sexta-feira, 23 de maio de 2014

Maçonaria e Igreja Católica (ii)

Escrito por Marie-France Etchegoin e Frédéric Lenoir




«Já o Papa Leão XIII, na sua encíclica Humanum Genus (20 de Abril de 1884), aconselhava os bispos o seguinte: "Que o vosso primeiro acto seja arrancar a máscara da Maçonaria, e deixar que ela seja vista como realmente é" (n.º 31). A lei do segredo maçónico permite sempre levantar a interrogação e a dúvida sobre o que é obrigatoriamente silenciado. Na maçonaria operativa, havia a obrigação de guardar segredo, mas tratava-se de um segredo profissional, relacionado com a arte tectónica, que variava segundo as várias escolas. Não se podia revelar as técnicas. Uma coisa lógica, tal como agora não se revelam as descobertas técnico-científicas em determinadas circunstâncias ou durante um processo de investigação. Em contrapartida, na maçonaria especulativa o segredo refere-se aos ritos, àquilo que se fala nas lojas, aos nomes dos outros membros, etc. É certo que as lojas se vão abrindo cada vez mais, se bem que muito mais nos Estados Unidos do que na Europa e incomparavelmente mais do que em Espanha. Mas ainda não promoveram um open day (dia de portas abertas).

(...) Houve épocas e estratos sociais em que o nome não era apenas uma etiqueta que permitia identificar facilmente as coisas e os seres nomeados. Ele era concebido como algo inerente ao nomeado, representativo e identificado com ele. Daí que fosse único e intransferível e, frequentemente, secreto e conhecido apenas de quem estava numa união muito peculiar com o nomeado, como por exemplo os pais relativamente aos filhos e os esposos entre sí.

Daí o significado da imposição dos nomes aos animais por Adão (Gn. 2, 19-20). E também o alcance do adágio latino: nomen omen - "o nome, augúrio" do futuro ou do que virá a ser o nomeado. O nome que alguém escolhe para substituir o seu nome próprio não é omen ou "augúrio" do que essa pessoa realmente será a partir desse momento. Mas afigura-se um reflexo do que ela considera ideal, um catalisador das suas aspirações e um eco da sua verdadeira identidade interior. O mação de Palencia entrevistado pelo jornalista Julio César Izquierdo Pascua no livro Conversaciones con Um Masón chama-se "Hamlet". Evidentemente que esse não é o seu nome próprio, nem provavelmente um simples pseudónimo destinado a ocultar a sua identidade e a evitar a sua identificação. Tão-pouco se trata do seu "nome de guerra", ou seja, um nome que seja utilizado na maçonaria em tempo de perseguição ou de perigo para evitar a identificação dos seus membros. Parece ser um "nome iniciático" ou "simbólico", ou seja, um nome escolhido no rito de iniciação maçónico. O iniciado nas religiões mistéricas da Antiguidade, e também na maçonaria, é um homem renascido após a sua morte iniciática ou simbólica, representada de maneira muito realista no terceiro grau, o de Mestre. É lógico, portanto, que depois disso receba um novo nome que o identifique não com o passado, mas sim com o devir desejado ou o objecto das suas aspirações. A julgar pelos nomes iniciáticos que conheço, os mações escolhem nomes de personagens históricas (Cid, Sócrates), literários (Hamlet, Édipo, Quixote), fluviais (Danúbio, Volga), etc. "Zen" era o nome simbólico ou iniciático de Ferrer Guardia, "Giordano Bruno" o de Alejandro Lerroux, "Justicia" o de Diego Martínez Barrio, "Ebro" o de Marcelino Domingo, "Paz" o de Sagasta e "Washington" o de Prim.






George Washington Masonic Memorial












Réplica da Arca da Aliança no George Washington Masonic Memorial.



George Mason University Campus




















O nome iniciático é de uso exclusivamente interno, quer dizer, utiliza-se nas lojas e nos seus documentos. Compreende-se que sirva como disfarce ou modo de ocultação de quem assim se chama, ou seja, é uma peça do segredo maçónico. Quando se lida com documentos internos da maçonaria, lê-se uma série de nomes iniciáticos e não é possível esconder uma interrogação. Pergunta-se "quem será este mação?", mas fica-se sem resposta a não ser que se consiga descobrir o nome próprio correspondente. Além disso, o nome iniciático impede de conhecer a presença e a influência dos mações na vida sociopolítica e cultural. O nome iniciático está a cair em desuso na maçonaria regular, mas continua em pleno vigor na irregular».

Manuel Guerra («A Trama Maçónica»).


«Durante o século XVIII, mas sobretudo no XIX e na primeira metade do XX, a maçonaria fez correr rios de tinta, tanto a favor, como contra a instituição. A literatura filomaçónica e anti-maçónica consolidaram-se como géneros próprios e defrontantes.

Neste contexto, teve lugar, nos finais do século XIX, um dos episódios mais turvos da história desse combate intelectual. Trata-se do caso de Leo Taxil, de que, seguidamente, daremos um resumo sumário, mas ainda assim, algo extenso; o suficiente para tirarmos umas interessantes conclusões que ainda hoje têm aplicação prática. A informação provém, na sua maior parte, de Alec Mellor, irmão maçon, e de Rosario Esposito, padre paulino, destacado filomaçon, que recentemente foi admitido da irmandade.

Gabriel Jogand era um jornalista anti-clerical que costumava escudar-se por trás do pseudónimo Leo Taxil. Depois de uma educação em colégios católicos, durante a qual perdeu a fé, transformou-se num anti-cristão fanático e, depois de numerosas burlas e mudanças de morada, estabeleceu-se em Paris, onde se dedicou a escrever pornografia para publicações periódicas desse género desprezível que, já então, estava na moda. Fundou uma revista chamada O Anti-clerical. Em 1879 - tinha nascido em Marselha em 1853 - um panfleto de Taxil, intitulado Abaixo com o Clero, alcançou uma tiragem de 130.000 exemplares, e provocou um escândalo tal, que o autor foi levado a tribunal por violar uma lei de 1819 que proibia ultrajar uma religião reconhecida pelo Estado. Os membros do jurado eram, na sua maioria, anti-clericais, pelo que Jogand-Taxil foi absolvido.





Em Setembro de 1881, teve lugar uma assembleia-geral da Associação dos Livres-Pensadores, na qual um grupo dissidente, liderado por Taxil, decidiu afastar-se para fundar a Liga Anti-Clerical, que teve um êxito imediato. Esta associação publicou um libelo infame, com o título Os Amores Secretos do Papa Pio IX, que apareceu atribuído a um inexistente "Volpi".

Taxil era um agitador profissional. Embarcou numa série de conferências sobre "os crimes da Inquisição". Durante estas conferências, mostrava instrumentos de tortura que dizia ter comprado, no norte de França, aos herdeiros dum carrasco. Claro que se tratava de artefactos inventados pelo próprio Taxil. "Um pouco de óxido contribuía para dar àqueles instrumentos uma aparência antiga", comenta Alec Mellor.

As embrulhadas de Taxil pareciam não ter limites. Fazendo-se passar por secretário do Arcebispado de Paris, e assinando apenas como "Jean-Pierre", escreveu ao director do jornal de orientação radical revolucionária La Bataille. Na carta, dizia que era obrigado a manter o anonimato, mas oferecia-se para fornecer informações sobre as fraquezas da Igreja. A partir de então, a sua imaginação excedeu-se vezes sem conta. La Bataille chegou a publicar que os cónegos de Paris se tinham reunido numa capela subterrânea com o objectivo de preparar os instrumentos de tortura para começar a repressão se o Conde de Chambord conseguisse restaurar a monarquia legítima em França.

Nos começos de 1881, Jogand foi iniciado, no grau de aprendiz, na loja Le Temple de L'Honneur. Em Outubro do mesmo ano, um tribunal de justiça maçónica expulsou definitivamente Jogand da Ordem, segundo parece, por causa de um acumular de burlas e por uma conduta imoral (segundo Mellor, devido à publicação de um libelo contra Sua Santidade Pio IX).

Mas nem por isso Taxil abandonou o seu empenho anti-clerical, nem os seus excessos, chegando inclusivamente, nas conferências sobre a Inquisição, um dos seus temas favoritos, a exibir bonecos de cera, de tamanho natural, que representavam pessoas torturadas... cobertas de sangue, para provocar a estupefacção do auditório.

Em 20 de Abril de 1884, Leão XIII publicou a sua encíclica Humanum Genus, contra a Franco-Maçonaria. Taxil arranjou um exemplar e leu-o. Mas entretanto, o agitador, com os seus desvarios, tinha granjeado muitos inimigos no seu próprio campo anti-clerical. Além disso, como refere Mellor, o mercado das publicações anti-clericais e pornográficas, saturado até à medula, entrava num período menos pujante.


Leo Taxil


Acabou por fingir uma conversão estrondosa à fé católica para zombar dos católicos, e de passagem, ganhar a vida mais facilmente explorando a credibilidade destes. Chegou a escrever à sua própria família dando conta de como tinha recebido a graça fulminante e atribuindo esse dom à intercessão de Joana d'Arc, cujo processo de canonização estava nessa época a ser reavivado, e que seria concluído anos mais tarde, com a sua beatificação por São Pio X, e a sua canonização por Sua Santidade Bento XVI. Jogand-Taxil tinha uma tia, Josephine Jogand, que tinha abraçado a vida religiosa, movida pela ânsia de obter a conversão do sobrinho. Em religião, adoptou o nome de "Maria das Sete Dores". "Chorou de alegria, e com ela toda a família", comenta Mellor.

Taxil escreveu uma falsa abjuração dos seus erros passados e "fez" uns exercícios espirituais com um director espiritual jesuíta, tendo, no final, simulado uma confissão geral em que teve o atrevimento de se acusar a si mesmo de um assassinato.

Depois, tornou pública a sua "conversão". Suportou, sem desfazer o seu jogo, uma chuva de cartas duríssimas, nas quais os seus antigos companheiros anti-cristãos lhe atiravam à cara a sua traição. A Liga Anti-Clerical, para cuja fundação ele tinha contribuído, convocou uma reunião extraordinária para 27 de Julho de 1885. O único ponto da ordem do dia era a expulsão de Leo Taxil das suas fileiras. Tendo, ele próprio, recebido também o convite com a ordem do dia, por ainda ser membro do grupo, decidiu assistir. Desceu para a cave onde a assembleia acabava de começar. No meio de um grande burburinho, foi decidida a sua expulsão por ser traidor à Liga e vira-casaca. Então, Taxil pediu a palavra e disse aos seus companheiros: "Tendes o direito de me chamar vira-casaca, pois há quatro dias enviei uma carta de abjuração. De forma explícita, rejeito todos os meus escritos contrários à religião, mas peço que risqueis a palavra traidor, que não tem aplicação ao meu caso. Naquilo que hoje estou a fazer, não há sombra de traição". E concluiu: "Agora, não compreendeis o que acabo de dizer, mas entendê-lo-eis mais adiante".

A partir de então, Taxil iniciou uma nova carreira. A imprensa católica internacional fez-se eco da conversão do antigo grande inimigo da Igreja. O Núncio do Papa em Paris concedeu-lhe uma audiência durante a qual Taxil aproveitou para lhe confiar que estava a considerar ingressar na Cartuxa. O Núncio, comovido, argumentava que devia permanecer no mundo e assegurou-lhe que ia escrever ao Papa para que lhe concedesse uma audiência.

Começava então a "etapa apologética católica" da sua produção literária.

Em 1885, Taxil publica um livro com o título A República Mostra-se tal Como É, no qual sustentava que a separação da Igreja e do Estado tinha sido decidida nas lojas, e constituía somente um passo no percurso para a supressão total da Igreja. Neste livro, ainda não se encontra uma menção explícita à presença do Diabo nas lojas.

Em 1886, publicou um panfleto intitulado Roma será devolvida ao Papa, seguido de outro em que satirizava o Governo da República: Ali Babá e os Quarenta Ministros.

Crimes Maçónicos apareceu em 1889, e em 1890, Taxil publicou, em colaboração com o padre Paul Fesoh, O Martírio de Joana d'Arc.


Joana d'Arc



As obras destinadas aos católicos estavam a proporcionar-lhe elevados rendimentos. Retirou-se para viver perto dos Pirenéus e aí escreveu as suas Conversões Famosas, livro que recebeu o aplauso de muitos bispos.

A sua inclinação antiga para a pornografia encontrou algum alívio com A Corrupção de Fim de Século. Não podendo cultivar este género depravado de maneira explícita, aproveitou um livro aparentemente moralizador, no qual, teoricamente, insultava os vícios da sociedade do seu tempo, para entregar-se, ao longo das suas 425 páginas, a todo o tipo de descrições escabrosas, repletas de detalhes repugnantes, das práticas que tinham lugar a coberto das paredes dos bordéis. Elevaram-se vozes de eclesiásticos indignados por tais cruezas às quais Taxil "respondeu, cinicamente, que estava disposto a retirar o livro se a Sagrada Congregação do Índice o condenasse. Mas Roma leva sempre o seu tempo", escreve Mellor, e entretanto, a primeira edição esgotou-se rapidamente e preparava-se uma segunda para 1894.

Mas nessa altura, Taxil já tinha conseguido que o recebessem no Vaticano. Primeiro, encontrou-se com o Cardeal Mariano Rampolla del Tindaro, Secretário de Estado do Papa Leão XIII, e depois, com o Cardeal Parocchi, tendo ambos louvado o trabalho de Taxil. Segundo parece, o Cardeal Rampolla (veja-se o capítulo dedicado à maçonaria e a Igreja) felicitou-o, pois, sem ter passado de grau de aprendiz, possuía um grande conhecimento dos ritos maçónicos que, em substância, coincidia com os rituais da maçonaria que se encontravam em poder do Vaticano.

