domingo, 13 de maio de 2012

«Iluminismo cristão» (ii)

Escrito por Papus (Gérard Encausse)







«No Congresso Espiritualista Maçónico de 1908, René Guénon esteve presente como secretário da mesa. Mas abandonou o Congresso, logo após a sessão de abertura, chocado com uma frase do discurso de Papus: "As sociedades futuras serão transformadas pela certeza de duas verdades fundamentais do espiritualismo: a sobrevivência e a reencarnação"».

António Carlos Carvalho (in pref. a R. Guénon, «A Crise do Mundo Moderno»).


«O iluminismo, doutrina da luz interior, é de tipo oriental. Segundo o iluminismo, a verdade não resulta da prática docente; descobre-se na alma humana, afastando os obstáculos corporais, passionais e intelectuais, segundo um procedimento de que ainda há eco em Sócrates. A alma humana tem de ser libertada da doutrina que estabelece a distinção entre o Criador e a Criatura, do princípio da individualidade natural, para que se realize a adunação mística ou búdica.

Dentro da ortodoxia católica o iluminismo teve como altos representantes Santo Agostinho e S. Boaventura, em cuja doutrina predominam os termos de contemplação, intuição e visão beatífica, posto que o objecto da filosofia e o fim ulterior do homem é o amor de Deus. O iluminismo propende, porém, para a heterodoxia, como no caso do quietismo de Madame Guyon, ressalvado por Fénelon, para o abandono dos sacramentos e da doutrina que os justifica, num mundo aberto à acção do homem.

Esta dilatação da fé, dilatação da luz, e consequentemente da liberdade, tendia a impelir para o domínio da teologia, ortodoxa ou heterodoxa, tudo quanto não pode ser demonstrado pela razão natural. Este alargamento da fé, por adesão a objectos intelectuais que não são dados da Revelação, nem estão contidos na Sagrada Escritura, tendia para o fideísmo, doutrina da subjectividade infinita que na Alemanha haveria de obter grande número de adeptos».

Álvaro Ribeiro («Filosofia Escolástica e Dedução Cronológica»).


«Proclamam acaso os professores que se aprenda e fixe o que eles pensam, e não as doutrinas mesmas, que eles julgam comunicar falando? Pois quem será tão estultamente curioso que mande o seu filho à escola, para que ele aprenda o que o professor pensa? Ora depois de terem [os professores] explicado por palavras todas essas doutrinas, que declaram ensinar, incluindo a da virtude e a da sapiência, então aqueles que são chamados discípulos, consideram consigo mesmos se se disseram coisas verdadeiras, e fazem-no contemplando, na medida das próprias forças, aquela Verdade interior de que falámos. É então que aprendem.

(...) "não chamemos mestre a ninguém na terra, pois que o único Mestre de todos nós está nos Céus" (Mateus, 23, 8-10). O que quer dizer - nos Céus - Ele próprio o ensinará, Ele que também pelos homens, por meio de sinais e de fora, nos incita a que nos voltemos para Ele no nosso interior, para sermos ensinados. A vida venturosa é conhecê-lo e amá-lo. Todos proclamam que a buscam, mas poucos são os que podem alegrar-se de a ter verdadeiramente encontrado».

Santo Agostinho («O Mestre»).


«A França é no Invisível a filha mais velha da Europa, devendo, por conseguinte, manter no seu seio o centro da iniciação. Mas, a maioria das lojas maçónicas francesas afastaram-se da iniciação, atendo-se aos compromissos maléficos da política, descendo de grau em grau até se tornarem centros activos de ateísmo e de materialismo.

Tendo abandonado o estudo dos símbolos, que estavam incumbidos de transmitir às gerações futuras, e tendo feito , sob protesto de anticlericalismo, uma guerra incessante a toda a crença e a todo o ideal, os Franco-Maçons franceses tornaram-se logo indignos de serem contados entre os membros da grande família maçónica universal».

Papus («Martinesismo, Martinismo, Willermosismo e Franco-Maçonaria»).




2.2. O Willermosismo

Dos discípulos de Pasqually dois merecem particularmente a nossa atenção pelas obras que realizaram: Jean-Baptiste Willermoz, de Lyon, e Louis-Claude de Saint-Martin. (...) Willermoz, negociante Lionês, era maçon quando começou a sua correspondência iniciática com Martinez de Pasqually. Habituado à hierarquia maçónica, aos grupos e às Lojas, concentrou a sua obra de realização no sentido do trabalho em grupo. Tendeu, pois, a constituir Lojas de Iluminados enquanto Saint-Martin dirigiu os seus esforços para o trabalho individual.




A obra capital de Willermoz foi a organização de congressos maçónicos, os Conventos, permitindo aos Martinistas desmascarar previamente a obra fatal dos Templários e apresentar o Martinismo sob o seu real aspecto de universalismo integral e imparcial da Ciência Hermética.

Quando foi iniciado por Martinez, Willermoz era venerável da loja A Perfeita Harmonia de Lyon, cargo que ocupou entre 1752 e 1763. Essa loja filiava-se com a Grande Loja de França. Em 1760, uma primeira selecção foi realizada e todos os membros portadores do grau de Mestre constituíram uma grande Loja de Mestres de Lyon tendo Willermoz como Grão-Mestre. Em 1765, uma nova selecção foi realizada através da criação do Capítulo de Cavaleiros da Águia Negra, colocados sob a direcção do Dr. Jacques Willermoz, irmão mais novo de Jean-Baptiste. Ao mesmo tempo, este abandonou a presidência da Loja ordinária e da Loja de Mestres, em favor do Ir/Sellonf, para colocar-se na chefia da Loja dos Elus Cohens, formada com os melhores elementos do Capítulo. Sellonf, Jacques Willermoz e Jean-Baptiste formaram um Conselho Secreto, tendo os irmãos de Lyon sob tutela.

Constata-se nos documentos depositados no Supremo Conselho da Ordem Martinista, vindos directamente de Willermoz, que as reuniões, reservadas aos membros portadores do título de Iluminado, eram consagradas à oração colectiva e às operações, permitindo a comunicação directa com o Invisível. Possuímos todos os detalhes necessários para a realização dessa comunicação; mas esses rituais devem ficar reservados exclusivamente ao Comité Director do Supremo Conselho. Podemos revelar, contudo, lançando grandes luzes sobre muitos pontos, que os iniciados davam o nome de Filósofo Desconhecido ao ser invisível com o qual se comunicavam. Foi ele quem ditou, em parte, o livro Dos Erros e da Verdade de Saint-Martin, que somente adoptou esse pseudónimo mais tarde, por ordem superior. Provamos essa informação no nosso volume consagrado a Saint-Martin.

A mais alta espiritualidade, a mais intensa submissão às vontades do Céu, as mais ardentes orações a Nosso Senhor Jesus Cristo jamais deixaram de preceder, de acompanhar e de encerrar as reuniões presididas por Willermoz (4). Apesar disso, os clérigos ainda desejam ver um diabo peludo e cornudo em toda a influência invisível e se estão dispostos a confundir tudo o que for supra-terrestre com influências inferiores, só poderemos lamentar uma posição desse tipo, que possibilita toda a espécie de mistificação e de jocosidade. O Willermosismo, assim como o Martinesismo e o Martinismo, sempre foi foi cristão mas nunca clerical. Ele dá a César o que é de César e a Cristo o que é de Cristo, jamais vende Cristo a César.

O Agente ou Filósofo Desconhecido ditou 166 cadernos de instrução, possibilitando a Saint-Martin copiar os principais. Entre todos esses manuscritos, cerca de 80 foram destruídos nos primeiros meses de 1790 pelo próprio Agente, para evitar que caíssem nas mãos de enviados de Robespierre, que se esforçou por obtê-los.


