sexta-feira, 8 de julho de 2011

"Associações secretas" (ii)

Escrito por Fernando Pessoa




Retrato de Fernando Pessoa, de Mestre Almada (1954).


Assim a Maçonaria necessariamente toma aspectos diferentes - políticos, sociais e até rituais - de país para país, e até, dentro do mesmo país, de Obediência para Obediência, se houver mais que uma. Dou um exemplo. Há em França três Obediências independentes - o Grande Oriente de França, a Grande Loja de França (prolongada capitularmente pelo Supremo Conselho do Grau 33) e a Loja Regular, Nacional e Independente para França e suas Colónias. O Grande Oriente limita-se a ser liberal e anticlerical; a Grande Loja Nacional não tem política nenhuma. Dou outro exemplo. O Grande Oriente de França tem uma grande influência política, mas, excepto através dessa, pouca influência social. A Grande Loja de Inglaterra não se preocupa com política, mas a sua influência social é enorme.

Conquanto, porém, a Maçonaria esteja assim materialmente dividida, pode considerar-se como unida espiritualmente. O espírito dos rituais, e sobretudo o dos Graus Simbólicos (nos quais, e sobretudo no Grau de Mestre, está já, para quem saiba ver ou sentir, a Maçonaria inteira), é o mesmo em toda a parte, por muitas que sejam as divergências verbais e rituais entre graus idênticos, trabalhados por Obediências diferentes. Em palavras mais perspícuas, mas necessariamente menos claras: quem tiver as chaves herméticas, em qualquer forma de um ritual encontrará, sob mais ou menos véus, as mesmas fechaduras.

Resulta desta comunidade de espírito profundo, deste íntimo e secreto laço fraternal, que ninguém quebrou nem pode quebrar, uma Obediência, ainda que tenha poucas ou nenhumas relações com outra, não vê todavia com indiferença o ser esta atacada por profanos. Os maçons da Grande Loja de Inglaterra não têm, como disse, relações com os do Grande Oriente de França. Quando, porém, recentemente, surgiu em França, a propósito dos casos Stavisky e Prince, uma campanha antimaçónica, de origem aliás ultra-suspeita, a vaga simpática, que potencialmente se estava formando em Inglaterra pelos conservadores que atacavam o Governo Francês, desapareceu imediatamente. O Times, conservador mas acentuadamente maçónico, relatou as manifestações contra o Governo Francês com uma antipatia que roçou pela deturpação de factos. E há muitos casos semelhantes, como o de certo escritor maçónico inglês, que em seus livros constantemente ataca o Grande Oriente de França, mudar completamente de atitude ao responder a uma escritora inglesa antimaçónica, que afinal, dissera pouco mais ou menos o mesmo que ele havia sempre dito.

Nisto tudo, que serviu de exemplos, trata-se de coisas de pouca monta, simples campanhas de jornal, e por certo de atitudes espontâneas e individuais da parte de maçons que as tomaram. Quando porém se trate de factos maçonicamente graves, como seja a tentativa, por um governo, se suprimir ou perseguir uma Obediência maçónica, já a acção dos maçons não é tão individual e isolada, nem se resume a uma maior ou menor antipatia jornalística. Provam-no diversas complicações, de origem aparentemente desconhecida, que encontrou em países estrangeiros o governo de Primo de Rivera, e que encontraram, e ainda encontram, os governos da Itália e da Alemanha. Esses, porém, são países grandes e fortes, com recursos, de várias ordem, que em certo modo podem contrabalançar aquelas posições. Vem mais a propósito citar o caso de um país que não é grande nem influente na política europeia em geral. Refiro-me à Hungria e ao que passou com o célebre empréstimo americano.




Aqui há anos, pouco depois da Guerra, o Governo Húngaro decretou a supressão da Maçonaria no seu território. Pouco depois negociava um empréstimo nos Estados Unidos. Estava o empréstimo praticamente feito quando veio da América a indicação final de que ele não seria concedido se não se restabelecessem «certas instituições legítimas». O Governo Húngaro percebeu e viu-se obrigado a entrar em transacções como o Grão-Mestre; disse-lhe que autorizava a reabertura das Lojas, com a condição (que parece do sr. José Cabra!) de que nelas pudessem assistir profanos. É escusado dizer que o Grão-Mestre recusou. O Governo manteve, portanto, a «supressão das Lojas...» e o empréstimo não se fez. Ora isto sucedeu com a Maçonaria Americana, que não faz propriamente política nem mantém relações muito intensas com as Obediências europeias, à excepção das britânicas. Tratava-se, porém, de uma grave injúria à Maçonaria, e o resultado foi o que se vê.

Não venha o sr. José Cabral dizer-me que não precisamos de empréstimos do estrangeiro. Nem só de empréstimos vive o país. Precisa, por exemplo, de colónias, sobretudo das que ainda tem. E precisa de muitas outras coisas, incluindo o não incorrer na hostilidade activa dos cinco e tal milhões de maçons que, por apolíticos, ainda não nos têm hostilizado.

Creio que disse o suficiente para que o sr. José Cabral e os outros senhores deputados compreendam perfeitamente qual pode e deve ser o alcance da aprovação deste projecto na vida e no crédito de Portugal. Antes de acabar, porém, quero dar-lhes uma pequena amostra da espécie de gente em cuja antipatia activa incorreríamos.

Tomarei por exemplo a Grande Loja Unida de Inglaterra, não só pela importância que para nós têm as nossas relações com aquele país, mas também porque qualquer acção dessa Grande Loja - a Loja-Mãe do Universo, com cerca de 450 000 maçons em actividade - arrasta consigo todos os maçons de fala inglesa e todas as Obediências dos países protestantes. Do resto da Maçonaria não é preciso falar.

São maçons, sob a Obediência da Grande Loja de Inglaterra, três filhos do Rei - o Príncipe de Gales, Grão-Mestre Provincial de Surrey, o Duque de York, Grão-Mestre Provincial de Middlesex, e o Duque de Kent, antigo Primeiro Grande Vigilante. É maçon o genro do Rei, Conde de Harewood, Grão-Mestre Provincial de West Yorkshire. São maçons, em sua maioria, os fidalgos ingleses, sobretudo os de antiga linhagem. São maçons, em grande número, os prelados e sacerdotes da Igreja de Inglaterra, o clero mais profundamente culto de todo o mundo, a Igreja protestante que mais perto está, em dogma e ritual, da Igreja de Roma. Não prossigo, porque já basta... Lembro, todavia, que os três grandes jornais conservadores ingleses - o Times, o Sunday Times e o Daily Telegraph - são ao mesmo tempo maçónicos...

Acabei. Convém, porém, não acabar ainda. Provei neste artigo que o projecto de lei do sr. José Cabral, além do produto da mais completa ignorância do assunto, seria, se fosse aprovado: primeiro, inútil e improfícuo; segundo, injusto e cruel; terceiro, um malefício para o País na sua vida internacional. Não considerei, porque não tinha que considerar, se a Maçonaria merece o mau conceito em que evidentemente a tem o sr. José Cabral e outros que nada sabem da matéria. Esse ponto estava fora da linha do meu argumento. Como, porém, a maioria da gente não sabe raciocinar, pode alguém supor que me esquivei a esse ponto. Vou por isso tratar dele embora protestando contra mim mesmo. Quem sofre com isso é o leitor.


A Maçonaria compõe-se de três elementos: o elemento iniciático, pelo qual é secreta; o elemento fraternal; e o elemento a que chamarei humano - isto é, o que resulta de ela ser composta por diversas espécies de homens, de diferentes graus de inteligência e cultura, e o que resulta de ela existir em muitos países, sujeita portanto a diversas circunstâncias de meio e de momento histórico, perante as quais, de país para país e de época para época, reage, quanto à atitude social, diferentemente.

Nos primeiros dois elementos, onde reside essencialmente o espírito maçónico, a Ordem é a mesma sempre e em todo o mundo. No terceiro, a Maçonaria - como aliás qualquer instituição humana, secreta ou não - apresenta diferentes aspectos, conforme a mentalidade de maçons individuais, e conforme circunstâncias de meio e momento histórico, de que ela não tem culpa.

