terça-feira, 18 de maio de 2010

Curso de Filosofia Portuguesa (iv)

Escrito por Orlando Vitorino




FILOSOFIA DO DIREITO

1
1.1. A questão do direito natural como introdução ao que se entende por Filosofia do Direito.

1.2. Filosofia do Direito e Direito Positivo. Situação do Direito entre uma e outro. O Direito Positivo e o Estado: a questão de saber se é o Estado que cria o Direito ou se é o Direito que cria o Estado. O Estado como efectivação do direito. A legislação.

1.3. A lei: seu carácter universal e perpétuo. O abuso da legislação dando o carácter de lei a disposições jurídicas de efectivação ocasional, conjuntural e efémera.

1.4. A constituição de princípios e preceitos inalteráveis na efectivação ou positividade do Direito. Distinção entre princípios e preceitos.

1.5. Os princípios constitucionais como afirmação das quatro entificações de cada povo: o Estado ou sua entificação jurídica; a República ou entificação do conjunto dos seus interesses imediatos; a Nação ou sua entificação natural; a Pátria ou sua entificação espiritual.

1.6. Os preceitos constitucionais e a determinação dos regimes políticos. Os três regimes políticos possíveis. Suas formas puras: monarquia, aristocracia e democracia. Dificuldades da existência de uma única forma – pura ou degradada – de regime político e verificação de que qualquer regime é sempre uma combinação dos três regimes possíveis.

2.
2.1. A efectivação do Direito implica a prévia composição de um sistema e um sistema é a composição de formas jurídicas.

2.2. Conceito de forma jurídica: a forma enquanto tal, o significado e o conteúdo.

- A tridimensionalidade do Direito. Teoria de Miguel Reale;

- As formas jurídicas não se alteram e são constantes. O que se altera é o sistema das formas jurídicas ou sistemas do Direito.

2.3. Cada sistema do Direito implica uma Filosofia do Direito na qual se afirma o princípio do qual o sistema se deduz dando predomínio à forma jurídica que directamente efectiva esse princípio.

- O sistema do Direito Moderno com seu princípio na liberdade e sua forma predominante no contrato;


Justiniano

- O sistema do Direito Romano com seu princípio na justiça e sua forma predominante na propriedade;

- O sistema do Direito Grego com seu princípio na verdade e sua forma predominante na cidadania.

2.4. O Direito Moderno – sua exorbitância do contrato (Michel Villey) e sua finalidade na realização da liberdade (Hegel).

2.5. Situação da Filosofia do Direito perante o Direito:

2.5.1. Como é igualmente suspeita aos juristas, sobretudo em épocas ou doutrinas políticas de segura imposição do Direito Positivo.

2.5.2. Como o Direito, quando em épocas de crise ou perante doutrinas políticas que o minoram e até destituem (a favor, por exemplo, da economia), se socorre da Filosofia do Direito.

2.5.3. Como a actual valorização e absolutização dos “Direitos do Homem” faz ressurgir a questão do Direito Natural e, em consequência, a Filosofia do Direito.

2.5.4. Como as obras clássicas de Filosofia do Direito – desde a República, de Platão aos Princípios da Filosofia do Direito, de Hegel – são um recurso constante e inesgotável do pensamento jurídico.

2.5.5. Como a promoção do Direito Comparado, a exemplo do que aconteceu com a Literatura Comparada em relação à Estética e à Poética, é utilizado para substituir a Filosofia do Direito.

2.5.6. Como, sem a fundamentação filosófica, o direito é minimizado em mero instrumento, se não em útil “super-estrutura” sociológica: actual inversão desta atitude.


TEOLOGIA

1. Teologia e Filosofia:


1.1. Teses actuais opostas:

a) “Não há filosofia sem teologia” (Álvaro Ribeiro);
b) “Nada de teológico deve interferir no pensamento filosófico” (M. Heidegger).

1.2.Razão e Crença (Santo Anselmo).


2. Teologia e Mitologia:


2.1. A mitologia como teologia que se ignora.

2.2. A Mitologia como pensamento filosófico essencial (Eudoro de Sousa).


Athena

3. Teologia e Religião:


3.1. A teologia derivada da revelação religiosa: o pensamento judaico.

3.2. A religião derivada do sacramento, isto é, como o que religa no céu o que foi ligado na terra: o pensamento cristão.

3.3. Razão e Fé.


4. Teologia e Teodiceia (ou defesa de Deus perante a existência do mal). O problema do mal:


4.1. O mal na mitologia: o maniqueísmo.

4.2. O mal na filosofia antiga (pré-cristã):

a) O mal não tem existência real;
b) O mal é a privação do bem.

4.3. O cristianismo e o mal:

a) “o mal existe, é imoral negá-lo" (Leonardo Coimbra);
b) “toda a criatura geme” (Santo Agostinho).

4.4. A tese de que na natureza não há mal.

4.5. O mal como instigação:

a) Demonologia e erro;
b) O satanismo.

4.6. A tese de que o mal reside na acção dos homens sobre os homens. Hobbes. Justificação do Direito.

4.7. O mal e o erro: a educação ética do homem.

4.8. A negação da realidade do mal como fundamento das doutrinas políticas ateístas.

4.9. Ontologia do mal: mal e mistério.

4.10. Fenomenologia do mal:

a) Distinção entre doença e dor;
b) Distinção entre mal e sofrimento;
c) Explicação da morte.

5. A ideia de Deus

6. Teísmo, ateísmo e antiteísmo


FILOSOFIA DA HISTÓRIA
1

1.1.Temporalidade e historicidade. A natureza não tem história. O homem como ser de tempo e o único ser de história.

1.2. Existência histórica e existência anónima (Heidegger).

1.3. O cristianismo e a historização da divindade e do espírito. A ideia da finalidade da existência histórica: redenção e liberdade. História e escatologia, história e universalidade ou a história como história universal.

1.4. A ciência da história. A tese de que não há ciência da história (providencialismo). A tese de que a história é a única ciência (K. Marx). A polémica contra o historicismo (K. Popper).

1.5. A história para a ciência da história: tradição, actualização e revolução; o que é constante, o que permanece e o que se repete; a realização da ideia (Hegel), o eterno retorno (Nietzsche) e o progresso infinito (nihilismo).