2.3. Os Conventos





Em 12 de Agosto de 1778, Willermoz anunciou o Convento de Gaules, realizado em Lyon entre 25 de 27 de Dezembro do mesmo ano. Esse convento tinha como objectivo apurar o sistema escocês e destruir todos os maus gérmens introduzidos no sistema pelos Templários. Sob a influência dos Iluminados de todo o País, saiu dessa reunião a primeira condenação do plano de vingança sangrenta, preparado em silêncio dentro de algumas lojas. O resultado dos trabalhos desse convento está contido no Novo Código das Lojas Rectificadas de França, mantido nos nossos arquivos e publicado em 1779.

Para se compreender o grande esforço realizado no sentido da união dos maçons é necessário lembrar que o mundo maçónico estava em plena anarquia.

O Grande Oriente de França fora fundado em 1772 graças à usurpação da Grande Loja por Lacorne e seus seguidores, dirigidos ocultamente pelos Templários. Estes, após terem estabelecido o Capítulo de Clermont, foram transformados em 1760 no Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente; em 1762, em Cavaleiros do Oriente, entrando, finalmente, no Grande Oriente através de Lacorne.

Graças à sua influência, o sistema de lojas foi profundamente modificado; em todos os lugares o regime parlamentar, realizando as eleições dos seus oficiais, substituiu a antiga unidade e autoridade hierárquica. Com a desordem causada por essa revolução, que se estendera por toda a parte, os Martinistas intervieram no sentido de trazerem a reconciliação para todos. Eis a razão desse primeiro convento de 1778 e dos seus esforços para impedir as dilapidações financeiras que se faziam em toda a parte.

Encorajado por esse primeiro sucesso, Willermoz convocou, a partir do dia 9 de Setembro de 1780, «todas as grandes lojas escocesas da Europa ao Convento de Wilhemsbad, perto de Hanau» (5). O Convento de Wilhemsbad foi aberto numa terça-feira, no dia 16 de Julho de 1782, sob a presidência de Ferdinand de Brunswick, um dos chefes do Iluminismo Internacional. Desse convento saiu a Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa de Jerusalém e uma nova condenação do sistema Templário.

Como se observa, o Willermosismo tendeu sempre para o agrupamento de fraternidades iniciáticas, para a constituição de colectividades de iniciados dirigidas por centros activos de novo ligados ao iluminismo. Não tem razão quem pensa que Willermoz abandonara as ideias dos seus mestres; pensar isso é conhecer mal o seu carácter elevado. Sempre até à morte, ele quis estabelecer a Maçonaria sob bases sólidas, dando como objectivo aos seus membros a prática da virtude e da caridade; mas sempre procurou fazer das lojas e dos capítulos, centros de selecção para os grupos de Iluminados. A primeira parte da sua obra era clara, a segunda oculta; é por isso que as pessoas mal informadas podem não ver Willermoz sob a sua verdadeira personalidade.

Após a tormenta revolucionária, tendo o seu irmão Jacques Willermoz sido guilhotinado, juntamente com todos os seus iniciados, havendo ele próprio escapado por milagre ao mesmo infortúnio, foi ainda ele quem reconstituiu a Franco-Maçonaria espiritualista, graças aos rituais que pôde salvar do desastre.


Louis-Claude de Saint-Martin e o Martinismo






Além dos estudos ligados ao Iluminismo, começados juntos a Martinez e desenvolvidos com Willermoz, Louis-Claude de Saint-Martin ocupou-se activamente da Alquimia. Ele possuía em Lyon um laboratório organizado para esse fim. (...) Tendo estendido o seu raio de acção, Saint-Martin foi obrigado a fazer certas reformas dentro do Martinesismo. Os autores clássicos da Maçonaria deram o nome do grande realizador à sua adaptação e designaram sob o nome de Martinismo o movimento proveniente de Louis-Claude de Saint-Martin. É muito divertido ver certos críticos, que nos abstemos de qualificar, esforçarem-se por fazer acreditar que Saint-Martin jamais fundou qualquer ordem.

A Ordem de Saint-Martin foi introduzida na Rússia sob o reino da Grande Catarina, sendo tão difundida ao ponto de ser mencionada numa peça de teatro encenada na corte. É à Ordem de Saint-Martin que se ligam as iniciações individuais, referidas nas memórias da baronesa de Oberkierch. O autor clássico da Franco-Maçonaria, o positivista Ragon, que não simpatizava com os ritos dos Iluminados, descreve nas páginas 167 e 168 de sua Ortodoxia Maçónica as mudanças operadas por Saint-Martin para constituir o Martinismo (6).

Sabemos que esses críticos não merecem ser levados a sério, principalmente por Saint-Martin ter desprezado a Franco-Maçonaria positivista, facto que nunca perdoaram. O mesmo Martinez, que remeteu a Maçonaria para o seu verdadeiro papel de escola elementar e de centro de instrução simbólica inferior. Em suma, quando desejam negar factos históricos, ridicularizam-nos.

Aqueles que os críticos universitários denominavam Teósofo de Amboise foi um realizador bastante prático, sob uma aparência mística. Empregou assim como Weishaupt (7) a iniciação individual. Foi graças a esse procedimento que a Ordem obteve facilidade de adaptação e de extensão, que muitos ritos maçónicos invejam. Saint-Martin não se dedicara à difusão da Cavalaria Cristã de Martinez, o que desencadeou violentos ataques endereçados contra a sua obra, a sua personalidade e a sua vida. (...)


Martinismo e Materialismo





A obra perigosa de Cagliostro não foi a única que Saint-Martin procurou combater. Ele também concentrou todos os seus esforços para lutar contra o progresso dos Filósofos, que se esforçavam por precipitar a Revolução espalhando por toda a Europa os princípios do ateísmo e do materialismo. Foram ainda os Templários (8) que conduziram esse movimento organizado, como nos indicam os trechos extraídos de Kirchberger:

«A incredulidade formou actualmente um clube muito bem organizado. É uma grande árvore que faz sombra numa parte considerável da Alemanha, que porta muitos maus frutos e que projecta as suas raízes até à Suíça. Os adversários da religião cristã têm as suas afiliações, os seus observadores e a sua correspondência muito bem montada; para cada departamento, têm um provincial que dirige os agentes subalternos; têm os principais jornais alemães sob controle, que constituem a leitura favorita do clero, que não gosta mais de estudar; os nossos jornais censuram artigos, aos quais dão a sua versão e criticam os demais; se um escritor quer combater o despotismo, enfrentará uma enorme dificuldade para encontrar um editor que queira encarregar-se do seu manuscrito. Eis o método para a parte literária; mas têm muitos outros para consolidar o seu poderio e enfraquecer aqueles que sustentam a boa causa».

«Se há uma vaga de instrução pública qualquer, ou se existe um senhor com necessidade de um instrutor para os seu filhos, eles têm três ou quatro personagens prontos que se apresentam ao mesmo tempo por canais diferentes; dessa maneira, estão quase sempre certos de vencer. Eis como é frequentada a Alemanha, e para onde enviamos os nossos jovens para estudar».

«Pesquisam também para colocar os seus protegidos nos gabinentes dos ministros da corte alemã; têm também os seus apadrinhados dentro dos conselhos dos príncipes e noutros lugares».

«Um segundo método que empregam é aquele de Basílio... a calúnia. Esse método torna-se para eles cada vez mais fácil, na medida em que a maior parte dos eclesiásticos protestantes são, infelizmente, os seus agentes mais zelosos; como essa classe tem mil maneiras de penetração em todos os lugares, podem espalhar os rumores que causam efeito, antes que se tenha tido conhecimento da coisa e tempo de se defender».

