quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O Presente da Águia (i)

Escrito por Carlos Castaneda






«Carlos Castaneda foi um dos pensadores mais profundos e influentes do século XX. Suas ideias estão definindo a direcção da evolução futura da consciência humana. Todos nós lhe devemos muito».



«Don Juan nos dissera que os seres humanos são divididos em dois. O lado direito, que ele chamava de tonal, engloba tudo o que o intelecto pode conceber. O lado esquerdo, chamado nagual, é um reinado de aspectos indescritíveis, um reinado impossível de ser descrito em palavras. O lado esquerdo é talvez compreendido, se é compreensão o que acontece, com o corpo inteiro; daí a sua resistência ao conceitualismo.

Don Juan também nos falara que todas as faculdades, possibilidades e realizações da feitiçaria, da mais simples à mais elaborada, residiam no próprio corpo humano».

Carlos Castaneda («O Presente da Águia»).



Seis proposições explicativas

Apesar das manobras que don Juan fez com a minha consciência, eu persistia com teimosia, ao longo dos anos, em tentar avaliar o que ele fazia, racionalmente. Embora tenha escrito longamente sobre essas manobras, escrevi sempre de um ponto de vista experimental, e, sobretudo, de um ângulo estritamente racional. Imerso como estava na minha própria racionalidade, eu era incapaz de reconhecer as metas do seu ensinamento. Para poder entender o objectivo dele com precisão, foi necessário que eu perdesse minha forma humana e chegasse à totalidade de mim mesmo.

Os ensinamentos de don Juan tinham como objectivo guiar-me no segundo estágio do desenvolvimento do guerreiro: a compreensão e a total aceitação de que há outro tipo de consciência dentro de nós. Seus ensinamentos dividiam-se em duas categorias. A primeira e mais abrangente, para a qual pediu a ajuda de don Genaro, era a que lidava com as actividades. Consistia em mostrar-me certos procedimentos, acções e métodos organizados para exercitar a minha outra consciência. A segunda preocupava-se com a apresentação das seis proposições explicativas.

Em vista da dificuldade que tive em deixar minha racionalidade aceitar o que me estava sendo ensinado, dom Juan apresentou essas proposições explicativas em termos dos meus antecedentes académicos.




A primeira coisa que fez, como introdução, foi criar uma divisão em mim por meio de um golpe preciso aplicado na minha omoplata direita, golpe esse que me fez entrar num estado incomum de consciência - estado que eu era incapaz de me lembrar quando voltava ao normal.

Até ter entrado nesse estado de consciência eu tinha um inegável senso de continuidade, que acreditava ser o resultado da minha experiência de vida. Achava que era um ser completo e que podia ser responsável por tudo o que tinha feito. Sobretudo, estava convencido de que o centro daquela consciência encontrava-se na minha cabeça. Contudo, don Juan provou-me com seu golpe que existe um centro na espinha, à altura das omoplatas, que é obviamente um local de consciência intensificada.

Quando o questionei sobre a natureza desse golpe, dom Juan explicou que o nagual é um líder que tem a responsabilidade de abrir caminhos, e que deve ser impecável, a fim de transmitir a seus guerreiros um espírito de confiança e clareza. Só nessas circunstâncias o nagual se encontra na posição de aplicar o golpe nas costas e forçar uma mudança de consciência; pois é o poder do nagual que nos leva a fazer essa transição. Se o nagual não for um praticante impecável, não há mudança, como aconteceu quando eu tentei em vão fazer os aprendizes entrarem num estado de consciência intensificada batendo nas suas costas, antes de nos aventurarmos a atravessar a ponte.

Perguntei a dom Juan o que acontecia naquela mudança de consciência. Ele disse que o nagual tem de aplicar o golpe numa região precisa, que varia de pessoa para pessoa, mas que se localiza sempre na área geral das omoplatas. O nagual deve ver a fim de precisar a região, localizada no contorno do corpo luminoso da pessoa e não no próprio corpo físico; uma vez identificado o local, ele mais empurra que bate, formando assim uma cavidade irregular, uma depressão na concha luminosa. O estado de consciência intensificada que resulta desse golpe dura enquanto a depressão permanece. Algumas conchas luminosas voltam à forma original por si só, outras têm de ser pressionadas em outra região para voltarem ao normal, e outras ainda nunca recuperam sua forma de ovo.

Don Juan explicou que os videntes vêem a consciência como um brilho peculiar. A consciência da vida diária é um brilho no lado direito, estendendo-se do corpo físico ao contorno de nossa luminosidade. A consciência intensificada é um brilho mais intenso, associado a uma grande velocidade e concentração, brilho esse que satura o contorno do lado esquerdo.

Disse que os videntes explicam o que acontece com o golpe do nagual como um deslocamento temporário de um centro localizado no casulo luminoso do corpo. As emanações da Águia são na realidade avaliadas e seleccionadas nesse centro. O golpe altera seu funcionamento normal.




Através de suas observações, os videntes concluíram que os guerreiros devem ser colocados em estado de desorientação. A mudança na maneira com a qual a consciência opera nessas condições torna esse estado um campo ideal para elucidar as emanações da Águia, permitindo que o guerreiro funcione como se estivesse com a consciência da vida diária, com a diferença de poder focalizar tudo o que quiser com uma força e clareza sem precedentes.

Don Juan falou que minha situação era semelhante à que ele próprio tinha experimentado. Seu benfeitor criou uma profunda divisão nele, fazendo-o trocar várias vezes da consciência do lado direito para o lado esquerdo. A clareza e a liberdade da sua consciência do lado esquerdo se opunham directamente às racionalizações e defesas sem fim do seu lado direito. Disse que todo o guerreiro é lançado nas profundezas da mesma situação que essa polaridade modela, e que o nagual cria e reforça essa divisão como um meio de conduzir seus aprendizes à convicção de que existe uma consciência não explorada nos seres humanos.


1. O que conhecemos como mundo são as emanações da Águia

Don Juan explicou que o mundo que conhecemos não tem existência transcendental. Nossa familiaridade com ele nos leva a acreditar que o que percebemos é um mundo de objectos existentes tal qual os conhecemos, quando na verdade não há um mundo de objectos, mas sim um universo das emanações da Águia.

Essas emanações representam a única realidade imutável. É uma realidade que engloba tudo o que existe, o perceptível e o não-perceptível, o conhecido e o desconhecido.

Os videntes que vêem as emanações da Águia chamam-nas de comandos por causa da sua força compulsória. Todas as criaturas vivas são compelidas a usar as emanações, e usam-nas sem nunca saberem o que elas significam. O homem comum interpreta-as como realidade. E os videntes que vêem as emanações interpretam-nas como o regulamento.

Apesar de os videntes verem as emanações, não há um meio de eles saberem o que estão vendo. Em vez de entrarem em conjecturas supérfluas, entram numa especulação funcional de como os comandos da Águia podem ser interpretados. Don Juan insistia em dizer que intuir uma realidade que transcende o mundo que conhecemos se dá num nível de conjectura; não é suficiente para um guerreiro resumir que os comandos da Águia são percebidos de uma vez só por todas as criaturas vivas da Terra e que nenhuma delas os perceba da mesma maneira. Os guerreiros devem ter como objectivo presenciar o fluxo das emanações e ver como o homem e os outros seres vivos usam-nas para construir seu mundo perceptível.

