sexta-feira, 14 de março de 2014

A Ilha do Amor no pensamento de Álvaro Ribeiro

Escrito por António Telmo





René Guénon

«(...) Apesar das afinidades que existem entre as tradições iniciáticas dos vários povos que as têm, o que permitiu a um estudioso como René Guénon afirmar que a mesma metafísica se exprime nelas por formas distintas, não me parecem acidentais algumas características dominantes na tradição hebraico-portuguesa que fazem dela um caso único que, por si só, altera a fisionomia de um pensamento que se pretende igual em todas as partes. Tratando de João de Deus, o modo de pensar o amor aparece-nos, logo, como decisivo do abismo que nos separa das várias correntes gnósticas dos três continentes interpolares.

O amor, não qualquer forma abstracta do amor, mas aquele que une o homem e a mulher, constitui, na gnose em geral, uma barreira impeditiva da ascese do ser pelos graus da realização espiritual. Daqui a prescrição de um de dois procedimentos, daquele que resiste ao impulso do instinto sexual, abrindo o caminho da castidade entendida como abstinência, e daquele que prepara igual caminho produzindo a saturação e o nojo pela entrega excessiva e desmesurada a todas as modalidades de erotismo. Como vedes, os dois procedimentos, conquanto antagónicos, visam o mesmo fim que é o da neutralização do amor. Podeis ver isto documentalmente exposto no livro magistral de Hans Jones sobre A Gnose.

Desde D. Dinis e demais trovadores galaico-portugueses com as Cantigas de Amigo, passando, no cume, por Luís de Camões com os poemas líricos e sobretudo com a Ilha dos Amores, até João de Deus, Eugénio de Castro e Florbela Espanca, a nossa poesia, com raras excepções, faz a exaltação da companhia física, celebrando em verso o "puro amor" cuja presença invisível se manifesta pela santidade das relações sexuais entre homem e mulher».

António Telmo («Influência da Cabala na Cultura Portuguesa»).


«(...) A espiritualidade franciscana ortodoxa não consegue evitar o surgimento de uma gnose franciscana, já laicista, como a dos Espirituais (esta tendência permaneceu no país e revive no pensamento contemporâneo de Pascoaes, de Junqueiro, de Jaime Cortesão), já escatológica, como a de Joaquim de Fiora e, na modernidade, em Raul Leal e Agostinho da Silva e, bem assim, no cristianismo paraclético e pentecostalista. A gnose renascentista (é então que a gnose ocidental verdadeiramente se assume como tal, a partir dos místicos como Paracelso) parece não achar fundo eco na condição portuguesa, em virtude do ambiente da reforma católica e da primazia do realismo da Segunda Escolástica, mas há motivações nos iluminados, nos grupos de piedade, nos rigores místicos de algumas comunidades monásticas e no ideário de pensadores, de que são exemplo o irenismo teológico de Damião de Góis e o reformismo dos seguidores das doutrinas de Erasmo. Porém, gnose como tal só ocorre no magistério reintegracionista teosófico de Martins Pascoal, criador de uma nova Maçonaria no ambiente do maçonismo francês, numa época em que a gnose maçónica se radicou no nosso país onde, segundo alguns (António Quadros, António Telmo...) a gnose templária veiculada pacificamente pela Ordem de Cristo, é superior à Maçonaria implantada no século XVIII em meios políticos e não religiosos. As tendências e as doutrinas gnósticas foram condenadas (1864) pela encíclica Quanta Cura e pelo anexo Syllabus, de Pio IX, que refere as componentes gnósticas: panteísmo, naturalismo, racionalismo, libertismo e ocultismo. As teses gnósticas prevalecem nos poetas panteístas e simbolistas como Pascoaes, que buscam "a face espiritual que o mundo tem" (Pascoaes, Regresso ao Paraíso), havendo assunções gnósticas no surrealismo (António Maria Lisboa e Mário Cesariny de Vasconcelos), se bem que a gnose sistematizada só se ache, ou no martinismo de Bruno, ou no teosofismo do visconde Figanière. Em todo o caso, Álvaro Ribeiro imprimiu à "filosofia portuguesa" um ideal gnóstico, ainda quando, por solução críptica, substituiu o termo gnose por "arte de filosofar"».

Pinharanda Gomes («Dicionário de Filosofia Portuguesa»).


«Num fim de tarde de Setembro de 1509, Afonso de Albuquerque observava a sala alta da torre de menagem de Cananor, onde se encontrava cativo. Algumas horas antes, Martim Coelho, por ordem do vice-rei, entregara-o ao comandante da fortaleza, que o prendeu na companhia de um pagem e de um criado, apenas. Aproximando-se da estreita janela que dominava o pátio da cidadela, ele distinguia, para além dos barracões da feitoria, a folhagem dos coqueiros desenhada no mar e coroando o telhado do hospital e da cruz da capela. Naqueles últimos dias de Setembro, o oceano branqueava ainda às últimas rajadas da monção. O barulho das ondas a rebentarem contra a falésia misturava-se ao grito das gralhas e à chilreada das crianças que regressavam à aldeia cristã.



Afonso de Albuquerque


Inclinando-se para a direita, Albuquerque conseguia avistar, através do fumo das fogueiras, um grupo de palhotas encostadas à muralha. Ali mesmo viviam algumas famílias, fruto dos amores entre portugueses e indianas de baixa casta. Todas as noites, elas caminhavam ao longo da base da muralha, para irem, em teoria, polir as jarras de cobre com a areia da beira-mar. Fora bem necessário transigir quanto às proibições e renunciar a impor aos homens uma castidade que, afinal, todos os dias era infringida. O medo do pecado mortal foi rapidamente vencido pelo charme das jovens malabares que vinham rondar à volta da fortaleza, na esperança de uma ligação com os soldados da guarnição militar. Habituadas a juntarem-se com os estrangeiros para tirar o proveito que pudessem, iam de seios nus, como todas as mulheres de condição inferior. O vice-rei não pudera fazer mais do que mandar baptizar à pressa as mais belas e dar-lhes autorização para viverem com os seus homens. Aquelas uniões nem sempre eram consagradas pelo casamento, mas davam origem a crianças cristãs, que usavam nome português, embora sem patronímico.

(...) Albuquerque não se cansava de repetir ao rei a firme decisão em acabar com os Mouros. Aquele ostracismo era partilhado por todos os companheiros, incluindo os comerciantes italianos. Piero Strozzi dizia a seu Pai que "andamos sempre com o credo na boca, tanto no mar como em terra. [...] De outro modo seria impossível resistir a tamanha multidão. A terra mais pequena daqui conta de trezentas a quatrocentas mil pessoas, que parecem formigas".

Só algumas mulheres receberam misericórdia: "Aqy se tomárão allguas mouras, mulheres alvas e de bom parecer, e alguns homens limpos e de bem quiseram casar com ellas e fiquar aquy nesta terraa... e eu os casei com elas e lhe dei o casamento ordenado de vosa alteza, e a cada hum seu cavalo e casas e terras e gado... averá hy quatrocentas e cymqoemta almas; estaas cativas e estas molheres que casão, tornam as suas casas e desenterram suas joyaas e suas arrecadas d'ouro e aljofar e Robis e colares e manylhas... e tudo lhe deixo a elas".