«Essa coalizão monstruosa custou trinta e cinco anos de trabalho ao seu chefe, que é um velho homem de letras de Berlim, e, ao mesmo tempo um dos livreiros mais célebres da Alemanha. Ele redige desde 1765 o primeiro jornal desse país; chama-se Frederic Nicolai. Essa Biblioteca Germânica foi também amparada pelos seus agentes, pelo espírito da Gazeta Literária de Viena, que é muito bem feito e que circula em todos os países onde a língua alemã é falada. Nicolai influencia ainda o jornal de Berlim e o Museu Alemão, dois veículos muitos acreditados. A organização política e as sociedades afiliadas foram estabelecidas quando os jornais inocularam suficientemente o seu veneno. Eles marcharam lentamente, mas com passo seguro. Actualmente o seu progresso é tão assustador e a sua influência tão grande, que não existe mais nenhum esforço que possa resistir-lhes; somente a Providência tem o poder de nos libertar dessa peste».




«No início, a marcha dos Nicolaistas foi muito silenciosa; associavam as melhores cabeças da Alemanha à sua Biblioteca Universal; os artigos científicos eram admiráveis; os temas de obras teológicas ocupavam sempre uma parte considerável de cada volume. Esses temas eram compostos com tanta sabedoria, que os nossos professores da Suíça recomendavam-nos nos seus discursos públicos aos nossos jovens eclesiásticos. Mas, pouco a pouco, eles expeliam o seu veneno, embora com bastante cautela. Esse veneno foi reforçado com endereço certo. Mas, por fim, tiraram a máscara e, em dois de seus jornais afiliados, esses celerados ousavam comparar o nosso Divino Mestre ao célebre impostor tártaro Dalai Lama (...). Esses horrores circularam na nossa terra, sem que ninguém em toda a Suíça desse o menor sinal de descontentamento. Então, em 1790, escrevi numa gazeta política, à qual estava anexa uma folha onde se escrevia tudo; despertei a indignação pública contra esses iluminadores, Aufklarer, ou esclarecedores, como se denominavam. Enfatizei a atrocidade e a profunda asneira dessa blasfémia».

«Neste momento, esses indivíduos causam uma influência negativa mais fraca através dos seus escritos do que pelas suas filiações, pelas suas intrigas e pelas suas infiltrações nos postos; de sorte que a maior parte do nosso clero, na Suíça, é corrompida moralmente até ao miolo dos ossos. Faço, por minha parte, tudo o que posso pelo menos para retardar a marcha desses indivíduos. Algumas vezes obtive sucesso, noutros casos os meus esforços foram impotentes, porque são muito adestrados e porque o seu número chama-se legião» (in ob. cit., pp.18-21; 25-26; 32-34).


Notas:

(4) «Conheci muitos Martinistas, tanto em Lyon como em diferentes cidades das províncias meridionais. Longe de parecerem ligados às opiniões dos filósofos modernos, demonstravam desprezo pelos seus princípios. A sua imaginação, exaltada pela obscuridade dos escritos do seu patriarca, deixava-os expostos a todo o género de credulidade. Embora muitos fossem distinguidos por talentos e conhecimentos, tinham o espírito amiúde ocupado com fantamas e prodígios. Não se limitavam a seguir os preceitos da religião dominante; mas livravam-se das práticas de devoção em uso na classe menos instruída. Em geral, os seus costumes eram bastantes regulares. Constatava-se grande mudança de conduta naqueles que, antes de adoptar as opiniões dos Martinistas, tinham vivido na dissipação e na procura dos prazeres» (Neunier, Influências dos Iluminados na Revolução, Paris, 1822, 8, p. 157).

(5) Ragon, Ortodoxia Maçônica, p. 162.

(6) Ficamos surpresos por ver o judicioso autor da História da Fundação do Grande Oriente de França ter o prazer de diminuir O Escocismo reformado de Saint-Martin, no qual só encontra «superstições ridículas e crenças absurdas». Não ignoramos que a maior parte das cópias existentes desse rito estão bastante alteradas, podendo induzir ao erro o homem mais instruído, mas, assinalemos: 1.º que grandes luzes e o talento de escrever asseguram a Saint-Martin um lugar distinto entre os Sectários particulares; 2.º que foi pelo menos uma empresa louvável, ultrapassando o círculo estreito desse labirinto e pelo orgulho; 3.º que a filiação dos graus de Saint-Martin apresenta, aparentemente, um sistema bastante coerente, um conjunto que pode conduzir facilmente todo o iniciado na arte real. Finalmente, cada grau em particular supõe um conhecimento profundo da Bíblia, que ninguém possuía melhor do que ele próprio dos textos originais, conhecimento bastante raaro entre os maçons. Poder-se-ia talvez apenas censurar-lhe de ser muito preso aos detalhes (De L'Aulnaye, Le Thuilleur Géneral).

(7) Veja Cartas à Caton Zwach, de 16.2.1781.



(8) Esses templários que, segundo Papus, organizaram um movimento subversivo que culminou com a Revolução Francesa, só tem o nome dos antigos Templários, construtores do Templo Místico de Salomão. Os primeiros originaram-se do Sistema Escocês instituído por Ramsay em 1728, «cuja base era política e cujo ensinamento tendia a fazer de cada Irmão um vingador da Ordem do Templo». Os antigos Templários originavam-se da Ordem do Templo, fundada em Jerusalém em 1118 por Hugues de Payens e Geoffroi de Saint-Omer e sete Cavaleiros, sob a espada do 67º sucessor de São João, o Evangelista. Exteriormente, tinham como objectivo proteger os peregrinos que se dirigiam ao Santo Sepulcro de Jerusalém; ocultamente, o objectivo era obter a Iluminação, como toda a ordem iniciática digna desse nome (N.T.).

Continua

quinta-feira, 10 de maio de 2012

«Iluminismo cristão» (i)

Escrito por Papus (Gérard Encausse) 






«A tradição portuguesa, a esperança de que o Cristianismo reintegrará o Homem e a Natureza no Reino de Deus, durante o século XVIII passa a exprimir-se em termos diferentes dos que ficaram estabelecidos na nomenclatura da teologia católica e da filosofia aristotélica. A obra de Pascoal Martins, vertida maravilhosamente na cultura da Europa Central, dá-nos ainda uma síntese admirável, das tradições peninsulares...».

Álvaro Ribeiro («A Arte de Filosofar»).