Frederico Nietzsche

2.
2.1. A ciência da história como descrição e explicação da acção humana:

a) História dos acontecimentos;
b) História das personalidade;
c) História dos povo;
d) História das culturas;
e) História das civilizações

2.2. A causalidade histórica:

a) Como sucessão temporal (positivismo);
b) Como vontade e projecto dos homens (Zurara, A. Herculano, Oliveira Martins);
c) Como pensamento ou actividade do espírito (providencialismo, finalismo, Sampaio Bruno, Hegel);
d) Como condição da formação, existência e perduração das sociedades: a geografia (M. Block, Orlando Ribeiro), as etnias (C. Levi-Strauss), as instituições (Jhering, Paulo Merea), os costumes (Michelet), a economia (K. Marx, A. Sérgio), a religião (Bernardo de Brito, Sampaio Bruno), a medicina (Michel Foucault), a língua (estruturalismo), como condições da realidade histórica;
e) A negação da causalidade em história (estruturalismo, “nova história”).

2.3. As principais concepções filosóficas da história:

a) A concepção de que a existência histórica é um ocasionalismo ocorrido da sucessão temporal ou resultante das condições pré-existentes e decorre sem finalidade nem, portanto, universalidade (o universal é aí substituído por totalidade e uniformidade);
b) A concepção de que a história tem uma finalidade, é portanto universal, e decorre linearmente para essa finalidade embora sujeita a interrupções ou desvios acidentais; a condução ao seu movimento universalista cabe directamente e periodicamente a um povo, a uma cultura, a uma civilização;
c) A concepção de que a história tem finalidades múltiplas e decorre por ciclos de progresso e regresso, de ascensão e decadência (O. Spengler, A. J. Toynbee).



Oswald Spengler

Continua

domingo, 16 de maio de 2010

Curso de Filosofia Portuguesa (iii)

Escrito por Orlando Vitorino



Scuola di Atene, de Rafael Sanzio


HISTÓRIA DA FILOSOFIA I

HISTÓRIA DA FILOSOFIA UNIVERSAL

1
1.2. A filosofia como universal no sentido de que tem o uno por fim e princípio do pensamento.

Implicações:

a) A unidade do conhecimento, a complementaridade enciclopédica de todas as ciências e a sua sistematização unitiva (implícita ou explícita). O exemplo da filosofia antiga, designadamente do platonismo e do aristotelismo. O exemplo da escolástica, designadamente “A redução de todas as ciências à Teologia”, de S. Boaventura. O exemplo do idealismo e a “Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Compêndio”, de Hegel;

b) Dificuldades que a universalidade dos conhecimentos levanta à autonomia das ciências em relação à filosofia, uma vez que é ela que garante a universalidade do conhecimento;

c) As tentativas ou tendências epistemológicas de substituir a filosofia pela matemática na fundamentação unitária do conhecimento.

1.2. A filosofia como universal no sentido de que envolve, não na sua versão ou movimento para o uno mas na sua variedade, o pensamento singular de todos os filósofos, sentido implícito em todos os pensadores incluindo os de expressão não-filosófica e virtual ou actual em todos os povos, civilizações, culturas e línguas.

1.3. A questão decisiva da História da Filosofia:

É a história da filosofia universal, no sentido de que toda a filosofia é pensamento para o uno? Ou é ela a história universal da filosofia, a da variedade e singularidade de todo o pensamento?

No segundo sentido tem sido elaborada a generalidade das Histórias da Filosofia; no primeiro sentido a entendem aquelas que, não elaboradas expressamente, estão implícitas nos sistemas filosóficos: no positivismo, por exemplo, com sua “lei dos três estados”. Uma única foi expressamente elaborada neste primeiro sentido: a “História da Filosofia Universal” de Hegel.

1.4. Outro modo de apresentar a questão anterior pela interpretação, comparação e discussão da afirmação aristotélica:

há uma filosofia natural ao género humano

e da afirmação de Heidegger

não há filosofia chinesa, nem filosofia hindu, mas só há filosofia europeia


2. Os sistemas universais (ou universalistas) da história da filosofia:


2.1. O platonismo:

“Toda a filosofia é reactualização do platonismo” – Leonardo Coimbra.






“Filosofia e metafísica são o mesmo e toda a metafísica é uma construção do platonismo” – M. Heidegger.

2.2. O aristotelismo ou a versão realista do idealismo platónico.

2.3. O agostinianismo ou a origem da modernidade:

2.3.1. A prioridade absoluta da vontade e a destituição da prioridade do pensamento; de Santo Agostinho a Duns Escoto, de Duns Escoto a Descartes e a Kant.

2.4. O tomismo e a questão da filosofia cristã, ou a relação entre filosofia e teologia.

2.5. O espiritualismo: meditações metafísicas de Descartes, a irrealidade do mundo sensível e a formação da ciência moderna.

2.6. O idealismo alemão. Kant, Fichte, Schelling e Hegel.

2.7. O existencialismo e a ontologia de Heidegger: seu predomínio no pensamento dos nossos dias. Explicação desse predomínio.


HISTÓRIA DA FILOSOFIA II

HISTÓRIA DAS FILOSOFIAS NACIONAIS

1.º SEMESTRE

1. Introdução


1.1. A questão das filosofias nacionais.

Sua posição por Álvaro Ribeiro em O Problema da Filosofia Portuguesa (1943). Repercussão da questão em Espanha, no Brasil (o grupo da Revista Brasileira de Filosofia dirigida por Miguel Real) e nos países hispânicos da América (Eduardo Nicol).

1.2. A filosofia como pensamento no homem, sua realização como pensamento do homem. Estudo desta distinção sobre textos de Platão, Heidegger e José Marinho.

1.3. Como pensamento do homem, a filosofia é sempre filosofia situada e radicada na história, no povo, na língua e, por essa radicação, se apresenta como filosofia nacional.

Interpretação, compreensão e discussão das afirmações de:


HEGEL:

a) “A filosofia é filha do tempo”;
b) “Não há povo que exista sem metafísica”.


HEIDEGGER E ÁLVARO RIBEIRO:

a) “a palavra é a morada do ser”;
b) “não há pensamento sem palavra”.


Relação destas últimas afirmações com as teses da linguística moderna de que o significado (pensamento) reside no significante (palavra) e de que o mesmo pensamento (filosófico) está contido, virtual ou expressamente, em todas as línguas e culturas.

2. História da Filosofia Alemã:


2.1. As origens recentes (J. Böhme e Lutero) e o complexo perante a filosofia clássica: helénica, islamita, latina.

2.2. Do Romantismo (Goethe, Herder, Schlegel) para o idealismo alemão:

a) Kant e o fim da Escolástica;
b) Fichte e os “Discursos à Nação Alemã” como um dos acontecimentos mais importantes da história universal (N. Hartmann) por ter dado à Alemanha a consciência de povo;
c) Supremacia do pensamento alemão na filosofia contemporânea: de Hegel a Heidegger.

2.3. A língua alemã como a mais excelente para a expressão do pensamento filosófico (Hegel), sua aproximação do grego e superioridade sobre o latim (Heidegger).

