quinta-feira, 30 de junho de 2011

A Maçonaria em Portugal (i)

Escrito por Miguel Bruno Duarte





Papa Leão XIII




«Entre as sociedades secretas deve-se mencionar particularmente a que se chama Universitária porque tem a sua sede e o seu estabelecimento em várias Universidades, onde os jovens são guiados por professores que, longe de os instruírem, os pervertem, iniciando-os nos mistérios desta sociedade, que se podem chamar mistérios da iniquidade, preparando-os para todos os crimes». 

Papa Leão XIII (Encíclica «Quo Graviora»).



Pascoal Martins foi, porventura, o derradeiro representante da Maçonaria operativa. Curiosamente, Matter, no livro Saint-Martin, Le Philosophe Inconnu, o dá como «misterioso português», ao passo que A. Franck, na sua obra La Philosophie Mystique en France à la Fin du XVIIIe Siècle, remete a sua origem para uma «família de israelitas portugueses».

Por outro lado, há quem defenda a origem espanhola do taumaturgo ibérico, como Amorim de Carvalho em O Positivismo Metafísico de Sampaio Bruno. Seja como for, Pascoal Martins fundara a Ordem dos Eleitos Cohen, chegando mesmo a introduzir o respectivo rito nas cidades de Paris, Marselha, Bordéus e Tolouse. Fundara também a Loja da Beneficência em Lião e, last but not least, manifestara ainda a natureza visível da sua doutrina iniciática numa série de manuscritos que mais tarde dariam lugar ao Tratado da Reintegração dos Seres, impresso em 1899.

Sabemos também que Gérard Encausse, sob o pseudónimo de Papus, teria sugerido, em Martinésisme, Willermosisme, Martinisme et Franc-Maçonnerie, que o pensamento religioso de Pascoal Martins se inspirara no magistério de Swedenborg. Ora, no seu entender, Swedenborg operava no plano invisível para atenuar os efeitos das maquinações diabólicas do cristianismo jesuítico. Porém, o que é certo é que Pascoal Martins professava o catolicismo, não obstante ter realizado a síntese das tradições peninsulares «em termos diferentes dos que ficaram estabelecidos na nomenclatura da teologia católica e da filosofia aristotélica» (1).

Pascoal Martins procurava assim a conciliação do homem com o mundo sobrenatural, ou, se quisermos, com «a Coisa», para empregarmos um dos termos iniciáticos da Ordem que fundara. Aliás, a sua influência fora de tal forma poderosa que chegara a influenciar as obras de «Lamartine, Alexandre Dumas ou Gérard de Nerval», conforme nos é relatado por António Telmo no artigo «Da cultura portuguesa ao romance francês». E, segundo José Marques Leal, inspirara igualmente as obras de «Balzac, Victor Hugo ou Joseph de Maistre, de Goethe, Novalis, Schelling ou Herder», a que se seguiriam as de «Tolstoi, Bergson, Teixeira de Pascoaes ou Fernando Pessoa».

Há, pois, uma iluminação ou uma doutrina da luz interior expressa nas obras da literatura romântica, em que a alma humana opera no sentido oriental de uma participação mística heterodoxa por contraste ao iluminismo da ortodoxia católica prefigurada em Santo Agostinho e S. Boaventura. Contudo, quanto à projecção política do liberalismo, adianta Álvaro Ribeiro:

«O iluminismo foi cultivado nas sociedades secretas que prepararam o advento do liberalismo. Em política, o iluminismo defendia o segredo de Estado contra a razão de Estado. Ele foi, por isso, a filosofia oculta que, doutrinando a nova nobreza, sustentou durante um século as instituições monárquicas. O liberalismo britânico não pode ser entendido senão em função dos estudos filosóficos de Locke, Berkeley e Hume sobre a essência do espírito humano. Kant resolveu o problema iluminista pela formulação do pensamento categorial, ou categórico, e sem receio de erro poderemos verificar que ao longo do século XIX predomina a discussão das categorias» (2).



Mas qual fora, no entanto, o papel da Maçonaria especulativa na implantação do socialismo em Portugal? Ora, vamos por partes, começando desde logo por transcrever um trecho que nos dá simultaneamente conta da introdução da Maçonaria em Portugal e da acusação de «jacobino» lançada a Silvestre Pinheiro Ferreira:

«A ideologia da Revolução Francesa, como é sabido, causava nessa época uma certa efervescência na Europa. A Maçonaria, que era o principal veículo dessa mesma ideologia, fora introduzida em Portugal no segundo quartel do séc. XVIII.

