quinta-feira, 9 de maio de 2013

O magistério de António Sérgio (i)

Escrito por Álvaro Ribeiro



«(...) António Sérgio era adverso às ditaduras militares (embora tivesse recebido militar educação na Marinha, educação essa por vezes transparecendo de sua certa rispidez de modos), mas, tal como outros muitos cidadãos, admitia a necessidade de uma Ditadura transitória, que pusesse ordem e devolvesse o país à Democracia. Esta díade explica porque, em tempo, conspirou (1927) contra a ditadura militar de 1926, distinguindo-se de Fernando Pessoa, que a defendeu no manifesto O Interregno. Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal, (1928); por outro lado, tal como os católicos, os monárquicos e republicanos prudentes, acreditou que o peso civil trazido pelo Professor Salazar à Ditadura, seria a promessa de um saneamento lúcido, com breve retoma das práticas democráticas. Bem analisadas as linhas e as contas, o que no pensamento político sergino emerge é uma União Nacional. Salazar estava informado do sentimento geral quanto à necessidade de uma "união" acima dos Partidos. E muitos acreditaram, só que, uma vez a "união" estabelecida, a sua remoção tornou-se impraticável. Pouco tempo depois, Afonso Lopes Vieira e Sérgio admitiam ter sido enganados e, com efeito, Sérgio tornou-se opositor a Salazar».

Pinharanda Gomes («A "Escola Portuense"»).


«... Em numerosos países, e em Portugal sem dúvida, a noção, o espírito, a finalidade dos partidos corromperam-se e as agremiações partidárias converteram-se em clientelas, sucessiva ou conjuntamente alimentadas pelo Tesouro. Findo o período romântico, ou até antes disso, que se segue às revoluções ditas liberais do começo do século XIX e em que os debates parlamentares revelavam com erudição e eloquência preferência pelas grandes aspirações nacionais, a realização partidarista começou a envilecer-se. Duvido se alguma vez representou o que se esperava; desde os meados do século passado até 1926 - em monarquia e em república - a vida partidária tem seus altos e baixos mas deixa de corresponder aos interesses políticos e distancia-se cada vez mais do interesse nacional. A fusão ou desagregação de partidos, as combinações políticas são fruto de conflitos e de paixões, compromissos entre facções concorrentes, mas nada têm que ver com o País e os seus problemas.

Aqui e além tenta-se regulamentar, moralizar, constitucionalizar a vida partidária. Tudo embalde. Um partido, vários partidos dispõem do poder - são governo; mas não se encontra, como poderia supor-se, relação concreta nem entre os actos de governo e os programas partidários nem entre os programas e as exigências da Nação. Nós chegámos aos últimos extremos na república parlamentar com 52 governos em menos de 16 anos de regime.

A única conclusão possível é que a fórmula partidária faliu e de tal modo que apregoá-la como solução para o problema político português não oferece o mínimo de base experimental que permita admiti-la à discussão. Mas pode ir-se mais longe e invocar para contra-prova a experiência de mais de vinte anos de política sem partidos, de política nacional simplesmente.

O espírito de partido corrompe ou desvirtua o poder, deforma a visão dos problemas de governo, sacrifica a ordem natural das soluções, sobrepõe-se ao interesse nacional, dificulta, se não impede completamente, a utilização dos valores nacionais para o bem comum. Este aspecto é para mim dos mais graves».

Oliveira Salazar («O Meu Depoimento», Discurso de S. Ex.ª o Presidente do Conselho, na Sessão Inaugural da II Conferência da União Nacional, no Porto, em 7 de Janeiro de 1949).


«....Com o cuidado e a segurança que lhe são peculiares, distingue José Régio como os nossos maiores "escritores de ideias", António Sérgio, Oliveira Salazar, José Marinho e Álvaro Ribeiro. Dos quatro, deve reconhecer-se que foi Álvaro Ribeiro que, sem os compromissos ainda muito literários de um, sem a distância classicizante e fria de outro, sem a nudez branca e fugidia do terceiro, conseguiu juntar, ao rigor lógico da expressão conceptual, o calor dos ritmos que asseguram a compreensão e seduzem a inteligência. Quem cotejar uma página de Álvaro Ribeiro com uma página de Leonardo Coimbra - aliás seu mestre e muito mais beneficiado do que ele em inspiração e imaginação - ficará surpreendido com a grande distância percorrida desde a prosa especulativa cheia de compromissos com as formas poéticas até à rigorosa expressão discursiva da filosofia. E quem, indo mais atrás, fizer o mesmo cotejo com as melhores páginas de um dos nossos pensadores do século passado, um Amorim Viana, um Cunha Seixas, um Antero de Quental, poderá concluir que os ensaístas contemporâneos realizaram, na história da nossa expressão linguística, uma alteração equivalente à que, no puro domínio literário, foi feita por Garrett, Camilo e Eça. É, todavia, isto que, no significativo empenho de exorbitarem a modalidade, na falta do sentido que dá o trânsito entre o possível e o real, por todos os meios se procura esconder».

Orlando Vitorino (prefácio in Stuart Mill, «Ensaio sobre a Liberdade»).


Orlando Vitorino


O magistério de António Sérgio


António Sérgio, pensador, ensaístico e crítico, desde muito novo começou a manifestar o seu talento de escritor. Dirigiu a revista Serões, colaborou em A Águia, publicou opúsculos na Renascença Portuguesa, dirigiu a revista Pela Grei, e trabalhou no Anuário do Brasil. Atraído a Lisboa pelos fundadores da Seara Nova (1921), com eles alinhou o autor dos Ensaios a colaborar na revista de doutrina e crítica, onde fixou tópicos de valência e vigência nos decénios seguintes (1).

A consulta documental dos primeiros números da Seara Nova será sem dúvida tarefa imprescindível a quem desejar entender inteira e perfeitamente a evolução da política portuguesa no decurso do século XX. Bem lograda a refutação do individualismo liberal pelo positivismo sectário dos fundadores da República Portuguesa, logo o socialismo dos doutrinadores de 1870 (Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins) readquiriu relevo na cultura das classes ilustradas, para gerar a opção, ou a luta, entre a forma ateísta ou sindical e a forma cristã ou corporativa, formas que constituíam os núcleos doutrinários de facções designadas por epítetos diferentes. A tese comum era efectivamente o primado do interesse social sobre o interesse individual, segundo uma dialéctica assaz conhecida por quantos leram os tratadistas.

Dirigida por um grupo de intelectuais, queremos dizer, de estudiosos e de escritores, a revista não escondia a sua repugnância perante a indigência mental dos deputados, senadores, ministros, directores-gerais e governadores civis que inesperadamente emergiam dos partidos políticos, então recrutados num eleitorado sem preparação cívica. A celebridade desses discursadores públicos, mantida pelos favores de uma imprensa periódica em que dominavam os autodidactas, diluiu-se no vago, como a de todos os prestígios efémeros. Fácil é entender, portanto, de quem era estudante universitário no quinto lustro deste século, e sequioso de uma cultura actualizada, o bem acolher a doutrinação de Seara Nova, como ideário propício de renovação da política nacional.






Ao contrário da revista A Águia, que subordinava a política à pedagogia, e a pedagogia à filosofia, a revista Seara Nova subordinava a pedagogia à política, o que concretamente se revela na obediência da escola à oficina, pela tese de que ao ensino compete antes de mais a formação de técnicos para as indústrias, factores de progresso económico, de acumulação de riqueza, de elevação do nível de vida. Em vez de pedagogia preferiam os colaboradores de Seara Nova escrever a palavra cultura. Deste modo abafavam a palavra filosofia, aliás inconveniente e incómoda numa sociedade positivista, porquanto parecia colidir com a crítica anticlerical e anti-religiosa, tão grata ao pensamento dos velhos republicanos.