2.4. A prioridade da vontade e da acção.


Martinho Heidegger


3. História da Filosofia Francesa:


3.1. O racionalismo cartesiano. Leitura do livro de Glucksmann “Descartes c'est la France”. Interpretação da afirmação de Hegel: Com Descartes, a filosofia, como um navio durante muito tempo perdido no mar, pôde enfim gritar: Terra!

3.2. A perfeição estilística da língua francesa: Pascal e a literatura neo-clássica.

3.3. Rousseau: a sua filosofia política em cotejo com a filosofia política hegelina; a sua filosofia da natureza em cotejo com a filosofia da natureza de Schelling.

3.4. O positivismo de Augusto Comte ou o triunfo do cientismo fundado no cartesianismo. Sua adopção como doutrina do republicanismo português e sua formação do estado brasileiro.

3.5. Actualidade: o existencialismo de Sartre, a moderna etnologia (C. Levi-Strauss), a psicanálise de J. Lacan, o estruturalismo de M. Foucault, a “nova história”.


HISTÓRIA DA FILOSOFIA II

HISTÓRIA DAS FILOSOFIAS NACIONAIS

2.º SEMESTRE


4. Outras filosofias nacionais estudadas, como as anteriores, enquanto filosofias situadas.

4.1. História da Filosofia Inglesa.
4.2. História da Filosofia Italiana.
4.3. História da Filosofia Espanhola.


5. História da Filosofia Portuguesa:





5.1. Secular latência de uma filosofia mergulhada e oculta na acção. O Leal Conselheiro de D. Duarte, primeira expressão, na Europa, do pensamento filosófico em vernáculo.

5.2. A longa persistência do aristotelismo. A nova escolástica. Livros portugueses, as Sumas Lógicas de Pedro Hispano (séc. XIII) e as Instituições Dialécticas, de Pedro da Fonseca (séc. XVI), como compêndios para o ensino da lógica em toda a Europa, até ao séc. XIX.

5.3. Os percursores: Pinheiro Ferreira, Antero, Amorim Viana e Sampaio Bruno.

5.4. A originalidade filosófica: o criacionismo de Leonardo Coimbra. Crítica da ciência, teoria da memória, doutrina do humanismo, teoria do pensamento integral.

5.5. A sistematização realista: Álvaro Ribeiro, doutrina do Estado, doutrina da razão e teoria da educação.

5.6 A sistematização metafísica: José Marinho e a Teoria do Ser e da Verdade.


FILOSOFIA E TEORIA DA ECONOMIA


1. Distinção, e respectivas noções, entre teoria da economia, ciência da economia e prática da economia.

1.1. A prática económica inerente à existência das sociedades.

1.2. A remota e longa tradição (mas sem se constituir como teoria nem ciência) da reflexão sobre a economia: de Xenofonte a David Hume.

1.3. A recente formação da ciência da economia: de Quesnay a Adam Smith.

2. Como na formação da ciência da economia e seu desenvolvimento se prolonga a polémica que sempre contrapôs a intervenção dos poderes públicos na economia e a liberdade da actividade económica. A teoria do imposto, de Ricardo.

3. Intervencionismo e liberalismo:


3.1. Como o liberalismo económico tem sido confundido com o liberalismo político embora não se identifique com ele nem o tenha por condição.

3.2. Os clássicos da ciência económica são os clássicos do liberalismo económico: Adam Smith, Malthus, S. Mill. J.B. Say, F. Bastiat. O que há de constante e de difuso nas suas concepções.




3.3. Como o intervencionismo se tem apresentado com diversas designações e formas:

a) O bulionismo português e espanhol (séc XVI e XVII);
b) O mercantilismo francês (séc XVIII, Colbert);
c) O proteccionismo inglês inspirado pelo judeu português Isaac Pinto (séc XVIII);
e) O justicialismo do inglês Godwin (fins do séc XVIII);
f) O socialismo (sécs. XIX e XX);
g) O keynesianismo contemporâneo;
h) Hoje, o intervencionismo apresenta-se, nos EUA, com a designação de liberalismo.

3.4. A questão do livre-cambismo como exemplar da polémica entre o intervencionismo e o liberalismo. Sucessivas formas da questão desde o séc. XVI em Portugal até aos nossos dias na União Europeia.


4. O triunfo contemporâneo do intervencionismo como doutrina e prática do socialismo:


4.1. Predomínio das razões de interesse social sobre as leis da ciência económica. Resultados obtidos.

4.2. Consequente ostracismo, revisão e reactualização do liberalismo clássico pelo neoliberalismo contemporâneo: A Escola de Viena, K. Menger, W. Pareto, Walras, L. von Mises, F. Hayek, M. Friedman. A polémica entre Keynes e Hayek.


5. L. von Mises e a economia como filosofia: o tratado A Acção Humana, equivalente neoliberal do tratado de A. Smith A Riqueza das Nações:


5.1. F. Hayek e a transição da teoria económica à Filosofia do Direito: Law, Legislation and Liberty.


6. A persistência do socialismo deixa de significar a persistência do intervencionismo. É uma persistência política e não económica. A partir de 1946, o socialismo adopta a economia preconizada pelo neoliberalismo. As razões daquela persistência e as condições das sociedades contemporâneas: economia e demografia, J. Monnet, A Comunidade Económica Europeia. Capacidade de conciliação com o formalismo dos diversos regimes políticos.








7. Os problemas permanentes na ciência económica:


a) A inflação: seu carácter cíclico; sua origem na emissão de moeda;
b) O desemprego: a taxa natural de desemprego; o desemprego voluntário; a miragem do pleno emprego;
c) O crescimento económico;
d) A recessão;
e) Diversidade de explicações. Diversidade de soluções.


8. As categorias económicas:


8.1. Não há ciência sem categorias. Noção de categoria.

8.2. As categorias económicas:


1.ª A PROPRIEDADE


- Distinção entre propriedade e posse;
- Os fisiocratas e a fundamentação do Estado na propriedade;
- Formas de propriedade: a do corpo, a da terra, a da indústria;
- Propriedade e liberdade;
- Propriedade e justiça;
- Argumentos e práticas para a abolição da propriedade: a expropriação revolucionária, os impostos - ou progressivos ou sem limitação constitucional.


2.ª O MERCADO


Articulação do mercado com a propriedade.

Os quatro princípios da categoria de mercado:

1. A lei da oferta e da procura;
2. A relação universal entre mercadorias;
3. A informação necessária ao planeamento da produção;
4. A determinação real do preço.


3.ª O DINHEIRO


- A questão de o dinheiro ser ou não uma mercadoria;
- O abandono do padrão-ouro e o equilíbrio entre a quantidade da moeda e a quantidade das mercadorias;
- O dinheiro como sinal convencional e a origem do papel moeda;
- Preço e poder aquisitivo do dinheiro;
- O sistema monetário internacional, o acordo de Bretton Woods e o FMI.


