domingo, 13 de março de 2011

Decisão e Indecisão na Casa de Portugal (i)

Escrito por Álvaro Ribeiro




Álvaro Ribeiro


Estar atento e ver claramente as ínfimas e subtis alterações de uma sociedade para outra sociedade, ou seja, do passado para o presente e do presente para o futuro, não é próprio da maioria dos homens que dificilmente vivem absorvidos pelas preocupações da luta quotidiana. Compete à minoria qualificada pelas predilecções intelectuais o advertir aqueles que, por conservarem ou repetirem fórmulas pretéritas mas sobreviventes nas escolas, nos partidos e nas seitas, se abeiram erraticamente das trevas sem fim. Denominar com palavras fixas em frases consolidadas os novos acontecimentos culturais que perturbam, abalam e subvertem o que já perdera a razão de ser, equivale a fechar os olhos pela irracional vontade de negar a movimentação e a articulação do real. Tal atitude dos velhos, daqueles que se fincam na paleolexia e na paleografia, recitando as histórias de que se imaginam autores ou de que se representam actores, não deve ser imitada pelos homens novos, aos quais é dada a promessa ou lícita a esperança de um novo viver.

Ante os vários acontecimentos que transtornam, transformam ou transmudam a cultura portuguesa, vemos já determinados ou extremados os pontos de referência, sem todavia notarmos a oposição clara entre o século dezanove e o século vinte, sem contudo indagarmos a tendência, ou o fim para que tende, a aceleração literária do tempo presente. O historicismo de todas as docências, tanto o dos sacerdotes, como o dos professores, como o dos jornalistas, acumulam no calendário litúrgico, lectivo ou político as trevas suficientes para obrigarem os desavisados estudantes a um pensar maculado de anacronismo. No ensino da religião, mais do que em qualquer outro, a palavra oral ou escrita segue atrelada a noções mortas de história diluída. Apologetas há que ainda referem às obras de Antero, de Teófilo e de Junqueiro os malefícios de um anticlericalismo, anticristianismo e antiteísmo sem sedução mental para os adolescentes do nosso tempo. Outros crêem ainda que a poesia cristalizou nas quadras de Correia de Oliveira, nas canções de Lopes Vieira e nos sonetos de António Sardinha, apenas porque estes escritores notáveis continuam a ser celebrados pela qualidade de mestres da reconquista cristã. Raros observam que as novas gerações preferem ler, consultar e meditar os livros, sucessivamente reeditados, de Fernando Pessoa, Teixeira de Pascoaes ou José Régio, e raríssimos interpretam ou explicam a razão mais séria para que tende o respectivo movimento cultural.

Na escala dos valores poéticos mantém seu principado a obra que mais inspirada comunicação nos oferecer do invisível, do insensível e do sobrenatural, ainda que na maioria dos casos seja indispensável a intervenção do intérprete, ou do tradutor, para determianar o grau, ou degrau, em que o poema ficou situado perante a verdade católica. Ao sobrenatural de Os Lusíadas costumam os escoliastas aplicar a designação minorativa e pouco epopeica de maravilhoso, contradizendo assim o teor dos próprios versos de Luís de Camões. Posto que a poesia vale por expressão do sobrenatural, resta dizer que muitas páginas de versos não são poesia, mas apenas artificial imitação da poesia. A história da literatura permitiu evidenciar que a mais alta poesia portuguesa tende para o Mistério da Santíssima Trindade, não só pela configuração literal do Espírito Santo, mas também pela referência nominada às duas outras pessoa divinas. Projectada em narrativas de biografia e de história, a poesia inferior perdura e sobrevive na medida da fidelidade aos outros mistérios transcendentes.



Leonardo Coimbra




A cristologia continua a ser o paradigma da antropologia. Fácil é entender, portanto, que a filosofia cristã haja recebido da obra de Leonardo Coimbra uma admirável contribuição para o seu aperfeiçoamento, tal como não será difícil entender também os mesquinhos e inconfessados motivos que obstam ao aproveitamento dos escritos portugueses na apologia católica. Dir-se-ia que a maior parte dos nossos sacerdotes só sabe francês, ignorantes da patrística grega e da patrística latina; preferem ver a luz de Paris, esquecem a voz de Roma. Dedicou-se Leonardo Coimbra a estudar na morte, no sono e no esquecimento, ou, pelo contrário, na memória, na vigília e na vida, os fenómenos que demonstram ser o homem um composto instável, verdade aliás afirmada pelas doutrinas do inconsciente e comprovada pelos resultados científicos da psicossomática, da psicanálise e da parapsicologia. Os modos de agir humano, que a criança confunde e que no adulto se separam até à oposição, os três modos do jogo, da arte e do trabalho, foram pelo filósofo analisados na sequência explicativa da luta pela imortalidade. Em estádio sublime da sua carreira de escritor, reconheceu Leonardo Coimbra que na ciência do composto humano está a legitimação doutrinal dos sacramentos, meios eficazes para a a finalidade da redenção. O pensador católico, embora solicitado pelas doutrinas voluntaristas e sentimentalistas que dominavam no seu tempo, afirmou sempre a prioridade da razão na hierarquia das faculdades humanas.