Albuquerque tratava as jovens esposas com todo o respeito, acompanhando-as ao seu lugar na igreja, tratando-as por filhas e indo visitá-las todos os dias, em êxtase, perante a gracilidade que tinham e dignidade na conduta. É inútil dizer que tais casados - casados assim ficariam para sempre designados os portugueses casados com mulheres indianas - foram os herdeiros dos bens imóveis dos Mouros. As tanadarias eram atribuídas aos mais honrados e instruídos; os outros beneficiavam de privilégios para exercer o trabalho que escolhessem. Albuquerque promovia um verdadeiro estado de graça; até aos degredados permitia que apagassem o passado e recomeçassem vida nova. E, ao mesmo tempo, convidava os Hindus a repovoarem a cidade, devolvendo-lhes casas e bens, cargos administrativos e militares, sem impor sequer conversão ao cristianismo. E, deste modo, lançava os fundamentos de uma sociedade nova, da qual eram excluídos os Muçulmanos. Entendia os casamentos mistos como resultado da vontade divina: "Me parece que noso senhor ordena isto e imcrina os coraçõees dos homeens por algua cousa de muyto seu serviço escomdida a nos..."».

Geneviève Bouchon («Afonso de Albuquerque. O Leão dos Mares da Ásia»).


A ILHA DO AMOR NO PENSAMENTO DE ÁLVARO RIBEIRO


«O mal é só o que os homens fazem aos outros por pensamentos, palavras e actos».


António Telmo

É só. Logo, para Álvaro Ribeiro, na natureza, criação divina, não há mal. É, no entanto, difícil, ou pelo menos apressado, concluir que o mal, na concepção de Álvaro, não tem origem, como ensina a Cabala, no mistério insondável de Deus. «O diabo, escreveu ele também, não é o inimigo de Deus, mas sim da natureza». E duas vezes alude a um misterioso agente intermediário que tem por fim monstruoso separar o homem da mulher.

Como quer que seja, a inveja dos homens que fazem mal por pensamentos, palavras e actos nasce do sofrimento que neles causa a felicidade dos outros no amor ou na filosofia. As melhores amizades têm sido envenenadas pelo intermediário que instiga a inveja.

Na natureza não há mal. As naturezas adoecem por acção do homem. No mundo criado a imaginação move o amor. A imaginação do homem pode, em certas condições, contrariar a imaginação divina pela magia que, neste caso, é propriamente aquela que se designa por negra. A medicina integral, isto é a filosofia, conforme se diz num admirável escrito de João Rêgo (1), é a que imita a imaginação divina lutando contra a doença. Enquanto integral actua contra a magia negra ali onde, como no ensino e na política, ela procede contra o amor e contra a filosofia.

Álvaro Ribeiro parece ter-se recusado a escrever sobre o problema do mal nas suas relações com o mistério insondável. Como se viu, não deixou de explicá-lo pelo seu segredo, que é a magia negra.

Tendo sido, como foi em vida, um filósofo que pôs o centro do seu pensamento na exaltação do amor entre o homem e a mulher, concitou a hostilidade dos sinistros instrumentos do mal que o agrediram com pensamentos, palavras e actos. Usou, por isso, de prudência no dizer. A palavra Cabala só quatro vezes aparece nas quatro mil páginas que escreveu para o público. Vestiu por vezes a pele do lobo para não ser devorado pelos lobos, mas a fidelidade constante à excelsa e bondosa doutrina é visível em cada proposição que pensou e escreveu.


Pinharanda Gomes classifica-o entre os «gnósticos» no seu Dicionário de Filosofia Portuguesa. Há, com efeito, em Álvaro Ribeiro o desgosto do mundo humano e a ideia de que a salvação vem pelo conhecimento. Como, porém, o conhecimento é interpretado em analogia com «O Homem conheceu a Mulher» do Génesis, o seu pensamento opõe-se a todas as correntes gnósticas que põem como condição do aperfeiçoamento humano a abstenção de relações sexuais ou a tolerância delas como um mal necessário, segundo o ensino de São Paulo. Deste ponto de vista, Álvaro Ribeiro não é um «gnóstico», é um adversário da Gnose.

Aquilo a que podemos chamar a baixa gnose e que perpetua degeneradamente o ensino de São Paulo, na impossibilidade de reprimir o puro, natural, santo impulso do amor entre o homem e a mulher, procedeu à sua conspurcação pelo cinema, pela imprensa, pela rádio, pela televisão, pela pornografia, fingindo defendê-lo ao tornar patente e público o que só é verdadeiramente pelo segredo e pela relação individual. A colectivização do acto sexual constitui a última e aparentemente decisiva, julgam eles, consagração da magia negra pelo socialismo. Compreende-se assim que o nome de Álvaro Ribeiro seja silenciado e odiado à esquerda e à direita.

O amor entre o homem e a mulher é, em primeiro plano, uma relação sem mácula de duas naturezas. Pela palavra, a relação natural torna-se transparente do sobrenatural. A sua socialização movimenta as palavras e as imagens obscenas que atraem o que no sobrenatural constitui o mais baixo e reles demonismo. A palavra é pelo pensamento como o acto é pela palavra. Só o pensamento, criando as palavras da imaginação amorosa faz nascer o acto que eleva e redime. O pensamento é, porém, como o filósofo diz, uma actividade invisível do espírito cujo meio próprio é o segredo e o mistério.

Assim se evidencia a íntima relação da filosofia com o amor. Pelo pensamento poderemos viver o mistério que é o universo, o imenso universo de que o amor entre o homem e a mulher assistido por Deus é a renovação miniaturial, mas infinita. O perfeito amor é o que corresponde a uma perfeita filosofia e essa é a de Deus que devemos procurar imitar.

O pensamento de Álvaro Ribeiro evolui pelo sistema das categorias fixadas por Aristóteles. Quando eu era moço, o filósofo entusiasmou-se a procurar a correspondência entre as categorias aristotélicas e o sistema hebraico das dez sefiras. Infelizmente, só alguns anos depois de nos ter deixado, encontrei a demonstração publicada em Filosofia e Kabbalah de que os dois sistemas se reflectem um no outro. Essa demonstração que passou despercebida em Portugal, movimentou certos meios iniciáticos franceses de vasta influência que nela viram a prova provada de que se deve rever a imagem que da Grécia e da sua filosofia foi formada e propagada pela filosofia alemã. Álvaro Ribeiro conhecia essa correspondência que explica o seu aristotelismo hebraico.

Cabe, então, interpretar pela árvore das categorias aquilo que, no ensino clássico de Aristóteles, se diz ser «a imanência da ideias», em oposição ao platonismo que as teria concebido separadas. O movimento é contrário ao do êxtase.