Apesar da perseguição de que foi objecto, o número de lojas maçónicas foi aumentando e foi-se alargando a esfera da sua influência. À Maçonaria pertenceram figuras importantes nos domínios da política e da cultura, e mesmo membros do clero.

A actividade dessas sociedades secretas fazia-se sentir em Coimbra na altura em que Pinheiro Ferreira foi acusado de «jacobino». Já em 1793 se descobria a existência de uma loja maçónica em Coimbra, e, por esse tempo, tinham vindo «comissários de algumas sociedades secretas a procurar adeptos entre os estudantes e mestres mais distintos. Naturalmente, junto de Pinheiro Ferreira não deixou de se exercer uma certa acção nesse sentido, e Teixeira de Vasconcelos afirma mesmo que ele foi convidado para entrar numa dessas sociedades. No entanto, não só o respeito pelas leis do reino mas sobretudo a fidelidade aos princípios em que tinha sido educado, não lhe permitiam a adesão a sociedades secretas. «O fundamento da recusa» foi «o respeito às leis que proibiam essas sociedades».

Portanto era injusta a acusação de «jacobino»; mas nem a «circunspecção do seu procedimento» nem a protecção e estima que lhe dispensava o Principal Castro, foram motivo suficiente para que dele se afastassem de todo suspeitas. Assim, em meados de Julho de 1797, estando Pinheiro Ferreira em Lisboa, faz-se na sua casa de Coimbra uma busca minuciosa. Não suspeitava da perseguição de que era alvo, pois «por necessidade e por vocação» vivia entregue «ao retiro da vida estudiosa». Foi um estudante que, fugindo de Coimbra, lhe levou a notícia da busca que tinha sido feita aos seus papéis bem como da prisão de alguns dos seus amigos» (3).

Enfim, a descrição deste caso prossegue por entre vicissitudes que levaram Pinheiro Ferreira a exilar-se, e, para o efeito, a percorrer Londres, Haia e Paris. Porém, a mesma descrição também nos permite entrever uma organização que já inspirava, pelo seu obscuro secretismo, fundas e suspicazes reservas quanto aos seus verdadeiros desígnios no contexto das leis e dos costumes da sociedade da época. O que, aliás, se compreende na medida em que, de organização medieval, corporativa e mesteiral, a Maçonaria, ou as maçonarias - para evitarmos a redução ao género (4) -, passou a traduzir-se no crescente espectáculo dos interesses privados e das ambições pessoais de expressão político-económica.








Também é caso para dizer que a Maçonaria não foi a única organização a zelar por tais interesses em Portugal. Deles, por exemplo, fez historicamente eco o Exército no seu domínio do Estado, posto que as conjuras foram quase sempre, de Gomes Freire (5) até à revolução de 1974, golpes de natureza militar. Mas, apesar de tudo, a Maçonaria não deixaria de comprometer seriamente o liberalismo à conta de ambições ideológicas e políticas que depressa justificariam a sua condenação histórica pela geração negativista de 1870, quando não mesmo pelo salazarismo que tornou corrente a expressão «o liberalismo está ultrapassado».

Proclamado o lugar-comum de que o liberalismo falira, ou morrera, é óbvio que o advento das ideologias totalitárias implicaria o descalabro na política, na economia e na cultura de uma civilização milenar como a portuguesa. A Maçonaria em muito contribuiu para isso, bastando, para já, relembrar as Comemorações pombalinas de 1882, que, além de promovidas pela Comissão Académica de Lisboa prontamente responsável por um manifesto sobre a obra política do Marquês de Pombal, foram igualmente sobraçadas pela obscura organização que também se dispôs a publicar e a aplaudir um tal manifesto no Boletim Oficial do Grande Oriente Lusitano Unido. Mais: o Conselho da Ordem queria ainda erguer uma estátua ao irano do Marquês por alegado serviço em prol da liberdade e da tolerância religiosa.