Quando propus o uso da palavra "descrição" em vez de emanações da Águia, don Juan esclareceu que não estava construindo uma metáfora. Disse que a palavra "descrição" tem uma conotação de concordância do homem, e que o que percebemos deriva de um comando no qual a concordância do homem é deixada de fora.


2. A atenção é o que nos faz perceber as emanações da Águia como o acto de "desnatar" (1)



Don Juan disse que a percepção é uma faculdade física cultivada por todos os seres vivos da terra; nos seres humanos o resultado final é conhecido pelos observadores como "atenção". Acrescentou que qualquer tentativa de defini-la é perigosa, pois transforma uma realização mágica numa coisa comum. Descreveu a atenção como a utilização e a canalização da percepção.

Disse que é a nossa maior realização em separado, cobrindo toda a gama de alternativas e possibilidades humanas. Fez uma distinção precisa entre alternativas e possibilidades. As alternativas humanas são nossa capacidade de escolher como pessoas que funcionam dentro do seu meio social. Nosso raio de acção nessa esfera é bastante limitado. As possibilidades humanas são nossa capacidade de alcance como seres luminosos.

Don Juan desenvolveu um esquema classificatório de três tipos de atenção, enfatizando que chamá-los de "tipos" podia levar a dúvida. São, na realidade, três níveis de conhecimento: a primeira, a segunda e a terceira atenção; cada uma com seu domínio independente, cada uma completa por si só.

Para um guerreiro nos estágios iniciais de sua aprendizagem, a primeira atenção é a mais importante das três. Don Juan disse que suas proposições explicativas eram tentativas de trazer a um primeiro plano o modo como a primeira atenção funciona. Considerava imperativo que os guerreiros compreendessem a natureza da primeira atenção se quisessem aventurar-se nas outras duas.

Explicou que a primeira atenção tem de ser treinada a se mover instantaneamente através de todo o espectro das emanações da Águia, no qual não coloca a menor ênfase evidente, a fim de alcançar as "unidades perceptíveis" que todos nós aprendemos a aceitar como perceptíveis. Essa realização da nossa primeira atenção é chamada pelos videntes de "desnate" porque engloba a capacidade de afastar as emanações supérfluas e escolher as emanações a serem enfatizadas.

Don Juan elaborou esse processo tomando como exemplo a montanha com que nos estávamos deparando naquele momento. Argumentou que a minha primeira atenção, quando eu olhava a montanha, tinha tocado de leve num número infinito de emanções a fim de conquistar um milagre de percepção; o desnate que chamamos de "montanha", e que é conhecido de todos os seres humanos da terra porque eles próprios a alcançaram.

A argumentação dos  videntes é que tudo o que a primeira atenção afasta a fim de conquistar um desnate não pode ser retirado dela em nenhuma condição. Do momento em que aprendemos a perceber em termos de desnates, as emanações supérfluas deixam de ser registadas por nossos sentidos. Para elucidar esse ponto ele deu-me como exemplo o desnate "corpo humano". Disse que nossa primeira atenção é completamente inconsciente das emanações que formam a casca externa luminosa do nosso corpo físico; nosso casulo em forma de ovo não está sujeito à percepção; as emanações que o tornariam perceptível foram descartadas em favor daquelas que tornam possível à primeira atenção perceber o corpo físico como é conhecido por nós.




O objectivo perceptivo a ser atingido pelas crianças, enquanto estão crescendo, é aprender a isolar as emanações apropriadas a fim de transformar a sua percepção caótica na primeira atenção; ao fazer isso aprendem a construir os desnates. Todos os adultos que rodeiam as crianças as ensinam a desnatar. Com o tempo as crianças aprendem a controlar sua primeira atenção a fim de perceber os desnates em termos semelhantes aos de seus mestres.

Don Juan ficava admirado com a capacidade dos seres humanos de instituir ordem ao caos da percepção. Afirmava que cada um de nós, é um mago magistral, e nossa magia consiste em impregnar de racionalidade os vestígios que nossa primeira atenção aprendeu a construir. Nossa percepção em termos de desnates provém dos comandos da Águia, mas a percepção desses comandos como objectos provém do nosso poder, nosso dom mágico. Nosso erro, por outro lado, é que sempre acabamos sendo unilaterais ao esquecermos que nossos desnates são reais apenas no sentido de que os percebemos como reais, em virtude do poder que temos de fazer isso. Don Juan chamava a isso um erro de julgamento, que destrói em nós a riqueza de nossas origens misteriosas.


3. Os desnates recebem significado do primeiro anel de poder

Don Juan disse que o primeiro anel de poder é a força que se desprende das emanações da Águia para agir exclusivamente na nossa primeira atenção. Explicou que foi descrita como "anel" devido ao seu dinamismo, seu  movimento ininterrupto. Foi chamada de anel "de poder", primeiro por seu caráter obrigatório, e segundo por sua capacidade única de parar suas obras, mudá-las ou reverter sua direcção.

Seu carácter obrigatório se faz mais evidente pelo facto de que não só compele a primeira atenção a construir e perpetuar desnates, como também exige a concordância de todos os participantes. A concordância em reproduzir fielmente o desnate é exigida de todos nós, pois nossa conformidade ao primeiro anel de poder tem de ser total.

É precisamente essa conformidade que nos dá a certeza de que os desnates são objectos existentes como tal, independentemente de nossa percepção. Além do mais, a obrigatoriedade do primeiro anel de poder não cessa depois da nossa concordância inicial, mas exige que renovemos continuamente tal concordância. Temos de operar durante toda a nossa vida, por exemplo, como se cada um de nossos desnates fosse perceptivamente o mesmo para todos os seres humanos, a despeito da língua e da cultura. Don Juan admitia que a coisa é séria demais para ser vista como uma piada, mas que o carácter compulsório do primeiro anel de poder é tão intenso que nos força a crer que se uma "montanha" pudesse ter consciência própria, ela se veria como o desnate que aprendemos a construir.




Para os guerreiros, a característica mais válida do primeiro anel de poder é a sua capacidade de interromper seu fluxo de energia ou de pará-lo completamente. Don Juan disse que é uma capacidade latente que existe em todos nós como uma unidade de apoio. Em nosso mundo fechado de desnates não há necessidade de usá-la. Como nos apoiamos e defendemos com a rede da primeira atenção, não temos consciência de que possuímos recursos ocultos do qual nem suspeitamos. Se uma escolha alternativa nos é apresentada, tal como a opção do guerreiro em utilizar a segunda atenção, a capacidade latente do primeiro anel de poder poderia ser posta em funcionamento com resultados espectaculares.

Don Juan enfatizou que o processo envolvido em activar essa capacidade latente é a maior realização do feiticeiro; é chamada de bloquear o intento do primeiro anel de poder. Explicou que as emanações da Águia, que já foram isoladas pela primeira atenção para construir o mundo da vida diária, exercem uma forte pressão sobre a primeira atenção. Para que essa pressão cesse de agir, é preciso que o intento seja deslocado. Os videntes chamam a isso interrupção ou parada do primeiro anel de poder (in O Presente da Águia, Nova Era, 2002, pp. 347-355).


(1) Escolher o melhor de alguma coisa. Como o acto de separar a nata do leite fervido, depois que ele esfria. Aqui também usamos a palavra em espanhol desnate.