A contemplação não tem por fim libertar a alma da prisão natural, mas de fazer descer as influências dos mundos superiores aos mundos inferiores, tornando-as activas pela razão. Tal o sentido da crítica que o filósofo escreveu contra o misticismo e o cepticismo da Teoria do Ser e da Verdade do seu companheiro de viagem José Marinho.

Nos termos da Cabala, a contemplação tem por fim chamar Tipheret, orando, a Malkuth, através de Yesod. O processo é descrito no livro de A Santidade das Relações entre o Homem e a Mulher de Gikatila para que se cumpra em cada lar o mistério da encarnação de inteligências superiores. Álvaro Ribeiro não pôde ter conhecido este livro, traduzido do hebraico para o francês alguns anos depois da sua morte. É pela activação da inteligência que a união das sefiras inferiores, no plano fecundante de Yesod, prolonga a união das sefiras superiores. Daqui a suprema «dignidade do cérebro» insistentemente celebrada no segundo volume das Memórias de Um Letrado. Demora-se neste volume o filósofo a estudar as relações de Keter com Binah, cifrando a sua reflexão nos termos pelos quais Henrique Bergson descreve as relações do cérebro, «orgão de escolha e de acção» com a memória infinita.

Há, pois, uma educação sexual, mas não aquela que se propõe banalizar e desdivinizar o amor, «pondo a ferros a imaginação», como dizia José Marinho. Só pelo aprendizato da filosofia portuguesa o rapaz português e a rapariga portuguesa poderão aspirar à perfeição mental, cada um no seu género, criando as condições e as qualidades indispensáveis à celebração do «mistério supremo» (ver São Paulo, Epístola aos Coríntios).

Não é pela exposição e descrição das entranhas carnais, que só podem suscitar repulsa, que se faz educação sexual. É pelo aperfeiçoamento e desenvolvimento da alma masculina e da alma feminina. A alma é que é a amante.

Tal educação faz-se sem que a alma dê por isso. Ela não pode ainda saber que o estudo da gramática, da retórica e da dialéctica, da dança, da matemática, da astronomia têm por fim o matrimónio e a acção do homem e da mulher no plano terrestre de Asiah. Descobri-lo-ão, maravilhados, mais tarde.

É um pouco o que acontece neste escrito em que o leitor pode, talvez, sentir perturbada a corrente da leitura pelos termos hebraicos que designam e significam as sefiras. Sem que a sua alma dê por isso, sentir-se-á, porventura, chamada, nem que seja pela presença de uma vaga irritação, a imaginar o que ainda não sabe o que é.

Álvaro Ribeiro escreveu um volumoso livro sobre «A Literatura de José Régio». Dizia ele que cada filósofo tem o seu poeta com quem dialoga. José Régio terá sido o poeta do filósofo Álvaro Ribeiro.

A verdade, porém, é que, se quisermos encontrar um poeta cuja teoria do amor seja a que o filósofo pensou e ensinou, teremos de reconhecer que, bem mais exactamente do que José Régio, foi Camões quem versejou a sublime doutrina.

Neste sentido, tem inteira razão Fiama Hasse Pais Brandão quando defende serem Os Lusíadas a obra de um cabalista.

O leitor evocará logo a Ilha do Amor.

Menos se recordará das estrofes sobre Afonso de Albuquerque. As virtudes que exalta no herói estão, segundo ele, maculadas por um grande crime, o de ter castigado cruelmente um dos nobres que o seguiam por este se ter deixado enlear por uma beleza negra em cujo Paraíso de volúpia se deixou envolver. «O mal é só o que os homens fazem aos outros por pensamentos, palavras e actos» (in O Mistério de Portugal na História e n'Os Lusíadas, Ésquilo, 2004, pp. 259-263).

(1) A Medicina em Álvaro Ribeiro, Edições Tomé Natanael.





terça-feira, 11 de março de 2014

"O espírito da palavra universidade está ultrapassado"

Entrevista a Azinhal Abelho




«O Movimento de Cultura Portuguesa, que começara a delinear-se no primeiro número da revista Litoral, firmou-se na declaração de que "sem autonomia cultural não há independência política", e adoptou como recurso demonstrativo das suas teses a conhecida distinção entre as condições necessárias e as condições suficientes. Para desenvolvimento da mesma ideologia em várias respostas sequentes, foi considerada a tríade pensamento, palavra, acção para sobre ela ser enunciada como que uma nova lei dos três estados, segundo a qual a doutrinação filosófica precede a pedagógica e esta a política, na fluência das gerações, o que permite escrever a história de modo a relacionar as causas com os efeitos. Esta tese iria contrariar quantos julgam que a política pode ditar a pedagogia e escolher a filosofia, e iria combater o nacionalismo absoluto, aquele que parece julgar-se tão isento de preocupações pedagógicas como independente de leis filosóficas, mas transige na teoria e na prática com as modas existentes em outras nações ou com o internacionalismo predominante.

Nos termos propostos pela doutrinação deste Movimento, cessando a actividade filosófica cessa a actividade pedagógica, e cessando a actividade pedagógica cessa a actividade política, embora a rotina, que é a substituição da actividade pela passividade, mantenha aparências que permitam o contradizer a afirmação e favorecer a indolência dos que para seu conforto evitam o encontro com a verdade. A importação da cultura, ou tradução dos meios de cultura, obrigando a tomar por paradigma tudo quanto se faz lá fora, tem por consequência obrigar o povo a ser movido por outrem, em heteromoção ou heteronomia, em vez de se mover por si, em vez da automação ou autonomia. Conviria, pois, determinar o momento histórico em que o povo português, dotado daquelas qualidades superiores que raros publicistas designam de lusitanas, começou a sentir a sua alma reprimida, recalcada, inibida por um erróneo sistema de docência e de didáctica que lhe inspirou um espírito adverso.

(...) Seguindo o método preconizado pelo Movimento de Cultura Portuguesa, na ordenação da sua tríade heurística, verificaremos que os homens de acção, desconhecedores da etimologia e da semântica, como das figuras de retórica e das categorias da lógica, erram também na propositura de um pensamento nacional. Ignorando a finalidade superior da educação humana, porque lhes falta o entendimento filosófico da transcendência ou o significado religioso da transcensão, esses homens tomam por indiscutível o ideal moderno do ensino prático ou do ensino técnico, e consideram a habilitação profissional como predominante preparação para a vida. Fixando como ponto de mira o trabalho de produção económica, deixando à margem os cálculos referentes ao comércio e ao consumo, e eliminando a possibilidade de alterações súbitas na técnica industrial, nas fontes de energia, nos territórios de matérias-primas e nas migrações dos povos, atrevem-se a prever o número de técnicos indispensáveis para assegurar o funcionamento do mecanismo económico em determinado ano, e estabelecem um programa ideal de escolaridade conveniente para abastecer a agricultura, a indústria e os serviços.




Considera-se ucrónico um plano de fomento educativo que haja por bem a formação de um escol de pensadores, escritores e artistas, os quais teriam por missão a defesa da cultura nacional e a elevação dela acima das culturas estrangeiras. Tudo quanto é invocado em nome da finalidade superior da Pátria é colocado fora do campo de visão dos homens práticos. Não se considera utopia a previsão da economia nacional para sobre ela estabelecer um plano de fomento escolar».