Neste terceiro ponto de vista, toda a Maçonaria gira, porém, em torno de uma só ideia - a tolerância; isto é, o não impor a alguém dogma nenhum, deixando-o pensar como entender. Por isso a Maçonaria não tem uma doutrina. Tudo quanto se chama «doutrina maçónica» são opiniões individuais de maçons, quer sobre a Ordem em si mesma, quer sobre as suas relações com o mundo profano. São diversíssimas: vão desde o panteísmo naturalista de Oswald Wirth até ao misticismo cristão de Arthur Edward Waite, ambos eles tentando converter em doutrina o espírito da Ordem. As suas afirmações, porém, são simplesmente suas; a Maçonaria nada tem com elas. Ora o primeiro erro dos antimaçons consiste em tentar definir o espírito maçónico em geral pelas afirmações de maçons particulares, escolhidos ordinariamente com grande má fé.

O segundo erro dos antimaçons consiste em não querer ver que a Maçonaria, unida espiritualmente, está materialmente dividida, como já expliquei. A sua acção social varia de país para país, de momento histórico para momento histórico, em função das circunstâncias do meio e da época, que afectam a Maçonaria como afectam toda a gente. A sua acção social varia, dentro do mesmo país, de Obediência para Obediência, onde houver mais que uma, em virtude de divergências doutrinárias - as que provocaram a formação dessas Obediências distintas, pois, a haver entre elas acordo em tudo, estariam unidas. Segue de aqui que nenhum acto político ocasional de nenhuma Obediência pode ser levado à conta da Maçonaria em geral ou até dessa Obediência particular, pois pode provir, como em geral provém, de circunstâncias políticas do momento, que a Maçonaria não criou.

Resulta de tudo isto que todas as campanhas antimaçónicas - baseadas nesta dupla confusão do particular com o geral e do ocasional com o permanente - estão absolutamente erradas, e que nada até hoje se provou em desabono da Maçonaria. Por esse critério - o de avaliar uma instituição pelos seus actos ocasionais - que haveria neste mundo senão abominação? Quer o sr. José Cabral que se avaliem os papas por Rodrigo Bórgia, assassino incestuoso? Quer que se considere a Igreja de Roma perfeitamente definida, em seu íntimo espírito pelas torturas dos Inquisidores (provenientes de um uso profano do tempo), ou pelos massacres dos albigenses e dos piemonteses? E contudo com muito mais razão se o poderia fazer, pois essas crueldades foram feitas com ordem ou com consentimento dos papas, obrigando assim, espiritualmente, a Igreja inteira.

 Castelo de Montségur (França).

Sejamos, ao menos, justos. Se debitamos à Maçonaria em geral todos aqueles casos particulares, ponhamos-lhe a crédito, em contrapartida, os benefícios que dela temos recebido em iguais condições. Beijem-lhe os jesuítas as mãos, por lhes ter sido dado acolhimento e liberdade na Prússia, no século XVII - quando, expulsos de toda a parte, os repudiava o próprio papa - pelo maçon Frederico II. Agradeçamos-lhe a vitória de Waterloo, pois que Wellington e Blücher eram ambos maçons. Sejamos-lhe gratos por ter sido ela quem criou a base onde veio a assentar a futura vitória dos Aliados - a Entente Cordiale, obra do maçon Eduardo VII. Nem esqueçamos, finalmente, que devemos à Maçonaria a maior obra da literatura moderna - o Fausto, do maçon Goethe. Acabei de vez. Deixe o sr. José Cabral a Maçonaria aos maçons e aos que, embora o não sejam, viram, ainda que noutro Templo, a mesma luz. Deixe a antimaçonaria àqueles antimaçons que são os legítimos descendentes intelectuais do célebre pregador que descobriu que Herodes e Pilatos eram Vigilantes de uma Loja de Jerusalém.

Deixe isso tudo, e no próximo dia 13, se quiser, vamos juntos a Fátima. E calha bem porque será 13 de Fevereiro - o aniversário daquela lei de João Franco que estabelecia a pena de morte para os crimes políticos.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

"Associações secretas" (i)

Escrito por Fernando Pessoa




Aleister Crowley. Ver aqui


Boca do Inferno (Cascais).

 











«O inspirador sempre presente e exaltado dos nossos ocultistas é Fernando Pessoa. O ocultismo de Fernando Pessoa é de carácter erudito ou, como ele próprio dizia da erudição, parasitário, mas revela-se com originalidade na poetização de uma imagética para a história de Portugal».

Orlando Vitorino («O processo das Presidenciais 86»).


«Há (...) uma tradição a que eu próprio dei guarida na minha "Introdução à Maçonaria", que liga o poeta [Fernando Pessoa] ao rito inglês, e o certo é que o maçon Álvaro Ribeiro teria dito a António Telmo, autor da "História Secreta de Portugal" que o também maçon Ferreira Gomes era "Companheiro de Pessoa na Loja do Arco Real"».

António Arnaut (in «Fernando Pessoa e a Maçonaria», Grémio Lusitano, 2005).



DIÁRIO DE LISBOA, 4 DE FEVEREIRO DE 1935


Estreou-se a Assembleia Nacional, do ponto de vista legislativo, com a apresentação, por um deputado, do projecto de lei sobre «associações secretas». De tal ordem é o projecto, tanto em sua natureza como em seu conteúdo, que não há que felicitar o actual Parlamento por lhe ter sido dada essa estreia. Antes há que dizer-lhe Absit omen!, em português, Longe vá o agoiro!

Apresentou o projecto o sr. José Cabral, que, se não é dominicano, deveria sê-lo, de tal modo o seu trabalho se integra, em natureza, como em conteúdo, nas melhores tradições dos Inquisidores. O projecto, que todos terão lido nos jornais, estabelece várias e fortes sanções (com excepção da pena de morte) para todos quantos pertençam ao que o seu autor chama «associações secretas, sejam quais forem os seus fins e organização».

Dada a latitude desta definição, e considerando que por «associação» se entende um agrupamento mais ou menos permanente de homens, ligados por um fim comum, e que por «secreto» se entende o que, pelo menos parcialmente, se não faz à vista do público, ou, feito, se não torna inteiramente público, posso, desde já, denunciar ao sr. José Cabral uma associação secreta - o Conselho de Ministros. De resto, tudo quanto de sério ou de importante se faz em reunião neste mundo, faz-se secretamente. Se não reúnem em público os conselhos de ministros, também o não fazem as direcções dos partidos políticos, as tenebrosas figuras que orientam os clubes desportivos, ou os sinistros comunistas que formam os conselhos de administração das companhias comerciais e industriais.

Embora uma interpretação desta ordem legitimamente se extraia do frasear pouco nacionalista do sr. José Cabral, creio, tanto porque assim deve ser, como pelos encómios com que o projecto foi afagado pela imprensa pseudocristã, que as «associações secretas», que ele verdadeiramente visa, são aquelas que envolvem o que se chama «iniciação», e portanto o segredo especial a esta inerente.

Castelo de Tomar

Ora no nosso país, caída há muito em dormência a Ordem Templária de Portugal, desaparecida a Carbonária - formada para fins transitórios, que se realizaram -, não existem, suponho, mais do que duas «associações secretas» dessa espécie. Uma é a Maçonaria, a outra essa curiosa organização que, em um dos seus ramos, usa o nome profano de Companhia de Jesus, exactamente como, na Maçonaria, a Ordem de Heredom e Kilwinning usa o nome profano de Real da Escócia.

Dos chamados jesuítas não tratarei, e por três motivos, dos quais calarei o primeiro. Os outros dois são: que não creio, por mais razões do que uma, que eles corram risco de, aprovado que fosse o projecto, lhe serem aplicadas as suas sanções; e que não creio, por uma razão só, que o sr. José Cabral tenha pretendido que tal aplicação se fizesse. Presumo pois que o projecto de lei do urgente deputado se dirija, total ou principalmente, contra a Ordem Maçónica. Como tal o examinarei.

Não faço, creio, ofensa ao sr. José Cabral em supor que, como a maioria dos antimaçons, o autor deste projecto é totalmente desconhecedor do assunto da Maçonaria. O que sabe dele é, porventura, pior que nada, pois, naturalmente, terá nutrido o seu antimaçonismo da leitura de imprensa chamada católica, onde, até nas coisas mais elementares na matéria, erros se acumulam sobre erros, e aos erros se junta, com a sua má vontade, a mentira e a calúnia, senhoras suas filhas. Não creio, que o sr. José Cabral conviva habitualmente com os livros de Findel, Kloss ou Gould, ou que passe as suas horas de ócio na leitura atenta da Ars Quatuor Coronatorum ou das publicações da Grande Loja de Iowa. Duvido, até, que o sr. José Cabral tenha grande conhecimento da literatura antimaçónica - Barruel ou Robinson ou Eckert - tão admirável, aliás, do ponto de vista humorístico. Nem terá tido porventura noção, sequer de ouvido, do artigo célebre do Padre Hermann Grüber na Catholic Encyclopaedia, artigo citado com elogio em livros maçónicos, e em que o doutor jesuíta por pouco não defende a Maçonaria.

