por manter a neutralidade da Península.

FDR e Winston Churchill em Casablanca (14 a 24 de Janeiro de 1943).

(...) Em carta de fins de Maio, dirigida ao Foreign Office, Campbell transmite um relatório do seu adido de imprensa Marcus Cheke, em que este escreve: "Os políticos portugueses, cuja preocupação absorvente é o ódio aos seus rivais (cada facção persegue baixamente a outra sempre que pode), têm o hábito inveterado de fortalecerem a sua posição ligando-se à direita ou à esquerda em outros países". E mais adiante: "para a mentalidade inglesa, é inconcebível que os resultados de uma eleição geral (na Inglaterra) devam depender de acontecimentos em Paris, Nova York ou Pequim. Mas os portugueses consideram tais ligações como coisa natural"».

Franco Nogueira («Salazar», III, «As grandes crises», 1936-1945).


«...Clausewitz falara de "alguma coisa de vaporoso e de fluído [que] não se deve concentrar em parte alguma de um corpo sólido", embora sendo capaz de atingir as bases do exército inimigo "qual combustão lenta e gradual" [De la guerre, Ed. de Minuit, 1955, II Parte, cap. 26, pp. 552]. De igual modo, o coronel Lawrence, campeão da guerra do deserto e grande amigo de Churchill, tinha preconizado que se recorresse a uma força inapreensível, invulnerável, sem frente nem retaguarda, capaz de se espalhar por toda a parte, à maneira de um gás.

(...) Qualificada como "quarta arma", ao lado do exército, da marinha e da aviação, por Hugh Dalton, ministro encarregado de coordenar esta luta heterodoxa, a "guerra da sombra" encontrou um campo de eleição no decorrer da II Guerra Mundial. Dois factores para isso contribuíram largamente: por um lado, a natureza ideológica e política do conflito; por outro, as novas possibilidades técnicas oferecidas pela rádio e pela aviação, o que permite atravessar impunemente o espaço dominado pelo inimigo, e estabelecer ligações regulares entre agentes internos e aliados externos.

Ao mesmo tempo, o combate assume uma tonalidade cada vez mais multiforme, alternada ou em simultâneo militar, política, ideológica ou social, tanto mais que, no campo da resistência interna, depressa se passa da luta contra o ocupante à vontade de transformar, depois da guerra, as estruturas da sociedade e do Estado. Isto não vai deixar de levantar problemas espinhosos ao primeiro-ministro, iniciador e campeão desta subversão armada, mas ao mesmo tempo de espírito profundamente conservador. É assim que a pequena guerra se articula com a grande guerra, no coração da geoestratégia mundial».

François Bédarida («Winston Churchill»).


«A grande crise  da Europa é não saber conservar a paz dentro de si mesma. Tem ainda o primado da ciência, da literatura, das artes, possui os segredos da técnica; sabe organizar o trabalho, mas não sabe ter paz. A origem do seu mal não reside propriamente na densidade da população, no esgotamento do solo ou do subsolo, na estreiteza das terras ocupadas, mas numa doença do espírito. E, como a antiga Roma, em certo momento da sua decadência, parece já "não suportar nem os males nem os remédios".

Gladiadores na antiga Roma

A força essencial à vida das sociedades não é a última ratio, é a primeira; dela deriva a moral, o direito, a organização social; e nestes termos já não assegura a paz, gera a guerra. Ou a fazer a guerra ou a armar-se para ela, a Europa, apesar de intenso trabalho e duras restrições, empobrece enormemente: divisa-se a crescente proletarização das nações europeias e diante da hipertrofia do Estado que, a título da defesa colectiva, concentra em si toda a riqueza e poder, os homens limitam-se a esperar, em troca de trabalho servil, o suficiente para as necessidades fundamentais da vida. Mas neste extremo tem desaparecido aquela parcela de liberdade e dignidade humana que nós teimamos em crer essenciais à vida civilizada.

O definhamento da economia como a diminuição moral do europeu põem sem sério risco a resistência da Europa perante eventualidades que podem não ser meras criações do espírito, pois é frágil e precária a força dos Estados - pese o facto embora às imaginações exaltadas que deliram ante as vitórias e as conquistas. A força dos Estados depende da sorte vária das batalhas; para além disso o que vale e conta é a organização da vida e a força moral dos povos, se pelos mesmos princípios de morte não tiverem sido ainda destruídos.

Para haver paz não é suficiente a arrumação étnica das populações, nem os acordos económicos, nem a segurança natural das fronteiras. Tampouco a alcançam as combinações diplomáticas que não se baseiam na coexistência de interesses reais, nem as criações artificiosas da política, nem a teimosia de sustentar contra a pressão da vida o que nem a história nem a geografia se encarregaram de consagrar e manter. A paz é sobretudo uma criação do espírito, fruto da força que se limita, isto é, da consciência que sabe distinguir e respeitar a linha de separação do direito próprio e alheio e até sacrificar o seu interesse a interesse maior que lhe é estranho.

Claustro do Mosteiro da Batalha

Crise europeia, crise do espírito; crise do espírito, crise de civilização. No seio da Europa gerou-se uma civilização especificamente sua, que é a civilização latina e cristã. À sombra desta se formaram espiritualmente todas as nações da Europa e da América e do seu influxo muitas outras beneficiaram em diversas partes do mundo. Se nessa herança moral, que é a nossa, há princípios eternos de verdade e de vida social, reputamos do nosso dever gritar a fidelidade a esses princípios: tanto mais quanto mais esquecidos e violados; tanto mais justificadamente quanto anda alarmado o mundo e perplexa a consciência dos povos que se interrogam ansiosos sobre se haverá ainda, no meio desta derrocada, lugar à verdade, à honra, à justiça, à legitimidade do direito, ao bem comum dos homens e das nações. Nem nós podemos crer - e bastas vezes o temos afirmado - que uma nação como a Rússia, que exactamente renegou desses princípios seja quem vem - piedoso cireneu - ajudar a restabelecê-los na Europa ocidental...».

Oliveira Salazar («A Europa em Guerra. Repercussão nos Problemas Nacionais», in Discursos e Notas Políticas, III, 1938-1943. Na Assembleia Nacional, em 9 de Outubro de 1939, durante a sessão em que a Câmara se congratulou pelo êxito da viagem do Chefe do Estado às terras portuguesas de África).