Deste modo, a democracia festejava em apoteose um Pombal de romance para consumo carnavalesco da plebe industriada à glorificação dos déspotas defuntos. E nisto, a ignorância era tanta, mas tanta que até o próprio Camilo Castelo Branco, de tanto pasmar, dissera que, se «os ultraliberais de 1882 estão com o marquês de Pombal, quem nos afirma que as confederações republicanas e ateístas de 1982 não hão-de estar com os jesuítas? As situações parecem-nos equivalentes nas paralelas do absurdo» (6).

A democracia em Portugal permaneceu sempre, em muitos e variados aspectos, condicionada pela Maçonaria enquanto instituição internacional de propósitos nominalmente humanitários, altruístas e progressistas. Houve mesmo, para o efeito, quem postulasse um tal paralelo ideológico, como o Grão-Mestre Magalhães Lima numa mensagem às Lojas de Lisboa: «a Maçonaria é hoje chamada a acompanhar e dirigir as tendências da democracia… a humanidade caminha para a organização da democracia, o que vem a ser para nós o triunfo da nossa causa». Enfim, uma «democracia» - entenda-se - de pendor socialista e radical, como, aliás, o próprio Conselho da Ordem, presidido por Ramon Nonato de la Féria, proporia já em pleno ciclo da Ditadura Militar, em 1927:

[O programa maçónico inclui a] «infiltração dos Maçons na burocracia oficial e nos organismos sociais, procurando conquistar posições de direcção. Recomendam-se muito especialmente as instituições de instrução e de assistência. Atracção da mocidade académica por meio do panfleto, jornal ou conferências e de bolsas de estudo, para estudantes pobres. Iniciar o maior número possível de alunos dos últimos anos dos cursos, procurando-se a constituição das Lojas de académicos nos meios universitários. Conquista das classes do professorado. Criação, auxílio e propaganda da Imprensa republicana e liberal. Combate por todos os meios de publicidade possíveis ao Jesuitismo, patrono de toda a reacção política e religiosa. Em toda a publicidade no mundo profano deverão ser cumpridas as leis vigentes, evitando-se a Imprensa clandestina. Atacar, na Imprensa, e por todos os meios de divulgação, a questão do ensino religioso, mostrar os graves inconvenientes da sua realização: pedagógicos, psicológicos, filosóficos e políticos. Acentuar que a educação jesuítica destrói a capacidade de iniciativa do indivíduo, tornando-o incapaz de se orientar e de resolver sem a intervenção do director espiritual, que desta forma adquire um poder social imenso. É a morte cívica do homem. Revelar o conflito gerado no espírito da criança ou do jovem, entre o que a ciência lhe ensina e o que o padre lhe diz».



E mais adianta Ramon Nonato de la Féria sobre o aparente liberalismo da Ordem Maçónica:

«Promover e auxiliar a instituição de estabelecimento de ensino neutro dirigidos por professores Maçons ou, pelo menos, liberais. Atacar a lei da personalidade jurídica da Igreja. No capítulo do ataque ao vício, a necessidade urgente de combater o alcoolismo (…), o combate à regulamentação do jogo deverá ser intensivo. O abolicionismo deve ocupar intensamente a atenção e actividade de todas as oficinas da Ordem. O estudo das causas da prostituição (…) constituirá objecto de trabalhos da mais alta importância social. As touradas, e especialmente os touros de morte, são diversões que é necessário combater por todos os meios. A mesma atitude deverão ter os Maçons para com os outros espectáculos de brutalidade e de selvajaria, como o boxe, etc. Promover ou pugnar pela realização de todas as obras de beneficência ou de qualquer forma de assistência social. Desenvolver, captar ou fundar organizações escutistas, procurando dirigi-las. Auxiliar de modo hábil e precavido todas as organizações fraternais, de fundamento moral ou emancipador, que tenham carácter anticlerical acentuado e todas as instituições que sejam provadamente tolerantes e de acção moral evidente. Promover com o maior carinho e desvelo o desenvolvimento da Liga de Acção Educativa. Fazer a propaganda da exploração portuguesa de todos os recursos e produtos, combatendo a obra de absorção estrangeira (…) A propaganda e estímulo da nossa actividade colonial, assim como o estudo de uma melhor orientação colonizadora, deverão constituir objecto do mais alto e constante interesse. Combater com tenacidade as oligarquias sem escrúpulos que se apoderaram das finanças portuguesas e de todas as empresas de importância» (7).