«Comecemos pela teosofia ou teoria. Pretendendo ser uma história oculta da humanidade, é um emanatismo, isto é, aceitação de que todos os seres derivam ou emanam dum ser único que é Deus. Da primeira emanação resultam essências espirituais existindo na esfera divina ou superceleste. Alguns espíritos, porém, prevaricaram, pretendendo, à semelhança de Deus, fazer emanar de si seres espirituais. Deus separou então os espíritos que não prevaricaram daqueles que prevaricaram: os primeiros permaneceram na esfera divina ou superceleste, e os segundos foram colocados na esfera celeste - guardados por um "espírito menor", Adão, última emanação divina: "os próprios anjos eram submetidos à sua grande virtude e seus poderes". Mas Adão foi tentado e enganado pelos espíritos que ele guardava: "Adão, tu tens inato em ti o verbo da criação em todos os géneros..." "Porque não operas a potência da criação divina que é inata em ti?..." Adão executou "fisicamente" a sua criminosa e frustrada cópia de emanação que ele era, uma forma de matéria tenebrosa e completamente oposta à sua, dando origem aos homens. Foi o pecado de Adão. Foi a Queda. Punido, Adão decaiu da esfera celeste para a esfera terrestre, sujeito à condição da matéria corruptível que ele mesmo criou. Trata-se, pois, duma versão esotérica dos primeiros capítulos do Génesis, em que o antagonismo (ou confusão) dos sentidos de emanação e de criação parece estar, mais de raiz do que supõe Rijnberk, para lá das divergências terminológicas dos manuscritos, quanto ao emprego das palavras criar e emanar em passos intercorrespondentes. Esta mesma divergência terminológica parece indicar o impreciso da doutrina porque "emanação opõe-se à criação". Mas reatemos. Não obstante as tentações demoníacas dos "homens" - produtos do pecado de Adão -, aparecem, entre eles, seres encarregados de trabalhar pela "reconciliação" em Deus (ou com Deus?), espíritos menores eleitos, nascidos "apenas pela vontade e operação divinas" e que se encarnam por devotamento para com os homens. É a doutrina da "reintegração", que Martinez teria ido buscar aos manuscritos do árabe Al-Rachath».

Amorim de Carvalho («O Positivismo Metafísico de Sampaio Bruno»).


«O método de Swedenborg para obter as visões era muito particular. Conheceu apenas três ou quatro vezes o raptus, a impressão de sair de si. Estava acostumado ao deliquim, estado cataléptico, que o fazia cair para a frente, rosto contra o chão, e perder, por vezes, a consciência. Entregava-se quotidianamente às "visões representativas", de olhos abertos (in aperti oculi status). Não aceitava que o considerassem um alucinado: segundo os seus princípios anatómicos, o nervo óptico dependia da vista interior (visus spiritus), sem a qual os olhos não poderiam ver nada no exterior. Desenvolvendo misticamente esta visão interior, penetrava-se no invisível. Para atingir este poder, Swedenborg praticava a suspensão respiratória, em função da sua teoria das relações entre o cérebro e os pulmões. Acreditava que o espírito possuía uma "respiração interna" que subsistia depois da morte, e da qual se sentiam os efeitos se se suspendia a repiração externa. Os pensamentos "voam para o interior do corpo" no momento da inspiração, e são expulsos durante a expiração. Se se inspira com sabedoria o poder espiritual é aumentado. Enquanto conversava com os anjos, Swedenborg esforçava-se por ficar o mais possível sem nenhum movimento respiratório. Os seus desmaios - os seus deliquia, como ele dizia - deviam-se justamente ao facto de ele reter demasiado a respiração.

(...) As viagens extáticas de Swedenborg não se fazem na sua cabeça, mas no centro da sua cabeça, tornado um verdadeiro orgão do movimento. Durante os seus trânsitos extra-terrestres, as suas conversas de além-túmulo, experimenta sensações no occipício, na têmpora esquerda ou direita, na língua, num dos seus olhos. Quando os espíritos de Mercúrio lhe falam, ouve-os com o seu olho esquerdo».

Alexandrian («História da Filosofia Oculta»).





«É impossível aos anjos enunciar uma única palavra de uma língua humana».

«A linguagem do anjo ou do espírito com o homem é ouvida de uma maneira tão sonora como a linguagem do homem com o homem; mas é entendida só por ele, e não por aqueles que estão presentes».

Swedenborg («Do Céu e das suas maravilhas, assim como do Inferno segundo o que pude entender e ver»).


«...A inovação de Martines de Pasqually foi afirmar que não se sabia antecipadamente que ser apareceria no momento da evocação: o que surgisse seria a Coisa, uma "forma gloriosa" que emanava do mundo celeste e do mundo superceleste, podendo ser um som ou um hieróglifo luminoso».

«...o Eleito Cohen procurava os passes, quer dizer, os traços luminosos da passagem da Coisa. Martines de Pasqually chamava passes às luminosidades brancas, ou azuladas, ou avermelhadas, que passavam rapidamente sob os seus olhos. Era-se avisado da sua eminência ao sentir "pele de galinha por todo o corpo". Obter um passe provava que se tinha estabelecido contacto com o mundo supercelestial, e certos adeptos não esperavam nada de melhor. Durante o trabalho, cada um usava o seu "escudo" (talismã triangular), pois se arriscava a ser atacado pelos demónios. Podia também ser vítima de uma penosa tracção da Coisa. O abade Fournié, que foi, durante muito tempo, secretário de Martines de Pasqually, numa invocação em que se encontrava sozinho, sentiu uma tracção "por uma mão que lhe batia através do corpo", e confessou 25 anos mais tarde: "Daria de bom coração todo o universo, todos os prazeres e a sua glória, com a garantia de os gozar durante um milhar de milhões de anos, para evitar ser atingido daquela maneira novamente"».

(...) Segundo Papus, que possuía documentos secretos da Ordem, os Eleitos Cohen obrigavam-se a "um triplo treino: alimentar, para o corpo físico; repiratório, para o corpo astral; musical e psíquico, para o Espírito". Era necessário abster-se toda a vida de comer carne de pombo, tal como rins, gordura e sangue de qualquer animal. Devia jejuar-se durante onze horas antes de começar a Invocação dos três dias, podendo apenas beber-se água (mas não café nem licor). As experiências resultavam melhor quando Martines de Pasqually assistia, tanto o seu ascendente iniciático influenciava os seus próximos: "Nas primeiras sessões, os novos discípulos admitidos a tomar parte nos trabalhos do mestre, verão a Coisa realizar misteriosas acções. Sairão de lá entusiasmados e aterrorizados, como São Martinho, ou ébrios de orgulho e de ambição como os discípulos de Paris. Produziram-se aparições, seres estranhos, de uma essência diferente da natureza humana, tomaram a palavra". Mas os adeptos, entregues a si próprios, não obtinham esse género de maravilhas: Willermoz passou 10 anos até ver a Coisa. Martines escreveu-lhe, em 7 de Abril de 1770: "A Coisa é, por vezes, muito dura para aqueles que a desejam muito ardentemente antes do tempo indicado. Seja constante, será recompensado". Outros desencorajaram-se e voltaram-se contra o seu iniciador».

Alexandrian («História da Filosofia Oculta»).



1. Os Iluminados Cristãos

1.1. A Rosa-Cruz

É impossível compreender a essência do Martinismo de todas as épocas, se não estabelecermos antes a diferença fundamental existente entre uma Sociedade de Iluminados e a Maçonaria. Uma Sociedade de Iluminados liga-se ao Invisível por um ou pelos seus vários chefes. O seu princípio de existência tem a sua origem num plano supra-humano; toda a sua organização administrativa faz-se de cima para baixo. Os membros da fraternidade obedecem aos seus chefes, obrigação que se torna ainda mais importante à medida que os membros entram no círculo interior.




A Maçonaria não está ligada ao Invisível por nenhum vínculo. O seu princípio de existência tem a sua origem nos seus membros e em nada mais. Toda a sua organização administrativa faz-se de baixo para cima, com selecções sucessivas por eleição.

Do que foi dito, infere-se que esta última forma de Fraternidade nada pode produzir para fortificar a sua existência a não ser cartas constitutivas e papéis administrativos, comuns a toda a sociedade profana; enquanto as Ordens de Iluminados baseiam-se, sempre, no Princípio do Invisível que as dirige.

A vida privada, as obras públicas e o carácter dos chefes da maioria das fraternidades de Iluminados demonstram que esse Princípio Invisível pertence ao plano Divino, sem relação alguma com Satã ou com outros demónios, como insinuam os clérigos, assustados com o progresso dessas sociedades.