Portugal e o Hemisfério Ocidental


Demora-se Salazar na Beira menos do que o seu habitual, e na segunda quinzena de Setembro está de regresso a Lisboa. Há agora uma pausa nas conversações com a Inglaterra. Para mais, antes de responder aos comentários de Monteiro e à diligência britânica, Salazar pondera de novo a situação com Santos Costa e Teixeira Sampaio. E tem de acolher em Lisboa visitantes que de propósito aqui se deslocam para o ouvir. Recebe antes, porém, o embaixador de Espanha, em 18 daquele mês. Nicolau Franco garante a Salazar não haver qualquer modificação na política externa espanhola: nenhuma pressão fora exercida pelas potências do Eixo no sentido da entrada da Espanha na guerra, do ataque a Gibraltar ou da passagem por território espanhol de forças para o Norte de África. Salazar pergunta: «tem o generalíssimo esperanças de manter a Espanha até ao fim alheia ao conflito?». Franco responde afirmativamente. Por seu lado, Salazar faz uma síntese da situação portuguesa, e nega os rumores em curso quanto às ilhas portuguesas; mas não esconde ao embaixador que a sua preocupação se centra agora sobre Gibraltar cuja «inutilização obrigaria os ingleses a servirem-se de outra ou outras, e essa ou essas talvez não pudessem deixar de ser portuguesas». Paralelamente, Pedro Theotónio acha Serrano Suñer desorientado, e julga que a sua influência junto do General Franco está ultrapassada. Depois Salazar recebe Lord Barnby, «a quem pude dar meia hora», e que é um entusiasta de Portugal, e vivo defensor em Inglaterra da política de Lisboa. E vem Myron Taylor, alto representante pessoal de Roosevelt na Santa Sé. Taylor mantém reserva sobre as suas diligências junto de Pio XII; não sente dúvidas da vitória final da Inglaterra; faz numerosas perguntas sobre a campanha russa; prevê a organização futura dos Estados Unidos da Europa; e afirma a Salazar que este, graças ao seu prestígio no mundo, poderia desempenhar o papel de relevo na feitura da paz.


Papa Pio XII

E agradece a Salazar a oferta da edição inglesa dos seus discursos, que aquele mandara entregar no hotel de Taylor. E acompanhado de Campbell vem Lord Halifax, desajeitado e negligente, patrício e lúcido. Enquanto secretário de Estado, Halifax trocara com Salazar numerosas mensagens, e ficara com alto respeito pelo chefe do governo português: mas os dois homens não se haviam encontrado. Halifax abre-se sobre os Estados Unidos: não receia o imperialismo americano, nem a intervenção deste nos negócios europeus, que serão guiados pela mão da Inglaterra; e afirma a sua fé no puro desinteresse americano, no seu idealismo, no seu fundo cristão. Salazar escuta, e depois comenta: «não contrariei abertamente as suas opiniões, mas informei-o lealmente, quando solicitado, do que sabemos em matéria de facto». Hallifax oferece os seus bons ofícios em Washington, para pretensões de Portugal junto do governo americano.

Depois de reflectir, Salazar responde aos argumentos e às sugestões de Armindo Monteiro. Em 30 de Setembro de 1941, envia a este um despacho extenso, e firme. Parte de um princípio: o problema político máximo é o da retirada do Governo para os Açores e perda da neutralidade portuguesa. Mas antes deste ocupa-se Salazar de um outro: as destruições que a Inglaterra deseja ver realizadas em Portugal no caso de invasão por forças alemãs ou espanholas. Há «que moderar e reduzir até ao razoável a tendência inglesa para a destruição em massa de tudo o que possa ser utilizado pelo inimigo». Não podendo no momento lançar-se na ofensiva, a Grã-Bretanha tem por táctica levantar «obstáculos à vida e força da Alemanha»: «tudo o que leve as populações a viver mal, a sentir-se mal, a odiar os causadores das suas desgraças - e a Inglaterra parte do princípio de que a responsabilidade de tudo será no espírito das vítimas atribuído à Alemanha - é útil à vitória inglesa». Ora «nós não podemos aderir a este modo de ver, e temos por assente que só deverá ser destruído o que tenha influência directa na condução da guerra, por parte do inimigo, contra nós próprios ou os nossos aliados». E isso porque o ocupante improvisa em poucas horas as soluções que lhe bastam, mas «as ruínas ficam para ser reparadas, se o forem, pelos naturais. (Ainda temos pontes destruídas quando das invasões francesas)».




Neste ponto, Salazar informa Monteiro de que agentes ingleses, actuando clandestinamente, procuram com elementos portugueses e estrangeiros duvidosos montar em Portugal um serviço de destruição; os oficiais ingleses Beevor e Everett, adidos à Embaixada, são os organizadores e dirigentes; mas a polícia tem conhecimento de rede, e até está a fingir colaborar para assim dominar uma estrutura que, se deixada livre, poderia constituir perigo para a segurança do país. Salazar entra no problema central. Quanto ao último memorial inglês, de 6 de Setembro, «confesso que me impressionou muito mal, pela sua falta de rectidão e de sinceridade». Salazar não tem conhecimento dos despachos de Campbell em que este informa o Foreign Office de que administrou uma primeira dose, cabendo a Londres administrar uma segunda dose, ficando para a embaixada em Lisboa a terceira dose, e assim por diante até se atingirem os objectivos. Ignora esta técnica de Campbell, decerto. Não obstante, diz a Monteiro: «parece-me ser justo ao afirmar que o intuito do governo inglês é fazer escorregar Portugal por um plano inclinado, da neutralidade para a guerra, sem de tal assumir a responsabilidade, antes pretendendo se entenda que o País o faz por sua iniciativa e quase exclusivo interesse, e mesmo que para isso não haja razões visíveis da parte dos seus futuros inimigos». E com vigor sem peias afirma: «Seja qual for a evolução dos acontecimentos e a orientação que estes imponham ao nosso país, temos de destruir esta posição, não deixando dela uma pedra. Esquecendo por sistema os factos e a sua verdadeira sucessão, o governo ou as autoridades britânicas invertem posições fundamentais, de modo que os próprios serviços que nos pediram e lhes prestámos são a maior razão de outros sacrifícios que pretendem impor-nos. Nós não aceitamos a questão em tais bases». Salazar recapitula os passos maiores das conversas luso-britânicas, e sintetiza o estado actual: «o governo britânico, porque parece não bastar aos seus interesses o governo (português) abandonar o continente quando atacado, procura (memorando de 5 de Setembro) identificar ameaça com ataque, recusa-se a admitir a possibilidade e probabilidade da coexistência da beligerância espanhola e da neutralidade portuguesa para manter a sua posição de que o governo (português) deve abandonar o continente logo que a Espanha saia da mão da não-beligerância; e, não sendo isso bastante, faz coincidir esse acto et pour cause com a perda da neutralidade portuguesa». Ora o problema é apenas este: «No caso de Portugal ser atacado pela Alemanha, pela Espanha ou por forças de ambas estas nações, como entende o governo de Sua Majestade fazer funcionar os tratados de aliança?». Porque, com efeito, «não se trata de saber se Portugal deve ou não entrar nesta guerra ou se o fará por acto seu, mas de definir a atitude a tomar e actos consequentes na hipótese de um ataque inimigo». Sob o aspecto político-jurídico, a Nação Portuguesa e em seu nome o governo entendem que é do seu direito e do seu dever reagir contra todo o acto que atente contra a integridade territorial ou soberania efectiva, ou ofenda a dignidade nacional; esta posição não depende da atitude da Inglaterra; e implica a não submissão do governo a invasor ou ocupante, pelo que os actuais detentores do poder deixarão de ser governo no momento em que se lhes sobreponha uma autoridade de facto inimiga. Sob o aspecto de política externa, Portugal, aliado da Inglaterra, não se considera por esse facto aliado de qualquer outra potência com que a Grã-Bretanha esteja aliada ou associada, nem se lhe estendem automaticamente os compromissos que a sua aliada haja tomado com terceiras potências. Sob o aspecto do provável encadeamento dos factos, qualquer ataque ao continente português produzir-se-á em função da hostilidade contra a Inglaterra e não contra Portugal, ainda que aquele seja conduzido isoladamente pela Espanha, pois que esta, nas circunstâncias actuais, actuará de concerto com inimigos da Grã-Bretanha e não de Portugal. Finalmente, sob o aspecto moral e de política interna, a nação não compreenderá que a perda de neutralidade seja acto espontâneo do governo, ou constitua objectivo de política nacional, muito embora perante a agressão da Alemanha ou da Espanha seja de contar com a unidade nacional suficiente no País para se fazer face à situação.