9. Contribuição portuguesa para a teoria económica:


a) A neo-escolástica;
b) O relatório de Diogo Gomes Solis;
c) A internacionalização do mercado;
d) O bulionismo;
e) O direito de propriedade levado para a Holanda pelos judeus portugueses expulsos como causa do que se tem atribuído à “Revolução Industrial”.



Continua

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Curso de Filosofia Portuguesa (ii)

Escrito por Orlando Vitorino



Mona Lisa


ESTÉTICA E POÉTICA I


1. Distinção entre Estética e Poética:


1.1. Formação recente da Estética.

Carácter clássico da Poética.

1.2. Estética: estesia, arte e sensação, arte e sentimento, romantismo e modernismo.

Poética: o fazer da obra de arte, a imitação da natureza, a imaginação, a especulação intelectual.

1.3. A sobreposição moderna da estética à poética, seu apoio no predomínio da filosofia alemã, sua adequação à situação actual da filosofia e do mundo, o que se perdeu e o que se ganhou.


2. A Poética na Pintura:


2.1. A obra de arte como “cosa mentale” (Leonardo da Vinci) e como especulação (Velasquez).

2.2. A natureza ou o mundo sensível como espelho e imagem do mundo inteligível; a obra de arte como espelho do mundo sensível, imitação da natureza ou imagem da imagem do mundo inteligível.

Leitura comparada do “Tratado da Pintura”, de da Vinci, e de “Las Meninas”, de Velasquez.


3. A Estética na Pintura:


3.1. A dissolução da realidade do mundo sensível; graus sucessivos da dissolução:

a) As imagens diluídas: do romantismo ao impressionismo;
b) A abstracção do real: da não-figuração ao abstraccionismo;
c) A imagem dirigida à sensação;
d) A desfiguração do real (surrealismo);
e) A desertificação e desolação do mundo (Paula Rego);
f) A realidade destroçada (Picasso).

3.2. As 52 cópias que Picasso fez de “Las Meninas” de Velasquez. Sua interpretação como sumário da distinção entre Poética e Estética.


4. A Poética e a Estética na escultura: seu paralelo com a pintura.


5. A Poética e a Estética na arquitectura:


5.1. Dissolução da arte arquitectónica no actual condicionalismo social.

5.2. Submersão da arte arquitectónica na tecnologia da construção.

5.3. A definição do lugar como última presença da “imitação da natureza”.

5.4. Inviabilidade da estética na arquitectura.


6. O pensamento estético e o pensamento poético substituídos pela história da arte.

ESTÉTICA E POÉTICA II


1. Teoria da Literatura:


1.2. Os valores literários. Como a literatura é mais inacessível à estética por ter os seus valores além da sensação, do sentimento e da estesia, e como se encontra na poética a expressão do pensamento que lhe é próprio.

Valores literários e géneros poéticos.

1.3. Acesso à ontologia dos géneros poéticos a partir da concepção de Álvaro Ribeiro do conteúdo do conto – narrativa do maravilhoso –, da novela – uma narrativa de aventuras – e do romance – narrativa de amor.

1.4. Como cada género poético tem o arquétipo duma obra literária: a epopeia na Divina Comédia, de Dante e n' Os Lusíadas, de Luís de Camões; o romance no D. Quixote, de Cervantes e no Ulisses de James Joyce; a lírica nos Sonetos de Petrarca e na Vida Etérea, de Pascoaes; o teatro na Antígona, de Sófocles e no Hamlet, de Shakespeare. Exposição e interpretação dos arquétipos.




2. A literatura contemporânea como literatura de crise:


2.1. A crise do romance.

A breve época do romance: género menor antes do séc. XIX, género inviável hoje.

Explicação da inviabilidade actual do romance: por sua inerência à burguesia e dissolução actual da burguesia ou por seu conteúdo (narrativa de amor) e pela actual redução do amor à relação sexual.

2.2. A crise do conto.

Explicação pelo prestígio dos triunfos da técnica e sua absorção do maravilhoso (conteúdo do conto).

2.3. A crise da novela

Explicação pela exigência universal de segurança social com a consequente recusa pessoal da aventura (conteúdo da novela).

3. Do teatro de crise ao domínio da tecnologia do espectáculo


3.1. O teatro como unidade embrionária de todas as artes poéticas e estéticas. Sua presença predominante nos principais tratados de poética, o de Aristóteles e de estética, o de Hegel.

Ontologia dos géneros teatrais:

a) Conceito de teatro: o actor e o autor;
b) A tragédia, o conflito irredutível e a morte inevitável;
c) O drama e o conflito abertos à redução pela liberdade;
d) A farsa e o riso que esconde o medo da morte;
e) A comédia e a ironia que descobre o vazio dos conflitos sociais.

3.2. O teatro que se interroga perante a situação do mundo contemporâneo (eliminação da metafísica e decomposição do real).

3.2.1. Pirandello: a essência da existência no vazio (ver Metafísica, 1.4) e a fantasmagoria das personagens sem autor.

3.2.2. Ionesco e o absurdo da linguagem.

3.2.3. Beckett e o não-ser como absurdo.

3.2.4. Eliminação da metafísica e a impossibilidade da tragédia: o pacifismo.

3.3. A invasão do teatro pela tecnologia.

3.3.1. O predomínio da encenação como preparação para reduzir o teatro à espectacularidade de que a técnica se vai assenhorear.

3.3.2. Assim como a fotografia capta, à pintura, a imagem do real, assim o cinema capta, ao teatro, a espectacularidade. O gigantismo do espectáculo cinematográfico e a excrescência da palavra.

3.3.3. Charlie Chaplin e a tentativa de transportar para o cinema o circo e o melodrama. Ingmar Bergmann e a tentativa de transportar para o cinema o drama e a comédia teatrais. F. Fellini e a linguagem onírica como a única linguagem artística acessível ao cinema.

Charlie Chaplin


4. O cinema e o gigantismo:


4.1. O gigantismo, tendência do mundo contemporâneo. A dimensão como categoria prioritária do espectáculo. Exemplos: desde os espectáculos musicais para assistências de centenas de milhares de espectadores presentes até aos edifícios como o que se está a construir em Hong-Kong para 50.000 moradores.

4.2. O cinema (com seus derivados: televisão, etc.), a dimensão planetária do espectáculo e a massificação do espectador. Massificação e espectador, termos contraditórios.

4.3. Absorvido o teatro e dando ao espectáculo uma dimensão planetária (capaz de no mesmo instante ser apresentado, já pela televisão, cada vez mais pelos aperfeiçoamentos da cibernética, a todas as populações do globo), o cinema adquire o carácter de uma produção exclusivamente industrial que o equipamento norte-americano domina. As tentativas da Comunidade Europeia para contornar esse domínio.