Pouco tempo depois, obtinha a ansiada audiência com Sua Santidade Leão XIII. É preciso ter em conta que a maior parte da informação, referente às trapaças de Gabriel Jogand-Leo Taxil, provem das suas próprias declarações pelo que todos os episódios privados da vida de Taxil, tanto este como os referidos anteriormente, repousam, na sua quase totalidade, sobre a palavra do falsário. De qualquer maneira, segundo o próprio Taxil, a audiência papal durou três quartos de hora (ou meia hora, segundo Mellor) e ambos falaram "muito" sobre o Diabo. Taxil ter-se-ia ajoelhado diante do Vigário de Cristo para receber a sua bênção e o Papa ter-lhe-ia dito: "Meu filho, o que queres?", ao que, Taxil, teria respondido: "Santo Padre, o meu maior desejo seria morrer a vossos pés neste instante".

"Sorrindo, Leão XIII dignou-se dizer-me que a minha vida ainda era de muita utilidade no combate pela fé". Sempre segundo Taxil, Leão XIII ter-lhe-ia confessado que tinha na sua biblioteca pessoal todos os seus livros (da fase católica, claro) e que os tinha lido na sua totalidade. "Disse que, sendo somente um aprendiz, eu tinha um grande mérito por ter compreendido que o Demónio 'estava ali'", explica Taxil.





No regresso a Paris, Taxil diz que recebeu a visita de um jesuíta, arcebispo de Port-Louis, nas Maurícias, Monsenhor Leon Meurin. Segundo Taxil, Meurin ficou totalmente convencido da existência do culto satânico na maçonaria.

Meses mais tarde, foi publicado o livro com o qual seria atingido o clímax do embuste urdido por Gabriel Jogand-Leo Taxil, O Demónio no Século XIX, com o subtítulo "Os Mistérios do Espiritualismo ou, por outras palavras, a Maçonaria Luciferina". O livro era assinado pelo Doutor Bataille, pseudónimo de um colaborador de Taxil. No livro, sustentava-se que havia três categorias de maçonaria: a das lojas, a dos mais altos graus e, mais acima, e desconhecida pelos graus inferiores, o paladismo - a maçonaria luciferina. O livro denotava a destreza para o embuste do seu autor que, enquanto excitava a imaginação dos seus leitores, deixava nas suas páginas advertências para que não se confundissem os fenómenos físicos, como as alucinações e os erros de percepção, com as genuínas manifestações satânicas. Em O Demónio do Século XIX, Taxil-Bataille denunciavam Renan como paladista, bem como o conhecido ateu inglês Charles Bradlaugh, e muitos outros anti-clericais notórios. Segundo o livro, o maçon Giuseppe Mazzini tinha organizado em Roma um Soberano e Executivo Directório Paladista, a que presidia, e que era antagonista da Santa Sé, e de forma semelhante, o franco-maçon americano do grau 33, General Albert Pike, teria formado um Directório Supremo em Charleston, na Carolina do Sul. Uma terceira organização paladista teria a sua sede em Berlim. Taxil detinha-se sobre todo o tipo de detalhes administrativos destas organizações, dando rédea solta à sua criatividade. A 28 de Fevereiro de 1884 (vinte dias antes da publicação da Encíclica Humanum Genus, contra a maçonaria), explicava aos seus leitores que, no decurso de uma reunião do Grande Triângulo dos Onze-Sete, o tecto do templo onde estavam reunidos os participantes abriu-se e, por essa abertura, desceu um demónio em chamas. Tratava-se do demónio Asmodeu que empunhava um sabre na mão direita e a cauda do leão de São Marcos na esquerda, como se se tratasse de um troféu por alguma vitória obtida contras as legiões de anjos do Senhor. Taxil também deu conta de como o General Pike costumava manter com regularidade tertúlias com um demónio especialmente enviado pelo próprio Lúcifer. Esses encontros tinham lugar todas as sextas-feiras pela tarde. Da mesma maneira, afirmava que o forte de Gibraltar tinha umas galerias subterrâneas que tinham ligação com o fogo do inferno, e mil outras loucuras mais.


General Pike

Uma invenção estava particularmente destinada a alcançar um grande sucesso: a de Diana Vaughan. Pedindo emprestado o nome de uma rapariga de carne e osso que conhecia, Taxil criou uma personagem que apresentou como uma adepta do luciferismo paladista que, desde a juventude, convivia com o demónio Asmodeu com o qual chegou a ter ajustado um casamento espiritual.

A fictícia Diana Vaughan foi iniciada no paladismo e chegou a ser mestra templária. A 8 de Abril de 1889, Lúcifer exigiu que Diana lhe fosse apresentada solenemente num santuário paladista da cidade de Charleston. Nessa cerimónia, Lúcifer assegura a Diana que pode ficar tranquila porque encarregou o demónio Asmodeu de a proteger sempre de todos os perigos. Em 1891, é nomeada Inspectora-geral do Paladismo.

Entre os católicos, têm início campanhas de oração para solicitar a salvação de Diana. A 8 de Maio de 1895, o diário católico parisiense La Croix lança uma campanha de oração para obter a sua conversão, e menos de um mês depois, a 6 de Junho, no próprio dia em que devia celebrar a cerimónia mais importante do calendário paladista, Diana converte-se à fé católica. A jovem ajoelha-se diante de uma estátua de Joana d'Arc - que ainda não tinha sido canonizada - e implora-lhe protecção contra as terríveis vinganças que podia esperar dos seus amigos companheiros luciferinos.

Diana encontra refúgio num convento de freiras. A 13 de Junho, a festa do Corpus Christi, recebe o baptismo, no qual lhe é imposto o nome de Jeanne-Marie em honra da sua protectora Joana d'Arc e da Virgem Maria.

Os leitores da imprensa católica iam seguindo, emocionados e aflitos, o desenrolar das reviravoltas na vida de Diana e as suas vicissitudes, entrando e saindo furtivamente do convento, na sua existência de fugitiva.

É comovente descrever estes detalhes e pensar no grau de retorcimento e de baixeza a que pode chegar uma inteligência mistificadora posta ao serviço do mal.

Taxil tinha percebido que esta personagem lhe podia trazer vantagens, e escudando-se na sua obrigação de zelar pela integridade e segurança da sua protegida, oferecia-se para canalizar as comunicações da imprensa, dos prelados e dos católicos do mundo inteiro que queriam felicitar a heróica convertida, dar-lhe ânimo e oferecer-lhe o seu apoio, inclusivamente, material. Desta maneira, num período em que o anti-clericalismo intensificava o seu ataque à Igreja, a personagem de Diana Vaughan converteu-se, durante algum tempo, num ícone popular dos católicos de França e de outras partes do mundo. Um ícone que sintetizava as esperanças e o sofrimento de muitas pessoas. Entre os católicos que, de boa fé, acreditaram de todo o coração na história da Menina Vaughan, encontravam-se pessoas de uma dimensão excepcional. O caso mais pungente é o da Irmã Teresa do Menino Jesus e do Santo Rosto: Santa Teresa de Lisieux. Quando a religiosa soube, por conhecidos seus, da história da desditosa Diana Vaughan, e das suas agruras, entusiasmou-se e provocou o entusiasmo da sua comunidade. Teresinha quis escrever a Diana Vaughan para felicitá-la pela sua conversão e para lhe assegurar a sua oração. Junto com a carta, a Santa juntava uma fotografia de uma representação teatral dentro do Carmelo na qual aparecia vestida de Joana d'Arc. Santa Teresinha chegou a receber uma carta autógrafa de Taxil, mas "assinada" por Diana Vaughan, em que agradecia as orações  da freira... a quem, como vemos, ainda viriam a infligir uma última humilhação.


Mas houve muitos outros casos de eclesiásticos de renome que se deixaram convencer pelas fabulosas revelações de Taxil.

Por fim, o próprio êxito da farsa, e a sua difusão internacional, acabaram por colocar em apuros o impostor que tinha urdido toda esta trama. Apesar de numerosos investigadores católicos, de autoridade indiscutível, terem acreditado nas falácias paladistas, e de outros lhes terem concedido um elevado grau de credibilidade, como o benemérito Arcebispo Meurin (de cuja boa fé, erudição e sabedoria, não pode haver dúvidas, o mesmo se dizendo dos seus numerosos e valiosos contributos para o estudo da maçonaria), houve outros que, desde o princípio, desconfiaram dessas novidades tão estrepitosas. De entre os católicos peritos em maçonaria que questionaram abertamente a veracidade de Jogand-Taxil, destaca-se o padre francês Henri Delassus, director do jornal La Semaine Religieuse de Cambrai e o jesuíta austríaco Hermann Gruber. De 26 a 30 de Setembro de 1896, teve lugar na cidade de Trento o primeiro Congresso Anti-Maçónico. Entre os presentes, encontrava-se um numeroso grupo de investigadores do mundo germânico, entre os quais tinha despertado uma fundada desconfiança sobre as afirmações taxilianas. "Era uma voz corrente que um jornal do centro da Alemanha, o Kölnische Volkszeitung, tinha já recolhido um completo dossier de documentos que demonstravam a inexistência de Diana Vaughan, e em consequência, o embuste de Taxil", explica Rosario Esposito (SMSU, p. 163). Em Roma, tinha sido constituída uma "Comissão de investigação do assunto Diana Vaughan-Leo Taxil". Este grupo - dinamizado por Monsenhor Baumgarten que contava entre os seus colaboradores com Keller, ex-maçon e redactor do jornal vienense Vaterland - instigava Taxil a fornecer provas da existência da sua personagem. Taxil, que conhecia esse movimento crescente de desconfiança, fazendo gala da sua temerária ousadia, apresentou-se no Congresso e pronunciou uma conferência. Monsenhor Baumgarten exigiu-lhe provas documentais que demonstrassem efectivamente que algum bispo católico tinha recebido a abjuração da Menina Vaughan, quem lhe tinha administrado o baptismo e onde tinha recebido a primeira comunhão. Também lhe pedia a demonstração de que as elevadas somas obtidas com a venda dos livros de memórias de Diana Vaughan se tinham destinado realmente a obras de beneficência, como ele assegurava. Taxil afirmava ter todos os documentos que lhe pediam, mas refugiava-se no suposto perigo de vingança dos maçons. "Os delegados partiram de Trento com mais que razoáveis suspeitas", conclui Esposito.

De repente, as dúvidas da imprensa católica mundial sobre o assunto começaram a tornar-se mais assíduas e prementes.

Em Abril de 1897, Leo Taxil convocou uma conferência extraordinária na Sociedade de Geografia de Paris. Ele mesmo encarregou todos os detalhes da decoração e do cenário. Esposito cita, como exemplo do grau de pormenor com que Taxil preparou a sua atoarda final, que no arquivo da casa dos jesuítas de Colónia (Alemanha) encontrou o convite pessoal que Taxil enviou ao Padre Hermann Gruber, provavelmente o mais céptico dos investigadores do affaire Diana Vaughan. O nome do jesuíta aparece escrito à mão pelo próprio Taxil, e no cartão do convite, aparece o número da fila e o lugar que o convidado devia ocupar.




Entre os convidados encontravam-se tanto maçons como prelados. O orador declarou que tudo era fruto da sua imaginação, que tinha conseguido enganar todo o mundo (o que não era exacto), desde o Papa até à última religiosa do Carmelo. No estrado, Taxil exibiu uma imagem ampliada da fotografia de Teresinha de Lisieux vestida de Joana d'Arc, a mesma fotografia que a Santa tinha enviado a "Diana Vaughan", isto é... a Leo Taxil. O impostor concluía com esta vilania doze anos de falsidade, de vida dupla, de embuste contínuo».

José Antonio Ullate Fabo («O Segredo da Maçonaria Desvendado»).


«(...) Precisamos que as guerras não dêem, tanto quanto possível, vantagens territoriais. Transportada, assim, a guerra para o terreno económico, as nações verão a força de nossa supremacia, e tal situação porá ambas as partes à disposição de nossos agentes internacionais, que têm milhares de olhos e que nenhuma fronteira pode deter. Então nossos direitos internacionais apagarão os direitos nacionais, no sentido próprio da expressão, governando os povos, do mesmo modo que o direito civil dos Estados regula as relações entre os seus súbditos.

Os administradores, escolhidos por nós no povo, em razão de suas aptidões servis, não serão indivíduos preparados para a administração do país. Assim, facilmente se tornarão peões de nosso jogo, nas mãos de nossos sábios e geniais conselheiros, de nossos especialistas, educados desde a infância para administrar os negócios do mundo inteiro. Sabeis que nossos especialistas reuniram as informações necessárias para administrar segundo nossos planos, tirando-as das experiências da história e do estudo de todos os acontecimentos notáveis.

Os cristãos não se guiam pela prática de observações imparciais tiradas da história, mas pela rotina teórica, incapaz de atingir qualquer resultado real...

Toda a república passa por diversas fases. A primeira compreende os primeiros dias de loucura dum cego que se atira para a direita e para a esquerda. A segunda é a demagogia, de onde nasce a anarquia; depois, vem inevitavelmente o despotismo, não um despotismo legal e franco, porém um despotismo invisível e ignorado, todavia sensível; despotismo exercido por uma organização secreta, que age com tanto menos escrúpulo quanto se acoberta por meio de diversos agentes, cuja substituição não só não a prejudica como a dispensa de gastar seus recursos, recompensando longos serviços.

Quem poderá derrubar uma força invisível? Nossa força é assim. A franco-maçonaria externa serve unicamente para cobrir nossos desígnios; o plano de acção dessa força, o lugar que lhe cabe é inteiramente ignorado do público.



(...) Para que os espíritos dos cristãos não tenham tempo de raciocinar e observar, é necessário distraí-los pela indústria e pelo comércio. Desse modo, todas as nações procurarão as suas vantagens e, lutando cada uma pelos seus interesses, não notarão o inimigo comum. Mas, para que a liberdade possa, assim, desagregar e destruir completamente a sociedade dos cristãos, é preciso fazer da especulação a base da indústria. Desta forma, nenhuma das riquezas que a indústria tirar da terra ficará nas mãos dos industriais, mas serão sorvidas pela especulação, isto é, cairão nas nossas burras.