Londres

A tudo contrapõe o gabinete de Londres, observa Salazar, outra construção: atacado Gibraltar pela Espanha, Portugal considera-se a si próprio ameaçado e transfere os orgãos de soberania para os Açores; essa transferência pratica-se sob a protecção da esquadra britânica; por este facto Portugal perde a sua neutralidade; e porque a perdeu coloca as bases portuguesas ao dispor da esquadra britânica. «Assim, o ataque da Espanha a Gibraltar traduziria jurídica e praticamente o fim da neutralidade portuguesa; Portugal entraria na guerra por acto seu; e a esquadra britânica estaria em bases portuguesas para defender Portugal em nome da aliança». Mas «nós não aceitamos o problema posto nestas bases»; e «não aceitamos sobretudo a imensa tragédia da guerra no nosso território e para o nosso povo, tendo a Inglaterra o ar de quem presta com desinteresse o seu auxílio num passo difícil que deliberadamente nos aprestámos a dar». Pode a Grã-Bretanha praticar um acto de força, como sugere e receia Monteiro? Pode: «facilmente se absolvem ou esquecem os pecados das grandes potências»: mas «este não o cometeria a Inglaterra sem abalo violento na consciência do Mundo»:  e a «minha conclusão é que a Inglaterra deve querer fugir ao acto de força e ver-se-á obrigada a negociar» e a «pôr claramente a questão da nossa entrada na guerra a seu pedido, para seu interesse, por força das suas necessidades». Na verdade, os factos são: a aliança é defensiva e nesta guerra a Grã-Bretanha é juridicamente a agressora; a Portugal é reconhecido o direito de ajuizar do casus foederis; não estão em jogo interesses portugueses mas apenas britânicos. E Salazar é então brutal na sua crueza, inabalável na sua resolução: «Devemos deixar ao governo inglês defender ele os seus interesses, não permitindo os confunda com os nossos, senão na parte em que podem ser solidários. É preciso ser firme, intransigente, nesta parte; a História seria severa em julgar-nos se o não fôssemos». E lança uma frase que é um doesto a Monteiro: «as expressões mais ou menos veladas ou fortes dos memorandos não me comovem pessoalmente e, sobretudo, não são suficientes para levar o governo a sacrificar o país». Conclui com um apelo a Monteiro, e também com uma ordem que é sarcasmo: «V. Exª conhece tão profundamente a questão e os interesses do País que, à parte nos naturais escolhos das negociações, não terá dificuldade em considerar-se fiel intérprete do pensamento do governo».

Salazar sente que Ronald Campbell, com o apoio do Foreign Office, pretende tolhê-lo na tenaz de um enredo em que fique manietado: e então rompe, rasga, corta cerce e a direito, sem se entibiar nem tergiversar. Afrontara a Rússia durante o conflito de Espanha. Partidário da aliança inglesa, afronta agora o Império Britânico quando este menoscaba a sua inteligência e a sua vontade, e quando além disso se propõe pisar interesses portugueses. Sem prejuízo de uma impávida serenidade exterior, há um agastamento íntimo, uma cólera fria, um ranger de nervos abafado. Esta atitude de espírito é agravada pela actuação dos ingleses no interior de Portugal: enquanto a embaixada trabalha com o governo, os agentes da Intelligence Service trabalham com «as oposições, que, no pensar inglês, são governos de amanhã». Trata-se de comportamento habitual das grandes potências, aliás, e «não vejo que esta regra sofra excepção no nosso caso». Para Salazar, os ingleses «continuam a ter na cabeça tantas ideias de liberalismo, com que pretendem beneficiar a Europa», e «muito dificilmente distinguem as amizades britânicas ou anglófilas da especulação política de alguns maus elementos portugueses que, embora nos últimos tempos com mais prudência, continuam a acarinhar». Tudo isto não «os acredita nem como psicólogos nem como atentos observadores» e «ocasiões tem havido em que estes homens da liberdade se têm revelado mais intolerantes que os representantes do Reich». Mas no momento os agentes britânicos procedem com algum exagero. Mesmo Armindo Monteiro comentava: «quere-me parecer que querem intimidar-nos ou realmente esta gente convenceu-se de que o governo actual está moribundo, sendo inconveniente comprometerem-se com ele»: e «chego a pensar se haveria vantagem em pequena retaliação contra esta atitude».