ANTROPOLOGIA

1. O homem como unidade, composto ou síntese, de corpo, alma e espírito:


1.1. Doutrinas antropológicas da unidade indecomponível do ser humano: o individualismo. Fundamentos filosóficos destas doutrinas: a indivisibilidade do tempo e do espaço e a negação do movimento; a indivisibilidade da matéria e os problemas do atomismo (os indivisibilia e os infinitésimos); a indivisibilidade das formas enquanto substâncias dos corpos.

1.2. Doutrinas antropológicas da separação dos componentes do ser humano: o dualismo alma e corpo. Variedade deste dualismo: a do platonismo, a do cristianismo e a do cartesianismo.


2. O corpo humano ou o homem como ser de natureza:


2.1. Os orgãos e as funções.

- Uma função sem orgão específico: a fala;
- As funções que persistem para além da destruição dos seus orgãos específicos;
- Determinação orgânica, ou natural, e determinação não-orgânica, ou sobrenatural das funções realizadas pelo corpo. O corpo como mediador e o corpo como determinante.

2.2. A sexualidade (ou cisão) no corpo humano:

a) A sexualidade pelas idades do corpo: o que se cinde e o que permanece no trânsito da infância e puberdade para a adolescência, da adolescência para a maturidade, da maturidade para a velhice;

Grace Kelly

b) A sexualidade pelas diferenças étnicas: o que distingue e o que assemelha etnicamente os corpos no poder genético, na resistência ao esforço, na entrega à acção;

c) A sexualidade como condição da conservação da espécie: o que separa e o que une, o feminino e o masculino, a carência e o desejo;

d) A sexualidade absoluta e a morte do corpo.

2.3. O corpo humano como vegetal (Platão) e como máquina (Descartes, Harvey). Carácter crescentemente técnico da medicina: o diagnóstico por análise laboratorial e o diagnóstico por audição e interpretação das palavras do doente ou redução da medicina à cirurgia e abertura da medicina à psicologia e pneumatologia. Distinção entre doença e dor ou entre doenças e doentes.


3. A alma ou o homem como ser dependente, limitado e afectivo:


3.1. A entificação da alma.

O princípio da individuação.
O amor: amor dos corpos, amor das almas, amor social, amor cósmico.

3.2. A ciência da alma ou psicologia.

A psicologia enquanto mitologia: Eros e Psique.

A psicologia integrada na teologia e na religião: a imortalidade da alma.
As paixões da alma e a determinação da alma pelo corpo.

A separação extrema da alma e do corpo com a redução da psicologia a uma epifenomenologia somática.

3.3.A renovação da psicologia pela psicanálise.

A alma como consciência.

A consciência pré-determinada: das raízes da consciência ao subconsciente e ao inconsciente.

O inconsciente como heredo ou herança pessoal (Léon Daudet), como arquétipo colectivo e mítico (Jung), como recalque pessoal e social (Freud).

Sigmund Freud

3.4. Relação do inconsciente com o instinto num sentido (antropologia cultural), com o espírito noutro sentido (pneumatologia).

Pneumatologia e autognose.

Interpretação hegelina da psicologia aristotélica: restituição da alma ao espírito.

Consciência e personalidade.

As doutrinas da pessoa humana: responsabilidade e liberdade.


LÓGICA

1. A Lógica entendida como conhecimento das condições para que o pensamento seja possível (Platão):


a) Do [hiato no texto] ao Logos;
b) A comunicação das ideias.


2. A Lógica entendida como o processo do pensamento:


a) O Organon aristotélico;
b) A predicação;
c) As categorias;
d) O silogismo.

3. A Lógica entendida como arte de pensar:


a) A Escolástica;
b) O cartesianismo de Port-Royal;
c) A Lógica Formal.


4. A Lógica entendida como formação dos juízos: “pensar é judicar” (Kant).


5. A Lógica entendida como metafísica (Hegel):


a) “... a lógica é o pensamento de Deus antes da criação do mundo”;
b) A metafísica é “a ciência da lógica”.


6. A Lógica entendida como logística (ou ciência do raciocínio segundo o modelo da abstracção matemática):


a) Reversão à Lógica Formal.


7. A Lógica entendida como expressão do pensamento (Álvaro Ribeiro):
a) Prioridade da linguagem: o homem é o único que pensa e o único que fala;
b) Filologia: distinção, na palavra, entre significante e significado;
c) Linguística moderna: identidade, na palavra, do significante e do significado ou o pensamento como “isso que fala” (J. Lacan).


8. A Lógica entendida como Dialéctica:


a) A contradição;
b) O “raciocínio bastardo” de Platão: conhecimento do que é mediante o conhecimento do que não é, do ser pelo não-ser;
c) Dialéctica hegelina: tese, antítese, síntese, ou ser, não-ser e devir.


9. Termos da Lógica e diversidade dos seus significados nos diversos sistemas de Lógica:


a) Ideia, noção e conceito;
b) Logismo e juízo;
c) Predicado e atributo;
d) Predicação e categoria;
e) Razão e intuição;
f) Raciocínio e silogismo.


10. A Lógica no pensamento filosófico português:


a) A Lógica formal da Escolástica ensinada pelos compêndios de Pedro Hispano e Pedro da Fonseca em todas as escolas da Europa desde o séc. XII até finais do séc. XVIII;

b) A doutrina do “pensamento integral”, de Leonardo Coimbra: pensamento comum, pensamento analógico, pensamento especulativo;

c) A doutrina da razão, de Álvaro Ribeiro: A Arte de Filosofar.

Continua

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Curso de Filosofia Portuguesa (i)

Escrito por Orlando Vitorino





CURSO DE FILOSOFIA PORTUGUESA DE ORLANDO VITORINO


«Entre nós, na fase da candura, nos seus bons tempos, os redactores das "Farpas" definiram duma vez a instrução oficial, dando-lhe o nome que lhe compete: uma canalhice pública».

 Sampaio Bruno («Notas do Exílio»).


Tratemos, agora, por dar a conhecer um verdadeiro Curso de Filosofia Portuguesa. E quem, na verdade, melhor que Orlando Vitorino nos poderia dar esse privilégio perante uma instituição universitária que se acha nos antípodas da tradicional sabedoria do povo português? Logo, de um Curso se trata segundo os princípios, as noções e as teses da filosofia portuguesa, o qual, porventura, chegou a ser compulsado no Ministério da Educação com vista à sua eventual realização no chamado ensino superior.