A Fraternidade de Iluminados mais conhecida, anterior a Swedenborg, a única da qual se pode falar no mundo profano, é a dos Irmãos Iluminados da Rosa-Cruz, cuja constituição e chave serão dadas dentro de alguns anos. Foram os membros dessa Fraternidade que decidiram criar sociedades simbólicas, encarregadas de conservar os princípios da Iniciação Hermética, originando os diversos ritos da Franco-Maçonaria. Não se pode estabelecer confusão alguma entre o Iluminismo, centro superior de estudos Herméticos, e a Maçonaria, centro inferior de conservação, reservado aos iniciados. Só entrando nas Fraternidades de Iluminados é que os Franco-Maçons podem obter o conhecimento prático desta Luz, momento em que, então, sobem de grau em grau.


Swedenborg

Através dos esforços constantes dos Irmãos Iluminados da Rosa-Cruz, o Invisível concedeu um impulso considerável à Humanidade através da iluminação de Swedenborg, o célebre sábio sueco.

A missão de realização de Swedenborg consistiu, basicamente, na constituição de uma cavalaria laica de Cristo, encarregada de defender a ideia cristã, dentro da sua pureza primitiva, e de atenuar, no Invisível, os deploráveis efeitos das corrupções, das especulações de fortuna e de todos os processos caros ao Príncipe deste Mundo, realizados pelos Jesuítas, sob as cores do Cristianismo.

Swedenborg dividiu a sua obra de realização em três secções:

- Secção do ensinamento, constituída pelos seus livros e pelo relato das suas visões;

- Secção religiosa, constituída pela aplicação ritualística das suas doutrinas;

- Secção responsável pela tradição simbólica e pela prática, constituída pelos graus iniciáticos do Rito Swedenborgeano.

Neste momento, esta última secção interessa-nos particularmente. Ela foi dividida em três secções secundárias: a primeira era elementar e maçónica; a segunda preparava o recipiendário para o Iluminismo; a terceira era activa.









(…) Observa-se, além disso, que o único verdadeiro criador dos altos graus foi Swedenborg; graus esses que estão exclusivamente ligados ao Iluminismo e foram directamente hierarquizados e constituídos por Seres Invisíveis. Mais tarde, falsos maçons procuraram apropriar-se dos graus do Iluminismo e não conseguiram senão expor a sua ignorância.

Com efeito, a posse do grau de Irmão Iluminado da Rosa-Cruz não consiste na propriedade de um pergaminho ou de uma faixa sobre o peito; prova-se somente pela aquisição de poderes espirituais activos, que o pergaminho e a faixa apenas podem indicar.

Ora, entre os iniciados de Swedenborg, houve um a quem o Invisível prestou assistência particular e incessante, um homem dotado de grandes faculdades de realização em todos os planos. Esse homem, Martinez de Pasqually, recebeu a iniciação do Mestre em Londres, sendo incumbido de difundi-la em França.


2. Os Iluminados

2.1. O Martinesismo

Foi graças às cartas de Martinez de Pasqually que pudemos fixar a ortografia exacta do seu nome, violado até então pelos críticos (1); foi ainda graças aos arquivos que possuímos e ao apoio constante do Invisível, que lográmos demonstrar que Martinez jamais teve a ideia de transportar a Maçonaria para os princípios essenciais, que sempre desprezou, como bom iluminado que foi. Martinez passou metade da sua vida combatendo os nefastos efeitos da propaganda sem fé desses pedantes de lojas, desses pseudo-veneráveis que, abandonado o caminho que lhes fora fixado pelos Superiores Incógnitos, quiseram tornar-se pólos do Universo e substituir a acção de Cristo pelas suas e os conselhos do Invisível pelos resultados dos escrutínios da multidão.

Em que consistia o Martinesismo? Na aquisição pela pureza corporal, anímica e espiritual, dos poderes que permitem ao homem estabelecer contacto com os Seres Invisíveis, denominados anjos pela Igreja, atingindo não apenas a sua reintegração pessoal, mas também a reintegração de todos os discípulos de vontade.




Martinez chamava à sala de reuniões todos os que lhe pediam a luz. Traçava os círculos ritualísticos, escrevia as palavras sagradas, recitava as suas orações com humildade e fervor, agindo sempre em nome de Cristo, como testemunharam todos aqueles que assistiram às suas operações, como testemunham ainda todos os seus escritos. Então, os seres invisíveis apareciam resplandecentes de luz. Agiam e falavam, ministravam ensinamentos elevados e instigavam à oração e ao recolhimento; tudo isso ocorria sem médiuns adormecidos, sem êxtase, sem alucinações doentias.

Quando a operação terminava, e após a saída dos Seres invisíveis, Martinez dava aos seus discípulos os métodos necesssários para chegarem por si mesmos à produção dos mesmos resultados. Só quando os discípulos obtinham sozinhos a assistência real do Invisível é que Martinez lhes outorgava o grau de Rosa-Cruz, como mostram as suas cartas com evidência.

A iniciação de Willermoz, que durou mais de dez anos, a de Louis Claude de Saint-Martin e a de outros, mostram-nos que o Martinesismo foi consagrado a outros objectivos, além da prática da Maçonaria Simbólica. Basta não ser admitido no pórtico de um centro real de Iluminismo, para confundir os discursos dos veneráveis com os trabalhos activos dos Rosa-Cruzes Martinistas.

Martinez quis inovar tão pouco que conservou integralmente os nomes dados pelos Invisíveis e transmitidos por Swedenborg. Seria justo, então, utilizarmos a denominação de Swedenborgismo adaptado em vez do Martinesismo (2).

Martinez considerava a Franco-Maçonaria como uma escola de instrução elementar e inferior, como prova Mestre Cohen que diz: «Fui recebido Mestre Cohen, passando do triângulo aos círculos». Isto quer dizer, traduzindo os símbolos: «Fui recebido Mestre Iluminado, passando da Franco-Maçonaria à prática do Iluminismo». Pergunta-se igualmente ao Aprendiz Cohen: «Quais são as diferentes palavras, sinais e toques convencionais dos Eleitos Maçons Apócrifos?». E ele responde: «Para o Aprendiz, Jakin, a palavra de passe é Tubalcain; para o Companheiro, Boaz, a palavra é Schiboleth; para o Mestre, Macbenac, a palavra é Giblin».

Era necessário possuir pelos menos sete dos graus da Maçonaria para tornar-se Cohen. A leitura mesmo superficial dos catecismos é clara a esse respeito. Martinez procurava desenvolver cada um dos membros da sua ordem através do trabalho pessoal, deixando-lhes toda a liberdade e toda a responsabilidade pelos seus actos. Ele seleccionava com o maior cuidado todos os iniciados, conferindo os graus apenas a uma real aristocracia da inteligência.




Os iniciados, uma vez recrutados, reuniam-se para trabalhar em conjunto; essas reuniões eram feitas em épocas astrológicas determinadas. Assim se constituiu uma cavalaria de Cristo, cavalaria laica, tolerante e que se afastava das práticas habituais dos diversos cleros.

Procura individual da reintegração por Cristo, trabalho em grupo, união de esforços espirituais para ajudar os principiantes; tal foi, em resumo, o papel do Martinesismo. Esta Ordem recrutava os seus discípulos directamente dos profanos, como foi o caso de Saint-Martin, ou, mais habitualmente, entre os homens já titulares de altos graus maçónicos.

