terça-feira, 16 de julho de 2013

Os Sete Pilares da Sabedoria (i)

Escrito por Thomas Edward Lawrence



A Esfinge e a Pirâmide de Queops (Egipto).

«Ao longo dos vinte meses em que Churchill deteve a pasta das Colónias - é a época em que o império alcança a sua expansão máxima -, o seu principal campo de acção foi o Médio Oriente, apesar da sua pouca competência para o mesmo. Manda criar de imediato o departamento especial, o Departamento para o Médio Oriente, no seio do Ministério das Colónias. Tanto para ele como para a Grã-Bretanha, o principal problema, na sequência da derrota do Império Otomano, e da atribuição de mandatos da Sociedade das Nações aos dois países colonizadores, é organizar naquela zona-chave do globo uma esfera de influências em que o poderio britânico seria preponderante, apoiando-se sobre dois pólos, a Palestina e a Mesopotâmia, e frustrando o mais possível as ambições francesas. Assim, o vasto espaço geopolítico que se estende de Gibraltar ao golfo Pérsico, passando por Malta, Egipto e o canal, seria rigorosamente controlado por Londres, com o apoio da Royal Navy e da Royal Air Force.

Nesta perspectiva, Churchill convoca, em Março de 1921, uma conferência no Cairo, com os responsáveis da região (arranjando tempo para pintar as Pirâmides, e depois para visitar Jerusalém). Para os assuntos árabes, recorreu ao coronel Lawrence, como conselheiro. Graças à audiência deste junto da dinastia Hachemita, a Mesopotâmia (a partir de então denominada Iraque), que, em 1920, fora varrida por uma sublevação, rapidamente reprimida, acolhe como rei o emir Fayçal - que faz figura de fantoche dos Ingleses - enquanto o seu irmão, o emir Abdallah, é colocado no trono da Transjordânia.

Na Palestina, pelo contrário, Churchill pisa um solo muito menos seguro. A sua concepção pessoal é a de um duplo dever frente aos Árabes e aos Judeus, de forma a conciliar, senão a reconciliar, os dois povos. Por um lado, ele reafirma oficialmente a adesão de Londres à Declaração Balfour de 1917, ou seja, à promessa de criar uma pátria nacional na Palestina; tal promessa, confirmando os direitos dos imigrantes judeus no país, provoca a fúria dos Árabes. Por outro lado, ele deixa os sionistas profundamente desiludidos, ao reconhecer os direitos dos Árabes palestinianos sobre a sua própria terra. É verdade que neste caso o secretário das Colónias se via confrontado com o problema da quadratura do círculo.


Finalmente, no sector do mar Egeu, Winston, em total desacordo com a política obstinadamente pró-Grécia de Lloyd George, e que, aliás, detesta os Gregos, vê na Turquia de Ataturk um pólo de equilíbrio para o Mediterrâneo Oriental, ao mesmo tempo que uma defesa contra a União Soviética e a ameaça bolchevique.

Quanto a África, cuja sedução nunca deixou de o influenciar, Churchill opõe a riqueza potencial do continente, cujas populações se comportam de forma tão sensata, aos espaços desérticos e agitados do Médio Oriente. Para dizer a verdade, ele não nutre simpatia alguma pelos Árabes. "Em África", declara ele, "a população é dócil e o território produtivo; na Mesopotâmia e no Médio Oriente, o território é árido e a população violenta. Com pouco dinheiro consegue-se muito em África, com muito dinheiro não se consegue nada na Arábia". Ao mesmo tempo, os seus preconceitos de cor e de raça, profundamente enraizados, levam-no a pensar na segregação num país como o Quénia, onde se deve proceder à separação de brancos (proprietários das boas terras), índios e negros, pois "os princípios democráticos da Europa não estão adaptados ao desenvolvimento dos povos da Ásia e da África" (Discurso frente à British Cotton Growing Association, Manchester, 7 de Junho de 1921: citado por Ronald Hyam, "Churchill and the British Empire", in Robert Blake W. Roger Louis, ed., Churchill, Oxford University Press, 1993, p. 174; discurso de 27 de Janeiro de 1922: citado por H. Pelling, Churchill..., op. cit., p. 267)».

François Bédarida («Winston Churchill»).



Os Sete Pilares da Sabedoria


"Lawrence da Arábia" (ver aqui).

A primeira dificuldade do movimento árabe consistia em definir quem eram os Árabes. Sendo um povo criado, o seu nome ia mudando de sentido lentamente, ano após ano. Outrora, um árabe era uma pessoa natural da Arábia. Havia um país chamado Arábia; mas nada tinha a ver com o caso. Havia uma língua chamada árabe; e aí residia a dificuldade. Era a língua corrente da Síria e da Palestina, da Mesopotâmia e da grande península a que se chama Arábia nos mapas. Antes da conquista muçulmana, essas zonas eram habitadas por diversos povos, que falavam línguas da família arábica. Chamámos-lhes Semitas, mas (como sucede com a maioria dos termos científicos) incorrectamente. Contudo, o arábico, o sírio, o babilónico, o fenício, o hebreu, o aramaico e o siríaco eram línguas aparentadas; e os sinais de influências comuns no passado, ou mesmo de uma origem comum, eram reforçados pelo conhecimento de que o aspecto e os costumes dos actuais povos de expressão árabe da Ásia, embora tão variados como um campo de papoilas, tinham uma semelhança regular e essencial. Poderíamos, com absoluta propriedade, chamar-lhes primos - e primos sem dúvida conscientes, ainda que tristemente, do seu parentesco.

As zonas de expressão árabe da Ásia, neste sentido, constituíam mais ou menos um paralelograma. A face norte partia de Alexandreta, no Mediterrâneo, atravessando a Mesopotâmia, para oriente, até ao Tigre. A face sul era o contorno do oceano Índico, de Adem a Muscat. A ocidente era limitado pelo Mediterrâneo, o canal de Suez e o mar Vermelho até Adem. A oriente, pelo Tigre e pelo golfo Pérsico até Muscat. Este quadrilátero de terreno, tão grande como a Índia, constituía a pátria dos nossos semitas, onde nenhuma raça estrangeira se fixara em permanência, embora os Egípcios, os Hititas, os Filisteus, os Persas, os Gregos, os Romanos, os Turcos e os Francos o tivessem tido por diversas vezes. Todos tinham acabado por ser dominados e os seus elementos esparsos submersos pelas fortes características da raça semita. Os Semitas forçaram por vezes a saída para o exterior desta área, tendo eles próprios sido submersos pelo mundo exterior. O Egipto, a Argélia, Marrocos, Malta, a Sicília, a Espanha, a Cilícia e a França absorveram ou obliteraram as suas colónias semíticas. Apenas em Trípoli, na África, e no eterno milagre da Judeia, os semitas distantes da sua zona conseguiram conservar parte da sua identidade e da sua força.

