terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Portugal e o iberismo (iv)

Escrito por Franco Nogueira




Península Ibérica vista do espaço


Uma pergunta ocorrerá certamente: o iberismo espanhol, naqueles finais do século XIX, limitava-se aos círculos políticos militantes, tanto republicanos como monárquicos, e por razões de oportunismo? Ou era reflexo também de toda uma elaboração cultural e doutrinária? Na realidade, naquele período afirmou-se em Espanha toda uma teoria de escritores, ensaístas, filósofos, historiadores, críticos, polígrafos em suma. Foram homens eminentes, e representaram sem exagero uma das mais altas expressões da intelectualidade europeia na época. Como se definiram esses homens em face do iberismo? Não tento sequer esboçar aqui um inventário, mesmo aproximado, de todas aquelas figuras, e seu comportamento no capítulo. Deverá adiantar-se, contudo, que o escol castelhano daquele período se conservou inteiramente à altura das grandes tradições na matéria, e foi fervorosamente iberista, e em nada se desviou da rotina do passado. Haverá mesmo de acrescentar-se que procurou para o iberismo novos fundamentos doutrinários, novos motivos históricos, nova inspiração ideológica, novos objectivos políticos. Dir-se-ia que assim melhor se ocultariam os propósitos reais, tornando estes, porque mais disfarçados e mais subtis, mais aliciantes também, e até aparentemente inócuos e favoráveis a Portugal. Reflectiam além disso, como sempre, a própria orientação oficial. Esta foi constantemente iberista durante os reinados espanhóis na transição para o século XX, e durante este até Afonso XIII, bem expressivo aliás na entrevista já conhecida. E afigura-se plausível sugerir, e acaso até concluir, que toda aquela orientação era inspirada, entre outras fontes, pela História Geral de Espanha, de Modesto Lafuente, de grande influência na primeira metade do século XIX. Mas o iberismo dos intelectuais transcende em muito os aspectos meramente históricos: trata-se, para aqueles, de uma alta missão a ser cumprida por mandato de épocas imemoriais, de obediência a um sentido providencial que aponta um destino, de um imperativo escrito nas coisas e nas almas, de um dever sacrossanto para cada espanhol.

Menendez Pelayo é um primeiro nome. Foi grande admirador de Oliveira Martins, que considerava o maior historiador-artista da Península. Para a sua reconstituição da Espanha, esta aparecia a Pelayo como una, e abarcava toda a Península. Na sua obra de história e de crítica literária, poetas portugueses como Gil Vicente e Camões, surgem ao lado de espanhóis sem que se assinalem diferenças de raiz ou cultura: porque todo o complexo peninsular, como escreve Garcia Morejon, continua sendo Espanha na actualidade, sem embargo de 1640. Para Pelayo, a Espanha é toda a Península Ibérica, e a unidade da história não permite que se atendam artificiais divisões políticas (Miguel Artigas, La España de Menendez Pelayo, 54, Valhadolide, 1938). Portugal era simples região, a pertencer a um federalismo que deveria constituir a forma de governo natural do conjunto. Uma futura união não deveria usar o nome de Ibéria mas o nome «tradicional e venerando de Espanha»; a literatura portuguesa não era distinta da espanhola mas irmã da castelhana, de que é parte integrante; e não havia teatro português, ou castelhano, ou catalão, mas singelamente teatro espanhol. Das mesmas opiniões partilha Juan Valera, que foi embaixador em Lisboa, e grande amigo de Pelayo. E Ramon Menendez Pidal, discípulo preferido de Pelayo, é igualmente claro. Para este, a emancipação de Portugal é sintoma e resultado da decadência geral de Espanha; esta deve procurar ser unitária e antilocalista; e Pidal lamenta que corresponda a uma idade áurea já ida o pensamento de Quevedo, para quem o Deus dos exércitos havia ajudado a Espanha nas batalhas do Cid, das Navas de Tolosa, e «nas empresas de Vasco da Gama, de Cortez ou de Cisneros» (Ramon Menendez Pidal, Los Españoles en la História, 193). Paralelamente, persistiam na mesma orientação muitos dos que, por alturas do ultimatum, já haviam sido entusiastas da união ibérica: eram então jovens impetuosos: e estão neste caso Angel Canivet, Valle Inclan, Pio Baroja, Martinez Ruiz (Azorin), Ramiro de Maetzu; e o próprio Miguel de Unamuno, mais do que todos conhecido e admirado então em Portugal, não excedia os seus vinte e seis anos (8). Sobre Unamuno justifica-se por isso uma palavra à parte.



Miguel de Unamuno



Muito jovem estudante de Filosofia e Letras em Madrid, Unamuno observa a Espanha e considera os seus problemas, organiza para si uma consciência de pátria; e esta leva-o ao iberismo. É também um discípulo de Menendez Pelayo, e por igual um admirador de Oliveira Martins. Segue-lhes os mesmos traços; mas evolui depois, já nas primeiras décadas do século XX, para um iberismo diferente. Tem os Portugueses por irmãos, e também os Latino-Americanos; mas não concebe a sua existência separada da Hispania. Para Unamuno, a palavra hispanidade reveste-se da máxima dimensão e do máximo conteúdo: deve abranger todos os povos peninsulares e todos os povos ultramarinos junto de quem a acção da Hispania se tenha feito sentir. É a antiga concepção dos Reis Católicos e de Filipe II. Jamais Unamuno encarou o conjunto de um ângulo localista, isto é, vasco, ou castelhano, ou português, ou catalão. E assim o mestre salamantino se torna um inimigo do republicanismo federativo peninsular: este era, para Unamuno, um impossível absoluto. Porquê? Porque o federalismo não supunha integração; e sem esta seria efémera toda a unidade (e aqui parece que o professor de Salamanca não entrava em linha de conta com o génio centralizador de Castela). Neste particular, Unamuno frisa com o pensamento de Oliveira Martins: se em vez de união real e exploração se houvesse seguido o caminho da incorporação e assimilação, Portugal haveria desaparecido para sempre do rol das nações (9). Assim considera Unamuno que uma monarquia, ainda que federal, não unia: apenas uma república revolucionária, por lógica crítica e unitária, conseguiria esse objectivo: e convinha por isso não confundir federalismo com republicanismo ou liberalismo. No fundo, o reitor de Salamanca regressa à unicidade dos Filipes, de Pelayo e de Pidal. E nas suas prolongadas estâncias em Portugal, julga Unamuno encontrar provas complementares das suas concepções. Firma-se a sua amizade por Teixeira de Pascoaes, o «poeta dulcíssimo», e com Guerra Junqueiro, «o maior lírico português entre os vivos e um dos maiores do mundo de hoje»; e globalmente entende a poética portuguesa como de essência peninsular. Não apenas a poética portuguesa: toda a alta cultura portuguesa, toda a grande literatura portuguesa são peninsulares, ibéricas, espanholas. É quanto resulta claramente dos livros e cartas de Unamuno; e tudo está pormenorizado no bem documentado volume de Júlio Garcia Morejon Unamuno y Portugal, Madrid, 1971. Unamuno admirava profundamente alguns escritores portugueses de fins do século XIX e princípios do actual. Tornemos a Antero. Com este partilhava o reitor de Salamanca do mesmo sentimento trágico da vida e de igual agonia filosófica. Mas para Unamuno e Morejon, Antero é ibérico; e sublinham que o poeta dos Sonetos defendeu com calor a fusão ibérica e confabulou com José Fontana uma república federal ibérica. Mas Morejon, que cita a carta de Antero a Stork, omite que nesse mesmo documento concluiu o poeta pelo repúdio do iberismo. Unamuno considerava João de Deus «o maior lírico entre os mortos»; admirava-lhe a extrema simplicidade; e o autor do Campo de Flores teria um fundo espanhol e romântico. Também Camilo Castelo Branco era um novelista ibérico por excelência, símbolo da paixão peninsular; e para Unamuno o Amor de Perdição, que lhe teria sido dado a conhecer pelo seu amigo Teixeira de Pascoaes, era obra fundamental da literatura ibérica, da alma ibérica. Mas nem Unamuno nem Morejon aludem à recusa de Camilo em acolher o iberismo no momento de emoção causada pelo ultimatum britânico. De Eça de Queirós diz Unamuno que é ibérico o seu sarcasmo, que tem um ímpeto ibérico, que mergulha em fundas raízes ibéricas, e que é parente dos grandes escritores peninsulares de todos os tempos. Morejon sublinha a popularidade de Eça em Espanha, nas traduções de Valle-Inclan, ou Gonzalez-Blanco, ou Fernández Flórez, ou pelo estudo de Perez de Ayala; mas não se nos documenta qualquer atitude iberista do autor de Os Maias, que evidentemente nunca existiu. Quanto a Junqueiro, que Unamuno admirava prodigiosamente, não seria um poeta português, mas ibérico, e de ressonância universal, e muito mais espanhol do que português; mas não há, nem por parte de Morejon, a menor alusão ao firme repúdio do iberismo feito por Junqueiro a propósito do congresso de Badajoz. Para Unamuno, Oliveira Martins é historiador artista, tem um pensamento de carácter peninsular; e a História da Civilização Ibérica, que representaria o momento mais alto do iberismo do autor do Portugal Contemporâneo, deveria ser um livro de cabeceira de todos os espanhóis. Mas nem Unamuno nem Morejon se aperceberam de que, no termo de tudo, Oliveira Martins era um patriota português. Por último, Fidelino de Figueiredo. Entre este e Unamuno, ainda que se tivessem encontrado pessoalmente apenas uma vez ao que parece, houve intimidade de relações intelectuais. A hispanofilia de Fidelino, o iberismo de Fidelino, o hispanismo de Fidelino são constantemente sublinhados; e citam-se em apoio muitos dos seus livros, em particular As Duas Espanhas. As duas Espanhas, para Fidelino, são a do Quixote e a dos Filipes. Mas o que Unamuno e Morejon omitem é isto: em As Duas Espanhas, como veremos, pergunta Fidelino a qual pertence Portugal: e responde que Portugal não pertence a nenhuma. E para Unamuno, os Portugueses são um povo triste, mesmo quando sorri; a sua literatura, mesmo que se pretenda cómica ou jocosa, é triste; e o sorriso de Eça de Queirós é enigmático e triste. São de superfície a brandura e a meiguice portuguesas: por debaixo encontra-se uma violência plebeia que assusta. E escreve: «Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida; a vida não tem para os Portugueses um sentido transcendente; querem talvez viver, mas não sabem bem para quê, e por isso acaso valerá mais não viver». Esta visão de um Portugal suicida encontrou ressonância num português: Manuel Laranjeira. Com efeito, escreveu em carta a Unamuno: «Em Portugal chegou-se a este estado de filosofia desesperada: o sacrifício é uma espécie de redenção moral. Neste desgraçado país tudo que é pobre se suicida»; «eu, por mim, não sei em boa verdade, amigo, não sei para onde vamos»; «sei que vamos mal»; «até onde nos leva a má ventania do destino, até onde?». E Manuel Laranjeira suicida-se em 1911 (Maria Amália Vaz de Carvalho, Coisas de Agora, 173, 174). Mas nenhum daqueles traços sombrios impediu Unamuno de ver Portugal como parte integrante da pátria espanhola, numa compreensão que queria mútua e fraternal. Anos mais além, por 1930, em entrevista a António Ferro, Unamuno mitigava o seu iberismo, para não ferir os Portugueses: estes seriam os únicos senhores do seu destino; a Espanha apenas faria o que Portugal quisesse; e só os Portugueses têm o direito de se governar, de saber o que lhes convém. Mas não consegue fugir a repisar os seus velhos conceitos: se os Portugueses quisessem uma república federal, deveria fazer-se; fora sempre contrário à fragmentação da Península; a personalidade de um povo não se perde numa república federal. E Unamuno sugere o gradual desaparecimento da língua portuguesa e lembra que Camões «fez versos em espanhol». E vem a nota final, aliciante, sortílega, anestesiadora: nada receiem, os Portugueses nunca serão absorvidos pelos Espanhóis (10). Não ocorreu decerto ao mestre de Salamanca que, ao afirmar que a Espanha faria o que Portugal quisesse, estava a indicar que no seu pensamento reservava para a Espanha um papel quanto ao futuro de Portugal. Faria Unamuno as mesmas afirmações quanto a uma França, por exemplo?