Continua

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Sincrodestino (ii)

Escrito por Deepak Chopra






«A doutrina tradicional ensina que Adão foi criado directamente por Deus e formado de um elemento subtil que o texto bíblico designa por uma palavra susceptível de várias traduções. A criação do homem é, pois, um mistério, quer dizer, algo de essencialmente evasivo a qualquer modo da nossa representação intelectual. Descrever a criação do homem em termos de comparação grosseira com os fenómenos naturais, digamos, com fenómenos físicos e até mecânicos, equivale a demonstrar ignorância da transcendência e a pretender afirmar impiedade.

A queda, sim, é susceptível de representação figurativa e intelecção mecânica. Ela significa o conceito de perversão, ou de razão pervertida, sem a mediação do qual não podemos opor-nos ao pessimismo que resulta da observação das desordens naturais. Ainda que a infracção seja expressa em termos de pecado, quer dizer, em termos literários de moralidade, para entendimento das pessoas que não vão além das fábulas simplistas, certo é que só a partir desse acontecimento sobrenatural nos é lícito falar de história.

A história natural, ou história da Natureza, não contradiz a prioridade da vida originária sobre a matéria derivada, e permite reconstruir a ciência biológica pelos conceitos de geração, regeneração e criação. Entre os animais, é observável a criação de orgãos adequados aos fins da espécie, segundo uma causa teleológica que foi reconhecida pelo próprio Lamarck, e a medicina pressupõe a crença no poder regenerador da Natureza. Energetismo, evolucionismo e criacionismo não são doutrinas opostas, mas complementares, conforme Henrique Bergson demonstrou no livro intitulado Evolução Criadora.

Para admitir a noção de criação é indispensável haver reflectido sobre a noção de síntese, que é o aparecimento de novas qualidades, e sobre a noção de número, que é a relação lógica entre a continuidade e a descontinuidade, o infinito e o finito. O problema consiste, então, em saber qual é real e qual é aparente, se a continuidade se a descontinuidade, para estabelecer a correlação. Negar o número, conjecturar que ao fim de certo tempo, ou no fim do tempo, a efectividade do múltiplo se anula na eternidade do uno, equivale a considerar ilusória a maravilha da criação.

A relação entre a continuidade e a descontinuidade é-nos sensível no ritmo, e distinguimos os ritmos uns dos outros pela quantificação. A verdade da vida humana é a descontinuidade, não só no ritmo, como também na metamorfose. Só o homem que evolui está em condições de entender o preceito divino da descontinuidade e de admitir sem dúvida o milagre da criação».

Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).


«O pecado original é um pecado da imaginação ou, se preferirdes por ser mais claro, um pecado de magia. Álvaro Ribeiro insurge-se contra as explicações do pecado original que nele vêem a relação carnal entre o homem e a mulher. Já Adão tinha conhecido Eva quando se deu o pecado de que temos notícia pelo Génesis.






Há uma degeneração na carne que serviu de carro ou de veículo ao amor de Adão por Eva quando ele a conheceu. Os cinco sentidos ou sensos, como prefere dizer Álvaro Ribeiro, puras irradiações do sentido interno, o sensorium communis dos escolásticos, pelo pecado original emergiram na carne e a imaginação passou a confundir-se com a sensação. Com efeito, sem a imaginação não seríamos capazes de reconhecer uma rosa. Sem a imaginação nunca a sensação seria percepção».

António Telmo («Teoria da Imaginação em Álvaro Ribeiro»).


«Os saltos criativos dados pela mente não-local têm sido confirmados pela ciência. Hiatos no registo fóssil deixado ao longo da evolução sugerem saltos criativos da imaginação na própria Natureza, uma hipótese conhecida como equilíbrio interrompido. Por exemplo, existem antigos fósseis de anfíbios e antigos fósseis de pássaros, mas não se encontram registos de uma criatura de ligação entre os anfíbios e os pássaros. Isto sugere um salto quântico da imaginação, onde os anfíbios queriam aprender a voar e os pássaros se manifestaram como um resultado dessa intenção. Os cientistas acreditam que os primatas evoluíram para os humanos, mas não há registos fósseis da fase intermédia, do "elo em falta". Primeiro, existiram apenas primatas, e depois, de repente, apareceram os seres humanos: E entretanto? Nada».

Deepak Chopra («Os Sete Princípios da Realização Espiritual»).


«Don Ruan ficava admirado com a capacidade dos seres humanos de instituir ordem ao caos da percepção. Afirmava que cada um de nós, a nosso próprio modo, é um mago magistral, e nossa magia consiste em impregnar de racionalidade os vestígios que nossa primeira atenção aprendeu a construir. Nossa percepção em termos de desnates provém dos comandos da Águia, mas a percepção desses comandos como objectos provém do nosso poder, nosso dom mágico. Nosso erro, por outro lado, é que sempre acabamos sendo unilaterais ao esquecermos que nossos desnates são reais apenas no sentido de que os percebemos como reais, em virtude do poder que temos de fazer isso. Don Juan chamava a isso um erro de julgamento, que destrói em nós a riqueza de nossas origens misteriosas».



«O mundo, como é, não tem nenhuma existência.

Por exemplo, a ideia de Espaço faz Espaço; não é o Espaço que faz a ideia; não é porque há Espaço que temos a ideia dele, é porque temos a ideia de Espaço que o Espaço existe».

Fernando Pessoa («Textos Filosóficos», II).


«Existe uma essência fundamental da nossa existência terrestre material através de cuja condensação toda a matéria nasce. E à pergunta: "Qual é essa matéria fundamental da nossa existência terrestre?" a ciência do espírito responde: "Toda a matéria existente na terra é luz condensada!" Não existe nada no campo da existência terrestre que seja uma coisa diferente da luz condensada sob que forma for.

(...) Para onde quer que dirijam a vossa mão e onde quer que sintam uma matéria, vocês têm em toda a parte luz condensada, comprimida. Na sua essência, a matéria é luz».

Rudolf Steiner («Reencarnação»).







Ao nível quântico, as várias quantidades de campos energéticos que vibram em diferentes frequências, e que percepcionamos como objectos sólidos, fazem todas parte de um campo de energia colectivo. Se fôssemos capazes de percepcionar tudo o que estivesse a acontecer a nível quântico, veríamos que todos fazemos parte de um enorme «caldo energético», e tudo - cada um de nós e todos os objectos do domínio físico - não passa de uma grande quantidade de energia a flutuar nesse caldo energético. Num momento determinado, o seu campo de energia entrará em contacto e afectará o campo de energia de todas as outras pessoas. Todos somos expressões dessa energia e informação comunal. Por vezes, podemos sentir de facto essa conexão. Esta sensação é normalmente muito subtil, mas ocasionalmente torna-se mais tangível. A maioria de nós já viveu a experiência de entrar numa sala e sentir que «a tensão era tão grande que quase se conseguia cortar à faca», ou de estar numa igreja ou num santuário e ser invadido por uma sensação de paz. Essa é a energia colectiva do meio ambiente que se mistura com a sua própria energia, e que o leitor registou num determinado nível.