A origem destes povos era uma questão académica; mas, para o entendimento da sua revolta, as suas diferenças sociais e políticas actuais eram importantes e podiam ser compreendidas pelo estudo da sua situação geográfica. O continente que eles formavam atravessava algumas grandes regiões, cujas imensas diversidades físicas impunham a diversidade de hábitos dos seus habitantes. A ocidente, o paralelograma era enquadrado, de Alexandreta a Adem, por uma cadeia montanhosa, chamada (ao norte) Síria, e a partir daí, progressivamente para o sul, chamada Palestina, Midian, Hejaz e, finalmente, Iémen. Tinha uma altitude média de cerca de novecentos metros, com picos de três mil metros e três mils e seiscentos metros. Estava voltada para ocidente, era bem provida de água da chuva e das nuvens que vinham do mar e, de maneira geral, estava totalmente povoada.




Uma outra cadeia de montes desabitados, voltada para o oceano Índico, formava o contorno meridional do paralelograma. A fronteira oriental era, a princípio, uma planície de aluvião chamada Mesopotâmia, mas a sul de Basra era um litoral plano, chamado Kuweit, e Hasa, até Gattar. Grande parte dessa planície era habitada. Esses montes desabitados e as planícies rodeavam um golfo de sedento deserto, em cujo coração existia um arquipélago de oásis providos de água e habitados, chamados Kasim e Aridh. Neste grupo de oásis ficava o verdadeiro centro da Arábia, a reserva do seu espírito nativo e a sua mais consciente individualidade. O deserto envolvia-a e conservava-a pura de contactos.

(...) Dado que os homens das tribos e os homens das cidades, na Ásia de expressão árabe, não eram de raça diferente, mas apenas homens em diferentes fases sociais e económicas, seria de esperar que houvesse semelhanças familiares no funcionamento das suas mentes, e, por isso, era perfeitamente razoável que surgissem elementos comuns no produto de todos esses povos. Logo de início, ao encontrá-los pela primeira vez, deparava-se-nos uma limpidez universal ou rigidez de crença, quase matemática na sua limitação e repulsiva na sua forma insensível. Os Semitas não tinham meios-tons no seu registo de visão. Eram um povo de cores primárias, ou, antes, de preto e branco, que via o mundo sempre em contorno. Eram um povo dogmático, que desprezava a dúvida, a nossa moderna coroa de espinhos. Não compreendiam os nossos problemas metafísicos, as nossas interrogações introspectivas. Só conheciam a verdade e a não-verdade, a crença e a descrença, sem a nossa hesitante série de tons menores.

Este povo era a preto e branco, não somente na visão, mas por íntima guarnição: preto e branco não apenas na claridade, mas na justeza. Os seus pensamentos só estavam à vontade nos extremos. Residiam em superlativos voluntariamente. Por vezes, os inconsequentes pareciam possuí-los simultaneamente em sentidos diferentes; mas nunca se rendiam: perseguiam a lógica de diversas opiniões incompatíveis até alcançarem fins absurdos, sem se aperceberem da incongruidade. Com a cabeça fria e um julgamento tranquilo, imperturbavelmente inconscientes da fuga, oscilavam de assimptota em assimptota (1).


Eram gente limitada, de mente estreita, cujos intelectos inertes jaziam em pousio, numa negligente resignação. A sua imaginação era viva, mas não criativa. Existia tão pouca arte árabe na Ásia que quase se poderia considerar inexistente, embora as suas classes superiores fossem patronos liberais e tivessem encorajado todos os talentos, na arquitectura, ou na cerâmica, ou noutras artes, que os seus vizinhos e hilotas manifestassem. Também não se dedicavam a grandes indústrias; não tinham organizações relacionadas com a mente e o corpo. Não inventaram sistemas filosóficos, nem mitologias complexas. Orientavam o seu curso entre os ídolos da tribo e da caverna. Sendo o menos mórbido dos povos, tinham aceitado o dom da vida incondicionalmente, como sendo axiomático. Para eles era uma coisa inevitável, vinculada ao homem, um usufruto, algo sem controlo. O suicídio era algo impossível e a morte não era um desgosto.

Eram um povo de espasmos, de convulsões, de ideias, a raça dos génios individuais. Os seus movimentos eram tanto mais chocantes quanto contrastavam com a humanidade da sua multidão. As suas convicções eram ganhas por instinto, as suas actividades intuitivas. A sua maior produção era de credos: quase tinham o monopólio das religiões reveladas. Três desses esforços tinham-se tornado estáveis entre eles: dois deles tinham sido mesmo exportados (em formas modificadas) para povos não semitas. O cristianismo, traduzido para os espíritos diversos das línguas grega e latina e teutónica, conquistara a Europa e a América. O islamismo, com diversas transformações, estava a sujeitar a África e partes da Ásia. Ambos eram êxitos semitas. Os fracassos, guardavam-nos para eles próprios. As fronteiras dos seus desertos estavam semeadas de credos falhados.


Era significativo o facto de este naufrágio e religiões falhadas se encontrar no ponto de encontro entre o deserto e os terrenos plantados. Explicava a geração de todos esses credos. Eram afirmações, não argumentações; por isso necessitavam de um profeta para as espalhar. Os Árabes diziam que tinha havido quarenta mil profetas: nós conhecemos, pelo menos, algumas centenas. Nenhum deles viera do deserto, mas as suas vidas seguiam um padrão determinado. O seu nascimento situava-os em lugares superpovoados. Uma ânsia apaixonada e ininteligível arrastava-os para o deserto. Aí viviam durante maior ou menor tempo em meditação e abandono físico; e daí regressavam com a mensagem imaginada e já elaborada, para pregar aos seus antigos, e agora duvidosos, companheiros. Os fundadores dos três grandes credos cumpriram este ciclo: a sua possível coincidência transformou-se em lei pelas histórias das vidas paralelas de miríades de outros, os infelizes que fracassaram, que não devemos considerar de profissão menos verdadeira, mas para quem o tempo e a desilusão não se tinham ainda acumulado nas almas secas, prontas a serem incendiadas. Para os pensadores da cidade, o impulso em direcção a Nítria foi sempre irresistível, provavelmente por não encontrarem Deus a morar aí, mas porque, na solidão, ouviam com maior certeza o mundo vivo que tinham levado com eles (in «Os Sete Pilares da Sabedoria», Publicações Europa-América, 2004, pp. 33-34 e 38-39).


(1) A metáfora da oscilação «de assimptota» teve origem na conversa com um amigo que me disse que tinha aplicado, por engano, o termo «assimptota» para designar as curvas da hipérbole.

Continua

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A existência do PCP é uma ameaça à liberdade dos Portugueses (ii)

Entrevista a Orlando Vitorino






«(...) A democracia não é um feitiço. É um meio destinado a salvaguardar a paz e a liberdade individual. Não é, como a liberdade, um fim em si mesma. E não podemos esquecer que tem havido, por vezes, muito maior liberdade sob regimes autocráticos do que em algumas democracias. O governo democrático de uma maioria doutrinada e homogénea conduz inevitavelmente à ditadura pois a ditadura é essencial à realização de qualquer planeamento centralizado».