Acolhe Unamuno calorosamente a solidariedade iberista de Juan Maragall, que no dizer de Morejon foi um dos mais exaltados, se não o mais exaltado iberista espanhol. Catalão, como Pi y Margall, que fora em As Nacionalidades teorizador entusiasta do movimento federalista ibérico, também Juan Maragall se proclama iberista com euforia. Dizia a um português: «Há uma pátria comum, uma grande Espanha a construir. E nessa Espanha entram também vocês. Vamos fazê-la; e animá-la; façamos uma política comum, uma política ibérica; uma pátria maior». Abre-se correspondência entre Juan Maragall e Miguel de Unamuno. Maragall quer uma unidade firmada no triângulo Portugal, Castela, Catalunha; mas esta não era a solução última sonhada pelo professor de Salamanca; porque este aproximava-se mais, no que toca a este ponto, de um «amor a Portugal», à maneira de Gimenez Caballero. Numa sugestão, todavia, se encontra Unamuno de acordo: no lançamento de uma revista. Tratava-se de fazer evangelização ibérica. Unamuno declara o seu apoio: era o sonho da alma ibérica: e para isso estaria pronto a escrever aos seus «amigos de Portugal, da Galiza, das Astúrias, etc., e se for necessário a americanos e até a judeus orientais de língua espanhola, que a alguns conheço». Por seu turno, o poeta catalão pormenoriza: a alma ibérica, que tão poucos ainda sentem, há que buscá-la dentro de Castela, de Portugal, da Catalunha, até alcançar a raiz comum: daqui arrancará a Espanha grande, a Espanha europeia, por invasão espiritual: e este é o caminho. E Unamuno lembra mesmo que para evitar susceptibilidades deverá a revista surgir em Portugal. De outro modo, os Portugueses poderão imaginar que acaso se trata de «coisas do Diabo».

Mas na década de 1930 está em plena pujança toda uma nova geração espanhola, por igual eminente, e iberista. Neste último particular, não se afastou da tradição. E vale a pena salientar alguns nomes: porque foram chefes de fila de importantes correntes de pensamento espaanhol: e ainda porque se projectaram igualmente, e com inteira justiça, muito para além das fronteiras espanholas. Verdadeiramente, muitos conquistaram uma audiência europeia.

Claudio Sanchez Albornoz é um desses nomes. Repete as grandes pisadas de Pelayo e Pidal (como as virá a repetir mais recentemente Pedro Sainz-Rodrigues). Mestre de historiografia espanhola, as investigações e os estudos de Albornoz fizeram fé no mundo culto. Fez pesquisas em Lisboa, na Torre do Tombo, nos inícios da década de vinte, e então ainda conheceu Gama Barros, a quem admirava e que cultivava. Por 1935, depois de uma passagem pelo Governo da República Espanhola, foi Sanchez Albornoz embaixador em Lisboa, e então conviveu com uma restrita comunidade de espanhóis emigrados, de que Ortega y Gasset e Sainz-Rodrigues eram homens de destaque.






Foram sempre cordiais as suas relações pessoais com Oliveira Salazar, e até de deferência mútua, quando este era ministro das Finanças e foi depois chefe do Governo. Mais tarde, após o início da guerra civil espanhola em 1936, e sobretudo com a vitória de Francisco Franco, Albornoz abandonou quaisquer funções oficiais, e exilou-se para a Argentina. Neste país se fixou, e aí retomou o seu magistério de professor de consequência. Foi sempre um iberista convicto: e ao seu iberismo foi levado pelo desejo de decifrar o enigma espanhol (outros em Espanha lhe têm chamando mistério) e por uma interpretação das suas origens. Nestas, via o fundamento de «uma comunidade hispânica de nações», em que incluía Portugal. Esta comunidade seria uma reivindicação histórica de Castela. E no seu Testamento Histórico-Político, Sanchez Albornoz não é ambíguo: «Respeito o orgulho nacionalista dos Portugueses e repito quanto estou enamorado da sua pátria, mas mentiria se ocultasse a minha esperança num futuro retorno de Portugal à matriz da Hispânia de onde saiu». Que espécie é esta de iberismo? O de Unamuno, o de Pelayo, o de Pidal? Não. Esclarece-nos o próprio Albornoz, noutra passagem: «anseio pela conjugação federal de Portugal e Espanha». Era portanto um iberismo federalista, à maneira de Pi y Margall ou de Juan Maragall, catalães que eram ambos. E no mesmo sentido foi o iberismo de outro espanhol de alto nível, e da mesma geração de Albornoz: refiro-me a Salvador de Madariaga. Este tinha a independência de Portugal por rebelião contra a geografia e contra a história. Portugal independente constituía assim uma mentira política. Madariaga queria portanto que fosse corrigida essa mentira, e reposta a verdade; e esta implicava uma península unitária, federada ou não, mas com uma só nação, um só Estado, um só governo. Depois de abandonar as suas funções oficiais de representante da Espanha em Londres, e pelo mesmo motivo por que as abandonou Albornoz em Lisboa, Madariaga continuou a viver na capital inglesa; e no fim da década de trinta avistava-se de quando em vez com Armindo Monteiro, que por 1937 deixara o Ministério dos Estrangeiros e assumira o cargo de embaixador de Portugal na Grã-Bretanha. Nas conversas, o iberismo de Madariaga era irreprimível, e manifestava-se com paixão e empenho. Desenterrava para o efeito os argumentos banais que impressionam os portugueses crédulos, ou provincianos, ou oportunistas, ou inconscientes: o primeiro chefe do Governo do novo país unitário poderia bem ser o chefe do Governo português (11); a capital da nova Espanha poderia bem ser Lisboa; e Portugal teria evidentemente o seu lugar assegurado, a sua influência respeitada, o seu peso reconhecido na nova Grande Espanha. Madariaga resumiu o seu pensamento num volume publicado postumamente: o que há de peculiar nos Portugueses - é que são espanhóis. Mas um outro homem, que pertenceu à mesma geração extraordinária, exprimiu-se ao arrepio da corrente geral. Foi Gregório Marañon. Talvez haja sido o único, entre os espanhóis de grande talento, e daquela geração, que não partilhava de qualquer iberismo. Cientista de alto destaque, também humanista de vulto, Marañon deu-se à literatura e à história, e o seu Conde-Duque de Olivares rapidamente se converteu num clássico, e assim permaneceu (12). Marañon foi naturalmente impelido a estudar a actuação dos Filipes em Portugal, e assim a percorrer o processo que transformou uma união pessoal num regime de estrangulamento, de opressão, de destruição das estruturas vitais portuguesas. Por isso deu à sua biografia do Conde-Duque um subtítulo: a paixão de mandar. E Marañon compreendeu bem que Portugal era realidade à parte e não identificável com a Hispânia: e Olivares foi apenas o motivo imediato que fez desencadear uma restauração inevitável. Escreveu Marañon: «era tão artificial a incorporação deste Reino (Portugal) na coroa de Espanha que a sua separação, imposta pela realidade dos factores étnicos, e por tudo o que há de mais vivo e eficaz no jogo da história, não se teria feito esperar, com Olivares ou sem ele» (13). Esta posição do escritor ilustre constitui assim uma excepção entre a alta intelectualidade espanhola: um caso isolado. Pelo menos, na minha limitada investigação não encontrei outro.



Francisco Franco



Do plano da história, da literatura, do ensaio, do humanismo, podemos passar, numa síntese rápida, ao terreiro da política na mesma época. Foi prosseguida pela República a atitude de Afonso XIII. Homens de todos os matizes políticos eram iberistas. Alcala Zamora, primeiro Presidente da República e liberal moderado; Calvo Sotello, figura intelectual e moral de grande dimensão, e chefe político e mental dos monárquicos; Alexandre Lerroux, liberal do centro-direita; José Maria Gil Robles, chefe da Confederação Espanhola das Direitas Autónomas; Manuel Azaña e Martinez Barrios, mentores da esquerda democrática; Largo Caballero e Indalécio Prieto, chefes socialistas - eram iberistas, quer partidários do federalismo, quer do unitarismo peninsular. Como eram iberistas os comunistas e os militantes da Federação Anarquista Ibérica. E poderia acaso pensar-se que o iberismo espanhol cessara, ou ao menos entrara em surdina, com a vitória dos militares e dos nacionalistas, que aceitaram Francisco Franco por chefe militar e político. Nada se alterou, todavia. Caberá mesmo afirmar que aquela vitória exacerbou o iberismo espanhol, e tornou-o mais virulento; mas eram muito discretas as manifestações porque da guerra civil saíra em ruínas a Espanha, e porque para o resultado da guerra muito contribuíra a política praticada pelo Governo de Lisboa. Era iberista Francisco Franco: quando cadete da Academia de Toledo, ao tema que escolheu para provas de oficial de Estado-Maior deu o título expressivo: como se ocupa Portugal em 28 dias. E eram iberistas sem disfarce ou ambages os homens que constituíam o regime de Franco. Era esse o sonho dos Falangistas de José António Primo de Rivera; e também o das Juventudes de Serrano Suñer (cunhado de Franco); e igualmente o dos velhos monárquicos que se acolheram a Franco. Mais tarde, pelo fim da década de quarenta, estruturada e estabilizada que foi a situação que Franco personificou, nem por isso cessaram os iberistas de afirmar o seu desígnio e de ocupar posições políticas de alta consequência (14). Entre mil outros que se poderiam citar, ocorrem estes: Ibañez Martin, que foi ministro da Educação, e depois por anos embaixador em Lisboa, onde exerceu de forma mal disfarçada uma tenaz acção antiportuguesa; José Félix de Lequerica, Martin Artajo, Fernando Maria Castiella, que foram ministros das Relações Exteriores de Espanha; e os três Lopes (Lopes Rodó, Lopes Letona, Lopes Bravo), que em vários momentos políticos foram membros do gabinete de Franco. E Serrano Suñer, quando ministro dos Estrangeiros, advogara o repúdio da aliança inglesa por parte de Portugal e a sua substituição pela sempre desejada aliança peninsular (Serrano Suñer, Entre Hendaya y Gibraltar; 143).



Bandeira da Falange Espanhola





Brasão de Armas da família Franco antes de 1940





Brasão de Armas de Francisco Franco



Nesta fase do iberismo importa distinguir duas correntes fundamentais: os unitaristas e os federalistas. Foram unitaristas Pelayo, Pidal, Unamuno, os monárquicos, os falangistas; foram federalistas Juan Maragall, Pi y Margall, Sanchez Albornoz, os republicanos, os socialistas. No termo de tudo, as duas linhas de pensamento, ambas absorventes e imperiais, correspondem às duas Espanhas que em tempo, em Portugal, Fidelino de Figueiredo definiu e procurou caracterizar (Fid. Fig., As Duas Espanhas, Coimbra, 1932). Escreveu Fidelino: «Os dois espanhóis mais vivos e, portanto, mais presentes na consciência espanhola, são Filipe II que, querendo unificá-la, a dividiu para sempre, e o Quixote que, querendo ridicularizar o seu gosto, a engrandeceu e lhe personificou as excelsitudes do espírito ante o mundo». Poder-se-ia talvez dizer que, no campo do iberismo, os federalistas pretendem a incorporação de Portugal por meios políticos e de pressão, e que os unitaristas preferem o uso da cultura, da penetração psicológica, da assimilação pelo espírito e pelo aliciamento, pela sugestão e pela lisonja, pela promessa e até pela corrupção. Ambos formam as duas espanhas. A qual pertence Portugal? Já vimos como replicou o autor da Crítica do Exílio. A nenhuma, respondeu Fidelino de Figueiredo. E explica: «O mar arredou-o para sempre da massa continental ibérica; é um país atlântico, simples cais de embarque, bastante unificado, sem acções revulsivas internas; não forma parte de nenhuma das duas Espanhas» (F. de Fig., ob. cit., 256). Confronte-se com Hernâni Cidade, atrás citado. E assim, e por isso, Portugal teve de «buscar apoios fora do mundo hispânico», e firmá-los, e daqui proveio «aquela diferença essencial que aparta a história portuguesa da história castelhana», o que levou «este povo da beira-mar a prescindir das intrigas políticas da Europa» (também Fidelino de Figueiredo, Pyrene, 1935).

(in ob. cit., pp. 134-143).


Notas:

(8) Alguns destes homens, na sua maturidade, moderaram os seus entusiasmos pelos objectivos iberistas. Foi o caso de Canivet, que passou a considerar a separação entre os dois países como facto inevitável.

(9) Este, como se sabe, foi o pensamento expresso por O. M. na sua História de Portugal. Mais tarde, o autor do Portugal Contemporâneo modificou-o para esta síntese: para sermos unidos em pé de igualdade, éramos poucos; para sermos assimilados, éramos de mais.

