sábado, 11 de janeiro de 2014

Leonardo da Vinci, ele próprio

Escrito por Leonardo da Vinci



La Gioconda

«As proporções das belas formas que compõem as divinais formosuras deste rosto que fito [de "Mona Lisa"], as quais em conjunto e reagindo em simultâneo me dão muito prazer com as suas proporções divinas que eu julgo não haver outra obra sobre a Terra que me dê maior prazer».

Leonardo da Vinci


«(...) em quase todos os rostos de mulher por ele pintados - aliás muito poucos - apenas nove ou dez, incluindo as figuras de anjos, se conservaram intactos e neles se encontra esse sorriso singular que celebrizou "Mona Lisa". Ninguém até agora conseguiu interpretá-lo.

(...) Torna-se impossível citar tudo aquilo que fez e descobriu. Na qualidade de pintor pretendeu conhecer a estrutura anatómica do ser humano, o funcionamento dos membros, dos músculos, das articulações. Para tal investigava, seccionando, experimentando, desenhando. Vertia cera quente nas cavidades do corpo a fim de averiguar qual a sua forma. Descobriu, assim, a curvatura da coluna vertical e foi o primeiro a desenhar um feto humano na posição exacta.

Além destas actividades renovou ou aperfeiçoou - como é evidente - a técnica pictórica. Descobriu o "sfumato", a maneira suave de pintar tom sobre tom, em que se diluem todos os contornos marcados, parecendo o corpo como que modelado pela luz.

Dedicando-se à óptica, descobriu que o ar absorve a luz. Trabalhando como mecânico chegou à conclusão ser impossível construir o tão almejado e tantas vezes tentado "motor contínuo". No decorrer das suas pesquisas e projectos descobriu as leis que regem o sistema de alavancas, o paralelogramo das forças, a relação existente entre o atrito, a pressão e a estrutura das superfícies. Ao desenhar os seus aparelhos voadores inventou a roda movida a pás, isto é, descobriu praticamente o princípio das turbinas. A fim de conceber o aparelho estudou primeiro o voo dos pássaros escrevendo um livro sobre esse tema. São espantosos e dignos de admiração os estudos por ele feitos relativos à resistência do ar, à impulsão, ao voo planado, aos sorvedouros e aos turbilhões da atmosfera, trabalhos que até agora ainda ninguém pôs em causa e cujo génio o tornou um precursor da técnica moderna».

«Homens que transformaram o mundo» (coordenação de Roland Göök, Círculo de Leitores).


«A mecânica é o socorro de Deus levado ao Nada».



«A tua força, artista, deriva da solidão! Só quando te encontras sozinho pertences a ti próprio. Se, de todo, precisares de amigos escolhe-os entre os companheiros e discípulos da tua oficina. Qualquer outro tipo de amizade é perigoso».

Leonardo da Vinci


«O homem é a medida de todas as coisas, das que são enquanto são e das que não são enquanto não são».

Protágoras de Abdera


Leonardo da Vinci, ele próprio


«Vede, ó leitor! Uma coisa respeitante...  a essas coisas, que pode em qualquer altura ser claramente perceptível pela experiência, permaneceu muito tempo desconhecida ou mal compreendida. O olho, cujo funcionamento nós tão bem conhecemos pela experiência, foi, até ao meu tempo, definido por um número infinito de autores como uma coisa; mas eu descubro, pela experiência, que é outra inteiramente diferente».




«Quem poderia imaginar que um espaço tão pequeno poderia conter as imagens de todo o universo?».

«O sentido que fica mais próximo do orgão da percepção funciona mais rapidamente; é o olho, o principal e o líder de todos os outros...».

«O olho é a janela do corpo humano, através da qual se apercebe do seu caminho e aprecia a beleza do mundo»

«Descrevei na vossa anatomia que proporção existe entre os diâmetros de todas as lentes do olho e a distância entre elas e o cristalino».

«Não vedes que o olho abarca a beleza de todo o mundo? Orienta e corrige todas as artes da Humanidade... é o príncipe das matemáticas e as ciências nele fundadas são absolutamente correctas. Mediu as distâncias e dimensões das estrelas, descobriu os elementos e a sua localização... deu origem à arquitectura, à perspectiva e à divina arte da pintura».

«É a luz que afugenta a escuridão. Olhai para a luz e apreciai a sua beleza. Piscai os olhos e observai-a de novo: o que vedes não estava lá desde o princípio e o que lá estava já não existe».

«Enquanto o Senhor, que é a luz de todas as coisas, condescender em iluminar-me eu revelarei a luz».

«Entre os diversos estudos dos processos naturais, o da luz é o que dá mais prazer aos que a contemplam».

«Todas as superfícies dos corpos sólidos viradas para o sol ou para a atmosfera iluminada pelo sol se revestem e tingem da luz do sol ou da atmosfera».

«Um único e distinto corpo luminoso provoca um relevo mais profundo nos objectos do que a luz difusa, conforme se pode observar ao comparar um lado da paisagem iluminado pelo sol e outro ensombrado apenas pela luz difusa da atmosfera».

«Todos os corpos sólidos estão rodeados e revestidos de luz e escuridão. Tereis apenas uma ténue percepção dos pormenores de um corpo quando a parte visível estiver toda na sombra ou toda iluminada».


São João Batista, de Leonardo da Vinci


«Quanto mais brilhante for a luz de um corpo luminoso tanto mais profundas as sombras projectadas pelo objecto iluminado».

«Num objecto iluminado e sombrio o lado voltado para a luz transmite para o olho as imagens dos seus pormenores mais distinta e imediatamente do que o lado na sombra».

«Grande delicadeza de sombra e luz se encontra nos rostos daqueles que se sentam na soleira de casas escuras. O olhar do espectador observa a parte do rosto que permanece na sombra, perdido na escuridão da casa, e a parte do rosto iluminada retira o seu brilho do esplendor do céu. É nesta intensificação da luz e da sombra que o rosto muito ganha em relevo e beleza, ao revelar a subtileza da luz na parte escura».

«Não deveis dar à roupagem uma grande confusão de inúmeras dobras mas, pelo contrário, reproduzir apenas as que as mãos e os braços prendem; o resto podeis deixar pender naturalmente, consoante a sua natureza. E as dobras devem corresponder à qualidade dos tecidos, ora transparentes ora opacos...».

«Os membros de uma ninfa ou de um anjo devem ser mostrados quase no seu estado original, pois são representados revestidos de roupagens leves, atraídas e pressionadas contra os membros das figuras pelo sopro do vento».

«Depois de nos apercebermos de que a qualidade da cor só é apreendida através da luz, presume-se que onde há mais luz o verdadeiro carácter duma cor seja mais visível à luz; e onde há mais sombra a cor será afectada pela tonalidade da mesma. Avante, ó Pintor. Lembrai-vos de mostrar os verdadeiros atributos da cor sob uma luz brilhante».

«Podeis ter observado como a luz que penetra através dos vitrais das igrejas assume a cor dos vidros dessas janelas».