É, pois, historicamente compreensível que o Estado Novo, antiliberal e antidemocrático, viesse a publicar, no Diário do Governo, em 21 de Maio de 1935, a lei n.º 1901 que proibia a existência das «associações secretas», entre as quais se visava a Maçonaria (8). O projecto de lei, da autoria do deputado Dr. José Cabral, fora antes debatido na Câmara Corporativa que concluíra pelo intento da «civilização maçónica» em substituir a «civilização cristã», além de aspirar à «dominação do Estado» e possuir uma «organização exagerada e perigosamente internacionalista». Em suma, a condenação repercute-se por toda a Câmara Corporativa em termos lapidares: «No actual momento político português a Maçonaria portuguesa é adversária irredutível do Estado Novo». «A luta contra as sociedades secretas é um episódio da Revolução Nacional», «A Maçonaria Universal é o prelúdio da Internacional Humana» (9).

Curiosamente, o livro de Léon de Poncins, Les Forces Secrètes de la Révolution, desempenhara, na denúncia da conjura universal judeo-maçónica, um peso considerável no parecer jurídico da Câmara Corporativa (10). Seja como for, não nos restam dúvidas de que uma tal organização, não obstante a controversa identificação entre maçonismo e judaísmo (11), recorria a uma acção puramente política e revolucionária no âmbito do socialismo internacional. Aliás, relembrando o artigo que, em apologia da Maçonaria, Fernando Pessoa dera à estampa no Diário de Lisboa (4 de Fevereiro de 1935), intitulado «Associações Secretas», segue-se o trecho de Manuel Maia Pinto, um ex-Maçon que acusou o Poeta de má informação a respeito da acção e da natureza da Ordem:

«… a F-M [a Franco-Maçonaria] não é boa, é mesmo má, e porque assim me parece me vim embora… o sr. Pessoa teria talvez um desgostozinho se verificasse que não encontrava nas Lojas duas dúzias de «obreiros» que tivessem uma ideia clara do que é o zodíaco… apesar de se esfregarem a miúdo com cópias de símbolos». «Mas então o que se faz nas reuniões? (…) Fala-se, palra-se, discute-se, tempos infinitos, questões de «lana-caprina» (…) «É extraordinariamente difícil dar uma ideia da vacuidade das sessões e das insignificâncias em que se ocupam» (12).






Um outro testemunho não menos significativo baseia-se no depoimento de um tal «Petrus, que chegara a atribuir à Ordem a publicação do folheto «A Maçonaria vista por Fernando Pessoa» (13):

«Não há dúvida que a decadência corrói o corpo da grande instituição, que nem sequer a pseudoperseguição oficial logrou galvanizar. O tempo gastou-a. A par do tempo, as gerações que caminham na vida fixaram seus ideais em objectivos mui diversos daqueles que mais queridos foram à Maçonaria. Faltou-lhe até o concurso da inteligência, que com o seu brilho e a sua fecundidade até às instituições caducas redoura de reflexos luminosos. A vida de intriga e de utilitários interesses em que nas últimas décadas se empenharam os apaniguados teve como desiderato ou desiludir, ou afastar, ou desinteressar dos seus fins, quantos, entre os novos, lhe podiam dar uma alma incandescente e criadora. O seu trágico destino é a obscuridade. Aqui ou ali ainda se sente o seu comando. Mas de quem parte? Da mediocridade impotente. E quem o transmite? Essa mesma mediocridade. Temos, portanto, que em Portugal a Maçonaria vive enquanto viverem uns sujeitos que a trazem no papo. E depois? Depois, nada muda… Passou à história…» (14).

Consequentemente, é um facto de que a Maçonaria se houvera transformado numa organização ideológica e revolucionária com vista à inserção dos seus membros nos mais diferentes sectores da sociedade portuguesa. A 1.ª República constituíra, aliás, um exemplo flagrante e suficientemente esclarecedor desse facto, a avaliar pelo seguinte:

1. Já em 1912, encontram-se no Governo «vários Irmãos em postos importantes: Fernandes Costa e Correia Barreto são ministros da Marinha e da Guerra; Aurélio da Costa Ferreira é ministro do Fomento e António Vicente Ferreira é ministro das Finanças» (15).