(10) Citações e conceitos de Miguel Unamuno são obviamente extraídos de obras daquele escritor, em especial Por Terras de Portugal e de Espanha, e também de Unamuno e Portugal, de Julio Garcia Morejon, que cito várias vezes.

(11) Na altura, como se sabe, Oliveira Salazar. Sem embargo do abismo ideológico entre os dois homens, Madariaga dizia-se pronto a aceitar aquele como chefe do Governo de toda a Península. E até é de acreditar que o aceitaria. Depois se veria qual seria o segundo. Delicadamente, Monteiro repelia sempre as teses de Madariaga.

Serrano Suñer, Franco e Salazar em Sevilha


(12) Como se sabe, não foi esta a única obra de Moranon. Dom João, Tempo Velho e Tempo Novo, Vida e História, Ensaios Liberais, ainda outros volumes. Mas para os propósitos deste capítulo, é a biografia do conde-duque que oferece interesse.

(13) G. M.., El Conde-Duque de Olivares, 1965, p. 317. Também Morejon, 333.

(14) Dois exemplos frisantes. O jornal falangista intitulava-se unidade, publicava na primeira página um mapa de toda a Península como um só país; e o lema era: Espanha una, grande e livre. Também os meios de direita espanhola faziam circular uma composição heráldica com as armas de Castela, Aragão e Portugal, ao mesmo nível e por igual subordinadas à àguia dos Áustrias. Por debaixo, a legenda: El Imperio Español.

Continua


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Portugal e o iberismo (iii)

Escrito por Franco Nogueira





Oliveira Martins



Um outro grande vencido da vida impõe de novo destaque especial: Oliveira Martins. Já se percorreram os passos maiores do seu iberismo: era mitigado, inocente, de boa-fé; melhor compreensão das realidades e lúcida percepção dos objectivos espanhóis suscitaram sérias dúvidas ulteriores; e estas levaram ao repúdio final. E agora, perante a crise: foi modificada pelo ultimatum a atitude de Martins? Prostrado pela emoção, poucos dias após o gesto inglês, em artigo no Tempo, vai ao extremo de defender a aliança das duas monarquias peninsulares. E por muitos volumes e artigos seus podemos encontrar referências ao episódio dramático. Asserenado um tanto o seu ânimo, será talvez no Portugal em África que melhor se concentra e exprime o pensamento deste vencido da vida quanto ao ultimatum. Para Martins, mais do que as consequências imediatas da crise, importa analisar o futuro; e em qualquer caso, pela sua seriedade, a crise obriga a meditar. Talvez mais grave, e de emoção ainda mais funda, foi a separação do Brasil, «um momento de desespero muito mais cruel do que pode vir a tornar-se a situação agora». Mas a grandeza do perigo exaltou a energia nacional. Há que compreender a agitação popular, mas já se entende menos o seu aproveitamento para «interesses facciosos»; e isso porque, nos momentos solenes de risco, é «o patriotismo e não o partidarismo que deve falar». Na circunstância, para Oliveira Martins, o Conselho de Estado e o Governo não podiam fazer senão o que fizeram, sob pena de, por retaliação inglesa, se perder uma parte importantíssima do Ultramar; e a manifestação feita contra Barros Gomes foi suma injustiça - para o ministro e para o Governo. Decerto: o ultimatum de 11 de Janeiro foi, escreve Oliveira Martins, «um destes actos odiosamente brutais que nem são das temeridades, nem dos arrojos, tantas vezes expiatórios de violência»; e impôs «a lei da força a quem só podia invocar o direito»; e a Inglaterra usou de «uma astúcia felina», iludindo os Portugueses enquanto se mobilizavam meios navais para eventual assalto a posições portuguesas. E agora - o desagravo. Que desagravo? Há que fortalecer o Exército, e a Marinha; mas a «força que principalmente há-de sair da comoção nacional é a força filha do civismo e do juízo». Cortar passo a passo os vínculos com os ingleses, nada mais racional, sensato e patriótico; mas «isso não é o desagravo pleno e satisfatório». Liquide-se o litígio com a Inglaterra pela melhor forma possível; e depois há que pôr a casa em ordem; e emancipar Portugal; e recuperar para os Portugueses o comércio; e extirpar em suma o «nosso desleixo e a nossa inércia». E como remata Martins a sua visão da crise e do futuro? Recomenda o rearmamento de Portugal - e acaso a substituição, como propôs no Tempo sob o espinho do desespero, da aliança luso-britânica por uma aliança luso-espanhola. Neste último ponto, há assim um retorno de Martins a uma posição mental e psicológica anterior; e sucumbiu por instantes ao mesmo sentimento que a crise desencadeou em alguns espíritos mais frouxos, ou impressionáveis, ou precipitados. Cedo se refez Oliveira Martins, contudo, e de desencantou. Bem antes da sua morte prematura, espírito lúcido e patriótico que era, soube bem perscrutar as realidades. E manteve-se, ao fim e ao cabo, fiel à sua síntese: «amizade espanhola primeiro; pressão depois; violência final». E em qualquer caso, como remédio para os males nacionais, este vencido da vida via apenas o civismo, o juízo, a reforma dos hábitos de desleixo e inércia, o patriotismo. Mas entre os nossos homens de génio do século XIX um nome está ainda omitido. Não foi um vencido da vida, no sentido de pertencer ao seu grémio. Mas acaso se poderá considerar o maior dos vencidos, e decerto o foi pelo drama e pela tragédia. Refiro-me naturalmente a Camilo Castelo Branco. Este homem, de tanto génio como infortúnio, está torturado pela ameaça de cegueira em fins de 1889, princípios de 1890. Nos começos de 90, justamente, escreve ao seu grande amigo Tomás Ribeiro: «Ainda não ceguei de todo; mas estou perdido, se não me acodes». Pouco depois, nova carta: «Estou a cegar. Perdido! Vou fugir daqui para não me matar debaixo dos teus olhos e do teu amor». Mas quando em 1 de Janeiro Portugal é agredido pelo ultimatum, aquele homem, que escrevia «estar sem olhos, sem pernas, sem cérebro», reage, e lança-se num poema que intitula Extermínio da Inglaterra. E foi essa a contribuição camiliana para a Anátema, publicada em Coimbra. Uma outra parte dessa composição foi mais tarde inserida, por Abril de 90, no jornal República, do Porto. Camilo classifica o poema, de seiscentos e cinquenta versos, repartidos em quadras, como de trovas alegres. Mas não parece, ainda que haja sido sumária a minha investigação, que o contributo de Camilo para o protesto contra a Grã-Bretanha tenha ultrapassado aquela poema. E depois, em Maio de 90, de novo é o autor do Amor de Perdição solicitado para colaborar na imprensa antibritânica. Enfermo, martirizado pela cegueira, o desesperado de S. Miguel de Seide recusa-se. E escreve a Tomás Ribeiro uma carta de angústia: «Eu estou na cama em trevas cerradas e cortado de dores. Se houvesse Deus, eu já devia ter morrido pelo muito que lhe peço a morte. Não contribuo para o jornal contra a Inglaterra porque não sou inimigo dos Ingleses. Encontro-os com os primeiros Afonsos a conquistar o Sul de Portugal; achei-os em Aljubarrota defendendo os falsos direitos do Mestre de Avis contra D. João de Castela; encontrei-os em frente de Lisboa defendendo os direitos do rei português D. António contra Filipe II. No terramoto de 1755, a Inglaterra remeteu à desolada Lisboa uma frota com donativos superiores a quinhentos mil cruzados. Acho os Ingleses ligados a Portugal contra Napoleão e empenhados em restituírem D. João VI ao trono. Encontro ainda, nos nossos dias, os Ingleses por mar e por terra batendo as forças do usurpador D. Miguel. Estes factos não me irritam patrioticamente contra a Inglaterra. Quanto aos macololos, sabes de mais que no fim do reinado de D. João III eram já perdidas as linhas hidrográficas de África. Depois de Alcácer Quibir, nem portugueses nem espanhóis pensaram mais nos cafres. Depois de 1640, nunca lá se mandaram missionários, nem protecção, nem educação. Tudo aquilo prescreveu como se a vaga de dois séculos lambesse os areais onde foram escritos os direitos de Portugal». Não importa averiguar do rigor histórico de alguns pormenores desta carta. Convém reter essa conclusão, todavia: para o autor de Onde está a felicidade?, em momentos cruciais, fora com a Inglaterra, e não com potência continental europeia, que Portugal se deparara; e esta era a explicação da aliança luso-britânica. Porque os interesses permanentes de Portugal estavam mais próximos dos interesses permanentes daquele país do que de outro qualquer. E isso tinha um preço político, alto sem dúvida, mas inferior ao que resultaria da diluição na Península. Mas por que se torna pungente esta carta? Pelo estado de espírito em que foi escrita: cerca de quinze dias depois de a remeter a Tomás Ribeiro, a 1 de Junho de 1890, Camilo suicida-se em S. Miguel de Seide com um tiro de revólver.


Mapa Cor-de-Rosa


No quadro do ultimatum inglês, ligado ao surto de iberismo, cumpriria referir o estudo de Moniz Barreto intitulado A Situação geral da Europa e a política exterior de Portugal, publicado algum tempo depois na Revista de Portugal. Moniz Barreto foi espírito tão gentil e lúcido como idealista; e no terreno político deixou-se envolver e arrebatar pela emoção, pelo ódio à Inglaterra; e como retaliação contra esta advogou uma conduta externa que inelutavelmente entregava, como dádiva, Portugal à Espanha. Este texto de Moniz Barreto teve as suas repercussões, e vastas. E estas haviam de repor todo o problema - na sua constante pendular.

(...) Sim: os republicanos espanhóis haviam feito quanto possível para cativar os seus correligionários portugueses. Destes, por oportunismo ou convicção mas sobretudo por boa-fé, alguns se deixaram aliciar. Simplesmente, os republicanos espanhóis ligaram ao iberismo e à união ibérica o seu republicanismo e a sua hostilidade à Grã-Bretanha: e foi nessa base que apoiaram os portugueses da mesma família política. Cometeram neste particular um erro, e sério. Havia republicanos portugueses que eram iberistas? Havia-os, ao menos no sentido que a candura portuguesa atribui à palavra. Mas o partido republicano português, no seu ideário e na sua estrutura moral, não era iberista. Moreira Júnior, deputado monárquico, insinuara entendimentos iberistas por parte dos republicanos. Sem embargo de ocasionais tergiversações, Teófilo Braga parece manter-se numa linha firme depois do congresso de Badajoz, e por 1906 responde indirectamente aos rumores: «a história dos Estados peninsulares que se constituem em nações no fim da Idade Média assenta nas tendências separatistas», «a ideia da União Ibérica é um absurdo nascido da obsessão de interesses dinásticos»; e o português e o espanhol «não se confundiram na constituição histórica das nacionalidades peninsulares, nem se confundirão nas remodelações políticas vindouras» (T.B., A Monarquia e a União Ibérica, in A Lucta, I-XII-1906). Mas às insinuações ínvias de Moreira Júnior, replicava António José de Almeida, em público e com vigor: «no embate entre monárquicos e republicanos também eu só admito portugueses. Pela primeira vez, pela última, pela única vez, estamos de acordo. Em nome do meu partido, tomo o compromisso solene de que nós, republicanos, jamais aceitaremos qualquer auxílio interesseiro que nos venha de qualquer parte. Nesses casos, não queremos nem uma baioneta, nem um braço, nem uma moeda» (História da República, ed. Século, 242). Era claro António José, e firme.