Ora se o sr. José Cabral está nesse estado de trevas com respeito à natureza, fins e organização da Ordem Maçónica, suponho que em igual condição estejam muitos dos outros membros da Assembleia Nacional, com a diferença de que se não propuseram legislar sobre matéria que ignoraram. Sendo assim, nem o deputado apresentante, nem os seus colegas de assembleia, estarão talvez em estado de medir claramente as consequências nacionais, internas e sobretudo externas, que adviriam da aprovação do projecto. Como conheço o assunto suficientemente para saber de antemão, e com certeza, quais seriam essas consequências, vou fazer patrioticamente presente da minha ciência ao sr. José Cabral e à Assembleia Legislativa de que é ornamento.

José Cabral é o primeiro da esquerda nesta foto de 24 de Outubro de 1936. Oliveira Salazar está ao centro.

Começo por uma referência pessoal, que cuido, por necessária, não dever evitar. Não sou maçon, nem pertenço a qualquer outra Ordem semelhante ou diferente. Não sou, porém, antimaçon, pois o que sei do assunto me leva a ter uma ideia absolutamente favorável da Ordem Maçónica. A estas duas circunstâncias, que em certo modo me habilitam a poder ser imparcial na matéria, acresce a de que, por virtude de certos estudos meus, cuja natureza confina com a parte oculta da Maçonaria - parte que nada tem de político ou social -, fui necessariamente levado a estudar também esse assunto - assunto muito belo, mas muito difícil, sobretudo para quem o estuda de fora. Tendo eu, porém, certa preparação, cuja natureza me não proponho indicar, pude ir, embora lentamente, compreendendo o que lia e sabendo meditar o que compreendia. Posso hoje dizer, sem que use de excesso de vaidade, que pouca gente haverá, fora da Maçonaria, aqui ou em qualquer outra parte, que tanto tenha conseguido entranhar-se na alma daquela vida, e portanto, e derivadamente, nos seus aspectos por assim dizer externos.

Se falo de mim, e deste modo, é para que o sr. José Cabral e os colegas legisladores saibam perfeitamente quem lhes está falando, o que vão ler, se quiserem, é escrito por quem sabe o que está escrevendo. Não que o que vou dizer exija profundos conhecimentos maçónicos: é a matéria puramente de superfície, da vida externa da Ordem. Exige, porém, conhecimentos, e não ignorâncias, fantasias ou mentiras.

Começo a valer. Creio não errar ao presumir que o sr. José Cabral supõe que a Maçonaria é uma associação secreta. Não é. A Maçonaria é uma Ordem secreta, ou, com plena propriedade, uma Ordem iniciática. O sr. José Cabral não sabe, provavelmente, em que consiste a diferença. Pois o mal é esse - não sabe. Nesse ponto, se não sabe, terá de continuar a não saber. De mim, pelo menos, não receberá a luz. Forneço-lhe, em todo o caso, uma espécie de meia-luz, qualquer coisa como a «treva visível» de certo grande ritual. Vou insinuar-lhe o que é essa diferença por o que em linguagem maçónica se chama «termos de substituição».

A Ordem Maçónica é secreta por uma razão indirecta e derivada - a mesma razão por que eram secretos os Mistérios antigos, incluindo os dos primitivos cristãos, que se reuniam em segredo, para louvar a Deus, em o que hoje se chamariam Lojas ou Capítulos, e que, para se distinguir dos profanos, tinham fórmulas de reconhecimento - toques, ou palavras de passe, ou o quer que fosse. Por esse motivo os romanos lhes chamavam ateus, inimigos da sociedade e inimigos do Império - precisamente os mesmos termos com que hoje os maçons são brindados pelos sequazes da Igreja Romana, filha, talvez ilegítima, daquela maçonaria remota.

Feito assim o meu pequeno presente de meia-luz, entro directamente no que verdadeiramente interessa - as consequências que adviriam, para o País, da aprovação do projecto de lei do sr. José Cabral. Tratarei primeiro das consequências internas.

A primeira consequência seria esta - coisa nenhuma. Se o sr. José Cabral cuida que ele, ou a Assembleia Nacional, ou o Governo, ou quem quer que seja, pode extinguir o Grande Oriente Lusitano, fique desde já desenganado. As Ordens iniciáticas estão defendidas, ab origine symboli, por condições e forças muito especiais que as tornam indestrutíveis de fora. Não me proponho explicar o que sejam essas forças e condições: basta que indique a sua existência.


De resto, têm os senhores deputados a prova prática em o que tem sucedido noutros países, onde se tem pretendido suprimir as Obediências maçónicas. Pondo de parte a Rússia - onde nem eu nem os senhores deputados sabemos o que verdadeiramente se passa, e onde, aliás, quase não havia maçonaria -, poderemos considerar os casos da Itália, da Espanha e da Alemanha.

Mussolini procedeu contra a Maçonaria, isto é, contra o Grande Oriente da Itália mais ou menos nos termos pagãos do projecto do sr. José Cabral. Não sei se perseguiu muita gente, nem me importa saber. O que sei, de ciência certa, é que o Grande Oriente de Itália é um daqueles mortos que continuam de perfeita saúde. Mantém-se, concentra-se, tem-se depurado, e lá está à espera; se tem em que esperar é outro assunto. O camartelo do Duce pode destruir o edifício do comunismo italiano; não tem força para abater colunas simbólicas, vazadas num metal que procede da Alquimia.

Primo da Rivera procedeu mais brandamente, conforme a sua índole fidalga, contra a Maçonaria Espanhola. Também sei ao certo qual foi o resultado - o grande desenvolvimento, numérico como político, da Maçonaria em Espanha. Não sei se alguns fenómenos secundários, como, por exemplo, a queda da Monarquia, teria qualquer relação com esse facto.

Hitler, depois de se ter apoiado nas três Grandes Lojas Cristãs da Prússia, procedeu segundo o seu admirável costume ariano de morder a mão que lhe dera de comer. Deixou em paz as outras Grandes Lojas - as que o não tinham apoiado nem eram cristãs - e, por intermédio de um tal Goering, intimou aquelas três a dissolverem-se. Elas disseram que sim - aos Goerings diz-se sempre que sim - e continuaram a existir. Por coincidência, foi depois de se tomar essa medida que começaram a surgir cisões e outras dificuldades adentro do partido nazi. A história, como o sr. José Cabral deve saber, tem muito destas coincidências.

Como tenho estado a apresentar razões e factos até certo ponto desanimadores para o sr. José Cabral, vou desde já animá-lo com a indicação de um resultado certo, positivo, que adviria da aprovação do seu projecto. Resultaria dele - alegre-se, o dominicano! - um grande número de perseguições a oficiais do exército e da armada (excepto em Cascais) e a funcionários públicos. Perderiam os seus lugares os que não quisessem ter a indignidade de repudiar a sua Ordem. Resultaria, portanto, a miséria para as suas famílias, onde é possível - isto é que é grave - que se encontrassem pessoas devotas de Santa Teresinha do Menino Jesus, personagem que ocupa, na actual mitologia portuguesa, um lugar um pouco acima de Deus. Resolver-se-ia, é certo, no estilo inesperado do roulement que não rola, o problema do desemprego - para aqueles actuais desempregados, bem entendido, que têm por Grão-Mestre Adjunto o sr. Conselheiro João de Azevedo Coutinho.

Seriam essas as consequências internas da aprovação do projecto: dois zeros - um para o efeito antimaçónico da lei, outro para a barriga de muita gente. Seriam essas as consequências internas. Vou tratar agora das consequências externas, isto é, das consequências que adviriam da aprovação do projecto para a vida e o crédito de Portugal no estrangeiro. Esse aspecto da questão, esse resultado, não só possível mas quase certo, creio bem que não ocorreu ao sr. José Cabral. Presto homenagem - e a sério - ao seu patriotismo, embora lamente que seja um patriotismo tão analfabeto.