Naquele estado de ânimo, Salazar recebe Sir Ronald Campbell em 4 de Outubro. Campbell é distinto, profissional de alta estirpe, de apuro cortês até ao meticuloso; mas a sua  mentalidade imperial, vitoriana, parece sucumbir ao peso de Palmerston e Disrael. Salazar trata agora o enviado britânico com ironia, e mal oculto desdém. Campbel mostra-se optimista com a situação militar. Salazar sorri, e observa: «não estranho o estado de espírito inglês, desde que verifico ser este orientado no sentido de contar como vitórias suas algumas vitórias que, no seu entender, o inimigo almejara e não conseguira». Tenta Campbell discutir o problema magno pendente entre os dois governos, e puxa de meia dúzia de folhas de papel. Salazar atalha: Londres teria de compreender «ser absolutamente impossível fazer negociações nas duas capitais ao mesmo tempo». Campbell «recolheu as suas notas». Então o embaixador queixa-se da polícia portuguesa, que acusa de estar infiltrada pelos alemães, e apresenta alguns casos de embaraços suscitados por aquela. «Pacientemente expliquei ao embaixador que ia resolver as dificuldades». Campbell insiste. Salazar ri-se, e diz ao enviado inglês que já conhecera vários embaixadores da Inglaterra e que a todos é sempre preciso explicar tudo desde o princípio: como a Grã-Bretanha «é democrática e liberal e parlamentarista e o regime português é antidemocrático, antiliberal e antiparlamentar», a embaixada pensa que os amigos da Inglaterra e os defensores da aliança são os inimigos do governo, «os aspirantes às mudanças que lhes dessem situações políticas». Campbell protesta a maior consideração da Inglaterra pelo governo português e o seu chefe. Reage Salazar: «dei-lhe a entender, meio por palavras, meio por gestos, que depois de tantos anos de governo e de trabalho recto, tudo isso me era já perfeitamente indiferente».

Por fim, Campbell suscita a questão das exportações do volfrâmio para a Alemanha. Salazar critica asperamente a atitude da Grã-Bretanha. Muitas minas de volfrâmio são propriedade da Inglaterra; mas esta não as explora, para assim as manter em reserva, com prejuízo da economia do país onde se encontram, enquanto adquire volfrâmio na Turquia ou na Birmânia; e a Alemanha, sem interesse nas minas, apresenta-se a pagar bons preços e a valorizar uma riqueza portuguesa. Campbell muda de assunto. Portugal queria comprar e embandeirar com a bandeira portuguesa um barco italiano surto em Lourenço Marques: mas como podia o governo britânico concordar, quando o governo português não autoriza que a Grã-Bretanha compre alguns pequenos barcos portugueses? Então Salazar responde com outra pergunta: foi autorizada a venda de barcos de pesca à Inglaterra e a construção de outros em estaleiros portugueses, e depois disto a Grã-Bretanha não autoriza a compra de um barco italiano em Portugal: perante esta recusa, com esquecimento do passado, como pretende Londres que se concedam mais autorizações? Salazar comenta: «tenho verificado haver um funcionário da Embaixada que prepara os papéis ao embaixador e lhe faz apresentar com um grande ar de argumentação fulminante razões que são geralmente idiotas». Campbell diz para Londres que Salazar está «lúgubre» e «deprimido».






Sem dúvida: Salazar convenceu-se de que o gabinete de Londres se lançara numa tentativa de ludíbrio pessoal: e endurece a sua posição. Deseja ouvir Monteiro: «gostava que meditasse no assunto, e, quando pudesse, me escrevesse sobre ele». Assume no entanto responsabilidade suprema: «a mim nada me custa mudar de orientação, e esquecer-me também das pretensões inglesas até que a satisfação dos nossos legítimos pedidos seja encarada a sério por esse governo ou os seus burocratas», e entretanto «vamos fazer alguma coisa que possa levá-los a queixar-se», e isso porque tem notado que «os ingleses tratam em geral melhor e cuidam mais dos interesses dos países que os tratam mal». Monteiro, por seu lado, aproveita as oportunidades para repisar a atitude portuguesa: e num almoço na embaixada de Espanha a que assistem Churchill e Eden, conta a estes, perante os demais convidados estupefactos, como a prematura fuga de D. João VI e da família real para o Brasil, realizada a conselho inglês, causara tão má impressão que os portugueses ainda não haviam perdoado à memória do príncipe tão precipitado abandono.

De par com as conversas de Londres, continuam as negociações com Tóquio para o acordo aéreo Japão-Timor português. É assinado em 13 de Outubro o documento. Suscita-se um clamor de protesto em Londres, em Washington, na Austrália: Lisboa cedera a pressões nipónicas. Tóquio ameaçara ocupar Macau. Desmente o governo português todas as interpretações nesse sentido, salienta que o acordo é idêntico ao que fora concluído com a Austrália sem objecção de alguém; e dez dias mais tarde, a 23, os Estrangeiros publicam uma nota oficiosa a esclarecer o assunto. Neste meio tempo, um novo governo japonês assume o poder em Tóquio. E o representante português no Japão, Esteves Fernandes, informa Salazar de que esse novo governo deve arrastar o país à guerra e que a «situação deve ser muito perigosa em breve» (ibidem, pp. 345-353).





quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Portugal e o Hemisfério Ocidental (iii)

Escrito por Franco Nogueira






«A charrua penetra o solo mais que o ferro da espada; o suor fertiliza a terra mais que o sangue das veias; o espírito afeiçoa e transforma os homens e a natureza mais profundamente que a força material dos dominadores. As fundas pegadas e traços que ficaram de nós na terra e nas almas, por muita parte onde não é hoje nosso o domínio político, e têm maravilhado os observadores desde as costas de Marrocos à Etiópia e do Mar Vermelho aos Estreitos e ao Mar da China, vêm exactamente de que a nossa obra não é a do caminheiro que olha e passa, do explorador que busca à pressa as riquezas fáceis e levantou a tenda e seguiu, mas a do que, levando em seu coração a imagem da Pátria, se ocupa amorosamente em gravá-la fundo onde adrega de levar a vida, ao mesmo tempo que lhe desabrocha da alma o sentido da missão civilizadora. Não é a terra que se explora: é Portugal que revive».

Oliveira Salazar («A Europa em Guerra. Repercussão nos Problemas Nacionais», in Discursos e Notas Políticas, III, 1938-1943).