Orlando Vitorino («Escola Formal», n.º 3).



A ÚLTIMA OPORTUNIDADE DA DEMOCRACIA


C.P. – O emigrante a quem tudo se pede, continua à margem da eleição presidencial. Concorda?

O.V. – É impossível concordar. Seria conveniente conhecer os motivos que levaram os Partidos políticos a marginalizar assim os emigrantes. Os que apresentam estão longe de ser convincentes e antes levantam a suspeita de que o verdadeiro motivo foi o medo do voto do emigrante. Esclarecido, nas terras por onde anda, sobre o que é o socialismo e estando longe do alcance da manipulação eleitoral, o emigrante tende a dar o seu voto a um candidato anti-socialista, a um candidato liberal, que afirme e defenda o direito de propriedade, de cada um ser dono do que é seu, da sua terra, do seu salário, da sua poupança. Entre os candidatos, serei eu o mais prejudicado com a marginalização do emigrante.

C.P. – Parece-lhe possível que este povo já tão massacrado por impostos, desiludido com as promessas dos políticos e a constatar que são bem limitados os horizontes imediatos, se motive para uma campanha eleitoral?

O.V. – Uma candidatura que se proponha diminuir os impostos ou, até, como a minha, reduzi-los aos impostos indirectos, que limite os poderes do Estado e, acabando com a remuneração dos deputados e os monopólio partidarista da representação popular, acabe com a orgia em que tem vivido a classe política, parece-me ser a última oportunidade a oferecer ao eleitorado e, por conseguinte, à democracia.


MÁRIO SOARES: A SIMPATIA DA INGENUIDADE


C.P. – Sá Carneiro foi o primeiro-ministro da esperança deste país. Quanto a Mário Soares, um primeiro-ministro que fecha o socialismo na gaveta e tem prática de direita, como classifica a sua gestão?

O.V. – A esperança que suscitou Sá Carneiro proveio de ele se ter feito acreditar como um inabalável anticomunista e ter demonstrado que conhecia o mal que o comunismo é. Chegou a esse conhecimento ao fim de uma carreira de concessões (nunca negou ser socialista), mas nunca mostrou conhecer o erro que o comunismo também é e donde deriva aquele mal. Onde há um mal, há um erro que o precede.




Quanto a Mário Soares, parece-me ser ele um típico caso do socialista que se quer manter socialista para aquém do fracasso do socialismo em toda a parte. Os teorizadores neoliberais marcam o ano de 1946 como a data do fim do socialismo, a data em que deixou de haver dúvidas quanto à impossibilidade de a doutrina socialista alcançar algum êxito em qualquer domínio. Para se manter, mas como um «cadáver adiado», o socialismo esvaziou-se de todo o conteúdo que lhe é próprio e, conservando a velha designação, foi adoptando as teses dos adversários. Mário Soares é um caso típico desta situação, mas como não tem a consciência e o saber dela, vai-a revelando em acções e expressões ingénuas como isso de «ser da esquerda e fazer política de direita», de dizer que vai «meter o socialismo na gaveta», ou que «vamos, então, governar à Thatcher». É esta ingenuidade que faz dele uma figura simpática. É bom que um governante seja simpático; é muito mau que seja ingénuo.


ALTINO DE MAGALHÃES: A SIMPATIA DA INGENUIDADE


C.P. – Firmino Miguel, ao deixar que o seu nome fosse ventilado como candidato a Belém e depois recuou, teve uma atitude que para si é significativa de quê?

O.V. – As Forças Armadas têm, entre nós, a sua imagem e o seu prestígio ligados à Chefia do Estado. E para que a sua imagem esteja conforme ao prestígio que não querem, nem podem, perder, consideram necessário que o seu representante na Chefia do Estado – erradamente designada por Presidência da República – seja um militar que, além de uma carreira exemplar e uma figura impoluta, esteja isento de quaisquer compromissos ou ligações anteriores com sectarismos, partidarismos ou manobras políticas. Ora o General Firmino Miguel foi ministro em vários Governos e teve ligações com o PS e o PSD. É isso que explica o seu afastamento da candidatura a Belém e a sua substituição pelo General Altino de Magalhães.

C.P. – Olhando a história da 1.ª e da 2.ª Repúblicas a esmagadora maioria dos Presidentes foram militares. Será que agora se corta a tradição?

O.V. – Como V. reconhece, a presença de um militar na Chefia do Estado é uma tradição republicana. O que importa determinar é se essa tradição é ocasional ou se é inerente à estrutura e natureza políticas da nossa sociedade e, por conseguinte, ao destino e sobrevivência de Portugal e, ainda, à tranquilidade da existência colectiva. São os militares quem têm assegurado isto tudo? Só eles o podem assegurar? Deram os políticos civis provas de os poderem substituir? O espectáculo que esses políticos hoje nos estão fazendo ver e sofrer, não é mais uma demonstração da sua incapacidade? Não é perante esse espectáculo, um acto de patriotismo a candidatura de um militar?

COMPORTAMENTO DA JUVENTUDE É REFLEXO DO ENSINO


C.P. – A juventude sem trabalho, entregue à droga ou à prostituição, parece-lhe irrecuperável?

O.V. - O comportamento da juventude é o resultado e o reflexo da situação do ensino. Para modificar aquele comportamento é preciso modificar a situação do ensino. E esta situação só se modifica com a extinção da Universidade, como eu proponho, e consequente organização de todos os graus de ensino. Quanto à falta de trabalho ou emprego, ela só se resolve com um sistema que crie empregos reais e não empregos fictícios, como já lhe expus numa questão anterior. O que é preciso alcançar não é o utópico «pleno emprego», dogma socialista de cuja aplicação só resultam empregos fictícios que implicam o não pagamento de salários e, depois, o desemprego generalizado que tem os primeiros sinais na falta de trabalho para a juventude. O que é preciso alcançar é o «máximo emprego», ou seja, a procura efectiva de trabalho que dará empregos reais ao maior número possível de pessoas.





C.P. – Sempre haverá, então, desempregados?

O.V. – Sim. Mas constituirão eles aquela «taxa natural de desemprego» que há sempre em todas as sociedades e é um desemprego, digamos, insensível, nas sociedades prósperas: o desemprego dos que estão esperando a melhor oportunidade de se empregarem, o das mulheres que preferem entregar-se a tarefas domésticas, e o dos que, efectivamente, não encontram o trabalho que procuram. Estes últimos constituem, numa sociedade equilibrada, 3% do total dos trabalhadores.


O ESTADO É O GRANDE INIMIGO DOS PORTUGUESES


C.P. – É possível travar-se a corrupção e a economia paralela? Como?

O.V. - São dois fenómenos diferentes sem ligação entre si.