Deveras, porém, ia o mesmo para além daquilo que um tal Ministério poderia alguma vez compreender enquanto instituição positivista subordinada aos sistemas de cultura estrangeira com suas habituais metodologias - sempre estéreis, diga-se de passagem - à margem da cultura nacional. Limitar-se-ia, pois, o programa a andar de gabinete em gabinete, ou quiçá de mão em mão por entre funcionários inaptos para a missão educativa do povo português, como debalde andaria igualmente Manuel Ferreira Patrício, à época Director-Geral do Ensino Superior (1993-96), havendo, na melhor das hipóteses, procurado esboçar na Universidade de Évora algum do potencial filosófico de um tão inusitado quão cabal e exigente programa. 

Barragem de Montargil

Correndo, então, o ano de 1996, prevalecia, decerto, na Universidade o vício pombalino, dando disso comprovado testemunho o correspondente plano curricular para efeitos dum diploma na «área disciplinar da filosofia». Por outras palavras, o que se ensina hoje nas Faculdades de Letras, a começar na Universidade de Lisboa, é o que se encontra sobretudo estipulado na divisão da História da Filosofia em antiga, medieval, moderna e contemporânea, de modo a traduzir «a conveniência de uma rotina consagrada pela internacionalidade», conforme, aliás, dissera já Álvaro Ribeiro em «A História da Filosofia e o Ensino Universitário» (1947), mormente no que respeita à predominância do positivismo no ensino público.

Curial será, portanto, dizer que a herança pombalina no ensino superior, como daí necessariamente em todo o ensino, permanece praticamente incólume na base de um falso universalismo que impede, segundo Álvaro Ribeiro, «a inegável pluralidade de aspectos etnológicos e filosóficos». E de tal forma impede que Orlando Vitorino chegara a incluir no seu Curso duas «cadeiras» de História da Filosofia para, atendendo à sua veraz universalidade, divisar a história do pensamento segundo um critério de origem filológica subjacente à diferenciação por idiomas e povos. Logo, se a filosofia é pensamento para o uno envolvendo o pensamento singular de todos os filósofos, daí naturalmente se impõe a magna questão das filosofias nacionais onde lugar de honra cabe ao ilustre pensador português Álvaro Ribeiro.

Fácil é, pois, ver como um Curso desta propensão espiritual pudesse alguma vez ter lugar em instituições cujo universalismo abstracto e utópico reproduz unicamente o que em regra geral grassa nas universidades da Europa Central. Todavia, «como pensamento do homem – que, segundo Orlando Vitorino, importa distinguir da filosofia como pensamento no homem – a filosofia é sempre filosofia situada e radicada na história, no povo, na língua e, por essa radicação, se apresenta como filosofia nacional». E assim sendo, abolida está a filosofia do ensino hodiernamente assente na vulgarização de uma sociologia internacional condicionada pelo mais linear progresso da humanidade.

Para Orlando Vitorino, também a Lógica assume, na senda de Álvaro Ribeiro, uma superior relevância no pensamento filosófico português. E, de facto, assim é porque foram sobretudo os Portugueses, através das súmulas de Pedro Hispano e Pedro da Fonseca, que mais contribuíram para preservar, quando não mesmo inovar, a forma lógica de pensar e de filosofar das escolas europeias até à época de Kant. Assim, desde a lógica entendida no sentido do Organon de Aristóteles, passando pelo seu desvio com o cartesianismo de Port-Royal até à Lógica decaída em logística, eis o que Orlando Vitorino dá como necessariamente susceptível de ser profundamente repensado por um povo a quem, nas últimas duas centúrias, amiúde se tem recusado o reconhecimento de um pensamento original.
No fundo, é como se Orlando Vitorino nos dissesse, fazendo suas as palavras de Delfim Santos, que «Aristóteles é o pensador sempre presente em todos os momentos da especulação nacional». Deste modo, face aos sistemas que a filosofia nórdica vai sempre impondo mediante as várias instituições escolares ou universitárias, o que importa é a actualização da filosofia de Aristóteles no prosseguimento das tendências da cultura portuguesa patentes no aristotelismo da escolástica medieval, bem como no aristotelismo da neo-escolástica conimbricense.

Aqui é, decerto, inegável o ascendente espiritual de Álvaro Ribeiro no pensamento de Orlando Vitorino. Aliás, outros aspectos não menos importantes decorrentes desse ascendente espiritual estão já magistralmente delineados em Apologia e Filosofia:

«Para caracterizar a filosofia de qualquer homem ou de qualquer povo é indispensável proceder por convergência de três caminhos, isto é, estudar as suas três ciências fundamentais: teologia, antropologia e cosmologia».

Sabia, por conseguinte, Orlando Vitorino quão imperfeito incorreria um Curso de Filosofia Portuguesa que dispensasse a ideia de Deus, a ideia de Homem e a ideia de Cosmos. Por isso, no que à Teologia respeita, duas teses opostas são desde logo enunciadas: a de Álvaro Ribeiro, segundo a qual «não há filosofia sem teologia», e a de Martinho Heidegger, para quem «nada de teológico deve interferir no pensamento filosófico». Ora, evitando assim a separação entre filosofia e teologia - tal como recorrente no meio universitário -, menciona Orlando Vitorino o princípio escolástico de Santo Anselmo enquanto princípio que, entrecruzando a razão e a fé, afirma não obstante a prioridade da crença sobre o pensamento. E daí, pois, a necessidade que há desde logo em destrinçar os conceitos de teísmo, ateísmo e antiteísmo, configurando-se, inclusive, o ateísmo como «um caso de analfabetismo» conforme já assim concluíra Álvaro Ribeiro.

Além disso, Orlando Vitorino, igualmente sensível à natureza misteriosa do mal, sabia perfeitamente como este podia causar perturbação, perplexidade e escândalo de todos quantos afirmam a existência de Deus. De sorte que, no desdobramento do próprio Curso, surgem expressões como «Ontologia do mal: mal e mistério», ou ainda a «tese de que na natureza não há mal». Em suma: para o autor d'A Fenomenologia do Mal, a morte, a dor e o erro não são simplesmente formas ou manifestações do mal como se este fosse naturalmente intrínseco à natureza do ser humano.


Quanto à Antropologia, já o essencial passa por afirmar o homem como um composto de corpo, alma e espírito. Referenciadas, todavia, as doutrinas da «unidade indecomponível do ser humano», baseadas na indivisibilidade do espaço e do tempo, seguem-se as doutrinas da separação dos componentes do homem no platonismo, no cristianismo e no cartesianismo. Daqui incorrem, portanto, várias implicações por entre as quais figura a redução da psicologia, por separação extrema da alma e do corpo, a uma epifenomenologia em que não mais a «alma» é a forma do corpo.