«No dia 23 de Dezembro [de 1941] [Salazar] recebe o ministro alemão: este felicita-o pela condução do caso de Timor e dá-lhe novas seguranças sobre a soberania portuguesa. No dia de Natal telegrafa a Monteiro para repisar as suas suspeitas quanto à campanha nos Estados Unidos e para lhe dizer que em Washington tem mostrado e aconselhado tranquilidade. E no final daquele ano Salazar sente-se céptico, desiludido. Desabafa com Monteiro: "os factos da vida ensinaram-me a descrer dos ricos, dos poderosos e dos grandes". Não descrê, todavia, do país e do imperativo de o transformar. Todos os portugueses, comenta Salazar, foram educados na tese de que a independência e integridade de Portugal são dádiva gratuita da Inglaterra, porque o país não teria condições de vida livre. "Ainda que esta doutrina fosse tese histórica inegável, deveríamos considerá-la politicamente errada. A verdade política deve reivindicar para a Nação a base suficiente de independência efectiva". Mais: "sei que a doutrina que defendo não conquistou ainda toda a massa de Portugal. Parte importante confunde ainda consciência nacional e interesse nacional com servilismo pró-britânico"».

Franco Nogueira («Salazar», III).



Portugal e o Hemisfério Ocidental


Na sua política da Península, Salazar tem constantemente de fazer e refazer tudo. Não julga que Portugal haja de sair da sua neutralidade; e apenas quando esta estiver irremediavelmente perdida será de considerar a hipótese de abandonar o território continental. Mas a Espanha acaba de pôr em causa as coordenadas desta política. Para colaborar com a Alemanha na luta anticomunista, Franco envia forças espanholas - a Divisão Azul - para a frente de batalha russa. Depois, pronuncia um violento discurso contra a Inglaterra e os Estados Unidos. Salazar fica atónito, e pergunta a Pedro Theotónio: «Mas porquê e para  quê uma agressão contra a Inglaterra e os Estados Unidos?». Salazar supõe que o generalíssimo prepara uma mudança de política externa para breve, e decerto a ruptura com Londres, antes de mais, como acto preparatório do ataque a Gibraltar. Por outro lado, o Japão continua para o sul um avanço que vai além da China, e ocupa bases aeronavais na Indochina, com a anuência da França; e em Madrid julga-se que dentro de pouco a América estará em guerra. Tem repercussões em Londres e Washington o ataque de Franco; e Salazar procura recompor as malhas esgaçadas, paciente e tenazmente. Tem uma nova conversa com Sir Ronald Campbell. Este pergunta «se considerava possível continuar Portugal na sua actual posição de neutro e em paz no caso de a Espanha entrar na guerra ao lado da Alemanha, atacando Gibraltar». Teoricamente, responde Salazar, era viável; mas reconhecia que praticamente a situação se tornaria excepcionalmente difícil. Campbell, sem comentar estas afirmações, e«certamente indo atrás da ideia fundamental que tinha no cérebro durante esta conversa», declarou então «não saber se, no caso de a Espanha atacar e tornar inutilizável Gibraltar, era ainda de interesse para a Inglaterra a neutralidade portuguesa». Aqui Salazar guarda reserva mental: ilude a pergunta implícita no comentário de Campbell para evitar dizer a este que «isso não era bastante», só por si, para tirar Portugal da sua neutralidade. Prefere perguntar se, «não podendo utilizar Gibraltar, a Inglaterra não tinha bases em África devidamente apetrechadas». E o embaixador «citou Freetown, pondo muito em relevo que essa base se encontrava muito para o sul». Mas como narra Campbell, para o Foreign Office, esta mesma entrevista? Começa por dizer: «tive uma oportunidade de quebrar o gelo».

Estreito de Gibraltar

Depois: «Perguntei ao Dr. Salazar se pensava possível que a Alemanha agisse em Espanha mas não atacasse Portugal». Salazar, segundo Campbell, respondeu que o «considerava possível, uma vez que a vantagem estratégica de ocupar Portugal poderia não compensar a vantagem de ter ainda uma saída para o mundo não-europeu, especialmente a América do Sul; mas seria uma situação dificílima». E Campbell continua: essa situação seria difícil «especialmente se nós tivéssemos de abandonar Gibraltar como base naval. Aqui fiz uma pausa para deixar esta ideia penetrar. O Dr. Salazar ficou silencioso por algum tempo, e depois perguntou se a perda de Gibraltar nos prejudicaria seriamente. Respondi (com o ar de fazer uma afirmação solene e grave) que certamente assim era, dado que com excepção de Freetown (já muito ao sul) nós não teríamos qualquer base entre Plymouth e Capetown. O Dr. Salazar ficou profundamente absorto até que mudei de assunto, por pensar que isto era bastante como primeira dose». Campbell sugere então que Eden «administraria» uma terceira em Lisboa. Mas as palavras que Campbell julga terem impressionado Salazar, deixam este insensível. Nesta mesma altura, o novo representante de Portugal em Berlim, Conde de Tovar (5), informa que os alemães se lhe confessam altamente preocupados com os Açores, receando sobretudo as pressões de Roosevelt junto de Vargas para levar este a ocupar o arquipélago: e afirmam por outro lado sentir profunda impressão e admiração pela política portuguesa neste ponto, e pela viagem de Carmona, e pela aproximação de Portugal com o Brasil e América Latina em geral. Em Espanha, jornais e círculos políticos também se mostram alarmados. Mas efectivamente, alguns dias mais tarde, Eden convoca Monteiro, e é mais claro do que Campbell fora com Salazar. Diz o secretário de Estado que não consegue compreender «como Portugal poderia continuar uma política de independência logo que a Espanha fosse invadida ou entrasse na guerra ao lado da Alemanha». E pede que Monteiro pondere a Salazar o seguinte: «desde que os alemães estejam senhores da Espanha, os portugueses ficarão impossibilitados de resistir ou de mudar a sede do governo». E acentua o mesmo aspecto já sublinhado por Campbell: sem Gibraltar, a Grã-Bretanha ficará desprovida de bases entre Plymouth e a África Ocidental. E Eden introduz em toda a trama da conversa uma consideração nova: se e quando a esquadra britânica abandonar Gibraltar, terá então muito maior dificuldade em proporcionar e proteger a retirada do governo português para os Açores. Insiste, por isso, em que aquela deslocação se deve fazer logo que se verifique ameaça e não apenas quando se produza invasão. Monteiro pondera que as dificuldades emanam dos escrúpulos de Salazar: não aceita uma partida prematura: e sente-se obrigado, sobretudo em face do perigo, a dar exemplo de dever bem cumprido. Mas Monteiro recomenda para Lisboa que se busque uma «fórmula de transacção». Fora «administrado» a segunda dose pelo secretário de Estado. E como relata Eden esta conversa a Campbell? Praticamente, da mesma forma por que o faz Monteiro, que de resto tomou notas durante a entrevista. Apenas vinca um ponto não salientado pelo embaixador português: «a manutenção da neutralidade portuguesa, após a entrada de Espanha na guerra, passaria a ser desvantajosa para a Inglaterra». E ao relato feito por Monteiro cinge-se Salazar a responder que vai ponderar o assunto, e a indicar que Campbell solicitara nova audiência.