Proclamada a República em 1910, logo no ano seguinte correm rumores de contra-revolução monárquica. Agitam-se Paiva Couceiro, e alguns seus adeptos. Consideram os republicanos que a Espanha é então o maior inimigo da República portuguesa; e sentem o pavor de uma intervenção espanhola. Diz Junqueiro: «A Espanha não digere Portugal vivo; a Espanha só pode digerir o cadáver de Portugal». E Bernardino Machado, para prevenir a intervenção espanhola que receia, envia a Madrid uma nota enérgica, que tem a aprovação do ministro britânico (Raul Brandão, O Vale de Josafat, 37, 38; também Carlos Malheiro Dias, Do Desafio à Debandada, I, 325, e II, 143 e segs). Há mesmo uma exaltação nacional, sobretudo na imprensa de Lisboa, perante o que se julga serem as possibilidades de um ataque armado da Espanha, próximo ou remoto. Por isso, José Relvas, na altura em Madrid, informa Lisboa de que a rede ferroviária espanhola obedecia ao plano de invasão de Portugal pela Espanha (J. Medeiros Ferreira, ob. cit., 28). Elementos militares portugueses sustentam a necessidade de rearmamento para defesa das costas portuguesas e dos arquipélagos dos Açores e da Madeira, com unidades marítimas de combate bastante fortes para defrontarem o inimigo que, por exclusão das grandes potências, só poderia ser a Espanha. Círculos espanhóis encaram como improvável um conflito com Portugal, e sem entusiasmo mas também sem receio; e têm-se por melhor armados e melhor disciplinados. Mas se a Espanha monárquica não tem intuitos agressivos, julga-se no entanto que Lisboa, e em particular após a entrevista dada por Teófilo Braga (chefe do Governo Provisório da República) a um jornalista espanhol, está ajudando os republicanos espanhóis (Carlos Malheiro Dias, Entre Precipícios, 273 e segs). Acaso poderemos talvez pensar, todavia, que alguns grandes nomes republicanos sentiram confusos estremecimentos iberistas em momentos fugazes das suas carreiras políticas. Possivelmente um Afonso Costa, que em Madrid sugerira uma aliança entre os dois países; possivelmente um Egas Moniz, a quem Afonso XIII exprimira o desejo de estreitas relações comerciais e económicas, e que se rendeu deslumbrado ao «alto espírito» que viu no rei de Espanha. Mais tarde, o mesmo rei Afonso XIII daria ao Diário de Notícias, através de Augusto de Castro, uma extensa entrevista: nas velhas pisadas de Filipe II, ou de Carlos III, ou Carlos IV, pronunciava-se sobre comunicações entre os dois países (agora vias férreas), problemas de pescas, tratados de comércio, intercâmbio económico: e manifestava o desejo de que fosse encurtado o tempo de viagem entre Lisboa e Madrid, exactamente como Filipe II cuidara de um projecto de encurtar distâncias entre as duas cidades. E mais; na conversa privada com Augusto de Castro, atacou Afonso XIII violentamente a Inglaterra; advogou a denúncia da aliança luso-britânica; e considerou de interesse para Portugal acolher-se à protecção de Espanha (Luiz Vieira de Castro, Limbo, 34). Nestes traços, não se podia descortinar quebra na linha tradicional do iberismo espanhol. Mas por detrás das palavras do rei, a imprensa portuguesa não viu nada. Mas o Governo britânico vira: ao aproximar-se a guerra na Europa, Londres julgava ter razões para pensar que a Espanha de Afonso XIII, para entrar na luta ao lado dos Aliados, exigiria Tânger, Gibraltar e as mãos livres em Portugal; mas a Inglaterra não se dispunha a anuir a essa ambição (J. Medeiros Ferreira, ob. cit., 20). E os passos conhecidos da entrevista foram muito louvados. Para A Lucta, orgão dos unionistas de Brito Camacho, o monarca espanhol fora muito amável para Portugal e criara direito ao reconhecimento dos Portugueses. E a República, que reflectia o sentir dos evolucionistas de António José de Almeida, e que este fundara, repetia os ditames de Afonso XIII, e descia ao pormenor já clássico: «amarrados à velha bandeirola da aliança inglesa, que nunca nos serviu para nada, não soubemos valorizar ainda nenhuma das nossas excepcionais condições». E no entanto fora àquela bandeirola que Bernardino Machado recorrera quando julgou Portugal ameaçado de invasão, por parte da Espanha. Mas sem embargo de um ou outro daqueles desvios, o Partido Republicano e a I República jamais adoptaram o iberismo como doutrina oficial, ou como política, e nem assumiram atitudes ou praticaram actos que tivessem esse cariz.






Se o iberismo ao tempo da monarquia fora defendido por republicanos para destruírem o trono, são agora alguns monárquicos que se apresentam como arautos da mesma tese para atacarem a República, e acaso derrubá-la. Neste particular, é também esclarecedor o volume recente de Hipólito de la Torre sobre antagonismo e fractura peninsular. Estavam conscientes do «perigo espanhol», é a tese do livro, os mais esclarecidos políticos da I República, e em alguns momentos não excluíram mesmo a possibilidade de uma intervenção de além-fronteiras (6). Para mais, a I República vivia em crise permanente; indigência ideológica e doutrinal, angustiante desconfiança nos homens e nas instituições, instabilidade endémica. Como sempre durante as tormentas, e por nevoeiro mental e desvairo psicológico, confiava-se num milagre de curandeiros, num encoberto redentor, num sebastianismo de amuleto. Na sofreguidão por qualquer coisa que resolvesse os problemas nacionais - já que o espírito de sacrifício, o sentido de missão, a competência, o trabalho, a consciência cívica desaparecem ou ficam em surdina - desencadeiam-se pela década de 1910 alguns movimentos que tentam, do mesmo passo, preencher o vazio ideológico da sociedade portuguesa e modificar instituições. E desses movimentos, ou ao menos dos homens que neles participaram ou os inspiraram, alguns sucumbiram ao iberismo numa ou noutra fase da sua pregação. E importa aqui retomar agora o artigo de Moniz Barreto intitulado A Situação geral da Europa e a política exterior de Portugal. É este na verdade o texto fundamental, aproveitado durante a crise, para uma ulterior renovação da teoria iberista. Neste particular, António Sardinha é o mais minucioso doutrinador, e acaso o mais representativo. Não esconde Sardinha, aliás, o seu deslumbramento perante o ensaio de Moniz Barreto; e parece lícito afirmar que as teses daquele constituem ampliação das ideias do autor de A literatura contemporânea. Para Sardinha, a Espanha estava protegida a norte pelos Pirenéus; mas o seu flanco ocidental encontrava-se a descoberto; e isto porque Portugal não era apto, por si, a repelir uma agressão praticada por grande potência contra a Espanha. Deste modo, apenas uma Península politicamente unitária poderia ser garantia de defesa de ambos. Sardinha queria assim que a geoestratégia da Península coincidisse com a sua geopolítica. Precisamente fora essa a situação entre 1580 e 1640. Por outras palavras, e como sublinhado no início deste capítulo, aquela coincidência ou sobreposição significam a Península submetida ou ocupada por uma única soberania. Dentro deste unitarismo, e nas teses de Sardinha, à Espanha caberia uma política europeia e mediterrânica; e a Portugal, uma política atlântica; e contra este poder peninsular não teriam meios de agir as demais potências. Sardinha parecia supor ou imaginar que isto seria viável mantendo os dois países a sua soberania, independência, identidade próprias; e que esse, e somente esse, era o objectivo espanhol; e que assentes essas premissas, o simples decurso do tempo e a simples acção do peso espanhol não arrastariam a nenhumas outras consequências nem alterações. Mas completando-se assim, prosseguem as teses de Sardinha, os dois países dilatariam a e o império. E é este em síntese o fundamento de A Aliança Peninsular, que consubstancia o iberismo de António Sardinha. E é à luz daquelas ideias que interpreta as crises, os acontecimentos, as figuras: procura conciliar o inconciliável; homens e factos são deformados o que basta para os moldar às necessidades da tese. Com isenção, escreve o historiador e ensaísta espanhol Juan Beneyto: «A hispanofilia de Sardinha leva-o a dulcificar a impressão geral que produz aquele período (Beneyto, España, Meseta y Litoral, 131). Destaquem-se os que parecem mais expressivos. Reconhece Sardinha a existência de um perigo espanhol para Portugal; e logo invoca (tendo em mente possivelmente a Batalha de Toro) um perigo português para a Espanha. Simplesmente, não salienta que se não equivalem os dois perigos, nem pela sua extensão, nem pela sua natureza: o perigo espanhol resulta do poderio da própria Espanha, e da sua obsessão centralizadora e dominadora, ao passo que o invocado perigo português não provém de Portugal, da sua vontade ou da sua política, mas de uma eventual situação internacional em que uma grande potência, inimiga da Espanha, atacasse esta através de Portugal. Esta diferença é fundamental; e aquela situação, nos precisos termos em que Sardinha a entrevê, jamais se verificou na história. Aliás, ainda que tivesse fundamento a alegação de Sardinha, esse quadro nunca poderia justificar nem legitimar a eliminação da soberania portuguesa. Quando muito, autorizaria a Espanha a organizar e a fortificar defensivamente a sua fronteira com Portugal. No fundo, pessoalmente, António Sardinha sente-se bem em Espanha: é «um «pobre peregrino lusitano que deseja tomar assento à lareira de Castela», para receber desta a «fidalguia carinhosa»; mas não se recorda de que essa «fidalguia» significava precisamente a política praticada desde Afonso X a Afonso XIII, e de que Afonso Henriques foi acaso o primeiro a dar-se conta, e a recusar sempre. Equaciona Sardinha o quixotismo com o sebastianismo: considera o primeiro a expressão dramática de um sentir espanhol, de matriz telúrica, enquanto o segundo seria mera reacção ingénua perante desgraças indefinidas de que, ciclicamente, o povo português se julga vítima: e um outro actuariam em planos diferentes. Para documentar o paralelismo igualitário dos dois povos, Sardinha enumera o que supõe serem influências portuguesas em Espanha: Tirso de Molina haver-se-ia inspirado em temas portugueses; Serafim de Freitas ensinou em Valhadolide; L Calderón de la Barca usou a língua portuguesa num verso; Lope de Vega, Fernando Herrera, Velez de Guevara, Augustin Moreno, interpõem em obras suas alguns personagens portugueses; era português Velazquez; Antonio Moro teria sido inspirado por Sanchez Coelho; e Filipe II fora «um caso interessantíssimo de puro lusitanismo», e como rei fora melhor que muitos reis naturais, e isso porque despachava em português, escrevia às suas filhas a exprimir saudades do cantar dos rouxinóis em Portugal, e apreciava os púcaros e barros de Estremoz, além de procurar garantir as liberdades e privilégios dos Portugueses (7). Por outro lado, são mil as contradições de António Sardinha. E insensivelmente resvala para a negação do dualismo na Península: Castela é a irmã mais velha, a Espanha é a Espanha-Madre, a Madre-Espanha: e as figuras e episódios que contrariem as suas teses são postos em ridículo, ou ignorados. Um Álvaro Pais, um Mestre de Avis, um Febo Moniz são apoucados e reduzidos a nada. Mas Sardinha dá por vezes a sensação de pretender em verdade exaltar glórias e tradições nacionais; e sente-se alarmado quando na Liga Naval, por 1915, se lançaram conferências sobre a questão ibérica. Então insurge-se contra um iberismo que seja unitário ou unitarista, e que lhe aparece de súbito contrário à geografia e à história. Tem aqui afinidades com Teófilo Braga, que no entanto Sardinha acaba por classificar de faccioso e arcaico, de trabalhador estéril, de intelectual desacreditado. Mas Sardinha atribui aquele iberismo unitarista a manejos maçónicos, e liberalistas, e jacobinos. (Deverá anotar-se de passagem que, sem embargo do iberismo de alguns maçons portugueses, a Maçonaria Portuguesa, subordinada ao grande Oriente Lusitano e mesmo de outras obediências, não foi iberista. Era seu princípio fundamental o «amor da Pátria». Veja-se Fernando Catroga, estudo citado, 445 a 447). Lança-se então Sardinha no peninsularismo, espécie de supernacionalismo, a que se subordinam, em pé de igualdade, tanto Portugal como Espanha. Invoca o exemplo do Império Austro-Húngaro - mas esquecia que o equilíbrio entre a Áustria e a Hungria não existe entre Portugal e a Espanha, nem jamais existiu, ou poderá existir.



António Sardinha



Conduzia-se no fundo um iberismo em jeito de ataque aos republicanos, como estes o haviam advogado como método de ataque aos monárquicos. Mas por parte daquele doutrinador - também dirigente espiritual e intelectual do Integralismo Lusitano, além de escritor e poeta de consequência - foram transpostos limites e sustentadas teses em que os seus próprios amigos políticos não puderam acompanhá-lo. Hipólito Raposo, para citar um exemplo frisante, compreendeu todo o fatal alcance do iberismo: e sublinhava que na Espanha «sempre vive e palpita em segredo a aspiração do perigoso dualismo de Filipe II ou o intento de absorção de Filipe IV» (H.R., Folhas do Meu Cadastro, 25). Luís de Almeida Braga verberava os «castelhanos do interior» e julgou necessário vir explicar A Aliança Peninsular: o que Sardinha «queria era que não se diminuísse o sentido universal do nosso génio»: desejava uma simples «colaboração amigável» entre os dois países: mas não «a velha e estulta quimera do iberismo» (L. de A.B., Posição de António Sardinha, 76). João do Amaral, na Monarquia, não se eximia a acentuar que «entre uma nação forte e uma nação fraca, aliança quer dizer a breve trecho - absorção». Sobretudo quando essa absorção é facilitada pela existência de longa fronteira comum. E José Pequito Rebelo, outro integralista de nota, não escondia a sua devoção monárquica e os seus desejos de amizade com a Espanha; mas estacava aí o seu iberismo; e julgava que se poderia ir até uma determinada raia, e parar nesse risco, quando e se se quisesse. A tudo respondia Alfredo Pimenta, não integralista mas monárquico ardente na altura: «entre Castela e Portugal havia, há ainda hoje, e necessário é que haja sempre o abismo intransponível que abriram os reis de Portugal». Em particular, deveria acaso Pimenta ter acrescentado, quando deixaram de praticar e abandonaram a desastrosa política de casamentos peninsulares. E quanto ao Integralismo Lusitano em si, o movimento manteve-se sempre dentro do mais extremado patriotismo e do mais fervoroso nacionalismo, e também sempre na linha da aliança luso-britânica (in ob. cit., pp. 122-124 e 128-134).