No domínio físico, também estamos constantemente a trocar energia e informação. Imagine que está na rua e capta o cheiro do fumo de um cigarro vindo de alguém que caminha a um quarteirão de distância. Isto significa que o leitor está a inalar o hálito dessa pessoa, que passa a cerca de cem metros de si. O cheiro é apenas um rasto, que o informa de que está a inalar o hálito de uma qualquer pessoa. Se esse rasto não existisse, se o transeunte não estivesse a fumar, o leitor continuaria a inalar o seu hálito sem o saber por não ser alertado pelo fumo do cigarro. E o que é o hálito? É o dióxido de carbono e o oxigénio provenientes do metabolismo de cada célula desse corpo estranho. É isso que o leitor está a inalar, tal como outras pessoas inalam o seu hálito. Deste modo, todos nós fazemos constantes trocas de pequenas porções de nós mesmos - moléculas físicas e mensuráveis provenientes dos nossos corpos.

A um nível mais  profundo, não existem de facto limites entre nós próprios e tudo o resto que existe no mundo. Quando tocamos num objecto, sentimo-lo sólido, como se houvesse uma fronteira distinta entre ele e nós. Os físicos diriam que experimentamos essa fronteira como sendo sólida, porque tudo é composto por átomos, e a solidez é a sensação que temos de átomos a chocarem com outros átomos. No entanto, pense no que é um átomo. Um átomo tem um pequeno núcleo com uma enorme nuvem de electrões a girar à sua volta. Não existe nenhuma concha exterior rígida, apenas uma nuvem de electrões. Para o visualizar, imagine um amendoim no centro de um estádio de futebol. O amendoim representa o núcleo, e o estádio representa o tamanho da nuvem de electrões que o circunda. Quando tocamos num objecto, percepcionamos a sua solidez quando as nuvens dos electrões se encontram. Esta é a nossa interpretação da solidez, tendo em atenção a sensibilidade (ou a relativa insensibilidade) dos nossos sentidos. Os nossos olhos estão programados para ver objectos tridimensionais e sólidos. As nossas terminações nervosas estão programadas para sentir os objectos como sendo tridimensionais e sólidos. Porém, na realidade do domínio quântico, a solidez não existe. Existirá solidez quando duas nuvens se encontram? Não. Elas fundem-se e separam-se. Algo semelhante acontece sempre que o leitor toca noutro objecto. Os vossos corpos energéticos (e as respectivas nuvens de electrões) encontram-se, pequenas porções fundem-se, e depois separam-se. Apesar de o leitor se percepcionar como um todo, perdeu um pouco do seu campo energético para o objecto, e, em contrapartida, adquiriu também um pouco do campo energético dele. A cada encontro, nós trocamos informação e energia, e ficamos um pouco «alterados». Também por isto podemos ver de que forma estamos ligados a tudo o resto que existe no mundo físico. Todos partilhamos constantemente porções dos nossos campos energéticos. Desse modo, a este nível quântico, ao nível das nossas mentes e de nós «próprios», estamos todos interligados. Todos estamos correlacionados uns com os outros.






Assim, é apenas na nossa consciência que os nossos sentidos limitados criam um mundo sólido a partir da energia pura e da informação. No entanto, e se conseguíssemos ver o interior do domínio quântico, se tivéssemos «olhos quânticos»?. No domínio quântico, veríamos que tudo o que pensamos como sendo sólido no mundo físico está na verdade a entrar e a sair de um vazio infinito, tremeluzindo à velocidade da luz. À semelhança da sequência fotograma-espaço de um filme, o universo é um fenómeno alternado [descontínuo]. A continuidade e a solidez do mundo existem apenas na imaginação, alimentada pelos sentidos, que não conseguem discernir as ondas de energia e informação que caracterizam o nível quântico da existência. Na verdade, todos nós, tremeluzindo, estamos e saímos constantemente da existência. Se conseguíssemos sintonizar correctamente os nossos sentidos, podíamos ver de facto os hiatos das nossas existências. Nós estamos aqui, e depois já não estamos, e depois voltamos a estar. O sentido de continuidade é sustentado apenas pelas nossas memórias.

Existe uma analogia que ilustra bem este aspecto. Os cientistas sabem que um caracol demora cerca de três segundos a registar a luz. Então, imagine que um caracol estava a olhar para mim, e que eu saí da sala, assaltei um banco e voltei em três segundos. Para o caracol, eu nunca abandonei a sala. Eu podia levá-lo a tribunal, porque me daria um álibi perfeito. Para o caracol, o tempo que eu estive fora da sala recairia num daqueles espaços entre os fotogramas da existência tremeluzente. A sua sensação de continuidade, presumindo que os caracóis a têm, simplesmente não registaria esse espaço.

Deste modo, a experiência sensorial de todos os seres vivos é uma construção perceptiva puramente artificial criada pela imaginação. Existe uma história zen segundo a qual dois monges estão a olhar para uma bandeira que esvoaça ao vento. O primeiro diz: «A bandeira está a esvoaçar». O segundo contesta: «Não, é o vento que se desloca». O mestre de ambos aproxima-se e eles questionam-no. «Quem tem razão? Eu afirmo que a bandeira se mexe e ele diz que é o vento que se desloca». O mestre replica: «Ambos estais errados. Só a consciência se movimenta». À medida que a consciência se desloca, imagina o mundo a existir.

Desta forma, a mente é um campo de energia e informação. Cada ideia também é energia e informação. Ao percepcionar o caldo energético, o leitor imaginou o seu corpo físico e todo o mundo físico a existirem como entidades físicas distintas. Contudo, de onde veio a mente responsável por essa imaginação?


Nível 3: o domínio não-local






O terceiro nível da existência consiste na inteligência ou consciência. Ele pode ser denominado domínio virtual, domínio espiritual, campo do potencial, ser universal ou a inteligência não-local. É aqui que a informação e a energia emergem de um mar de possibilidades. O nível da natureza mais básico e fundamental não é material; nem tão pouco é um caldo de energia e informação, mas antes potencial puro. Este nível da realidade não-local actua para lá do alcance do espaço e do tempo, que muito simplesmente não existem a este nível. Designamo-lo não-local por não poder ser confinado a uma localidade, não está «em» nós nem «por aí». Está simplesmente.

A inteligência do domínio espiritual é o que organiza o «caldo energético» em quantidades reconhecíveis. É isso que liga as partículas quânticas em átomos, estes em moléculas e estas em estruturas. É a força organizadora que está por trás de todas as coisas. Este pode ser um conceito um pouco difícil de dominar. Uma maneira relativamente simples de pensar neste domínio virtual é reconhecer a natureza dupla dos nossos próprios pensamentos. Enquanto o leitor lê estas palavras, os seus olhos vêem a impressão a negro na página e a sua mente traduz essa impressão em simbolos- letras e palavras - tentando depois inferir o seu significado. No entanto, distancie-se um pouco e pergunte: «Quem é que está a ler?»; «Qual é a consciência que está subjacente aos meus pensamentos?». Mantenha a noção de dualidade destes processos interiores. A sua mente está ocupada a descodificar, a analisar e a traduzir. Então, quem é que está a ler? Com este pequeno desvio da atenção, o leitor pode aperceber-se da existência de uma presença dentro de si, uma força que está sempre a realizar experiências. É a alma, ou a inteligência não-local, e as suas experiências têm lugar no nível virtual.

Do mesmo modo que a informação e a energia forjam o mundo físico, este domínio não-local («sem localidade») cria e instrumenta a actividade da informação e da energia. Segundo o autor de best-sellers e precursor metafísico, Larry Dossey, M. D., os acontecimentos não-locais têm três qualidades importantes que os distinguem dos acontecimentos que estão confinados ao mundo físico - eles são correlativos, e esta correlação é não-mediada, não-mitigada e imediata. Analisemos resumidamente o que ele queria dizer com isto.