Álvaro Ribeiro («Espelho do Pensamento»).



"O espírito da palavra universidade está ultrapassado´"


No núcleo do 57 - orgão do movimento de cultura portuguesa que alenta de patriotismo a nossa mocidade universitária -, distingue-se o nome de Azinhal Abelho. Tem, este escritor nacionalista, consagrado a sua actividade literária ao tema do seu dialecto Alentejo, cantando-o em prosa, em verso e até em imagens cinematográficas.

O autor dos livros de poesia Cantochão, Guiana Abaixo e Confidências de um Provinciano - este último obteve o prémio Antero de Quental -, costuma passear pelas ruas da cidade. Encontrámo-lo uma destas tardes, quando saía de sua casa. E falámos de literatura.

- Então, quando temos novo livro?

- Depois dos Arraianos virá o Elogio da Província. Mas por agora preocupo-me com a capital. Venha comigo ver Lisboa.

- Ver Lisboa?

O poeta convidava-nos para um passeio até ao miradouro da Senhora do Monte.

- É verdade. Propus à Câmara uma serenata nas noites do mês de Junho, por ocasião das "Festas da Cidade".

Azinhal Abelho não esquece - nem nós esquecemos - as suas actividades de homem do teatro. Recorde-se que foi ele, com Orlando Vitorino, fundador e director do Teatro d'Arte de Lisboa.

- E a Câmara aceitou?

- Em princípio, achou boa a ideia. Mas a equipa das "Festas" está sempre entregue a colaboradores tradicionais, e não é fácil qualquer inovação fora das reconstituições históricas.

- De que constava a vossa iniciativa?

- A "Noite da Quadra Popular". Uma festa dedicada às trovas dos cravos de papel. Um concurso e um concerto ao ar livre, por um orfeão de 140 vozes, no alto da Senhora do Monte. Era o Coral do Sport Lisboa e Benfica - por exemplo, numa serenata a Lisboa.































- Mas é imaginação ou realidade?

- Por enquanto é estudo, disse-nos rindo.

Chegámos ao miradouro que domina a cidade. O casario de mil cores, depara-se-nos ante os olhos e bem merece o entusiasmo do poeta.

- Bonita, a nossa cidade!

- Bonita e crescida - adiantámos.

- Crescida, não tanto como desejaríamos. É uma cidade larga. Gostávamos que fosse mais monumental. Olhe os prédios! Comezinhos, não passam timidamente dos 15 andares. Tudo, entre nós, é limitado.

Ao longe, aparecia o edifício do Hospital Escolar, fazendo adivinhar as outras construções, lembrando-nos das novas edificações da cidade universitária, citamo-las como exemplo.

Justamente - retorquiu o poeta. A Cidade Universitária é a expressão exacta dessa largura. As edificações parecem-nos longas em superfície e banais na concepção. À parte as da Biblioteca Nacional, aquele agrupamento dá-nos a sensação de feira industrial, com pavilhões de estuque e gesso. O nosso tempo é da verticalidade. Os horizontes estão desvendados. Subir, subir às nuvens. Eu vejo os edifícios das escolas como padrões de arquitectura duma era. Depois das igrejas é o que deve sobressair na vista geral de uma urbe.

- Em todos os países a Cidade Universitária...

- É verdade. A do México, por exemplo, é uma obra prima do seu país. A Biblioteca de S. Paulo avista-se de todos os sentidos. E a nossa? Eu digo o meu parecer ingénuo: não encontro diferença entre os edifícios dos novos hotéis e os das Faculdades erguidas no Campo Grande.

- Então, pensa que a Cidade Universitária não corresponde ao fim para que foi construída?

- Acho que a Universidade (chamemos-lhe assim) deve ser múltipla.

- Múltipla?

- O espírito da palavra universidade está ultrapassado. Não há homens universitários - que abranjam um Universo Cultural. Há especialistas. Iremos para o campo das Faculdades, mas das Faculdades Técnicas e Clássicas. Faculdades Livres. Institutos superiores com campos experimentais. Não limitemos a iniciativa escolar à única competência ou valorização estadual.

- Quer dizer...

- Institutos - o termo pouco importa -, Faculdades, Escolas Superiores ou Especiais. Portugal é um país metropolitano e ultramarino. Porque não Escolas Superiores em Angola, Moçambique, em Goa, em Évora ou em Braga? Os nossos padres para se diplomarem com um curso superior têm de ir a Lovaina ou a Roma. Os nossos especialistas...

Claustro da Universidade de Évora

- Esses não têm nada.

- Verdade simples. Não têm absolutamente nada. Têm de ser autodidactas. No nosso Conservatório Nacional ensina-se música, dança, teatro... Cinema é um campo proibido.

- Mas estamos a afastar-nos do assunto da entrevista. Voltando à Cidade Universitária...

- Como edificação sou pró. A concepção, porém, achou-a medievalesca.

- Concorda que nela deve haver um bairro residencial para professores?

- Não, não concordo. Acho que os professores têm a sua vida profissional e a sua vida familiar. Um bairro residencial dá-me ideia duma concepção monástica. E bem vê, se voltamos à vida universitária monástica, como se fez em Coimbra - desde as praxes, canelões, discursos à porta férrea - penso num retrocesso. Inclino-me para o estudo universitário remunerado como utilidade pública, mas não em regime de convento ou quartel.

- A minha opinião é diferente. Se o professor tiver a sua residência num bairro da cidade universitária poderá, com certeza, prestar muito mais assistência aos seus alunos, tanto antes como depois das funções docentes. O que nos custa hoje é observar o exemplo do professor que se desloca até à faculdade de táxi ou de carro particular, dá apressadamente a sua aula ou as suas aulas, para logo a seguir, sem perda de tempo, se meter no automóvel em direcção ao lugar onde exerce outras actividades.

- Mas o perigo não é do bairro residencial. O perigo é justamente de outras actividades. Quem poderá proibir a um professor universitário que desempenhe actividades extras?

- Quem? A vocação, a profissão. Eu tenho a mais elevada noção do que seja o ensino universitário.

- O exemplo teria de vir de cima. Eu não gosto de limitações. Os homens só atingem as alturas com asas. Deixemos, repito, as limitações. É o que mata o espírito de iniciativa e de vocação. Não há coisas definitivas. Temos de as adaptar ao nosso tempo. O estudante de capa e batina é uma ficção pitoresca, para o turismo. Não há que ficar a olhar para o Quinhentismo...

- Mas, voltando à Universidade de que nos estávamos a afastar. Suponho que o assunto lhe interessa?

- Certamente. Mas antes deixe-me contar-lhe o seguinte. Em 1937 assisti a um curso em Paris, onde Paul Valéry dava lições de Cátedra. Os que eram poetas ficavam-no sendo. Os que não eram, não adquiriam senão conhecimentos. A verve da poesia é o sonho. Tanto pode ser necrológio como profecia. Não são só os poetas os saudosistas que cantam a vida que se perdeu.

Paris (Cidade-Luz).