Afastando-se da política ideológica, tal como fora concebida no século XIX, para a política técnica, menos atenta à cultura do homem do que à cultura da terra, e exibindo o que mais tarde se designou por sentido das realidades, os dirigentes de Seara Nova preocupavam-se com as habilitações profissionais dos portugueses, com a programação didáctica na sequência das disciplinas úteis, com a estruturação das escolas técnicas. Era assim confiada à pedagogia a função de dominar a psicologia, segundo um voluntarismo abstracto, muito adequado ao ideal utópico da escola única, quer dizer, em realizada ignorância da diferenciação natural dos temperamentos, dos caracteres, dos sexos e das idades. A educação liberal, no seu conceito de desenvolvimento e aperfeiçoamento de individualidades superiores à mediocridade social, foi desde logo refutada como adversa ao socialismo ateu e ao socialismo cristão.

António Sérgio, já em opúsculos editados pela Renascença Portuguesa, se manifestara afim desta tendência, mas começou a ver os seus méritos de pedagogista reconhecidos pelo grande público. Os seus ensaios razoados, lúcidos e diáfanos distinguiam-se na revista sobre os artigos de colaboradores diletantes e estetizantes, como sobrelevam sobre muitos sueltos de passionalidade agressiva, sectária e fútil. A pouco e pouco se enobreceu António Sérgio, como verdadeiro mestre na arte de discutir e de pensar, com inegável preceptorado sobre grande número de estudantes universitários.

António Sérgio filosofava sem aquela emotividade que os pensadores portugueses não consentem dissimular em seus escritos, sem aqueles lances de estilo que perturbam ou interrompem uma discursividade de propósito intelectual, mas que estabelecem a ponte fogosa entre o cérebro e o coração. A prosa doutrinal de António Sérgio não logrou todavia alcançar o ideal do universitário francês que expõe com luz fria um pensamento serenado pelo dever de ofício. Entre o ensaísmo e o polemismo, António Sérgio escreveu uma prosa viva e acidentada por tropos de ironia e lances de bom ou mau humor, os quais lembram por vezes certas expressões características das prosas civilizadas de Eça de Queirós.


Eça de Queirós


O que a mocidade estudantil mais apreciava neste escritor era a sua retórica, quer dizer, a sua argumentação racional de teoria clássica, oposta à argumentação romântica, mais exclamativa do que significativa. Seria este o momento de lembrar os teoremas de Euclides, se não tivéssemos de precisar que a dedução rigorosa da geometria euclidiana é também uma aplicação do espírito filosófico a uma ciência positiva, já que na Idade Antiga as ciências tomaram por modelo a filosofia, ao contrário dos tempos modernos em que a filosofia é dada como resultante dos progressos das ciências. Explica-se, assim, que o cartesianismo de António Sérgio levasse a esquecer o que é a retórica segundo Aristóteles.

Quanto à dialéctica, a qual, na acepção aristotélica, é a arte de anular a argumentação alheia, já António Sérgio nem sempre seguia as directrizes e as linhas da razão, e claudicava por vezes em quanto os escolásticos chamavam ignoratio elenchi. Na vivacidade do seu estilo contundente, embaraçava o adversário que desconhecia as regras do trívio, e vencia-o mais por artifícios de estilo do que pela análise metódica dos juízos alheios. Teses verdadeiras, a que estavam ligadas as tradições intelectuais do nosso povo, caíam sem que ninguém as soubesse defender dos golpes alegres que lhe eram atestados pelo ilustre polemista.

José Régio sofreu e aceitou a disciplina de António Sérgio. Ele próprio confessou em um escrito célebre: «Desde bem novo tive António Sérgio por um dos meus mestres portugueses no meu pequeno esforço, tantas vezes frustrado, por pensar clara e criticamente. Por tal o continuo a reconhecer hoje» (2). Verdade é essa que ainda em livro publicado em 1964, José Régio a confirma ao exaltar o mérito de António Sérgio que, em vários ensaios, se apresentou como intérprete do misticismo de Camões (3).

Se por crítico literário entendermos, não o periodista que sobrepõe ao título de cada artigo a tabuleta da secção «crítica literária», mas o escritor que sabe do seu ofício, isto é, julgar o livro alheio, segundo as normas filológicas, para determinar a estrutura, a norma e o valor que porventura cada obra respeita, poderemos dizer que António Sérgio foi um crítico literário da Lusitânia, Revista de Estudos Portugueses, dirigida por D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos e publicada de Janeiro de 1924 a Outubro de 1927. Nos dez fascículos dessa valiosa revista, criticou obras de Antero de Figueiredo, Manuel Múrias e outros mais, deixando esparsos por esses artigos muitos juízos sobre as principais figuras da nossa história literária.

Convém, todavia, rememorar que em 1925 eram tidos por maiores poetas Júlio Dantas, Eugénio de Castro e António Correia de Oliveira, por maiores prosadores Aquilino Ribeiro, Samuel Maia, Carlos Malheiro Dias, sem que o prestígio desses escritores deixasse na sombra o nome dos poetas Afonso Lopes Vieira, João de Barros e Cândido Guerreiro ou dos prosadores Henrique Lopes de Mendonça, Brito Camacho e Joaquim Manso. Floresciam também muitas escritoras cujos retratos e nomes ficaram registados em folhas mortas que o historiador poderá revolver, mas tal publicidade não significava mais do que gentileza, galanteio ou cortesia do espírito varonil para com as damas que aspiravam a imitar os homens no exercício da composição literária. Eram aqueles os escritores modelares, cujos livros editados por empresas que tinham seus escritórios perto do Chiado, lhes davam jus a serem consagrados pelos sócios correspondentes e efectivos da Academia de Ciências de Lisboa.



Júlio Dantas






Os ilustres escritores, que a imprensa periódica exaltava, eram apenas combatidos por certas tertúlias literárias que hostilizavam o gosto mundano e burguês da maioria dos letrados. Se a história e a crítica mais severas eliminaram os nomes dos escritores que chegaram a ser académicos, se o modernismo trocou a escala dos valores para situar outros já consagrados, não devemos confundir o que as modernas histórias da literatura de hoje nos narram com o que era ontem o panorama da opinião pública. De vinténio para vinténio, cada geração reage contra a geração antecedente, e pela leitura das revistas mais novas poderemos inferir quais os escritores que efectivamente exerceram preceptorado ou mestrado.

É um anacronismo julgar-se, por exemplo, que a geração do Orfeu, publicado em 1915, e da Athena, publicada em 1924, gozava já do crédito e da celebridade que veio a merecer quarenta anos depois, graças à vitória da estética modernista sobre as antecedentes escolas literárias. Em Portugal ninguém reconhece os valores culturais antes de passados dois vinténios sobre a sua revelação, pois é natural a dificuldade de modernizar e de actualizar de pais para filhos, e para netos, as normas e as estruturas da vida cultural. A história reconstituída para preconcebidos fins ideológicos de literatura, política ou religião é sempre uma modalidade de romance apologético.

A notoriedade de Fernando Pessoa, que não cessa de aumentar na cultura portuguesa, foi muito mais tardia do que, por exemplo, a de António Sardinha. Com efeito, já o autor de O Valor da Raça começava a ser ilustre em 1915,e conhecido do grande público no segundo decénio do século, enquanto o obscuro poeta dos heterónimos, sem livros publicados, só chegou a ser admirado, entendido e amado depois de em 4 de Fevereiro de 1935 haver publicado um notabilíssimo artigo no Diário de Lisboa. A profecia do advento de um Super-Camões, a ode ao Presidente-Rei e, enfim, a Mensagem, textos apontados e dirigidos por um engenhoso espírito de dedução cronológica, eram traços insuficientes para desenhar o perfil doutrinal do político aristocrata e do filósofo esotérico que só em nossos tempos está sendo visto em sua verdadeira dimensão espiritual.