Notas:

(6) Confirma a notícia dada por Raul Brandão, no Vale de Josafat, atrás referida. Outras fontes abonam o mesmo ponto. Segundo muitos responsáveis da época, aquela possibilidade teria mesmo estado iminente por ocasião do 19 de Outubro de 1922, a famosa e trágica noite sangrenta.

(7) Neste particular, e dentro de certos limites, e por uma política de tacto e aliciamento, há alguma verdade, quanto ao período inicial, na última afirmação. Mas acabou por prevalecer o centralismo de Madrid: o sempre presente conde-duque de Olivares.

Continua


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Portugal e o iberismo (ii)

Escrito por Franco Nogueira








Justamente: o iberismo ligado a acontecimentos fora do comum. Foi esse o caso provocado pelo transe nacional que se abriu com o ultimatum britânico, em 1890; e por essa via muitos dos homens que já haviam expresso uma atitude, vieram a alterar esta ao peso da emoção, e de sentimentos desencontrados. Perante o gesto brutal da Inglaterra, é a desorientação, o pânico, o habitual apelo ao milagre, ao Sebastianismo, ao Encoberto; e na emergência a Espanha aparece como bordão de arrimo e tábua de salvação. Ao saber-se o teor da nota inglesa, ou o que se supôs ser o teor da nota inglesa, estava desencadeado todo o processo emocional. «O efeito foi prodigioso», diz Basílio Teles. De lés a lés, pelo país, há um levante de opinião pública. Sobretudo em Lisboa. Agita-se a baixa da cidade. De gente em turbulência regurgitam os cafés, e pelos passeios, e ruas, e praças, circulam grupos, mesmo multidões. Vociferam, protestam, cobrem de insultos a Inglaterra, o Governo; e não poupam a Família Real. Rei e seus ministros, e o Conselho de Estado, por se haverem curvado às instâncias de Londres, são classificados de traidores, de cobardes, e cobertos de outras injúrias (3). Um grupo de manifestantes pretende dirigir-se às Necessidades; e a ideia parecia ser a de obrigar o jovem D. Carlos, há pouco no trono, a retirar-se de Portugal; mas o Governo toma precauções de segurança; e o propósito é abandonado. Pela cidade mantém-se a ebulição, no entanto. Do Café Martinho surgem João Chagas e Magalhães Lima, que se misturam a contingentes de populares; e a estes se agregam outros vindos de São Domingos, como aos tempos de Fernão Vasques e de Álvaro Pais. Todos confluem para engrossar a multidão que ondeia no Rossio. Sobem depois a Rua Nova do Carmo. Entretiveram-se uns minutos, em viva exaltação, a apedrejar as janelas da redacção das Novidades, havidas por afectas a José Luciano, e seguem ao Chiado, e aí aclamam a Gazeta de Portugal, que se supunha regeneradora e ligada a Hintze Ribeiro. Num momento ou outro, João Chagas e Magalhães Lima bradam vivas à República. Tomam todos pelo Camões, pelo Calhariz, e convergem para o Século. Atribuem-se-lhe simpatias republicanas, e perante o seu edifício são ovacionados os notáveis do Partido Republicano. E assim a manifestação perante o Século significava que no ânimo popular, em Lisboa, se estava a levantar, sobre a questão do ultimatum, a questão do regime político. Sentem alarme o trono e os círculos monárquicos. Para além da rua, a indignação e a mágoa invadiam também as redacções dos jornais. Nas salas do próprio Século e nas do Diário de Notícias lançam-se apóstrofes à Inglaterra. E corriam sugestões: devia rejeitar-se o ultimatum, prender os súbditos britânicos em território português e usá-los como reféns, e abrir uma subscrição nacional para compra de armamento. Na redacção do Tempo, Emídio Navarro ruge a sua cólera e crava nas mesas murros de raiva impotente. Entretanto, Eduardo de Abreu, com outros e em cortejo cívico, vai tapar de crepes negros a estátua de Camões; o duque de Palmela, num gesto olímpico de grande senhor, devolve à rainha Vitória a sua condecoração britânica; e há uma corrida colectiva de devolução de condecorações britânicas. Keil do Amaral, com a sua música, e Lopes de Mendonça, com a sua letra, lançam A Portuguesa. E nos dias que se seguem alastram pelo país os protestos antibritânicos. Ainda em Janeiro, reúne-se no edifício da Escola Politécnica a Associação Académica de Lisboa: em mensagem à Câmara dos Deputados declaram-se prontos a morrer por Portugal os estudantes: e um protesto é enviado aos governos signatários do Acto Geral de Berlim. Reagem por igual os estudantes de Coimbra, e os do Porto também. Atropelam-se os comícios, as marchas, as sessões de protesto. Nos quatro cantos de Portugal, vai toda uma euforia antibritânica. Ampliam-se as sugestões de retaliação: boicotar mercadorias inglesas, não ensinar nas escolas a língua inglesa, não admitir ingleses em hotéis e restaurantes. No Porto, constitui-se a Liga Patriótica do Norte, sob a presidência de Antero de Quental; e ao Sul surge a Liga Liberal, presidida por Augusto Fushini. Publica-se em Coimbra, em número único, a revista Anátema, redigida em Espanhol, italiano, além de português. Apresenta-se confessadamente antibritânica (4). E é nessas páginas solitárias que se concentra de momento o apoio maciço da cultura e da inteligência portuguesas ao repúdio do ultimatum. Que homens do lado português, colaboraram nessa Anátema? Recordem-se os nomes que bastem para documentar o alto nível daquele apoio: Oliveira Martins, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Teófilo Braga, João de Deus, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Bulhão Pato, Tomás Ribeiro; João Penha, Fialho de Almeida, Maria Amália Vaz de Carvalho, Conde de Sabugosa, entre os homens da cultura; e Jaime Magalhães Lima, Barros Gomes, Víctor Cordon, Basílio Teles, entre os homens do mundo político. De alto a baixo, Portugal era sacudido por funda emoção. E o cariz que esta tomou impõe e confirma duas lições: nas crises e no pânico, ressurge o iberismo português, como teoria, ou esperança sebastianista, ou vingança de um ódio súbito, ou busca do que parece ser uma solução, que na eterna procura da opção mais fácil se fia sempre do exterior e não do cerne da comunidade portuguesa; e nas crises e no pânico em que Portugal se deixa atolar, a Espanha avança com presteza para aproveitar com avidez e explorar com sofreguidão a oportunidade de executar o seu iberismo.



Retrato de Teófilo Braga, do pintor português Columbano Bordalo Pinheiro



E com efeito alguns portugueses iberistas antigos que haviam deixado de o ser, são arrastados pela emoção. Quase tornam à atitude anterior, ainda que temperada agora pela prudência que resulta da observação dos factos e pelo estudo que a maturidade permite. Entre todos, mais uma vez se destaca Latino Coelho. Sem o abandonar, atenuara acaso o seu pendor iberista; mas sob o aguilhão do ultimatum, converte-o num sonho renovado e diverso. Em artigo no Século vem afirmar: «detestamos sempre e agora abominamos mais do que nunca a União Ibérica». Mas faz um último apelo ao destino: e confessa que as suas esperanças são doravante confiadas, não a uma integração luso-espanhola, mas a uma Federação das Nações Latinas. Em sentido afim, Teixeira Bastos, em mensagem aos republicanos catalães, afirma-se paladino de uma vasta República Ocidental dos Estados Unidos da Europa, e engloba este projecto numa larga concepção política onde há ressaibos de Víctor Hugo e vaticínios de Augusto Comte. Nos dois casos, tratava-se de bradar contra a Inglaterra e de subtrair Portugal à aliança luso-britânica; mas já havia a percepção do perigo e da ameaça espanhola, a que também se queria fugir; e por isso se lançam e se abraçam agora aquelas construções tão grandiosas como quiméricas. E também sai a terreiro Teófilo Braga. Mas este, além de se escusar a manifestações, não regressa por via do gesto britânico à antiga pureza do seu iberismo: invoca apenas a fraternidade: e afirma sobriamente que, «sob o opróbrio do brutal ultimatum com que a Inglaterra nos desonrou, anseio que chegue o dia em que a fraternidade republicana fortifique a liberdade de todos os povos peninsulares». Sublinhavam-se a Liberdade e a República, como garantias automáticas suficientes a todos os povos; e o iberismo cru passava a uma sombra esquecida. Se ainda não era o anti-iberista do projecto de constituição republicana atrás registado, estava à beira de o ser. Mas esta posição de Teófilo Braga, como a de Latino Coelho e a de Teixeira Bastos, iluminam um outro caminho. Comprovam que, sobre a questão do ultimatum, foi posta da forma mais viva a questão das instituições. Decerto: já vinha de longe o partido republicano: mas no lance com a Inglaterra criou-se a sensação de que poderia estar para breve o derrube da monarquia: e este aparece de súbito como objectivo final muito mais próximo e fácil de atingir. Havia que responsabilizar o Trono por qualquer coisa que indignara a consciência da Nação, e a despertara. Em boa razão, ao Trono não poderiam ser atribuídas culpas, e em especial não as tinha D. Carlos, que iniciara o seu reinado escassos meses atrás. Responsabilidades deveriam ser assacadas a políticos monárquicos, tanto a progressistas no poder ao tempo do ultimatum, como regeneradores, na altura em oposição que mais se diria de hostilidade às instituições do que de ataque à política do governo. E quanto ao iberismo, ingénuo em alguns como de hábito, oportunista em muitos, simplesmente antipatriótico e interesseiro em outros, os republicanos sentem que, para além de um limite, têm de arrepiar caminho; percebem que a união ou federação conduzem inevitavelmente à anexação de Portugal;o próprio Século, sem embargo do seu republicanismo, torna-se mais cauteloso no capítulo; e tanto neste contexto como no das manifestações anti-britânicas, exclama: «Prudência! Prudência!». Do mesmo passo, no entanto, o sistema monárquico apercebe-se de que o republicanismo se apoderara da emoção nacional causada pelo drama, e inicia a defesa de si próprio. Mas aos erros que conduziram ao ultimatum agregou um outro, e grave também: teve por republicanas todas as manifestações patrióticas e autenticamente nacionais: e foi duro na repressão. António Enes, patriota, e de sentimentos monárquicos acima de dúvidas, clamava no jornal O Dia, perante medidas policiais e militares: «A Nação não se quer esquecer do ultraje que recebeu da Inglaterra; o Governo proíbe quanto o possa recordar. A Nação quer protestar; o Governo quer submeter-se. A Nação pensa na desforra; o Governo pretende impor-lhe a conciliação». E escreveu mais António Enes: «O que se está fazendo, principalmente em Lisboa, envergonha mais a Nação do que a abateu a violência britânica». E o grande jornalista - e dramaturgo e homem de Estado - vinca bem o ponto crucial: é que o Governo receia ser criticado, quer ceder em tudo à Inglaterra: e inventa contra as instituições ameaças que não existiriam. Por outras palavras: estava-se ante grave crise nacional: e dir-se-ia, à distância de um século, que no lance dramático muito poucos, se alguns, conseguiram manter o sangue-frio. Sobretudo muito poucos, se alguns, se conservaram na linha do interesse nacional permanente.

No quadro do iberismo português, todavia, que sentimentos foram na altura expressos entre os intelectuais, os homens da cultura e da inteligência, o escol mental da Nação em suma? Que atitudes se assumiram perante o ultimatum? Como é que, em face deste, e tendo abandonado e até repudiado o iberismo, inverteram a sua marcha e se sentiram tentados a regressar ao ponto de partida.

"Houses of Parliament" (Palácio de Westminster).