«Observai o sol que baixa no horizonte, quando surge encarnado através da névoa e tinge todas as nuvens que reflectem a sua luz».

«As cores no centro do arco-íris misturam-se todas. O próprio arco não existe nem na chuva nem nos olhos que o vêem; embora seja produzido pela chuva, o sol e o olho.




«A perspectiva é uma demonstração racional que, através da experiência, confirma as imagens de todas as coisas enviadas para o olho por linhas piramidais».

«O ar está repleto de linhas direitas e irradiantes, intersectadas e entrelaçadas umas nas outras. Representam igualmente o que impeça a verdadeira forma da sua génese».

«Entre sombras de igual profundidade, as mais próximas do olho parecerão menos profundas».

«Quando faz bom tempo e o sol está no zénite, a paisagem reveste-se de uma cor azul mais bonita porque o ar está liberto de humidade».

«As cores das sombras das montanhas a grande distância adquirem um azul mais bonito e mais puro do que o das fracções iluminadas».

«Há quatro cores ocasionais das árvores, nomeadamente sombra, luz, brilho e transparência».

«... 4 dedos fazem uma palma; 4 palmas fazem um pé; 6 palmas fazem um cúbito; 4 cúbitos fazem a altura de um homem; e 4 cúbitos fazem um passo; e 24 palmas fazem um homem».


Homem de Vitrúvio, de Leonardo da Vinci


«O homem é a medida de todas as coisas... Cada parte do todo deve estar em proporção com o todo... Eu inferiria o mesmo como aplicável a todos os animais e plantas».

«Se abrirdes as pernas até terdes diminuído um catorze avos da vossa altura e abrirdes e levantardes os braços até que os vossos dedos médios estejam alinhados com o topo da cabeça sabei que o umbigo será o centro do círculo a partir do qual os membros abertos tocam na circunferência e o espaço entre as pernas formará um triângulo equilátero».

«A distância entre os braços esticados de um homem é igual à sua altura».

«Todos os homens medem, ao três anos, metade da altura que atingirão em adultos».

«Pobre o pintor que não supera o seu mestre».

«Qual é melhor, desenhar a Natureza ou os antigos?».

«Desenhai primeiro desenhos de bons mestres... depois obras plásticas, guiado pelo desenho delas feito; e, depois, bons modelos naturais».

«É aconselhável que o pintor seja um solitário e pondere o que observa, discutindo-o se si para si de modo a seleccionar a melhor parte de tudo o que vê».

«Enquanto estais sós estais completamente à vossa conta; e se tendes apenas um companheiro sois apenas metade de vós mesmo, ou mesmo menos, proporcionalmente à indiscrição da sua conduta».

A Anunciação, de Leonardo da Vinci

«Ele [artista] deve agir como um espelho que se transforma numa multiplicidade de cores, tantas quantas as dos objectos que estão à sua frente... Deve, acima de tudo, manter a mente tão limpa como a superfície de um espelho».

«O pintor que desenha com prática e apreciação do olhar, sem uso da razão, é como um espelho que copia tudo o que lhe é colocado em frente sem conhecimento do mesmo».

«Porque vê o olhar com maior clareza em sonho do que tendo a imaginação desperta?».

«...podemos afirmar que a Terra possui um alento vital; que a sua carne é o solo, os seus ossos a disposição e a ligação entre as rochas que compõem as montanhas, as suas cartilagens os tufos calcários e o seu sangue as nascentes de água».

«Os que condenam a suprema verdade da matemática alimentam-se de confusão e nunca podem silenciar as contradições das ciências sofistas, conducentes à impostura eterna».

«A Mecânica é o paraíso da ciência matemática porque através dela chega-se aos frutos da Matemática».

«A água é o motor da Natureza».

«Tal como a pedra atirada para a água se torna o centro e na causa de vários círculos, [assim] o som gerado no ar se propaga em círculos e enche as partes circundantes com um número infinito de reproduções de si próprio».

«Eu afirmo que o azul observado na atmosfera não é a sua própria cor mas é provocado pela humidade quente evaporada em minúsculos e imperceptíveis átomos, nos quais os raios solares incidem tornando-os luminosos contra a imensa escuridão da região de fogo que forma um tecto sobre eles».



«... a atmosfera assume esta cor azul devido às partículas de humidade que captam os luminosos raios do sol».

«Toda a gravidade pesa através da linha central do Universo porque é atraída para este centro por todas as partes».

«Nenhum movimento pode jamais ser tão lento que um momento de estabilidade nele seja encontrado».

«Um ponto não tem fracção; uma linha é o trajecto de um ponto; os pontos são os limites de uma linha. Um instante não tem Tempo. O Tempo é composto dos movimentos de um instante e os instantes são os limites do Tempo».

«As penas irão alçar o Homem, tal como fazem as aves em direcção ao céu».

«A pintura é a maneira de aprender a conhecer o Criador de todas as coisas maravilhosas».

«A Pintura não necessita de tradutores para diversos idiomas como a Literatura».

«A verdadeira pintura é uma ciência, uma verdadeira filha da Natureza, porque a pintura nasce da Natureza, mas para ser mais correcto devíamos chamar-lhe neta da Natureza; uma vez que todas as coisas visíveis foram geradas pela Natureza e estas suas filhas conceberam a pintura. Por conseguinte, podemos falar dela com justiça como da neta da Natureza e como estando ligada a Deus».

«Sabeis que a nossa alma é composta por harmonia e que essa harmonia só é produzida quando as proporções das coisas são vistas ou escutadas em simultâneo?».

«A parte tem sempre tendência a unir-se com o todo de modo a escapar à sua imperfeição».

«Um bom pintor tem dois objectivos principais, o Homem e o impulso da sua alma, o primeiro é fácil, o segundo difícil».



«A maior decepção que o homem sofre advém das suas próprias opiniões».

«Haverá sempre sobre a Terra criaturas em luta umas com as outras. Não haverá limites para a sua malícia... a gratificação do seu desejo será condenar à morte, ao padecimento, ao trabalho, ao terror e ao desterro todos os seres vivos».

«Do abismo cavernoso irromperá algo [ouro] que fará todas as nações labutar e suar com os maiores tormentos, ansiedades e tribulações, para auferirem do seu auxílio».

«Uma coisa maligna e aterradora [a pobreza] espalhará tanto medo entre os homens que, no seu desejo apavorado de dela fugirem, apressar-se-ão a aumentar o seu poder ilimitado».

«Tal como o ferro enferruja com o desuso e a água estagnada apodrece ou gela quando esfria, também o vosso intelecto perde a não ser que lhe deis uso».

«A verdade é tão admirável que se enaltecer apenas as pequenas coisas elas tornam-se sublimes».

«O esplendor vão retira-nos o esplendor do verdadeiro ser».

«A luz afugenta a escuridão».

«Nada se esconde debaixo do sol» (In William Wray, LEONARDO DA VINCI NAS SUAS PRÓPRIAS PALAVRAS, Fubu Editores, 2006).