Em 1574, Martinez estava ligado:

1. À Franco-Maçonaria oriunda da Inglaterra, constituindo a Grande Loja Inglesa de França (após 1743), que deveria, em breve, tornar-se a Grande Loja da França (1756), dando lugar às intrigas do mestre de dança Lacorne. Esssa Maçonaria era absolutamente elementar e era constituída apenas pelos três graus azuis (Aprendiz, Companheiro e Mestre); actuava sem pretensões e formava um excelente centro de selecção.

2. Paralelamente a essa Loja Inglesa, existia sob o nome de Capítulo de Clermont, um grupo que praticava o sistema templário que Ramsay acrescentou em 1728 à Maçonaria com os seus graus designados "Escocês, Noviço, Cavaleiro do Templo", etc. Uma outra explicação é necessária: um dos representantes mais activos da iniciação templária foi Fénelon. Nos seus estudos sobre Cabala estabelecera várias relações com vários Cabalistas e Hermetistas. Após «a sua luta com Bossuet» (3), Fénelon foi forçado a fugir do mundo e a exilar-se, momento em que preparou, com o maior cuidado, um plano de acção que deveria mais tarde proporcionar-lhe a vingança.

O cavaleiro de Ramsay foi cuidadosamente iniciado por Fénelon e incumbido de excutar esse plano com o apoio dos Templários, que obteriam ao mesmo tempo a sua vingança. O cavaleiro de Beneville estabeleceu em 1754 o Capítulo de Clermont, com os seus graus templários. Ele perseguia um objectivo político e uma revolução sangrenta que Martinez não podia aprovar, como nenhum outro cavaleiro do Cristo aprovaria. Assim como Martinez, todos os discípulos da sua ordem, entre os quais Saint-Martin e Willermoz, combateram energicamente esse rito templário, que alcançou parte dos seus fins em 1789, e em 1793, quando mandou guilhotinar a maioria dos chefes Martinistas. Mas não nos antecipemos.

3. Além dessas duas correntes, havia outros representantes do Iluminismo em França. Citemos, em primeiro lugar, Dom Pernety, tradutor da obra O Céu e o Inferno de Swedenborg, fundador do sistema dos Iluminados de Avignon (1766) e importante personagem na constituição dos Filaletes (1773). É necessário ligar ao mesmo centro a obra de Benedict de Chastenier, que lançou em Londres em 1767 as bases do seu Rito Iluminados Teósofos, que brilhou particularmente a partir de 1783.

O Iluminismo criou vários grupos interligados por objectivos comuns e por Mestres Invisíveis oriundos da mesma fonte, que se reuniram posteriormente no plano físico. De Martinez de Pasqually vem a obra mais fecunda nesse sentido, pois foi a ele que o céu deu poderes activos, recordados pelos seus discípulos com admiração e respeito.


Do ponto de vista administrativo, o Martinesismo seguirá exactamente os graus de Swedenborg, como podemos constatar pela simples leitura da carta de Martinez de 16 de Junho de 1760. Com efeito o grau de Mestre Grande Arquitecto resume os três graus da terceira secção (in Papus, Martinesismo, Willermosismo, Martinismo e Franco-Maçonaria, Hugin, 2001, pp. 13-18).


Notas:

(1) Papus, Martinez de Pasqually, Paris, 1895.

(2) «É dito nos mistérios do Rito de Swedenborg que o homem, uma vez integrado por uma vida santa e exemplar na sua dignidade primitiva, uma vez tendo recuperado os seus direitos primitivos, através de trabalhos úteis, aproxima-se então do seu Criador, conhecendo uma via nova, especulativa, animada pelo sopro Divino: ele é iniciado Elu Cohen: nas suas instruções que recebe, aprende as Ciências Ocultas em todas as suas partes, que lhe fazem conhecer os segredos da Natureza, a alta Química, a Ontologia e a Astronomia» (Revhelline, 2.º vol., p. 434, citado por Ragon, Orthodoxie Maçonnique).

(3) Bispo francês (1627-1704), orador de grande reputação. Preceptor do príncipe herdeiro sob Luís XVI. Combateu os protestantes e condenou o Quietismo de Fénelon. Este, arcebispo de Cambria (1651-1715), pelas suas críticas ao rei de França, foi obrigado a submeter-se e a retirar-se no seu arcebispado. O Quietismo foi uma doutrina mística combatida pela Igreja. Apoiava-se nas obras do padre espanhol Molinos e ensinava que a perfeição cristã é obtida pelo amor de Deus e pela anulação da vontade inddividual (sic!).

Continua 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Judaísmo, cabala e maçonaria

Escrito por Fernando Pessoa 






«O pensamento é um acto que não se socializa».


«(...) Creio que o paganismo representa a mais verdadeira e a mais útil das fés; creio mesmo que não representa uma fé, mas uma visão intelectual da verdade».

«(...) Mais que propriamente o dos neoplatónicos, meu é o paganismo sincrético de Julião Apóstata».

«(...) Há, por fim, a iniciação divina. Esta, não a dão nem exotéricos ou esotéricos menores, como a exotérica, nem até Mestres ou Esotéricos Maiores como a esotérica; vem directamente, e por cima destes todos, das mesmas mãos do que chamamos Deus».



«A distinção das sociedades iniciáticas em três funções e em três formas é muito clássica. Encontramo-la, por exemplo, em Fernando Pessoa. No Caminho da Serpente, Pessoa distingue três Ordens: uma Ordo Serpentis, uma Ordo Solis, e uma Ordo Sebastica, que seria "oculta e sem exterior"».

«(...) As sociedades verdadeiramente esotéricas, colegiais na maior parte dos casos, são concebidas como verdadeiros laboratórios de pesquisa. Conduzem os seus adeptos às fases terminais das Vias Reais; Via do Despertar; Via do Corpo de Glória, Via da Pedra ao Rubro, Via Essencial, Via Extrema, as expressões são muitas para designar essa fase onde o indivíduo, liberto de tudo o que é humano, liberto até da libertação, acede realmente à imortalidade consciente e torna-se um deus, relativamente ao seu antigo estado humano. Neste nível, é quase deslocado falar de organizações ou de sociedades, criações humanas; os termos "Assembleia" (ekklesia), de "Ordo", no sentido sacerdotal do termo, seriam mais adequados. As ordens internas verdadeiras são, na sua maioria, estruturas "flutuantes" que vão e vêm, aparecem aqui e ali, passam com facilidade de uma forma a outra. Integraram a impermanência como modo de funcionamento estrutural. Na realidade, não existem verdadeiramente escolas esotéricas, mas sim Linhagens, nas quais a relação entre o Mestre (aquele que domina a arte e a disciplina, e que pode ser um colectivo) e o aluno, ou Discípulo (aquele que aplica a disciplina para atingir a arte), constitui a base desse trabalho terminal e muito interno. Os nomes dessas Linhagens, Assembleias e Ordens "Serpentinas" aparecem e desaparecem, são raramente pronunciados; permanecem desconhecidos, mesmo dos historiadores do Esoterismo».

«(...) Ergon ou Parergon, um pelo outro, o outro pelo um, o Raio de Elias Artista sela aquilo que é cumprido in Christus; Christus não devendo ser aqui entendido no seu sentido religioso, o ungido que religa, mas no sentido solar de Absolutidade...».

Rémi Boyer («A Tradição Maçónica e o Despertar da Consciência»).




Ahura Mazda



Zoroastro e Ptolomeu (A Escola de Atenas).