(...) Devemos apropriar-nos de todos os instrumentos que os nossos adversários possam empregar contra nós. Devemos buscar nas subtilezas e delicadezas da língua jurídica uma justificação para o caso em que tenhamos de pronunciar sentenças que possam parecer muito ousadas e injustas, porque é mister exprimir essas sentenças em termos que tenham a aparência de ser máximas morais muito elevadas, conservando seu carácter legal. Nosso regime deve rodear-se de todas as forças da civilização, no meio das quais deverá obrar. Rodear-se-á de publicistas, jurisconsultos experientes, administradores, diplomatas, enfim, homens preparados para uma educação superior especial em escolas especiais. Esses homens  conhecerão todos os segredos da existência social, todas as linguagens formadas de letras ou de termos políticos, todos os bastidores da natureza humana, todas as cordas sensíveis que deverão tocar. Essas cordas são o feitio do espírito dos cristãos, suas tendências, seus defeitos, seus vícios e suas qualidades, suas particularidades de classe ou de condição. Fica bem entendido que esses colaboradores de génio do nosso governo não serão tomados entre os cristãos, habituados a fazer seu trabalho administrativo sem cuidar de sua utilidade. Os administradores cristãos assinam papéis sem ler; servem por interesse ou por ambição...».

Os Protocolos dos Sábios de Sião


«(...) Lisboa, 14 de Maio [de 1962] - (...) A propósito de uma notícia sobre os Açores na imprensa dos Estados Unidos, troquei rápidas impressões com Salazar. Diz: "se não houver mudança americana, não poderemos negociar; então terá de ser outro governo a fazê-lo". Exprimo a convicção de que nenhum governo português assinaria um acordo contra os interesses nacionais. Reage Salazar: "Meu caro senhor, está muito enganado. Há homens que querem ser ministros seja em que circunstâncias for, e para isso estão dispostos a assinar seja o que for, ainda que subordinem, entreguem ou vendam o país. O senhor é muito ingénuo, está muito enganado"».

Franco Nogueira («Um Político Confessa-se. Diário: 1960-1968)»).


«(...) Contamos atrair todas as nações para a construção dum novo edifício fundamental, cujo plano traçámos. Eis porque precisamos, antes de tudo, fazer provisão da audácia e presença de espírito, qualidades que, na pessoa de nossos agentes, destruirão todos os obstáculos que se anteponham em nosso caminho. Quando tivermos dado o nosso golpe de Estado, diremos aos povos; "Tudo ia horrivelmente mal, todos sofreram mais do que aquilo que se pode suportar. Destruímos as causas dos vossos tormentos, as nacionalidades, as fronteiras, a diversidade da moeda...».

Os Protocolos dos Sábios de Sião






«(...) Com o abandono do padrão-ouro perdeu-se aquela simplicidade que fazia do dinheiro um instrumento da justiça; com o abandono da correspondência entre a quantidade da moeda e a quantidade das mercadorias, perdeu-se o que fazia do dinheiro um instrumento da liberdade; com a paridade flexível, perde-se agora a projecção na economia da existência das pátrias.

Perde-se a projecção na economia da existência das pátrias, dizemos, e perde-se a imediata evidência que a economia dá a cada um da necessidade dessa existência. Trata-se de uma realidade essencial mas a que os teorizadores da ciência económica, estranhamente, nunca atenderam, antes vendo na existência de diferentes repúblicas um obstáculo ao perfeito funcionamento do sistema da economia. O próprio von Mises é um exemplo desta estranha atitude. Muitas vezes utiliza ele, para fazer valer os seus argumentos ou apenas os explicitar, a hipótese de uma república mundial que acompanha de declarações atribuindo à existência das nações, à divisão do mundo em diferentes entidades nacionais e ao nacionalismo, a causa dos clamorosos erros que denuncia na economia contemporânea, como seja o ódio - a expressão é dele - ao padrão-ouro. É possível explicar esta atitude do grande teorizador pelas perturbações da época em que viveu e o sujeitaram a muitas espécies de atribulações e sofrimentos não apenas vividos - o exílio e a pobreza, por exemplo - mas também intelectuais. Era em nome do nacionalismo alemão ou aurindo suas forças no nacionalismo russo, que via instaurar-se o intervencionismo socialista.

De certo modo, esta posição de von Mises corresponde à imagem também mundialista que Adam Smith formava do dinheiro e do comércio, ele que via a economia como um sistema que sucedera ao da agricultura. Diz, por exemplo, que o "ouro circula entre os países comerciantes como a moeda circula dentro de cada país: pode considerar-se a moeda da grande república mundial do comércio".

Tais posições têm, por sua vez, equivalência na banalizada convicção popular de que "o dinheiro não tem pátria".

Ora a verdade é que de nada, como do dinheiro, se pode com mais razões afirmar que tem pátria. Sem a variedade das moedas nacionais, não haveria troca e mercado do dinheiro, e desapareceria o último e mais resistente instrumento, que é o câmbio, para, abandonados os outros padrões, conhecer ou apreciar o poder aquisitivo da moeda e defender as populações das arbitrariedades, então definitivamente instaladas no intervencionismo, dos sucessivos e sempre ocasionais governantes...».

Orlando Vitorino («Exaltação da Filosofia Derrotada»).


 UMA SEITA HORRÍVEL



A maçonaria encontra-se de novo na linha de mira do Vaticano em 1821. Com a bula Ecclesiam a Ieso Christo (Setembro de 1821), o Papa Pio VII reitera as condenações dos seus predecessores, Clemente XII e Bento XIV. A sua introdução projecta uma luz nova sobre a reacção da Igreja romana: «O que aconteceu em tempos já recuados renova-se ainda, e sobretudo na época deplorável em que vivemos, época que parece ser aqueles últimos tempos, tantas vezes anunciados pelos Apóstolos, em que "chegarão impostores marchando de impiedade em impiedade, de acordo com os seus desejos". Ninguém ignora o número de homens prodigiosos culpados que se coligaram nestes tempos tão difíceis contra o Senhor e contra Cristo e tudo fizeram para enganar os fiéis através das subtilezas de falsa e vão filosofia, e para os arrancar ao seio da Igreja, na louca esperança de arruinarem e deporem esta mesma Igreja. Para alcançarem mais facilmente este objectivo, a maior parte deles formaram sociedades ocultas, seitas clandestinas, congratulando-se por este meio de associarem mais livremente um número maior às suas conspirações e aos seus desígnios perversos».

A declaração de Pio VII denuncia explicitamente a Carbonária, um movimento italiano semi-clandestino com ideias republicanas e oposto ao poder temporal do papado. Encontram-se aqui alguns maçons mas, para o Papa, é o movimento na sua globalidade que tem a ver com a maçonaria. A seus olhos, são as suas várias sociedades, mais ou menos ocultas, que estão provavelmente na «origem da dos carbonários, ou que certamente lhes serviram de modelo...». E denuncia «essas reuniões clandestinas e ilegítimas que eles formam a exemplo de várias seitas heréticas, e esta agregação de pessoas de todas as religiões e de todas as suas seitas...».

No plano religioso, Pio VII acusa em particular os carbonários de terem «como principal objectivo propagarem a indiferença em matéria de religião, o sistema mais perigoso de todos», «darem a todos a liberdade absoluta de seguirem uma religião de acordo com as suas tendências e ideias», «desprezarem os sacramentos da Igreja» e mesmo «profanarem-nos (...) por meio das suas pecaminosas cerimónias». Num plano moral, os carbonários são acusados de favorecer «o prazer dos sentidos». Mas Pio VII acrescenta uma outra marca grave de imoralidade, também ela resultante dos fantasmas do anti-maçonismo desta época: a «permissão de matar» os iniciados que violassem o segredo com o qual se haviam comprometido. Num plano mais político, o Papa enuncia dois motivos de condenação. O projecto dos carbonários, por um lado, para derrubar a Santa Sé romana, «contra a qual, animados de um ódio muito particular (...) eles urdem as conspirações mais negras e mais odiosas». Por outro lado, a sua doutrina, segundo a qual «é permitido promover revoltas para despojar do seu poder os reis e todos aqueles que comandam, e a que ela dá o nome injurioso de tiranos...».



Com Pio VII, a maçonaria fica assim claramente arrumada ao lado das seitas, que, na tradição católica, são por definição heréticas. Seitas, ademais «clandestinas», elas próprias colocadas no campo das forças obscuras do mal, maquinando contra uma ordem social, política e religiosa ordenada por Deus e da qual a Igreja romana é a guardiã. Todas as condenações papais do século XIX vão situar-se nesta perspectiva marcada pelo contexto político da época: a difusão dos ideais republicanos da Revolução Francesa na Europa e a ascensão dos movimentos nacionalistas, nomeadamente na península italiana onde o esmagamento dos carbonários pelos austríacos não diminui a aspiração popular à unificação do reino.


A SINAGOGA DE SATANÁS

Em 1882, o Papa Gregório XVI (1831-1846), pela sua encíclica Mirari vos, renova a condenação da maçonaria acentuando o seu carácter herético, porque, na sua opinião, ela é unicamente composta por «sectários de toda a espécie de falsas religiões e cultos». Mas com seu sucessor, Pio IX (1846-1878), as vociferações papais sobem de tom. Nesse meio tempo, os partidários da unificação de Itália haviam passado da clandestinidade para o movimento de massas liderado por fortes personalidades, como o famoso Garibaldi, que tenta impor uma república de Roma em 1849. Pio IX já condenara, em 1846, as ideias políticas liberais e aqueles que as veiculam, como as sociedades secretas que ele apresenta como «filhos do demónio» numa elocução em Dezembro de 1854. Em 1870, após a anexação de Roma pelo reino de Itália, o Papado perde o seu poder temporal. Encerrado no Vaticano, Pio IX promulga em Dezembro de 1873 a encíclica Etsi multa, na qual classifica a maçonaria de «sinagoga de Satanás». A expressão é retirada do Apocalipse de São João e ilustra o clima de fim dos tempos em que vivia Pio IX. Mas o seu carácter anti-semita é incontestável. Porque desde a época do Abade Barruel os turiferários da conspiração vinham cada vez mais conjugar anti-semitismo com anti-maçonismo, associando judeus numa mítica conspiração «judaico-maçónica»...

Este é, nomeadamente, o caso de França em que, no período pós-revolucionário, se desenvolveram diversas sociedades católicas clandestinas como a dos Cavaleiros da Fé (1810). Elas praticam o segredo, seguindo o modelo da maçonaria, a fim de a combater empregando as mesmas armas. A ideia de que os judeus teriam fundado a maçonaria para dominar o mundo, apresentada pelo abade Barruel em 1806, encontra um terreno fértil neste movimento católico e contra-revolucionário, totalmente devotado à demonização da maçonaria. Uma  minoria laboriosa cujas teses vão progressivamente contaminar a Igreja católica francesa. Tanto mais que são também popularizadas por obras com títulos sem qualquer ambiguidade como O novo judaísmo, ou a maçonaria desvendada, publicada em 1815.




A HORA DA ESCOLHA

A Concordata, assinada em 1801 entre Napoleão e Pio VII, veio alterar a relação de forças entre galicanos e ultramontanos. Ela oferece a estes últimos o poder de impor, sem passar pela autoridade civil, a aplicação de condenações pontifícias que, até aí, pouco efeito tinham. Em conjunção com a subida do anti-maçonismo, esta mudança vai tornar cada vez mais insustentável a dupla pertença, obrigando um número crescente de católicos, os clérigos em primeiro lugar, a abandonarem as lojas maçónicas à medida que também diminui a tolerância dos bispos mais liberais. Roma multiplica as intervenções para se fazer obedecer. Em Junho de 1865, Monsenhor Darboy, arcebispo de Paris, ousou celebrar as exéquias religiosas do marechal Magnan, grão-mestre do Grande Oriente de França. Pio IX chama-o à ordem, renovando os anátemas pontifícios contra «essas seitas ímpias» que se esforçam «por corromper por todo o lado os costumes e o espírito (...), propagar vícios abomináveis (...), enfraquecer o império de toda a sua autoridade legítima, derrubar, se isso fosse possível, a Igreja Católica (...) e expulsar o próprio Deus do céu».

Ao longo da segunda metade do século XIX, os bispos franceses fazem-se sobretudo notar pelo seu activo contributo para o anti-maçonismo. São disso testemunho diversos escritos: A Maçonaria, o que eles são, o que eles fazem, o que eles pretendem de Mons. de Ségur (1867), Estudos sobre a maçonaria de Mons. Dupanloup (1875), O grande perigo do nosso tempo, a maçonaria de Mons. Turinaz (1879), A maçonaria, sinagoga de Satanás de Mons. Meurin (1893). Obras de qualidade desigual, das quais a mais caricatural e mais reeditada é a de Mons. de Ségur. Nela encontramos um verdadeiro catálogo do anti-maçonismo católico, estigmatizando as «missas do diabo» e outras práticas satânicas atribuídas a uma maçonaria fantasma, sem esquecer a sua filiação templária, o seu ateísmo, o seu terrível segredo e os crimes cometidos em seu nome... E é sem a mínima dificuldade que a Igreja católica francesa, como aliás o Vaticano, apoia o falsário Léo Taxil que, com as suas Confissões de um ex-livre pensador (1887), se vangloria de ter provas da aliança, no interior da maçonaria, entre os adoradores de Satanás, os judeus e os protestantes. Uma mistificação publicamente reconhecida pelo seu próprio autor em 1897.




Do lado da maçonaria francesa, é uma radicalização em sentido inverso que se opera. Um número crescente de maçons torna sua a herança da Revolução e a defesa dos ideais republicanos face a uma Igreja que se empenha em mostrar-se próxima do trono e contra a República, como o fizera por ocasião da Revolução de 1848 ou da Comuna de Paris em 1871. Semelhante contexto acabou por acentuar as clivagens entre os maçons teístas ligados a um enraizamento cristão da maçonaria, e as correntes deístas e racionalistas, onde se destacam o ateísmo e um anti-clericalismo cada vez mais radical. A ponto, por vezes, de se tornar anti-religioso quando as lojas excluem alguns dos seus membros devido à sua dependência da Igreja romana. Igreja essa que fabricou o seu próprio espantalho com o Syllabus, publicado por Pio IX em 1864. Nele estão resumidos, e são condenados, os «principais erros do nosso tempo», entre os quais se encontram o naturalismo e o racionalismo, o socialismo, o comunismo, as inevitáveis sociedades secretas e o «liberalismo moderno», este sobretudo porque defende a liberdade de consciência, a separação entre a Igreja e o Estado e o fim do poder temporal do papado.