O comportamento de dois ou mais acontecimentos subatómicos não está interligado por acaso, significando isto que «um acontecimento não é a causa de outro acontecimento, contudo, o comportamento de um está imediatamente correlacionado ou coordenado com outro». Por outras palavras, eles parecem dançar ao som da mesma música, ainda que não comuniquem uns com os outros no sentido convencional. Este é o significado de não-mediada.

A correlação entre estes acontecimentos não-locais também é não-mitigada, o que significa que a força da correlação permanece inalterada com a distância no espaço e no tempo. Por exemplo, se o leitor e eu estivéssemos na beira de dois passeios com a estrada a separar-nos. A essa distância muito maior, a minha voz soar-lhe-ia muito mais fraca, se me conseguisse ouvir sequer. Se o leitor estivesse no domínio não-local, eu seria ouvido claramente, independentemente de estar na rua mesmo ao seu lado, no outro lado da rua, a um quilómetro e meio de distância ou até mesmo noutro continente.


Terceiro, imediata significa que não é necessário qualquer tempo de deslocação para os acontecimentos não-locais. Todos estamos familiarizados com o facto de a luz e o som se deslocarem a velocidades diferentes, razão pela qual vemos o relâmpago à distância antes de ouvirmos o ribombar do trovão. Com os acontecimentos não-locais, este retardamento temporal não existe, porque as correlações não-locais não se regem pelas leis da física clássica. Não existe nenhum sinal, não existe nenhuma luz, nem nenhum som. Não existe nenhuma «coisa» que tenha de se descolar. As correlações entre os acontecimentos que ocorrem ao nível não-local ou virtual dão-se instantaneamente, sem causa e sem qualquer enfraquecimento pelo tempo ou pela distância.

A inteligência não-local está em todo o lado ao mesmo tempo e pode provocar múltiplos efeitos em simultâneo em vários locais. É a partir deste domínio virtual que tudo no mundo é organizado e sincronizado. Esta é, então, a fonte das coincidências, tão importantes para o sincrodestino. Quando o leitor aprender a partir deste nível, poderá realizar espontaneamente todos os seus desejos. Poderá originar milagres (in ob. cit., pp. 30-35).

sábado, 18 de agosto de 2012

Sincrodestino (i)

Escrito por Deepak Chopra







«Importa (...) não considerar a Natureza como um conjunto de coisas, corpúsculos ou átomos (isolados, justapostos, ou compostos) que caem nos intervalos finitos do espaço e do tempo. Tais acidentes, ou quedas, dão-nos uma visão errada do que subsiste ou subjaz nas manifestações de agentes que gozam daquela liberdade que existe nos três reinos da Natureza. Convém, todavia, não confundir esta liberdade finita dos entes naturais com a infinita liberdade que o homem adquire quando orienta a razão.

(...) Acima da Natureza, que conhecemos imperfeitamente, existe o Sobrenatural. Toda a impiedade dos nossos erros consiste em julgar que o natural tem semelhança com o sobrenatural, e, consequentemente, em querer levar longe demais a nossa inteligência que não se separa da nossa imaginação. Se entre o natural e o sobrenatural não existem as distinções que logicamente nos são ensinadas, embora psicologicamente repugnem; se o princípio de continuidade é igualmente válido nos dois domínios do conhecimento, então a transcendência passa a ser uma palavra vã, e com ela se desvanecem os princípios transcendentais».

Álvaro Ribeiro («A Arte de Filosofar»).


«No mundo físico, temos muitas maneiras diferentes de obter informação dos jornais, livros, televisão, rádio, conversas ao telemóvel ou rádios de onda curta. Todas estas formas de penetrarmos em vários tipos de informação, e muitas mais, estão facilmente à nossa disposição. O leitor só tem de se sintonizar com elas através do seu instrumento sensorial, olhando, ouvindo, tacteando, cheirando e saboreando o ambiente que o rodeia. No entanto, se o leitor quiser penetrar na informação ao nível da alma, precisará de uma forma diferente de chegar a ela.

(...) De acordo com a experiência da maior parte das pessoas, o passado é inerente apenas à memória e o futuro reside somente na imaginação. No entanto, ao nível espiritual, o passado, o futuro e todas as diferentes probabilidades da vida existem em simultâneo».

Deepak Chopra («Os Sete Princípios da Realização Pessoal»).


«(...) inofensiva, uma magia naturalíssima, deste mundo que é, como se diz, o único que existe. São umas ondas que há no ar, que não se vêem mas são tão materiais como as do mar, que levam a imagem, como estas levam um barco, até um pequeno écran luminoso que, hoje, todas as casas têm a substituir a chama da lareira».

António Telmo («O Bateleur»).


«Sobre o mobilismo das transformações a nossa atenção pousa-se segundo o interesse da nossa colheita utilitária.

A percepção começa por concentrar em qualidade o que é, em si, vibração e movimento, ritmando-se dentro da sua crisálida, como diz Bergson na Matéria e Memória.



Henrique Bergson

Depois, nas transformações, os mesmos interesses de espírito colhem os momentos solenes, onde se repousa a finalidade da nossa acção, e vê as formas e os corpos. E, como isolou aquelas qualidades e estas formas, as transformações que as geram furtam à atenção o seu dinamismo transformante.

Ficam assim qualidades separadas e formas discretas que teremos de ligar por um mecanismo apropriado, que será o movimento desqualificado, exaurido: quantidade e pura continuidade dum denominador comum.

A adaptação do homem à natureza exprime-se pela disposição da imagem que é o seu corpo em relação às imagens que constituem o mundo físico, e, porque esta é descontínua, como uma série de perspectivas caleidoscópicas, é que a nossa representação é correlativamente como uma série de panoramas cinematográficos».

Leonardo Coimbra («A Filosofia de Henri Bergson»).




SINCRODESTINO


Matéria, Mente e Espírito

A partir do momento em que tomamos consciência do mundo que nos rodeia, começamos a questionar o nosso lugar nele. As perguntas que fazemos são intemporais: «Por que razão estou eu aqui?». «Como me encaixo no esquema das coisas?». «Qual é o meu destino?». Na infância, temos tendência para pensar no futuro como uma folha de papel em branco na qual podemos escrever a nossa própria história. As possibilidades são infinitas, e sentimo-nos estimulados com a promessa da descoberta e do simples prazer de vivermos imersos em tanto potencial. Contudo, à medida que crescemos e nos tornamos adultos, e somos «educados» sobre as nossas limitações, a nossa visão do futuro torna-se constrita. O que outrora exaltava as nossas imaginações, agora aterra-nos sob o peso do pavor e da ansiedade. O que outrora parecia não ter limites, torna-se acanhado e sombrio.