«Entre os Egípcios, como entre os Persas da religião mazdeana de Zoroastro, como depois de Jesus, em Israel, como para os cristãos dos dois primeiros séculos, a ressurreição foi interpretada de duas maneiras: uma material, absurda; a outra espiritual, teosófica. A primeira é uma ideia popular, adoptada pela Igreja, depois da repressão do gnosticismo. A segunda é a ideia profunda, a ideia dos iniciados. No primeiro caso, o corpo material volta à vida, o que é, numa palavra, a reconstituição do cadáver decomposto ou disperso. Isso era o que se supunha que iria acontecer com a volta do messias no dia do juízo final. É inútil acentuar o materialismo grosseiro e absurdo de tal concepção.

Para o iniciado, a ressurreição tinha um significado diferente: ela relacionava-se com a doutrina da constituição  ternária do homem, significando a purificação e a regeneração do corpo sideral, etéreo e fluídico, que é o próprio organismo da alma e de algum modo a cápsula do espírito. Essa purificação pode ocorrer desde esta vida, pelo trabalho interior da alma e um certo modo de existência. Para a maioria dos homens, ela só se efectua depois da morte.

(...) Visto do exterior e do ponto de vista terrestre, o drama messiânico termina na cruz. Embora sublime, falta-lhe o cumprimento da promessa. Visto de dentro, do fundo da consciência de Jesus, do ponto de vista celeste, ele tem três actos. A Tentação, a Transformação e a Ressurreição marcam os pontos altos. Em outros termos, essas três fases marcam: a iniciação do Cristão, a revelação total e o coroamento da obra. Correspondem àquilo que os apóstolos e os cristãos iniciados dos primeiros séculos chamaram os mistérios do Filho, do Pai e do Espírito Santo».

Eduardo Schuré («Os Grandes Iniciados»).


«Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida»; «Ninguém vai ao Pai senão por mim»; «Aquele que não colhe comigo, desbarata»; «Sem mim, não podeis fazer nada».



Idealidade Judaica, Cabala e Maçonaria


A idealidade judaica manifesta-se de três formas diferentes, todas elas eivadas do materialismo central da raça, ritmo do pêndulo da vida que a anima. A primeira forma é o seu patriotismo tradicionalista; e patriotismo tradicionalista, seja de que nação for, é o modo mais material do sentimento da prática ou da raça. A segunda forma é a especulação cabalística, em que, embora se pretenda subtilizar, por interpretações de três ordens, o conteúdo do Pentateuco, e de mais que o Pentateuco, nunca se atinge uma vera abstracção ou uma espiritualidade verdadeira: material, considerando o que pretende ser, é ainda o Nome Inefável, materiais os Sephiroth, os Arcanjos, os Anjos e as Esferas Celestes, através de quem vem até nós a Sua emanação. A terceira forma – não mais recente, mas mais recentemente sensível – é o idealismo social em todos os seus modos, desde o igualitarismo até ao naturismo; e essa é material por sua mesma natureza.






São estas as três formas da idealidade judaica, e, embora todas manifestem o materialismo central da raça, não são materiais em seus intuitos; não há por isso que duvidar da sinceridade daqueles judeus em quem os vemos. Do tradicionalismo rácico, é certo, ninguém duvida ou duvidou; aliás, os anti-semitas não têm nem tiveram senão vantagem em aceitá-lo. As outras duas formas têm sido diversamente consideradas pelos inimigos dos judeus: a primeira como sincera na origem mas não em certos modos do seu uso, a segunda como insincera; e como ambas elas servindo – uma por utilização, outra por invenção – para desintegrar e dissolver a civilização cristã, em a qual os judeus adversariamente vivem.

Acusam os cabalistas, de cuja sinceridade original se não duvida, de, primeiro através da Rósea Cruz, terem criado a Maçonaria, Ordem supostamente anticristã, e de, mais tarde, por diversas vias, se terem infiltrado nela, para, presumivelmente, contrariar e vencer as expansões cristã e templária que se manifestaram, depois da Oração de Ramsay, na criação dos Altos Graus e sobretudo da Stricta Observância de von Hund ou dos seus Superiores Incógnitos. Acusam os idealistas sociais de, por meio de doutrinas igualitárias, para tal fim inventadas, pretenderem mergulhar, e de facto estarem mergulhando, a sociedade aristocrática que é a de Europa na decadência e na anarquia, para, evidentemente, sobre os escombros construírem o Reino e o Reinado de Israel. E acusam a Maçonaria de ter provocado a Revolução Francesa e os judeus de terem provocado a Revolução Russa.

Antes de mais, entendamo-nos bem sobre qual é a matéria de que se está tratando. Trata-se do idealismo judaico e da sua sinceridade ou não sinceridade; não se trata da acção política dos judeus. Essa é evidente e natural; tem-se aproveitado, não só da Maçonaria e da Ideologia igualitária, mas de tudo quanto, de origem judaica ou não judaica, possa de facto, devidamente utilizado, servir para dissolver a civilização tradicional, Greco-Romana e Cristã, da Europa e do mundo europeizado. E legitimamente se tem aproveitado, pois aos judeus assistem os mesmos direitos que aos outros povos: o direito de defesa e o direito de império – o primeiro em absoluto, o segundo se o concedemos aos outros. Nem foram os judeus, ou a Maçonaria, ou qualquer outra força estranha, que provocou ou poderia provocar, a Revolução francesa, ou a Revolução russa, ou qualquer outra verdadeira Revolução. As revoluções são provocadas pelo Poder tirânico que as torna, passado certo ponto, inevitáveis. Foi a tirania do Czarismo que fez a Revolução russa. As forças estranhas não fizeram mais que aproveitar-se, conforme puderam, da matéria social incoordenada em que as tiranias, depois das revoluções que provocaram, deixaram os povos que regiam.

Origens da Maçonaria




O problema das origens da Maçonaria, e sobretudo do Grau de Mestre, que é o seu futuro, é confuso e obscuro, ao último ponto: ninguém fora ou dentro da Ordem, se pode orgulhar de ter achado para ele uma solução, simples ou composta, que satisfaça senão a quem a deu. Uma coisa, porém, se pode afirmar: a Maçonaria não é uma Ordem judaica, e o conteúdo dos graus fundamentais, que vulgarmente chamam simbólicos, não é judaico em espírito, mas só em figura. Se se quiser dar um nome de origem à Maçonaria, o mais que poderá dizer-se é que ela é, quanto à composição dos graus simbólicos, plausivelmente um produto do protestantismo liberal, e, quanto à redacção deles, certamente um produto do século dezoito inglês, em toda a sua chateza e banalidade. O quadro judaico dos três graus e o cenário judaico do drama do Terceiro podem ser considerados naturais em uma terra e um tempo protestantes. O protestantismo foi, precisamente, a emergência, adentro da religião cristã, dos elementos judaicos, em desproveito dos greco-romanos; por isso se serviu ele sempre abundantemente de citações, tipos e figuras extraídos do Velho Testamento. Ninguém crê, porém, ou diz que a Reforma, pense-se dela o que se pensar, fosse um movimento judaico.

