Escrito por O'Sensei Morihei Ueshiba
«Mesmo
quando desafiado por um único inimigo, mantenha-se em guarda, pois você sempre
estará cercado por um bando de inimigos».
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Budo[1]
é um caminho divino estabelecido pelos deuses, que leva à verdade, bondade e
beleza; é um caminho espiritual que reflecte a ilimitada absoluta natureza do
Universo e o grande processo da elaboração da criação.
Por
meio da virtude adquirida com a devoção à prática, pode-se alcançar a percepção
dos princípios do céu e da terra. Tais técnicas se originam da interacção subtil
do fogo e da água[2],
revelando o caminho do céu e da terra e o espírito do caminho imperial; essas
técnicas também mostram o funcionamento maravilhoso do kotodama[3],
o princípio que direcciona e harmoniza todas as coisas no mundo, resultando na
unificação do céu, da terra, de Deus e da humanidade. Tal virtude gera luz e
calor, formando a espada divina da harmonização espiritual entre o céu, a terra
e a humanidade; quando a situação emerge, armado com a espada da harmonização e
agindo de acordo com os princípios do céu e da terra, pode-se continuamente cortar
a falsidade e o mal, limpando assim o caminho que conduzirá à beleza e ao mundo
em seu estado original de pureza. Desse modo, quando totalmente despertado,
pode-se utilizar de todos os elementos contidos no céu e na terra durante todas
as quatro estações do ano. Reformar suas percepções de como o universo realmente
parece e age; transformar as técnicas marciais em veículo de pureza, bondade e
beleza; e dominar todas essas coisas. Quando a espada da harmonização unindo o
céu, a terra e a humanidade se manifesta, somos libertados, capazes de
purificar e moldar a nós mesmos.
(...) O aparecimento de um “inimigo” deve ser considerado como uma oportunidade para testarmos a sinceridade do nosso próprio treinamento mental e físico, para ver se estamos realmente respondendo de acordo com a vontade divina. Quando encaramos o reino da vida e morte representado pela espada de um inimigo, devemos estar firmemente estáveis e em guarda em corpo e mente e não nos intimidar com nada; sem oferecer a seu oponente a mínima abertura, controle sua mente num átimo e se mova para onde desejar – directamente, diagonalmente ou em qualquer outra direcção apropriada. Vá fundo mental e fisicamente, transforme seu corpo inteiro numa verdadeira espada e vença seu adversário. Este é o yamato-damashii, o princípio por trás da espada divina que revela a alma de nossa nação.
Na
essência, a espada é a alma do guerreiro e a manifestação da verdadeira natureza
do universo; assim, quando puxa a espada você está segurando sua alma nas mãos.
Saiba que quando dois guerreiros se enfrentam com suas espadas, o corpo e alma
de cada indivíduo se iluminam quando eles se juntam num mundo que necessita se
livrar da falsidade e do mal. [Um inimigo que surge] no Grande Caminho da
inspiração divina do espadachim dá a oportunidade ao guerreiro de activar
princípios universais e, através deles, servir de ajuda para a harmonização de
todos os elementos do céu e da terra, do corpo e da alma – glórias que perduram
para sempre.
Nossos
iluminados ancestrais desenvolveram o verdadeiro budo baseado em humanidade,
amor e sinceridade, cuja essência consiste em bravura sincera, sabedoria
sincera, amor sincero e uma empatia sincera. Essas quatro virtudes espirituais
devem ser incorporadas no treinamento constante da espada; molde constantemente
o espírito e o corpo e deixe que o brilho da espada transformadora envolva seu
ser inteiro.
Os
desportos são comummente praticados hoje em dia, e eles são bons para
exercícios físicos. Guerreiros também treinam o corpo, mas usam seu corpo como
veículo para treinar a mente, acalmar o espírito e encontrar a bondade e
beleza, dimensões que faltam aos desportos. A prática do budo cria valor, sinceridade, fidelidade, bondade e beleza, assim
como torna o corpo forte e saudável.
O Caminho é extremamente vasto. Desde tempos antigos até o presente, mesmo os grandes sábios foram incapazes de atingir e compreender a verdade totalmente; as explicações e ensinamentos dos mestres e santos somente expressam parte do todo. Ninguém pode falar de tais coisas em sua totalidade – somente direccionar-se para a luz e o calor, aprender com os deuses e, através da virtude da devoção ao treinamento, tornar-se um só com o divino. Procure a iluminação nessa direcção.