Existe uma maneira de recuperarmos a enorme alegria de potencial ilimitado. Tudo o que é necessário é uma compreensão da verdadeira natureza da realidade, uma complacência para reconhecer o correlacionamento e a inseparabilidade de todas as coisas. Então, com o auxílio de técnicas específicas, verá o mundo revelar-se-lhe, e a sorte e as oportunidades que surgem de vez em quando irão ocorrer cada vez com maior frequência. Quão poderoso é o sincrodestino? Por um instante, imagine que está com uma lanterna na mão numa sala completamente às escuras. Acende-a e vê uma bela pintura pendurada na parede. Pode pensar: «Não há dúvida de que esta é uma obra maravilhosa, mas será tudo o que existe aqui?» Depois, de repente, a sala ilumina-se a partir de cima. O leitor olha em volta e vê que está num museu de arte figurativa com centenas de quadros pendurados em paredes à sua volta, cada um mais belo do que o anterior. Enquanto estas possibilidades se lhe revelam, apercebe-se de que tem uma vida inteira de obras de arte para estudar e amar. Já não está condicionado a ver apenas uma pintura iluminada por um ténue foco de lanterna.


Deepak Chopra


Esta é a promessa do sincrodestino. Ele acende as luzes. À medida que avançamos nas nossas vidas, ele dá-nos a capacidade de tomarmos verdadeiras decisões, em vez de darmos palpites às cegas. Ele permite-nos ver significados no mundo, compreender a conexão ou a sincronicidade de todas as coisas, escolher o tipo de vida que queremos viver e realizarmos a nossa viagem espiritual. Com o sincrodestino, adquirimos a capacidade de transformar as nossas vidas de acordo com as nossas intenções.

O primeiro passo para se viver deste modo é compreender a natureza dos três níveis da existência.


Nível 1: o domínio físico

O primeiro nível da existência é físico ou material, o universo visível. Este é o mundo que conhecemos melhor, aquele a que chamamos o mundo real. Ele contém matéria e objectos com ligações fortes, tudo o que é tridimensional, e inclui tudo o que vivenciamos com os nossos cinco sentidos - tudo o que conseguimos ver, ouvir, sentir, saborear ou cheirar. Inclui os nossos corpos, o vento, a terra, a água, os gazes, os animais, os micróbios, as moléculas e as páginas deste livro. No domínio físico, o tempo parece fluir numa linha tão recta que o conhecemos como a seta do tempo, desde o passado até ao presente e deste até ao futuro. Isto significa que tudo no domínio físico tem um início, um meio e um fim. Os seres sensíveis nascem e morrem. As montanhas elevam-se com os grãos serpenteantes de terra a sobrepor-se e são novamente trazidos para a sua base pela erosão implacável das chuvas e do vento.

Tal como o vivenciamos, o mundo físico é regido por leis imutáveis de causa e efeito, sendo por isso tudo previsível. Os físicos newtonianos permitiram-nos prever de tal modo a acção e a reacção que quando bolas batem umas nas outras com uma determinada velocidade e num ângulo específico, podemos antecipar exactamente o percurso que cada uma irá descrever sobre a mesa de bilhar. Os cientistas conseguem calcular com precisão quando um eclipse vai ocorrer e quanto tempo irá durar. E todo o nosso entendimento do mundo, baseado no «senso comum», advém do que conhecemos deste domínio físico.


Nível 2: o domínio quântico

No segundo nível da existência tudo consiste em informação e energia. Este é designado domínio quântico. Tudo neste nível é insubstancial, significando isto que não pode ser tocado nem apreendido por nenhum dos cinco sentidos. A sua mente, os seus pensamentos, o seu ego, a sua parte que pensa tipicamente como o seu «eu», todos fazem parte do domínio quântico. Estas coisas não têm solidez, e, no entanto, o leitor sabe que o seu eu e os seus pensamentos são bem reais. Embora seja mais fácil pensar no domínio quântico em termos de mente, ele contém em si mesmo muito mais. Na verdade, tudo no universo visível é uma manifestação da energia e da informação do domínio quântico. O mundo material é um subconjunto do mundo quântico.

Outra maneira de afirmar isto é que tudo no domínio físico é caracterizado por informação e energia. Na famosa equação de Einstein, E=MC2, sabemos que energia (E) é igual à massa (M) vezes o tempo, medido pela velocidade da luz (C) ao quadrado. Isto diz-nos que a matéria (massa) e a energia são a mesma coisa apenas em formas diferentes - energia igual a massa.

Numa das primeiras aulas de ciências que temos na escola, ensinam-nos que todos os objectos sólidos são constituídos por moléculas, e estas são formadas por unidades ainda mais pequenas, chamadas átomos. Acabamos por perceber que a cadeira aparentemente sólida em que nos sentamos é constituída por átomos tão pequenos que não podem ser vistos sem o auxílio de um microscópio potente. Mais tarde, aprendemos que os átomos minúsculos são constituídos por partículas subatómicas, que não têm qualquer solidez. Literalmente, eles são pacotes ou ondas de informação e energia. Isto significa que, neste segundo nível da existência, a cadeira em que o leitor está sentado mais não é do que energia e informação.

À primeira vista, este conceito pode ser difícil de entender. De que forma ondas invisíveis de energia e informação podem ser vivenciadas como um objecto sólido? A resposta é que os acontecimentos no domínio quântico ocorrem à velocidade da luz, e, a essa velocidade, os nossos sentidos simplesmente não conseguem processar tudo o que contribui para a nossa experiência perceptiva. Distinguimos objectos como sendo diferentes uns dos outros, porque as ondas de energia contêm diferentes tipos de informação, que são determinados pela frequência ou pela vibração dessas ondas de energia. É como ouvir rádio. Um rádio sintonizado para uma estação pode passar apenas música clássica. Ao mudarmos para uma frequência de ondas de rádio ligeiramente diferente podemos ouvir apenas rock and roll. A energia é codificada para uma informação diferente, dependendo do modo como vibra.

Deste modo, o mundo físico, o mundo dos objectos e da matéria, é constituído apenas pela informação contida na energia que vibra a diferentes frequências. A razão pela qual não vemos o mundo como uma enorme teia de energia é por ele estar a vibrar demasiado depressa. Porque a função dos nossos sentidos é muito lenta, eles conseguem registar apenas grandes quantidades dessa energia e actividade, e essas quantidades de informação transformam-se «na cadeira», «no meu corpo», «na água» e em todos os outros objectos físicos que existem no universo visível.






Isto assemelha-se ao que acontece quando vemos um filme. Como o leitor sabe, um filme é efectuado com fotogramas individuais e espaços a separá-los. Se o leitor olhasse para um filme na bobina numa sala de projecção, veria os fotogramas individuais e os espaços. Contudo, ao assistirmos à sua projecção, os fotogramas surgem dispostos em série e passam tão depressa que os nossos sentidos já não conseguem observar os fotogramas como peças descontínuas. Em vez disso, percepcionamos uma corrente uniforme de informação (in «Os Sete Princípios da Realização Espiritual», Editorial Presença, 2005, pp. 27-30).

Continua

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O Desenho

Conferenciado por José de Almada Negreiros




Retrato de Fernando Pessoa (óleo s/tela)de Mestre Almada (1954).


« - Eu [Almada], não posso afirmar que o espírito do mal não tenha colaborado comigo na criação do retrato. Mas do que pode ter a certeza é que a minha intenção foi precisamente contrária da que imagina. Eles não mereciam que se lhes desse a verdadeira imagem do grande poeta [Fernando Pessoa]. Pense o retrato como uma fotografia. Dessa fotografia só lhes dei o negativo. Fica sempre a possibilidade para aqueles que o merecem de revelar esse negativo. A imagem do poeta aparecer-lhe-á, depois do banho, com a forma da primeira figura do Tarot.

E acrescentou:

- Não foi essa forma que ele quis dar e deu à sua alma?».