Existem hoje em actividade, em todo o mundo, cerca de seis milhões de maçons, dos quais cerca de quatro milhões nos Estados Unidos e cerca de um milhão sob as diversas Obediências independentes do Império Britânico. Assim, cinco sextos dos maçons hoje em actividade são maçons de fala inglesa. O milhão restante, ou conta parecida, acha-se repartido pelas várias Grandes Obediências dos outros países do mundo, das quais a mais importante e influente é talvez o Grande Oriente de França.

As Obediências maçónicas são potências autónomas e independentes, pois não há governo central da Maçonaria, que é por isso menos «internacional» que a Igreja Romana. Há Obediências maçónicas que poucas relações têm entre si; há até Obediências que estão de relações suspensas ou cortadas. Dou dois exemplos. A Grande Loja de Inglaterra cortou em 1877, por um motivo técnico, as relações, que ainda não reatou, com o Grande Oriente de França. A mesma Grande Loja cortou, em 1933, as relações com a Grande Loja das Filipinas, em virtude de divergências - cuja natureza não sei mas presumo - quanto à maneira de desenvolver a Maçonaria na China.

Continua

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Conde de Cagliostro (ii)

Escrito por Camilo Castelo Branco




Conde de Cagliostro


Admitido assim aos mistérios da seita, não deixou, em todo o tempo que residiu em Londres, de frequentar aquelas diversas lojas; porém, antes de sair dali, comprou a um livreiro alguns manuscritos que diziam ou pareciam ser de um tal Jorge Cofton, por ele inteiramente desconhecido. Viu que tratavam da maçonaria egipciana, mas com um sistema que tinha muito de mágico e supersticioso.

Propôs-se então o nosso Cagliostro criar, debaixo destes traços, um novo rito de maçonaria, tirando-lhe, porém, (disse ele), quanto tinha de mau, que vinha a ser a superstição e a mágica. Com efeito, levou a bom termo o seu desígnio, e o rito por ele fundado e propagado em tantas partes do mundo grandemente contribuiu para a sua celebridade. Disse-se noutra parte qual o impulso desta sua determinação, que foi abrir uma fonte copiosa de contribuições, já em dinheiro, já em jóias e roupas. Quem já nada cria em matéria de fé, que temor podia ter no meio da multiplicidade das seitas maçónicas? Pensou unicamente em realizar, à sombra desta novidade, mais estrondosas extorsões.

Para que se possa compreender tudo o que no decurso de tantos anos e de tantos lugares obrou nesta matéria, é necessário expor o plano do sistema, ou rito egipciano, por ele instituído, cotejando-o fielmente com o livro que ele compôs, e que apresentou como um código completo. Indo-se buscar a sua casa, solenemente o reconheceu e confessou que por ele sempre se tinha regido no exercício da maçonaria; que este mesmo livro lhe serviu de norma às iniciações que fizera em diversas lojas, e que vários exemplares deixara nas Lojas-Madres que fundou em diferentes cidades, como veremos.

Os leitores distinguirão bem, sem a ajuda das nossas reflexões, qual e quanta seja a malícia do seu autor, e a fraude que esconde debaixo das mentirosas divisas de piedade, de caridade e de subordinação às leis. Estes são os caracteres da sua impiedade infalivelmente superior e do mais detestável de todos os sistemas maçónicos. O livro, escrito em francês, tem o ressaibo de seu idioma. Cagliostro seria capaz de tanto? Certamente que não. É certo, pelo que consta, que ele inventou e forneceu matéria, porém, para escrever, serviu-se de pessoa de talento, não menos cega que ele em coisas de fé, animada dos encantos de sua vaidade, de seus discursos e operações.

Prometeu ensinar a seus sequazes o sistema e conduzi-los à perfeição por meio da regeneração física e moral, e assim fazer-lhes encontrar a matéria-prima ou a pedra filosofal, e a inocência, que consolidam no homem as forças da mais sã mocidade, tornando-o imortal; mais uma vez de posse disto, o homem adquire um Pentágono que o restitui ao estado de inocência primitiva, perdido pelo pecado original.

Finge Cagliostro que a maçonaria egipciana foi iniciada por Enoch e Elias, que a propagaram por diversas partes do mundo, e que, devido ao giro dos anos, se tinha degradado muito da sua primitiva pureza e esplendor. Aquela já tinha sido reduzida pelos homens a uma simples murmuração, e a outra pelas mulheres a uma total destruição, por não terem ordinariamente lugar na comum maçonaria. Enfim, o zelo do Grão-Copta (nome próprio dos sumos sacerdotes egipcianos) propunha restituir ao seu primitivo lustre a maçonaria, num e noutro sexo.

Expõem depois os estatutos os requisitos que devem exigir-se aos que querem ser admitidos aos três distintos graus, funções e catecismo dos aprendizes, companheiros e mestres, e o número de que comporá cada classe; os sinais distintivos com que se devem reconhecer entre si; os oficiais a quem cabe presidir e convocar a sociedade; o tempo de suas respectivas reuniões; a criação de um tribunal encarregado de julgar as questões que possam ocorrer entre lojas e as faltas de seus respectivos membros; aquele estreito vínculo de união com que são obrigados a proteger-se os irmãos em particular, e todas as lojas em geral, e as muitas cerimónias que se devem observar rigorosamente, assim na admissão dos indivíduos a cada um dos três graus indicados, como nas celebrações das lojas.




Em tudo isto há seu tanto ou quanto do sacrilégio, da profanação, da superstição e da idolatria que praticam as outras seitas da maçonaria ordinária; invocações do santo nome de Deus; prostrações e adorações à venerável cabeça da loja; sopros, aspirações, incensos, perfumes, exorcismos aos candidatos e aos vestidos que hão-se envergar, emblemas da sacrossanta Trindade, da Lua, do Sol, da plaina, do esquadro, e outras mil semelhantes iniquidades, bem conhecidas de todos. Na maçonaria de que tratamos, há alguma coisa ainda que, pela novidade, apresenta a mais abominável extravagância.

Já falámos do Grão-Copta, fundador ou restaurador da maçonaria egipciana, e diremos, a propósito, que Cagliostro não recuou em insinuar que, debaixo deste nome, estava a sua pessoa, e, com efeito, todos assim o reconheciam. Neste sistema, o Grão-Copta é igual ao Eterno Deus: a ele se rendem os actos mais solenes de adoração; a ele se atribui a autoridade de comandar os anjos; ele se invoca em todas as ocorrências; tudo se obra em virtude do seu poder, que se assegura ser-lhe singularmente comunicado por Deus. Porém, ainda há mais: em diversas cerimónias que se realizam nesta maçonaria, está prescrita a reza do Veni Creator Spiritus, o Te Deum e alguns Salmos de David. Chega a tal extremo a temeridade, que no salmo Memento Domini David, et omnis mansuetudinis ejus, o nome de David é substituído pelo do Grão-Copta!

Nenhuma religião é excluída da sociedade egípcia: o hebreu, o calvinista, o luterano, o católico, podem indiferentemente ser admitidos, porque acreditam na existência de Deus e na imortalidade da alma, e acham-se já alistados na maçonaria ordinária. Os homens que chegam ao grau de mestres tomam o nome dos antigos profetas, e as mulheres o das sibilas. O juramento que se exige aos primeiros é o seguinte: Eu prometo, obrigo-me e juro de não revelar jamais os segredos que me forem comunicados neste Templo, e de obedecer cegamente aos meus superiores. O das mulheres é concebido assim: Eu, juro em presença do grande Eterno Deus, de minha mestra, e de todas as pessoas que me ouvem, de não revelar jamais, nem fazer entender, escrever nem fazer escrever, tudo quanto se passa aqui à minha vista, condenando-me a mim mesma, no caso de imprudência, a ser castigada segundo as leis do grande fundador e de todos os meus superiores: prometo igualmente a mais exacta observância dos outros seis mandamentos que me impuseram: o amor de Deus; o respeito a meu soberano; a veneração pela religião e pelas leis; o amor a meus semelhantes; uma reverência sem reserva à nossa ordem, e a mais cega submissão aos regulamentos e leis do nosso rito, que me sejam comunicados por minha mestra. Ao passar ao terceiro grau de mestre ou mestra renova-se o juramento, porém o livro não refere a forma.