A corrupção que existe entre nós hoje, resulta dos gigantescos poderes de que o Estado se apossou e de eles estarem entregues a uma oligarquia, a chamada «classe política», que goza de largas imunidades e inexplicáveis impunidades (veja o caso da falta de declarações de bens que os políticos activos são obrigados por lei a fazer). Uma vez assegurados aqueles poderes e estas imunidades e impunidades, o convite à corrupção é uma tentação para muitos invencível. O único modo de acabar com a corrupção é, pois, o de reduzir os poderes do Estado e pôr termo à «classe política» que só existe porque os Partidos têm o monopólio da representação popular.

Quanto à «economia paralela», começo por lhe observar que é, essa, uma designação eufemística. A sua designação correcta é a de «economia clandestina». Quer dizer: uma economia cuja actividade se exerce à margem das leis estabelecidas, o que é condenável. Mas se observarmos que essas leis são contrárias aos justos direitos dos homens, como o direito de cada um ser dono do que é seu, trabalhar no que entender, produzir o que quiser, vender e comprar por livre contrato, não ver extorquidos pelos impostos os seus salários e os seus lucros, então a economia clandestina nada tem de condenável, é um factor de prosperidade que está compensando os Portugueses dos erros da política económica do Estado, uma luta pela liberdade contra a servidão que conta já com um milhão de combatentes. A isto nos trouxe o socialismo: os Portugueses têm no Estado o seu primeiro inimigo!


A solução está à vista. Fugindo aos condicionalismos injustos das leis erradas, a economia clandestina é a economia do mercado livre, do direito de propriedade e do dinheiro sem moeda falsa. É, portanto, a economia liberal. E é ela que, perseguida e ameaçada pelo Estado, dá trabalho a 1 milhão de trabalhadores, sustentando uma grande parte da população portuguesa. A solução, dizia eu, está à vista: instaurando o liberalismo, essa economia imediatamente deixa de ser clandestina.

C.P. – Enquanto uns não recebem ordenado ou ganham mal, outros, como os jogadores de futebol, têm chorudos ordenados, da ordem das muitas centenas. Situação para disciplinar?

O.V. – É evidente que os jogadores de futebol, como qualquer trabalhador, tem o direito justíssimo de receberem remunerações, mais elevadas ou mais baixas, que o mercado lhes oferece por aquilo que produzem ou vendem. O facto de haver pessoas cujo trabalho não é remunerado como o dos jogadores de futebol tem a mesma explicação, que se integra no mesmo direito. O que é inexplicável são as remunerações atribuídas fora das leis do mercado, como aquelas que os deputados se atribuem a si próprios (in ob. cit., p. 13).

terça-feira, 9 de julho de 2013

A existência do PCP é uma ameaça à liberdade dos Portugueses (i)

Entrevista a Orlando Vitorino




«Não é por eu propor a extinção da Universidade há dois séculos estatizada, denunciar o estado a que o ensino chegou e preconizar a sua substituição por escolas privadas de ensino superior... Não é por eu representar, nos limites da minha autoridade intelectual, a "cultura portuguesa" que a "cultura oficial", com seu bastião universitário, tudo faz para silenciar e destruir... Será, antes, por uma divergência de mentalidades: a deles formada no conformismo intelectual, recebida por atavismo social e familiar e tendo sua presença num magistério imobilizado nos quadros mentais que descem do iluminismo ao positivismo e deste ao marxismo... Será por esta divergência que, nas sessões que vou fazendo em escolas universitárias, se estabelece um ambiente de tensão como logo aconteceu na primeira, realizada na Faculdade de Direito de Lisboa.

O simples facto de eu ter começado por falar em conceitos jurídicos, logo se afigurou aos estudantes uma intrusão no domínio inviolável dos seus mestres e, por reflexo, uma ofensa a eles próprios. Mais tenso se tornou o ambiente quando lhes apresentei os conceitos, uma versão diferente da que haviam recebido nas aulas. E mais ainda quando deduzi, do conceito de Direito, uma crítica ao ensino da Faculdade. Com uma indignação que conseguiram conter, não entenderam como é condição de todo o autêntico ensino do Direito o ensino da Filosofia do Direito e, completamentarmente, o do Direito Romano, modelo inultrapassável de classificação, articulação e sistematização das formas jurídicas.

Esta sessão na Faculdade de Direito deu-me uma agradável surpresa; a de ter reconhecido, entre os assistentes, o romancista de temas africanos, Rego Cabral, que não via há muito tempo. E saldou-se por um êxito "político": os estudantes que me haviam convidado, dirigentes da Juventude Socialista, pediram-me "licença" para assinar a proponência da minha candidatura. Não votariam em mim - observaram - mas gostariam de me dar a sua assinatura. É a gestos destes que se costuma chamar a generosidade da juventude».

Orlando Vitorino («O processo das Presidenciais 86»).
 


A existência do PCP é uma ameaça à liberdade dos Portugueses


«A eleição do Presidente da República é o acto mais importante no funcionamento do regime democrático», afirmou o dr. Orlando Vitorino, candidato presidencial em declarações a «O Comércio do Porto».

Escritor e homem do Teatro, Orlando Vitorino, acentuou que a eleição «não pode ser tratada com leviandade» e que «candidatar-se alguém com o desígnio de dar que falar», de «desistir e negociar a desistência», é uma leviandade, uma atitude antidemocrática e, sobretudo, antipatriótica.

C.P. – Mas com a escassez de apoios que tem, V. acha que pode ir por diante, ir até ao fim?

O.V. – O apoio político que importa não é o dos Partidos, mas o do Povo Português. E, esse, têm-no as propostas que apresento, todas elas seriamente fundamentadas e susceptíveis de imediata aplicação: a substituição do socialismo, estafado, esgotado e falido, pelo liberalismo a que todos os povos prósperos devem a sua prosperidade; a extinção e substituição da Universidade do Estado com a concorrente organização de todo o ensino; a ilegalização do PC enquanto obstáculo à prosperidade e liberdade dos Portugueses; a abolição das «centrais sindicais» instrumentadas pelos Partidos e hostis aos trabalhadores. Dirão que se trata de uma alteração radical, mas é de uma alteração radical que os Portugueses precisam.



Bem sei que, ao falar de «apoios políticos», V. se situa no pequeno mundo da «classe política» e se refere aos Partidos. Eu observo-lhe que a eleição do Presidente da República tem de ser, no espírito da lei e por exigência da democracia, independente de apoios partidários. E necessário é que assim seja pois é evidente que um Partido que consiga eleger o seu candidato presidencial, consiga igualmente eleger a sua Assembleia da República e designar o seu Governo colocar-nos-ia perante uma ditadura a que poderão chamar orgânica, como Salazar chamava democracia orgânica ao seu regime, mas sempre seria uma ditadura.

C.P. – E quanto a apoios financeiros? V. já declarou que não dispunha deles.