A personalidade superior de Fernando Pessoa não era, nem mesmo entre os do Orfeu, conhecida pelo seu supremo valor de filósofo que só mais tarde foi reconhecido, pois o poeta bem sabia que a música, própria para encantar as almas, ou os animais, está ainda longe da altura profética das artes da palavra. A literatura portuguesa ainda não havia chegado à sua plenitude filosófica, prevista por Fernando Pessoa, e realizada culturalmente por influência da revista Presença. Antes de 1925 o público entendia que intelectuais eram só os letrados, e como tais desprezados pelos agitadores políticos, pelos legisladores utilitários e pelos burocratas mesquinhos, e sinal estatolátrico de aversão pela inteligência.

António Sérgio não deixou nos seus ensaios publicados em volume, nem nos artigos dispersos pelas revistas, vultoso testemunho de admiração por poetas como Mário de Sá Carneiro, Fernando Pessoa ou Raul Leal, enfim, sobre quaisquer dos escritores admirados do primeiro modernismo. O mestrado de Cesário Verde era olhado com indiferença, como o de um poeta menor, digno de comparação com António Nobre. É preferível, por isso, procurar nos escritos de crítica e polémica a designação exacta do nome dos escritores que mais impressionavam a opinião pública.

Reagindo contra uma literatura que então primava pela riqueza do vocabulário, no cultivo máximo do arcaísmo medievalista e do regionalismo provinciano, mas ao mesmo tempo toldada por uma obscuridade que não resistia à consulta dos elucidários, António Sérgio condenava o excesso das narrativas históricas e das descrições paisagísticas onde se exercitam os estilistas sem pensamento e sem arte. Estava então na moda o romance histórico, que mais rigorosamente devia ser designado por romance anacrónico, parecendo operar-se um regresso aos temas medievalistas de Alexandre Herculano, Almeida Garrett e Arnaldo Gama, com a invocação repetidora dos seus bardos e jograis, dos seus castelos feudais, de seus dramas de cortesãs e cavaleiros, das suas igrejas românticas, góticas e manuelinas, dos seus mosteiros e dos seus oragos, para exaltação de uma humildade e de uma piedade de tempos idos. Estavam também de moda a literatura regionalista, com mulheres do campo e homens das vilas, com suas superstições, seu fanatismo e sua crueldade, num quadro em que o humanismo naturalista aparecia temperado por um cristianismo mal traduzido, santeiro, benzedeiro, milagreiro, com suas alminhas do purgatório e terrores do inferno.


Armas da Sereníssima Casa de Bragança, após 1581.


António Sérgio procedeu a uma campanha saudável contra essa literatura livresca, essencialmente reaccionária e retrógrada, plena de secretas intenções políticas. Demonstrou que não basta evocar nem descrever, com particularismos de tempo passado ou de espaço exótico, para cultivar pelo sentimento de nostalgia, ou de saudade, a vontade de restaurar instituições já abolidas. A coroa, o trono, o paço, imagens ligadas à Casa Real ou à Casa de Bragança, simbolizaram conceitos que retomam perene actualidade, e compete ao monarquista inteligente reconhecer que, independentes da figuração transitória, há sempre Deus, há sempre Pátria, há sempre Rei.

António Sérgio anunciava que o essencial na obra de arte é a ideia, o ideado, o pensado, o dito, e por fim o significado ou o aludido, relegando para último lugar ou plano a indumentária de museu ou o cenário rústico. «O substancial - escreve António Sérgio em referência à literatura -, será sempre o psicológico, a pintura das paixões, a crítica da sociedade, os conflitos espirituais, a aspiração religiosa, e coisa de tal género: em suma, o homem em movimento, ou (menos mal ainda) o comentário do homem interior em movimento»(4). Esta observação visa directamente o teatro cuja dramatização filosófica, explicada por escritores como Pirandelo, Marcel e Sartre, se afasta do romance e da poesia.

Tal doutrinação mais filosófica do que filológica, era admirável nesse tempo em que a crítica literária era exercida por licenciados em direito, ou até por plumitivos sem qualquer curso superior, pelo que mal se esboçava ainda a exigência de pensamento especulativo entre as condições do exercício da literatura, sabido que no segundo quartel deste século XX se realizou inteiramente uma campanha cultural para tal fim. António Sérgio beneficiava de uma forte cultura clássica, e não é de estranhar que a nossa melhor crítica literária de fundamentação filosófica seja a de vincada tendência classicista. O crítico romântico, impressionista e modernista, variando de critérios conforme a obra que tem em presença, realiza na sua instabilidade doutrinal uma acção contrária à cultura, especialmente quando exprime a imaturidade mental dos adolescentes.

Os escritores que mais agradavam ao gosto público, antes de 1925, com novas formas de estilo, eram aqueles que se esforçavam por reagir contra o realismo ou o naturalismo da geração antiliberal de 1870, e se bem que que admirassem a arte de Eça, Fialho e Ramalho, procuravam continuar, aperfeiçoar ou superar o estilo dos mestres. Estavam os escritores do começo deste século imbuídos de um espírito estetizante em suas obras literárias que ainda imitavam de longe o estilo de Flaubert, Goncourt e Bourget, copiando galicismos às dezenas, sem consciência filológica do que há de intraduzível de idioma para idioma, e rejeitavam o ensinamento mais difícil de Anatole France, André Gide ou Paul Claudel. Tiveram mais apurado gosto linguístico os escritores que estudavam demoradamente a arte de Castilho, Garrett e Camilo, mas deliciavam-se com a riqueza vocabular, a sonoridade forte e as cláusulas rítmicas de uma prosa mais adequada à expressão de sentimento do que da inteligência.

António Sérgio acusava a nossa literatura da persistência de elementos românticos. Aconselhava portanto aos estudantes, aos aprendizes de literatura como aos aprendizes de filosofia, a lição dos clássicos, predominantemente dos franceses, não para imitação de estilo, de motivos e de assuntos, mas para habilitação intelectual na apreensão dos temas e problemas nossos contemporâneos.

Difícil se nos afigura, ainda hoje, estabelecer um conceito próprio de classicismo. Não nos poderemos deter na definição corrente, se bem que verdadeira, de que clássicos são autores estudados nas classes, e propostos por modelos nas escolas. Essa definição conduz a tomar os clássicos por sinónimos de académicos, e a identificar o classicismo com o academismo.

Opondo o classicismo ao romantismo, como fizeram certos escritores em França e António Sérgio entre nós, obtém-se apenas uma doutrina negativa da repressão das paixões pelas acções, da limitação da estética pela ética, ou da subordinação do individual ao colectivo. Se ascendermos, porém, ao pensamento helénico encontraremos superior definição. Nessa filosofia da arte, ou, simplesmente, nessa filosofia, o classicismo é muito mais a conjugação harmoniosa de dois ingredientes artísticos: o infinito com o finito, o indefinido com o definido, a matéria com a forma, a sensitividade com o intelecto, a obscuridade com a clareza.


Euclides (Escola de Atenas).


As qualidades do estilo de António Sérgio, a sua expressão clara, metódica, ordenada, atraíam os espíritos dos estudiosos que, fascinados pela solução lógica que o pensamento dava aos problemas da cultura, não se detinham a examinar a fundamentação e legitimação dos seus filosofemas. A cultura científica de António Sérgio é caracteristicamente referida a Euclides, Galileu e Newton, e consiste na transposição do necessitarismo, mecanismo e intelectualismo destes cientistas para o campo da filosofia moderna. Efectivamente são os escritores dos séculos XVII e XVIII os que costumava tomar como padrão literário e filosófico, conforme se revela ao longo de todas as citações, alusões e referências dos volumes dos Ensaios.