Quando receávamos que o nosso entrevistado se afastasse do assunto eis que ele nos diz:

- O problema da Universidade é de uma actualidade flagrante. Tudo o que contribui para o alevantamento do nível português é vantajoso. Ainda estamos no ensino primário obrigatório. Temos de ir aos cursos secundários também obrigatórios e depois às especializações. Uma Universidade em Lisboa? Outra no Porto, outra em Coimbra? Mais do que isso. Variadíssimas Faculdades em Lisboa, no Porto, em Coimbra, Évora, Braga, Luanda, Beira, Lourenço Marques. No Brasil as capitais de Estado, geralmente, têm a sua Universidade, a sua Faculdade. E há as Faculdades Católicas.

A nossa entrevista terminara. E descemos do alto da Senhora do Monte até à Baixa. O poeta confundiu-se com a multidão.

(In Flama, ano XIV, n.º 524, Lisboa, 21 de Março, 1958, pp. 17 e 24. O original título da entrevista era: "O Problema das Faculdades avalizado pelo poeta Azinhal Abelho").

sábado, 8 de março de 2014

Afonso Botelho e o problema universitário

Entrevista a Afonso Botelho



Alameda Universitária de Lisboa

«Mais do que fixar o que o aluno deve aprender, importa a um sistema de ensino superior valorizar a interrogação, ou a possibilidade prévia, do que aprende, de rejeitar a matéria fixada, e nos termos em que se fixou. Tal condição, que é própria do grau superior do ensino universitário, consente e promove o exercício da inteligência do adolescente na sua função de discriminar e dinamizar o saber. Interrogar é, assim, o verbo que proporciona ao espírito a manifestação da inteligência, do intelecto activo, antecedente da enunciação da "matéria", que aquele, primeiro, identifica e, depois, escolhe.

(...) O exame é, contudo, o obstáculo mais grave exactamente porque inverte o sentido da interrogação, dando toda a iniciativa ao examinador e afastando a "matéria" da individuação intelectual do estudante, da sua capacidade de identificação e de escolha».



«(...) Não vemos na secular história das instituições de ensino exemplos bastantes para podermos falar na possibilidade de uma fecunda relação universitária de mestre-discípulo. Mas fomos discípulos de Leonardo Coimbra. E embora saibamos que só ocasionalmente Leonardo Coimbra foi professor universitário, embora não tenhamos sido seus alunos na Universidade – como José Marinho, como o Padre Dias de Magalhães – ao seu magistério atribuímos um exemplo fecundo do ensino universitário. Para quê? Para não perdermos a esperança nas instituições e assim sermos o reverso do poeta que "onde punha a esperança as rosas murchavam logo".

Bem vemos, pois, como é difícil tratar este problema do ensino. Mas se somos escritores e se somos senhores da nossa responsabilidade poderemos deixar de o tratar? E, ao tratá-lo, poderemos levar às evidentes consequências a crítica, que é o ponto de partida? Ou será, noutro extremo, o problema insolúvel? E se o é, podemos aceitá-lo como tal ou iludimo-nos em sucessivas, frustradas soluções? E todos nós, desde António Sérgio, que ainda terá vivido a grande esperança na reforma constitucional da República, desde Marcello Caetano e Delfim Santos, que viveram a confiança num poder quase criador do Estado, desde Magalhães Godinho, que tudo transfere para uma alteração mais estadual do que real, até Álvaro Ribeiro, que não desespera onde as rosas murcharam, e quando olha Saturno já vê nascer Apolo; até Afonso Botelho e António Quadros, últimos companheiros no mesmo drama, que já é mais vivo nos que se lhes vêm seguindo – todos nós havemos de sofrer ou de sorrir, com paciência ou com ironia, a esta velha história de que o "rei vai nu".

Todos nós o vemos nu, mas creio bem que temos já os ouvidos fechados à voz do primeiro homem de coragem que há-de conseguir gritar-nos isso que todos nós estamos vendo».


«Nas Faculdades de Letras, a "filosofia", entendida como produto ou manifestação departamental, equivale à revolta das Letras contra o Espírito. Por outras palavras, a filosofia não é uma actividade de gabinete, isto é, não é susceptível de desenvoltura e recriação pneumática em gabinetes gélidos onde os estudantes ou os candidatos a profissionais da "filosofia" se prestam a exames, vexames ou até a interrogatórios quase policiais com a mera finalidade de passar à cadeira e, por conseguinte, obter o diploma de fim de curso. De resto, os profissionais em questão destinam-se, na sua maioria, a engrossar as fileiras de funcionários públicos do ensino médio, onde, caso consigam singrar, limitar-se-ão a inculcar aos adolescentes um programa curricular praticamente ditado pelas directrizes ideológicas de uma agência especializada das Nações Unidas, mais particularmente da UNESCO».




Afonso Botelho e o problema universitário


No inquérito aos pensadores católicos iniciado há algumas semanas nesta página da Flama, cabe hoje a vez de ouvir o escritor Afonso Botelho, personalidade bem conhecida pelo mérito dos seus livros e pela sua acção social nos ambientes culturais. Autor de livros que não escaparam à observação do público, tais como O Drama do Universitário e Estética dos Painéis, para não citar mais elementos de uma vasta bibliografia, o nosso entrevistado exerceu as funções de chefe dos Serviços da Campanha Nacional de Adultos.

Convidado a prestar as suas declarações sobre o problema universitário, o ilustre escritor acedeu gentilmente. A princípio ficámos embaraçados na escolha da primeira pergunta, mas logo tomámos a decisão de começar a entrevista abruptamente para não perder tempo. E assim dissemos:

- Continua o sr. dr. Afonso Botelho ainda interessado pelos problemas do ensino? Não esqueço o efeito do seu ensaio O Drama do Universitário, tão discutido por altura da sua publicação.

- Continuo, mas de um modo muito diferente daquele com que escrevi esse meu livro. Hoje penso e sinto a Universidade intelectualmente, ao passo que há cinco anos escrevia porque participava intimamente nos destinos da instituição universitária. Escrevi grande parte do livro enquanto estudante e sinto-me honrado por isso, esquecendo assim as críticas, sobretudo dos professores, que procuravam esconder a razão dos argumentos na motivação pessoal do autor. Estas críticas parecem-me falsas não só relativamente àquela obra mas também na dialéctica da cultura portuguesa em que a maior deficiência está na falta de participação pessoal nas ideias e nos problemas.

Se a Universidade na minha opinião deve ser dos estudantes, só os estudantes enquanto tais, isto é, enquanto sofrem as humilhações morais e intelectuais provenientes do desvirtuamento da Universidade, estão em condições de escreverem, de falarem ou de pensarem sobre ela.



Afonso Botelho



- Quer dizer, se bem entendo o pensamento que o sr. dr. expressou já em O Drama do Universitário, a Universidade será uma corporação dos estudantes. E os professores? De que modo participariam nesta Corporação?