2. O primeiro Governo da República fora presidido por um membro da Maçonaria – Bernardino Machado -, também conhecido como personalidade representativa do partido republicano ou democrático de Afonso Costa. Nesse sentido, disputara as eleições para primeiro presidente constitucional contra Manuel de Arriaga, o qual, apoiado em bloco pelos restantes partidos – o evolucionista e o unionista -, seria eleito com 121 votos contra 86 para Machado. Este último seria ainda eleito Presidente da República em 1915.

3. Norton de Matos, um dos chefes do Partido democrático, fora igualmente membro da Maçonaria. Desempenhara, a par de Afonso Costa e Bernardino Machado, um papel crucial para a intervenção de Portugal na Grande Guerra.

4. Em Lisboa, Afonso Costa, entrando na Loja «Futuro», seria iniciado sob o nome simbólico de Platão. Não admira, pois, que se lhe atribuísse, à imagem de uma organização que se assumia contra tudo o que denotasse superstição, saudosismo, tradicionalismo e reaccionarismo, o declarado intento de extinguir a religião em Portugal no prazo de duas gerações. Mais: em 1913, ficando com a Presidência e as Finanças, não só se reafirmava socialista (16) numa conferência sobre «Socialismo e Catolicismo» proferida a 16 de Janeiro, como também obteria o grau 30 (Cavaleiro Kadosch) (17) com vista a assinalar, a título de efeméride, o aniversário da lei de separação da Igreja e do Estado promulgada a 20 de Abril de 1911.















Eis apenas alguns exemplos entre os quais, o de Afonso Costa, será o mais representativo e simbólico de todos, pois espelha, na sua proteica diversidade, a ideologia revolucionária subjacente à Maçonaria. Daí que, enquanto ministro da Justiça, Afonso Costa tenha, em apenas sete meses, deixado uma marca revolucionária como poucos deixariam na sociedade portuguesa da época. Basta, para o efeito, lembrar as leis de carácter anticlerical e anti-religiosa com a expulsão dos jesuítas e demais ordens regulares, bem como a nacionalização dos bens da Igreja, o casamento cívico, o divórcio ou a «protecção» aos filhos bastardos, entre outras medidas afins.

Ou seja: um tal núcleo de medidas obedecia ao intento de implementar uma legislação violenta e revolucionária pautada pela perseguição feroz à Igreja, ao clero e à própria religião. Por outro lado, o maçonismo socialista de Afonso Costa reflectia-se na política externa concertada em diversas organizações supranacionais, entre elas a Conferência Financeira Internacional de Bruxelas, a Sociedade das Nações – um projecto, aliás, maçónico (18) -, o Tribunal Permanente de Justiça Internacional, etc. (19). Nisto, compreende-se que, não obstante o silêncio imposto à Ordem Maçónica pelo regime de Salazar, Afonso Costa fosse indigitado para seu Grão-Mestre, ainda que não eleito por ocasião do seu falecimento.


Notas:

(1) Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar, p. 142.

(2) Álvaro Ribeiro, «Filosofia Escolástica e Dedução Cronológica», in As Portas do Conhecimento, IAC, 1987, p. 250.

(3) Cf. Maria Luiza Rangel Coelho, A Filosofia de Silvestre Pinheiro Ferreira, Livraria Cruz, Braga, 1958, pp. 17-18.

(4) Cf. Pinharanda Gomes, A Cidade Nova, Fundação Lusíada, 1999, p. 57.

(5) Gomes Freire fora um maçon praticante do Rito Escocês Rectificado. «Crê-se que Gomes Freire de Andrade tenha sido iniciado na Maçonaria antes de 1785, na Loja Esperança Coroada em Viena, onde atingiu o grau de Mestre Maçon e onde se encontra registado no seu quadro pelo menos até 1790. Já em Portugal, encontramos o seu nome referido em 1801, ano em que recebe em sua casa uma assembleia que se revelou de particular importância para a Maçonaria portuguesa. Em 1802, é eleito dignitário do recém-formado Grande Oriente Lusitano. Entre 1801 e 1807, a sua actividade político-militar é significativa, sendo referido como mentor de episódios de agitação política» (in António Lopes, Gomes Freire de Andrade, Um Retrato do Homem e da sua Época, Edição Grémio Lusitano, 2003, p. 71).

(6) Camilo Castelo Branco, O Perfil do Marquês de Pombal, Lello & Irmão Editores, 1982, p. 8.