O.V. – É essa outra das condições para a independência necessária a uma candidatura presidencial. Mas, essa, mais claramente do que a anterior, está consignada na lei eleitoral ao determinar que nenhum candidato pode dispor, na sua campanha, de mais de 2 500 contos. Informo-o de que estou disposto a requerer ao Tribunal Constitucional que essas determinação seja cumprida, rigorosamente cumprida e sem malabarismos contabilísticos e dever-se-á incluir no dispêndio de cada candidato a avaliação do espaço e tempo obtidos por ele, seja em manifestações de propaganda aparentemente promovidas por organizações juridicamente alheias à sua campanha, seja em órgãos de comunicação social controlados pelo Governo (caso, por exemplo, do recente apelo ao primeiro-ministro para que se candidate a P.R., apelo feito na RTP por uma «central sindical» no melhor estilo cesarista, o qual, além de punido severamente, terá de ser contabilizado, segundo os preços da publicidade, logo que o P.M. efectivamente se candidate).

A ASNEIRA É LIVRE


 C.P. – A sua conotação, já aparecida na comunicação social, com a extrema-direita, não rotula a candidatura de ultrapassada e alvo fácil de campanhas destrutivas?

O.V. – É evidente que essa conotação foi feita com intuitos destrutivos, o que é uma maneira de reconhecer a força da minha candidatura. Apareceu ela num órgão da Imprensa onde «a asneira é livre», como se verifica no título dessa publicação que, sendo um semanário, se designa por «O Jornal». Ao melhor vinho se pode colar o pior rótulo, que isso não engana aquele que o beber.

C.P. – Se fosse eleito Presidente, actuaria sobre o PC e a extrema-esquerda de que maneira?

O.V. – Como sabe, eu admito, nas propostas que acompanham a minha candidatura, a ilegalização do Partido Comunista. E fundamento-o em razões concretas e actuais. Em primeiro lugar, no facto – tantas vezes apresentado pelos primeiros-ministros – de que o PC exerce uma acção que só se destina a levantar obstáculos à nossa prosperidade económica. Em segundo lugar, no facto de o PC, sabendo já hoje que o comunismo é um erro antes de ser um mal, se constituir como uma organização, não de doutrina e propositura de um sistema político, mas de imediata acção e prática. Ora os Partidos existem para propor uma doutrina ao eleitorado, não para a pôr em prática sem a aprovação dos eleitores. A existência do PC é, deste modo, uma ameaça à liberdade dos Portugueses. E a sua ilegalização será uma medida que os governantes têm de considerar necessária – pois reconhecem e declaram que tal Partido é um obstáculo ao bom governo do nosso povo –, mas nenhum deles se atreve a propô-la por algum inconfessável motivo: velhas ligações, velhos compromissos, velhos temores e medos. Aliás, a «esmagadora» (como dizem os políticos esmagadores) maioria dos Portugueses, tendo conhecido e sofrido o erro e o mal do PC, deseja a sua abolição, e só o não manifesta expressamente porque os políticos não lhe dão oportunidade de o fazer e antes lhe transmitem as inibições que a eles os prendem. A minha candidatura oferece aos Portugueses a oportunidade e a possibilidade de votarem aquilo que desejam.

C.P. – É favorável ou não a uma revisão constitucional, não apenas no que concerne aos poderes presidenciais, como ao sector económico e leis laborais?

O.V. – A Constituição actual não é, em rigor, uma Constituição. É um código minucioso cheio de contradições e, até, de determinações anticonstitucionais como a de atribuir doutrinas económicas ao Estado. Toda a gente que tenha um mínimo de interesse público, tem de ser favorável a uma revisão radical da Constituição que é, aliás, um texto elaborado, ou imposto, em condições parlamentares inadmissíveis.


C.P. – Quando a CEE aceitar Portugal como seu membro efectivo e de pleno direito, haverá muitas falências em Portugal. Mesmo assim é favorável à adesão?

O.V. – A CEE constituiu-se com um carácter liberalista para restaurar a economia europeia destruída pela guerra. Esse carácter liberalista exprime-se no que é essencial à CEE: a abolição das fronteiras económicas, ou seja, o livre-cambismo que, já no século passado, deu origem à prosperidade da Inglaterra, dos EUA e do Ocidente em geral. Antes da CEE houve outras tentativas, como o Plano Marshall, que falharam por terem um carácter socialista, isto é, por assentarem na intervenção do Estado na economia. A sua inspiração liberal explica o triunfo relativo pois também foi muito condicionado o seu liberalismo. Acontece que uma parte dos países da CEE tem governos socialistas que fazem, portanto, uma política contrária ao liberalismo da organização. A adesão de Portugal só seria conveniente se, juntando-se ao actual Governo inglês, o nosso Governo contribuísse para travar a socialização que ameaça a CEE. Mas isso só seria possível com um Governo liberal e, entre nós, os Governos saem dos Partidos e os Partidos, por doutrina ou por actuação, são todos socialistas e parece não saberem ser outra coisa. De qualquer modo, se a CEE fosse plenamente liberalista, a falência de umas tantas empresas seria uma sangria saudável e teria imediatas ou até prévias compensações.


MÁXIMO EMPREGO, NÃO PLENO EMPREGO


C.P. – Que solução para os milhares de trabalhadores com salários em atraso?

O.V. – São duas, as vias de solução. Uma imediata, que é a de responsabilizar as empresas, na maioria públicas ou estatizadas, e não afastar dessa responsabilidade nem os homens de Estado, que é o capitalista dessas empresas, nem os respectivos gestores, sem hesitar em confiscar-lhes imediatamente os bens pessoais. A outra via é a de abandonar a economia socialista cujo «canto de sereia» é o «mito» do pleno emprego mas que só cria empregos fictícios geralmente destinados a escolhidos por filiação partidária. Aos empregos fictícios correspondem salários sem retribuição em trabalho produtivo, as empresas deixam de ter receitas suficientes e as vítimas são todos os trabalhadores, em primeiro lugar os que não têm cobertura política. Este fenómeno está estudado e descrito pelos doutrinadores neoliberais que, em complemento, demonstram como só a economia orientada pelas leis do mercado livre pode criar um «máximo de emprego» composto de empregos reais, não fictícios.

C.P. – Quanto ao monopólio da TV, aceita-o? Acha que a Igreja Católica deve ter um canal próprio de TV?

O.V. – Todo o monopólio estabelecido pelo Estado (e sempre os monopólios resultam da intervenção do Estado) é um mal, seja em que domínio for. Onde é o maior dos males é no domínio da comunicação social, do ensino e da cultura. O monopólio da TV só existe por aplicação das doutrinas socialistas. Num sistema liberal como o que eu proponho na minha candidatura – não há lugar para existirem monopólios. Nesse sistema, o Estado – ou o grupo de pessoas que detêm os poderes do Estado – nada tem a ver com a criação de Emissores de televisão, nada tem que os conceder, proibir, autorizar ou negar. Nada tem que fazer o favor de conceder ou não um «canal» à Igreja. A Igreja, como qualquer outra instituição, qualquer empresa ou indivíduo, têm o direito de dispor, não de um «canal» na TV do Estado (que deixará de existir), mas de montar a sua própria estação emissora.