É sabido que na maçonaria ordinária há o costume de dar ao iniciando dois pares de luvas, um para si, e outro para que o dê à senhora que mais estima. O Grão-Copta, adoptando semelhante costume, junta a particularidade de se cortarem às mulheres, no acto da entrada, uns poucos de cabelos, que lhes restituem acabada a função, os dêem ao homem que mais estimam. Particulares e sacrílegas são igualmente as formas com que se admitem candidatos à posse de seus respectivos graus. Referiremos somente o que respeita à mulher aceite ao grau de aprendiza, e outra correspondente ao homem que sobe ao grau de companheiro. Na primeira, a mestra dá um sopro na cara da candidata, prolongando-o desde a fronte até à barba, e pronunciando estas palavras: Eu vos dou este sopro para fazer brotar e penetrar em vosso coração a verdade que nós possuímos; eu vo-lo dou para fortificar em vós a parte espiritual; eu vo-lo dou para confirmar-vos na fé de vossos irmãos e irmãs, segundo as obrigações que tendes contraído. Nós vos criamos filha legítima da verdadeira adopção egípcia e da loja, etc.; nós queremos que vós sejais reconhecida nesta qualidade por todos os irmãos e irmãs do rito egipciano, e que vós gozeis das mesmas prerrogativas; nós vos damos o poder para ser desde agora em diante e para sempre mulher franco-maçon e livre. Quanto aos homens que sobem ao grau de companheiro, o mestre fala-lhes assim: Pelo poder que tenho do Grão-Copta, fundador da nossa Ordem, e pela graça de Deus, eu vos confiro o grau de companheiro e vos constituo custódio de novos conhecimentos, os quais vos participaremos em os nomes sagrados de Xalion, Melion e Talhagramaton.






No caderno da seita dos iluminados, impresso em Paris no ano de 1789, refere-se que estas últimas palavras foram sugeridas por Cagliostro, como santas e arábicas, de um certo jogador de peloticas, que dizia estar assistido de um espírito, que era alma de um hebreu cabalista, o qual por arte mágica tinha morto o padre antes da vinda de Jesus Cristo.

Os maçónicos ordinários têm por protector S. João Baptista, e por isso o homenageiam, ao contrário do rito de Cagliostro, onde é S. João Evangelista (neste dia foi Bálsamo preso em Roma) o festejado, dizendo ele que em virtude da grande afinidade que há entre o Apocalipse e as diversas passagens do mesmo rito. Delas convém aqui falar, para plena inteligência da impiedade do sistema e das operações em que continuamente se exercitou, como veremos.

Na passagem dos homens ao grau de mestres prescreve-se a seguinte execranda função: toma-se um menino ou menina que esteja no estado de inocência (a que se dá, respectivamente, o nome de pupilo ou pomba), a qual recebe, comunicado pelo venerável, o poder de que, antes da queda do homem, estava investida, e em especial o de mandar os sete espíritos puros que dizem existentes no trono divino e que regem os sete planetas, assim nomeados no sistema ou livro de que vimos tratando: Anael, Rafael, Gabriel, Uriel, Zobiaquel, Anaquiel.

Conduzida a pupila à presença do venerável, esta dirige, juntamente com os membros da loja, orações a Deus para que se digne permitir-lhe o exercício do poder que lhe foi comunicado pelo Grão-Copta, a fim de que possa obrar segundo os mandamentos do venerável e servir de mediadora entre ele e os espíritos que se chamam intermediadores. Depois, vestida com um hábito talar branco, adornada de faixa de turquesa e cordão encarnado, e aspirada com um sopro, encerram-na num Tabernáculo, que é um lugar apartado do Templo, armado de branco, tendo por fora uma porta de entrada, pela qual se há-de ouvir a voz e, no interior, uma pequena mesa onde ardem três velas. Renova o venerável as orações, e começa a exercer aquele poder que diz ter recebido do Grão-Copta, obrigando os sete anjos a comparecer perante a pomba. Quando esta anuncia a sua presença, aquele ordena-lhe, em virtude do poder que Deus conferiu ao Grão-Copta e o Grão-Copta lhe comunicou a ele, que pergunte ao anjo Anael se o candidato tem os méritos e os requisitos necessários para se elevar ao grau de mestre, e, sendo a resposta afirmativa, passa a outras cerimónias e funções necessárias para a elevação do iniciando.

A mesma cerimónia se prescreve para a elevação das mulheres ao magistério, mas com alguma diferença; à pomba, colocada, como se disse, no Tabernáculo, é-lhe ordenado que faça comparecer um só dos sete anjos e que lhe pergunte se será permitido levantar o véu com que está coberta a inicianda. Seguem-se outras supersticiosas cerimónias, e depois o venerável diz à pomba que mande comparecer os outros seis anjos, aos quais se dirigirá nos seguintes termos: Pelo poder que o Grão-Copta conferiu a minha mestra, e pelo que eu dela obtive, ordeno-vos, anjos primitivos, que consagreis estes hábitos, fazendo-os passar por vossas mãos. São estes hábitos os vestidos e insígnias da Ordem, e juntamente uma coroa de rosas secas. Quando a pomba verifica que os anjos realizaram a consagração, ordena-se-lhe que faça comparecer Moisés, a fim de que também abençoe os ditos vestidos, e tenha nas mãos a coroa de rosas durante o resto da cerimónia. Depois lançam-se pela janela do Tabernáculo os vestidos, as insígnias, e, entre elas, as luvas que levam escrito no meio: eu sou homem; e tudo entrega à candidata, Seguem-se outras perguntas à pomba, especialmente para dizer se sim ou não Moisés teve sempre na mão a coroa, e, respondendo que sim, põe-se-lhe na cabeça. Finalmente e após outras práticas igualmente sacrílegas, faz-se uma outra pergunta à pomba: se Moisés e aos sete anjos foi grata a promoção. Invocada a vinda do Grão-Copta para que também a abençoe e aprove, fecha-se a loja.



Moisés, o "salvo das águas"



Não será importuna uma breve digressão, que possa servir de desengano àqueles que porventura tenham tido a desgraça de cair nesta cegueira. O Grão-Copta, o restaurador da maçonaria egipciana, o conde de Cagliostro, mostra em diversas partes do seu sistema ter em grande conta o patriarca Moisés. No entanto, o próprio Cagliostro declarou espontaneamente terá alimentado sempre em seu ânimo uma insuperável antipatia contra o mesmo Moisés. Em sua opinião, Moisés foi um ladrão, por ter tirado aos egipcianos seus vasos; e, em face dos mais claros argumentos com que o refutaram, procurando convencê-lo do seu erro, pérfida e obstinadamente sustentou seu modo de ver, o que faz supor ter visos de verdade o que foi dito por sua mulher - que a antipatia de seu marido por Moisés procedia de origem mui diversa, qual era a de ele não comparecer a seus trabalhos maçónicos. No entanto, amara sempre os hebreus como a si mesmo, e costumava dizer que é a gente mais bela do mundo.

Mas voltemos ao nosso intento.

O fim da sua maçonaria, como por mais de uma vez temos dito, consiste na perfeição do homem, meio pelo qual promete conduzir os sequazes à regeneração moral e física, depois que tenham subido ao grau de mestres. Para obter uma e outra, prescreve duas distintas quarentenas, que vêm a ser: um retiro de quarenta dias pela primeira vez, e uma cura corporal de outro tanto tempo, pela segunda. As práticas impostas para uma e para a outra formam um complexo que é uma demonstração triunfante da iniquidade do sistema. A descrição que vamos fazer justificará a nossa proposição.

O que pretende obter a regeneração moral, que significa a inocência primitiva, deve subir a uma montanha altíssima, à qual dará o nome de Sinai, e no seu cume construirá um pavilhão, dividido em três planos ou estâncias, que se denominará Sião. A câmara superior medirá dezoito pés quadrados, tendo quatro janelas ovais por cada lado, cada uma só porta de entrada. A segunda câmara, situada no meio, será perfeitamente redonda, sem janelas, e capaz de acomodar treze pequenas camas; uma só lâmpada, colocada no meio, alumiará, e não haverá ali móvel algum que não seja necessário. Esta segunda câmara chamar-se-á Arazat - nome da montanha sobre a qual se assentou a arca, em sinal de repouso que está reservado só aos maçons eleitos de Deus. - Finalmente, a terceira câmara terá capacidade conveniente para servir de refeitório e, ao redor, três gabinetes; em dois deles guardar-se-ão as provisões e tudo o mais que preciso for, e no terceiro os vestidos, as insígnias e os instrumentos maçónicos da arte, segundo Moisés.