Mestre e educador de adolescentes, o grande teólogo, cosmólogo e antropólogo legou aos seus dicípulos os princípios ou segredos da reforma filosófica mais propícia ao aperfeiçoamento intelectual do povo português. Acreditava e afirmava que os superiores dons do nosso povo, se fossem educados por um sistema verdadeiramente nacional, multiplicariam maravilhosamente as heróicas façanhas que asseguram a permanência e a sobrevivência da Pátria. A dadivosa generosidade espiritual de Leonardo Coimbra nunca poderia ter sido bem acolhida num ambiente maculado e impregnado de positivismo.

Todos quantos tivemos a felicidade de ouvir as lições magistrais e as conferências inspiradas de tão excepcional homem superior, rememoramos que já no ano de 1925 começava a ser indigitada a figura do estudante José Marinho para intérprete, colaborador e continuador de Leonardo Coimbra na sequência docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A cultura, a reflexão e a eloquência de José Marinho, por todos nós admiradas em frequentes oportunidades e circunstâncias, justificavam a brilhante fama que ia irradiando entre várias sociedades e gerações de estudantes. Dir-se-ia, em linguagem jocosa, que entre os seus condiscípulos era José Marinho quem dava as cartas. As pessoas interessadas pelos estudos filosóficos esperavam impacientemente o dia em que o novo doutor, deixando de divertir perdulariamente o seu talento em diurnas e nocturnas conversas de tertúlias, se dispusesse a congregar para definido empreendimento de acção cultural os obedientes votos de quantos condiscípulos o respeitavam e estimavam. A República Positivista, com seu juízo escondido, isto é, com a sua hipocrisia, resultara num fracasso perante a reacção militar. A vida portuguesa iria sofrer um período pragmatista de acção directa, enquanto não fossem delineados os necessários fundamentos da nova legislação hegelista ou hegeliana. Foi sendo o tempo mais propício à intelecção das relações entre o direito e a filosofia, obliterador pelo positivismo, e em breve foi visto que o direito político pressupõe uma filosofia corporativa, o direito do trabalho pressupõe uma filosofia do trabalho. Vencido o positivismo, as circunstâncias davam uma oportunidade excelente para filosofar em simpatia ou antipatia com a obra de Hegel, muito divulgada pelos germanófilos no nosso país. Nem depois da morte de Leonardo Coimbra, ocorrida em 1936, se decidiu José Marinho a presidir à fundação de uma sociedade filosófica, a promover a direcção de uma revista cultural, a publicar os seus melhores manuscritos, embora ciente de que a sua intervenção conciliadora e concordante poderia acelerar a redenção da Pátria. O pensador, já hesitante entre o trabalho, a arte e o jogo, continuava a frequentar assiduamente tertúlias mais ou menos provincianas, sem dar notícia do que ia escrevendo, sem dar anúncio do que iria editar. Consciente do valor próprio, não procedia com inveja perante a revelação do valor alheio, que saudava nos opúsculos dos seus condiscípulos mais heróicos, mais audaciosos ou mais apressados. Hábil no trabalho da epistolografia e na arte do colóquio, José Marinho mostrava-se pródigo no elogio, no louvor e no encómio de quantos literatos lhe davam notícia de haverem publicado uma folha, um caderno ou um livro, sem intransigência nem compromisso perante a variedade de seitas, partidos ou escolas. Estimado por todos, o pensador continua, porém, a esconder o seu drama e o seu jogo. Na reflexão secreta sobre sucessivos eventos da sua experiência teológica, poética e filosófica, foi paulatinamente pondo e compondo os elementos do livro intitulado Teoria do Ser e da Verdade, no qual explica tão enigmático silêncio e responde ao apelo insistente dos companheiros de geração.