- Na verdade sempre pensei e afirmei que a instituição universitária pertence aos estudantes. Hoje estou ainda mais convencido disso e dou até ao verbo pertencer o seu mais amplo significado. A experiência ensinou-me que as manifestações parciais da autonomia dos estudantes perdem-se tanto nos Conselhos das Faculdades como no silêncio com que a opinião pública acolhe e isola as mais legítimas reclamações. E enquanto não se entender a Universidade como uma corporação só dos estudantes, todas as tentativas, conscientes ou inconscientes, de restaurar a Universidade apenas podem ser consideradas como reclamações, sujeitas portanto, mesmo quando legítimas, a não serem atendidas por motivos de interesse geral ou pela natural disposição para o esquecimento. Só depois de se fazer presente esta ideia é que poderia ser útil responder à sua pergunta, visto que o destino que caberia aos professores na Universidade só estaria em causa depois dela pertencer aos estudantes. Nesta situação surgiria uma alternativa; ou os professores entrariam na corporação também como estudantes, ou seriam seus funcionários.

- Quer o sr. dr. dizer que lhe repugna considerar os professores como empregados da Universidade, quaisquer que sejam as categorias ou nomenclaturas com que encubram a sua situação servil, ou de serviço, perante o Estado?

O nosso entrevistado não respondeu porque seguia talvez outra linha de pensamento. Resolvemos insistir:

- Em vez de empregados do Estado, os professores seriam talvez empregados dos estudantes ou da respectiva Corporação. Não é assim?

- De modo nenhum, pois do meu ponto de vista a Universidade não se relaciona directamente com a cultura. Da confusão entre a Universidade e a cultura provêm as consequências que cada estudante tem ocasião de verificar diariamente, pois nas aulas ou nas publicações de carácter universitário fica patente que os assuntos culturais surgem sempre diminuídos e empobrecidos, parecendo imediatamente aos auditores ou leitores que eles são expostos em segunda mão. Com efeito, a Universidade considerada como fonte de cultura tem que ser sempre inferior aos meios actuais de difusão cultural, mais directos e mais fiéis, às verdadeiras fontes de criação que foram e serão exclusivamente as obras individuais.






- Desculpe, mas neste ponto não estou de acordo consigo. Parece-me, que separando o espírito e a cultura, o autor e o professor, diminuirá muito a importância e a missão da Universidade...

- Pelo contrário, a separação que eu faço não serve para diminuir a Universidade mas para a dignificar, visto que não reputo a cultura como a manifestação mais elevada do espírito humano. Acima da cultura coloco a sabedoria e acima dos autores, a verdadeira autoria que é, como quem diz, a inspiração divina na participação da Verdade. Separando a Universidade da cultura, liberto-a daquela situação inferior em que a espera uma derrota certa na concorrência dos outros meios e das outras instituições culturais.

- Então qual a verdadeira missão da Universidade segundo o seu ponto de vista?

- Já que você fez e muito bem a distinção entre autor e professor posso dizer-lhe que a Universidade, para mim, não deve preparar professores, isto é, homens com licença para expor e examinar, mas futuros autores ou seja, homens dispostos a encontrar a autonomia dos seus actos na relação transcendente com o princípio de toda a autonomia, ou de toda a autoria. Daí que a relação mais elevada que pode haver entre o corpo docente e o corpo discente passe a ser, na Universidade que prevejo, a relação mestre-discípulo. Para ela deve tender a convivência quotidiana de professores e alunos, embora ela só se consiga raramente porque raros são os verdadeiros mestres e pouco frequentes os bons discípulos. No entanto, volto à mesma ideia afirmando que tal relação mestre-discípulo só se realizará se o professor entrar na Corporação Universitária na qualidade de estudante e se, portanto, só aos estudantes couber o governo da mesma Corporação.

Terminam aqui as declarações do nosso ilustre entrevistado. Ao compilar as notas para a redacção deste texto pareceu-me ver que as teses do dr. Afonso Botelho são hoje as seguintes:

1. A Universidade deve ser a Corporação dos estudantes, e por eles dirigida.
2. Os professores são também estudantes mais adiantados e mais experimentados.
3. Mestres e discípulos colaboram na realização de uma obra que está acima da cultura divulgadora.
4. Não há, portanto, lugar para exames nem para desigualdades humilhantes de categorias sociais ou profissionais dentro da Universidade.

(in Flama, ano XIV, n.º 522, Lisboa, 7 de Março, 1958, pp. 11 e 18. Conversa originalmente editada com o título: "A instituição universitária pertence aos estudantes").

quarta-feira, 5 de março de 2014

António Quadros e a Universidade

Entrevista a António Quadros



Estátua do Marquês de Pombal erguida pela maçonaria em 1934 (Lisboa).


«(...) Na verdade, foram as reformas do Marquês de Pombal, convertendo a universidade portuguesa às novas ideias do iluminismo e do enciclopedismo, e a do Curso Superior de Letras de Lisboa, em 1870, amoldado por influência de Teófilo Braga ao positivismo de Augusto Comte, que conduziram a instituição universitária ao seu condicionalismo actual.

Proclamada a República em 1910, constituíram-se as Universidades de Lisboa e do Porto, que, sob o influxo da mesma orientação positivista, foram factores de muita importância nesta degenerescência do espírito universitário.

Em que consiste, na verdade, esta Universidade, que um dos seus mais lúcidos e recentes críticos, Afonso Botelho, disse com razão dever chamar-se, mais propriamente "diversidade" do que "universidade"? Sob a influência, por um lado, da crescente complexidade da vida contemporânea, exigindo uma cada vez mais intensa especialização profissional, e por outro lado, das ideias positivistas, proclamando a redução da filosofia ao saber fragmentado e desunido das ciências particulares, isto é, do saber espiritual ao saber material, a universidade tornou-se, pura e simplesmente, num aglomerado de escolas técnicas.

Estas escolas técnicas, visando quase exclusivamente a preparar o aluno para a profissão, realizam assim apenas uma das instâncias da educação do homem, a que nos referimos há pouco: a instância do interesse individual, independente de qualquer outra finalidade, princípio ou ideia. Quanto à segunda instância, a do interesse universal, em vão a podemos procurar na universidade profissionalista de hoje. Ela está ausente - e esta ausência dir-se-ia não ser reconhecida pela maioria dos professores que, emparedados no seu especialismo, não sentem a inquietação espiritual das gerações de estudantes que lhes passam sob a cátedra. Inquietação espiritual que o liceu, com o seu enciclopedismo dispersivo, e que a idade liceal, menos dada à reflexão do que aos jogos e aos anseios da adolescência, não souberam ou não puderam resolver ou encaminhar. A chamada crise da universidade corresponde acima de tudo, quanto a mim, ao vazio deixado pelo desaparecimento das antigas funções culturais que lhe competiam. A Universidade abandonou a Verdade para servir a Utilidade...».

António Quadros («A angústia do nosso tempo e a crise da Universidade»).


«No seu recente livro, António Quadros parece inclinar-se para repor o problema como uma crise institucional e não como um obstáculo cultural. Para isso adopta, por um lado, a relação do ensino com a expressão geracional, relação esta de que se ocupa a parte mais valiosa do livro de Afonso Botelho: O Drama do Universitário – mas substitui o tradicionalismo católico deste escritor pela temática do existencialismo de que ele se afirma, entre nós, o mais operoso representante.