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Da visão e da luz

Escrito por Platão




«Demócrito e a maioria dos filósofos da natureza, que se ocupam da percepção, são culpados de um grande absurdo: pois reduzem ao tacto toda a percepção».

Aristóteles


«Leucipo, Demócrito e Epicuro dizem que a percepção e o pensamento surgem, quando entram imagens do exterior; pois nenhum deles ocorre a quem quer que seja sem a colisão de uma imagem».

Écio


«Demócrito explica a vista pela imagem visual, que ele descreve de uma maneira particular; a imagem visual não surge directamente na pupila, mas é o ar existente entre o olho e o objecto da visão que, ao ser contraído, é marcado pelo objecto visto e pelo observador; pois todas as coisas estão sempre a emitir uma espécie de eflúvios. Por isso, este ar que é sólido e de cores variegadas, aparece nos olhos que são húmidos (?); os olhos não admitem a parte densa, mas a húmida passa através deles...».

Teofrasto


«Eles atribuíram vista a certas imagens do mesmo formato que o objecto, que estavam continuamente a fluir dos objectos da visão e a colidir com os olhos. Esta era a opinião da escola de Leucipo e Demócrito...».

Alexandre


«Anaxímenes diz que os corpos celestes são de natureza ígnea, e que têm entre eles alguns corpos térreos, invisíveis, que giram juntamente com eles».

«Anaxímenes diz que os astros estão implantados, como pregos, no cristalino; mas alguns há que afirmam serem eles folhas ígneas como pinturas».

Écio


«Fílon – …o que eu quero ensinar-te é que o olho não só vê, mas também alumia primeiramente aquilo que vê. Assim, que em boa consequência, não creias que o Sol só ilumina, mas crê que também vê, porque de todos os sentidos só o da vista é estimado pelo Céu, porque está ali muito mais perfeitamente que no homem nem noutro animal.

Sofia – Como? Os céus vêem como nós?

Fílon – Segundo dizem, vêem melhor que nós.

Sofia – Têm olhos?




Fílon – E que melhores olhos que o Sol e as estrelas que são chamados olhos de Deus na Sagrada Escritura, dada a visão deles, chegando a dizer o profeta em relação aos sete planetas: Aqueles sete olhos de Deus que se estendem por toda a Terra? E outro profeta diz, quanto ao céu estrelado, que o seu corpo está cheio de olhos. E chamam olho ao Sol, e dizem olhos do Sol. Estes olhos celestiais também tanto alumiam quanto vêem. E mediante a visão compreendem e conhecem todas as coisas do mundo corpóreo e as mutações delas».

Leão Hebreu («Diálogos de Amor»).


«Através do ar, o olho transmite a sua própria imagem para todos os objectos que fita e também os recebe na sua própria superfície, de onde o sensus communis os retira e aprecia».

«Eu considero que os poderes invisíveis das imagens nos olhos se podem projectar para o objecto, bem como as imagens dos objectos nos olhos».

«Afirmo que o poder da visão se propaga através dos raios visuais para a superfície dos corpos não-transparentes, enquanto que o poder possuído pelos mesmos corpos se propaga ao poder da visão».

«Diz-se que as donzelas têm nos olhos poder para atrair, para si próprios, o amor dos homens».

Leonardo da Vinci


Da visão e da luz


(...) Mas tu, ó Sócrates, que afirmas que seja o bem: a ciência, o prazer, ou qualquer outra coisa e diferente?

- Que homem és, amigo! Há muito que tinhas tornado bem claro que não te darias por satisfeito com a opinião dos outros a este respeito.

- É que também não me parece razoável, ó Sócrates, que se seja capaz de expor as doutrinas dos outros, mas não as próprias, quando uma pessoa se ocupa destes assuntos há tanto tempo.

- Ora essa! - exclamei -. Parece-te razoável uma pessoa falar do que não se sabe, como se soubesse?

- Falar como se soubesse, não, mas consentir em falar como alguém que expõe o seu próprio pensamento, sim.


Sócrates

- Mas então! Não vês que as doutrinas divorciadas do saber fazem todas uma triste figura? As melhores dentre elas são cegas. Ou encontras alguma diferença apreciável, entre os cegos que caminham pela estrada certa e aqueles que sustentam qualquer opinião verdadeira sem a inteligirem?

- Não diferem nada.

Preferes então contemplar coisas vergonhosas, cegas, tortuosas, quando podes ouvir de outros o que é luminoso e claro?

- Por Zeus, ó Sócrates - interveio Gláucon - não pares, como se tivesses chegado ao fim! Ficaremos satisfeitos se nos explicares o que é o bem, tal como nos explicaste a justiça, a temperança e a outras virtudes.

- Também a mim, companheiro, me bastará e plenamente. Mas receio que isso supere as minhas forças e que o meu zelo desajeitado possa chegar a causar riso. Façamos melhor, abençoados homens, deixemos, por agora, a natureza do bem em si; ele parece-me demasiado alto para que o impulso que dá asas ao meu presente voo possa atingir por agora o meu pensamento acerca dele. O que desejo expor-vos, se também o desejardes, é o que parece ser filho do bem e muito semelhante a ele; caso contrário, deixemos a questão.

- Fala. Pagarás para outra vez a explicação que nos deves acerca do pai.

- Tomara eu ser capaz de a pagar e vós de a receber e, não apenas como agora, dar-vos só os juros. Recebei, pois, este juro, este filho do bem em si. Mas tende cuidado em que não vos engane sem o querer, entregando-vos falsos cálculos do juro.

- Teremos cuidado, tanto quanto pudermos. Mas fala então.

- Só depois de termos chegado a um acordo e de vos ter lembrado o que aqui dissemos, e que já em muitas outras ocasiões se afirmou.

- O quê? - perguntou.

- Que há um grande número de coisas belas, de coisas boas e um grande número de outras coisas da mesma espécie de que afirmamos a existência e que distinguimos pela linguagem.

- Sim, dissemos.

- E afirmamos, também, a existência do belo em si, do bom em si e, do mesmo modo, relativamente a todas as coisas que postulámos como múltiplas e, de modo inverso, declarámos que a cada uma delas corresponde uma ideia, que é única, e a que chamámos a sua essência.

- É isso.

- E diremos ainda que as coisas múltiplas podem ser visíveis mas não inteligíveis, ao passo que as ideias são inteligíveis mas não visíveis.


Academia de Platão: mosaico de Pompeia, no Museu Arqueológico Nacional (Nápoles).

- Exactamente.

- E por qual das nossas faculdades vemos o que é visível?

- Pela vista.

- E, de igual modo, não percebemos o que é audível por meio da audição e tudo o que é sensível pelos outros sentidos?

- Sem dúvida.

- E já alguma vez te deste conta como o demiurgo dos nossos sentidos modelou com muito mais prodigalidade a faculdade de ver e ser visto?

- Não.