O esperado livro foi, enfim, publicado no anos de 1961. A obra contém várias notas de autobiografia espiritual, não só na parte da introdução, com o é da praxe, mas também ao longo dos principais capítulos. Em vários tópicos diz o autor haver longamente atendido ao que lhe foi ensinado e ao sentido fundo do que lhe foi ensinado, meditando lentamente sobre todas as perplexidades antes de descer ao fundo, ao fundamento e ao fundamental de muitas questões. Tão severas exigências intelectuais levaram o pensador a considerar as ilusões, os erros e os sofrimentos dos homens para se libertar e desprender de tudo quanto seja lisonjeiro para a vaidade humana. Esta descrença quanto aos motivos do agir e à eficácia da acção explica a ausência de soluções pensadas sobre os problemas económicos, políticos e religiosos, como também responde francamente pela ludicidade que acompanha o cepticismo do autor.

Depois de longa viagem que é a vida humana, especialmente para o estudioso que a todo o momento se interroga sobre a adequação do pensar ao agir, até o céptico se detém perante o termo da quietação e de segurança que costuma ser universalmente denominado pela palavra Deus. Escritores há que excluem tal palavra, por motivos vários entre os quais avulta o medo de uma ou outra pressão social, e transferem para nova palavra a designação do absoluto, infinito ou eterno, isto é, do envolvente que necessariamente há-de ser solicitado por todo o pensamento relativo, finito ou efémero. A bem dizer não há ateísmo. É concedida aos filósofos livre escolha de vocabulário pela simples razão de ser uma arte a filosofia. O artífice que não souber forjar a ferramenta própria do seu artesanato jamais produzirá uma obra-prima, de assinatura pessoal, porque se resignará a ser um operário anónimo de qualquer fábrica metropolitana ou um mero empregado de qualquer faculdade universitária. Dado, porém, que para José Marinho a filosofia é muito mais um jogo do que uma arte, melhor diríamos que o mesmo pode ser alterado para a magia de efeitos lúdicos. As palavras preferidas e escolhidas vão sendo escritas com inicial maiúscula, vão adquirindo personalidade teatral, para aceitarem as responsabilidades dos muitos e das culpas, para figurarem como agentes do drama filosófico, já que nenhum escritor se liberta totalmente da nostalgia de qualquer fabulação mais ou menos mitológica. Assim as cartas de jogar, que comercialmente transitam de país para país, designam e significam diferentemente a sorte dos vários povos. O que nós, Portugueses, denominamos por copas, espadas, ouros, paus é por outros denominado coeurs, piques, carreaux, trèfles, ou hearts, spades, diamonds, clubs, ensinamento notável para quem souber ver a subtil distinção entre o designar e o significar. Atribuindo palavras portuguesas, plenas de significação étnica, aos mesmos conceitos que atravessam fronteiras, procede-se ao contrário do universalismo das escolas que têm a pretensão estulta de nacionalizar também a ortofonia e a ortografia de vocábulos estrangeiros.

José Marinho começou por escolher no vocabulário da língua portuguesa as palavras que lhe pareceram mais adequadas à expressão das noções essenciais e decisivas da sua filosofia. Deste insólito afastamento da tradição, da memória e do passado resultaram algumas dificuldades para os leitores habituados à nomenclatura escolástica, predominantemente racionalista. Não será, porém, muito árduo ao leitor benevolente o respeitar uma nomenclatura nova que pela sua severidade evita a maliciosa sugestão das associações já feitas e a perigosa indução em erros refutados, porque as claves da teoria podem ser transferidas, traduzidas e interpretadas na conversão inteligente para o já assimilado. Prestando atenção ao que o autor quer dizer, ou não quer dizer, irá o intérprete, o tradutor ou o transferidor adquirindo familiaridade com expressões tais como visão unívoca, cisão cumulativa, insubstancial substante, interrogação fundamental, patente e secreto, liberdade divina, etc., na medida em que se purificar das repercussões afectivas, emocionais ou passionais, provocadas pela amargura de tão insólita nomenclatura.