Num século, a maçonaria francesa pendeu maioritariamente para o campo republicano e anticlerical. Disso é testemunho a evolução significativa da sua obediência principal, o Grande Oriente de França, na frente do combate pela secularização das instituições, com a escola em primeiro plano. O artigo primeiro das Constituições, adoptadas em 1849, afirmava que a maçonaria «tem por base essencial a existência de Deus e a imortalidade da alma». Foi substituído em 1877 por uma nova versão, isenta de qualquer referência divina: «A maçonaria, instituição essencialmente filantrópica, filosófica e progressista, tem como objectivo a procura da verdade, o estudo da moral universal, das ciências e da artes e o exercício da beneficiência. Tem como princípio a liberdade absoluta de consciência e a solidariedade humana. Ela não exclui ninguém devido às suas crenças. Ela tem como lema: Liberdade, Igualdade, Fraternidade». Dez anos depois, é a referência ao Grande Arquitecto do Universo, na abertura e no fecho dos trabalhos das lojas, que é tornado facultativo e é gradualmente abandonado.


LEÃO XIII E A CONDENAÇÃO DO NATURALISMO




Último Papa do século XIX, Leão XIII (1878-1903) está muito ciente desta evolução da maçonaria francesa, bem como da subida do anticlericalismo noutros países, designadamente a Itália. Por diversas vezes no decurso do seu pontificado renovou as condenações dos seus predecessores. O seu texto mais importante é a encíclica Humanus genus (Abril de 1884), que recapitula o essencial da argumentação do papado contra a maçonaria. Ela permanecerá, sobre este assunto, o documento de referência dos seus sucessores.

Para Leão XIII todos os males engendrados pelos maçons, cujo objectivo é «destruir de uma vez por todas» a cristandade, têm a sua origem na base doutrinal que, segundo ele, lhes é comum, a saber o naturalismo. Uma doutrina particularmente condenável, uma vez que o seu princípio fundamental estabelece que «em todas as coisas, a natureza, ou a razão humana, deve ser senhora e soberana». Consequentemente, os naturalistas «afirmam que Deus nada revelou aos homens» e também  que «fora daquilo que a razão humana pode abarcar, não existe um dogma religioso nem verdade...». Donde o «labor renhido» da maçonaria para «reduzir a nada» a autoridade da Igreja sobre a sociedade ao impor, por exemplo, a sua separação do Estado a fim de constituir este último «fora das instituições e dos preceitos da Igreja».

Paralelamente a esta condenação do naturalismo e dos seus delitos, a encíclica retoma também, e com a mesma insistência, os perigos da tolerância religiosa praticada pela maçonaria. Esta não seria mais do que um meio de inflacionar as fileiras dessa «seita», a fim de «tornar mais verosímil o maior erro dos tempos presentes», denuncia Leão XIII. Erro esse que «consiste em relegar para a categoria das coisas indiferentes a preocupação com a religião e em colocar em pé de igualdade todas as formas religiosas. Ora, por si só, este princípio é suficiente para arruinar todas as religiões e particularmente a religião católica porque, sendo a única verdadeira, ela não pode (...) tolerar que as outras religiões sejam iguais a si...».

Um pormenor assaz singular: Leão XIII expõe, sempre neste mesmo texto, a hipótese de que alguns grupos maçónicos «não aprovam as conclusões extremas» às quais devem logicamente conduzir os princípios da doutrina naturalista. Mas a sua condenação da maçonaria, tal como a dos seus predecessores, não deixa por isso de ser menos global. Àqueles que ainda pudessem ter dúvidas, a carta Custodi di quella (Dezembro de 1892) recorda que «cristianismo e maçonaria são na sua essência inconciliáveis, de tal forma que aderir a esta é divorciar-se daquele». Leão XIII aborda o assunto por uma última vez num documento (Annum ingressi) de 1902. Considerando-a «cheia do espírito de Satanás», a maçonaria é aí apresentada como «uma contra-sociedade que domina secretamente a sociedade civil e, por isso, em guerra contra Deus e a Igreja de Deus». Esta será, até meados do século XX, a doutrina romana, que tem a sua tradução jurídica no artigo 2335 do Código de direito canónico publicado em 1917, que confirma a excomunhão «daqueles que se inscrevem numa seita maçónica ou em qualquer outra associação do mesmo género que maquina contra a Igreja e os poderes civis legítimos...» (ibidem, pp. 317-327).

Continua

terça-feira, 20 de maio de 2014

Maçonaria e Igreja Católica (i)

Escrito por Marie-France Etchegoin e Frédéric Lenoir






«(...) Em 1738, a Igreja Católica romana condenou oficialmente a maçonaria, o que precipitou declarações públicas do grão-mestre das lojas francesas, o duque d'Anton, que pregava os ideais revolucionários de liberdade, fraternidade universal, amor e igualdade. Sucedeu-lhe o conde de Clement, sob cujo grão-mestrado a maçonaria francesa se desdobrou em vários grupos rivais. Pela morte do duque em 1771, foi eleito para o substituir o duque de Chartres, empossado pelo chefe do Grande Oriente, o organismo governativo da maçonaria francesa, que o separou da Grande Loja de Inglaterra.

O Grande Oriente tinha ligações a muitas outras sociedades secretas ocultistas, entre elas, os martinistas, seguidores de Martinez de Pasqually, adepto rosacruz. Este passou o testemunho a Louis Claude de Saint-Martin, que tinha desistido de uma promissora carreira no exército francês para seguir a senda mística. Saint-Martin ensinava que a humanidade podia atingir a união com a divindade através de um contacto directo com o divino, como ensinavam os gnósticos. Afirmava também que todos os homens são reis e defendia os ideais políticos de igualdade e democracia para todos.

(...) Foi no século XVIII que a tradição dos templários, forçada a ocultar-se na clandestinidade durante perto de quatrocentos anos, começou a emergir como um factor de influência na crença maçónica e rosacruz. O cavaleiro Andrew Ramsay já se tinha referido à influência templária na maçonaria; mas foi Karl Gotthelf, barão von Hund, quem a estabeleceu com firmeza na tradição maçónica, através da fundação do Rito da Estrita Observância. Von Hund tinha sido iniciado numa loja maçónica em Paris, dirigida por Lorde Kilmarnock, grão-mestre da maçonaria escocesa. Esta loja pretendia ser a guardiã da tradição templária e talvez tenha sido a herdeira das crenças dos templários importadas para a Escócia pelos cristãos sírios ou pelos descendentes da loja fundada pelo filho de Eduardo III no século XIV. Em alternativa, os apoiantes da causa jacobita alegavam que a loja maçónica tinha sido fundada na Escócia no início da década de 1700 e obtiveram a autorização de um capítulo maçónico sobrevivente em Bristol, que tinha estado operacional durante várias centenas de anos.

Na sua iniciação à maçonaria, von Hund afirmava ter sido introduzido por uma figura misteriosa denominada Cavaleiro da Pena Vermelha, que mais tarde identificou como sendo o príncipe Charles Stuart. Esta personalidade autorizou von Hund a fundar uma ramificação dos neotemplários na Alemanha. De acordo com a versão da fundação apresentada por von Hund, o capítulo escocês original dos cavaleiros templários tinha sido fundado por dois ingleses membros da ordem, que eram alquimistas e tinham descoberto o elixir da vida.

O mito popular que corria nos círculos ocultistas do século XVIII era que os templários tinham sido iniciados nos conhecimentos gnósticos transmitidos pelos essénios, que tinham também iniciado Jesus nos seus mistérios. Desta maneira, o neotemplarismo era uma tentativa de harmonizar a sabedoria pagã com os seus ideais cristãos. Na maçonaria, a influência dos templários sentia-se no mito corrente no século XVIII que comparava os três cavaleiros renegados que denunciaram a ordem ao rei Filipe de França aos três pedreiros que mataram Hirão Abi no Templo de Salomão. Também se fizeram referências maçónicas ao assassinato de um notável templário, Charles de Monte Carmel, ritualmente assassinado pouco antes de a ordem ter sido extinta. Os seus assassinos esconderam o corpo, sepultando-o debaixo de um arbusto espinhoso, onde foi descoberto por outros templários. Os maçons do século XVIII consideravam este acontecimento como um ponto de viragem na história dos templários, e fundamental para a sua eventual queda.

Segundo os historiadores maçónicos, a sobrevivência da tradição templária foi planeada pelo último grão-mestre, Jacques de Molay, enquanto estava na prisão. Na noite anterior à sua execução, Molay enviou um homem de confiança à cripta secreta em Paris onde estavam sepultados os corpos dos grão-mestres falecidos. O mensageiro retirou dos túmulos vários objectos simbólicos sagrados para a ordem, entre eles a coroa do rei de Jerusalém, um candelabro de sete braços do Templo de Salomão e estátuas da igreja que assinala o local de sepultamento de Jesus.







Molay explicou ao seu fiel ajudante que as duas colunas à entrada dos túmulos dos templários eram ocas e continham uma grande soma de dinheiro. Disse-lhe para utilizar aquele dinheiro e os objectos simbólicos na recriação da ordem, de forma a não se perderem os seus segredos. As duas colunas à entrada da cripta eram provavelmente cópias dos obeliscos situados à entrada do Templo de Salomão. Além das moedas de ouro, as colunas ocas talvez contivessem também manuscritos com os ensinamentos secretos da Ordem dos Templários.

Juntamente com von Hund, houve outro indivíduo a pretender a restauração dos templários na Alemanha: Johann Augustus Starck, que descobriu o templarismo maçónico quando ensinava línguas em São Petersburgo. Contactou isoladamente no sul de França a tradição templária sobrevivente, praticada à moda dos cátaros. Starck estava convicto de que os templários originais tinham herdado a sua doutrina ocultista da Pérsia, da Síria e Egipto, e que esta lhes tinha sido transmitida por uma sociedade secreta essénia que operava no Médio Oriente durante as cruzadas. A sua versão do neotemplarismo teve o patrocínio de aristocratas europeus; e entre os membros das lojas templárias maçónicas contaram-se duques, condes e princípes. Na Suécia, Gustavo III tornou-se o protector do neotemplarismo porque acreditava que tinha sido fundado pelo princípe Charles Stuart e ele era um fervoroso adepto dos pretendentes escoceses e da causa jacobita.

Em 1771, realizou-se uma grande convenção de todas as lojas maçónicas, na qual se defendeu a descendência mítica da Ordem dos Templários. O grupo de Starck amalgamou-se com as lojas fundadas pelo barão von Hund, que, como não podia oferecer provas documentais da origem da sua versão do templarismo, foi obrigado a retirar-se, assumindo apenas uma posição honorífica na nova organização. Na altura da grande convenção, que estabeleceu o lugar do templarismo na tradição maçónica, a Prússia era governada pelo místico Frederico, o Grande, que era maçon e estudante do ocultismo. Em 1767, Frederico fundou duas lojas neomaçónicas: a Ordem dos Arquitectos de África, dedicada à heresia maniqueísta, e os Cavaleiros da Luz, que praticavam as artes mágicas. Frederico foi o protector financeiro da maçonaria ortodoxa, e em 1768 autorizou a construção de uma grande loja para uso dos irmãos prussianos. Um dos muitos títulos usados pelas sociedades secretas maçónicas fundadas por Frederico era os iluminados. Alguns anos mais tarde, o nome foi adoptado por um grupo de ocultistas que, apesar do seu breve aparecimento em público, são considerados figuras-chave na história política oculta ao longo das duas centenas de anos que se seguiram e continuam a ser reverenciadas pelos teóricos da conspiração como a derradeira sociedade secreta.



(...) Os iluminados foram fundados em 1776, o ano da Revolução Americana, por um jovem professor na universidade bávara de Ingoslstadt, Adam Weishaupt. Era de ascendência judaica, mas quando jovem foi educado pelos jesuítas na fé católica. Contudo, quando Weishaupt começou a ensinar direito na universidade, tornou-se apoiante activo da causa protestante, envolvendo-se numa série de azedos debates com eminentes eclesiásticos católicos.

Quando era ainda estudante, Weishaupt estudou as antigas religiões pagãs, familiarizando-se com os mistérios elêusicos e com as teorias do místico grego Pitágoras. Como estudante, redigiu a constituição para uma sociedade secreta modelada pelas escolas pagãs de mistérios; mas só quando foi iniciado na maçonaria é que Weishaupt desenvolveu o seu projecto.

(...) No dia 1 de Maio de 1776, Weishaupt anunciou a fundação da Ordem dos Perfeitos, posteriormente mais conhecidos por iluminados. À primeira reunião da nova ordem assistiram apenas cinco pessoas, mas depressa esta chamou as atenções de membros influentes da sociedade bávara, que partilhavam as ideias políticas igualitárias e socialistas de Weishaupt. Em pouco tempo, os iluminados tinham lojas por toda a Alemanha e Áustria; fundaram-se ramificações da ordem na Itália, Hungria, França e Suíça. Weishaupt desencadeou uma operação secreta para se infiltrar nas lojas maçónicas e instalou uma base de poder no interior da maçonaria continental, como parte do seu projecto a longo prazo para utilizar a sua sociedade secreta para uma mudança política na Europa.

A visão política de Weishaupt era a de um estado utópico em que seria abolida a propriedade, a autoridade social e a nacionalidade. Neste estado anárquico, os seres humanos viveriam em harmonia numa fraternidade universal, baseada no amor livre, na paz, na sabedoria espiritual e na igualdade. Falando antes da Revolução Francesa, Weishaupt disse: "A salvação não reside onde os tronos fortes são defendidos pela espada, onde o fumo dos turíbulos sobe para o céu, ou onde milhares de homens fortes percorrem os ricos campos das colheitas. A revolução que está prestes a explodir será estéril. Não está completa". Isto leva a supor que os alvos principais da reforma eram a monarquia, a Igreja e os ricos proprietários que mantinham na servidão os camponeses europeus.