Juntas as provisões e os instrumentos necessários, encerram-se treze mestres no pavilhão, sem mais poderem sair durante quarenta dias, que é quanto demoram os labores e trabalhos maçónicos, observando em cada dia a mesma distribuição de horas: seis serão empregadas na reflexão e repouso; três na oração e holocausto ao Eterno, que consiste em dedicar-se todo a si mesmo com a maior força do coração, tendo em vista a maior Glória de Deus; nove nas sagradas operações, tais como a preparação da carta virgem e a consagração dos instrumentos que devem fazer-se todos os dias; as últimas seis na conversação e restabelecimento das forças perdidas, tanto físicas como morais. Passado que seja o dia trigésimo terceiro destes exercícios, começarão os encerrados mestres a gozar do favor de comunicar visivelmente com os sete anjos primitivos, e conhecer o selo e a cifra de cada um destes entes imortais. Um e outro serão por eles mesmos provados na carta virgem, composta, ou da pele de um cordeirinho recém-nascido, purificado em pano de seda, ou da secundina de uma criatura do sexo masculino, nascido de uma hebreia, purificada igualmente, ou de papel ordinário, benzido pelo fundador.


Este favor durará até ao dia quarenta, no qual, concluídos os labores, começará cada um a gozar do fruto deste retiro, isto é, cada um recebe, de per si, o Pentágono, ou a carta virgem, sobre a qual os anjos primitivos imprimiram suas cifras e selos.

Fortificado com isto, e feito assim mestre e cabeça do exército, sem socorro de algum mortal, seu espírito encher-se-á de fogo divino, e seu corpo ficará puro como o do menino mais inocente; sua penetração não terá limites; seu poder será imenso; não aspirará a outra coisa mais que a um perfeito repouso para chegar à imortalidade e poder dizer de si: Ego sum qui sum.

Além do Pentágono sacro, terá outros sete diferentes, dos quais poderá dispor a favor de sete pessoas, homens ou mulheres, que sejam de sua maior estimação. Estes Pentágonos secundários só têm impresso o selo de um dos sete anjos; portanto, quem o possui não pode exercer império sobre outro que não seja este, e fá-lo-á não em nome de Deus, como possuidor do primeiro Pentágono, senão em nome do mestre de quem o recebeu, obrando por seu poder, do qual pelo outro ignora o princípio.

Vejamos agora o seguimento da regeneração, ou perfeição física, com a qual pode a pessoa chegar, ou à espiritualidade de 1557 anos, ou prolongar a vida sã e tranquila até que Deus o queira chamar a si. Quem aspira a tal perfeição, deve, cada cinquenta anos, retirar-se no plenilúnio de Maio, com um amigo ao campo, e ali, encerrado numa cela ou alcova, sofrer, durante quarenta dias, uma dieta rigorosa, com escassos alimentos, consistindo em sopas ligeiras, ervas tenras, refrigerantes, laxativos, e bebidas de água destilada ou da chuva de Maio. No décimo sétimo dia deste retiro, feita uma pequena sangria, tomará certas gotas brancas, que não explica de que sejam compostas, seis pela manhã e seis de tarde, acrescentando mais duas pelo dia adiante, até ao dia trinta e dois, em que procede a uma pequena sangria ao nascer do Sol; no dia seguinte mete-se na cama até concluir a quarentena, e ali sobe ao primeiro grau da matéria-prima, aquele mesmo que Deus criou para tornar o homem imortal e que este perdeu pelo pecado, não podendo reavê-lo senão pelo favor do Eterno ou pelos exercícios maçónicos. Tomado este grau, o que houver de ser renovado perde o conhecimento e a fala por três horas e, convulsionado, exsolve-se numa grande transpiração e evacuação; depois, tornando a si e mudando a cama, há-de ser confortado com uma substância composta de uma libra de carne sem gordura e várias ervas refrigerantes.

Se o confortivo o põe em bom estado, no dia seguinte dá-se-lhe o segundo grau de matéria-prima numa tigela de substância, cujos efeitos, ao contrário da primeira, lhe ocasionarão uma grande febre com delírio, caindo-lhe a pele, os cabelos e os dentes. No dia seguinte, trinta e cinco, se o doente tem forças, tomará banho, nem quente nem frio, que não pode exceder uma hora. No dia trinta e seis, num vaso de vinho velho e generoso, tomará o terceiro grau de matéria-prima, que o porá num sono doce e muito sossegado. É então que nasce outra vez a pele e começam a aparecer os dentes e o cabelo. Tornando a si, deve entrar num novo banho aromático, e lavar-se, no dia trinta e oito, num banho de água ordinária, na qual se deitará nitro. Tomado o banho, vestir-se-á e passará pela sala, tomando, no dia trinta e nove, algumas gotas do bálsamo do grão-mestre em duas colheres de vinho tinto.

No dia quarenta, finalmente, sairá de casa, já de todo renovado. Para complemento da história, não deixaremos de advertir que um e outro método estão prescritos, igualmente para as mulheres, e que, na parte correspondente à regeneração física se manda, a cada uma delas, retirar para a montanha ou para o campo com a única companhia de um amigo, o qual deve prestar-lhe todos os ofícios necessários, em particular aqueles que correspondem à crise da cura corporal.













É esta a trama do seu sistema ou maçonaria egipciana, que muito pela rama explanamos, a fim de corresponder à brevidade que prometemos. Da outra análise que sobre o dito sistema se tem feito, resulta, iniludivelmente, a sua impiedade, superstição e sacrilégio; porque, além de reunir em si tudo o que há de pior nas comuns maçonarias, tem ainda, a torná-lo mais repulsivo, essa indigna sedução tendente a inspirar aos homens o sistema físico e moral, investindo cara a cara, e sem rebuço, com os dogmas mais sólidos da religião (in ob. cit., pp. 44-52).

sábado, 25 de junho de 2011

O Conde de Cagliostro (i)

Escrito por Camilo Castelo Branco






«José Bálsamo, mais conhecido pelo título de conde de Cagliostro, veio também a Portugal, disfarçado sob o título de conde de Stephens. Este famoso aventureiro era um cavalheiro da indústria que se filiou na Maçonaria com a intenção de utilizar em seu proveito a Maçonaria de Adopção [Ramo da Maçonaria Moderna destinada às mulheres]. Para esse fim fundou em Paris, em 1782, uma Loja que tomou o nome de Loja-Mãe de Adopção da Alta Maçonaria Egípcia. Era presidida pela esposa de Cagliostro e ele próprio tomava nela o título de Grande Copta.

Cagliostro entrou em contacto com as melhores famílias de Lisboa; mas apesar disso não conseguiu escapar ao faro de Manique, que ordenou a sua expulsão. Seguiu então para Itália e, tendo sido detido em Roma, em 1790, morreu na prisão em 1795».

Manuel Borges Grainha («História da Franco-Maçonaria em Portugal»).


José Bálsamo, Conde Alexandre de Cagliostro, nasceu em Palermo a 8 de Junho de 1743. Consta haver tido por mestre um alquimista de nome Altotas, como ter sido ainda o restaurador da Maçonaria Egípcia. Foi, além disso, considerado um charlatão ao reivindicar a virtude de comandar os anjos e obrar em nome do Deus eterno. Seja como for, o ocultista italiano produziu funda impressão na corte de Luís XVI, logrando, inclusive, ter o seu nome estampado num dos mais notáveis romances de Alexandre Dumas, pela mão de quem José Bálsamo surge revelando uma porvindoura imagem da morte de Maria Antonieta numa garrafa de cristal.

Envolvido no processo do colar, o afamado ocultista retirou-se para Roma onde, por incumbência do Santo Ofício, lhe fora atribuída a pena capital, depois transformada em prisão perpétua. A resolução definitiva ficara, aliás, a cargo de Pio VI, a avaliar pelo seguinte passo:

«José Bálsamo, réu confesso e convencido de muitos delitos, e incurso nas censuras e penas publicadas contra os hereges formais, dogmatizantes, heresiarcas, mestres e sequazes da magia supersticiosa, e igualmente nas censuras e penas estabelecidas tanto nas constituições apostólicas de Clemente XI e de Benedito XIV contra aqueles que de qualquer modo favoreçam e promovam a sociedade e conventículos dos franco-maçons, como no édito da Secretaria de Estado contra os que em Roma ou outro qualquer domínio Pontifício tiveram nela parte: usando de graça especial, comuta-se-lhe a pena de relaxá-lo ao braço secular (pena de morte) em cárcere perpétuo numa fortaleza, onde deverá ficar estreitamente retido, sem esperança de obter mais graça; mas, tendo abjurado de todos os erros na prisão em que actualmente se encontra, determino que seja absolvido das censuras, impondo-se-lhe as devidas e saudáveis penitências.