- Repara. Não precisam a audição e a voz de uma outra coisa de espécie diferente, uma para ouvir e a outra para que se faça ouvir, de modo que, na ausência desse terceiro factor, a primeira não ouvirá e a segunda não será ouvida?

- Não precisam de nada.

- Julgo que muitas outras faculdades, para não dizer todas, não necessitam de tal coisa. Ou sabes de alguma?

- Eu não - respondeu.

- Mas, quanto à faculdade de ver e de ser visto, não tem ela necessidade disso?

- Como assim?

- Ainda que a visão exista nos olhos, e o seu possuidor se tente servir dela, e ainda que a cor esteja presente nas coisas, se não se lhes adicionar uma terceira espécie, criada especificamente para este feito, sabes que a vista nada verá e que as cores serão invisíveis.

- Que coisa é essa de que falas?

- É aquilo a que chamas luz.




- Dizes a verdade.

- Por conseguinte, o laço que une o sentido da vista e a faculdade de ser visto é de uma espécie bem mais preciosa do que o que une todos os outros, a menos que a luz seja algo desprezível.

- Verdade é que está bem longe de ser desprezível.

Qual é, quanto a ti, dentre os deuses do céu, o responsável por esta união, cuja luz faz com que vejamos tão perfeitamente quanto possível, e o que é visível seja visto?

- O mesmo a que tu e todas as pessoas se referem, o Sol, pois é evidente que a tua questão se lhe refere.

- E acaso a vista não se encontra para com o deus nesta relação?

- Qual?

- Nem a vista, nem a parte onde se forma a que chamamos olhos, é o Sol.

- Não, com efeito.

- Mas são, penso, de todos os orgãos dos sentidos, os mais semelhantes ao Sol.

- De longe.

- E o poder que possuem, não lhes é dispensado pelo Sol, como um influxo que ele lhes envia?

- Certamente.

- E não é também verdade que o Sol, que não é a vista, mas a sua causa, é contemplado por esta mesma vista?

- Assim é - respondeu.

- Compreende agora - prossegui - que é o Sol que eu considero ser o filho do bem, que o bem gerou à sua semelhança, bem que é, no mundo inteligível, em relação à inteligência e aos objectos inteligíveis, o mesmo que o sol no mundo visível em relação à vista e aos objectos visíveis.

- Como assim? explica-me melhor.

- Tu sabes - continuei . que quando os olhos se voltam para objectos cujas cores já não são alumiadas pela luz do dia, mas pelos clarões da noite, vêem mal e parecem quase cegos, como se tivessem perdido a clareza da sua visão.

Partenon (Atenas).

- Sim, de facto.

- Mas, quando se volta para objectos iluminados pelo Sol, presumo que vêem com clareza e a visão parece residir nesses mesmos olhos.

- Sem dúvida.

- Aplica esta comparação à alma deste modo: quando ela, de modo firme, se fixa num objecto iluminado pela verdade e pelo Ser, apreende-o, conhece-o e parece inteligente; mas, quando se inclina para aquela região na qual se misturam as trevas, o mundo do que nasce e morre, não tem senão opiniões, vê turvo, muda de opiniões de um extremo a outro e parece ter perdido toda a inteligência.

- Sim, parece.

- Ora, o que comunica a verdade aos objectos cognoscíveis e o poder de conhecer ao sujeito que conhece, é a ideia do bem. Deves concebê-la como sendo a causa do saber e da verdade, tanto quanto são conhecidas. Mas por belos que sejam o saber e a verdade, não te enganarás em pensar que há algo ainda de mais belo do que eles. E, tal como no mundo visível se tem razão em pensar que a luz e a visão são análogas ao Sol, mas já não é certo tomá-las pelo Sol, do mesmo modo, no mundo inteligível é correcto considerar que a ciência e a verdade são ambas semelhantes, ao bem, mas não é correcto tomá-las, a uma e a outra, pelo bem. Um ainda mais elevado conceito cabe à natureza do que seja o bem.

- Referes-te a uma beleza extraordinária, se é que ela é a fonte do saber e da verdade, e ainda os excede em beleza. Não é com certeza ao prazer que te estás a referir.

- Cala-te, para longe vá o agouro! Mas examina ainda melhor a imagem do bem.

- Como?

- Reconhecerás, segundo penso, que o Sol não só dá às coisas visíveis a faculdade de serem vistas, mas também a sua génese, crescimento e alimentação, se bem que ele mesmo não seja a génese.

- Não é, com efeito.

- De modo igual dirás que os objectos do conhecimento não recebem apenas da presença do bem a possibilidade de serem conhecidos, mas que as suas próprias existência e ser lhes são adicionadas por ele, apesar de o bem não ser uma essência, mas algo que lhe está acima e além, excedendo-a em dignidade e poder.

Gláucon, com ar jocoso, exclamou: - Valha-nos, Apolo, que divino excesso.




- A culpa é tua - respondi - porque me obrigas a exprimir o que penso sobre o assunto.

- Não desistas, de modo nenhum! E supondo que não queiras ir mais longe, ao menos trata da comparação com o Sol, a ver se há algo que omites.

- Sem dúvida, omito muitas coisas.

- Não deixes agora uma só de lado, por pequena que ela seja.

- Suponho que deixarei, e muitas, mas mesmo assim, até onde for possível nas presentes circunstâncias, nada omitirei por querer.

-Não o faças!

- Imagina - prosseguiu - que eles são dois, como dissemos, e que reinam, um na espécie e mundo inteligível, e o outro no mundo visível, não digo «no céu»: não vás pensar que quero expor o meu saber etimológico a propósito deste nome. Compreendes bem, estas duas espécies, o visível e o inteligível?

- Compreendi.

- Supõe uma linha cortada em duas secções desiguais; corta de novo cada secção segundo a mesma proporção, a da espécie visível e a da inteligível; e segundo o grau de clareza ou de obscuridade relativas das coisas, obterás no mundo visível uma primeira secção, a das imagens. Chamo imagens, em primeiro lugar, às sombras; de seguida, aos reflexos nas águas e aos que se formam na superfície dos corpos compactos, lisos e brilhantes, e tudo o mais do mesmo género, se me estás a entender.

- Sim, entendo.

- Supõe agora a outra secção, de que esta era imagem, a que nos compreende a nós, seres vivos, e a todas as plantas e espécie de objectos feitos pelo homem.

- Suponho.

- Acaso consentirias em admitir que o visível se divide no que é verdadeiro e no que não o é, e que a opinião está para o saber, como a imagem está para o modelo?

- Admito perfeitamente.

- Considera agora de que modo se deve cortar a secção do inteligível.

- Como?

- Assim: na primeira parte desta secção, a alma, servindo-se como se fossem imagens, dos objectos que então eram imitados, é forçada a investigar partindo de hipóteses, sem poder caminhar para o princípio, mas para a conclusão; ao passo que na outra secção, a alma parte da hipótese para o princípio absoluto e, sem fazer uso das imagens, como no caso precedente, faz o seu caminho só com o auxílio das ideias.