A natureza antirrealista e anticlerical dos iluminados estava graficamente ilustrada pelo simbolismo místico da cerimónia de iniciação ao mais elevado grau da ordem: o candidato era levado a uma sala onde, em frente de um trono vazio, havia uma mesa sobre a qual estavam o símbolos tradicionais da monarquia - um ceptro, uma espada e uma coroa. O iniciado era convidado a pegar nestes objectos, mas logo lhe diziam que, se o fizesse, ser-lhe-ia recusada a entrada na ordem. Levaram-no depois a uma segunda sala, drapejada de negro. Abria-se então uma cortina e aparecia um altar coberto com um pano negro, em cima do qual havia uma cruz banal e um barrete frígio vermelho, como se usava nos mistérios mitraístas. O barrete era oferecido ao iniciado com as palavras "usa-o - significa mais do que a coroa dos reis". Este ritual é muito semelhante à iniciação ao mitraísmo, quando ao neófito são estendidas uma espada e uma coroa e ele as rejeita, dizendo "só Mitra é a minha coroa".

Adam Weishaupt criou uma rede de agentes iluminados por toda a Europa, com acesso a cardeais, príncipes e reis. Estes agentes faziam chegar ao grão-mestre os mexericos e a intrigas das cortes, informações que Weishaupt utilizava para os seus objectivos políticos. Homens e mulheres eram iniciados na ordem e Weishaupt pregava a igualdade sexual. Entrou em conflito com a Igreja por ensinar aos seus discípulos que a liberdade religiosa era um direito de cada um. Estava convencido de que, se as massas se libertassem dos grilhões da religião, exigiriam a liberdade política e o direito de gozar a vida sem o colete-de-forças imposto pelos ensinamentos puritanos da Igreja em matéria sexual. Alguns escritores que abordaram o tema dos iluminados, especialmente os que apresentam Weishaupt como protocomunista, descreveram a ordem como sendo ultramaterialista. É verdade que Weishaupt nutria um ódio quase patológico pela religião instituída, mas não pode negar-se que era um indivíduo espiritual, embora a sua espiritualidade tivesse certamente horrorizado os eclesiásticos que se lhe opunham.

Weishaupt acreditava firmemente na redenção da humanidade e na restauração do ser humano ao estado de perfeição que, segundo acreditava, existiu nos dias tranquilos anteriores à queda. Tal como os rosacruzes e os maçónicos, Weishaupt acreditava que a redenção era possível com a aplicação das tradições ocultas preservadas pelas escolas de mistérios pagãs, guardiãs da antiga sabedoria. Acreditava também que a Igreja era uma organização corrupta que tinha perdido os ensinamentos originais de Jesus e que estava preocupada apenas em continuar a deter o poder por motivos materialistas. A doutrina secreta do cristianismo, julgava ele, estava preservada nas tradições rosacruzes e maçónicas. Weishaupt diferia dessas duas sociedades secretas na medida em que estava determinado a derrubar o sistema político existente, mesmo que esse objectivo só pudesse ser alcançado por métodos violentos. Foi a tentativa dos iluminados para derrubar os Habsburgo em 1784, desmascarada por espiões da polícia que se tinham infiltrado na ordem, que culminou na proibição, decretada pelo governo bávaro, de todas as sociedades secretas, e nos seus esforços para reduzir à clandestinidade os seguidores de Weishaupt.







A participação dos iluminados nos acontecimentos que levaram à Revolução Francesa em 1789 foi objecto de considerável especulação e sensacionalismo. Diz-se que um dos fundadores da revolução, o conde de Mirabeau, era um proeminente iluminado. Também se afirmou que o projecto básico para o levantamento foi debatido na Grande Convenção Maçónica de 1782, em Wilhelmsbad, em que Mirabeau participou como observador. Supostamente, Mirabeau teria confessado a outros delegados na Convenção que era discípulo da heresia albigense. O seu objectivo era abater a monarquia francesa e destruir a Igreja Católica para que se pudesse estabelecer em França uma "religião do amor".

Quando regressou a França, Mirabeau introduziu a filosofia do iluminismo na sua loja maçónica, cujos membros incluíam vários activistas políticos que se tornaram importantes revolucionários, e que mais tarde serviram sob as ordens de Napoleão. Por volta de 1788, em quase todas as lojas do Grande Oriente havia infiltrados que eram apoiantes de Weishaupt, especializados em espalhar as políticas de terrorismo contra o estado, a abolição da monarquia, a liberdade religiosa, a permissividade sexual e a igualdade social.

(...) De 1785 a 1789, várias lojas maçónicas em França trabalhavam a tempo inteiro para derrubar a monarquia e o governo instituído. Muitos maçons franceses, porém, mantiveram-se fiéis à causa monárquica durante a revolução; apenas alguns tomaram parte activa no radicalismo da época. Mesmo nas fileiras dos revolucionários havia indicações de que elementos liberais se opunham ao papel desempenhado pelas sociedades secretas. Em 1789, o marquês de Luchet, que apoiava a revolução, afirmava: "Existe uma conspiração a favor do despotismo contra a liberdade, da incapacidade contra o talento, do vício contra a virtude, da ignorância contra o iluminismo. Esta sociedade [secreta] visa governar o mundo".

Fosse ou não movido pelo aviso de Saint-Germain, em Junho de 1789, o rei francês tentou antecipar os elementos revolucionários, anunciando um programa de reformas sociais. Infelizmente, exigia também a preservação da monarquia, tendo a nobreza o poder de vetar quaisquer alterações na política. Algumas semanas depois, o poder absoluto da monarquia foi posto em causa por revoltas populares em muitas cidades por toda a França, culminando na tomada da Bastilha. Este acontecimento conduziu às mais importantes reformas políticas da revolução, entre elas a criação da república e a secularização da Igreja, culminando nas execuções em massa da aristocracia e da família real durante o reinado do Terror.




Foi notável a influência directa da tradição maçónica-iluminista na revolução. Na literatura revolucionária desse período, o símbolo iluminista do olho inscrito no triângulo aparece nas capas dos livros, e o barrete frígio vermelho, copiado dos mistérios de Mitra e dos ritos iniciáticos dos iluminados, foi adoptado como chapéu das milícias de cidadãos. Supostamente, Mirabeau teria dito quando da tomada da Bastilha: "A idolatria da monarquia recebeu um golpe mortal desferido pelos filhos e filhas da Ordem dos Templários". Os dogmas maçónicos da liberdade, igualdade, fraternidade tornaram-se o grito de guerra da multidão, ao mesmo tempo que a bandeira vermelha, símbolo maçónico do amor universal, era desfraldada nas ruas pelos revolucionários. Diz-se que, no momento em que o rei francês era executado, uma voz gritou no meio da multidão: "Molay está vingado!".

Nos primeiros dias da revolução, o anticlericalismo dos iluminados foi conscientemente adoptado pela multidão, como se provou pelos ataques contra a igreja e pela destruição da propriedade eclesiástica. Uma litografia publicada na época mostra um homem nu olhando para o céu; está em pé em cima de uma árvore abatida e numa das mãos segura uma enxada. Nos ramos da árvore há emblemas do estado e da igreja. No fundo, o clarão de um relâmpago ilumina o céu e mostra uma coroa a arder. Nesta gravura, o homem arquetípico, simbolizando o homem comum, dirige-se ao Ser Supremo. Dá-se assim a entender que, apesar da sua atitude anticlerical, os revolucionários continuavam a acreditar numa forma de espiritualidade monoteísta. No auge das reformas políticas, até o fanático Robespierre atacava o povo inculto que apoiava a revolução mas apregoava o materialismo. Condenava também os intelectuais que, nas suas teorias da vida, não encontravam lugar para o conceito de Deus. Outro importante activista político da altura, Cemot, afirmava: "Negar o Ser Supremo é negar a própria natureza".

Um ano após o início da revolução, a terra em França tinha sido dividida entre os camponeses, a escravatura tinha sido abolida nas colónias francesas, tinha sido criado o controlo dos preços de forma a proteger o nível de vida dos pobres, e tinha sido criada uma instituição democrática. A Comissão de Salvação Pública aprovou leis que introduziram a educação livre, serviços médicos gratuitos e as linhas de orientação para um estado-providência. Contudo, o preço a pagar por estas reformas foi elevado: o receio de uma invasão estrangeira e de uma contrarrevolução levou à ditadura centralizada de uma nova classe dirigente e ao Terror que destruiu qualquer oposição à alegada traição aos objectivos propostos pela revolução. Tal como em todos os movimentos políticos radicais, os que defendiam a substituição do status quo depressa se deixaram seduzir pelo poder que tinham alcançado, tornando-se opressores piores do que os tiranos que tinham derrubado.

O papel dos iluminados e dos maçons na Revolução Francesa ficou baralhado com o abandono dos elevados ideais do movimento político que tinham instigado as reformas sociais originais. O radicalismo das lojas maçónicas anteriormente à revolução tinha alienado a sua tradicional comitiva entre as classes aristocráticas em França. Mesmo antes de 1789, os aristocratas começaram a demitir-se das lojas que promoviam o socialismo e, como resultado, a sua organização ficou seriamente enfraquecida. Por volta de 1792, muito poucas lojas maçónicas continuavam em actividade e o movimento vivia num estado de apatia. As que tinham sobrevivido enfrentavam a hostilidade do governo revolucionário. Em Versalhes, em 1792, o antigo grão-mestre de uma loja maçónica templária foi linchado por uma multidão enfurecida. Por todo o lado, a maçonaria caiu debaixo de suspeita; os detentores do poder consideravam o seu papel de sociedade secreta como uma cobertura para a contrarrevolução. Considerando o facto de ter sido fundamental para a revolução, é irónico que no espaço de poucos anos a maçonaria francesa se tenha tornado uma vítima do monstro que ajudara a criar.

Logo em 1791, começaram a circular acusações relacionadas com o papel dos maçons e dos iluminados, baseadas principalmente nas confissões de Cagliostro, que tinha sido preso pela Inquisição em 1789. Numa tentativa de salvar a vida, o conde falou aos acusadores da conspiração internacional tramada pelos iluminados, os neotemplários e os maçónicos, com o objectivo de iniciar revoluções em toda a Europa. Revelou que o seu objectivo último era completar o trabalho dos primitivos cavaleiros templários, derrubando o papado ou infiltrando agentes no colégio dos cardeais, de forma a conseguir que por fim fosse eleito um papa iluminista.

Nas suas confissões, Cagliostro admitiu que largas somas de dinheiro tinham sido colocadas por representantes dos iluminados em bancos da Holanda, Itália, França e Inglaterra, para financiar futuras revoluções nesses países. Afirmou mesmo que a casa Rothschild, a família internacional de banqueiros fundada em 1730, tinha fornecido os fundos necessários para financiar a Revolução Francesa e que funcionava como agente secreto dos iluministas.


(...) Por volta de 1796, as acusações de envolvimento de maçónicos e templários na Revolução Francesa tinham-se tornado correntes. Apontava-se que Molay tinha estado preso na Bastilha e esta tinha sido o primeiro alvo da multidão parisiense. Faziam-se ligações entre os templários e os jesuítas, baseadas em provas superficiais de que ambos os grupos estavam empenhados em criar uma "Igreja dentro da Igreja". Alegava-se que o duque de Orleães, grão-mestre da maçonaria francesa e amigo íntimo de Mirabeau, estava envolvido numa conspiração iluminista contra a família real francesa. Também se dizia que tinha praticado um ritual secreto ocultista, utilizando na operação despojos pertencentes a Molay. Não se sabe se se trata dos objectos sagrados tirados às escondidas da cripta dos templários em Paris na véspera da morte do grão-mestre.

Em 1796, foi publicado o livro Le Tombeau de Jacques de Molay [O Túmulo de Jacques de Molay], no qual se afirmava que a revolução francesa tinha sido obra de anarquistas cuja linhagem remontava aos templários e aos assassinos. Em 1797, um padre jesuíta, o padre Augustin Barruel, publicou uma obra, Memoires pour servir à l'histoire du Jacobinisme [Memórias para conhecer a história do Jacobinismo], em que traçava a sobrevivência da heresia maniqueísta através dos cátaros, dos assassinos, dos templários e dos maçónicos, defendendo que era esta heresia a responsável pela Revolução Francesa. Defendia também que a Guerra Civil Inglesa tinha resultado de uma conspiração dos templários.

A revelação de uma alegada conspiração iluminista com o objectivo de uma revolução universal foi recebida com sobressalto pelas outras famílias reais europeias. Tinham acompanhado os acontecimentos ocorridos em França e estavam convencidos de que em breve chegaria a sua vez. Antes da insurreição em França, a polícia na Prússia e na Áustria estava em estado de alerta para frustrar as ameaças de subversão oriunda das sociedades secretas. Em 1790, o governo bávaro decretou que a filiação nos iluminados seria considerada crime capital. O receio das sociedades secretas estendeu-se mesmo à Inglaterra, quando o parlamento debateu a Lei das Sociedades Ilegais que proibiria a maçonaria. A lei não foi aprovada porque os confrades ingleses nunca se tinham intrometido na política, e eram apoiados pela aristocracia e pela família real».

Michael Howard («Sociedades Secretas. A sua influência e o seu poder desde a Antiguidade até aos nossos dias»).


Ver aqui
«(...) Para não deixar passar em claro o caso português, muitas vezes incluído no âmbito mediterrânico devido ao facto de Portugal estar geograficamente integrado na Península Ibérica, diga-se que seguiu o exemplo dos países que não limitaram a acção das lojas maçónicas. Mais ainda: como aconteceria noutras regiões da Europa, as primeiras organizações maçónicas foram instaladas em 1727 por delegados de lojas francesas oriundos de Paris. No entanto, Portugal não esteve isento da influência britânica, iniciando-se muitos trabalhos e oficinas em Lisboa por acção da Grande Loja de Inglaterra. Essa actividade maçónica, que não se limitou a Lisboa, nunca foi inteiramente suspensa, salvo em ocasiões já muito recentes.