(7) Cf. António Carlos Carvalho, Para a História da Maçonaria em Portugal (1913-1935), Colecção Janus, 1993, pp. 104-105.

(8) Durante o período de reorganização financeira da Ditadura Militar, já se podia prever qual o futuro da Maçonaria perante a ascensão e o ascendente de Salazar na vida política portuguesa. Sinal disso é a carta do Arcebispo de Mitilene dirigida ao então ministro das Finanças: «António, um grande abraço pelo equilíbrio orçamental. Não vi senão as «Novidades – o que é pouco para ver a impressão que o facto terá causado. É um grande triunfo. Deus está contigo. E por isso mesmo todos os que pertencem ao espírito das trevas esbravejam contra ti. Tu és – nem o sabes! – muito amado em Portugal; ainda há dias recebi uma carta comovedora dum amigo meu (o qual não te pede nada!). Mas também há ódios dos que te odeiam, porque odeiam Deus. Coragem! A tua obra vai apenas no começo. Não esmoreças com as intrigas e as mentiras que contra ti movem. Mas defende-te delas. Sobretudo não te exponhas excessivamente. Há gente capaz de tudo. E a maçonaria começa a temer-te! E o ódio aumentará na medida em que tu cresceres… Teu amigo e irmão» (in Franco Nogueira, Salazar, Vol. II, Atlântida Editora, p. 17). Por outro lado, vale ainda a pena recordar, nas palavras de Franco Nogueira, um outro incidente envolvendo a Maçonaria: «… não findam as actividades dos exilados em Espanha: e agravam-se as relações com Madrid. Sobre o armamento fornecido àqueles, relatam pormenores António Ferro, Vasco Borges, Pereira da Rosa; e segundo Abel de Andrade a Maçonaria não seria alheia ao processo. Salazar manda fazer em Madrid os devidos reparos e protestos. E combina com José Alberto dos Reis o debate do assunto na Assembleia Nacional. Todavia, em Espanha o caso transpira dos bastidores para a arena política. Em fins de Março, o governo espanhol é interpelado no parlamento; e os grandes nomes das direitas espanholas – Gil Robles, José António Primo de Rivera, Goicochea – acusam Manuel Azâna e Casares Quiroga , ministros da Guerra e do interior, de promoverem uma revolução em Portugal e de estarem a armar, municiar e subsidiar emigrados portugueses. E exibem peças comprovativas, emanadas de um tribunal espanhol, que procedera a averiguações. Azãna e Quiroga defendem-se; mas, subjugado pela evidência, o parlamento espanhol aprova por grande maioria os documentos acusadores vindos do tribunal» (in ob. cit., Vol. II, p. 317).



Oliveira Salazar




(9) Cf. A. C. Carvalho, ob. cit., pp. 126-127.

(10) Eis, a título de amostra, um trecho de Léon de Poncins: «A Maçonaria é um conjunto e uma superposição de associações secretas espalhadas pelo mundo inteiro. O seu fim é destruir a actual civilização de base cristã, substituindo-a por outra civilização racionalista e ateia que teria como religião a razão e a ciência, o que conduz em linha recta ao Materialismo. A essência da luta é, portanto, espiritual. É o conflito entre o racionalismo e a ideia cristã, entre os direitos de Deus e os direitos do Homem, que seria promovido a Homem-Deus dirigido pelo Estado-Deus. Para chegar a esse resultado começou por derrubar as monarquias, que representavam os princípios de autoridade e de tradição, para as substituir pela república maçónica, ateia e universal» (cf. A. C. Carvalho, ob. cit., pp. 156-157).