Convém ter presente que os pensadores de mentalidade cartesiana não podem dispensar-se de imaginar que o homem seja figurável ou representável por uma máquina, um esquema geométrico, um sinal numérico, em vez de considerar nele um indivíduo, um ente vivo, um organismo que age e reage espontaneamente. A mentalidade cartesiana domina e disciplina a instrução preparatória dos engenheiros da construção e da destruição, os quais dirigem os trabalhos na empresa, e regulamentam a condição social dos operários e dos obreiros. As instituições modernas são concebidas sobre modelos mecânicos, e a ficção jurídica apoia-se nas noções complementares de esforço, força e violência.

Este predomínio cartesiano da inteligência, ou intelectualismo, neutraliza as motivações masculinas e as motivações femininas da acção humana, representadas na acção voluntariosa e na paixão sentimental. A luta contra o romantismo, contra a revolução e contra a liberdade processa-se gradual mas vitoriosamente. Tal é o que o historiador demonstra ao expor a evolução secular da filosofia alemã (in A Literatura de José Régio, Sociedade de Expansão Cultural, 1969, pp. 86-96).


Notas:

(1) António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Augusto Casimiro, Câmara Reys, Ezequiel de Campos, Faria de Vasconcelos, Ferreira de Macedo, Jaime Cortesão, José de Azeredo Perdigão, Mário de Azevedo Gomes, Raul Brandão, Raul Proença, Sarmento Pimentel.

(2)  Leonardo Coimbra, Testemunhos dos seus contemporâneos, Porto, 1956, p. 27.

(3) José Régio, Ensaios de interpretação estética, Lisboa, 1964.

(4) Lusitânia, Fascículo I, p. 108.



José Régio

Continua

segunda-feira, 6 de maio de 2013

António Sérgio acaba às mãos de António Quadros

Escrito por Orlando Vitorino


«Assistiu António Sérgio ao sucessivo aparecimento de vários escritores marxistas que se dedicaram à chamada tarefa de revisão histórica e à divulgação dos respectivos resultados em termos de ensino liceal. O novo escol doutrinado a contradizer o velho critério do ensaísta, libertar-se-ia de preconceitos nacionalistas, mas seria, afinal, por sua vez guiado por mentores ou monitores ultrapireneicos, tanto aqueles que de longe nos enviam os livros e os ofícios, como aqueles que chegam até nós para exibirem a sua luzida e polida mediocridade. A pedagogia de António Sérgio, pela reforma de mentalidade, não lograva libertar os Portugueses de outra modalidade de demagogia.

Deve-se, portanto, a António Sérgio a tendência para depreciar os valores nacionais, não só os históricos mas também os presentes, analisados à luz de uma crítica fria. Este juízo sobre a existência, facilitou aos discípulos a formação de tropos severos e adversos à Pátria. Assim qualquer plumitivo pôde passar a dizer que os Portugueses eram incapazes de se governar bem, de promover as técnicas industriais e as técnicas educativas, de formar uma cultura própria, incapazes, como eram, de cultivar certos géneros literários como o romance, o teatro e o ensaio, enfim, adversários ou inimigos do Espírito».

Álvaro Ribeiro («A Literatura de José Régio»).


«Ser espectador de teatro é uma arte não sabemos se tão difícil se mais difícil do que a arte de ser actor ou dramaturgo.

(...) O teatro só é aqui. Não nos venham com a balela dos que viram teatro em Londres e Paris e, aí, sim! Aí, eles sentavam-se diante dos gestos de Sir Lawrence Olivier mais provincianos do que os alentejanos sentados diante dos gestos da Florbela ou mais cosmopolitas do que um secretário de embaixada sentado diante de coisa nenhuma como se estivesse sentado diante do mundo. Ora o espectador tem de se sentar na sua cadeira como um rei se senta num trono. Foi Goethe quem o disse, e é mesmo assim.

O teatro também não é, como os opiniosos pensam que devem pensar, uma arte para o povo, uma arte para toda a gente. Muito ao invés, é uma arte para reis, uma arte para minorias extremamente minorias e extremamente aristocratizadas. É muito mais árduo chegar a ser espectador de teatro, chegar a adquirir a aristocracia e a realeza do teatro, do que chegar a ser o actor que vem ao palco fazer as piruetas que nada significam. Foi Shakespeare quem o disse e nós sabemos que é mesmo assim».

Orlando Vitorino («Arte de Espectador», in Ensaio, Revista bimestral de cultura e opinião, dirigida por Francisco Moraes Sarmento, número um - Dezembro de 1980).



Orlando Vitorino


António Sérgio acaba às mãos de António Quadros


Têm mau agoiro as consagrações oficiais. Destinam-se, quase sem excepção, a exaltar homens de relativo e circunstancial valor ao suscitarem a reflexão e o balanço da obra que eles fizeram, levam a denunciar-lhes a efemeridade e marcam-lhes em geral o fim. Receio bem que seja isso o que está acontecendo com António Sérgio.

Digo que o receio porque me habituei, nos anos de juventude, a ver nele uma espécie de contraponto da vida espiritual portuguesa, qualquer coisa como o negativo de que o positivo carece ou, para empregar uma metáfora de que ele gostaria, uma espécie de mantissa no logaritmo; e também porque se me afigura muito provável que essa função contrapontística passe a ser desempenhada por gente muito inferior ao que António Sérgio foi, gente incapaz de respeitar as verdades e as realidades cujo saber ele, no mesmo acto de se lhe opor, ainda respeitava, admirava e invejava. A negatividade de António Sérgio muito nos ajudou, aos homens da minha geração, a valorizar isso mesmo que negava. Quando, por exemplo, Sérgio nos incitava a preferir a matemática à poesia, tentando iludir-nos dizendo que na matemática residia a mais íntima e alta poesia, ao que nos levava era a fortalecer o nosso culto pelos grandes poetas que ele detestava, por Nobre, por Junqueiro, sobretudo por Pascoaes e, depois, por Fernando Pessoa e José Régio, até tendo em conta que este último nunca deixou de nos recomendar o magistério de Sérgio. Quando, noutro exemplo, ensaiava desviar-nos dos caminhos abertos por Leonardo Coimbra e polemizava com Santana Dionísio e José Marinho, o que conseguia era levar-nos a descobrir como esses caminhos são os do verdadeiro pensamento e autêntica filosofia, caminhos muito mais fecundos e libertadores do que os dos seus ruminantes exercícios de «razão raciocinante». Quando, num último dos muitos exemplos que temos à mão, se desesperava em persuadir-nos de que uma nação não é mais do que uma sociedade e de que uma sociedade nacional não é mais do que uma empresa económica, o que obtinha era fazer-nos pensar a realidade espiritual das pátrias.

Foi no domínio da opinião, da opinião pública e vulgar por definição e, por redundância, opiniosa, que os exercícios raciocinantes de Sérgio encontraram fácil audiência e recrutaram dóceis e obedientes prosélitos. Devemos contudo fazer justiça a Sérgio reconhecendo que não era essa audiência e esse proselitismo que o satisfaziam. Tão depressa os via manifestarem-se logo exprimia o seu descontentamento que chegava a levar até à polémica com esses mesmos que, no fervor da obediência, correntemente a desenvolviam na adopção de uma ideologia, geralmente a marxista. Foi o caso de António José Saraiva que viu, estupefacto, como o tão falado «rigor racionalista» do seu mestre não era mais do que um «caprichismo polémico».


Aconteceu, todavia, terem sido esses triunfos opiniosos que ganharam a António Sérgio o prestígio de que gozou e o prolongamento desse prestígio num magistério que conseguiu perdurar, durante quatro decénios, entre as forças que, a partir da Guerra Mundial, acabaram por dominar a política, o ensino e a economia dos portugueses. O próprio salazarismo… (José Marinho muitas vezes acentuava a semelhança que havia entre o racionalismo de Sérgio e o de Salazar)… o próprio salazarismo adoptou e efectivou muito do que ele preconizava. Por exemplo: as prioridades de restauração nacional que enunciou no prefácio a uma edição de excertos de Oliveira Martins; ou a abolição do ensino do latim; ou a interpretação economista da História de Portugal, adoptada primeiro no ensino universitário e hoje alargada ao ensino secundário e até ao primário.