Por outro lado, a Maçonaria portuguesa do século XVIII não perdeu de vista o que se estava a passar em Espanha, dadas as semelhanças socio-políticas entre os dois países. Em 1738 havia duas importantes lojas em Lisboa; uma constituída por súbditos britânicos protestantes e outra integrada por católicos irlandeses, mas foi apenas no tempo do marquês de Pombal que a Maçonaria portuguesa alcançou o ponto mais alto do seu desenvolvimento. Sebastião José de Carvalho e Melo, nome do marquês de Pombal, tinha sido embaixador de Portugal em Londres, onde terá sido iniciado em 1744 [Há quem defenda a tese de que o marquês de Pombal teria sido iniciado em Viena]. Depois da sua morte, durante o reinado da Rainha Maria, foi desencadeada uma forte perseguição aos maçons, situação que acabou por se agravar quando foram conhecidos os acontecimentos revolucionários em França. Por volta de 1800 existiam apenas cinco lojas na cidade de Lisboa, sendo quase todas elas dirigidas e compostas por cidadãos de origem inglesa e francesa. Talvez esteja aí a causa de que só em 1804 tenha sido regularizada em definitivo a Grande Loja de Portugal...».

Miguel Martín-Albo («A Maçonaria Universal. Uma Irmandade de carácter secreto»).


«(...) Adam Weishaupt nasceu a 6 de Fevereiro de 1748, em Ingostadt; em criança, foi educado pelos padres jesuítas, que nele instilaram não só a discrição, como também o respeito pela obediência hierárquica da Companhia de Jesus (ou Jesuítas). Contudo, a despeito dessa precoce ligação à ordem, a sua nomeação, em 1775, como professor de Direito Natural e Direito Canónico na Universidade de Ingolstadt enfureceu os seus professores, pois não só acaba por vir a perfilhar graves pontos de vista liberais e cosmopolitas, como também "condenava o fanatismo e os padres supersticiosos". Contudo, nem todos estavam contra ele, pois não precisaria de muito tempo para conquistar uma boa reputação entre estudantes e professores e até elementos das universidades vizinhas se sentiam impressionados com os seus ensinamentos. Talvez esse apoio tivesse transmitido confiança a Weishaupt, o que, sem dúvida , conduziu à sugestão de vir a tornar-se dirigente de um grupo mais influente.




No dia 1 de Maio de 1776, com a ajuda do barão Adolph von Knigge, Weishaupt formou a "Ordem dos Perfeccionistas", que mais tarde se tornou conhecida como illuminati. Curiosamente, desde então alguns historiadores afirmaram que a data da fundação estabelece a origem do dia da celebração do 1.º de Maio comunista, conquanto existam poucas provas que apoiem esta teoria. Aquilo de que temos a certeza, é que, em 1777, Weishaupt foi convidado a aderir a uma loja maçónica, a Theodor zum guten Rath (Loja Theodor), em Munique. Ele aceitou o convite, embora a maior parte das suas energias ainda estivesse a ser dedicada aos illuminati, cuja doutrina era constituída por uma estranha mistura de misticismo islâmico, disciplina mental jesuíta e alguns dos ensinamentos da propria Maçonaria, muitos dos quais também acarinhavam a ideia de "iluminação". Todavia, o grupo de Weishaupt tinha completa liberdade de acção, com agenda e iniciativa próprias.

Apesar de os illuminati estarem completamente separados dos maçons, surgiu um relato apócrifo em torno do conceito, que conta como um mensageiro chamado Lanz, que recentemente aderira aos illuminati, foi atingido por um raio quando transportava um conjunto dos documentos mais importantes de Weishaupt. Lanz morreu, mas ao descobrirem o seu corpo, as autoridades encontraram também os documentos de Weishaupt, dizendo-se que neles se revelava um elo directo entre o seu grupo e a Maçonaria.

(...) "O seu esquema [de Weishaupt] parece ser calculado não tanto pelo facto de unir pessoas com sentimentos semelhantes numa sociedade, mas por seduzir aqueles com inclinações opostas e, pelo processo mais artificioso e detestável, obliterar gradualmente das suas mentes qualquer sentimento moral e religioso. Principalmente, é sob este aspecto que esse plano de sedução desperta a atenção da humanidade, já que desenvolve a política secreta e insidiosa pela qual os agentes de facção e da infidelidade actuam sobre os seus discípulos que ainda albergam ideias próprias, até a mente ficar envolta num erro confuso, ou enredada em armadilhas das quais não há como sair" [Proof of the Illuminati, Seth Payson e Benedict Wiliamson. Originalmente impresso por Samuel Etheridge, 1802; Invisible Press, 2003].

Por volta de 1780, os illuminati tinham aumentado o seu poder e o co-fundador, Knigge, registava o modo como o grupo conseguira arregimentar quase dois mil membros em toda a Europa.

(...). Mas isto era a Baviera de meados do século XVIII - um estado altamente conservador, concentrado em si mesmo, dominado pela Igreja Católica romana, que não via com bons olhos o tipo de racionalismo radical de Weishaupt nem os seus argumentos de as nações e a religiões deverem ser abolidas, juntamente com ideias institucionalizadas como a propriedade e o casamento. Em consequência, os illuminati foram classificados como sediciosos e, em 1784, o governo bávaro baniu a sociedade. Subsequentemente, Weishaupt perdeu a sua posição na Universidade de Ingolstadt e fugiu da Baviera, rumo ao santuário de Gotha.

Ironicamente, e apesar do aparente colapso dos illuminati, a corrente literária detractora, alimentada por todos aqueles que se opunham às crenças por eles perfilhadas, contribuiu para que, na actualidade, pudéssemos conhecer melhor o grupo. Há dois livros específicos que se destacam: Proofs of Conspiracy Against All the Religions and Governments of Europe, publicado na Irlanda em 1797, escrito por John Robinson, professor da Universidade de Edimburgo e um trabalho do abade Augustin Barruel, Memoirs Illustrating the History of Jacobinism (também publicado em 1797, um volume de quatro tomos que contém várias teorias conspirativas vívidas que envolvem não só os illuminati como também os maçons, os cavaleiros templários e os rosacrucianos. De acordo com o autor, cada uma destas seitas tinha por objectivo o banimento não só da religião, mas também das instituições políticas e governamentais.




Dos quatro volumes da obra de Barruel, os primeiros dois são dedicados à campanha contra a cristandade levada a cabo por filósofos europeus, entre eles franceses da estirpe de Voltaire, Diderot e Rousseau. O terceiro volume refere-se aos illuminati - particularmente ao modo como Weishaupt recrutou vários líderes franceses, alemães e outros dirigentes maçons europeus para aderirem à sua nova sociedade, unindo assim as diferentes facções sob o controlo geral dos illuminati. No quarto volume, Barruel acusa os illuminati de serem a verdadeira causa da Revolução Francesa (1789), episódio do qual, segundo ele, a França nunca chegou a recuperar verdadeiramente.

Tanto o livro de Barruel como o de Robinson causaram um impacto profundo quando foram publicados e, mesmo decorridas várias décadas, as suas denúncias continuavam a ser lidas por estadistas eminentes. Dizia-se, por exemplo, que na América, George Washington concluíra que os os governos corriam o perigo de serem derrubados pelos iluministas, ao fazerem entrar em cena o jacobinismo revolucionário. Washington não era o único a sentir esse temor. Outros americanos proeminentes (na verdade, quase todos menos o próprio secretário de estado de Washington, Thomas Jefferson), temiam os iluministas e amplificavam as teorias de Barruel e de Robinson publicando os seus próprios livros. Um deles foi Seth Payson, que escreveu Proof of the Illuminati, cuja primeira edição data de 1802. Entre as numerosas acusações que podemos encontrar nas suas páginas, encontra-se uma carta supostamente enviada por Weishaupt (sob o pesudónimo de "Spartacus") a Hertel Canon, de Munique (cujo nome de código era "Marius"), fornecendo pormenores do modo como engravidara a cunhada. "Já fizemos várias tentativas para destruir a criança", escreveu Spartacus, "[...] Para mim, seria muito útil poder confiar no sigilo de Celse (professor Buder, em Munique). Ele já me tinha prometido ajuda há três anos. Se achar conveniente, mencione-lhe isso".

(...) Robinson esforça-se para assinalar que, apesar de Weishaupt preferir manter-se como uma figura obscura dentro da sociedade, havia outros membros da sua ordem que se destacavam, de modo a poderem recrutar activamente novos filiados. "São os minervas", dizia Robinson. "São os únicos membros visíveis dos illuminati e para que um candidato seja admitido no grupo, tem de ser apresentado a um minerva que, por sua vez, fará chegar o pedido ao conselho. Depois, decorre um período durante o qual o candidato é secretamente observado. Se for considerado inadequado, o pedido não terá seguimento; caso seja bem sucedido, recebe um convite para assistir a uma conferência secreta, onde é recebido como noviço".

"Mas", escreveu Payson, num estilo verdadeiramente conspirativo, "os insinuadores são os principais agentes da propagação da ordem. São espiões invisíveis à procura de quem possam devorar, pessoas cujos nomes estão inscritos nos seus blocos de papel, dos quais estão sempre bem fornecidos e que, segundo eles, poderão ser úteis à ordem, onde indicam os motivos a favor ou contra essa admissão".

Com a utilização de uma linguagem tão emotiva, não custa a crer que a reputação dos illuminati fosse de temer. Mas o abuso não se fica por aqui, pois Payson prossegue na explicação do modo como os insinuadores, uma vez seleccionado o alvo, regressam para "seduzir" essas vítimas involuntárias até que, tendo sofrido a lavagem cerebral, elas se tornam pupilas dos illuminati.

Sob muitos aspectos, esta metodologia reflecte a prática actual dos cultos quando procedem ao recrutamento de novos membros: a iniciação gradual das vítimas intencionais, levada a cabo por membros do grupo que foram especialmente treinados para essa tarefa. No entanto, assim que o candidato se tornava membro convicto dos illuminati, passava a ter muito pouco em comum com os seus congéneres actuais, pois, sob a tutela de um instrutor, a sua primeira tarefa seria aprender que o "silêncio e o secretismo constituem a alma da ordem". Para este propósito, cada membro dos illuminati recebia um novo nome - realmente o único pelo qual passaria a ser conhecido pelos outros dentro do grupo (deste modo, Weishaupt era conhecido por Spartacus, Knigge por Philo, etc.) - atribuindo-se inclusivamente nomes codificados aos lugares (por exemplo, a Baviera era Acaia, Munique era Atenas, Viena era Roma, Áustria era Egipto, etc.). Depois de digerir toda esta informação, exigia-se ao noviço que aprendesse os estatutos da sociedade, sendo vital que o conhecimento da humanidade era o mais importante e, para o alcançar, o novo membro ficava encarregado de uma análise constante do mundo e de anotar todas as observações que fazia. O noviço tinha também de presentear os superiores com um relato escrito da própria vida, assinalando os pormenores como o local onde nascera, os inimigos que tinha, os seus amigos, aquilo de que gostava e não gostava, documentos secretos e todo o tipo de informações pessoais. Abordavam-se então essas revelações, que eram analisadas sob o aspecto da aceitação ou rejeição do candidato. Caso fosse aceite, requeria-se ao noviço que se submetesse a uma cerimónia de iniciação.

A altas horas da noite, era conduzido a uma sala pequena e pouco iluminada, onde o inquiriam sobre a sua disponibilidade para se devotar à ordem. De acordo com várias fontes, era necessário fazer um juramento solene de espada apontada, que incluía um voto de silêncio eterno e total obediência à ordem, sob pena de morte. Era então concedido ao noviço o título de "minerva". Era neste ponto, pelo menos assim afirma Payson, que os illuminati e os maçons convergiam. Posto isto, para além de nos dizer que os minerva aderem a uma loja (termo normalmente usado pelos maçons), Payson não nos proporciona mais nenhuma evidência de conexão.


Era hábito os minervas reunirem-se em grupos, sob a tutela de um superior mais iluminado. No decorrer das reuniões eram estimulados a discutir muito pormenorizadamente o iluminismo, as suas leis e os actos que eram aceitáveis, ou não, no seio da ordem. Por exemplo, em determinadas circunstâncias, o suicídio era sancionado. O mesmo acontecia relativamente ao roubo ou assassinato, podendo ambos ser praticados para o bem do grupo. Como sempre, no decorrer dessas discussões, os noviços, ou minervas, eram cuidadosamente vigiados pelos superiores, que julgavam permanentemente a sua adequação para a ascensão ao grau seguinte na escada dos illuminati.

A seguir à posição de minerva, vinha a de illuminatus menor. Nesta fase, era dever do instrutor remover qualquer traço de preconceito político ou religioso que pudesse existir no noviço. Adicionalmente, exigia-se ao noviço que estudasse as artes secretas dos illuminati - como a do controlo da mente e da ocultação dos verdadeiros sentimentos pessoais. Ultrapassado este estágio do treino, o illuminatus menor ascendia ao título de illuminatus maior, ou noviço escocês. Uma vez mais, Payson esforçava-se para apontar a proximidade do processo à lavagem cerebral. "É impossível", escreveu, "[...] apresentar uma visão do processo lento, artificioso e insidioso pelo qual a mente é poderosa e insensivelmente afastada da posse dos anteriores princípios e bombardeada com a agradável ideia da rápida chegada às regiões da sabedoria sublime".

No estádio de noviço escocês, sob a orientação do seu novo conselheiro, era-lhe requerido que se familiarizasse com as muitas misérias humanas, misérias que os illuminati atribuíam à pressão por parte da igreja e do estado, sofrida pelos cidadãos de todas as nações. Quando o noviço completava este período de estudo, recebia o título de cavaleiro escocês, o estádio imediatamente anterior ao de iluminismo total. Este estádio diferia radicalmente dos anteriores porque, em vez de permanecer confinado a câmaras escuras e ao secretismo, um cavaleiro escocês tinha o privilégio de ingressar numa nova loja, cujo esplendor não tinha igual. Além do estudo de mais regras e regulamentações, o cavaleiro escocês tinha a tarefa de converter em vantagens para os illuminati todas as oportunidades que lhe surgissem.

Tendo ultrapassado estes testes, chegava o momento de o noviço conhecer os "mistérios menores" dos illuminati, revelações que requeriam a concessão do título de "padre" ou "edopt". Neste papel, era-lhe ensinado que, na Terra, nenhuma religião ou governo tinha a capacidade de responder às necessidades da humanidade e que os únicos meios eficazes para fazê-lo eram as sociedades que detinham o privilégio de conhecer o segredo de Jesus.