Quanto ao livro manuscrito, que tem por título Maçonaria Egipciana, solenemente o condeno, porque contém ritos, proposições, doutrinas e sistemas que conduzem à sedição e à destruição da religião cristã, e é supersticioso, blasfemo, ímpio e herético, pelo que deve ser publicamente queimado pelo ministro da Justiça, juntamente com os instrumentos pertencentes à mesma seita. Com uma nova constituição apostólica se confirmarão e renovarão, não só as constituições dos Pontífices predecessores, mas também o referido édito da Secretaria de Estado, que proíbem a sociedade e conventículos dos franco-maçons, mencionando em especial a seita egípcia e a outra vulgarmente chamada dos iluminados, estabelecendo-se contra todas as pessoas que nelas se juntem, ou por qualquer modo as auxiliem, as mais graves penas corporais».

Ora, uma tal sentença, que para Camilo «corresponde plenamente a todos os ditames da justiça, da equidade, da prudência, da religião e da tranquilidade pública, não menos para o estado Pontifício, que para o mundo inteiro», queda inserta no seu livro José Bálsamo, O Conde de Cagliostro. Camilo é, pois, peremptório a respeito de quem apoda de charlatão, impostor, ateísta, sacrílego, materialista, incrédulo e sobretudo indigno do santo matrimónio ao ministrar a sua mulher, Lourença Feliciana, a máxima com que amiúde a corrompia para obter jóias e dinheiro: Que o adultério não era pecado numa mulher que se entregava por interesse, não por amor, a outro homem.




No seu livro, Camilo não destrinça a Maçonaria operativa da Maçonaria especulativa. Por outras palavras, não distingue a Maçonaria medieval, corporativa e mesteiral da Maçonaria iluminista e racionalista transviada em facções, regras, ritos e lojas de perfil ou feição protestante. No entanto, realça o carácter impiedoso inerente às várias espécies de Maçonaria, como a da já referida Maçonaria Egípcia fundada ou restaurada por José Bálsamo, ou a que, congeminada pelos iluminados e atreita à destruição da catolicidade e das monarquias, dá pelo nome de estreita observância; finalmente, temos a Maçonaria da alta observância, aparentemente propensa à arte hermética mas, no fundo, subversiva e revolucionária.

Não há, pois, como fugir ao facto de a Maçonaria ter decaído e degenerado nos dois últimos séculos. Exemplo disso é o Grande Oriente Lusitano, o mesmo que, em nome da democracia e da república positivista, começou por alçar uma estátua ao feroz e cruel Marquês de Pombal, para, assim, na história mais recente - que é a história espúria do jacobinismo, do ataque à Igreja Católica e da pregação socialista - ter igualmente contribuído para amordaçar Portugal na teia dos poderes e organizações internacionais. Mas essa é outra história que vai para além do contexto histórico em que jaz o ilustre novelista de Oitocentos.

Resta-nos, então, ver o Conde de Cagliostro, segundo a versão de Camilo Castelo Branco.

Miguel Bruno Duarte



EM QUE SE DÁ UMA BREVE IDEIA DA MAÇONARIA EM GERAL, E UMA DESCRIÇÃO EM PARTICULAR DA MAÇONARIA EGÍPCIA


«Muitas vezes [José Bálsamo] usou também de um misterioso silêncio; mas a alguns que lhe perguntavam por seu nome, ou por sua condição, tomava o partido de responder: Ego sum qui sum; e quando apertavam muito com ele sobre esta matéria, o mais em que condescendia era pôr por escrito a sua cifra figurada numa serpente, que tinha na boca uma maçã trespassada com uma seta».


... A maçonaria é um agregado de pessoas vulgares e de costumes soltos, que se juntam em sociedade, ou, para melhor dizer, em sítio determinado. No ano de 1723, foi pela primeira vez impresso em Londres o livro das suas constituições por Guilherme Hunter: ali se lê, que naquela cidade e seus arrabaldes se contavam já vinte casas particulares destes sectários, cada uma das quais tinha seu decano, e mandava todos os anos um deputado a uma assembleia para a eleição de um superior a quem todos estavam sujeitos.

A maior preocupação dos seus dirigentes foi ocultar a verdadeira origem ou modelo que se propuseram seguir, para melhor dissimular seu objectivo e fim, que no referido livro impresso em Londres, se diz ser o de fazer florescer a arquitectura. Depois, inicia-se a história por Adão, criado à imagem de Deus, que é o grande arquitecto do Universo: no decurso do tempo Moisés e Salomão recebem o nome de grandes mestres, e assim continua discorrendo, idade por idade, por todas as nações do mundo e primeiros monarcas, especialmente aqueles que têm sido amantes e protectores da Arquitectura.

Em outros livros, impressos, em particular, por aqueles que quiseram defender esta seita, intentou-se trazer sua origem, ou de alguns Templários que ficaram refugiados na Escócia, os quais, por motivos de cruzadas, achando-se muitas vezes misturados com os infiéis, se viram obrigados a convir em certos sinais para reconhecerem-se, ou de Tomás Cramnero, que se fez chamar Flagellum Principum e que no ano de 1558 foi bispo apóstata favorecido de Ana Bolena e depois queimado, ou de Oliveiro Cromwel, a quem chamavam o famoso libertador dos reinos, ou do antigo rei Artur.

As casas de reunião denominam-se lojas. Seguindo sempre a alegoria da arte mecânica, tem diversas classes e graduações: uns são moços, outros trabalhadores, outros mestres; e assim se distinguem os moços, que por outro nome são aprendizes, companheiros e mestres. Em muitas lojas há maiores graus, e são: arquitecto, mestre e outros semelhantes. Dos veteranos, isto é, dos graus mais elevados, escolhem-se os oficiais, que têm diversos títulos, como de secretário, irmão terrível, venerável e outros. As lojas pertencentes a um mesmo rito todas se comunicam entre si, e correspondem-se com uma loja-madre, cujo caporal, ou presidente, se chama grande oriente, e este envia a todas as suas instruções e oportunos regulamentos.


Os membros de uma classe celebram suas reuniões e realizam as suas funções separadamente das outras; daqui vem que os aprendizes não sabem, nem devem saber, o que fazem os companheiros, nem estes o que pertence aos mestres. Para conservar um tal sistema, os indivíduos da seita reconhecem-se entre si por alguns sinais recíprocos, e toques de mãos, e também por algumas palavras proferidas alternadamente, sílaba por sílaba: e assim cada uma das classes tem distintos sinais, toques, e palavras. Umas e outras mudam também segundo a variedade dos ritos das lojas.

De um grau sobe-se a outro, com intervalo de tempo. Muitas e complicadas são as cerimónias que se fazem para o recebimento, e respectivo acesso aos graus, que sempre têm lugar na loja. Em diversos livros impressos encontra-se o plano; (...) Ali há muito de ridículo, mas muito mais de superstição, de profanação: e de abuso das coisas sagradas. Três circunstâncias são aqui assinaladas principalmente. A primeira: a obrigação que contraem os indivíduos, de profundo e inviolável segredo, debaixo de um terrível juramento. A segunda: a cega obediência que prometem a qualquer ordem do seu superior. A terceira: uma incorporação e reunião entre eles, que, superando ainda os vínculos de uma natural fraternidade, um ocorre prontamente às necessidades do outro, em qualquer lugar, tempo, e circunstâncias.

Qual deva ser o resultado destas combinações, cada um de per si mesmo pode prevê-lo. Alguém que fez suas observações sobre o carácter dos seus componentes, e especialmente dos seus caporais, julga-os a todos ou ineptos em ciências, ou depravados nos costumes, ou incrédulos da verdadeira fé. Quem tiver conhecimento de algum, facilmente avaliará a importância desta reflexão. Nós, deixando de parte todas as especulações, falaremos de puro facto, e sem mistério. Por muitas denúncias voluntárias, de prisões, de testemunhas e outras apuradas notícias, que com os respectivos documentos se conservam em nossos arquivos, vê-se claramente que os seus ofícios de sociedade são mentirosos, suas especulações falsas; alguns professam uma descarada irreligião, e outros tratam de sacudir o jugo da subordinação e destruir as monarquias. Este é, indubitavelmente, o fim a que todas obedecem, porém nem a todas, nem a todos, nem a um mesmo tempo se comunica o grande segredo, sem que primeiro os caporais e directores tenham esquadrinhado bem o coração e regulado as inclinações de cada indivíduo. Antes procuram cativar-lhes os ânimos com a lisonja de descobertas portentosas ou podem remir o homem das suas misérias, concedendo-lhes o uso daquelas paixões, que permitem dar relevo a todo o infame prazer. Isto não pode causar admiração, sabendo-se que ali domina o partido democrático, que tem por fito atacar e destruir as monarquias.