- Não compreendi bem o que acabaste de dizer.






- Tentemos de novo - disse - compreenderás melhor após o que vou dizer. Não ignoras, suponho, que aqueles que se ocupam da geometria, da aritmética e de outras ciências do mesmo género, admitem primeiro o par e o ímpar, as várias figuras, três espécies de ângulos e outras doutrinas aparentadas destas em cada ramo da ciência. Estas coisas tomam-nas por sabidas e, quando as usam como hipóteses, não acham que ainda tenham de prestar conta alguma disso, nem a si mesmos nem aos outros, tomando como garantido que são evidentes para todos. E, partindo daí, passando por todas as fases e tirando consequências, concluem a investigação que tinham começado.

- Sim, eu sei isso.

- Logo, sabes também que se servem de figuras visíveis e raciocinam sobre elas, sem contudo pensarem nelas, mas naquilo com que elas se assemelham. Por exemplo, é por causa do quadrado em si ou da diagonal em si que fazem os seus raciocínios, mas não daquela cuja imagem traçaram e, de igual modo, quanto às outras figuras. Todas estas figuras que eles modelam ou desenham, de que existem as sombras e os reflexos na água, servem-se delas como se fossem imagens, procurando ver aquelas realidades que não podem ser vistas senão pelo pensamento.

- O que afirmas é verdade.

- Eis o que eu entendia pela classe do inteligível, em que a alma ao procurar investigá-la, é compelida a servir-se de hipóteses, sem ir ao princípio, por ser incapaz de se elevar acima das hipóteses, utilizando como imagens os próprios objectos e produziam as sombras da secção inferior, objectos que consideravam mais claros que as sombras e que apreciavam como tais.

- Compreendo - disse - que te referes ao que se passa na geometria e ciências afins.

- Aprende agora o que entendo pela outra secção dos inteligíveis, aquela que o próprio raciocínio atinge pelo poder da dialéctica, fazendo das suas hipóteses não princípios, mas simples hipóteses, que são como que degraus e pontos de apoio para se elevar ao princípio de tudo, que não admite hipóteses. Atingido este princípio, desce, fixando-se em todas as consequências que daí decorrem até chegar à conclusão, sem fazer uso algum de qualquer dado sensível, mas passando de uma ideia a outra, para terminar em ideia.

- Compreendo, mas não o suficiente, pois não é tarefa leve essa de que falas. Parece-me que queres determinar que o conhecimento do Ser e do inteligível adquirido pela ciência da dialéctica é mais claro que o que adquirimos pelas chamadas ciências, cujas hipóteses são assumidas como princípios. Sem dúvida que os que as estudam são forçados a fazê-lo pelo pensamento e não pelos sentidos; porque as examinam sem remontar ao princípio, mas a partir de hipóteses, parece-te que não têm a inteligência desses objectos, se bem que eles sejam inteligíveis com um primeiro princípio. Parece-me que chamas ao modo de pensar dos geómetras e de outros cientistas do mesmo género, entendimento e não inteligência, porque a dianóia é algo de intermédio entre a opinião e a inteligência.

Cariátides

- Aprendestes bem a questão - observei. E agora, aplica às nossas quatro secções, as quatro operações da alma: à mais elevada, a inteligência, à segunda, o entendimento; atribui a crença à terceira e à última a imaginação, e coloca-as por ordem, partindo da ideia de que, quanto mais os seus objectos participam da verdade, tanto mais participam da claridade.

- Compreendo - disse ele -; concordo e vou ordená-las como propões (in Politeia, Guimarães Editores, 2005, 506c-511e).

sábado, 4 de janeiro de 2014

Descartes e Henry More (ii)

Escrito por Alexandre Koyré





«(...) O conceito de matéria como de força originante da divisão infinita não periódica, isto é, eternamente produtora do outro coincide com o conceito da terceira das realidades indicadas por Platão. A ciência moderna aparece, do ponto de vista da sabedoria antiga, como tendo por fim conhecer e dominar a matéria. É a última e suprema forma de titanismo, jamais no passado tentada pelo homem. A matéria não é energia, no sentido grego da palavra, não é acto porque não implica forma; é potência de divisão. É o que Aristóteles significa quando diz que não há infinito actual. Mas essa potência "em que só acreditamos por um prestígio de imaginação" explodiria se a apreendêssemos, porque a sua natureza, se da natureza se pode aqui falar, é a própria "inapreensibilidade".

(...) Como para a ciência moderna, a noção suprema de realidade é a de uma matéria que é pela divisão e pela composição ad infinitum, só o método que procede por divisão e recomposição de partes aparece como adequado; dir-se-ia que aquele factor pelo qual se constitui e se reconstitui indefinidamente a matéria é o mesmo de que a inteligência humana se serve para a conhecer e dominar. A ciência antiga, como vimos, dá a matéria como o irracional na própria vida de Deus; é uma substância misteriosa que, por ser a potência de divisão infinita, constitui o elemento básico para as formas que nascem da actividade contemplativa do Espírito. Mas o conhecimento da matéria em si não atraía os antigos por saberem muito bem o que isso significava e até onde poderia conduzir».

António Telmo («O Timeu e o conceito de analogia em Leonardo Coimbra», in Viagem a Granada).


«(...) "A verdade, porém, é que a ciência antiga nos seus vários ramos, tinha um objecto absolutamente distinto do objecto da ciência moderna". E vê-se que Você [António Telmo] prefere a ciência antiga. Parece preferi-la, entre outras razões, por a ver ocupada em encontrar "as quatro forças elementares que por toda a parte actuam no mundo natural", ao passo que "para a ciência moderna, a noção suprema de realidade é a de uma matéria que é pela divisão e pela composição ad infinitum (...)" Atrever-me-ei a observar que a "ciência antiga" ou dependia ou estava muito perto de uma concepção panteísta, que, verdadeiramente, só Aristóteles (a muito custo) afasta. Esvaziar de divino "a grande máquina do mundo" foi o cuidado e o efeito directo da religião de Israel, aprofundado pelo Cristianismo (cf., por ex., Mircea Eliade, Histoire des Croyances, II, 191)».

Henrique Barrilaro Ruas («Carta a António Telmo», in Viagem a Granada).












«(...) Como me pareceu que o i grego da nossa divergência reside no modo de conceber as relações da cosmogonia com a teologia, com as implicações inevitáveis no domínio da ciência antiga e da ciência moderna, voltei a ler o magnífico livro, que de certo conhece, de Alexandre Koyré sobre a evolução do pensamento científico, Do Mundo Fechado ao Universo Infinito, onde me foi dado ver que, afinal, também os grandes cientistas filósofos do século XVII se dividiram entre pontos de vista análogos aos nosso pelo que se me afigura que a oposição não é propriamente de antigos e modernos, de ciência antiga e de ciência moderna.