Tão esmagador foi este êxito opinioso, que as perorações racionalistas de Sérgio puderam sobreviver às irrefutáveis refutações que sofreram, seja nas críticas aos seus escritos (a de Jaime Cortesão, por exemplo, à sua doutrinação pedagógica), seja nas polémicas que gostava de provocar, em especial as que travou com Pascoaes, Malheiro Dias, Santana Dionísio e José Marinho, seja, por fim, na «desmontagem» definitiva que, em traços breves num contexto amplo, José Marinho e Álvaro Ribeiro fizeram do seu racionalismo «sem conceito de razão». E os políticos antiquados desta sempre juvenil 3.ª República ainda podem apresentar António Sérgio como seu doutrinador, seu pensador e até seu filósofo. Decidiram, neste ano do centenário do nascimento do autor dos «Ensaios», dar-lhe celebração oficial, com Comissão designada expressamente pela Assembleia da República que até hoje, vamos já em Maio, nada realizou. Ora é aqui que surge o tal meu receio de que, como todas as celebrações oficiais, também esta traga o mau agoiro de estar no fim a boa estrela de Sérgio.

O primeiro sinal do mau agoiro encontra-se no conjunto de depoimentos reunidos pelo semanário de literatura política «Jornal de Letras» e publicados, num dos seus últimos números, entre simpáticas notas biográficas, sentimentais memórias familiares e alguns poeirentos documentos políticos. Incidem os depoimentos sobre o que há «de melhor» na «filosofia» de Sérgio, sobre a sua «personalidade ímpar», sobre a semelhança entre ele e Herculano, sobre «o rigor do seu pensamento» e sobre «a modernidade da sua doutrina social». Vêm assinados, respectivamente, por Braz Teixeira, Piteira Santos, Agostinho da Silva, Castelo Branco Chaves e Natália Correia. Ora acontece que tais depoimentos ou são clara e cruelmente negativos ou estão longe de justificar o que de positivo apontam em Sérgio. Por exemplo: Natália Correia não se inibe de sublinhar, domínio onde é autoridade, a triste frustração das veleidades poéticas de Sérgio (a que poderia acrescentar as, ainda mais clamorosamente frustradas, veleidades teatrais); para as explicar, mais as afundando, denuncia o que há de «rígido» (ou de vazio?) no seu racionalismo; e para, depois de tais destroços, ainda salvar o náufrago, apresenta-o, domínio onde se lhe não conhece autoridade, como precursor de um neo-socialismo que vale tão pouco como o paleo-socialismo dos nossos partidos políticos. Outro exemplo: Agostinho da Silva depõe sobre a «teoria da história» (se assim lhe podemos falar) de António Sérgio e, no seu sempre admirável estilo de pensar e escrever, põe-se a sugá-lo no turbilhão joaquimita das suas, dele Agostinho da Silva, visões e mitos; para o fazer, tem de condenar radicalmente o introdutor da interpretação economista da nossa História afirmando que «os caminhos de Portugal serão os que se afiguram errados ou diferentes dos que ele próprio, Sérgio, tomaria».


Os depoimentos mais valorativos ainda são os de Piteira Santos e Braz Teixeira, homens de posições muito diferentes e até antagónicas. O primeiro nunca deixou de se firmar no que há de mais opinioso no sergismo, com seus coerentes desenvolvimentos marxistas; o segundo sempre se tem situado na linha leonardesca da «filosofia portuguesa», que Sérgio abominava. Piteira Santos fica-se – o que pode bem pronunciar que é o que ficará de toda a obra de Sérgio - em exclamações laudatórias. Braz Teixeira propõe – por um imperativo de razão compreensiva inadequado a um homem de razão judicativa como sempre foi Sérgio – uma série de sérias interrogações. As laudatórias exclamações do primeiro não são acompanhadas de qualquer mínimo fundamento: que «é ele, Sérgio, o maior pensador português de sempre»; porquê?; porque «foi ele, entre nós, quem criou o discurso ensaístico», argumento que, a ser aceite, poria fora do pensamento os maiores filósofos da História, desde Aristóteles a Hegel, desde Platão a Kant, desde Santo Agostinho a Leonardo. As interrogações de Braz Teixeira são movidas por qualquer coisa que não sabemos se havemos de chamar enigmática ou escolar. Começa B. Teixeira por reduzir António Sérgio a uma figura secundária no pensamento português contemporâneo, insusceptível de se comparar, num sentido, a Raul Proença, Leonardo e Pascoaes, noutro sentido a Álvaro Ribeiro, Delfim Santos e Marinho. As interrogações que depois propõe, caso obtivessem resposta, ainda o reduziriam a muito menos do que uma figura secundária. Braz Teixeira mostra saber que assim aconteceria pois justifica a sua proposta dizendo que é daquelas respostas que depende o futuro da «democracia que se afirmou agora constitucionalmente». Parafraseando aquilo do «há qualquer coisa de podre no reino da Dinamarca», diríamos que «há qualquer coisa de político na cabeça de Braz Teixeira».

Ao mesmo tempo que se publicam estes fúnebres depoimentos, apareceu um livro de António Quadros, «Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista», que inclui um longo capítulo sobre António Sérgio onde encontram resposta as interrogações de Braz Teixeira. O escrito de António Quadros não se ocupa apenas da polémica que António Sérgio travou contra o sebastianismo e o levou a extremos tais como o de chamar psicopatas e anémicos intelectuais a, entre outros, Pascoaes, Garrett, Oliveira Martins, Bruno, Fernando Pessoa e A. Nobre. Em parágrafos sucessivos, o escrito ocupa-se do «significado e sentido da sua obra» que conclui serem o de «prolongar e orientar os desejos de igualização pela mediocridade de uma burguesia desenraizada, céptica e materialista à procura de álibis para o seu pragmatismo de curto fôlego» e, bem assim, os de «instaurar uma censura interna, paralisar a autonomia intelectual dos indivíduos, transmitir o medo de transgressão aos novos tabus». Num segundo parágrafo, trata do racionalismo de Sérgio, mostrando como ele não é mais do que um «pseudo-racionalismo» ou, em rigor, um «voluntarismo maniqueísta». Num terceiro parágrafo, é do conceito de «uno unificante» que trata António Quadros. Talvez por o aproximar de um conceito a que José Marinho deu a mesma designação, Braz Teixeira vê nele o que pode «salvar» a «filosofia» de Sérgio. António Quadros mostra-nos como, em Sérgio, tal conceito se reduz àquela sinistra concepção do homem como «ser genérico» da qual, segundo a exposição feita na revista «Escola Formal», depende todo o marxismo e, até, todo o socialismo.




Boas razões tem pois o autor deste artigo para recear que este ano do centenário do fogoso plumitivo, com as suas comemorações oficiais, seja o ano em que se esvai a sua presença entre nós. Acontece, ironias do destino, que neste mesmo ano se completa também o centenário de Leonardo Coimbra que a «cultura oficial» esqueceu, desdenhou, ou, simplesmente, ignorou. Todavia, sucedem-se e multiplicam-se, desde o princípio do ano, reuniões de estudo da sua obra, conferências e colóquios. E uma empresa privada fez para Leonardo o que Piteira Santos pede que o Estado faça para Sérgio: a edição de todas as suas obras.

Assim o destino faz que a cultura acerte o passo com a verdade. Pessoalmente, uma indefinida tristeza me vem, todavia, de ver esvair-se a presença de António Sérgio…(in Ponto de Encontro, 16.6.1983, p. 8).