José Marinho




Maior dificuldade encontrará o leitor nos hipérbatos de que o autor usa e abusa com excessiva frequência, transpondo as palavras para fora da ordem ou da sintaxe a que estamos habituados no discurso oral ou escrito. Tal dificuldade obriga o estudioso a fazer uma leitura lenta, com demora na ponderação de cada particípio, adjectivo ou substantivo, auscultando a acepção que lhe foi atribuída no lugar natural ou artificial da cláusula, mas também obriga o leitor diligente a evitar o equívoco e a anfibologia mediante a atenta pesquisa do sujeito e do predicado nas imprevistas posições de uma sintaxe barroca. Atropelam-se por vezes as palavras mais significativas em proveito da livre figuração de uma melodia silábica que na melhor fluência produz o efeito de saudosa ou melancólica evanescência, aliás própria da desiludida recordação dos inactivos ou contemplativos. A sinfonia sugere a teoria. É dada ao leitor a indicação de que o livro poderia ter sido talvez escrito num estilo narrativo, cadenciado por advérbios de tempo, acumulando atributos, epítetos ou predicados nos moldes do poema teogónico ou do sermão teológico, se o autor não tivesse declarado assumir toda a responsabilidade de quem escreve uma obra de filosofia, isto é, de quem exprime pensamento puro da razão mais pura.

Fácil será verificar que tal responsabilidade não foi suficientemente cumprida ao longo dos capítulos, das partículas e das partes da Teoria do Ser e da Verdade. Sucedem-se as frases, os períodos e as cláusulas sem que tais resultados de pensamento - resultados de alto ensino e de funda meditação - sejam acompanhados dos elementos que poderiam avisar, esclarecer ou iluminar o leitor. Ignora-se que resultem de inferência, indução, dedução, analogia ou intuição, os pensamentos que o autor diz haverem sido sobre ele lenta, longa e sinceramente reflectidos, mas tal imposição ou sobreposição do argumento de autoridade, por muito amável ou respeitável que seja, o escritor céptico e místico, nunca poderá ter o valor comunicativo ou persuasivo dos processos trabalhosos da razão. Quem elabora tão conscienciosamente uma obra destinada ao público, prevendo todas as possíveis objecções, não deverá ficar surpreendido com o efeito que ela possa produzir na maioria dos leitores cultos ou incultos, nem deve agastar-se com a diversidade das opiniões.

De uma obra apresentada como teoria aos leitores mais exigentes esperam uma série de teoremas. Tal não sucede neste livro perturbante e perturbador que, na sua acerada polémica não só contra o racionalismo mas também contra a razão, procura desviar os pensadores portugueses do tradicional rumo das suas aventuras para os distrair com visões cépticas e visões místicas, igualmente hostis à arte de filosofar. Teoria da indecisão ou teoria da indiferença, o livro assinala os pavores do nosso tempo, mas carece de actualidade (in As Portas do Conhecimento, Dispersos Escolhidos, IAC, 1987, pp. 267-272; o presente texto fora publicado em Tempo Presente, III Ano, n.º 21, Lisboa, 1961, 6-18).






Continua


sexta-feira, 11 de março de 2011

Tao Te King

Escrito por Lao Tsé







Olha-se e não se vê.
Diz-se que é raso.
Escuta-se e não se ouve.
Diz-se que é raro.
Agarra-se e não se prende.
Diz-se que é fino.

Sobre estas três coisas
nada se pode indagar.
Por isso, são algo indefinido que forma um todo
que nem é brilhante em cima,
nem obscuro em baixo.
É um fio sem fim!
Não se pode descrever.
Depois volta a ser coisa nenhuma.

Chama-se-lhe a forma do que não tem forma,
a aparência do que não tem aparência.
Chama-se-lhe obscuridade fugidia.
Quando a encontramos, não lhe vemos o início.
Quando a seguimos, não lhe vemos o fim.

Apreender o Tao antigo
lidando como o que existe no presente,
sendo capaz de reconhecer a antiga ordem,
a isso se chama desembaraçar o fio do Tao.

(in Tao Te King, Relógio D'Água, 2010).



Confúcio encontra-se com Lao Zi


terça-feira, 8 de março de 2011

O'Sensei Morihei Ueshiba (ii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte











...Durante os três anos que se seguiram à guerra, o Hombu Dojo de Wakamatsu-cho viu-se obrigado a reduzir as suas actividades por variadíssimas razões, entre elas a proibição imposta às artes marciais pelas Forças de Ocupação Aliadas. Todas as actividades no dojo central passaram assim para Iwama, de maneira que, graças a este dojo, o Aikido pôde perdurar numa época em que a atitude geral para com as artes marciais era profundamente negativa.

Há muito que o Fundador perseguia o ideal de estabelecer um centro de Aiki, o que praticamente acabou por se tornar numa realidade durante os conturbados anos da guerra. Depois desta, era quase um milagre. Consequentemente, deve ter sido muito gratificante para ele conseguir fugir da vida frenética de Tóquio para, num regime de total exclusividade, se dedicar ao ideal do verdadeiro Budo.