António Telmo («O Bateleur»).


«Autoridade quer dizer autoria. A autoridade é assim correlativa com a liberdade. Este significado eminente de autoridade mantém-se ainda no domínio literário, onde autor é o escritor que comunica por meio de livro o seu livre pensamento».

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«Uma coisa é fazer arte e outra tratar de arte. Tão diferentes uma da outra, tão apartadas que chegam de facto a bastarem-se a si-mesmas.

Arte de criação é um mundo; história de arte outro mundo. Emprega-se aqui a palavra mundo como símbolo do que é inteiro.

(...) O erudito de arte depende da arte criada e sem a qual não haverá a sua erudição; mas pode situar a arte criada apenas no passado, e ser ou fazer-se cego para a arte dos nossos dias. Ao passo que ao artista basta-lhe a presença eterna da natureza.

Este saber estar diante da natureza é o oposto a saber estar diante de obra de arte. Porque uma obra de arte que não nos elucide a maneira de estarmos nós também diante da natureza não é uma obra de arte.

(...) Outros irão ver a obra do artista, uns como eruditos outros como sensíveis, mas a natureza não se entrega senão a olhos que se lhe entregarem. E é isto que faz com que o artista seja o menos amador de todos os profissionais, mesmo quando nada realize; isto faz com que o artista possa cada vez menos acumular outros deveres com os da sua arte.

Sabeis que o que importa não são os idiomas mas sim a linguagem, e por aqui vereis onde o artista se aparta dos eruditos.

Se o artista não vê, se não sente correspondidos os seus legítimos passos, morre. E vimos morrer artistas antes da sua morte natural. Correspondidos? Sim. Correspondidos, não como possa ser aproveitado o artista, mas seja no que ele nos trouxer; não no que nós esperemos que ele nos dê, mas precisamente no que ele nos der; tão generosa e abnegadamente como quem se arrisca a tomar um aventureiro por um herói.

(...) A formação de um artista é sempre caso tão inédito neste mundo que francamente ninguém pode estar prevenido desse acontecimento, e muito menos o próprio artista. Há pois um único processo para receber artistas: estimá-los. Estimá-los muito antes de admirá-los».

José de Almada Negreiros («Manifestos e Conferências»).





O Desenho

Senhoras e senhores:


Vou falar-vos do desenho e creio poder dizer-vos alguma coisa de novo sobre a mais antiga das expressões. Nenhuma outra forma de pensamento chegou até nós mais próximo do seu aspecto primitivo do que o desenho. Todas as origens se dispersaram pelas infinitas direcções do tempo e da geografia, mas as rochas conservam os traços que nem o tempo desfez nem a geografia mudará jamais.

Tem o desenho um sentido universal que o distingue de qualquer outra expressão universal do homem. Se fosse possível reunir os desenhos de crianças de todo o mundo e desconhecendo as respectivas nacionalidades, ninguém saberia, através desses desenhos, indicar as pátrias dos seus autores. As crianças de todo o mundo são iguais na espontaneidade dos traços instintivos do homem. São iguais até que o instinto deixa de ser a única força que as conduz. Em cada criança a natureza procede a uma renovação total como se fosse a humanidade primitiva, ela-própria, na pessoa da criança. Depois o ambiente influi sobre ela como a sua ascendência, e é então que ao lado do instinto começa a surgir a consciência.

No desenho há instinto e consciência.

O meu propósito é falar do desenho como força determinada que faz parte da vida de cada um, seja quem for, artista ou negação da Arte.

Os frades dum mosteiro acordaram em pintar as paredes do seu refeitório. Procuraram um pintor e encarregaram-no dos frescos. Veio o pintor, encostou uma escada à parede, abriu a caixa das tintas, pôs os pincéis em ordem e, quando tudo estava preparado, foi-se embora, dizendo: - até amanhã. No dia seguinte não apareceu, nem tão-pouco em toda aquela semana; nem passado um mês. No entanto tudo estava preparado para que ele começasse a pintar.

Passados uns meses, um frade, ao regressar do seu passeio, contou aos seus companheiros que tinha visto na feira o pintor, rodeado duma multidão de curiosos e feirantes. E pareceu-lhe que o pintor tinha esquecido para sempre as paredes do refeitório. Passados três meses, outro frade encontrou-o no campo, sentado numa pedra, mas não quis dar-se a conhecer, não fosse ele julgar que era para recordar-lhe das pinturas. Passados quatro meses, viram-no em plena noite, à luz do luar. Outra vez, num dia de sol, encontraram-no muito longe do mosteiro, por entre as árvores duma estrada. Outro frade, no seu peregrinar, tinha-o visto à beira-mar, com as mãos nos bolsos, sem lápis nem papel, nem aparência de quem toma notas ou apontamentos. Na praia ninguém diria que era um pintor. Passado um ano, os frades tornaram a ver o pintor no mosteiro. Aproximou-se da escada, das tintas e dos pincéis como se os tivesse deixado na véspera. E começou a pintar as paredes do refeitório. Enquanto pintava, não falava com ninguém. E os frades começaram a ver que ele ia reproduzindo os lugares onde cada um deles o tinha visto. A feira, o mar, a noite, a lua, as pessoas, o campo, as árvores, o sol, tudo nascia nas paredes do refeitório pela arte do pintor que durante um ano andou procurando o assunto para as suas cores.

Grande foi este pintor e bons os frades, que não lhe pediram o assunto, mas somente a pintura. Estes bons frades andaram neste caso como sábios, não tirando a escada, nem as tintas, nem os pincéis de onde o pintor os tinha deixado, e apesar dele não ter voltado durante todo um ano. Mas ele voltou. Voltou passado um ano. O ano simbólico desta história antiga.

Mas não esqueçam V. Excias que, primeiramente, o pintor andou um ano a ver! Esta é a ordem dos factos e só falaremos precisamente do que aconteceu ao pintor durante esse ano, pois que em verdade a pintura que ficou nas paredes do refeitório não é o que mais interessa agora.

Os frades encarregaram-no dos frescos porque sabiam que ele era pintor. Mas, na realidade, só depois de passado um ano, o ano simbólico, o pintor foi pintor, porque além das tintas e pincéis, ele tinha também o que é principal na pintura, na arte, na ciência e em toda e qualquer posição social do homem: a autoridade pessoal.

Não há mais moral nem maior valentia que a autoridade pessoal. Se há no mundo postos ambicionados, só um há de direito para cada um: a sua autoridade pessoal.

Esta velha história, escolhida para iniciar estas palavras, foi intencionalmente escolhida. Nela está claramente apontado o que nos interessa mais do que a própria arte que fica nas pinturas: o caminho do pintor, desde as paredes nuas do refeitório até à pintura dos frescos, ou seja até que as suas cores deixaram de ser tintas e passaram a ser a sua autoridade pessoal.

Na anedota não se disse o nome do pintor e não se disse porque ele pode ser qualquer, desde que tenha autoridade pessoal.

Giotto, por exemplo, e independentemente da História, está dentro deste caso, com a sua autoridade pessoal. E para mais sabemos que Giotto não viu nunca outros pintores, não soube o que se tinha feito em pintura antes dele, não recebeu lições de arte de pintar e, ao contrário, como acontece na referida história, só viu a paisagem, as pessoas, a natureza, e sobretudo o que tinha dentro dos seus olhos. Desconhecendo toda a ciência e sabedoria da Arte, Giotto foi o iniciador da arte naturalista, representativa da arte europeia, ocidental.