Quando se fala em ciència moderna e se diz simplesmente, com letra maiúscula, a "Ciência", é como se estivéssemos perante uma forma de conhecimento indiscutível e absoluta, com os seus princípios e métodos estabelecidos de uma vez para sempre, por tal modo que nós, indivíduos, nada ganhamos em pensar para formar uma concepção própria do Universo, porque outros o fazem e sabem por nós. Pelo menos, é esta a ideia provinciana da Ciência: "Não me venha com filosofias, a Ciência diz que..."; "A Ciência ainda não se pronunciou sobre este assunto, temos de esperar para que ela nos diga como é", são frases lançadas à mesa do café, mas que exprimem o prestígio dessa secreta eclésia anónima, situada algures nos laboratórios russos e americanos, onde ninguém tem acesso sem uma especial "ordenação " universitária.

O livro de Alexandre Koyré é liberalmente salutar, porque permite a heresia, isto é, a escolha. Mostra-nos, ao mesmo tempo, que todo o pensamento científico depende do pensamento filosófico e que a separação de ambos, perfeitamente estabelecida nos nossos dias, não pôde senão levar, por um lado, à redução da ciência a tecnologia, por outro, à dissolução da filosofia nas águas estagnadas dos conceitos sem conteúdo real. Entre os antigos, cada filósofo ou cada escola filosófica tinha a sua ciência. A Física de Aristóteles não era a física de Demócrito, porque diversas eram as suas concepções da constituição da matéria e do movimento. Através de Alexandre Koyré, ficamos a saber que a situação não era diferente no tempo de Newton...».

António Telmo («Carta a Henrique Barrilaro Ruas», in Viagem a Granada).



António Telmo no Mosteiro dos Jerónimos


«(...) Noutros escritos nos fala Descartes do carácter fabuloso do mundo sensível, da irrealidade portanto dos "corpos que nos rodeiam", e existe até um famoso retrato do pensador que tem escrita esta legenda: mundus est fabula. Lembrando, então, a sua preconizada filosofia prática, certa perplexidade nos pode surpreender pois logo diremos que a prática e a fábula mutuamente se excluem, e o cartesianismo simultaneamente nos aparecerá ou, nos termos da filosofia que lhe é anterior, como um realismo e um nominalismo, ou nos termos da filosofia que lhe é posterior, como um realismo e um idealismo. Esta ambiguidade vai assinalar toda a consequente evolução da filosofia nórdica: as suas expressões mais espiritualistas estão marcadas de materialismo, as suas declarações mais materialistas não conseguem esconder o mais enraizado espiritualismo, as suas sistematizações críticas concluem num dogmatismo extremo, o seu geral racionalismo funda-se na dúvida radical e patenteia uma permanente carência de persuasão retórica.

Depressa veremos, todavia, como o inical antagonismo entre prática e fábula se resolve em mútua complementaridade. Com efeito, definida como um conhecimento utilizável para dominar a natureza, a filosofia prática é a ciência moderna que Descartes se não limitou a preconizar mas de que foi também o decisivo iniciador. A ele se deve, com o princípio da inércia (ou, mais rigorosamente, com a formulação do princípio de inércia) a constituição da mecânica que é o que torna utilizável o conhecimento científico e o que distingue a ciência moderna de outros modos do conhecimento físico como seja, por exemplo, o dos gregos. "A filosofia da natureza de Descartes é puramente mecânica", diz-nos Hegel. Os corpos deixam de ter, como na física antiga, singularidade; o que era o lugar qualificado, ou determinado pelo corpo que o ocupa, passa a ser o espaço homogéneo a que Epicuro chamava o vazio; o movimento elementar deixa de ser o circular para ser o rectilíneo; a natureza perde o sentido original que abrange todas as formas nascidas e geradas e na geração contêm já a corrupção, formas que nascem, se reproduzem e morrem, para constituir a colecção dos corpos que nos rodeiam, corpos inertes ou sem vida que entre si se atraem ou repelem movidos por uma força que não reside nem na forma nem na matéria que os compõem, mas resulta da massa imaterial e informe que, com a sua presença bruta, marca limites no espaço infinito, inqualificado e homogéneo e representa uma energia cuja quantidade é invariável».

Orlando Vitorino («Refutação da Filosofia Triunfante»).




Na verdade, a tentativa de Descartes para salvaguardar a omnipotência divina, negando a possibilidade de um espaço vazio enquanto incompatível com a nossa maneira de pensar, está longe de ser convincente. O Deus cartesiano é um Deus verax, que garante a verdade das nossas ideias claras e distintas. É por isso que não somente repugna ao nosso pensamento, mas é também em si mesmo impossível que qualquer coisa de que constatamos claramente o carácter contraditório seja real. Não há objectos contraditórios neste mundo, ainda que tivessem podido existir num outro.

Passando à crítica feita por More à sua distinção entre «infinito» e «indefinido», Descartes assegura-lhe que não é (12)

uma modéstia afectada, mas uma sábia precaução, em minha opinião, quando afirmo que há certas coisas mais indefinidas do que infinitas; porque apenas concebo Deus como positivamente infinito. Quanto ao resto, como a extensão do mundo, o número das partes divisíveis da matéria e outras coisas semelhantes, confesso ingenuamente que não sei de modo nenhum se elas são absolutamente infinitas ou não; o que sei é que não lhes conheço qualquer fim, e com respeito a isso chamo-lhes indefinidas.

E ainda que o nosso espírito não seja nem a regra das coisas nem a da verdade, ele deve pelo menos sê-la daquilo que afirmamos ou negamos: com efeito, nada de mais absurdo e de mais imprudente do que pretender ajuizar sobre coisas que, conforme reconhecemos, as nossas percepções não poderiam atingir.

Ora surpreende-me que não somente pareceis querer fazê-lo, já que dizeis que se a extensão é somente infinita em relação a nós, ela será verdadeiramente finita, etc., mas que imaginais ainda uma extensão divina que vá além da dos corpos; porque isso é supor que Deus possui partes separadas umas das outras, que é divisível, e que toda a essência dos corpos lhe convém inteiramente.

Descartes tem inteira razão em sublinhar que More de facto não o compreendeu: ele nunca admitira a existência possível ou imaginável de um espaço para além do mundo da extensão, e ainda que o mundo tivesse esses limites que somos incapazes de encontrar, nada haveria certamente para além deles ou, mais exactamente, não haveria para além. Por isso, para dissipar completamente as dúvidas de More, Descartes declara (13):

Mas para suprimir todas as vossas dúvidas, quando digo que a extensão da matéria é indefinida, creio bastar isso para que não imaginemos um lugar para além dela, para onde as pequenas partes dos meus turbilhões pudessem escapar-se; porque onde quer que se conceba esse lugar, há, penso eu, alguma matéria, porque ao dizer que ela é extensa de uma maneira indefinida, digo que ela se estende para além de tudo o que podemos conceber.




Creio, contudo, que há uma grande diferença entre a amplitude [ou a grandeza] desta extensão corporal e a de Deus, a que de maneira nenhuma chamo extensão, porque propriamente falando não há absolutamente nele tal coisa, mas somente [imensidade] de substância ou de essência, por isso chamo a esta simplesmente infinita, e à outra indefinida.