O caminho para a recuperação do Aikido começou em Fevereiro de 1948, com a aprovação oficial do Aikikai como nova instituição. O Aikido foi, primeira vez, publicamente reconhecido em Setembro de 1956, nos Armazéns Takashimaya (Tóquio), sendo a Primeira Demonstração Pública patrocinada pelo Aikikai e realizada, em 1960, na Sala Yamano, em Tóquio. O ponto culminante do restabelecimento chegou depois da guerra, uma vez concluído o novo Hombu Dojo, em Janeiro de 1969.

Dada a expansão do Aikido, não há nada como reflectir nas decisões perfilhadas pelo Fundador aquando da guerra e no período imediatamente posterior. Ora, se Mestre Ueshiba, em vez de se ter refugiado em Iwama, houvesse permitido que o Kobukan Aikido-Budo se fundisse, durante o conflito, com as outras artes marciais, a história do Aikido teria então certamente terminado. Ambos os nomes, o de Mestre Ueshiba e o do Aikido com seu breve e glorioso capítulo no Budo durante os anos que antecederam a guerra, podiam assim ter sido relegados para os livros de história e transformados em lendas obscuras nos anais das artes marciais.

Na actualidade, o êxito e a nomeada do Aikido muito devem ao intento do Fundador em se ter dedicado, na remota região de Iwama, à busca espiritual da essência das artes marciais. Mediante o seu exemplo, Mestre Ueshiba demonstrou que o progresso do Aikido não se mede pela quantidade dos seus seguidores, mas, sim, pela intensa profundidade oriunda da procura pessoal da verdade através do treino e da prática. Eis, no meu entender, a mais importante razão para que o Aikido seja aquilo que é hoje.

O preceito Zen que preconiza "Reflectir sobre os nossos passos", adverte-nos para amiúde confirmarmos se os nossos pés pousam realmente em terra firme. Enquanto praticantes de Aikido, devemos sempre reflectir sobre os passos que damos, não obstante podermos prosseguir juntos com base em altos ideais e apaixonados pela verdade.

Nada mais desejável pode haver que o crescimento e a expansão espirituais. Contudo, se os nossos olhos apenas forem atraídos por fenómenos superficiais, a ponto de perdermos a visão da essência do Aikido, então – da mesma forma que um pião, perdendo o equilíbrio e o movimento cinético, quedará necessariamente imóvel – também a Via perderá a sua vitalidade, dividir-se-á e virtualmente desaparecerá. Quando penso nos anos que o Fundador passou em Iwama, reflectindo sobre si próprio, tomo cada vez mais consciência da minha missão» (9).

É verdade de que, após a derrota japonesa em 1945, a Ocupação Aliada - sob o comando do general dos Estados Unidos, Douglas MacArthur (10) - proibiu a prática das artes marciais no Japão (11). Todavia, tal não impediu que, uma vez suprimido o Butokukai, os professores do Kodokan ensinassem Judo às tropas americanas. No caso do Aikido, o Ministério da Educação dera permissão, a 9 de Fevereiro de 1948, para o restabelecimento do Aikikai, se bem que com algumas reservas (12).




Morihei Ueshiba













Consequentemente, várias e diversas foram as viagens, os cursos e as demonstrações que o Fundador dera por todo o Japão, chegando mesmo a viajar aos Estados Unidos em 1961, convidado pelo Aikikai do Havai. No ano anterior, pudera receber, juntamente com Yosaburo Uno (10º Dan de Kyudo), o prémio Shijuhosho (13) atribuído pelo Imperador do Japão, Hirohito. Em 1964, receberia ainda, por via do Imperador, mais um prémio especial pela sua contribuição para o aprofundamento espiritual das artes marciais.

O carácter místico e esotérico de Mestre Ueshiba dera igualmente azo a que, depois da sua morte - ocorrida em 1969 -, fosse cognominado de «Deus marcial». As suas façanhas incluíam a projecção de um lutador de Sumo com um só dedo (14), assim como a proeza de não ter sido atingido uma única vez num desafio contra vários kendokas. Aliás, não deixa de ser interessante quão reveladora a relação que Mabuni Ken’ei (15) estabelece entre M. Ueshiba e Sagawa Yoshiyuki, ambos discípulos do já referido Takeda Sokaku, da escola Daito-Ryu, mais propriamente denominada Daito-ryu-aiki-bujutsu (16).