Mas, longe disso, Orlando Vitorino revela-nos que o corpo humano, com sua figuração apolínea, traz oculto um outro corpo menos corruptível, de uma natureza mais subtil e essente. De modo que, sendo o corpo uma manifestação do espírito, funções há que sempre «persistem para além da destruição dos seus orgãos específicos». Assim, no corpo humano às funções orgânicas subjaz um duplo dinamismo psiconoético mediante o qual se vão formando e evoluindo as duas espécies de almas no género humano.

Temos, então, o carácter sexuado da humanidade. Logo, encarando a «sexualidade pelas idades do corpo», a par da «sexualidade como condição da conservação da espécie», realça, pois, o nosso filósofo as distinções sexuais que marcam a masculinidade e a feminilidade. Além de que, reconhece ainda como da «redução da medicina à cirurgia» se impõe, de facto, revalorizar, em contrapartida, a sua abertura à psicologia e à pneumatologia.

No tocante à Cosmologia, a distinção entre pensamento e conhecimento, ou entre filosofia e ciência, prepara o que de melhor define o seu objecto de estudo: a relação entre o natural e o sobrenatural. Ora, a breve trecho, trata-se de mostrar como a modernidade, repondo a tese da irrealidade do mundo sensível (já presente entre os gregos), representa o retrocesso do hierárquico para o orgânico e do orgânico para o mecânico. Por conseguinte, são bem diversas as questões a considerar, tais como: «A axiomática da ciência dos gregos como axiomática de todo o conhecimento científico»; «A tese da realidade do mundo sensível aparecendo com o cristianismo (a encarnação da divindade) e tornando possível a transição do carácter contemplativo da ciência antiga para o carácter activo e prático da ciência moderna»; «O desvio do cristianismo: da ciência para a tecnologia, da relação de amor e caridade entre os homens e a natureza para a violação e violência do homem sobre a natureza»; «A finalidade última da ciência moderna: determinação dos elementos indivisíveis que compõem a matéria dos corpos; caminho dessa determinação desde a célula até aos quanta. A desintegração nuclear e a biogenética»; e, por fim, o pensamento como matéria.


Contudo, nem tudo se esgota nas três ciências filosóficas fundamentais. Daí a Teoria da Economia e a Filosofia do Direito como duas ciências indispensáveis numa época de crise em que assaz predomina o Direito Positivo. Tudo aqui, em consequência, se realiza num movimento irredutível ao que se ensina nas universidades, e, nessa medida, constitui apanágio da filosofia portuguesa.

Perguntemos, pois, se à instituição universitária caberá alguma vez restituir o saber económico como saber científico, interpretando correctamente o neoliberalismo contemporâneo de Ludwig von Mises, Frederico Hayek e Martin Friedman por oposição ao planeamento irracional da economia socialista? Ou perguntemos ainda se ela poderá explicar como a persistência do socialismo é uma persistência política e não económica, logrando, no ínterim, ensinar os «princípios constitucionais como afirmação das quatro entificações de cada povo: o Estado ou sua entificação jurídica; a República ou entificação do conjunto dos seus interesses imediatos; a Nação ou sua entificação natural; a Pátria ou sua entificação espiritual»?

Ora, simplesmente não o cremos. Por outro lado, nela não mais se distingue a Estética, enquanto estesia e sensação, da Poética enquanto imitação da natureza, ao invés sobrepondo-se uma à outra por imposição moderna; depois, no que particularmente toca à Filosofia da História, outrossim ignora a Universidade como a condução do movimento universalista «cabe diferentemente e periodicamente a um povo, a uma cultura, a uma civilização», bem como ademais ignora, devido à influência da linguística moderna, o quão importante é a caracterização filológica da língua, como ainda serem a responsabilidade e a liberdade, no domínio da Ética, o seu conteúdo privilegiado.

A Metafísica, entretanto, marca o início do Curso com a afirmação de que «o mundo actual é um mundo de desolação, dominado pelo império da técnica e habitado por sociedades totalitárias». Ora perante essa desolação, distinguem-se dois pensadores: Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger. E daí, de facto, decorre a concordância «dos dois pensadores em que a situação actual do mundo e da existência é o resultado da filosofia, a última fase do seu percurso bi-milenário». Porém, o que os diferencia é o desespero de um e a esperança de outro, porquanto Heidegger, inspirado em Nietzsche, dá «a desolação do mundo – com o império da técnica e as sociedades totalitárias – por resultado iniludível do platonismo», ao passo que Leonardo, abrindo a explicação para a ciência moderna, a técnica e a tecnologia, «dá a mesma desolação por resultado de um desvio do platonismo e da plenitude filosófica que o cristianismo lhe trouxe».

Com Heidegger, em última instância, segue-se o ser e o sendo, bem como ainda a «desolação do mundo explicado pelo “esquecimento do ser”»; em Aristóteles, o «pensamento do ser enquanto ser»; de Parménides a Platão, a «transição de “o que é” à noção de “o ser”»; em Platão, a afirmação do ser implicando a afirmação do não-ser; e em José Marinho o «não-ser, ou sem-limite, como fundamento da liberdade», desvelando-se, por fim, o sentido e o alcance da desconstrução da metafísica no pensamento ocidental. 

Miguel Bruno Duarte


METAFÍSICA I

Introdução ao Pensamento Filosófico

1. Que entender por pensamento filosófico:


O ponto de vista do pensamento actual: Leonardo Coimbra e M. Heidegger.

a) Situação do ponto de vista: o mundo actual é um mundo de desolação, dominado pelo império planetário da técnica e habitado por sociedades totalitárias.

Concordância da descrição que aqueles dois pensadores fazem da desolação do mundo: o desespero de um, a esperança de outro.


Concordância dessas descrições com as utopias (ou anti-utopias) de A. Huxley, G. Orwell e Ernest Junger.

Concordância dos dois pensadores em que a situação actual do mundo e da existência é resultado da filosofia, a última fase do seu percurso bimilenário.

b) Como os dois pensadores entendem que filosofia e metafísica são o mesmo e como afirmam que “toda a filosofia é uma reactualização (Leonardo) ou o percurso (Heidegger) do platonismo”.

Como Heidegger dá a desolação do mundo – com o império da técnica e as sociedades totalitárias – por resultado iniludível do platonismo: sua inspiração nietzscheana.

Como Leonardo dá a mesma desolação por resultado de um desvio do platonismo e da plenitude filosófica que o cristianismo lhe trouxe e como esse desvio explica a ciência moderna, a técnica e a tecnologia.

c) O que é a metafísica vista pelos dois pensadores em sua presença no mundo actual: a prioridade do pensamento, para Leonardo; a prioridade do ser, para Heidegger. A “desconstrução” da metafísica preconizada pelo segundo, a reconstituição da metafísica pelo primeiro.