CANDIDATO PARA GANHAR




C.P. – A dinâmica eleitoral, sobretudo a indefinição do CDS e a falta de estratégia do PSD, aponta já para uma mais do que provável vitória de Mário Soares. Juízo precipitado?

O.V. – Salvo casos excepcionais – a candidatura de um herói, por exemplo – não há democracia onde, antes das eleições, se possa dar como «mais do que provável» a vitória de um certo candidato. O facto de V. a dar como «mais do que provável» significa que a eleição do Presidente da República não é feita pelos eleitores mas por uma gente instalada no poder, que dá pelo nome de «classe política» distribuída em bom entendimento por quatro partidos, e que se entretêm em estratégias e intrigas, ou monta suas máquinas de manipulação eleitoral. Essa gente tem os seus jornais, a sua RTP, os seus dinheiros, as suas centrais sindicais e os seus chefes a quem servilmente serve: o que eles decidirem é o que a classe política transmite e o eleitorado votará. Como é possível admitir tal situação e chamar-lhe democracia? Como é possível deixarmos que, tranquilamente instalada nos poderes do Estado, sem atender a um protesto, essa «classe política» desdenhe todos os que estão fora dela, minoria de oportunistas, e são, afinal, os Portugueses? Como é possível que o fundista de um semanário fale dos três candidatos existentes (os que a classe política prepara) e ignore a existência de quatro candidatos independentes? E que o chefe de um partido vá mais longe ainda e diga existir apenas um único candidato?

C.P. – V. admite ganhar a eleição?

O.V. – Se não o admitisse, não me candidatava.

C.P.- Tem razões para isso?

O.V. – Sem dúvida. Digo-lhe apenas estas: num sistema estrangulado pelos Partidos e respectivas clientelas, e já abominado pela população, eu estou fora de tudo o que é «classe política»; num sistema saturado de socialismo – com 80% da economia estatizados e a crise cada vez maior, a vida cada vez mais difícil; com 30% do salário dos trabalhadores extorquidos pelos impostos; com o ensino degradado até ao estado de catástrofe nacional; com a existência, social e individual, controlada; e tudo sem uma réstia de esperança, de justiça e de liberdade (a não ser a de, num domingo de 4 em 4 anos, irmos votar nos deputados que eles escolheram) – neste sistema assim saturado, eu sou o único candidato que propõe, em termos muito concretos, a substituição do socialismo pelo liberalismo; num ambiente político em que predominam os oportunistas e carreiristas, e muitos deles já se preparam para fugir do barco e se acolherem ao liberalismo, eu apresento-me com uma comprovada autoridade que não vejo a quem possa cedê-la.


NUNCA O ESTADO ALARGOU TANTO OS SEUS TENTÁCULOS


C.P. – Como não há dinheiro, a cultura tem sido ignorada. Planos seus para o sector?

O.V. – Afirma V. que o Estado não tem dinheiro. Permita-me que lhe diga que não é bem assim. Nunca o Estado dispôs, entre nós, de tanto dinheiro: o do ouro e reservas esbanjados, o dos impostos de que não há memória terem subido a taxas tão altas, os dos sucessivos empréstimos do estrangeiro, o dos juros exigidos pela banca nacionalizada que quadruplicam o que sempre foi considerado agiotagem, etc. O que acontece é que também nunca o Estado alargou a tão longe os tentáculos da sua intervenção e não há dinheiro suficiente para cobrir os erros que faz. Afirma ainda V. que o Estado «ignora» a cultura. Permita-me que, também aqui, lhe diga que não é bem assim. O Estado nunca interveio tanto na cultura. Nunca, com tanto afinco, perseguiu o estabelecimento de uma «cultura oficial», uma cultura inteiramente institucionalizada, subordinada à orientação, à ideologia e aos interesses dos políticos e abafando todas as manifestações que possam aparecer fora dela, muito especialmente as de natureza individual. Nunca, por isso, se deram tantos prémios literários e científicos, se concederam tantos e tão elevados subsídios ao cinema, ao teatro, aos museus, à edição de livros, à investigação científica, ao jornalismo. O proteccionismo, o subsídio, o prémio prende quem o recebe e quem espera recebê-lo. Prende e cala. O servilismo atrai as mediocridades e instala-se.

Ora a obra de arte, de ciência, de pensamento, sempre que original ou criadora, é uma obra puramente individual; e a intervenção do Estado, formando uma «cultura oficial» absorvente e monopolizadora, impede, se não destrói, toda a manifestação original do talento individual e faz da vida intelectual de um povo uma desolação de repetições e psitacismos. É o que está acontecendo entre nós, é o que acontece em toda a parte onde o socialismo se instala. Isso explica que, observando esta desolação, muita gente se iluda, como V. se iludiu, julgando que o Estado «ignora» a cultura. Isso explica também que um grande artista francês, ao observar iguais resultados, no seu país, da intervenção do Estado na cultura, tenha concluído que «il faut décourager les arts».




Veja V. – para só considerarmos um caso – o que está acontecendo com o cinema. Nunca o Estado distribuiu tanto dinheiro aos produtores cinematográficos e nunca o nosso cinema desceu a um nível tão baixo. Os filmes que chegam a realizar-se (muitos dos subsidiados com muitos milhares de contos não chegam, com total impunidade, a ser produzidos) são, sem excepção, obras de puro infantilismo mental e esquematizadas, ainda por cima, como obra de propaganda política, em especial a do primário marxismo (ao dar notícia dos realizadores seleccionadas pelo IPC – uns dez entre setenta – para receberem os chorudos subsídios do ano passado, o jornal «Correio da Manhã» observava que, entre esses, uns não tinham até então produzido qualquer obra que os credenciasse, outros tinham produzido filmes que raiam a idiotia, mas eram, todos eles, conotados com o Partido Comunista; esta informação do «Correio da Manhã» não foi desmentida). Ora o que assim acontece com o cinema, acontece, ainda mais acentuadamente, no teatro; e acontece em todos os ramos da cultura, desde a edição de livros até ao jornalismo.

Questiona-me V. sobre planos da minha candidatura neste domínio. O quadro que lhe descrevi é indesmentível e eloquente. Dele resulta que só pode haver um plano: que o Estado deixe em paz a cultura, que a deixe entregue a quem ela pertence, aos que a fazem, aos que a vivem, aos que a actualizam. E acabar com todos os proteccionismos e financiamentos do Estado o qual, ao intervir na cultura, é como um elefante a passear sobre canteiros de flores (in Comércio do Porto, Suplemento, 19 de Maio de 1985, p. 12).