E dizemos interessante e reveladora porque, como conta Mabuni Ken’ei, baseado no livro de um discípulo de Sagawa (Kimura Tatsuo), intitulado a Força Invisível, duas interpretações aparentemente diferentes decorrem do termo aiki (17), na medida em que para Ueshiba era espiritualmente uma, ao passo que para Sagawa era concreta e tecnicamente outra. Quer dizer: no fundo, as duas versões, ainda que distintas ao nível da respectiva manifestação, desembocavam na mesma finalidade marcial, muito embora a primeira procurasse a ligação iniciática e a segunda o completo despojamento da carga religiosa e sobre-humana em prol de uma procura mais consentânea com as leis da natureza.

Em todo o caso, a nossa intuição diz-nos que há uma diferença de grau deveras substancial entre tais concepções marciais. E a razão está em que, não obstante a via preconizada por Sagawa renunciar ao culto da força física - tal como no Karaté em geral -, ela, por princípio, tende a permanecer aquém da via consagrada por Mestre Ueshiba, via essa apostada em articular e harmonizar o sensível e o inteligível, o visível e o invisível, ou, se quisermos ainda, a Natureza e Deus. Em Sagawa, pelo contrário, influi e predomina a lógica da lei natural, da queda e da gravidade, muito embora segundo uma lógica que nada tem que ver com a concepção racional e científica do Ocidente.

Para os artistas marciais, pelo menos ao nível dos grandes mestres do Extremo Oriente, como Morihei Ueshiba, a objectividade da lógica conceptual não logra alcançar a causalidade, a substancialidade e a finalidade da «realidade» múltimoda e una. É, pois, o que o Fundador nos diz à luz dos Poemas do Caminho:



O verdadeiro Budo
é impossível de ser descrito
por palavras ou letras;
os deuses não permitirão
tais explicações.

Técnicas com Espadas
não podem ser contidas
em palavras ou letras
Não dependa de tais coisas –
mova-se em direcção à iluminação (18).








Do ponto de vista do ethos espiritual, emocional e psico-fisiológico, sabemos ter sido O’Sensei Ueshiba a personificação suprema das artes marciais no Japão e no mundo universalmente considerado. Nem mesmo Gichin Funakoshi, que fizera ressaltar a diferença entre o Karaté-jutsu e o Karaté-do (19), alcançara o nível de quem tudo ou quase tudo movia à luz do princípio metafísico do Ki, princípio, de resto, intraduzível noutras línguas que não a japonesa (20). Ora, tal acontece porque esse obscuro princípio remonta às escolas do pensamento chinês, posto que já expresso na imagem do yin e do yang (Lao-Tse), na plenitude vital (Huai-nan-Tse), no valor que provém da rectidão moral (Mencio) e na força divina que impregna todas as coisas (Kuan-Tse).

O princípio do Ki foi mais tarde introduzido no Japão durante os Períodos Nara (710-794 d. C.) e Heian (794-1185 d. C.). Daí adviriam naturalmente as mais díspares interpretações no contexto do budismo e da religião Shinto, bem como no contexto do desenvolvimento espiritual da casta guerreira dos samurais durante o Período Togugawa (1600-1868). Em suma: o princípio do Ki, para estes últimos, podia assumir diferentes formas, entre as quais a de valor (shi-ki), força de vontade, (i-ki), vigor, (kei-ki), bravura, (yu-ki), igualdade, (kei-ki), conservação da energia, (shu-ki) ou respiração, (ki-soku).

No caso de O’Sensei Ueshiba, não estava em questão esta ou aquela forma, mas todas as formas momentânea e circunstancialmente implicadas segundo o preceito japonês que aduz que «a extrema dureza controla a suavidade e a extrema suavidade controla a dureza». Nesse processo, contava mais a prática do que a palavra. Mas mais ainda contava a observação, não propriamente quanto à técnica (waza), mas sobretudo quanto à sensação e ao sentimento na apreensão do movimento centrípeto de O’Sensei Ueshiba.

Muitos foram os que assim se sentiram na presença do Fundador – «uma presença quase divina», conforme deixaram patente no seu testemunho pessoal e directo. Depois, uma vez na posição de Uke, podiam também ver as pernas lá em cima no tecto, numa situação inibidora para a prática do ukemi, isto é, as quedas amortecedoras com o fim de atenuar o impacto decorrente de uma projecção. Por conseguinte, dizia O’Sensei: «O Budo é uma dádiva de Deus e jamais uma criação humana» (21).