Descartes tem certamente razão em querer manter a distinção entre, por um lado, a infinidade «intensiva» de Deus, que não somente exclui todo o limite, mas que igualmente se opõe a toda a multiplicidade, à divisão, ao número, e por outro lado a simples ausência de fim, a ilimitação do espaço ou da série de números, que necessariamente as inclui ou pressupõe. Além disso, trata-se de uma distinção absolutamente tradicional, que já vimos ser sustentada não somente por Nicolau de Cusa mas também por Bruno.

Henry More não nega esta distinção, pelo menos não a nega completamente. Na sua própria concepção, esta distinção manifesta-se através da oposição entre a extensão material e a extensão divina. No entanto, tal como ele declara na sua segunda carta a Descartes (14), esta oposição nada tem a ver com a afirmação de Descartes de que o espaço poderia ter limites, nem com a sua tentativa de construir um conceito intermédio entre o finito e o infinito. O mundo ou é finito ou infinito, tertium non datur. E se admitirmos, como forçados, que Deus é infinito e está presente em toda a parte, esta «em toda a parte» apenas pode significar o espaço infinito. Neste caso, prossegue More retomando um argumento já utilizado por Bruno, deve igualmente haver matéria em toda a parte, o que significa que não somente mas também o mundo é necessariamente infinito (15).

Não podeis contudo ignorar que elas são em absoluto ou infinitas ou verdadeiramente finitas, ainda que vos não seja tão fácil determinar se é um caso ou o outro: todavia, poderia ser para vós um sinal assaz seguro da infinidade do mundo que os vossos turbilhões se não rompam e que neles se não produza a menor fenda. Para mim em particular, declaro livremente que, ainda que possa subscrever afoitamente este axioma, o mundo é finito, ou não finito, ou, o que é o mesmo, o mundo é infinito, o meu espírito não poderia apesar disso compreender devidamente a infinidade do que quer que seja; mas sucede aqui à minha imaginação o que Jules Scaliger diz algures sobre a dilatação e a contracção dos anjos, que eles não podem estender-se até ao infinito, nem reduzirem-se a um ponto imperceptível; não obstante, quando reconhecemos ser Deus positivamente infinito, ou seja, existente em toda a parte, como vós fazeis com razão, não vejo como pudéssemos razoavelmente hesitar em admitir imediatamente que ele não está ocioso em parte alguma, mas que por toda a parte produziu matéria com o mesmo poder e com a mesma facilidade com que criou aquela na qual vivemos, ou antes aquela até onde se podem estender os nossos olhos e o nosso espírito.



Henry More



Não é também absurdo ou irreflectido afirmar que, se a extensão é apenas infinita quando quoad nos, ela será finita na verdade ou na realidade (16):

Quando dizeis «se ela é somente infinita em relação a nós, ela será realmente finita».

Isso é verdade, e acrescento, além disso, que é uma consequência muito clara e muito certa, porque a partícula somente exclui inteiramente toda a infinidade da coisa, que é dita infinita somente em relação a nós, e por conseguinte será uma extensão realmente finita, o que o meu espírito compreende perfeitamente, já que estou evidentemente certo de que o mundo é ou finito ou infinito, como disse acima.

Quanto à afirmação de Descartes de que a impossibilidade do vácuo resulta do próprio facto de o «nada» não poder ter propriedades nem grandeza, e em consequência não poder ser medido, More responde negando a própria premissa (17):

Porque se Deus aniquilasse o Universo, e criasse um outro a partir do nada muito tempo depois, este intermundo ou esta privação do mundo teria a sua duração, cuja medida seria um certo número de dias, de anos ou de séculos. Há portanto a duração de uma coisa que não existe, duração que é uma espécie de extensão; e por consequência a extensão do nada, isto é, do vácuo, pode ser medida por anas (18) ou por léguas, como a duração do que não existe pode ser medida na sua inexistência por horas, por dias e por meses.

Vimos More defender contra Descartes a infinidade do mundo e chegar a dizer-lhe que a sua própria física o implica necessariamente.  Contudo, por momentos, ele próprio parece acometido por dúvidas. Está absolutamente seguro de que o espaço, ou seja, a extensão de Deus, é infinito. Afinal, é isso que quase toda a gente crê; entretanto, a infinidade espacial e a eternidade temporal aperfeiçoam-se rigorosamente e ambas parecem absurdas. Além disso, a cosmologia cartesiana pode ser conciliada com um mundo finito. Não poderia dizer Descartes o que aconteceria se alguém, sentado na extremidade deste mundo, cravasse a sua espada através da parede que o limita? Por um lado, evidentemente, a coisa parece fácil, porque não haveria aí nada que pudesse oferecer resistência, mas por outro lado a coisa parece impossível, porque não haveria lugar em que a espada pudesse ser cravada (19).

A resposta de Descartes a esta segunda carta de More é mais breve, mais seca e menos cordial do que a primeira. Sentimo-lo um pouco desapontado com o seu correspondente, que, manifestamente, não compreende a grande descoberta de Descartes, a da oposição essencial entre o espírito e extensão, e que persiste em atribuir a extensão às almas, aos anjos e até a Deus. Descartes afirma mais uma vez (20):

Por mim, não concebo nenhuma extensão de substância nem em Deus, nem nos anjos, nem na nossa alma; mas somente [uma vastidão de potência, ou uma extensão] em potência; de modo que um anjo pode proporcionar este poder [de extensão] tanto a uma maior como a uma menor parte da substância corpórea; porque se não houvesse corpo algum, eu não compreenderia também nenhum espaço a que Deus ou o anjo correspondessem pela extensão. Quanto a que se atribua à substância a extensão que apenas pertence à potência, esse é um efeito do mesmo preconceito que nos faz supor toda a substância e até mesmo Deus como decorrentes da imaginação.






Se não houvesse mundo, também não haveria tempo.

À afirmação de More de que o intermundium teria uma certa duração, Descartes replica (21):

Creio que implica contradição conceber-se uma duração entre a destruição do primeiro mundo e a criação do novo; porque se referirmos esta duração ou algo de semelhante à sucessão dos pensamentos divinos, isso será um erro do intelecto, não uma verdadeira percepção de qualquer coisa. Respondi já ao seguimento, ao observar que a extensão que se atribui às coisas incorpóreas convém somente à potência e não à substância, sendo essa potência somente um modo na coisa a que ela é aplicada, ao suprimirmos essa coisa extensa à qual ela correspondia não poderíamos compreender que ela fosse extensa.

Isso resultaria, com efeito, na introdução do tempo em Deus e, por conseguinte, em fazer Dele um ser temporal e mutável. Isso acabaria por negar a Sua eternidade, substituindo por ela uma mera sempiternidade, erro tão grave quanto o de fazer Dele uma coisa extensa. Porque em ambos os casos Deus arrisca-se a perder a sua transcendência, tornando-se imanente ao mundo.