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A angústia do nosso tempo e a crise da universidade (ii)

Escrito por António Quadros






«A Universidade quer alijar as suas responsabilidades e serve-se, para isso, de todos os meios que lancem confusão nos espíritos: em vez de afirmações claras, insinuações vagas; em vez de argumentos, pretextos fúteis. No simples reconhecimento da responsabilidade de um acto está contido, ainda que virtualmente, um propósito de regeneração; mas quando não se tem consciência dessa responsabilidade, nada há a esperar. Um organismo que se considera irresponsável na sua própria decadência, só consegue revelar, com isso, a sua incapacidade de reacção vital, a impossibilidade de ser autónomo. Zeus quis perder a Universidade e dementou-a...

(...) E quando num país a Universidade deixa de ser o centro dinâmico da vida intelectual, o foco que ilumina toda a vida do espírito, reduto de límpidas consciências, fortes perante a adversidade, inflexíveis nos altos princípios de humanidade e justiça, com uma verdadeira compreensão do seu papel social e das suas responsabilidades, para se tornar uma causa de inércia, uma fogueira que em vez de chama viva produz cinza e fumo, uma caverna lôbrega onde o arbítrio, a iniquidade e o conformismo medram, onde se forjam todos os atentados contra a vida espiritual da Nação, só há um caminho a seguir: suprimi-la».

A. Lobo Vilela («A Universidade falou!...», 1933).


«O mais profundo acontecimento político dos últimos seis anos foi, em Portugal, uma entrevista em que Braz Teixeira, como Secretário de Estado da Cultura, declarou que "o maior inimigo da cultura portuguesa é a universidade".

(...) O teatro leva-nos a tudo. Até a mostrar-nos que não é só em Portugal e agora que, como diz Braz Teixeira, "a universidade é a maior inimiga da cultura". No séc. XVI, em Inglaterra, um professor da Universidade de Londres, com o apoio dos seus colegas, requeria à rainha que proibisse um certo dramaturgo de escrever peças de teatro. O dramaturgo chamava-se William Shakespeare».

Orlando Vitorino («A Arte das Minorias», in Ensaio, Revista bimestral de cultura e opinião, dirigida por Francisco Moraes Sarmento, número de Fevereiro e Março de 1981).


«Lisboa, 1 de Junho [de 1967] - Sessão na Academia Internacional de Cultura Portuguesa. Homenagem a Gilberto Freire, a quem entreguei a Grã-Cruz de Cristo em nome do Presidente português. Gilberto Freire mal consegue esconder a sua avidez de homenagens, honrarias, elogios, condecorações. Apenas se sentirá feliz, ao que parece, se homenageado de quarto em quarto de hora. Como a idade pode anuviar pessoas!».

Franco Nogueira («Um Político Confessa-se»).


«Foi em 1898 - quase há 100 anos - que o filósofo e doutrinário portuense Sampaio Bruno publicou o mais amplo estudo até hoje entre nós escrito sobre o pensamento brasileiro.

Decerto, o seu objectivo principal era analisar e refutar a filosofia positivista, cá e lá então em maré alta, antes focando a obra dos pensadores no Brasil adeptos de Augusto Comte ou de Littré, do que, talvez para não os ferir, a dos seus correligionários republicanos, como em especial Teófilo Braga ou Júlio de Matos.

O seu livro "O Brasil Mental" ultrapassa no entanto aquele propósito, pois, ao mesmo tempo que aprecia inteligentemente a obra dos filósofos dominantes no Brasil da época, tais Tobias Barreto, Sylvio Romero, Lycurgo Santos, Araripe Junior ou Luis Pereira Barreto, aproveita para expor a sua posição crítica perante o positivismo, por ele considerado uma filosofia para preguiçosos intelectuais e um traço passado por sobre a ontologia, ou também para nos deixar alguns traços de filosofia da história portuguesa e do clima das relações culturais luso-brasileiras.




Nem sempre as suas posições neste último aspecto parecem hoje acertadas. É no entanto significativo que, lembrando o Parecer sobre o projecto de pacto federativo fundamental entre o império do Brazil e o reino de Portugal, escrito em Paris em 1825 por Silvestre Pinheiro Ferreira - grande filósofo e diplomata que viveu no Brasil entre 1809 e 1821, adstrito à corte de D. João VI - haja Bruno escrito que, mau grado tais desejos terem tido em Portugal representação constante, ao contrário, nós, portugueses, no Brasil seríamos rejeitados.

Assim, se quiséssemos pugnar por uma aproximação cultural por um entendimento recíproco, teríamos de ir sós. Vale a pena transcrever a passagem completa no referido livro (p. 81):

"Na derrocada de todo um desenvolvimento histórico pervertido, sim, vamos trabalhar, isto é, vamos combater! Mas, infelizmente, trabalhando ou combatendo, teremos de ir sós. Não se cuide que os nossos irmãos d'além-Atlântico connosco se queiram acamaradar. Ao contrário, enjeitam-nos. A nossa companhia repugna-lhes".

Não sei nem interessa muito saber se Bruno à época tinha razão ou se exagerou polemicamente, talvez ferido por certas afirmações de nacionalismo brasileiro no sentido de uma cisão, até cultural, com a nação lusitana. Efectivamente, citando um pouco adiante algumas afirmações radicais de grandes personalidades, da estirpe de um Tobias Barreto ou de um Joaquim Nabuco, reincidia no seu pessimismo, assim escrevendo (p. 96): "É incontestável. O Brazil não quer nada connosco".

Tinha razão Sampaio Bruno? Não o creio. O autor de "A Ideia de Deus" tomou quanto a mim um momento da cultura brasileira na sua vida orgânica, pelo todo de um movimento mais amplo, transcendente aos radicalismos cujos exemplos, como hoje o de um Afrânio Coutinho, se vão tornando cada vez mais esporádicos e pouco significativos.

(...) Foi num dos almoços literários das quartas-feiras, organizados pelo editor José Olympio, que Guimarães Rosa, um dos maiores prosadores e romancistas de língua portuguesa, sentado ao meu lado, me confiou, o que foi ouvido por Manuel Bandeira: "os críticos julgam que o meu estilo é todo inventado, porque não sabem quanto me inspiro nos clássicos portugueses, sobretudo em Fernão Lopes". Vai longe o tempo em que Tobias Barreto sentenciava categoricamente (dizia com indignação Sampaio Bruno) que Alexandre Herculano não sabia escrever (p. 90 do livro citado)!».

António Quadros («A Filosofia Portuguesa, de Bruno à Geração do 57, seguido de o Brasil Mental Revisitado»).


«Com o seu inesgotável talento, aparentemente conciliador mas intimamente revulsivo, António Quadros descreve, numa palestra quase pública, como é que, há longos longos anos, o Estado não atende à voz dos "intelectuais", fenómeno que explica a crise que, há longos longos anos, se instalou entre nós. Não atende, quer dizer, não entende.

Porque é que os "intelectuais" não deitam mão ao Poder?

(...) Não quero saber do poder para nada. Afigura-se-me até que há uma certa obscenidade no poder político. Repugna-me mandar nos outros homens. Avilta-me a importância social. As escadarias atapetadas de vermelho já as fiz subir muitas vezes aos actores, no palco dos teatros. Aprendi com eles que tudo isso é fictício e só tem beleza quando se faz a fingir. O discurso de Marco António com o cadáver de César nos braços é tão belo na peça de Shakespeare como deve ter sido repugnante na realidade vivida. O que falta cada vez mais à humanidade é educação estética. Em especial aos políticos. Todos eles são actores sem personagem».




Para uma transcensão da crise




Como fugir a este tecnicismo que afoga todas as Faculdades e Institutos constitutivos do moderno sistema de educação superior, dando-lhe como única finalidade - saber se o consegue perfeitamente ou não é já outro problema - dando-lhe como única finalidade, ia a dizer, a aprendizagem da profissão e o respectivo diploma de acesso?