Aluno de G. Funakoshi, Shigeru Egami também apelou para o Ki na prática do Karaté entendido como percepção extra-sensorial na união do corpo, da alma e do espírito (irimi). Para o efeito, procurou Morihei Ueshiba de modo a apreender, segundo as suas possibilidades, a quintessência do princípio divino presente em todos as coisas e seres do universo. E, de facto, consta que aprendeu muito com o Fundador (22), a ponto de implementar o Karaté a longa distância (Toate), no qual o objectivo está em projectar um golpe sem qualquer espécie de contacto físico ou materialmente afim.


Demais, Egami lograra ainda compreender, com base nos ensinamentos de Mestre Ueshiba, a razão por que G. Funakoshi, não obstante a sua idade avançada, pusera a tónica na concentração da energia (kime) ora num centro de gravidade mais alto, ora na prática flexível e relaxada do movimento marcial. Aliás, essa dinâmica estava perfeitamente em uníssono com o que originalmente fora praticado em Okinawa, um pouco à semelhança da herança chinesa (23). Egami, em livro de sua autoria, diria mesmo, numa acepção largamente inspirada na esfera espiritual da liberdade última: Karate ni sente nashi (“No Karaté não há primeiro ataque”) (24).

O Aikido, por sua vez inspirado no movimento esférico, não contém técnicas ofensivas nem é, fundamentalmente, uma arte marcial que incida no uso de armas, se bem que nele existam aplicações básicas ao nível do sabre, da faca e do bastão. O Aikido, repudiando a competição, é sobretudo a herança espiritual e milenar mais valiosa das artes marciais japonesas (Budo), porquanto pacificamente adaptada a um novo tempo em que crianças, homens e mulheres praticam em ressonância e rotação conjunta. O Aikido está, por conseguinte, espiritualmente aberto a todas as pessoas, raças e nacionalidades do mundo, em nada incompatíveis com o nacionalismo místico e universalista do Fundador (25).

Além do mais, entre a Via do Aiki e a Via do Sabre existe uma comunhão de princípios. Daí a mão-espada (te-gatana), movimento habitualmente empregue no Aikido à semelhança de um «espadachim». No fundo, é como se cada aikidoka atacasse com um sabre, apesar de a mão não ser considerada uma extensão do corpo, ao contrário do que acontece no Kenjutsu ou no Kobudo. Daí igualmente, em contexto apropriado, a distância (ma-ai) entre dois aikidokas segundo o modelo adoptado na arte de esgrimir (Kenjutsu), cuja distância se mede pela sobreposição ligeira da ponta de dois sabres em posição de guarda (kamae) (26).

De resto, existem vídeos com Morihei Ueshiba treinando e fazendo demonstrações em épocas, momentos e circunstâncias diferentes da sua vida. São, aliás, testemunhos extraordinários de como o Fundador, à medida que envelhecia, substituía o contacto físico pelo contacto espiritual. São, por isso, «bem visíveis» os instantes em que derruba ou faz cair os aikidokas sem lhes tocar fisicamente, numa manifestação poderosíssima do Ki em circulação cinética e ondulatória por entre as coisas, os seres e o universo.

Além do mais, George Lucas, o argumentista e realizador da Guerra das Estrelas, inspirou-se em O’Sensei para a criação de uma das suas personagens mais exóticas - Mestre Yoda, um espadachim da Grande Ordem de Jedi -, com apenas 66 centímetros de altura, e, no entanto, capaz de preservar e transmitir a «Força» misteriosa que a tudo e a todos envolve. Enfim, um enredo já bastante conhecido nos termos da luta entre o Bem e o Mal, ou entre Obi-Wan Kenobi, Luke Skywalker e o lado negro da «Força» personificado na Ordem Sith e em Darth Vader (Anakin Skywalker). Não seria, porém, a única adaptação norte-americana das artes marciais ao mundo fictício de Hollywood, já que Os Sete Samurais, do realizador japonês Akira Kurosawa, também chegou a ser devidamente adaptado sob o título de Os Sete Magníficos - um Western realizado por John Sturges e protagonizado, entre outros, por Steve McQueen, James Coburn (ambos alunos de Bruce Lee), Yul Brynner e Charles Bronson.































































































Em suma: May the Force be with you.


Notas:

(9) U. Ueshiba, ob. cit., pp. 115-118.