(11) Sobre esta identificação, escreve Pinharanda Gomes: «Na modernidade, autores como Léon de Poncins e Pinay tentaram identificar, em todos os fenómenos políticos e sociais, a presença do factor judaico e, mais, a presença do maçonismo judaico. Na perspectiva destes autores, tudo quanto ocorreu na Europa, desde o Protestantismo, é obra de judeus e de mações. Por forma a concluírem tese, coligem factos avulsos, motivações análogas, coincidências temporais, sobreposições de processo, avolumam acidentes, estabelecem listas de nomes de genealogia hebraica. O resultado é brilhante, ofuscante, até; mas, perante estas obras, pese embora a intenção, fica-se na perplexidade: tudo é feito pelos judeus? Nada é feito pelos povos e pela Igreja? Só os judeus actuam, todos os demais povos dormem? Nasce então a perplexa dúvida: se as obras como essas não serão também ditadas e divulgadas pelas forças judaicas, por forma a manter os povos sob a pressão do temor e do pavor. Seria o cúmulo da malícia diabólica!» (ob. cit., p. 54). Depois, diz-nos também Fernando Pessoa que a acção política dos judeus «tem-se aproveitado, não só da Maçonaria e da ideologia igualitária, mas de tudo quanto, de origem judaica ou não judaica, possa de facto, devidamente utilizado, servir para dissolver a civilização tradicional, Greco-Romana e Cristã, da Europa e do mundo europeizado. E legitimamente se tem aproveitado, pois aos judeus assistem os mesmos direitos que aos outros povos: o direito de defesa e o direito de império – o primeiro em absoluto, o segundo se o concedemos aos outros. Nem foram os judeus, ou a Maçonaria, ou qualquer outra força estranha, que provocou ou poderia provocar a Revolução Francesa, ou a Revolução Russa, ou qualquer outra verdadeira Revolução. As revoluções são provocadas pelo Poder tirânico que as torna, passado certo ponto, inevitáveis. Foi a tirania do Antigo Regime que fez a Revolução Francesa. Foi a tirania do Czarismo que fez a Revolução Russa. As forças estranhas não fizeram mais que aproveitar-se, conforme puderam, da matéria social incoordenada em que as tiranias, depois das revoluções que provocaram, deixaram os povos que regiam» (in António Quadros, Fernando Pessoa, A Obra e o Homem, arcádia, 1982, p. 184).

(12) A. C. Carvalho, ob. cit., p. 131.

(13) Diz «Petrus»: «o célebre folheto é uma fraude, fazendo passar por fiel um texto truncado e grosseiramente adulterado» (…); «omite precisamente a parte derradeira e fundamental do artigo (…) substituindo mesmo frases inteiras, latejantes de ironia, por expressões verbalmente frouxas e sem significação» (ob. cit., p. 130).

(14) Ob. cit., p. 133.

(15) Cf. Manuel Borges Grainha, História da Franco-Maçonaria em Portugal (1733-1912), Nova Vega, 2011, p. 20.

(16) Para uma ideia do socialismo em Afonso Costa, expressa em 1895, vejamos: «[…] Que benefícios pode o socialismo trazer à humanidade? E, dado que traga benefícios, como poderá ele transformar a sociedade actual, tão corrompida e tão injusta, na ideal sociedade, que os seus fautores preconizam e solenemente prometem?

O socialismo, tendo acompanhado todos os graus de civilização, formou-se ao calor da evolução da humanidade e tornou-se assim uma doutrina essencialmente perfectível. Passou por vários períodos: teve a inconsciência dos primeiros séculos, a ardente utopia dos tempos que se seguiram às descobertas, a poesia dos esboços deste século e o rigor científico da sua segunda metade.





Hoje, está perfeito. À doutrina económica de Marx, que é o ponto de apoio teórico de todos os socialistas militantes da Europa e da América, junta-se, graças a Paepe, Malon, etc., um outro elemento, que não vem combater, destruir ou ferir aquela, mas apenas completá-la, ou antes, facilitar a anexação, a essa doutrina económica, de "uma doutrina mais geral, mais compreensiva dos meios e das múltiplas necessidades da humanidade, melhor adaptada à conexão actual da história e às aquisições recentes da ciência".

Esse elemento novo é o "Direito" e a sua expressão é a "Justiça". Os seus princípios são a "Liberdade" e a "Igualdade"» («O Socialismo», in A. H. Oliveira Marques, Afonso Costa, Cadernos F.A.O.J., p. 33).

(17) Em Julho de 1934, obteria ainda o grau 33 da Maçonaria.

(18) Cf. A. C. Carvalho, ob, cit., p. 92.

(19) De referir fica ainda o contrato que, com o Crédit Internacional, assinou em nome do Governo para o empréstimo de 50 milhões de dólares (Julho de 1921). Tendo por intermediários supostos financeiros norte-americanos, o contrato revelou-se, segundo indicação de Oliveira Marques, uma burla (in ob. cit., p. 27).

Continua


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