Seria absurdo negar esta importante e indispensável função da Universidade - que corresponde não só ao interesse individual, como também ao interesse da colectividade. Mas o que me parece premente, é acrescentar-lhe a outra função, que se perdeu pelo caminho, a do interesse universal, a de dar a cada universitário a concepção viva e actual do homem, do ser, da verdade, nobilitando-o para uma existência dupla de profissional e de autêntico missionário, que, perante o dramatismo da vida, saiba actuar não dominado pela angústia, mas pela esperança, não entregue à revolta, mas à luta pela melhoria das condições, não confinado exclusivamente ao instante que passa, mas antes contribuindo para a redenção final do homem. «A Universidade deve ter um espírito, ou, se quiserem, uma alma» - disse o Prof. Marcelo Caetano (8), exprimindo uma carência dramática da nossa educação.

Eis porque defendemos, não um Instituto de Cultura exterior à Universidade, não uma Faculdade de Cultura ou de Filosofia, hierarquicamente acima das outras Faculdades e separada delas - mas um Instituto ou uma Faculdade Central de Cultura Superior, que todos os universitários deveriam frequentar, paralelamente aos cursos das suas respectivas Faculdades.

Essa Faculdade, que realmente centralizaria a unidade da cultura nacional, incluiria, não apenas disciplinas de índole propriamente cultural ou filosófica, mas também disciplinas integradoras do saber especializado numa concepção mais vasta. O aluno de Direito, por exemplo, além de ali se familiarizar com os problemas da Filosofia do Direito, sendo conduzido a reflectir sobre a especificidade do pensamento jurídico português, tomaria contacto com a nossa literatura, a nossa arte ou o nosso pensamento especulativo alargando a sua visão, do exclusivo ramo jurídico, até aos valores da cultura literária, artística e filosófica portuguesa.

Para não sobrecarregar os cursos das diferentes Faculdades, não seria grande o número das disciplinas de frequência obrigatória neste instituto ou Faculdade Central. Mas a simples frequência de semelhante Escola levaria sem dúvida os universitários a assistir a muitas aulas de frequência facultativa, a usar a biblioteca ou a assistir às projecções cinematográficas de uma instituição que, pela sua originalidade, se poderia afirmar modelar entre as demais instituições universitárias. O convívio entre alunos das diferentes Faculdades sob a égide da cultura superior seria outro aspecto benéfico da ideia que aqui apresentamos - ideia que a tendência para a concentração do ensino superior em Cidades Universitárias torna de relativamente fácil realização. Acrescentemos que a localização das residências dos professores nas Cidades Universitárias viria estreitar os laços culturais e humanos entre o corpo docente e o corpo discente.


Colunas do Theseion em Atenas


Embora dentro de um condicionalismo diverso e de acordo com um pensamento orientado por vias muito diferentes, vai ganhando corpo nos Estados Unidos uma corrente que aspira igualmente a dar novos rumos à educação universitária. Robert Maynard Hutchins, um dos mais notáveis teorizadores da educação norte-americana desenvolve no seu livro «O ensino superior na América» (9), a tese de que uma universidade que não seja ordenada segundo princípios superiores, não existe. Escreve Robert Hutchins: «A metafísica, como ciência superior, ordenava o pensamento do mundo Grego como a Teologia ordenava o mundo Medieval: Uma ou outra deve ser chamada para ordenar o pensamento dos tempos modernos. Se não podemos apelar para a Teologia, apelemos para a Metafísica. Sem Teologia ou Metafísica, não pode existir uma universidade unificada». E o escritor norte-americano acrescenta: «Se o mundo não tem significado, se se apresenta a nós como uma massa de factos equivalentes, então a busca da verdade pela verdade consiste numa indiscriminada acumulação de informações. Não as podemos perceber nem vale a pena tentá-lo. Compreendamos ou não o mundo, podemos dominá-lo, diz o povo. Mas as consequências educativas e científicas desta atitude são o vocacionismo, o empirismo e a desordem; e as suas consequências morais são uma moralidade imoral».

Para remediar a esta desordem sem finalidade superior de educação, Hutchins propõe que a universidade seja formada pelas Faculdade de Metafísica, de Ciências Sociais e de Ciências Físicas, assistidas de Institutos técnicos de especialização profissional. O padre ou pastor que frequente a primeira adquirirá no entanto noções de ciências sociais e da natureza, assim como o advogado que frequente a faculdade de ciências sociais aprenderá metafísica ou ciências físicas, e o engenheiro ou o médico que frequente a faculdade de ciências físicas fará o mesmo em relação à matéria das outras faculdades.

Esta concepção, que não pode, por muitos e variados motivos ser aplicada ao caso português, mostra no entanto como nos próprios Estados Unidos, o país da técnica e do especialismo, se rege hoje contra estas tendências de excessivo pragmatismo.

Entre nós, a Faculdade ou Instituto Central de Cultura Superior poderia assumir aquela missão de que falou Hutchins, a de unificar a universidade através de um pensamento coordenador dos seus diversos ramos. Pensamento coordenador e unificador que, modernamente, é substituído pela desagregação e pelo atomismo das opiniões individuais de cada professor de história, filosofia, filologia, direito, economia ou medicina.

É este um problema que, mais tarde ou mais cedo, terá de ser encarado de frente, se, através de uma solução parecida com a nossa ou através de reformas de qualquer outro tipo, se quiser dar realmente à Universidade uma missão cultural e altamente educativa. As duas alternativas de solução, com as suas vantagens e os seus inconvenientes, foram abordadas com a clareza que caracteriza o superior voo do pensamento, pelo grande filósofo alemão Karl Jaspers no seu livro «O ambiente espiritual do nosso tempo» (10). Diz Jaspers: «O Estado que em si mesmo é a forma da educação permanente de todos, ocupa-se da educação da juventude, pois é a ela que vai buscar os homens que depois hão-de sustê-lo.






Hoje, parecem oferecer-se ao Estado duas possibilidades extremas. Pode permitir-se a liberdade de ensino - e a realização do que a massa pede -, e pode tentar instituir-se, em luta contra a massa, um sistema aristocrático de educação». Quais os inconvenientes da primeira alternativa, isto é, da liberdade de ensino? Jaspers aponta-os, escrevendo: «A diversidade dos planos de ensino e de ensaios é tolerada até um extremo de imensa fragmentação, limitada pelo facto de que só pode subsistir o que encontra apoio num grupo de poder político. Aqui e ali consegue-se a formação de uma boa escola, se esta dispõe de liberdade na eleição dos professores. Mas, na totalidade, o resultado é o entrechocar de mestres que não se entendem entre si, preso a maquinais planos de ensino, em escolas sem verdadeiro espírito de comunidade, com fachadas de patetismo nacionalista, universalista ou socialista.

As inspecções e o regime de mútua oposição impedem a continuidade. Tudo é fragmentário e sempre diverso. Privam-se os estudantes das verdadeiras, das grandes e nobres impressões que podem determinar inolvidamente uma vida». E Jaspers conclui: «Deformado o jovem por este trazer e levar, encontra, talvez, os escombros de uma tradição, mas não um mundo em que possa ingressar com fé».

Por outro lado, o ensino excessivamente orientado pelo Estado pode obstar, acentua o autor de «A Fé filosófica», ao livre desenvolvimento espiritual dos estudantes, contribuindo para a indesejável tipificação do ser humano, para a uniformização das personalidades. Como resolve Jaspers este dilema? Sublinhando que «não podem oferecer-se receitas para o conseguir» e que «O poder do Estado não pode actuar aqui como criador: apenas pode proteger ou destruir». Concretamente, o Estado não pode amoldar todo o ensino, de alto a baixo, a uma ortodoxia filosófica, tal como não pode abandoná-la ao choque das forças contrárias. O que pode, é proteger uma direcção espiritual, propondo-a, apresentando-a com discrição, sem afastar violentamente todas as outras correntes culturais. Marcelo Caetano pensa no mesmo sentido, quando escreve: «Dizer-se que a Universidade tem de possuir uma doutrina não significa que ela abrace um partido político» (11).