Roosevelt e Churchill durante a conferência secreta de 9 a 12 de Agosto de 1941 no Atlântico Norte, que resultou na Carta do Atlântico.

Entretanto, Roosevelt e Churchill haviam-se encontrado algures no mar alto, em pleno Atlântico, e acordavam numa declaração de oito pontos que consubstanciavam os objectivos da guerra e os princípios a que deveria obedecer a paz: é a Carta do Atlântico (6). No seu regresso a Londres, Churchill informa o gabinete de que Roosevelt está «ansioso por ocupar os Açores» e que esperava um convite de Salazar nesse sentido. Churchill ponderava que tal convite lhe parecia improvável, salvo no caso de agressão alemã contra a Península. Deste modo, Churchill pensava que a Inglaterra teria de ocupar as ilhas, independentemente de se ver privada de Gibraltar sem uma base alternativa. Roosevelt afirmara que teria forças americanas prontas para a ocupação em meados de Setembro. Nessa reunião do gabinete, Eden intervém para dizer que Roosevelt lera na carta de Salazar o que esta não continha. Churchill replica que o presidente decidira dar-lhe a interpretação que mais convinha. Mas o gabinete conclui com mais prudência: convida apenas Eden a ponderar as palavras do primeiro-ministro.

Pouco após, em fins de Agosto, a 28, Salazar concede nova audiência a Campbell, em S. Bento, que se prolonga das onze da manhã às duas da tarde. Desta vez o enviado britânico ataca de frente: se a Espanha entrar na guerra, só ou aliada da Alemanha, Londres entende que não é possível manter-se a neutralidade portuguesa. Salazar fica tranquilo, calmo. Põe três hipóteses: resistência armada da Espanha à pressão alemã; ataque da Espanha a Gibraltar com ou sem assistência de técnicos alemães; aliança com a Alemanha e operações em conjunto. Qual a hipótese mais provável? Há que pôr de parte a primeira: a Divisão Azul, o discurso de Franco, o pacto anticomunista, impossibilitam a Espanha de opor qualquer resistência à Alemanha. Há que excluir a última hipótese: a generalidade dos espanhóis não apoiará uma aliança hispano-alemã para fazer a guerra. Fica a segunda hipótese: a opinião pública espanhola estará com o governo que empreenda a conquista de Gibraltar. Mas esta hipótese suscita considerações: ainda que a Espanha tomasse Gibraltar, o destino final do território será o que for determinado pelo resultado da guerra; mais importante do que apoderar-se a Espanha de Gibraltar é para a Alemanha inutilizar e fechar o estreito; e isto pode a Espanha fazê-lo com os seus próprios meios, sem aliança formal com a Alemanha. «A conclusão é, pois, de que a Espanha agirá sozinha». Salazar reconhece, todavia, que a terceira hipótese também não é impossível. «Mas o ataque a Gibraltar nada tem que ver com o ataque ou a ocupação do nosso país», diz Salazar a Campbell. Neste ponto, toda uma rede de raciocínios é possível: a Alemanha não reconhecerá à Espanha absoluta liberdade de acção na Península, nem a Itália tão-pouco, porque nem uma nem outra desejam uma grande potência na entrada do Mediterrâneo; a quem possuir as costas espanholas pouco benefício suplementar decorrerá da posse das costas portuguesas; decerto a Alemanha, com Portugal ocupado, poderia então falar em nome de toda a Europa continental; mas então perderia a única ligação que lhe resta com o mundo extra-europeu e magoaria as repúblicas latino-americanas; Portugal e Espanha são as únicas portas possíveis sobre o mundo; é muito grave quebrar todas as amarras; e de tudo será de concluir que a Alemanha se absterá de uma agressão contra Portugal. Campbell escuta com atenção, mas torna ao princípio: com tropas alemãs em Espanha, e à mercê de um golpe fulminante, seria impossível a saída do governo português.



Marechal Pétain



Pétain e Hitler


Salazar então acentua: «O governo não pode praticar um acto tão grave» sem «que o acompanhe a compreensão do povo» quanto à «necessidade daquele sacrifício para se alcançar um fim superior»; e «ninguém compreenderia um acto de tal transcendência só porque os espanhóis atacaram Gibraltar ou têm forças nas fronteiras com o confessado propósito de evitar um ataque do lado de Portugal». Deste modo, «é preciso que o país não tenha a impressão de uma fuga injustificada, mas de uma retirada in extremis»; «é preciso, enfim, que o governo não perca o seu prestígio transferindo a sua sede para os Açores». Campbell comenta que lhe parece estar a ouvir o que nas vésperas da capitulação da França lhe dizia o marechal Pétain. Serenamente, Salazar explica ao embaixador que não há paralelo entre as duas situações: no caso português, «não se discute se se devem aceitar as imposições alemãs, ou não, e se o governo se deve sujeitar ao mando de governo estrangeiro, ou não»; apenas se discute «o momento em que as conveniências militares» e políticas «lhe aconselham ou impõem transferir-se para onde possa usar da sua liberdade de acção». Campbell concorda. E então, com aparente descaso deixa cair a pergunta que no fundo era a sua obsessão: quando Gibraltar não fosse já utilizável, e se o governo português houvesse sido transferido para os Açores, seriam nestes dadas facilidades à esquadra britânica? Dando às suas palavras extrema simplicidade, Salazar responde: «não vejo que a isso se oponham quaisquer dificuldades». Campbell tenta resumir toda a conversa numa só frase, de «cujo conteúdo não sou capaz de me recordar», mas que era inexacta, e por isso Salazar sublinha: «Isso é o que V. Ex.ª diz» (7).