Ordem do Templo e Rosa-Cruzes

À parte disto, os dois primeiros graus maçónicos, menos simbólicos que emblemáticos, não conduzem definitivamente a coisa nenhuma; e o grande mistério do grau de Mestre – que é, por assim dizer, a Rosa de toda a Cruz Maçónica – é um símbolo vital mais abstracto, que cada qual pode interpretar no sentido que entender. E assim de facto se tem interpretado – a ele e à parte simbólica dos outros dois – através do vasto esquema divagativo dos Altos Graus e dos Graus Velados – estes, aliás, já fora e além da Maçonaria. Tudo, desde o catolicismo ao ateísmo, se tem reflectido nesses graus interpretativos. Se há Altos Graus que são nítida e materialmente cabalísticos, e até anticristãos, também os há que são espirituais ou cristãos, desde o sobregrau do Sacro Real Arco até àquele grau crípto em que Hyram é erguido como Cristo. Sucede, até, que o mesmo grau do mesmo rito pode ter conteúdos diferentes sob diferentes Obediências: assim é que o Grau 18, propriamente Príncipe Rosa-Cruz, do Rito Escocês, é «filosófico», na América (depois da reunião de Pike), menos talvez que «filosófico» na Maçonaria francesa e suas congéneres, mas plenamente cristão (como aliás não poderia deixar de ser) sob as Magnas Obediências britânicas. Em resumo, nada e tudo se tem reflectido na Maçonaria: nada nos graus simbólicos, que de per si se não explicam; tudo nos Altos Graus e nos Graus Velados, onde cada fabricante de ritos, de católico a ateu, deixou o rastro dos seus preconceitos e das suas preocupações. Mais em resumo ainda: a Maçonaria é, nas suas bases, insuficientemente dogmática e definida para que o seu conteúdo se possa afirmar isto ou aquilo, judaísmo ou outra coisa qualquer.

A presença de elementos cabalísticos nos graus simbólicos, afirmada por alguns com vislumbres de razão, também não provou a origem judaica da Maçonaria. Quando a Maçonaria emergiu e se constituiu declaradamente, em seus graus fundamentais, já de há muito a Cabala tinha intérpretes não-judeus e por esses fora cristianizada, para o que, aliás, eminentemente se prestava. A presença de elementos cabalísticos na Maçonaria não prova, pois, uma origem judaica. De resto, esses elementos cabalísticos resumem-se em dois – o sentido simbólico do Templo de Salomão e a Palavra Perdida. O sentido simbólico do Primeiro Templo pode ser, na Maçonaria, de origem templária, e portanto cristã, pois a Ordem do Templo era-o «do Templo de Salomão», e não se sabem ao certo os pormenores da iniciação secreta nessa Ordem. Quanto à Palavra Perdida do Grau de Mestre, se de facto relembra o Nome Perdido do cabalismo judaico, não é necessariamente da mesma natureza. Sabe-se em que consiste a essência do Nome Perdido dos cabalistas; não se sabe que espécie de Palavra é que o Mestre morreu para não revelar. A maior autoridade maçónica de hoje interpreta a Palavra Perdida de um modo nitidamente não judaico: Verbum Christus est, diz.


















O que acaba de dizer-se da Maçonaria, com mais forte razão se pode dizer dos Rosicrúzios, que, misturados com ela na antecâmara da sua vida emblemática, bem pode ser que a houvessem fundado, ou contribuído para a sua fundação, como sistema especulativo. A grande Fraternidade é cristã e católica (embora não-romana) nas suas dedicações. Os Rosicrúcios eram é certo, cabalistas, como eram em dois sentidos, alquimistas; mas eram cabalistas cristãos, como eram (sobretudo) alquimistas espirituais. Como vários outros, aproveitaram-se da Cabala e lhe deram um sentido e um complemento cristãos; por isso com mais razão se poderiam queixar os judeus de que os Irmãos se haviam servido da Cabala para fins antijudaicos, do que os cristãos de que eles tinham introduzido a Cabala na substância do cristianismo, onde, aliás, desde o Quarto Evangelho, já toda a alma dela existia. Acresce, quanto à Rósea Cruz, que os grandes expositores dela, desde antes do seu aparecimento até nossos dias, têm sido declaradamente místicos cristãos, e, ainda que, o voto de castidade absoluta, a que (por motivos que nada têm com virtude) a Fraternidade obrigou o candidato, é a coisa menos, judaica, embora «cabalista» que se pode conceber.

Budistas, Gnósticos e Rosa-Cruzes

Os dois ramos (aparentemente) mais notáveis da propaganda oculta, o Budismo Esotérico e os Rosa-Cruz, destinaram-se a preparar o mundo, cada um em sua esfera de acção, para a formação da Nova Jerusalém, ou verdadeira Igreja Católica. E, como operavam em regiões diferentes, e para crentes de religiões diversas, dispunham a sua propaganda do oculto de acordo com as redisposições e crenças desses. Assim sendo, sua doutrina essencial, como de todos os ramos do ocultismo, o Segundo Advento de Cristo e a fundação, com ele, da vera Igreja Católica, preparavam o estado de alma, só hoje definindo-se, para esse Advento e essa Fundação, de maneiras diferentes.

A Natureza de Jesus Cristo é dupla – para os ocultistas como para os teólogos cristãos. É a um tempo divina e humana. Para os teólogos e para os crentes cristãos, ambos exteriores à compreensão deste assunto, a dupla natureza entende-se de maneira diversa que para os ocultistas. Para estes, Jesus Cristo é ao mesmo tempo um Adepto, como o Buda, ou outro Iniciado qualquer, e o Filho de Deus, ou Logos, e, como tal, acima de qualquer nível de adeptismo. Como o primeiro é Jesus, ou Ieschu, e viveu na terra cem anos antes da época que no mundo cristão se supõe, sendo justa a interpretação dos hierólogos radicais – ressalvado o materialismo dela – de que os mitos cristãos se reuniram em torno da figura do Ieschu ben Pandira que foi enforcado e lapidado em Lyda, na véspera da Páscoa, no reinado de Alexandre Janneo. Como o segundo é Cristo, e não pertence a este mundo senão como Deus, que o criou, e é substância dele, lhe pertence. Os Gnósticos, que eram ocultistas, ou pelo menos místicos superiores, assim viram, mas separaram as duas naturezas, adorando só a divina, que lhe era necessariamente superior, e não a humana, que, quando muito, só em grau, que não em género, o poderia ser. Mas os Gnósticos foram condenados por herejes, e como herejes repulsos, e extintos, pelo menos aparentemente. Não foi porém a Igreja que os extinguiu assim, senão o Destino que fez a Igreja poder assim extingui-los. A ideia que apresentavam vinha fora do seu tempo, nem poderia servir aos fins dos Condutores do mundo, embora estes soubessem bem que era mais verdadeira que a que iria ser espalhada e desenvolvida entre as nações pela Igreja Católica.


Os Budistas, para trabalharem para a convergência dos homens para o Segundo Advento, apresentaram sempre Jesus aos seus sequazes como um Adepto, pois, se o apresentassem como Deus, ou como Deus e Adepto ao mesmo tempo, nem seriam compreendidos nem aceites pelas populações budistas. Precisavam manter nelas o respeito preparador de Jesus; fizeram-no pondo-o como respeitável no nível que seria compreendido. Só a Teosofia é que, finalmente, declarou o Segundo Advento, e, ainda assim, como deveras lhe compete, não insiste muito na outra face da Figura, na face transcendente e divina.

Os Rosa-Cruz, por outra parte, tendo de ministrar, embora veladamente, o mesmo ensinamento a outras populações, apresentaram-no de diverso modo. Não se referiram, senão de modo tão velado que só o compreendesse quem pudesse compreendê-lo, a Jesus, ao Adepto; apenas aludiram ao Cristo, ao Filho de Deus. Assim nada, no que diziam, feria a fé católica ou cristã dos seus leitores.

Do mesmo modo não aludiram os Rosa-Cruz, em seus escritos, claramente à doutrina da reincarnação, elemento físico do ocultismo todo. Tal doutrina, embora contida em verdade no verdadeiro cristianismo, não está nele dada esotericamente. Ensiná-la seria ferir as populações cristãs, erguer o ódio das Igrejas cristãs, prejudicar a preparação que os seus livros serviam de efeituar» (in António Quadros, Fernando Pessoa – Iniciação Global à Obra, Arcádia, 1982, pp. 182-189).