Se se ergueu contra as violências do poder, António Enes nem por isso acolheu o iberismo, a que aliás jamais havia aderido. Mas que escreveu aquele homem, em substância, no momento do rude gesto britânico? Sentiu naturalmente a consciência nacional humilhada, e insurgiu-se. Numa longa série de artigos, Enes acompanhara o processo das conversações entre Londres e Lisboa; e apoiando os argumentos portugueses, não se eximia a dirigir as suas setas ao modo por que da parte de Lisboa era conduzido o assunto. Perante o ultimatum, escreve no dia seguinte: a Inglaterra tornou-se «absolutamente impositiva» e «pôs-nos o revólver aos peitos, contando os minutos». Desafronta com energia Barros Gomes. Mas Enes coloca-se acima dos partidos e para além das paixões: é uma atitude nacional, e só nacional, e de homem de Estado. E é de salientar este exemplo de António Enes por haver talvez sido único. Porque em verdade são inteiramente emotivas as reacções de quase todos os demais. Pela sua intensidade, sobressai a de Fialho de Almeida. Requinta no ultimatum o seu velho iberismo. Sarcástico, céptico, ressentido, afogado em complexos de inferioridade, o autor de Os Gatos vergasta agora a Grã-Bretanha; defende os direitos de Portugal; exalta o Ultramar português, as suas glórias, o seu carácter sacrossanto para a Nação; e qualifica os ingleses de «carrascos ruivos do Tamisa». E volta-se com fervor para o republicanismo. Escreve: «antes do ultimatum inglês e da revolução do Brasil, raros de nós poderiam fazer sondagens certas na profundeza e na eficácia da cruzada republicana que pregávamos: e maldispostos contra a Espanha, menos ainda nos sentíamos dispostos a enfunar o estandarte da ideia, com correntes de opinião sopradas do outro lado da fronteira»; mas «agora mudou tudo»; «os verdadeiros inimigos de Portugal desmascararam-se»; e «a linha que nos separa de Espanha é apenas uma ilusão óptica de políticos, filha de um erro histórico de sete séculos, que desviou a Península da sua missão de grande potência, e tem defraudado a família latina duma força que, virilizando-se, poderia ter disputado, quem sabe? a hegemonia do mundo às raças loiras». Assim, Fialho, em pleno desvairo, retoma e repete com arreganho um iberismo que havia abandonado, e é de novo imperial; mas mais tarde, na sua inconstância e versatilidade permanentes, haveria de regressar ao patriotismo, quase à monarquia, quase ao repúdio do republicanismo jacobino que por um tempo fora o seu. Mas na vivacidade do seu sentimento, neste particular, não está Fialho isolado. Acompanha-o Guerra Junqueiro, «grande poeta do ódio e da dissolução nacional» (Fid. de Fig., Pref. Cit., 10). Este compõe o poema O Caçador Simão (5) e dedica-o justamente a Fialho de Almeida. Junqueiro procura pôr em ridículo a figura do monarca. Mas depois é a Inglaterra que o autor de A Morte de D. João fustiga numa linguagem desapiedada. Recordem-se estas linhas (a que não é lícito chamar versos e muito menos poesia) e que foram depois incluídas no Finis Patriae: «Ó Cínica Inglaterra, ó bêbada impudente/Que tens levado, tu, ao negro e à escravidão?/ Chitas e hipocrisia, evangelho e aguardente,/Repartindo por todo o escuro continente/A mortalha de Cristo em tangas de algodão».



Guerra Junqueiro



Como em todo o poema, não estamos evidentemente perante arte mas em face de um panfleto; e este desce à bitola do torpe, de uma emoção primária, que tem por raízes a exaltação partidária e a raiva à Grã-Bretanha. E também a peça-poema Pátria constitui um grito de cólera, de ataque, de desvairo. Elogia-se Fialho, elogiam-se Os Gatos, onde perpassam, diz Junqueiro, rugidos de tigre; proclama-se o republicanismo, e afirma-se que republicano e patriota são palavras sinónimas; à monarquia nada se poupa; e o rei, porque aceitara o tratado do 29 de Agosto de 1890 (entretanto negociado entre Londres e Lisboa), é qualificado por Junqueiro de miserável ou irresponsável. Estes e outros textos, de teor por igual edificante, são coligidos por Junqueiro em Horas de Luta. Mas aqui deparam-se-nos páginas que impõem destaque; de súbito, projecta-se um outro Junqueiro. Republicano? Decerto. Antibritânico? Sem dúvida. Iconoclasta de forma geral? Também. Demolidor do que é convencional? Igualmente. Mas naquelas páginas ressurge o Junqueiro patriota, nacionalista, medularmente português. Republicanos e iberistas, ainda por impulso da memória do ultimatum, organizaram em Badajoz, em 1892, um banquete de confraternização iberista com espanhóis, ou de confraternidade peninsular, como preferiu Teófilo Braga. A participar é convidado o autor de A Velhice do Padre Eterno; mas este alega falta de saúde, não assiste; e envia a sua mensagem. Recorde-se desta o essencial. Sim: há uma alma ibérica: mas tem duas metades: e vive cada uma em «corpos separados», em «organismos distintos que a natureza irremediavelmente diferenciou, e que é necessário deixar em absoluta e livre independência, pois só assim se cumprirão com harmonia e nobreza o seu papel e o seu destino». E Junqueiro conclui: «E este sentimento português, de soberania e irredutível autonomia, sem restrições e sem equívocos, é em mim de tal maneira intransigente e natural, que eu sacrificaria, sendo necessário e podendo, os destinos completos da minha raça à completa independência do meu país. Unifiquemo-nos em espírito, mas conservemos as fronteiras, tal como estão no nosso território. Só da dualidade sem obstáculos pode nascer a confiança sem limites. Somos irmãos, mas não cabemos juntos na mesma casa». E terá esta sido a posição definitiva de Guerra Junqueiro. E assim Fialho e Junqueiro são dois exemplos frisantes de uma espécie de iberismo português: Daquele que se entretece de emoção perante uma crise ou episódio hostil; que ignora as forças reais em presença e as realidades permanentes; que esquece a linha histórica constante; que se deixa persuadir da boa-fé espanhola e que depois, quase de repente, é iluminado pelos propósitos reais de além-fronteiras; e que muitas vezes se julga em vésperas de um amplo mundo idílico e fraterno para logo a seguir mergulhar na desilusão acabrunhante. Mas em outros vultos grados do alto escol português também o ultimatum exerceu influência: diferente, contudo, da que sofreram os autores de O País das Uvas e de Os Simples.



Antero de Quental



Antero de Quental é um primeiro nome. Que texto enviou para a Anátema? Considera o presidente da Liga Patriótica do Norte que é positiva a intensa paixão nacional do povo português, desencadeada pelo ultimatum; mas tem por elementos negativos o descrédito das instituições, as práticas do governo, os actos dos responsáveis políticos. Para Antero, aquela paixão traduz inequívoca vitalidade nacional; tudo o mais é resultado da morbidez do organismo social português. Perante o choque brutal do ultimatum, Antero volve-se agora em firme anti-iberista, em nacionalista, em patriota tradicional. «Moralizar e nacionalizar o Estado, tal deve ser depois de passado o primeiro ímpeto de paixão, o fim consciente do movimento popular iniciado em 11 de Janeiro» (Prosas, III, 163). E isto porque «não é pelo desespero e abdicação que nos salvaremos», «não é assim que quem está prostrado se levanta»; «sejamos nós mesmos»; «tenhamos esse valor, e tudo se tornará possível»; «antes de tudo, convém crermos em nós mesmos, no passado como no presente» (Prosas, II, 238-239). Teria o ultimatum constituído uma «expiação» dos vícios e erros nacionais (Prosas, III, 144-146). Há assim, para o autor dos Sonetos, um deplorável divórcio entre o sentimento nacional e o Estado, uma falta de acordo íntimo entre governo e governados. Como remediar este «funesto divórcio», produto que é de trinta anos de materialismo político? Pela revolução? Seria essa a maior das calamidades. Como, então? Pela constituição de «orgãos genuínos, semelhantes à Liga Patriótica do Norte». Na presidência desta, Antero sente-se investido de uma missão que o transcende. Ao assumir funções, pronuncia um discurso de nota. É a Liga uma primeira pedra para o edifício da restauração das forças nacionais, e isso não deverá ser obra de entusiasmo momentâneo mas de paciência aturada; o protesto contra o insulto e a vilania da Inglaterra implica um esforço viril e persistente; e a subscrição nacional que fora aberta, movimento de paixão nobilíssima, é apenas o início da obra da ressurreição do brio e das forças do povo português. Há que emendar erros, e que restabelecer uma natural harmonia entre o pensamento nacional e o seu orgão, que é o Estado. Estará a Liga acima dos partidos, praticando a verdadeira política, que é a «dos grandes interesses nacionais», e fará assim ouvir aos poderes públicos a voz da Nação. Serão escutados todos os alvitres, e destes há-de emergir um plano de independência económica, de reestruturação das forças produtoras, de levantamento do nível intelectual, de defesa da integridade nacional. Um plano, em suma, de ordem, de justiça, moralidade. E o poeta resume: «a atitude que convém não é a do protesto violento e estéril: é a da concentração da vontade, aplicando-se indefesa até conseguir, pela força e independência reconquistadas, a desafronta, o sossego, e a dignidade». Em síntese: «Coragem, paciência, e esforço: tal deve ser doravante a nossa divisa». Antero pede ainda a retirada do cônsul britânico no Porto, acusado de haver ofendido a juventude portuguesa. Nessa atitude é acompanhado por homens de primeira água: Rodrigues de Freitas, Vieira de Castro, Basílio Teles, Bento Carqueja, Luís de Magalhães, Conde de Resende, Ricardo Jorge, outros ainda. E em carta a Jaime de Magalhães Lima escrevia Antero: «Faça cada um o seu sacrifício no altar da Pátria. Eu sacrifico a minha saúde, que naufragará de todo no meio disto, e muito provavelmente o meu nome, que antes de seis meses estará manchado. Não importa. Quero sacrificar a vida e morrerei contente se tiver vivido seis meses ao menos da verdadeira vida que é a da acção por uma grande causa». E deste modo Antero não propõe, para superar a crise, o recurso ao iberismo quimérico ou político, nem a mitos ou milagres. Afirma que a solução assenta no retorno às genuínas raízes nacionais, ao patriotismo, à independência. E apela para a coragem, o esforço, o sacrifício dos Portugueses. Neste particular, sobressaem a boa-fé, a candura, a ilusão do poeta.




Ramalho Ortigão



De um matiz aproximado é a atitude de Ramalho Ortigão. Como vê este vencido da vida a crise nacional? Diz nas Farpas a ramalhal figura: «Uma potência estrangeira, assinalada pelos instintos de mercantilismo e de rapacidade que caracterizam a sua missão histórica, disputa-nos palmo a palmo e dia a dia a posse do nosso domínio colonial». Para Ramalho, Portugal é nação marítima e gloriosa; o império é «brasão da nossa raça». Foi o ultimatum uma declaração de guerra: e de tudo tem culpa a sociedade portuguesa e seus vícios. Quais? Esclarece Ramalho: a parlamentarice dos últimos vinte anos, a baixa educação nacional, a desmoralização dos costumes políticos. E por outro lado os Portugueses haviam perdido o amor do trabalho, o espírito de aplicação e zelo, o empenho profissional, a paciência, a perseverança, a lenta economia. Por isso, afirma Ramalho, «isto não pode continuar assim». E se o recente conflito africano, conclui o autor de A Holanda, puder ocasionar um movimento reformador de Portugal, então haveria que agradecer à Inglaterra, sem embargo de este país andar pelo mundo desonrando triunfantemente a Civilização e esbofeteando a Providência. Como Antero, o autor das Farpas encara a solução da crise nacional, não no iberismo ou outro mito (ainda que na obra de Ramalho perpasse de quando em quando um traço equívoco), mas na revitalização do espírito, da consciência, das virtudes portuguesas de antanho. Mas de Ramalho Ortigão podemos caminhar para outro vencido da vida, e amigo predilecto daquele: Eça de Queirós. Em toda a sua obra surgem alusões esporádicas a formas de iberismo; mas já vimos como tudo era parte da irreverência literária. Perante a crise nacional, sem personagens de ficção e de maneira responsável, Eça compõe um estudo: O Ultimatum. Tem a crise como a mais severa, acaso a mais decisiva da sua geração. Exprime o seu respeito, mesmo a sua compreensão pelos objectivos imperiais da Grã-Bretanha (onde Eça viveu longos anos), e pela tenacidade com que esta os conduz. Ora Portugal constituía para a Inglaterra um obstáculo: a posse de certos territórios junto ao Zambeze, ao Chire, ao Niassa, «excitava furiosamente a cobiça» dos Britânicos. E o autor de Os Maias observa: «Se nós fôssemos fortes, ou se ainda reinasse o direito internacional, este impedimento (para o caminho imperial inglês do Cairo ao Cabo) seria como montanha que se não transpõe». Para Eça, portanto, o direito, a história, a razão pertenciam a Portugal. Mas nas conversações com Londres nem sempre haviam sido felizes os Portugueses, e o ministro inglês em Lisboa, escreve o autor de O Primo Basílio, «apresentou ao sr. Barros Gomes um ultimatum com aquela brutal surpresa com que outrora José do Telhado, ou outro dos nossos salteadores lendários, apontava, num pinheiral, o bacamarte ao peito de um marchante em jornada» . Enfim, foi a crise, é a crise - e agora que fazer? Injuriar a Inglaterra? De que serve? - pergunta Eça. Odiar a Inglaterra? Decerto é sentimento bem legítimo: mas o ódio é um «sentimento negativo que nada cria e tudo esteriliza». Então, boicotar a Inglaterra? Será perfeito; mas ineficaz. Em completa isenção de espírito, e de olhos postos na nação portuguesa, Eça afirma que àquele movimento nacional de desagravo, nascido da alma da nação para proveito da nação, «nunca lhe cumpriria tomar por fim único o fazer mal à Inglaterra, mas antes de tudo, e sobretudo, fazer bem a Portugal». Recomenda em suma Eça de Queirós: «Não se trata infelizmente de destruir a Inglaterra - mas de conservar Portugal». E por isso o grito não deve ser: «Delenda Britania». O grande grito a gritar, para Eça, é: «Servanda Lusitania». E por este modo Eça junta-se a Ramalho e a Antero no quadro da crise: os interesses portugueses têm de ser defendidos pelos portugueses: e não podem ser entregues a mitos, ou a mãos alheias (in ob. cit., pp. 113-122).