Por outro lado, considerando estabelecidos já os factores da reforma da mentalidade, António Quadros transfere para a cultura, portanto na forma de resultados definitivos, aquilo que, na obra de Álvaro Ribeiro, é processo de revelação pela filosofia. Admite, por conseguinte, o primado que a mentalidade, isto é, os valores espirituais dominantes, e a vivência existencial, ou seja a necessidade de afirmação cultural do Homem, ocupa na solução do problema do ensino...».

Orlando Vitorino («A angústia do nosso tempo e a crise da Universidade - Por António Quadros»).


«(...) A filosofia não é uma disciplina, um domínio ou uma área do saber. Apresentá-la como tal, sobretudo na forma irracional que a cultura universitária lhe confere, empresta e perfaz, equivale a produzir a animosidade dos adolescentes numa idade assaz sensível na formação da respectiva personalidade. Depois, há ainda a questão de como todo o ensino se fundamenta em directrizes internacionais provindas de agências especializadas como a Unesco, envolvendo técnicos e financiamentos que executam, de uma forma gradual e programada, o modelo global de organização do ensino.»

Miguel Bruno Duarte







«No seu ponto mais alto, a filosofia é uma criação perfeitamente similar à criação artística ou religiosa ou amorosa; quem não tem nervos de artista, força de imaginação e quem não tem ao seu dispor uma vida rica pode ser professor de Filosofia, mas duvido de que chegue alguma vez aos planos em que vale realmente a pena ser filósofo».

Agostinho da Silva («Sete Cartas a Um Jovem Filósofo»).


«(...) No (…) pensamento [de Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra, Pascoaes, Fernando Pessoa, etc.] (…) estão postos em causa os principais postulados do ensino oficial, tanto no que respeita à doutrina dominante, como no que respeita às bases pedagógicas que sustentam as instituições de ensino. A triste cadeira semestral de Filosofia Portuguesa [ou, mais propriamente, de "Filosofia em Portugal"] que faz parte do "curriculum" de algumas secções das Faculdades de Letras de Coimbra e de Lisboa, é também um dos processos de ocultação, visto que nela se oculta a originalidade actual e efectiva do pensamento filosófico português, pelo estudo da originalidade histórica e inofensiva da Filosofia Portuguesa».




 ANTÓNIO QUADROS E A UNIVERSIDADE


A entrevista que se segue (in Flama, ano XIV, n.º 516, Lisboa, 24 de Janeiro, 1958, pp. 7-8) foi dada a lume com o seguinte título: «Actualmente a Universidade em nada se diferencia do liceu. É preciso que a Universidade realce fins espirituais e não unicamente técnicos e profissionais». A conversa faz parte do inquérito realizado por Francisco Sottomayor sobre a Universidade e o pensamento católico.


Filho de António Ferro, o homem que pôs em movimento o melhor pensamento do Orfeu, e de Fernanda de Castro, sem dúvida a primeira poetisa portuguesa de todos os tempos, à qual só é comparável Florbela Espanca, António Quadros teve de defrontar, para rasgar o caminho da sua descoberta filosófica, os obstáculos da maledicência e da inveja que sempre explicam, por motivos inferiores, o que depois o filósofo atento à individualidade dos Verbos vê radicado numa inspiração própria.




Autor de numerosa e variada obra, publicou dois livros de poesia Além da Noite e Viagem Desconhecida, e vários livros de ensaio como Modernos de Ontem e de Hoje, Introdução a uma estética existencial, Problemática Concreta da Cultura Portuguesa, etc.

Encontrei António Quadros na Brasileira do Rossio, onde o conhecido escritor se costuma reunir com os seus camaradas do 57. A ideia de o entrevistar nasceu de ser o autor de A Angústia do nosso tempo e a crise da Universidade.

- O Sr. Dr. publicou, em 1956, um livro intitulado A Angústia do nosso tempo e a crise da Universidade. No ano seguinte começou a publicar a sua revista 57 que agora se apresenta como orgão do "Movimento de Cultura Portuguesa". Haverá alguma relação entre as duas publicações?

- É com o maior prazer, Francisco Sottomayor, que respondo à sua pergunta. Foi em 1952, isto é, quatro anos depois da minha formatura, que comecei a escrever sobre os problemas da educação e da Universidade. Estes problemas de há muito me vinham preocupando, praticamente desde os meus primeiros dias de aluno universitário. Com efeito, desde logo verifiquei que a Universidade não se diferenciava substancialmente do liceu. Durante os meus quatro anos de aprendizato pude observar, em primeiro lugar, que a Universidade não ministrava qualquer forma de educação do espírito, em segundo lugar, que o seu ensino era meramente histórico e positivista. Mais concretamente: todas as aulas de filosofia ou de história eram constituídas por secas exposições de doutrinas ultrapassadas, segundo histórias, compêndios ou sínteses de vulgarização cultural. Verifiquei que não apenas o professor ocultava as suas fontes de informação, como não manifestava no seu ensino uma adesão a qualquer das doutrinas, que eram expostas como peças de museus.

- Compreendo perfeitamente. O Sr. Dr. refere-se ao carácter meramente historicista do ensino universitário da filosofia. Os historiadores, os técnicos da história, são como que máquinas de transformação do tempo em passado.

- Foi assim, por exemplo, que em História da Filosofia Moderna, nunca passámos de Kant. Foi assim que nunca foi dada a menor indicação sobre uma filosofia portuguesa actual ou mesmo potencial. Foi assim que me ensinaram vários resumos de doutrinas passadas ou alheias, mas nunca me ensinaram a pensar. O Francisco Sottomayor tem inteira razão. Se fora da Universidade eu não tivesse encontrado um verdadeiro mestre estaria ainda na situação daqueles alunos brilhantes que conquistaram boas notas e os favores da classe catedrática os quais, uma vez terminado o curso, nunca mais se ocuparam ou preocuparam da situação do homem no mundo, na relação entre Deus e a Natureza, ou de qualquer problema de ordem superior. Com uma única diferença; fui um aluno medíocre. Estudar pouco e mal foi a minha defesa contra um sistema negador do pensamento, da imaginação e da liberdade de conceber novas gerações, inadequada aos problemas e às preocupações do homem português.




- Acha o Sr. Dr. que os universitários se interessam autenticamente pelos problemas da cultura ou que apenas pretendem passar nos exames para concluir o mais depressa possível os seus longos cursos? O estudante universitário não terá tempo para se dedicar à cultura ou, pelo contrário, dedicar-se-lhe-ia inteiramente se o regime de estudos fosse outro?