Mas, repetindo, não falaremos da pintura, mas sim do caminho que conduz a ela. A pintura é já o campo da personalidade e nós vamos ainda a caminho desse campo.

E, embora não sejamos os donos da nossa personalidade e por longe que ainda estejamos de o ser, não teremos pressa de possuí-la antes do devido tempo. Nós seguimos o nosso caminho, seguros, mais atentos à nossa autoridade pessoal de hoje do que a uma personalidade que conseguiremos talvez um dia. Em verdade, o que imediatamente nos interessa é a nossa autoridade pessoal. Esta, sim, que já nos pertence hoje mesmo e antes de termos direito a uma personalidade.

Quer dizer, melhor, muito melhor que o valor da nossa arte de hoje é a claridade e a dignidade do nosso caminho até amanhã.

Neste momento em que ficam bem delimitados os diferentes conceitos de personalidade e de autoridade pessoal, meditemos um pouco sobre esta e deixaremos aquela aos que a têm já. Assim como há pouco nos abstivemos de falar de pintura, para ver melhor o caminho que nos conduz a ela, também agora a personalidade nos interessa menos do que a autoridade pessoal daqueles que a buscam. Temos, pois, um caminho até à personalidade: autoridade pessoal, e um caminho até à pintura: o desenho. Quer dizer, a pintura coincide com a personalidade, enquanto o desenho corresponde à autoridade pessoal. Deve ser este o sentido do que Ingres disse do desenho: «Le dessin est le probité de l'art».

O desenho não é, como pode julgar-se, simplesmente um conjunto de linhas ou traços, um gráfico representando qualquer coisa existente.

O desenho é o nosso entendimento a fixar o instante.

A célebre frase de Napoleão, dizendo: «vale mais um pequeno croquis do que um longo relatório» contém todo o sentido do desenho.

Ao contrário do trabalho, da construção que exige tempo, composição e volume, o nosso entendimento é rápido, claro e simples. A perfeição do entendimento é momentânea e, por consequência, há que fixá-la.

Por isso o desenho é o melhor amigo do entendimento.

É corrente, quando alguém não percebe o que se lhe diz, acrescentar: precisas que te faça um desenho?

E o facto é que este é o processo definitivo.

De uma boa descrição literária se costuma dizer: parece um desenho. Não é indispensável fazer linhas ou traços para desenhar.

Tudo o que contém clareza de entendimento tem a função do desenho.

Mas entendimento não é o mesmo que inteligência. Esta é a ligação e a harmonia entre os entendimentos pessoais.

O povo que não conhece a palavra inteligência tem, todavia, o seu entendimento. Diz a gente do povo de quem sabe muito: que boa memória tem! Quer dizer, memória é o que fica para sempre no entendimento.

Perguntaram a alguém porque desenhava e este respondeu: para fixar a atenção.

Um livro do século XVIII sobre o desenho começa com estas palavras: «o desenho é a única maneira de fixar a atenção».

E a verdade é que não sendo todos desenhadores, todos temos desenhado, Porquê?

É necessário o respeito pelo desenho.





O desenho, se marca a nossa iniciativa, começa por impor-nos uma obediência absoluta, única condição de êxito. E esta obediência não é senão a nossa lealdade para com nós-próprios, para com os nossos sentidos, orgãos do entendimento.

Se o entendimento ao abrir o seu caminho parece agressivo perante a inteligência humana, bom é que o parece para depois provar que o não foi.

É tão pessoal o entendimento que, quando não oferece originalidade desaparece o autor.

Nós, das raças meridionais, onde a precocidade é espontânea e natural, devemos buscar a compensação no oposto, isto é, na maturidade.

Pascal, que não é da nossa raça, tem autoridade para nos dizer que no melhor livro do mundo, o catecismo, há um erro grave no que se refere à idade da razão. Diz Pascal que a idade do uso da razão é muito posterior. Mas antes de chegar a esta idade e no nobre sentido que lhe atribui Pascal, já a consciência tem o seu papel na função do entendimento. É já a autoridade pessoal de cada um quando, contudo, ainda não é consciente nem desfruta da sua personalidade: é o segredo pessoal.

A atenção pelo desenho em nossas forças iniciais ou instintivas é a base de formação da nossa personalidade futura.

Duas épocas tem o desenho: a primeira, época da atenção respeitando o instinto, a outra, a da correcção do instinto procurando a harmonia. Passa de sinceridade primária ou romântica à impossibilidade construtiva ou clássica naquele mesmo sentido em que Ingres definiu a obra clássica: a que não faz rir nem chorar.

O desenho tem o seu valor e o seu limite. O desenho é o meio e o homem a finalidade.

Porém, aqueles que procuram, principalmente, a própria expressão vivem muito preocupados com os aspectos da época do que com o valor do próprio entendimento.




Preocupa-os demasiado a palavra modernismo.

Seguramente ignoram que a personalidade não se recebe dos outros, mas sim necessita que cada um a liberte de si-próprio.

Então, onde fica o modernismo para aquele que procura, todavia, a sua personalidade?

Uma época não é apenas uma questão de tempo mas essencialmente um sentido do novo no eterno.

Tão-pouco a novidade é uma impressão recebida do exterior - mas é o próprio fundo da alma que faz sua aparição do sol.

Entretanto, os artistas de hoje vivem preocupados com o estilo caligráfico do nosso tempo, julgando-se descobridores da autêntica novidade.

Isto de ser moderno é como ser elegante: não é uma maneira de vestir mas sim uma maneira de ser.

Ser moderno não é fazer a caligrafia moderna, é ser o legítimo descobridor da novidade.

O pintor Henri Matisse manteve durante anos uma academia, até que um dia e sem dizer nada a ninguém, a abandonou para sempre. Entretanto, os seus discípulos continuavam a esperá-lo para o prosseguimento das suas lições. Intrigados de princípio, depressa compreenderam que o mestre alguma coisa lhes queria significar com a sua ausência.

Um dia um discípulo encontrou-o a pintar um porto de mar.

Porque nos abandonou o mestre?

Porque, depois de tantos anos de academia não consegui nunca que um só dos meus discípulos fizesse um traço, uma linha que fosse sua.

Tinha razão Henri Matisse. O seu apostolado da arte produzia, afinal, nos seus discípulos um resultado igual ao que ele tão decididamente combatia. E assim a sua experiência levou-o à mesma conclusão de Picasso: Não há discípulos, há só mestres.


Pablo Picasso


O erro do que estuda não é sofrer as influências dos mestres mas sim ficar preso da influência de um único.

É a nossa admiração pelos vários mestres que melhor pode conduzir-nos ao descobrimento da grande novidade: a nossa personalidade.

O homem moderno não fixa nunca a sua posição, nem antes, nem durante, nem depois da sua personalidade.

Disse Balzac que o mundo se divide em três classes de pessoas: os ociosos, os ocupados e os artistas. Quer dizer que o artista não é nem ocioso nem ocupado. Pois bem, é esta em definitivo a expressão do homem moderno: a de artista.

Não é a ociosidade o que nos apetece, nem a ocupação o que procuramos. Amanhã o mundo saberá o que é.

Madrid, Junho de 1927

(In Manifestos e Conferências, Assírio & Alvim, 2006, pp. 149-156).