É, portanto, bem recomendável a vigilância e zelo dos Romanos e Pontífices em ter condenado e proscrito esta sociedade. A santa memória de Clemente XII na sua Constituição, que começa In Eminenti, publicada aos 6 de Abril de 1738, fulminou sobre ela e seus respectivos adeptos excomunhão ipso facto incurrenda, sem alguma declaração e reservada ao mesmo Pontífice, Preter quam in mortis articulo... À pena espiritual juntou também a Constituição o terror das penas temporais, mandando todos os ordinários, superiores eclesiásticos e inquisidores da fé velar sobre tais sectários e castigá-los condignamente: Tam quam de haeresi vehementer suspectos.

Clamem a todo o gritar os incrédulos que isto foi um fanatismo da Religião. O amor e a observância dela, foi uma das causas que animou aquele sábio Pontífice a pensar de tal modo, vendo os gravíssimos danos que adviriam especialmente de uma reunião de pessoas de todas as seitas, e a importância de um juramento de profundo segredo, que só entre eles é conhecido; e viu com Cecílio Natel sobre Minúncio Félix, que honesta semper publico audent selera secreta sunt. Reflectiu que os conventículos sempre foram interditados por todas as leis, assim canónicas como civis, e que em qualquer domínio ou governo os reconhecem perniciosíssimos à tranquilidade pública e à segurança do Estado.




Desta forma procurou Clemente XII cuidar no bem universal de todo o mundo. Porém, nos seus estados fez ainda mais: quis que se publicasse, como se publicou, um édito com data de 14 de Janeiro de 1739, no qual, debaixo de irremissível pena de morte, proibiu reunir-se, escrever-se ou falar-se da Sociedade dos Livres-Muratores, como perniciosa, suspeita de heresia e sedição, sujeitando à mesma pena o que solicitasse ou intentasse ser nela admitido, ou lhe prestasse ajuda, favor, conselho ou casa; impõe finalmente a todos a obrigação de revelá-lo, sob pena de incorrer nas penas corporais e pecuniárias a arbítrio, em caso de transgressão.

O imortal Benedito XIV, animado do mesmo zelo, na ocasião do concílio universal, ano de 1750, compreendeu quanto se tinha propagado a desordem e o dano produzido pelos chamados pedreiros-livres, e soube-o com aquela certeza que lhe subministraram as sinceras confissões de muitos estrangeiros, os quais, passando a Roma para conseguir indulgências, recorreram a ele para obterem a absolvição da excomunhão fulminada na bula de seu predecessor. Este confirmou-a também e publicou-a de novo per extensum, como sua Constituição, que começa: Providas Romanorum Pontificum de 18 de Maio de 1751.

As potestades seculares, antes e depois, têm pensado do mesmo modo. Deixemos, pois, as rigorosas proibições feitas no ano de 1737 em Manheim, pelo sereníssimo Eleitor Palatino, em Viena, em 1743, em Espanha e Nápoles em 1751, em Milão em 1757, em Mónaco em 1784 e 1785, e também em outros tempos na Sabóia, Génova, Veneza, Ragusa, e outras. Não nos limitaremos só aos países apostólicos, mas também trataremos dos outros.

Por um irrefragável documento conservado nas actas do Santo Ofício, consta que a Porta Otomana, no ano de 1748, foi informada de que um francês criara, em Constantinopla, lojas de pedreiros-livres, isto em casa de um mercador inglês, tendo também convidado os turcos para nelas ingressarem. O capitão Baxá deu ordens terminantes para que a sociedade fosse encerrada, presos os seus adeptos e incendiada a casa. Tomada a tempo esta disposição, foi tal o terror dos sectários, que desbarataram imediatamente o mobiliário e nenhum deles falou mais em tal. Juntamente, foi intimidado o inglês dono da casa para que não tornasse a admitir, se a não queria ver reduzida a cinzas. A Porta Otomana informou do facto os embaixadores das cortes estrangeiras que estavam contentes com a tolerância das igrejas para uso da religião católica; foi também intimado o francês que era superior ou cabeça, para que saísse imediatamente da cidade, e de facto logo embarcou, sem mais se ouvir novas dele.

Parece que o que até aqui se tem dito é bastante para descobrir o disfarce debaixo do qual se quer esconder esta sociedade, e para todos se resolverem seriamente a livrar-se deste contágio.

Se acaso fica na incerteza do que até agora se tem exposto, ouvirá brevemente as coisas que, no presente processo, disse Cagliostro, ao qual não se pode negar um pleno conhecimento da matéria, como quem por tantos anos viveu entre os maçónicos e é considerado por eles como um génio sobrenatural.

Ele disse que são muitas as seitas em que está dividida a maçonaria, mas duas são as mais frequentes: a primeira chama-se da estreita observância, e pertence aos iluminados; a segunda da alta observância. Aquela professa uma absoluta incredulidade, obra magicamente, debaixo do especioso título de vindicar a morte do grão-mestre dos Templários, tendo principalmente por objecto a destruição total da religião católica e das monarquias. A outra, aparentemente, emprega-se em indagar os arcanos da Natureza para aperfeiçoar a arte hermética, especialmente na pedra filosofal; porém, a absoluta subordinação a seu superior e o vínculo do juramento do segredo, indicam que os seus fins são combater o estado e a tranquilidade pública.




Nesta segunda classe, confessou Cagliostro ter-se adscrito em Londres, e igualmente sua mulher, tendo ambos tido suas patentes; Cagliostro pagou a sua com cinco guinéus. Num mesmo dia foram admitidos aos três graus que compõem a loja, que vem a ser, como já se disse: aprendiz, companheiro e mestre, e receberam os arneses pertencentes ao ministério, isto é, mandil, faixa, estola, esquadro, compasso e outros mais. À mulher deram uma cinta ou liga, dizendo-lhe que era aquela a insígnia da ordem, e nela estavam escritas estas três palavras: união, silêncio, virtude, e lhe foi mandado que devia dormir aquela noite com ela, cingindo-a a si. Refere largamente Cagliostro as funções e cerimónias observadas na admissão aos ditos graus. Já dissemos que o plano anda impresso em vários idiomas (...). Antes do aceite, exigem-se algumas provas de valor do indivíduo que deve ser admitido. Nas que deu Cagliostro, duas foram capazes de mover, não sabemos se o enfado, se o riso. Primeiramente estava na sala uma corda atada de um lado a outro, sendo ele obrigado a dar um salto para, com a mão, se agarrar a ela, ficando assim obrigado por algum espaço de tempo; mas, como era pesado, isto custou-lhe, sentindo alguma dor e ficando-lhe a mão extensa. Depois taparam-lhe os olhos e deram-lhe uma pistola descarregada, mandando-lha carregar com pólvora e bala, o que fez; porém, quando ouviu que a devia disparar contra a testa, como era natural mostrou toda a repugnância. Foi-lhe então tirada com desprezo das mãos e levaram-no a ir prestar juramento. Na solenidade e importância deste, induziram-no a que descarregasse, como já lhe tinham mandado, a dita pistola, que em seguida lhe deram. Com efeito, descarregou-a, estando também com os olhos tapados, e sentiu o golpe na cabeça sem lhe fazer a menor lesão; ele observou, em outras admissões, que esta experiência era uma ficção, porque, quando se dá ao iniciando, pela segunda vez. a pistola, esta está descarregada, e quando vai dispará-la, outro dispara a carregada, e outro, com um ligeiro instrumento, dá um golpe na cabeça do vendado, que desta forma fica julgando que o tiro lhe acertou, admirando-se por ficar ileso.

A forma do juramento que pronunciou é a seguinte: Eu, José Cagliostro, em presença do grande arquitecto do Universo, e na de meus superiores, como também da respeitável sociedade em que me acho, obrigo-me a fazer tudo quanto me for mandado por eles, e portanto juro, debaixo das penas estabelecidas pelos ditos meus superiores, obedecer-lhes cegamente, sem perguntar o motivo, e de não revelar os segredos, nem por palavra nem por escrita, nem os arcanos que me forem comunicados (in José Bálsamo, Conde de Cagliostro, Hugin, 2001, pp. 39-44).

Continua