É oportuno dizer aqui que o credo dos illuminati era concordante com o dos maçons, afirmando que o segredo de Jesus fora revelado para a reintegração da humanidade no seu anterior estado de liberdade e igualdade. Um dos símbolos utilizados na Maçonaria é uma pedra desbastada, que representa a natureza primitiva do homem, selvagem, mas essencialmente livre. A pedra cindida representa a natureza ruinosa da humanidade, dividida entre o estado e a religião.

(...) O edopt tinha o direito de usar uma túnica branca, cingida por um largo cinto vermelho, com fitas igualmente vermelhas opostas a uma manga. Após ter atingido a posição de edopt era permitido ao noviço prosseguir, avançando para o papel de regente, posição que lhe requeria ser conduzido à sua loja como escravo, acorrentado, condição destinada a representar a posição miserável da humanidade humilhada pela sociedade e pelo governo. Uma voz oriunda do interior da loja nega-lhe, então, a entrada, afirmando-lhe que só os homens livres têm a possibilidade de transpor a porta; a isto, o guia do noviço responde que o desejo do edopt é tornar-se livre; que alcançou a iluminação; que foge de todos os tiranos e procura refúgio apenas entre os homens livres.

Por volta de 1784, tanto a Igreja como o Estado zelaram para que as actividades de Weishaupt fossem significativamente restringidas. Payson (baseando as suas provas nas descobertas de Barruel e Robinson) declarou que esta mudança de acontecimentos surgiu devido à descoberta de publicações perigosas - várias das quais nos conduzem à loja Theodore, da qual Weishaupt era membro, claro está. O eleitor da Baviera instruiu a loja para restringir as suas actividades. Ao ser ignorado, não teve outro remédio senão ordenar um inquérito judicial, que levou à descoberta de várias outras lojas maçónicas estarem associadas a um grupo chamado os illuminati. Foram presos quatro professores, Utschneider, Cosandey, Renner e Grundberger, que, mais tarde, deram testemunho das práticas tenebrosas dos seus respectivos grupos - actividades que se estendiam das práticas sexuais ilícitas ao suicídio. Foi nesta altura que Weishaupt foi destituído do seu posto na universidade e expulso da Baviera. Diz-se que posteriormente vieram a lume vários documentos que ilustravam a natureza verdadeiramente perniciosa da sociedade illuminati. Barruel, no seu livro sobre o jacobinismo, afirma que o extracto a seguir constitui uma citação directa de uma das cartas de Weishaupt:

"É muito apropriado levar os vossos inferiores a acreditarem, sem lhes revelar o verdadeiro estado do caso, que todas as outras sociedades ocultas, particularmente a Maçonaria, são secretamente dirigidas por nós. Ou que, como ocorre realmente em alguns estados, os monarcas poderosos são governados pela nossa ordem. Quando acontecer alguma coisa notável ou importante, mencionem que teve origem na nossa ordem. Se alguém atingir uma reputação elevada pelos seus próprios meios, facultem a todos o conhecimento de se tratar de um dos nossos".






Apesar destas directivas, uma vez expulso, Weishaupt pouco podia fazer para manter os illuminati em actividade. Nesse momento, parece que toda a sociedade se desvaneceu serenamente. Isto até há pouco tempo, ao aparecer uma mão-cheia de pesquisadores contemporâneos que afirmaram que os illuminati bávaros acordaram e estão novamente em acção, alimentando ainda o objectivo de estabelecerem uma Nova Ordem Mundial. As suas provas parecem estar baseadas na emergência de várias organizações tão diversificadas como a Sociedade Skull and Bones de Yale e o Grupo Bilderberg.

O primeiro é um clube de elite do qual, entre alguns dos homens mais poderosos do século XX, são membros vários presidentes americanos. Fundado em 1832, pouco depois da abolição dos illuminati bávaros, é voz corrente que a Sociedade Skull and Bones não passa de uma versão do Novo Mundo do tipo de sociedades tão vulgares na Alemanha durante os meados do século XIX. Não é então de admirar que se afirme que este grupo é um ninho de intrigas e conspirações dos illuminati. Vários críticos continuam a exigir a extinção do clube, numa atitude muito semelhante à dos detractores do século XVIII. Um deles é Ron Rosenbaum, colunista do New York Observer. Rosenbaum diz: "Penso que na América existe uma desconfiança profunda e legítima relativamente ao poder e ao privilégio que estão envoltos pelo secretismo. Essa não é a nossa atitude. Supostamente, na América deveríamos agir de forma aberta. Logo, penso que qualquer sociedade ou instituição que esconda alguma coisa será um alvo legítimo de investigação".

Outro bom motivo para investigar este clube é o facto de vários presidentes americanos, incluindo George W. Bush (...), assim como seu pai, George H. W. Bush e o seu avó pertencerem alegadamente a este grupo e dizer-se que teriam convidado membros da Sociedade Skull and Bones para participarem dos seus governos.

Mas a Skull and Bones não é a única sociedade secreta potencialmente em actividade nos escalões superiores do governo norte-americano. O Grupo Bilderberg, um círculo elitista de poderosos corretores, banqueiros, economistas e dirigentes mundiais que se reúnem secretamente para dirigir os problemas mundiais, foi formado pouco tempo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1954, o tema da agenda do Grupo Bilderberg era a cooperação transatlântica, de modo a que pudessem ser prevenidas futuras guerras. Encontrando-se em segredo, normalmente na Holanda, onde o grupo se reuniu pela primeira vez, no Hotel Bilderberg, jamais chega ao público uma única palavra dos seus debates. Será de estranhar que os teóricos das conspirações tenham relacionado esta organização com actuações sombrias, isto para não referir o estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial, que só seria superada pelos objectivos perfilhados pelos illuminati? É voz corrente que o bombeiro da cidade de Oklahoma, Timothy McVeigh, e o terrorista internacional Osama Bin Laden, acreditaram na teoria de que "Bilderberg é que toca a música segundo a qual dançam os governos nacionais". Respondendo a esta suposição, o antigo chanceler do Tesouro da Grã-Bretanha, Denis Healey, um dos membros fundadores do Grupo Bilderberg, nega veementemente que o grupo exerça qualquer influência sinistra sobre os problemas mundiais. "Isso não tem qualquer fundamento", disse ele. "Na Bilderberg, jamais cogitámos conseguir um consenso sobre os grandes problemas. Trata-se meramente de um lugar de debate".

















George Clooney








Sede do Council on Foreign Relations (Nova Iorque).










Do mesmo modo, um grupo privado que se autodesigna Comissão Trilateral, formado em 1973 por cidadãos japoneses, europeus e norte-americanos, insiste em que a única função do seu clube não é agir como um ecrã defensor das maquinações dos illuminati, mas como um reservatório do pensamento, para incrementar uma maior cooperação entre os países democráticos industrializados de todo o mundo. A União Europeia também foi acusada de estar envolvida em decisões manipuladas pelos illuminati, tal como as Nações Unidas e o Conselho de Relações Internacionais (CFR). Este último grupo, fundado em 1921, é mais uma organização independente, apartidária, destinada a estudantes e dedicada à promoção de um melhor entendimento do mundo e das políticas externas adoptadas pelos Estados Unidos e outros governos. É isto que o CFR diz ser. Por outro lado, os teóricos das conspirações estão mais inclinados a acreditar tratar-se da ala promotora da elite governante dos Estados Unidos da América, que utiliza os seus membros (todos políticos influentes, académicos ou economistas) para incrementar a causa da Nova Ordem Mundial, transplantando subrepticiamente as suas doutrinas para a corrente principal da vida americana. Nos seus sites e para apoiarem as suas ideias, os teóricos das conspirações servem-se  de citações de todas as pessoas influentes. O trecho que se segue, por exemplo, foi escrito em 23 de Fevereiro de 1945, pelo presidente Roosevelt: "A verdade autêntica, como você e eu sabemos, é que nos grandes centros o poder foi adquirido por um elemento financeiro desde a época de Andrew Jackson". E esta, de Felix Frankfurter, do Supremo Tribunal de Justiça norte-americano (1939-1962): "Os verdadeiros governantes de Washington são invisíveis e exercem o poder nos bastidores". Nenhuma das citações constitui uma exposição falaciosa de algo remotamente clandestino. No entanto, de vez em quando, o que estas pessoas dizem é-nos apresentado como prova concreta de estar em funcionamento uma sociedade secreta que tenta dominar o mundo. Seja a União Europeia, o instituto Commonwealth ou qualquer outro agrupamento multinacional - de cariz político ou económico - os teóricos das conspirações continuam a insistir no envolvimento dos illuminati (entre outros). Apontam também actos de terrorismo, como o de 11 de Setembro, assassinatos, como o de John F. Kennedy e acontecimentos mundiais de todos os tipos como orquestrações dos illuminati.

David Icke, ex-futebolista inglês que se tornou escritor, afirma, num artigo que aparece num site apropriadamente designado www.propagandamatrix.com: "Era evidente que se estava a orquestrar algo de grande magnitude que iria devastar a tal ponto a mente humana através do medo, do horror e da insegurança, que se poderia oferecer 'soluções' que levariam a agenda a dar um salto colossal quase de um dia para o outro. Foi a isso que assistimos nos Estados Unidos no ritualmente significativo dia onze do nono mês -9/11 é o número das emergências nos EUA. Os códigos rituais e esotéricos estão no âmago de todos os empreendimentos dos illuminati..."».

Shelley Klein («Sociedades Secretas»).


Thomas Jefferson

«Enquanto Weishaupt viveu sob a tirania de um déspota e dos padres, sabia que precisava de ser cauteloso com a difusão de informações e dos princípios da moralidade pura. Isso conferiu uma aura de mistério aos seus pontos de vista, foi o fundamento da sua expulsão [...] Se Weishaupt tivesse escrito hoje, em que não há necessidade de secretismo nos esforços que desenvolvemos para tornar o homem sábio e virtuoso, não teria tido necessidade de pensar em nenhum maquinismo para esse propósito».

Thomas Jefferson

ROMA CONDENA (SÉCULO XVIII)

Filha de protestantes anti-papistas, a maçonaria importada de Inglaterra vive um desenvolvimento inesperado nos países latinos e católicos (França, Itália, Espanha e Portugal) ao longo do século XVIII, a ponto de, por vezes, se tornar um verdadeiro fenómeno de moda, sobretudo em França, onde o número de lojas maçónicas explode na segunda metade do século. Aí acotovelam-se aristocratas, burgueses e não poucos eclesiásticos católicos. Embora estes sejam, na sua maioria, padres ou religiosos, também se podem ali encontrar bispos. Este sucesso em território católico é tão mais surpreendente quanto, como já referido, o Papa Clemente XII condenara com firmeza a maçonaria em Abril de 1738, uma condenação acompanhada de excomunhão dos maçons que, em 1751 o Papa Bento XIV reitera.

A BULA DO PAPA CLEMENTE XII

O título da carta apostólica de Clemente XII é eloquente: «Condenação das sociedades ou conventículos chamadas popularmente de Liberi Muratori ou franco-maçons sob pena de excomunhão...». Qual a razão desta cólera papal? É verdade que as origens protestantes da maçonaria não litigam a seu favor aos olhos de Roma. Mas em França ela revela-se uma boa católica. Aliás, a primeira edição das Obrigações da Confraternidade dos maçons, na parte consagrada aos estatutos vigentes nas lojas de França, estipula que «não será recebido na ordem ninguém que não tenha prometido e jurado uma ligação inviolável com a Religião, o Rei e os Costumes». Para além disso, e como o revelam as investigações dos historiadores, a maçonaria, mesmo a anglo-saxónica, nunca se entregou a qualquer ataque à Igreja romana nem produziu qualquer texto anti-católico. De facto, os agravos do Vaticano têm a marca da suspeita relacionada com o segredo que rodeia os trabalhos das lojas maçónicas.





Os motivos avançados pela bula (In Eminenti) de Clemente XII são de três ordens: moral, jurídica e religiosa. Há ainda uma enigmática evocação de «outras causas justas e razoáveis por Nós conhecidas...». Quais? provavelmente razões de cariz político, segundo os historiadores, em particular as que estão associadas ao controlo da Toscana que estava a ser disputado entre o Vaticano e François de Lorraine, este apoiado pelos maçons de Florença... A censura principal entre as que eram explicitamente formuladas por Clemente XII diz respeito ao facto de os maçons «estarem ligados entre si por um pacto tão rigoroso como impenetrável» ao comprometerem-se «através de um juramento prestado sobre a Bíblia, e sob as penas mais graves, a ocultar sob um silêncio inviolável tudo o que fazem na obscuridade do segredo». Esta é seguramente uma «marca de perversão e de maldade», afirma Clemente XII, «pois se eles não fizessem nenhum mal não odiariam a luz a esse ponto...». Prova da justeza desta suspeita, acrescenta, «em vários Estados, essas chamadas sociedades foram proscritas e banidas como sendo contrárias à segurança dos reinos». O Papa faz aqui alusão, sem as nomear, às recentes interdições já pronunciadas pelas autoridades temporais de Hamburgo (1738), Paris (1737) e, na esfera protestante, Haia (1735 e 1737) e Genebra (1736).

Os dois agravos principais estão então explicados. O terceiro é formulado de maneira mais indirecta. As assembleias de maçons congregam, destaca o Papa, «homens de todas as religiões e de todas as seitas, adoptando uma aparência de natural probidade», o que é desmentido, a seu ver, pela sua prática do segredo e pela ilegalidade da sua actividade. Ora, prossegue, é seu dever zelar para que «este género de homens, tal como os ladrões, não arrombem a casa e, tal como as raposas (...), não pervertam o coração dos simples..». Está aqui em causa a tolerância religiosa praticada nas lojas, uma vez que é considerada perigosa para a fé dos católicos que as frequentam e, por conseguinte, para a autoridade da Igreja romana. Segue-se, por todas estas razões, a interdição feita a todos «os fiéis de Jesus Cristo», sob pena de excomunhão, de frequentarem a maçonaria ou de a apoiarem seja de que maneira for. Para além disso, Clemente XII pede à Inquisição que, com o apoio do poder secular se necessário, persiga os eventuais «transgressores» considerados «fortemente suspeitos de heresia».