É por isso que, num Instituto Central de Cultura Superior, ao lado das disciplinas obrigatórias, através das quais se procurará ministrar um saber teorético racionalmente ordenado, nas suas ramificações do pensar, do sentir e do querer, deverão figurar as disciplinas facultativas, que, dentro da universidade, dão ao estudante a possibilidade de uma liberdade de escolha, não apenas de temas, como de mestres. O corpo doutrinário que poderia constituir o núcleo central da universidade, o seu coração, o catalisador de todos os seus fragmentos, o sistematizador de todas as suas especializações, consistiria nas ideias explícitas e implícitas na cultura portuguesa, isto é, no que de actual, de original, de vivo, a nossa filosofia, a nossa arte, a nossa literatura, numa palavra, o nosso espírito, possam oferecer, no diálogo com outras culturas europeias.






Não se veja nestas palavras a intenção de afirmar a superioridade de uma determinada doutrina filosófica ou cultural com exclusão de todas as outras . Mas, se queremos que a cultura seja algo de concreto, e não apenas uma abstracção longínqua, que se admira cá de baixo, mas não interfere de modo algum no regime existencial, devemos reconhecer que ela se afirma «situadamente», filha de um tempo e de um espaço que se cruzam, para produzir uma actualidade intransferível para outro tempo e outro espaço. Já Leonardo Coimbra dizia, na sua tese sobre «O Problema da Educação Nacional», que começámos por citar: «Os valores da cultura são universais em sua essência abstracta, mas nacionais em suas formas actuais de existência». E Karl Jaspers no capítulo do seu livro sobre a «Inapreensibilidade da totalidade», aplica conceitos semelhantes à política e à educação, dizendo: «O actuar político acontece sempre numa situação histórica concreta, incluído numa imensa totalidade, cada grupo e cada Estado estão apenas num lugar único, e não em todas as partes; todos têm unicamente a sua possibilidade, que não é, em definitivo, aprender um ideal. Apenas se revela na situação concreta histórica universal».

Por outras palavras, ensina-nos Jaspers que é irrelevante pretender sujeitar a cultura, a educação, a política e a vida de um país - que é situação concreta e histórica, embora universalmente filiada - a um qualquer ideal abstracto e vago, ignorante do condicionalismo específico no qual as nações nasceram, respiram, têm o seu destino autêntico e próprio. É dentro da mesma linha de pensamento, embora segundo as determinações conceptuais da nossa cultura, que um filósofo português contemporâneo, Álvaro Ribeiro, pode dizer, logicamente, no seu último livro, «A Arte de filosofar»: «todo o drama cultural português resulta de uma absurda oposição tópica entre o cá dentro e o lá fora, e da mais absurda confusão crónica, que não permite ver na alheia Idade Moderna a nossa Idade Média, e vice-versa. Tentando acertar a nossa nomenclatura pelas nomenclaturas estrangeiras, por obediência a decisões tomadas em congressos internacionais ou por motivos ainda menos justificáveis, cada vez mais nos afastamos da significação primitiva do nosso culto, da nossa cultura e da nossa civilização.

Apreciamos erradamente o nosso sistema de ensino público todas as vezes que o comparamos com os sistemas estrangeiros. Quando, porém, relacionarmos a nossa pedagogia com a nossa filosofia, quando tivermos uma pedagogia portuguesa disciplinada pela filosofia portuguesa, veremos desenvolver-se as aptidões mentais e os valores éticos do nosso povo...».

Não queremos terminar a nossa exposição sem uma referência aos métodos pedagógicos que deverá utilizar um possível e modelar Instituto Central, cujos fins procurámos definir ou, pelo menos, sugerir. Duas obras recentes esboçaram uma crítica pertinente à pedagogia praticada no nosso ensino superior: a primeira, «A filosofia como objecto da pedagogia», de outro discípulo de Leonardo Coimbra, o dr. San'Anna Dionísio, foca especialmente, como o próprio título indica, as relações entre o pensamento e a pedagogia nas escolas da adolescência e na universidade; a segunda, «O drama do universitário», de Afonso Botelho, incide principalmente nas relações mútuas entre o corpo docente e o corpo discente, entre professores e alunos.

Não vou repetir as justas observações destes dois escritores, cujo pensamento vós podeis facilmente conhecer através dos próprios livros que citámos. Mas sonharia que, num Instituto Central de Cultura, servido por mestres escolhidos entre os que têm expresso o seu pensamento na nossa filosofia, na nossa arte, na nossa literatura, se não seguisse aquele espírito que porventura será um dos principais males de uma universidade que se estratificou, se burocratizou, se funcionalizou, desde que se iniciaram as reformas pombalina e positivista, que transformaram pouco a pouco, ressalvadas algumas nobres excepções, os antigos lentes em funcionários-burocratas do Estado ou em guardiões de dogmas cívicos que nenhuma revelação ou nenhuma razão garante.






Sonharia ver mestres e alunos como que unidos na mesma corporação de interesses, de anseios, de sentimentos; convivendo - e não separados pela distância enorme que hoje vai da cátedra às indiferenciadas carteiras dos alunos anónimos, que se apresentam a tantos regedores de cadeiras como meras unidades estatísticas que é preciso fiscalizar e julgar; dialogando nas aulas do seminário, no laboratório, na biblioteca, tipos de ensino, alguns dos quais se vão já ensaiando e que deverão um dia acrescentar-se à formal e académica prelecção; ou conversando dentro e até fora da Universidade, como o fez Leonardo Coimbra, cujas aulas, segundo contam os seus discípulos, se prolongavam até ao café, ao jardim, à rua. Assegurar a educação viva e concreta através da relação mestre-discípulo, não apenas dentro da esfera do saber, mas também da vontade e da afectividade, será o alto exemplo, a tentativa que semelhante Faculdade poderá propor às restantes. Os sistemas do exame e do concurso, que tantas vezes se revestem de aspectos dramáticos, não apenas para o examinando como até para o examinador obrigado a ser juiz e a condenar réus que muitas vezes o são unicamente por que há um desacerto entre as culturas respectivas do professor e do aluno, perderá a sua razão de ser quando, estreitados os laços entre o corpo docente e o discente, um conhecimento mútuo, nascido no convívio e no diálogo, bastará para aferir capacidades e encaminhar vocações.

Vivemos uma época de transição. Balançamos entre um presente angustiado e perplexo e um futuro incerto, com os seus possíveis benéficos e maléficos. Não nos podemos desinteressar desse futuro. Se não o moldarmos, se não o facetarmos, ninguém o fará por nós. Nós não somos responsáveis pela crise, cujas raízes de situam num passado em que muitos erros foram cometidos. Mas aqui, nesta hora, neste instante em que abrimos os olhos para os problemas do nosso tempo e do nosso país, aqui começa a nossa responsabilidade. Este problema da educação superior radica no próprio coração da crise. Saibamos olhá-lo de frente - pois é da sua resolução, da sua adequação à cultura, que depende em grande parte a transcensão de uma idade que na bomba atómica tem o seu terrível, o seu mortífero símbolo (in ob. cit., pp. 133-143).


Notas: 

(8) Marcelo Caetano - Universidade Nova - o problema das relações entre professores e estudantes - Lisboa, 1943.

(9) Robert Maynard Hutchins - The higher learning in América, Yale - New Haven, 1936.

(10) Karl Jaspers - El ambiente espiritual de nuestro tiempo.

(11) Marcelo Caetano - Ob. cit.