2. O pensamento, o ser e o real:


a) Em Heidegger: o pensamento surge na resposta ao apelo do ser. Que entende Heidegger por o ser. O ser e o sendo. Ser e tempo. A desolação do mundo explicada pelo “esquecimento do ser”.


3. (subtítulo omisso):


a) Audiência e predomínio universais de Heidegger, e a eliminação da metafísica.

Da polémica heideggeriana contra o platonismo à polémica culturalista contra toda a filosofia. A eliminação da metafísica nas doutrinas dominantes na cultura actual: positivismo, cientismo, linguística e etnologia modernas, nova história, psicanálise renovada, marxismo e estruturalismo. Sua inspiração heideggeriana e sua adulteração do pensamento de Heidegger.

b) A eliminação da metafísica e a realidade destroçada:

A fragmentação da realidade (como matéria) na tecnologia: a desintegração nuclear. A imagem da realidade deformada (como natureza) na arte contemporânea.


A tese metafísica da irrealidade do mundo sensível na origem, fundamento e possibilidade da realidade destroçada.

c) Em Leonardo:

Em vez do ser, a realidade. A noção de realidade. Sua origem no direito romano e sua introdução na filosofia pelo cristianismo.

A doutrina leonardina do “pensamento integral” – comum, analógico e especulativo – e sua correspondência com os planos do real.

A desolação do mundo explicada pela fixação numa só forma do pensamento – o comum – e redução do real a um único plano.

d) O homem, as humanidades e o humanismo no pensamento actual.

A morte de Deus e a morte do homem anunciadas por Nietzsche e “adoptadas” pelas doutrinas de inspiração heideggeriana. Ateísmo e anti-humanismo.

“O homem é uma invenção das humanidades do Renascimento” – M. Foucault e o estruturalismo.

O pensamento não é pensamento do homem mas “isso que fala” na língua. J. Lacan: a linguística moderna e a psicanálise re-actualizada.

e) Na desolação do mundo a existência é uma “errância no vazio” (Heidegger).


METAFÍSICA II

1. O Ser:


Colunas do Theseion em Atenas


1.1. A metafísica como “pensamento do ser enquanto ser” (Aristóteles).

1.2. A transição de “o que é” (Parménides) à noção de “o ser” (Platão) como transição da mitologia à filosofia ou do orientalismo à civilização europeia.

1.3. A ideia de o ser como condição necessária para que seja possível “a comunicação das ideias” ou o pensamento. (Preparação para a leitura de A República, de Platão).

1.4. A afirmação do ser implica a afirmação do não-ser. (Preparação para a leitura de O Sofista, de Platão).

1.5. O não-ser, ou sem-limite, como fundamento da liberdade. (Preparação para a leitura da Teoria do Ser e da Verdade, de José Marinho).

1.6. O não-ser e o nada. (Preparação para a leitura de O Ser e o Nada, de J. P. Sartre).

1.7. O não-ser, o tempo, a existência e a história. (Preparação para a leitura de Ser e Tempo, de M. Heidegger).


2. O Real:


2.1. Sobreposição da noção de realidade à noção de ser. A verdade como “adequação do pensamento ao real”. O pensamento desprende-se de o ser.

2.2. O recurso à noção de realidade devido ao “carácter ilusório do ser enquanto ser”.

2.3. A origem da noção de realidade, como a de juízo e a de razão, no direito romano. Res é, aí, o que resiste a toda a variedade de testemunhos, argumentos, interpretações e raciocínios. É o iniludível e o irrecusável.

2.4. Persistência, todavia, das “filosofias do ser”. Motivos.


3. Razão e Espírito:


3.1. A razão está para o real como o espírito para o ser.

3.2. O espírito como universal e o espírito como entificação. “A razão é o nome do espírito do homem” (Álvaro Ribeiro).


Álvaro Ribeiro


3.3. A razão como relação de espírito a espírito: gnoseologia. A razão como relação de conhecido a conhecido: a epistemologia.

Na gnoseologia a razão aparece como pensamento no homem. Na epistemologia: a razão como pensamento do homem. (Preparação à leitura de Verdade, Condição e Destino, de José Marinho).

3.4. Triunfo do racionalismo: a escolástica medieval como racionalismo extreme; o homo rationale da Renascença; a ciência como actividade da razão e a razão como faculdade do homem.

3.5. Malogro do racionalismo: na ciência, na política, na filosofia.
O recurso ao espírito como subjectividade (Descartes), como absoluto (Hegel), como entidade transcendente envolvente (Ortega, A. Ribeiro), como apelo do ser (Heidegger), como surgindo do não-ser (J. Marinho).


4. Espírito e experiência:


4.1. A formação da consciência e “a fenomenologia do espírito” (Hegel).

4.2. Consciência, com-saber, ou saber de si, e experiência.

4.3. Distinção entre experiência (filosofia) e experimentação (ciência): “a ciência não pensa” (Heidegger).

4.4. A experiência como o risco da vida (A Morte, de Leonardo Coimbra, e “a dialéctica do senhor e do servo”, in Fenomenologia do Espírito, de Hegel) para a formação da consciência. A interpretação da “dialéctica do senhor e do servo” como filosofia do “fim da história”: sua adopção e predominância na cultura marxista e na cultura norte-americana.

5. Doutrinas actuais condicionadas pela eliminação da metafísica:


5.1. O cientismo, com a convicção de que os resultados já obtidos pela tecnologia – em especial na cibernética e na biogenética – asseguram a aquisição do conhecimento bastante para o domínio da natureza.

5.2. O positivismo, com a lei dos três estados, que dá por ultrapassado o estado teológico e o estado metafísico e instala o pensamento nos limites do estado positivo; o neopositivismo.

5.3. O culturalismo com o abandono da noção originária da cultura como Bildung (de formação metafísica no idealismo alemão).

5.4. A linguística moderna com a sua sobreposição à filologia e o abandono da distinção (atribuível ao platonismo) entre a palavra e o significado, isto é, entre a língua e o pensamento, e a refutação da língua como expressão do pensamento.

5.5. A etnologia moderna com a equivalência das culturas de todos os povos e sua polémica contra a superioridade da cultura europeia como civilização criada pela metafísica.

5.6. O estruturalismo com a genealogia que se atribui a si mesmo pelas interpretações que faz combinando o hegelianismo, o marxismo, o freudismo, o nietzscheanismo e o heideggerianismo.

5.7. A “nova história” com o primado que reivindica para a historiografia sobre todas as ciências, com a substituição das causas que dão origem aos acontecimentos pelas condições que os fazem surgir e com a prioridade dada, entre estas condições, às condições sociológicas.


6. Os grandes temas da metafísica:


- Essência e existência;
- O uno e o múltiplo;
- O mesmo e o outro;
- O infinito;
- O universal;
- O absoluto
Continua