Desta conversa, Salazar dá conta minuciosa a Monteiro. Ao fazê-lo, formula considerações suplementares. Salazar notou claramente os degraus que Ronald Campbell procura transpor; e não julga que haja dado margem para desconfiança, e a alegação desta pelos ingleses, como pretende Monteiro, é somente um expediente para ocultar o verdadeiro objectivo, que consiste na utilização dos Açores pela esquadra britânica. Salazar, contudo, pisa e repisa os argumentos e as posições fundamentais. E vai mais longe: «a minha confiança numa vitória rotunda da Inglaterra é fraca, se é que existe, através da visão desapaixonada dos acontecimentos e do interesse português». Ao ler isto, Monteiro não se contém, comenta: «Diante desta ordem de ideias, as actuais negociações são uma contradição. Vai-se então o Dr. Salazar ligar ao vencido? Valha-nos Deus! Parece loucura». Depois de insistir no seu apego à neutralidade, que está para além das estipulações dos tratados, e de invocar a consciência do país, que «põe acima de tudo a honra nacional», Salazar remata com uma declaração gelada: «Não se devem deixar dúvidas no espírito do Secretário de Estado de que, se Portugal estiver neutral, as forças dos Açores ou de Cabo Verde ripostarão ao ataque da esquadra britânica até ao limite das suas possibilidades. Não julgo que dignamente possamos fazer outra coisa». Monteiro, estonteado, sente-se aturdido: «Este homem vive na Lua! O que temos é de evitar que aconteçam coisas que nos levassem à situação de ter de fazer fogo durante dez minutos contra a esquadra britânica!».


Base das Lajes (Açores).


São cruzados em Lisboa os fogos: pressões inglesas, e indirectamente americanas, são alternadas com pressões alemãs e japonesas. Na imprensa alemã, ou de países subordinados ao Eixo, é elogiada a política ao mesmo tempo escrupulosa e enérgica do governo de Lisboa; mas são permanentes os artigos ou notícias sobre as intenções agressivas, ou até os preparativos de agressão, por parte britânica e norte-americana. Por seu lado, Tóquio não desiste das suas pretensões quanto a Timor português; e agora está empenhado num acordo aéreo Japão-Timor. E também não desiste a Austrália, apoiada por Londres. Lisboa conduz então duas negociações paralelas. Chega-se primeiro a acordo com a Austrália. São mais especiosos os japoneses e mais lentas as negociações. Entretanto, no país, sucumbindo sempre à acção de forças estrangeiras, agitam-se de novo alguns círculos. Partidários da Alemanha, por verem na vitória desta a sobrevivência do regime, fundamentam na defesa contra o domínio da Europa pela Rússia o desejo do triunfo germânico. Entre os oposicionistas do governo, criticam-se as medidas tomadas, protesta-se contra o envio de contingentes militares para defender os Açores, Cabo Verde e a África, advoga-se cruamente uma intervenção inglesa: nesta orientação unem-se matizes políticos divergentes, desde os antigos liberais e democráticos até aos monárquicos e alguns católicos; e pedem num manifesto o auxílio da Grã-Bretanha para formar um governo. Não se apura, todavia, qualquer receptividade de Londres para a atitude exposta no documento. E Caeiro da Mata, que em Vichy substituíra Ochôa (8), informava que se tinha por assente a entrada dos Estados Unidos no conflito, planeando para atacar a Alemanha um desembarque nas costa de Portugal.

De harmonia com o convite feito na reunião do gabinete inglês de novo o Foreign Office pondera as relações com Portugal, em particular quanto aos Açores. Antes de mais não julga o Foreign Office possível qualquer atitude de má-fé: seria fatal quando se trata com Salazar: e tornaria mais difícil obter facilidades no arquipélago. Por outro lado, se Salazar se tem mostrado partidário da aliança luso-britânica, e desta faz a base da sua política, não se sente no entanto obrigado para os Estados Unidos, de que desconfia e por que não tem a menor simpatia. Comenta depois o Foreign Office: «Se é ou não desejável que os americanos estejam nos Açores, é assunto da mais alta política. A óbvia obsessão com que o Estado-Maior americano pretende aquelas ilhas é menos uma expressão do desejo americano de ajudar o esforço de guerra aliado do que uma expressão do expansionismo imperial americano. É isto que precisamente o Dr. Salazar receia, e deve ser tido em consideração». Conclui o Foreign Office que um arranjo anglo-português sobre os Açores é coisa natural, no quadro da Aliança; mas os americanos devem ser mantidos afastados, tanto quanto possível, no interesse britânico e no interesse português; e as conversações com Portugal devem prosseguir, por isso, antes de qualquer atitude violenta e antes que se «intrometa a complicação americana nas nossas negociações directas com os portugueses». Eden concorda com este parecer do seu departamento, e envia a Churchill uma minuta em que defende uma política de negociações com Portugal, ao mesmo tempo que mantém à distância os americanos, sem prejuízo de estes serem informados do progresso das conversas. Para travar Roosevelt, Churchill expede um telegrama ao presidente sublinhando que apenas em face de provocação alemã ou espanhola seriam os Açores tomados pela força. Nesta base continua Campbell as suas entrevistas com Salazar.