(10) O Comandante Supremo das Potências Aliadas discursou na cerimónia de rendição do Japão a bordo do USS Missouri, na Baía de Tóquio, a 2 de Setembro de 1942. «MacArthur tranquilizou os Japoneses, não apenas com o seu discurso, mas, sobretudo, com o seu modo de agir. Estando então com 65 anos, era general desde os 38 (nessa altura, foi o general mais novo de sempre da história dos Estados Unidos). Era um homem nascido para comandar, um homem digno e autoconfiante, firme, mas também benevolente e possuía uma convicção quase messiânica no seu destino divino para moldar a História. Em alguns aspectos, fazia recordar os oligarcas Meiji, com a sua mistura de democracia e autoritarismo e, decerto, com a sua convicção de que era ele que mais sabia o que era melhor para o povo que governava. Para uma nação acostumada a ser dirigida, foi um novo líder bem-vindo. Foi aclamado pelos Japoneses como um novo xógum, como o imperador americano do Japão e mesmo como um deus. Os seus próprios homens costumavam dizer por graça que quem acordasse de manhã bem cedo podia vê-lo a caminhar sobre as águas do fosso do Castelo Imperial, a pouca distância do seu quartel-general» (in História do Japão, p. 198).

(11) De maior impacto foi ainda a célebre cláusula de “não guerra” inscrita na nova Constituição do Japão. Eis, na íntegra, o artigo IX: «Aspirando sinceramente a uma paz internacional baseada na justiça e na ordem, o povo japonês renuncia para sempre à guerra como direito soberano da nação e à ameaça e ao uso da força como meio de resolver questões internacionais.

Para cumprir o objectivo do parágrafo precedente, nunca mais serão mantidas forças terrestres, navais ou aéreas nem quaisquer outros meios de fazer a guerra. Não será reconhecido o direito de beligerância por parte do Estado» (in História do Japão, p. 201).

(12) O Aikikai era, por esta altura, simultaneamente conhecido por dojo Ueshiba e Quartel-General Mundial do Aikido. Em 1954, foi dado ao principal dojo de Tóquio o título oficial de Fundação Aikikai, o Hombu Dojo do Aikido.





(13) Esse prémio só havia sido concedido a apenas três pessoas do mundo das artes marciais: ao judoka Kyuzo Mifune e aos kendokas Kinnosuke Ogawa e Seiji Mochida.

(14) Não se trata obviamente da força aplicada pelo dedo, mas de toda a energia do Ki concentrada e manifestada no mesmo.

(15) Filho de Mabuni Kenwa, fundador do Karaté Shito-Ryu.

(16) Cf. Mabuni Ken’ei, La Voie de la Main Nue, Iniciation et Karaté-Do, Éditions Nervy, 2004, pp. 189-192.

(17) Entre o Aiki-bujutsu e o Aiki-Do a diferença é, basicamente, esta: o primeiro reside na aplicação e na eficácia técnica, o segundo no caminho da harmonia espiritual.

(18) M. Ueshiba, Budo, p. 30.

(19) Ou entre o Karaté puramente técnico ou letal e o Karaté enquanto realização ou aperfeiçoamento espiritual.

(20) Os ingleses, por exemplo, traduzem um tal princípio por spirit, os franceses por esprit e os alemães por Geist. São, no entanto, simples equivalentes linguísticos que não estão à altura da significação abscôndita do mesmo.

(21) Eis também por que, para O’Sensei, «o Budo não é uma apreensão alheia, mas tão-só uma apreensão única e individuada».

(22) O Mestre Taiji Kase foi quem, em inúmeras ocasiões, acompanhou Egami nas suas visitas a Ueshiba. A respeito do último, disse: «Era muito amável, simpático e… muito poderoso».

(23) De facto, o Karaté fora menos duro e rígido nos tempos que precederam a Segunda Guerra Mundial. Contudo, o Karaté também resultara das modificações introduzidas por Yoshitaka, filho de G. Funakoshi. Como tal, Yoshitaka introduziu no Shotokan, até aí escudado no uso de projecções, posições e técnicas de curta distância, os movimentos de maior flexibilidade e dinamismo direccionados para os pontos mais altos do corpo humano. Entre esses movimentos, temos os seguintes: mawashi-geri (pontapé circular), yoko-geri (pontapé lateral) e ushiro-geri (pontapé à retaguarda).

Shigeru Egami








(24) Shigeru Egami, The Heart of Karate-Do, Kodansha International, 1986, p. 19.

(25) Morihei Ueshiba praticava sempre o Aikido em lugares selectos e sagrados, fossem dojos ou em plena natureza. Sabia mesmo que a raça e o espírito japonês tinham tido o seu princípio em Amaterasu Oho-Mi-Kami (Deusa do Sol) e Susanoo No-Mikoto (Deus do Oceano e irmão de Amaterasu).

(26) De notar é o facto de Morihei Ueshiba ter praticado a arte do sabre (Escola Shinkage) ainda antes de ter aprendido o jujutsu clássico.