Treze anos depois, em 1751, o Papa Bento XIV confirma, quase palavra por palavra, a sentença pronunciada pelo seu predecessor. A bula Providas retoma os mesmos motivos, sendo porém mais explícita sobre a questão religiosa. A primeira causa de condenação romana da maçonaria, pode ler-se aqui, «é que, neste tipo de sociedades ou conventículos, se reúnem homens de todas as religiões e seitas, sendo já patente o grande mal que daí pode resultar para a pureza da religião católica...». De uma bula para outra, vê-se muito claramente que a condenação romana da maçonaria não variou e que, sobretudo, é global. Ela não diferencia nenhuma das correntes, ou sensibilidades, que a atravessam: Antigos e Modernos em Inglaterra, deístas, teístas, racionalistas, espiritualistas... Mas tal como o revelaram os historiadores, incluindo um jesuíta como o R.-P Ferrer Benimeli (1), nessa época existia no Vaticano uma grande ignorância sobre o que era a maçonaria. De facto, Clemente XII escreveu em In Eminenti que fora alertado para o seu desenvolvimento pelo «rumor público».


A REACÇÃO DOS CATÓLICOS MAÇONS




Em França, numerosos maçons do século XVIII parecem ter partilhado o mesmo sentimento. «A nossa ordem recebeu um terrível golpe do nosso Santo Padre, escreve numa carta privada o marquês de Saulx-Tavannes em Outubro de 1738. Vereis que será necessário recebê-lo para o desenganar e explicar-lhe que não deve pensar tanto mal do seu próximo nem condenar aquilo que não conhece» (2). Outros, como o revela O Segredo dos maçons posto em evidência por M. Uriot, membro das lojas da União e da Igualdade, publicado em 1744, consideram que o Papa havia sido induzido em erro pelo seu círculo, pois os maçons continuavam, segundo eles, submetidos à Igreja. Na Irlanda, em 1738, o grão-mestre lembrava, numa Resposta à bula do papa, que os maçons continuavam a ser fiéis ao Criador e à religião natural.

As condenações romanas não suscitaram muitas reacções públicas por parte dos maçons. Em França, as mais notáveis devido ao seu catolicismo reivindicado são as do barão Louis de Tschoudy e do escritor Joseph de Maistre (1753-1821). Venerável da Loja Antiga de Metz, Louis de Tschoudy publica em 1752 uma série de cartas (3) para refutar a bula Providas de Bento XIV. Ele empenha-se em demonstrar que esta condenação não se baseia em nenhum argumento doutrinal sólido e que a maçonaria não representa nenhum perigo, nem para a Igreja nem para as autoridades civis. A fraternidade é o objectivo fulcral da maçonaria, assegura defendendo a legitimidade do segredo, pois não abarca nada de repreensível.

Também Joseph de Maistre defende a legitimidade do segredo uma vez que «estamos seguros, na nossa consciência, de que o segredo maçónico não contém nada de contrário à religião e à Pátria», escreve na sua célebre Memória ao duque de Brunswick (1782). Iniciado na loja La Sincérité de Chambéry, Joseph de Maistre não contesta a autoridade do papa, como bom católico ultramontano que se opunha aos católicos galicanos que reivindicavam a autonomia da Igreja de França relativamente a Roma. Mas, embora estivesse muito consciente das correntes maçónicas divergentes do cristianismo, ele defende a maçonaria insistindo, como Louis de Tschoudy, nas suas raízes cristãs. Na sua opinião, ela podia mesmo ser o meio de fazer regressar ao catolicismo aqueles que se haviam distanciado dele (4).

As palavras de Joseph de Maistre não surtiram grande efeito no Vaticano. Por seu lado, as condenações papais não travaram a expansão da maçonaria. As únicas excepções foram os países onde o poder da Inquisição era realmente grande: Itália, Portugal e Espanha. Instauraram-se processos, dissolveram-se lojas. Para serem libertados das garras inquisitoriais, os maçons deviam jurar nunca mais se reunir. Apesar de tudo, persiste uma maçonaria clandestina, nomeadamente em Itália. Determinados arrependidos são absolvidos por Bento XIV, tornando-se uma fonte de informações para a Santa Sé que, na sua ignorância, precisa realmente delas. Como demonstrado pelo R.-P. Ferrer Benimeli, os processos da Inquisição tinham como principal objectivo «descobrir o que era realmente a Sociedade dos Maçons» (5), por vezes sem chegar a pronunciar condenações perante a impossibilidade de provar a culpabilidade dos maçons. Isso mesmo reconhece, numa carta datada de Janeiro de 1739, o cardeal português D. Nuno da Cunha e Ataíde, inquisidor-mor, ao constatar que «não se encontra qualquer suspeita de heresia na sociedade nem nenhuma mancha de superstição...». A Inquisição portuguesa acabou, no entanto, por encontrar culpados, entre os quais o mercador John Coustos, torturado e condenado às galés em 1744.

Em contrapartida, em França os maçons pouco sofreram com os anátemas papais. Para aí ser aplicado, qualquer acto pontifício deve ser ratificado pelo parlamento de Paris que, sendo maioritariamente galicano, não o fizera relativamente às bulas de Clemente XII e de Bento XIV. Segundo o adágio, «lex non promulgate non obligat» (lei não promulgada não obriga). Uma verdadeira sorte para uma maçonaria e uma Igreja no seio das quais a dupla pertença não levanta quaisquer problemas. Tanto de um lado como de outro, estes são de facto raros. Numerosas lojas mandam celebrar, sem qualquer problema, ofícios religiosos para funerais de irmãos ou «missas de São João» por ocasião das festividades dos seus santos padroeiros, São João Baptista e São João Evangelista. Os calendários de banquetes rituais levam em consideração os deveres católicos, como o de respeitar a Quaresma e o jejum de sexta-feira. Há lojas que não hesitam em excluir um ou outro dos seus membros que se ufane do seu ateísmo. Algumas chegam mesmo a ter o seu capelão e muitas delas contribuem paras as obras sociais das paróquias (6).



Os ideais filosóficos do Iluminismo difundem-se também na maçonaria, promovendo a progressão do deísmo racional em detrimento do teísmo cristão, mas não a ponto de a fazer cair num racionalismo anti-católico, um fenómeno que só verá verdadeiramente a luz no século seguinte. Paralelamente à influência do Iluminismo, a maçonaria francesa é também marcada pela renovação de um iluminismo que combinava demanda mística, esoterismo, filiação templária e teosofia, uma corrente divulgada nomeadamente por Martinés de Pasqually, o fudador da Ordem dos Cavaleiros Maçons Elus Cohen do Universo e autor de um Tratado da reintegração dos seres (1773), que influenciou Louis Claude de Saint-Martin, que também se opunha à filosofia do Iluminismo. Para este adepto de um cristianismo esotérico, somente a luz divina poderia iluminar a razão humana. Os diferentes ritos maçons que surgiam, de forma anárquica, em França são testemunho da enorme diversidade da maçonaria deste período. Há ritos para todos os gostos, mas na sua maioria conservam um carácter religioso por vezes pronunciado e frequentemente um enraizamento cristão explícito, como é o caso, por exemplo, do Rito Escocês Rectificado caro a Joseph de Maistre.

Isto não é de surpreender numa maçonaria que mantém uma inspiração cristã e, embora acolhendo protestantes ou deístas, é globalmente católica. O suficiente, em todo o caso, para aí encontrarmos uma forte presença clerical. Chega a acontecer que, em certas lojas, se contam mais clérigos do que leigos entre os seus membros. Outras foram claramente fundadas em mosteiros, como a loja La Vertu, na abadia de Clairvaux, maioritariamente composta por monges cistercienses (7)... Existem inclusivamente bispos maçons como Louis Henri de Bruière-Chalabre, bispo de Saint-Pons, ou Gilbert Montmorin de Saint-Herem, bispo-duque de Langres. Mas este fenómeno não é exclusivo do reino de França. O R.- P. Ferrer-Benimeli repertoriou, como membros da maçonaria do século XVIII, perto de dois mil eclesiásticos, maioritariamente franceses, mas também pertencentes às Igrejas da Alemanha, Áustria-Hungria, Espanha e Itália, entre os quais o cardeal Delei de Roma (8).


A REVOLUÇÃO FRANCESA E A TESE DA CONSPIRAÇÃO MAÇÓNICA

A Igreja Católica e as lojas maçónicas vivem portanto em harmonia, particularmente em França, durante boa parte do século XVIII. Isto até à fractura representada pela Revolução Francesa, que não poupa nem a maçonaria nem a Igreja. Constituição civil do clero, juramento de fidelidade, confiscação dos bens eclesiásticos, sem esquecer uma verdadeira empreitada de descristianização no auge do processo revolucionário: o catolicismo francês completamente depauperado da Revolução. Tal como a maçonaria, aliás... Vistas a partir de Roma, as malfeitorias revolucionárias são rapidamente interpretadas como as consequências directas de um projecto de destruição da Santa Igreja, urdido na opacidade das sociedades secretas. Obra maléfica à qual vai ficar associada a maçonaria no seu conjunto.

A Revolução, obra da maçonaria? Os historiadores demonstraram, desde então, a inanidade desta tese que vai, durante muito tempo, ser defendida pelo anti-maçonismo católico. Ela surge muito cedo, logo em 1791, com a publicação de um livro do abade Lefranc, O véu levantado para os curiosos, ou os Segredos da Revolução revelados com a ajuda da maçonaria. Mas é outro abade, com que já nos cruzámos no decorrer destas páginas, Augustin Barruel, que a populariza a partir de 1797, com as suas Memórias para servir a história do jacobinismo. No mesmo ano, em Inglaterra, como já referido, John Robinson publica um livro, traduzido para francês em 1799, com o título eloquente: Provas da conspiração contra todas as religiões e todos os governos da Europa urdida nas assembleias dos Iluminados, dos maçons e das sociedades de leitura. Era uma obra que denunciava, entre outros fantasmas, a acção dos jesuítas na maçonaria francesa.




Ele próprio jesuíta, Augustin Barruel foi, segundo afirmações suas, maçon antes da Revolução. Se bem que reconheça a fidelidade da Grande Loja de Inglaterra às suas origens cristãs, pretende basear-se na sua própria  experiência para demonstrar a perversão da maçonaria francesa, consequência nefasta do filosofismo das Luzes cujo pior exemplo, a seus olhos, são os iluminados da Baviera de Adam Weishaupt. No entanto, este movimento maçónico, racionalista, anti-monárquico e hostil à Igreja romana, fora combatido e rejeitado por boa parte da maçonaria, e não exclusivamente a maçonaria alemã. Mas Augustin Barruel, pouco dado a nuances, junta no mesmo saco de conjurados os Iluminados da Baviera e os iluminados das correntes maçónicas esotéricas e místicas tais como os martinistas, inspirados por Luis Claude de Saint-Martin...

A tese da responsabilidade dos maçons na Revolução e nos infortúnios da Igreja tem uma enorme aceitação nos finais do século XVIII. É sustentada por toda a espécie de escritos, alguns dos quais explicam esta conjura pela pretensão, no interior da maçonaria, de vingarem os Templários. Mas é também posta em causa por personalidades contra-revolucionárias, como Joseph de Maistre. Maçon e católico fervoroso, foi acusado de cumplicidade com os jacobinos saboianos, artesãos do reatamento dos laços entre a Sabóia e a França. Em sua defesa, redige em 1793 Memórias ao Barão Vignet des Étoles, onde afirma que «a maçonaria em geral, que data de há vários séculos (...) não tem seguramente no seu princípio nada em comum com a Revolução Francesa».

Num documento posterior, Quatro capítulos sobre a Rússia (1811), Joseph de Maistre condena, como Barruel, os Iluminados da Baviera, mas separa-os claramente das correntes iluministas da maçonaria. A seus olhos, o martinismo é «cristão em todas as suas raízes», «acostuma os homens aos dogmas e às ideias espirituais» e«preserva-os de um tipo de materialismo prático muito destacado na nossa época, e do gelo protestante que não tende para mais nada senão para gelar o coração humano...». Dito isto, ele estabelece uma clara diferença entre a maçonaria que é para ele autêntica, isto é, a maçonaria teísta e de inspiração cristã, e a sua facção conquistada pelo racionalismo filosófico e pelas ideias revolucionárias. Além disso, para Joseph de Maistre é evidente que os maçons que participaram na Revolução o fizeram enquanto homens e não por obediência a qualquer instrução obscura.

Porém, no Vaticano, é a voz dos turiferários da conspiração maçónica que obtém o eco mais favorável. O traumatismo da Revolução acabou por convencer a Santa Sé do grave perigo que representavam as sociedades secretas, entre elas a maçonaria no seu conjunto. Isto irá valer-lhe mais de duas dezenas de condenações papais no decurso do século XIX. A luta contra as lojas maçónicas inscreve-se desde logo num panorama histórico alargado ao antigo combate das forças do Bem com as do Mal, da ordem contra o caos, da Santa Igreja contra Satanás. Um ponto de vista muito adequado a uma conspiração que é igualmente mística. Já condenada como herética, a maçonaria sê-lo-á ainda mais pois é doravante considerada como diabólica... (in A Saga dos Maçons, ALÊTHEIA EDITORES, 2012, pp. 303-316).




Notas:

(1) Ferrer Benimeli et José A., Les Archives secrètes du Vatican et de la franc-maçonnerie: Histoire d'une condamnation pontificale, Dervy, 2002.

(2) Citadas por J. Rousse-Lacordaire, in Rome et les francs-maçons, p. 62.

(3) Louis de Tschoudy, L'Étrenne au pape ou les francs-maçons vengés; cf. J. Rousse-Larcodaire, Rome..., op. cit., p. 70-73.

(4) Huber de Thier, Église et temple maçonnique, Dervy, pp. 77-78.

(5) Ferrer Benimeli e José A., Les Archives secrètes... op. cit., pp. 66.

(6) Huber de Thier, Église catholique... op. cit., pp. 60-61; J.-J. Gabut, Église, religions et franc-maçonnerie, Cerf, pp. 71-75.

(7) J.-J Gabut, Église..., op. cit., pp. 76-77.

(8) Ibid., pp. 78-79.

Continua