Sobre as conversações de Estado-Maior, era português o último documento, e fora entregue em 10 de Julho. E agora, a 6 de Setembro e conforme na véspera Campbell anunciara a Salazar, o Foreign Office entrega a Monteiro a resposta britânica. Esta aplaude a decisão portuguesa de transferir para os Açores, nas condições previstas, a sede do governo; e para definição dessas condições o gabinete inglês deseja prosseguir a troca de pontos de vista. Mas então, e pela primeira vez por escrito, Londres afirma claramente uma posição contrária à de Lisboa: o gabinete inglês, com efeito, exprime as mais graves dúvidas quanto a retardar a deslocação para os Açores até que o continente seja atacado pela Alemanha, com ou sem a colaboração de outra potência; e sente ser-lhe impossível concordar na viabilidade de Portugal se manter neutro no caso de entrar na guerra a Espanha, ainda que esta não ataque Portugal desde logo. Em qualquer caso, e nesta última hipótese, o governo de Sua Majestade declara que a manutenção da neutralidade portuguesa em tais circunstâncias seria desvantajosa para a Inglaterra e contrária aos interesses da aliança anglo-portuguesa. E Monteiro, depois de remeter para Lisboa este memorial britânico, expõe a Salazar o seu ponto de vista pessoal. Partilha da tese britânica: a entrada da Espanha na guerra, só ou com a Alemanha, deve corresponder ao abandono imediato da neutralidade portuguesa. Porquê? Se a Espanha ataca Gibraltar em nome da unidade, não se satisfará sem Portugal. «O pretexto político está criado desde há muito e inscrito nas bandeiras da Falange: a unificação da Península». E «a reintegração da Península na sua unidade coonestará a beligerância espanhola e fornecerá ao público explicação suficiente desta». Por isso, «confesso a V. Exª que não consigo separar, nas condições presentes, um ataque a Gibraltar de um ataque a Portugal». Monteiro continua: «no estado actual das coisas não acho razoável supor - e por isso tenho de o dizer a V. Exª - que os ingleses cruzem os braços diante de uma recusa nossa, afastando resignadamente a sua poderosa esquadra para o meio da costa de África». Assim, «se nessa altura não nos tivermos decidido por posição que convenha à defesa dos nossos interesses, ficaremos à mercê do primeiro acaso. Se a Inglaterra se apresentar para ocupar uma base nos Açores, resistir-lhe-emos - diz V. Exª no final do seu ofício, com evidente razão de princípio - e automaticamente tombaremos para o lado da Alemanha; se esta der uns tiros na fronteira, cairemos para o lado da Inglaterra. Pode V. Exª ligar o seu grande nome a esta política?». Ora, «nós dependemos do mar e de quem domina o mar». «Tudo isto», diz Monteiro, «é horrível; mas é dentro do horrível que V. Ex.ª tem de agir». E termina: «V. Ex.ª perdoará a vivacidade de certas passagens, levando-a à conta apenas do meu muito desejo de lhe ser útil neste ponto e de, tanto quanto em minhas forças cabe, o ajudar a abrir caminho para o País nas graves circunstâncias que atravessamos». Deste modo, estão agora nitidamente vincadas as duas posições: Monteiro, em absoluto confiado na vitória da Inglaterra, julga que apenas ao lado desta poderá Portugal garantir o seu futuro, e para tanto deseja que o país abandone a sua neutralidade, ainda que não haja ataque directo a Portugal, e que este entre na guerra; Salazar, para além de dúvidas quanto a um triunfo inglês absoluto, quer manter a neutralidade portuguesa, e para o efeito agarra-se a critérios jurídicos (cumprimento do tratado luso-espanhol por parte de Madrid), ou morais (respeito pela soberania das nações), ou políticos (influência que exerce sobre Franco para travar este de uma precipitação), e confia além disso na sua destreza pessoal.

Na mesma altura, o conde de Tovar avista-se com Hitler no seu quartel-general. É extremamente claro o chanceler, e afável, e ao enviado português acentua as «crescentes ambições dos Estados Unidos e as suas possíveis consequências para os Açores», e declara «idióticos» os rumores de uma ocupação alemã das ilhas. Tovar afirma estar o arquipélago já bem defendido; e o chefe nazi mostra-se informado e aplaude a atitude do governo de Lisboa; e isso porque a «certeza de que não é possível adquirir um território sem tiros e sangue tem sempre por efeito moderar o apetite dos ambiciosos». E depois Hitler fala longamente da campanha da Rússia. Pronuncia-se em nome da Europa: graças à Alemanha fora frustrado o objectivo soviético de impor pelas armas a bolchevização do continente. E dadas as perdas russas, em homens e material, a grande dificuldade e o grande inimigo que os exércitos germânicos hoje enfrentam é a enormidade do território. Mas sobre a conversa com Hitler elabora Tovar os seus comentários, e transmite as conclusões a que chega. Sublinha que, ao invés do que muitos esperavam, não se verificou a desmoralização do povo russo, que tem mostrado um patriotismo fervoroso; e depois do derrotismo inicial que esbarrandou muitos exércitos soviéticos, as forças armadas foram invalidadas em três aspectos fundamentais: prolongamento da campanha no tempo, obrigando o Estado-Maior alemão a anular ou a adiar operações; desgaste de material superior ao de todas as campanhas anteriores; e perdas humanas excessivas que, se não enfraquecem o potencial militar germânico, têm no entanto um efeito depressivo no moral do povo alemão. Julga Tovar, no entanto, que a Rússia «poderá resistir, mas não poderá investir» contra a Alemanha; e que esta conseguirá estabilizar a frente de batalha. Então entrar-se-á noutra fase da guerra. Qual? Tovar vê duas hipóteses: ataque a oeste, com a invasão da Inglaterra; operações para o sul, e conquista da bacia do Mediterrâneo com auxílio da Itália e da Espanha. «Inclino-me a crer», informa Tovar, «que terminada a campanha da Rússia o Estado-Maior alemão prefira mais uma vez a operação subsidiária ao duelo decisivo e tente expulsar os ingleses do Mediterrâneo de preferência a atacá-los nas suas próprias ilhas». E não prevê o desmoronamento moral do povo alemão, nem um ataque directo dos Estados Unidos à Alemanha; mas considera possível aqueles ficarem em luta aberta com esta (embora sem declaração de guerra), com a América do Sul ao lado de Washington, a bandeira americana a flutuar nalguns pontos do Atlântico e das costas ocidentais da África, e a Inglaterra já subalternizada aos Estados Unidos.

14 de Abril de 1941: Oliveira Salazar envia um batalhão para os Açores.


Quando são recebidos em Lisboa os despachos de Monteiro e Tovar, o chefe do governo está no Vimieiro, na primeira quinzena de Setembro, e aqueles são-lhe remetidos para a aldeia (ibidem, pp. 334-345).


Notas: 

(5) Durará pouco tempo a missão de Nobre Guedes em Berlim, pois em pouco foi patente a sua total falta de vocação para as funções. O Conde de Tovar exercia o cargo de Director-Geral dos Negócios Estrangeiros do MNE, de que seria mais tarde, depois da guerra, Secretário-Geral.

(6) Por muito conhecidos, não se reproduzem aqui os oito pontos. Sendo um resumo dos quatorze pontos de Wilson, da guerra de 1914-18, consagravam a livre vontade dos povos, a livre escolha de governo por cada um, igualdade no comércio mundial e no acesso às matérias-primas, colaboração económica internacional, segurança colectiva, liberdade dos mares, desarmamento, não engrandecimento territorial.

(7) No seu relato para Londres, Campbell também não refere a frase que utilizou.

(8) Ochôa morrera em virtude de ataque cardíaco. A escolha de Caeiro, alta figura da vida portuguesa, obedeceu da parte de Salazar ao desejo de prestigiar a França, e o marechal Pétain, indicando à Alemanha que continuava a considerar aquela uma potência.

Continua