- Creio que o universitário, como universitário, é praticamente indiferente à cultura. Creio que o universitário, como homem, está aberto aos problemas do espírito. O que se verifica é que há duas espécies de universitários: os que se identificaram totalmente com o universitarismo, desprezando outras fontes de cultura mais viva, criadora e nacional; e os que procuram fora da Universidade os esclarecimentos que a instituição, com a sua burocracia de funcionários, não tentou sequer dar-lhes. Aqueles preocupam-se apenas com os exames e os concursos e constituem o campo de recrutamento dos professores catedráticos e dos políticos; estes uma minoria, são os heróis: maltratados pelo sistema universitário, maltratados pela sociedade, radicada no sistema, muitas vezes ficam pelo caminho, muitas vezes desistem, e quando o não fazem obtêm as piores classificações. Mas é deles que saem os filósofos, os escritores, os artistas, os missionários de uma cultura autêntica e insofismada. Aqueles dominam o mundo, mas são estes que o fazem caminhar para o futuro.

- Estou-me lembrando de um artigo publicado no Diário Ilustrado por um empregado da Universidade, em que se defendia a doutrina contrária, como se Sampaio Bruno tivesse sido universitário, como se Leonardo Coimbra não tivesse desistido das provas de concurso à Faculdade de Letras de Lisboa, como se Fernando Pessoa não tivesse dito que quando se sai de uma faculdade, o primeiro trabalho é desaprender o que ali se aprendeu...

- Se o regime de estudos fosse modificado? Mas com certeza que o universitário seria diferente. Bastava que a Universidade se propusesse realizar fins espirituais e não, como até aqui, unicamente fins de técnica ou erudição.

- Eu sou estudante na Faculdade de Ciências. O Sr. Dr. é formado em filosofia pela Faculdade de Letras. Pode-me dizer a sua opinião sobre se os cursos de ciências deveriam ter cadeiras de filosofia e os cursos de filosofia deveriam ter cadeiras de ciências?

- Sem dúvida. Todo o homem é um pensador, porque todo o homem pensa, mas todo o homem deve ser um filósofo porque não se admite viver de olhos fechados. Deus deu aos homens um corpo, uma alma e um espírito e portanto deu-lhes as faculdades necessárias para procurar a beleza, o bem e a verdade. Existir em puro egoísmo do quotidiano repugna a todos os homens, mesmo que o façam por deficiência de educação. Se a filosofia, na concepção portuguesa de sinal aristotélico é o estudo da antropologia, da cosmologia e da teologia, é evidente que todo o universitário, ao mesmo tempo que aprende uma técnica e uma profissão, deve estudar o Homem, a Natureza e Deus, sem exclusão de qualquer destes três ramos, pois é na sua interligação mútua que a verdade se dá aos homens.





- O Sr. Dr. referiu-se aos problemas teológicos. Parecendo que não, são eles os que mais interesse despertam entre os estudantes universitários, por vezes descontentes com a apologética. Um exemplo disso, é o facto de ter sido muito discutida a sua posição, e a de alguns colaboradores do 57, quanto ao mistério da SS. Trindade e, particularmente, quanto ao paracletismo e uma preponderância actual do Espírito Santo da terceira pessoa da Trindade Divina.

- Refere-se, sem dúvida, à minha crítica ao recente trabalho de Agostinho da Silva sobre a filosofia da história portuguesa, à luz de uma missão do Espírito Santo. Sei que esse meu artigo teve várias interpretações, nem sempre certas, e a culpa foi porventura minha... e da dificuldade de um tão alto problema teológico. O que penso, como católico e como aprendiz de teólogo, é que é preciso interpretar a História à luz, não apenas de uma Antropologia cosmológica, mas sobretudo à luz de uma Antropologia cosmoteológica. Por outro lado, afigura-se-me que a religião e, no caso que mais interessa, a religião portuguesa, não procedeu à actualização da SS. Trindade, em todas as suas três pessoas. Esquece-se demasiado que o catolicismo é uma religião trinitária e cai-se demasiadas vezes na concepção em que Deus se revela como uma única pessoa: a de Cristo. Ora é preciso insistir, para o desenvolvimento do espírito humano e da humanidade, em que a SS. Trindade é, por outras palavras, a actualização de Deus, Deus em missão junto dos homens. Esta missão está perfeitamente esclarecida desde S. Paulo quanto à pessoa do Pai (o tempo da lei) e à pessoa do Filho (o tempo da fé). A lei moral e os Sacramentos consignam e promovem a ligação dos homens, ou a sua resposta, ao Pai e ao Filho. Já quanto à missão do Espírito Santo, o Consolador, o dispensador da sabedoria, o promotor da fraternidade universal, os homens de hoje parecem ser-lhe mais surdos ou mais cegos. Daqui a minha insistência.

- Sim, agora vejo. Também eu fui levado a ver no seu artigo uma directriz conducente à defesa de um culto de tipo protestante, com a respectiva submissão ao amor abstracto e correspondente concretização em acções sociais. Porque, já que se trata de filosofia portuguesa, há que referir o problema às acções católicas que foram os descobrimentos marítimos. Não é assim, Sr. Dr.?

- Os descobrimentos marítimos, a primeira grande missão da história portuguesa, estão ligados a Cristo porque foram realizados pela Ordem de Cristo, de que foram grão-mestres D. Dinis, o Infante D. Henrique e D. Manuel, mas também ao Espírito Santo como o sublinha particularmente Agostinho da Silva, interpretando alguns sinais irrefutáveis, como os Painéis de Nuno Gonçalves, que retratam, com a presença do Infante e dos navegadores uma cerimónia do culto do Espírito Santo, e a instauração do mesmo culto pelos nossos navegadores do século XV na Madeira e nos Açores, onde aliás ainda hoje se realizam as festas do Espírito Santo. Estas tradições parece terem-se perdido, e creio que a religião portuguesa muito ganhará em repensar a missão da terceira pessoa da SS. Trindade. Não podem esquecer, além disso, a profunda relação entre a Virgem e o Espírito Santo. O estudo desta relação em muito iluminará, estou convencido, a grande adesão do povo português a Nossa Senhora, protectora de Portugal.

- Agostinho da Silva refere-se à heresia de Joaquim de Flora...

- Não conheço as obras do franciscano Joaquim de Flora, mas creio que os seus adeptos quiseram promover a separação dos três cultos, o do Pai, o do Filho e o do Espírito Santo, quase os considerando três religiões separadas. Tal não é o meu pensamento. Como lhe disse, apenas me seria grato ver completado, em acção, o trinitarismo da religião católica portuguesa que no domínio do Espírito Santo se me afigura vaga, nebulosa, ineficaz e indiferente. Ora a iluminação do espírito humano pelo Espírito Divino, iluminação constante e vitalmente necessária, não me parece ser factor de somenos. A este respeito, é bem claro o Evangelho de S. João. Para que a cultura se harmonize com o culto e a filosofia com a religião, fim superior do espírito, é necessário que o trinitarismo divino, a relação dos homens com o Pai, o Filho e também o Espírito Santo, seja efectuada sem indiferença por qualquer destes reinos do infinito divino.

- Aliás, isto de insistir no Espírito Santo quando outros insistem no materialismo dialéctico, poderá representar uma tese de uma antítese ou uma antítese de uma tese, cuja síntese portuguesa, em teologia, se situará nos mistérios marianos.