Eça de Queiroz



Notas:

(3) A nota inglesa tinha indubitavelmente o carácter de um ultimatum, e isso era decerto bastante para causar indignação; mas esta foi agravada porque, usando o texto inglês a palavra intimation, esta foi traduzida por intimação, o que pressupunha que o Governo inglês se dirigia a Portugal como a um súbdito a quem se dá uma ordem. Ora a palavra intimation, neste conceito, significa instância, insistência, ou semelhante. A nota inglesa era um ultimatum, mas não pretendia envolver o propósito de humilhar Portugal.

(4) Surgem também numerosos outros jornais e folhas avulsas e de vida lábil. Mencione-se o artigo Bragança, o último, na Folha Académica. É seu autor o então terceiranista de Medicina António José de Almeida.

(5) Como se sabe, Simão era um dos muitos nomes de baptismo do Rei D. Carlos.

Continua


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Portugal e o iberismo (i)

Escrito por Franco Nogueira




Mosteiro da Batalha (Portal das Capelas Imperfeitas).


Encontrar perante si a Espanha deveria constituir para Portugal simples fatalidade geográfica. Mas esta justifica destaque especial; e isso porque do facto se procuram extrair, para lá da fronteira, consequências fundamentais. E estas podem resumir-se em palavras breves: a Espanha quer obter a coincidência da geopolítica e da geoestratégia na Península. De outro modo: Madrid pretende eliminar na Península qualquer dualidade de soberania. Se há na dialéctica peninsular uma constante, é o desejo, o objectivo, a obsessão espanhola de corrigir o que considera a anomalia de um Portugal independente. Essa atitude de sentimento, de pensamento e de acção atravessou os séculos; e foi sempre vivaz. Em páginas anteriores foram sublinhados alguns traços daquela realidade. Mas esta é para Portugal tão decisiva que lhe cabe um tratamento à parte, ainda que sob pena de repisar uma outra minúcia. Por isso se tenta alargar o esboço de um quadro a que os Portugueses devem estar atentos. No fundo, é sempre o problema do iberismo que está em causa. Importa não acalentar ilusões: é questão cíclica na vida portuguesa: e da sua exegese devemos extrair as linhas permanentes, que são essenciais. Na verdade, o iberismo é apresentado dos dois lados da fronteira, e defendido, ainda que com alcance diferente e com propósitos que por equívoco deliberado se mostram diversos. Mas num caso e noutro, surge como teoria e como objectivo. Como teoria, elabora e depois invoca as raízes de si próprio: a unidade geográfica da Península, o carácter ou a etnia hispânica dos seus habitantes, a inerente vocação centralizadora da Meseta Castelhana, a relativa afinidade cultural, um certo passado histórico comum ainda que remoto em demasia: e todos estes ângulos são tomados como supremos, absolutos, determinantes. Como objectivo, o iberismo pretende, de parte espanhola, incorporar Portugal e terminar com a rebeldia (1); e de parte portuguesa, por embate de vicissitudes emocionais provocadas por acontecimentos exteriores, ou por crises internas, ou até por oportunismo e cobiça de lucro que parece fácil e sem servidões, busca-se aliança, colaboração, federação, ou até integração na Espanha. Para os que que assim pensam, são alvos sucessivos ou simultâneos os de obter apoio contra o que, de momento e por motivos ocasionais, se mostrar ou for tomado como inimigo, ou de reforçar a posição portuguesa, ou de conseguir benefícios materiais à custa de Espanha, supondo que esta se não apercebe e que em troca não exige e não impõe uma subordinação. E tudo isto presume que se acredita na boa-fé pelo lado da Espanha. Simplesmente a Espanha, por princípio, nunca pode estar de boa-fé: porque o alvo último que prossegue não pode ser confessado, nem explicitados os motivos que a impelem. Não pode a Espanha admitir, com efeito, que o seu propósito é o de sobrepor a geopolítica à geoestratégia da Península. Quando o alcançar, sabe que desaparecerá Portugal.






Batalha de Aljubarrota


Este esquema é rigorosamente verdadeiro através da História. (...) Em épocas idas, o iberismo afirmava-se mais descarnado; e identificava-se, muito singelamente, com a ameaça directa, a pressão imediata, a hostilidade ostensiva contra Portugal. Não caberá aqui pormenorizar os esforços tenazes de Leão e Castela para destruírem o novo reino que se proclamara na faixa ocidental da Península. Será de repetir, no entanto, que do facto teve clara percepção o Rei fundador: casou com uma princesa não-peninsular; jamais compareceu nas cortes das Hespanhas, deixou sempre devoluto o lugar reservado a Portugal, e não enviava sequer representante, ou pendão. Durante a primeira dinastia, foram numerosas as tentativas castelhanas. Algumas estiveram a ponto de triunfar: eram épocas em que Portugal atravessava fases de fraqueza ou insensibilidade. E sabemos como tudo teve os seu desfecho dramático em Aljubarrota. Seguimos já, num quadro rápido, os ângulos essenciais da batalha, e suas consequências internas e externas. Em Aljubarrota, para Oliveira Martins, nasce Portugal como nação independente. Mas a ameaça e a agressão frustradas naquele embate não se extinguiram: é da essência do iberismo espanhol a sua constância. Na verdade, e após o papel mundial que desempenharam os Portugueses - como portugueses e não como peninsulares ou europeus - entra-se de novo em crepúsculo nacional. Foi a política mole. Esta traduz-se numa incapacidade de visão autónoma dos interesses nacionais permanentes, para além de episódios ou situações efémeras, e numa confiança na protecção de estruturas internacionais a que se atribui um carácter sacrossanto e eterno. Iluminado pelo clarão divinatório do homem de génio, Camões pressentiu o destino de um Portugal carcomido no seu cerne. Objectivos alheios, firmados em forças estrangeiras, encontram apoio e colaboração de agentes internos; e na solução de problemas portugueses são os interesses de terceiros que contam e se impõem, e não mais os de Portugal. Já se aludiu ao comportamento da corte de D. Manuel I, e ao seu estrangeirismo, ao seu espanholismo. Era então prova de superioridade, de modernismo, de muito alto espírito, sentir e actuar e decidir em termos peninsulares e não portugueses. Para mais, e durante longo tempo, foi desastrosa a política de casamentos reais prosseguida; e tão complexa e cruzada que todos se tornavam parentes de todos, e cada um ficava subordinado aos demais (2). Depois, tudo se degradou com D. João III, graças sobretudo à política castelhana de D. Catarina de Áustria, a rainha. E foi finalmente, como agravante da crise de política mole, a senilidade e a doença de D. Henrique. Se tivesse havido a afirmação nítida e firme de um querer colectivo de independência; se o orgulho e a altivez não se tivessem desvanecido entre os Portugueses; se estes não acolhessem com favor a Cristovão de Moura, e à corrupção que administrava em nome de Filipe II de Espanha; se o Rei Católico se sentisse convencido de que encontraria pela sua frente todo um povo disposto a bater-se - acaso o desenrolar da história haveria sido outro. Aliás, é significativa a semelhança entre as crises de 1385 e de 1580. Versatilidade e fraqueza de D. Fernando, caquexia e pusilanimidade de D. Henrique; a ambição pessoal de D. Leonor Teles e de Catarina de Áustria; num transe e noutro o escol toma partido de Castela. E há mais um traço afim: o temor reverencial perante ideias de terceiros, a impressão que no carácter português causam as verdades lançadas por outros, e a crença, cega e acrítica, nos mitos apregoados além fronteiras. Nos dois momentos históricos, Portugal foi arrastado, e vítima, do sacralismo atribuído às leis de sucessão ao trono, tal como prescritas pela Europa, e ainda que estas levassem ao trono português um rei estrangeiro. E por que foi diferente a solução dos dois lances? Em 1385, o povo produziu os seus chefes; estes não surgiram em 1580. Febo Moniz não frisou com o génio político de Álvaro Pais, nem soube como este ser o homem de Estado que tudo arrisca numa só parada, em que tudo pode perder e tudo pode ganhar; entre D. António, Prior do Crato, um acomodatício se lho houvessem consentido, e mesmo um colaborador se tivesse sido satisfeito o seu preço, e Nuno Álvares, o moço condestável com espírito e ânimo de cavaleiro de távola redonda, existia um abismo intransponível; e o papel de João das Regras, ao criar uma ordem político-jurídica só portuguesa, não teve sombra de equivalente em 1580. E foram sóbrias, e modestas as cortes de Coimbra, deliberando sob uma angústia de perigo estrangeiro e a necessidade de lhe fazer frente. Mas as cortes de Tomar, para aceitarem o juramento de Filipe de Espanha, foram, como já sublinhado atrás, um grande espectáculo: entre os luxo das tapeçarias, dos atavios, das pratas, dos mantos dos grandes dias, estavam os arcebispos de Lisboa, Évora, Braga; os bispos de Coimbra, Portalegre, Porto, Viseu, Elvas, Miranda, Lamego; não compareceu o bispo da Guarda; ostentavam-se os grandes do Reino, os duques de Bragança, de Aveiro; os marqueses de Vila Real, os condes de Castanheira, Tentúgal, Linhares, Vidigueira; o barão de Alvito; os altos dignitários palatinos, os chefes militares, os membros dos corpos constituídos, os vogais do Conselho de Estado; e outros, e outros, do escol dirigente. Foi edificante. Tinham boa razão Filipe II e seus sucessores: referiam-se a Portugal como seu «vassalo». Foi iberismo descarnado: centralizador, integracionista, anexionista por parte da Espanha: e ingénuo, oportunista e subalterno por parte de Portugal.