(...)
Todos os bujutsu do Japão demonstram
os ensinamentos do céu e da terra. Por exemplo, quando se está rodeado por
inimigos atacando simultaneamente com lanças, deve-se olhar para eles como se
fossem um único inimigo e passar cortando por eles com a mente firme.
Os
antigos usavam pilares e árvores como escudos, mas isso é um erro. Também não
devemos depender de outros para nossa protecção. Nosso espírito é o verdadeiro
escudo. Quando você enfrenta numerosos oponentes, desarme seus ataques, avance
directamente e vire-se para trás de suas lanças perfuradoras; aplicando esse
princípio, pode-se destruir o círculo e escapar para um lugar seguro. Quando
cercado, aplique esse mesmo princípio; avance e vire-se, cuidando para que sua
postura não se desestabilize e, assim, obstrua seus oponentes.
Aprenda
as dimensões correctas [da verdade], não treine no caminho da falsidade e não
viole a confiança sagrada que você recebeu dos deuses; cada pessoa é uma
miniatura do universo.
A
prática do bujutsu consiste em
derrotar um oponente dessa maneira; deve-se treinar para que esses princípios
envolvam seu corpo. Quando cercado por vários inimigos, pense neles como se
fosse um só; quando encarar um só inimigo, pense nele como sendo dez mil sem
lhes dar a mínima abertura. Construa assim o yamato-damashii, livre de qualquer insegurança na mente e corpo.
Unifique o que está acima, no meio e abaixo; entre decidido, gire e misture-se
com seus oponentes, à frente e atrás, à esquerda e à direita. É essencial
cultivar tal presença de espírito continuamente nos treinos.
Em
situações extremas, o mundo inteiro se torna seu inimigo; nesses momentos
críticos, esse tipo de unificação da mente com a técnica é essencial – não deixe
seu coração ter dúvidas!
O
corpo humano é criação do espirito divino. Assim como um pequeno raio de luz
pode dispersar a escuridão, devemos treinar e treinar com a intenção de
conseguir tal superioridade.
Num
manual de treinamento secreto escrito por um admirável ancião, há a seguinte
declaração: “Bujutsu deve ser
aplicado assim como um raio de sol inunda de luz um quarto, assim que a porta
é entreaberta”. Mais do que isso, a luz do seu treinamento deve ter a
capacidade de penetrar grades, paredes, pedras, ou qualquer outro material. Em
nosso caminho, nossas almas, nossos corpos e tudo o mais pertencem ao divino. O
propósito de um guerreiro é dominar em harmonia com a augusta presença,
técnicas marciais que vivificam tanto o mundo oculto quanto o manifesto.
Treine
repetidamente no mundo manifesto, treine no campo do oculto até que você possa
permanecer livre e continuamente em ambas as esferas. Esse é o espírito de que
precisamos para trazer à tona as virtudes ocultas da sinceridade e da fidelidade
para que sejam cada vez mais conhecidas em todo o mundo.
O Caminho é extremamente vasto, reflectindo o grande plano dos reinos do oculto e do manifesto. Um guerreiro é um santuário vivo do divino, que deve servir a um grande propósito.
(In Budo: Ensinamentos do Fundador do Aikido, Editora Cultrix, pp. 29, 33-34
e 38-39).
[1]
Budo: O Caminho da Virtude Marcial, o
Caminho do Guerreiro. Esse é um modo de vida dedicado à paz e a actos iluminados.
Aqui budo é usado no sentido comum
das tradicionais artes marciais japonesas e, mais especificamente, como
manifestação do aiki-budo de Morihei,
que acabou resultando na formulação do aikido. Algumas vezes no texto a
abreviação bu é usada, mas para
melhor compreensão, usamos o termo budo, mais formal, em toda a tradução.
[2] No sistema de Morihei, o cosmos
é activado e mantido pela interacção da água (mizu)
e do fogo (ka). Água é a matéria;
fogo é o espírito. Em combinação, eles formam iki, vitalidade, espírito, e kami,
o divino.
[3] Kotodama: a ciência esotérica do “som espiritual”. Kotodama são sons puros que cristalizam as vibrações de várias concentrações que são conhecidas como som, cor e forma. Cada princípio e técnica tem um kotodama, uma vibração sagrada que contém sua essência; se se compreende o significado de kotodama, pode-se apreender sua função (como água, por exemplo) e incorporar seu espírito (como o fogo).








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