Continua

sábado, 6 de julho de 2013

Da ignorância à loucura

 Escrito por Olavo de Carvalho






O Globo, 23 de junho de 2001

Já assinalei mil vezes, em cursos e artigos, mas igualmente em vão em ambos os casos, esse traço inconfundível do leitor brasileiro atual, sobretudo universitário, que é a incapacidade de discernir entre a expressão de um estado emocional e a referência a um fato percebido. O que quer que um autor diga é interpretado sempre como manifestação de seus desejos, gostos, preferências, ódios e temores, e nunca como descrição adequada ou inadequada de um dado do mundo objetivo. Nos termos da teoria clássica de Karl Bühler, a linguagem é reduzida à sua função expressiva, com exclusão da denominativa. Isso configura nitidamente um quadro de analfabetismo funcional.

O que hoje se chama “ensino universitário” neste país consiste essencialmente na transmissão sistemática dessa incompetência às novas gerações. Se é verdade que a incapacidade de compreender o que se lê é um sinal de educação deficiente, então a quase totalidade da educação superior tal como praticada no Brasil deve ser condenada, simplesmente, como propaganda enganosa.

Esse estado de coisas não resulta apenas da “má qualidade”, genérica e abstratamente. Ele vem de um aglomerado de influências culturais bem ativas, constituído de marxismo gramsciano, psicanálise, relativismo antropológico, nietzscheanismo, desconstrucionismo, mais teoria dos paradigmas científicos de Thomas S. Kuhn. O sincretismo dessas influências, que hoje constitui a típica atmosfera ideológica do nosso ambiente universitário, tem sobre as inteligências juvenis um efeito embrutecedor e paralisante, agravado pelos cacoetes do vocabulário “politicamente correto” que se impõe como idioma obrigatório das discussões pretensamente letradas.

Cada uma dessas correntes, considerada individualmente, se caracteriza por ser uma hipótese limitada e provisória, elaborada dentro de categorias que só se aplicam a classes de objetos muito determinados e fundada numa base empírica muito estreita. Mas o efeito conjugado delas, na exclusão de quaisquer outras influências culturais de maior envergadura que pudessem relativizá-las e reduzir cada uma ao tamanho que lhe é próprio, é produzir no estudante uma falsa impressão de universalidade que lhe dá a ilusão de estar muito bem orientado no horizonte maior da cultura, justamente no instante em que suas perspectivas se comprimem até à medida do provinciano e do gremial.




Nenhuma dessas correntes, e muito menos a soma delas, tem a universalidade necessária para poder constituir a base de uma educação superior. Para quem já viesse do curso secundário com essa base, o estudo delas poderia ser útil, à guisa de tempero crítico e contrapeso relativizador. O que não se pode é admitir uma bagagem cultural constituída apenas de contrapesos ou uma alimentação constituída somente de temperos. É precisamente essa falsa bagagem e esse falso alimento que hoje formam a substância mesma da educação superior no país.

Quando me refiro a base, o que quero dizer é o conhecimento dos dados fundamentais da civilização e a aquisição de um quadro de referências histórico-cultural suficientemente amplo. Isto só se adquire pela absorção do legado grego, cristão-medieval, renascentista e moderno, de preferência encaixado no panorama maior das culturas antigas e orientais.

Na mente que possua essa base, aquelas modas culturais ingressam como acréscimos de detalhe que podem exercer um efeito vivificante sobre a visão do conjunto. Sem base, os detalhes, boiando soltos no vazio, acabam por constituir um “Ersatz” de totalidade, preenchendo com opiniões genéricas e frases de efeito o espaço que deveria estar repleto de conhecimentos positivos. A deformidade intelectual daí resultante faz da mente do estudante brasileiro uma caricatura grotesca da inteligência humana.

Caracterizam-na a completa falta do senso das proporções, a quase impossibilidade de distinguir entre forma e matéria, a ênfase obsessiva em detalhes de ocasião, a completa cegueira para as contradições mais patentes.

Um exemplo é a transformação que o relativismo sofreu ao tornar-se moda nos nossos círculos acadêmicos. Ele já não é mais aquela precaução elegante que buscava compensar a unilateralidade das afirmações mediante o reconhecimento da verdade ao menos parcial das suas contrárias. É um ceticismo ou negativismo militante, fanático, agressivo, irracional, que afirma peremptoriamente a inexistência de quaisquer verdades objetivas e tem um acesso de cólera sagrada à menor cogitação de que alguma talvez exista. Não há nada mais ridículo do que um relativista que se apega ao relativismo com fé dogmática e rejeita como tentação demoníaca a possibilidade de que alguma afirmação talvez seja menos relativa que as outras.


O efeito desse hábito sobre a inteligência é devastador. Não existindo verdades objetivas, a linguagem só pode ser compreendida como expressão de estados subjetivos - mas não ocorre jamais aos viciados nesse enfoque a idéia de que também sua apreensão dos estados subjetivos alheios não poderia, nesse caso, ser uma percepção objetiva mas somente a projeção dos seus próprios estados subjetivos. O alardeado “pensamento crítico”, em tais circunstâncias, torna-se apenas um tiroteio cego de imputações projetivas que se ignoram, até o ponto de que o “objeto” em discussão, reduzido a mero pretexto de afirmações da vontade, desaparece completamente de vista. A possibilidade de uma “argumentação” é aí evidentemente nula, e o único fator decisivo que condiciona a vitória ou derrota nas discussões é a maior ou menor capacidade de impressionar mediante uma “performance” psicológica mais exibicionista e mais insana, e por isto mesmo mais de acordo com as expectativas doentias da platéia.

O ambiente dessas discussões é evidentemente psicótico, e a aquisição desta psicose é hoje considerada não apenas um sinal de cultura, mas um requisito indispensável para o cidadão ser aceito como pessoa normal no ambiente universitário. A formação superior, nessas condições, consiste em passar da ignorância natural à inconsciência militante e desta à onipotência cega que culmina na loucura.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Oração

Escrito por Leonardo Coimbra



Oração de Jesus Cristo no Jardim de Gétsemani


«O pensamento criacionista é um pensamento humano e, portanto, em analogia com o Pensamento criador, é um pensamento diminuto. Ele mal se conhece a si mesmo; é, pois, prenhe de obstáculos. E, como tal, pergunta-se por um Pensamento criador e pode, inclusive, alcançar a "hipótese" da sua existência - intui a existência de um "Pensamento" que cria sem obstáculos, que se eleva a uma perfeita Síntese. Mas, no momento em que ele se propõe conhecer este "Pensamento", vê-se logo limitado por um "Irracional" inatingível em termos de razão humana. Deus é, portanto, esse "Irracional" - esse é o seu nome. "Irracional, porque incomensurável".

"A divisão faz aparecer o número fraccionário. A radicação o número irracional. E, com o irracional, aparece abertamente a ideia de infinito".

Esse "Irracional" apresenta-se, então, como a "ideia" de um incomensurável Infinito; incomensurável, porque não pode ser medido por qualquer fórmula, não pode ser esgotado por "conceitos" ou "acções já realizadas". Deus não se esgota num momento histórico, e não cabe em nenhuma "fórmula" transmutável, pronta para um idêntico resultado - assim, por exemplo, como uma "teoria da relatividade" ou uma fórmula H2O.