É possível, sem dúvida, que o Deus de Descartes não seja o Deus cristão, mas sim um Deus filosófico (22). Nem por isso deixa de ser Deus, e não a alma do mundo, quem o penetra, o anima e o move. É por isso que, de acordo com a tradição medieval, Descartes mantém que a despeito do facto de que em Deus poder e essência se confundem - identidade que, para More, milita em favor da extensão real de de Deus -, Deus nada tem de comum com o mundo material. Ele é um puro espírito infinito, cuja infinidade é ela própria de uma natureza incomparável, única, não quantitativa e não dimensional, infinidade de que a extensão espacial não é uma imagem nem sequer um símbolo. Por conseguinte, não se deve dizer que o mundo é infinito, ainda que não seja necesário, bem entendido, encerrá-lo dentro de limites (23):

Mas repugna às minhas ideias determinar barreiras ao mundo, e a minha percepção é a única regra do que devo afirmar ou negar. É por isso que digo que o mundo é indeterminado, ou indefinido, porque não lhe conheço quaisquer termos, mas não ousarei dizer que ele é infinito, porque concebo que Deus é maior que o mundo, não em razão da sua extensão, que não concebo em Deus como já disse várias vezes, mas em razão da sua perfeição.

Descartes afirma, uma vez mais, que a presença de Deus no mundo não implica a Sua extensão. Quanto ao próprio mundo que, segundo More, ou é finito simpliciter ou infinito simpliciter, Descartes continua a recusar chamar-lhe infinito.

Todavia, seja porque está descontente com More, seja porque está a ser atacado e por isso é menos prudente, o certo é que renuncia praticamente à sua afirmação anterior, relativa à possibilidade de que o mundo tenha limites (ainda que os não possamos encontrar), e que, tal como havia feito com a ideia de vácuo, qualifica este conceito como absurdo e até mesmo contraditório. Rejeitando assim como destituída de sentido a questão relativa à possibilidade de cravar uma espada através da fronteira do mundo, escreve (24):

Repugna ao meu pensamento, ou, o que é o mesmo, implica contradição que o mundo seja finito ou terminado, porque não posso deixar de conceber um espaço para além dos confins do mundo, onde quer que os determine; ora um tal espaço é para mim um verdadeiro corpo. Em nada me embaraça que os outros lhe chamem imaginário, e que por conseguinte creiam o mundo finito, porque sei de que preconceito nasce este erro.






Ao imaginar uma espada que passe para além dos termos do mundo, provais que não concebeis o mundo como finito; porque concebeis como parte real do mundo qualquer lugar que a espada toque, se bem que deis o nome de vácuo à coisa que concebeis.

É raro que um filósofo tenha conseguido persuadir um outros: é inútil dizer que More não ficou convencido. Persistiu em crer do mesmo modo, «com todos os platónicos da antiguidade», que todas as substâncias, os anjos, as almas e Deus são extensos e que o mundo está, no sentido literal do termo, em Deus, exactamente como Deus está no mundo. More enviou então a Descartes uma terceira carta (25), à qual respondeu (26), e depois uma quarta (27), que permaneceu sem resposta (28). Não tentarei analisar aqui este suplemento de correspondência, porque ele trata sobretudo de problemas que, ainda que interessantes em si próprios como o do movimento e do repouso, são exteriores ao nosso tema.

Podemos dizer, em resumo, que vimos Descartes, sob a pressão de More, modificar um pouco a sua posição inicial. Daqui em diante, afirmar o carácter indefinido do mundo ou do espaço não significa, negativamente, que o mundo talvez possua limites que nós somos incapazes de determinar, mas equivale a declarar, de modo realmente positivo, que eles não existem porque seria contraditório admitir a sua existência. Mas ele não pode ir mais longe. É-lhe necessário manter a sua distinção entre a infinidade de Deus e a indefinibilidade do mundo, bem como a sua identificação extensão-matéria, se quer preservar a sua afirmação de que o mundo físico é objecto de pura intelecção e, ao mesmo tempo, objecto de imaginação - condição prévia da ciência cartesiana -, e de que o mundo, ainda que não possuindo limites, nos reenvia a Deus como seu criador e sua causa.

A infinidade, com efeito, sempre foi a característica ou o atributo essencial de Deus, sobretudo a partir de Duns Escoto, que apenas pôde aceitar a famosa prova a priori da existência de Deus de Santo Anselmo (prova renovada por Descartes) depois de a ter «colorido», substituindo o conceito de ser infinito (ens infinitum) ao conceito anselmiano de um ser tal que não pudéssemos conceber um maior (ens quo maius cogitari nequit). Portanto - e isto é particularmente verdadeiro quanto a Descartes, cujo Deus existe em virtude de infinita «sobreabundância da Sua essência», que lhe permite ser a Sua própria causa (causa sui) e dar-Se a Si mesmo a Sua própria existência (29) -, infinidade significa ou implica o ser, e até mesmo o ser necessário. Por isso, ela não pode ser atribuída à criatura. A distinção ou a oposição entre Deus e a criatura é paralela e perfeitamente equivalente à que existe entre o ser infinito e o ser finito (ibidem, pp. 118-125).


Notas:

(12) Correspondance..., p. 121; A.-T., p. 274.

(13) Ibid., p. 123; A.-T., p. 275.

(14) Deuxième lettre de H. More à Descartes, 5, III, 1649; Correspondance..., p. 131; A.-T., pp. 298 e segs.

(15) Correspondance..., p. 137; A.-T., pp. 304 e segs.

(16) Correspondance..., p. 137; A.-T., p. 305.

(17) Ibid., p. 135; A.-T., p. 303. A argumentação de More contra Descartes é uma reedição da de Plotino contra Aristóteles.

(18) Ana - antiga vara francesa equivalente a 1, 188m. (N. do T.).

(19) Ibid., p. 312; cf. supra, cap. II, p. 37.

(20) Correspondance..., p. 159; A.-T., p. 342.

(21) Correspondance..., p. 161; A.-T., p. 343.






(22) Essa foi, em todo o caso, a opinião de Pascal. Mas, apesar de tudo, o que pode ser o Deus de um filósofo senão um Deus filósofo?

(23) Ibid., p. 163; A.-T., p. 344.

(24) Ibid., A.-T., p. 345.

(25) Datada de 23 de Julho de 1649 (Oeuvres, vol. V, pp. 376 e segs.).

(26) Pelo menos, começou a escrever uma resposta - em Agosto de 1649 -, mas não a enviou a Henry More.

(27) Datada de 21 de Outubro de 1649, vol. V, pp. 434 e segs.

(28) É, na realidade, possível que, tendo-se apresentado a 1 de Setembro de 1649 na Suécia, onde morreu a 11 de Fevereiro de 1650, Descartes não tenha recebido esta última carta de Henry More.

(29) Cf. o meu Essai sur les preuves de l'existence de Dieu chez Descartes, Paris, 1923, e «Descartes after three hundred years», The University of Buffalo Studies, vol, XIX, 1951.