O espírito humano é activo, é criação, um incessante mobilismo - esse é o princípio que se impõe ao Criacionismo. Transportar, pois, o espírito humano para um "reino" fora deste mundo (como querem, a seu ver, os intelectualistas) é conhecer um "criado" inerte e imóvel. Aos "intelectualistas" opõe-se o "irracionalismo". Só este pode garantir a liberdade criadora da própria "criação". A "criação" é o "mar imenso e profundo da Vida"».

Miguel Spinelli («A Filosofia de Leonardo Coimbra»). 


«Ao fim de qualquer processo filosófico parece surgir sempre a mesma conclusão: as matemáticas são, de todas as ciências humanas aquelas em que melhor se espelha a mais alta teologia. Substituir a teologia pela metafísica, como fez o iluminismo, ou pela sociologia, como fez o positivismo, no quadro das ciências filosóficas, é impiedade que equivale a embaciar para sempre, o espelho da verdade. Assim interpretamos a admirável analogia que Leonardo Coimbra escreveu em A Alegria, a Dor e a Graça: "O matemático que dispensa a hipótese Deus é como o homem que, junto ao lume do carvão, dispensa o calor do solo"».

Álvaro Ribeiro («As Portas do Conhecimento: Matemática e Metafísica»).



Leonardo Coimbra


«...O problema de Deus é o problema do significado humano ou super-humano mais finito e do significado absoluto da moral. A consciência moral é um acidente humano, ou é a mais estranha realidade e essência? Eis o problema de Deus.

E só assim Deus pode existir sem eliminar as criaturas. De outra forma seriam as criaturas determinismos sem autonomia, máquinas tombadas da absoluta vontade divina. E, como o querer absoluto fora do saber e amar coincide com o capricho, as criaturas seriam caprichos divinos, o que equivale a dizer que não seriam. Eis os motivos por que à velha palavra demos um novo sentido.

A filosofia criacionista não recebe por acção exterior o motivo da inflexão da sua trajectória. Foi a dialéctica científica que a levou à pessoa, que a Arte conserva e engrandece. O pensamento, chegado ao seu foco, reflecte, e a pessoa ainda é a palavra da síntese filosófica.

Não precisamos de sobrepor à síntese objectiva uma síntese subjectiva. A realidade não se divide nas duas coisas - sujeito e objecto. O sujeito e o objecto são vagas anunciações da pessoa activa e livre tendo como instrumentos de acção os determinismos subordinados. A trajectória do pensamento científico inflecte-se naturalmente para a irredutível realidade - a pessoa».

Leonardo Coimbra («O Criacionismo: Síntese Filosófica»).


Oração


Eu adoro e temo o senhor meu Deus, porque Ele é doce e terrível.

Só Ele é: e tudo quanto existe assenta na sua mão poderosa.

Ele espalhou os mares sobre a face da terra e arremessou as montanhas para as alturas dos céus.

Ele pode apertar em sua mão, aniquilando-os, os mundos que uma vez dispersou pelo Espaço.

A voz do trovão e do relâmpago, os clarões da terra incendiada, as lavas que vomitam as feridas da terra, os ventos galopando cortantes, a terra tremendo em seus alicerces e os mares expulsos de seus leitos não custam um estremecimento à sua tranquilidade terrível.

Ele manda, e, no Espaço, os mundos chocando-se fazem um formidável dilúvio de fogo; Ele manda e dos mais profundos pélagos surgem os dorsos corcovados dos planetas; Ele manda e essas mesmas montanhas são poeira tombando de seus alicerces de granito.


O tufão cresce, avança sobre nós, torna em seus invisíveis braços as árvores mais gigantes e arranca-as como penugem de andorinha adormecida; sopra e das casas desmoronadas fogem espavoradas as cinzas do último fogo que reunira a família. Mas o tufão cresce ainda e não são os alicerces dos planetas que estremecem, é o Sol, imensa fornalha ardente que vomita farrapos de fogo maiores que os próprios mundos...

Cresce ainda e não são as cidades da terra e os seus milhões de habitantes que tombam à cólera de seu sopro, e não é o Sol que abre em chaga formidável seu manto de fogo, são os sóis, as nebulosas, os lumes e as monstruosas trevas do Espaço que se chocam e comovem levadas em seu sopro como o cadáver da gaivota na onda da tempestade.

Meu Deus, meu Deus, como é terrível a força do teu braço, como é terrível o assopro da tua cólera.

Não são os montes que saltam em suas bases de rocha, são os mundos que flecham em suas órbitas transviadas.

O caminho passa e quem sabe de que mundos mortos é a poeira que se lhe prende nos cabelos. Os pés do peregrino pisam na terra poeira de mundos mortos, apagados nas densas estepes das alturas.

A criação ri e o raio que lhe doira os cabelos e afeiçoa a boca é uma gota de sangue do nosso melhor Sol agonizante, e ó quantas faces cadavéricas, quantos mundos sem vida já não beijou essa gota de sangue que nos chega agora a cintilar oiro num sorriso de criança?

Meu Deus tua força é terrível e a cólera de teus olhos é mais cortante que o gume duma espada num campo de batalha!

O trovão que nos estala sobre a cabeça é um eco amortecido da tua voz justiceira, a língua de fogo que repassa e funde as rochas e os metais mais fortes é o reflexo apagado do teu olhar ardente"

Onde esconderá Senhor sua cabeça pecadora o homem que teu olhar procure?

- Caim, Caim, que é de teu irmão Abel?

E onde se sumirá Caim de ante a tua face?


Caim matando Abel


Os mundos estão na palma da tua mão, diante de tuas pupilas ardentes.

Mas não são eles, os mundos, obra da tua vontade soberana, não és o senhor deles?

Quem pode pôr barreiras no campo que te pertence? Não terá o oleiro o direito de partir, amassar e reamassar os barros que amodelou?

Os mundos são teus que neles se faça a tua indomável vontade misteriosa.

Mas as almas, Deus meu?

Flores do teu jardim que tua mão semeou na vida e que tua mão vem colher tão cedo...

Que vem fazer a Morte, que é esta vida, às sementes da vida eterna que são as almas?

Ascender na podridão a beleza desse instante?

A simples fosforescência no monturo?

Meu Deus, meu Deus, como são terríveis os caminhos da tua vontade!

E as sementes que são colhidas mal iam desenovelando a morte das criancinhas?

Que estranho cacto vermelho não será a chaga dum coração materno!

As crianças morrem para Deus ter anjos e os corações maternos ficam chagas de luz a gritar no Espaço!

Os mundos que são obra da tua mão omnipotente não te conhecem, ó que importa, pois que os arremesses num ou noutro sentido?

Mas as almas, meu Deus, conhecem-te e conhecem-se; ó para quê semear almas e vir colhê-las antes que abram, para reunir corações e dispersar cadáveres? (in Miguel Spinelli, «A Filosofia de Leonardo Coimbra», Braga, 1981, pp. 271-273).