D. Nun' Álvares Pereira


(...) Na realidade, do iberismo como teoria, como doutrina, ou do anti-iberismo como posição política ou como sentimento popular, encontramos mil expressões durante toda a segunda metade do século XIX. São quadros sucessivos que se sobrepõem, ou continuam os quadros que ficaram resumidos. Persiste na sua actividade a Liga Hispano-Lusitana: afirma-se uma associação para disseminar o pensamento da união ibérica: e sugere que se comece, entre outros domínios, pela união postal, telegráfica, pedagógica, construção de estradas, e pelo estabelecimento de propriedade literária e artística comum. Surge o Porvir Hispano-Lusitano, publicado em Vigo, que advoga o estreitamento de relações entre os dois países (iniciativa análoga foi agora tomada (1992) pelo Faro de Vigo e secundada do lado português, para publicação de um jornal Sem Fronteiras); e é O Iberismo ou a Fusão das nacionalidades, editado em Madrid por Nuñez Amor. Também em Portugal: é a Confederação ibérica - bases para um tratado de aliança ofensiva e defensiva, e liberdade de comércio entre Portugal e Hespanha; é a União Ibérica, ou reflexões sobre a união dos dois povos da Península, de Joaquim Ribeiro; é a colectânea de artigos do Arquivo Nacional sobre a União Ibérica, precedida de «considerações» feitas pelo «Ex.mo Sr. Conselheiro Latino Coelho, actual ministro da Marinha de Portugal», e publicado no Rio de Janeiro. Muitas outras manifestações se poderiam citar. Tudo suscita em Portugal uma reacção vigorosa, e hostil. Destaquem-se os Ecos de Aljubarrota, de Guilherme Braga; o Opúsculo Anti-ibérico, de Luciano Cordeiro; a Pátria contra a Ibéria, de Eugénio de Castilho; a Lyra Civica, de Alberto Pimentel, que se apresenta como poesia anti-ibérica; o Brado contra a Ibéria, poesia de Baptista Machado, declamada no Variedades pelo actor Abel; e a esmo pululam os protestos, as refutações, as respostas, em defesa da independência nacional. Muito se poderia citar. No seu Dicionário, tomo X, Inocência menciona cerca de cento e cinquenta títulos, entre livros, manifestos, separatas, folhetos, mil outras publicações similares. Mas nesta segunda metade do século XIX, pelo fulgor da sua obra e pelo seu prestígio, um realce especial tem de ser dedicado a Oliveira Martins. Através de quanto escreveu podemos destacar os traços da sua teorização iberista. Mas o Portugal Contemporâneo, em que foi «atraente demolidor» (Fidelino de Figueiredo), condensa talvez, melhor do que noutros passos, o pensamento do autor da História da Civilização Ibérica. Para Oliveira Martins, «mais ou menos, um ou outro dia, todas as nações pequenas tiveram a recear a perda da independência»; e, no que toca a Portugal, «sucede que, no decurso de uma história de já quase oitocentos anos, é constante o sentimento, ou de medo, ou de esperança em uma fusão no corpo da nação vizinha».Depois, Oliveira Martins suscita as dúvidas, sublinha as contradições. Faz uma afirmação de alta gravidade, e lucidez: «Estamos à mercê do concerto europeu, que pode decretar o nosso desaparecimento e encarregar a Espanha de cumprir o decreto». É exacto também, todavia, «que a sentença apenas se executaria por vontade nossa». Oliveira Martins parece deste modo identificar e equacionar independência nacional com vontade nacional e consciência nacional: nestas assentaria a raiz da soberania portuguesa. É, de outra forma, a velha tese de Herculano: somos independentes porque queremos ser independentes. Por outro lado, continua o grande poeta da História, «o português emigra, desnacionaliza-se; mas remete para o reino muito dinheiro. Defende-nos a protecção da Inglaterra; mas também nos defendem sete séculos de história, e uma língua diferenciada, e um Camões». Qual a síntese? Responde o cronista da História da República Romana: «Para nos fundirmos com a Espanha, somos demasiados; e para um dualismo em pé de igualdade, somos poucos». Quanto a Lisboa, «é pedra fundamental neste quadro: o porto, o estuário, a situação geográfica, a alma da cidade, justificam e impõem uma nação em redor: e Cádis e Vigo não tolerariam que ali se estabelecesse a capital peninsular». Entretanto, «vamos indo, vamos vivendo». Corre o tempo, todavia, e Oliveira Martins observa, estuda, esclarece-se, pondera: começa a encarar a outra luz a realidade: compreende que o iberismo por parte da Espanha traduz, tem de reduzir um objectivo diverso e oposto: e trata-se de buscar a fusão, a incorporação, a anexação de Portugal. Martins descobre também que por detrás de cada espanhol paira um conde-duque de Olivares. Num volume de dispersos, escreve: «A união ibérica não é hoje o programa de nenhum dos partidos espanhóis, mas é o instinto de todos»; «a ambição inconsciente de hoje é o plano de amanhã, para ser o propósito do dia seguinte». Oliveira Martins formula uma nova síntese expressiva: «à medida que a ideia se define, acentua-se a energia da acção: amizade primeiro, pressão depois, violência final». E quanto a Portugal? Desabafa o grande vencido da vida numa angústia pungente: «se, bem governados, tivéssemos alguma centelha de patriotismo sério e firme, e algum vislumbre de discrição previdente, não havia talvez que temer para breve. Mas se, pelo contrário, somos nós próprios, os nossos capitais e as nossas companhias, que fazemos o jogo da Espanha!» E Portugal perante a Europa, neste contexto? Também nos responde e ilumina Oliveira Martins: «Importa pouco ou nada à Europa que a Espanha tenha dois reinos ou um só. É para nós positivo que nenhuma das potências europeias dispararia um tiro (em defesa de Portugal); é óbvio, pois, que o interesse recíproco de Espanha e de Portugal está em que nenhum de nós pense, nem de longe, em aventuras perigosas para o futuro de ambos». Oliveira Martins atenta mais fundamente na dimensão portuguesa: escreve Portugal nos Mares, Portugal em África, ainda outros volumes. Tudo visto, porém, os grandes temas que desde o início saciam o espírito de Oliveira Martins são uma Vida de Nuno Álvares, uns Filhos de D. João I, um Camões, um Febo Moniz. E se elaborara a História da Civilização Ibérica, escreve agora as Cartas Peninsulares, não as cartas ibéricas. Em Oliveira Martins, ao fim e ao cabo, triunfara sempre a estrutura medular portuguesa: e na sua maturidade era um patriota.



D. Nun' Álvares Pereira







De forma mais idílica, ou mais quimérica, ou mais ingénua, outros enveredaram, em momentos mais ou menos fugazes, pelo iberismo como doutrina e solução de crises e males nacionais. Latino Coelho foi um dos seus arautos, mesmo muito para além do seu tempo de juventude. De Latino escreveu Fidelino de Figueiredo (pp. 12 e 14 do prefácio ao volume Literatura e História) que não teve dificuldade em conciliar o «seu sentimento português com o credo iberista», de que foi «propugnador e o último castelhanista de categoria». Latino admira os rasgos portugueses no Vasco da Gama, no Fernão de Magalhães; mas considera que entrara no ocaso o povo português; e no Cervantes e outros escritos surge a miragem iberista. Esta aparece mais nítida no prólogo que Latino escreve, aquando da sua publicação, para a Memória que entretanto Sinibaldo de Más lançara em favor da união ibérica; e a ideia de fazer dos dois reinos da Península uma nação só, agrada a Latino (Teixeira de Vasconcelos, 44, prefácio de Fernão de Magalhães). Sinibaldo de Más, por outro lado, confessava agora que este iberismo não fora ideia sua. Representara a Espanha na China, fora a Macau em mais de uma ocasião; avistara-se com o bispo português D. Jerónimo da Matta; e este convida Sinibaldo para jantar, num bilhete que diz: «seremos poucos mas todos ibéricos». E ao fim do repasto o bispo brinda à união de Portugal à Espanha (Inocêncio, Dicionário, X, 36, 37). Santarém seria a capital da nova nação - porque ficava ao abrigo de ataques da esquadra britânica. Regressado à Europa, Sinibaldo compõe então a memória que Latino prefacia e aplaude. Como prefacia também a União Ibérica de Xisto Carmona. Mas inteiramente diverso foi o iberismo a que, numa segunda fase da sua vida, sucumbiu Teófilo Braga. Este via a raça latina enfraquecida pela divisão, e fiava o seu salvamento de um confederalismo amplo, e republicano para começar. Algum tempo mais além, Teófilo submete às Constituintes da I República um projecto de Constituição para Portugal, e aí se afirma da forma mais solene ser inviolável a fronteira tradicional portuguesa, e intangível a soberania de Portugal. Pela união ibérica manifesta Teófilo uma «aversão implacável» (A Pátria Portuguesa, XIII). E a solução federal? Para que esta fosse viável seria indispensável que «a Espanha se despoje dos atavismos que a dominam, e que é já a única nação a sustentá-los»; e «Portugal poderá unir-se à Espanha debaixo da forma federativa, em que cada um conserve perfeitamente a sua personalidade» (Raul Brandão, Vale de Josafat, 39, 40). Há assim em Teófilo uma ambiguidade, um equívoco, uma tergiversação, ao sabor de circunstâncias políticas e impressões de momento. E alguns dos aspectos do iberismo de Teófilo podem ser equiparados aos do iberismo de Antero de Quental. Este era mais utópico, e idílico, e romântico. Para o autor dos Sonetos, havia que repudiar «o espírito moral do passado»; estava-se agora perante a «transição para o novo mundo industrial»; e a este «pertencia o futuro»; os Portugueses eram «raça decaída por termos rejeitado o espírito moderno»; a humanidade encontrava-se na soleira de uma «sociedade nova»; e de «um mundo novo». E porque se lhe antolhavam comuns a Portugal e a Espanha os factores de decadência, num federalismo ibérico confiava Antero a revitalização de toda a Península. Em Antero, o iberismo foi sucessivamente sonho, ingénua inspiração revolucionária, concepção intelectualmente teorizada, e ao fim e ao cabo uma desilusão amarga e completa. «Portugal era membro amputado desnecessariamente, ainda que sem violência, do grande corpo da Península Ibérica» (Prosas, II, 46, 47); mas a revolução uniria Portugal e a Espanha; e pondo de parte toda a poesia e toda a sentimentalidade, Antero contentar-se-ia em «afirmar aos patriotas portugueses esta verdade de simples bom-senso; que, nas actuais circunstâncias, o único acto possível e lógico de verdadeiro patriotismo consiste em renegar a nacionalidade» (Prosas, II, 82); depois, Antero conspira, com José Fontana e outros, a favor da união ibérica; e por 1868, publica um folheto que advoga uma República Federal, então defendida em Espanha por Castelar, Pi y Margall e uma maioria nas Cortes Constituintes. Entre 1875-1876, Antero lança, com Jaime Batalha Reis, a Revista Ocidental, destinada a reunir elementos para uma «nova renascença intelectual da península» e formar novas escolas portuguesa e espanhola, porque «aos espanhóis e aos portugueses há hoje a apresentar as mesmas ideias pelos mesmos meios» (Prosas, II, 275). Grandes nomes de portugueses prometiam a sua colaboração, iberistas e não iberistas: António Enes, Barros Gomes, Bulhão Pato, José Falcão, Eça, Latino Coelho, Luciano Cordeiro, Fuschini, Ramalho, Oliveira Martins, Pinheiro Chagas, Junqueiro, ainda outros; e do lado espanhol, surgem Angel Fernandez de los Rios, Carlos Vicuña, Pi y Margall, Juan Valera, Amador de los Rios, Luiz de Lugo, Rafael de Labra, Zuniga, Juan de Ariza, alguns mais. Mas tudo para Antero se liquidou numa grande desilusão: afundou-se e desvaneceu-se o seu iberismo à «força de golpes brutais e repetidos da experiência (Carta Wilhelm Storck, S. Miguel, 1887). Para um venerador de Antero, Eça de Queirós, como para outros vencidos da vida, o iberismo era apenas literário, talvez cabotino, sobretudo instrumento de irreverência contra os poderes constituídos. Como não recordar a famosa imprecação de João da Ega: «Deus de Ourique, manda-nos o castelhano». E como Damaso dissesse que fugia logo para Paris, Carlos da Maia, muito sério, replica: «não senhor, ninguém há-de fugir e há-de-se morrer bem» (cito de memória). Mas já assume outro matiz o iberismo de Fialho de Almeida: este foi abstractamente saudosista do que, na imaginação de cada um, poderia ter sido e não foi. Sim: para Fialho, foi «um erro deplorável» separar Portugal da Espanha. E isso porque os «dois países reunidos ficariam na carta com uma massa de território maior que a França, e as suas colónias somadas dariam um domínio colonial superior ao da Inglaterra (F. de A., Ave Migradora, 213). Da Espanha, escrevia Fialho, separavam-nos apenas «uma ilusão óptica de políticos»; juntos haveriam tido a «pujança de uma espécie de Rússia do Ocidente» composta de «pequenas repúblicas solidárias e autónomas»; e se tudo se ligasse à França, ter-se-ia um «colosso novo», «regulador dos destinos do mundo», «com esquadras temerosas», «pitorescas cidades», todas «as riquezas da indústria e da arte», e tudo rejuvenescido «pelas águas lustrais da democracia pura» (F. de A., Os Gatos, I, 249-250). Este iberismo de Fialho, se tentarmos ver o fundo das coisas, era imperial; queria manter e alargar um domínio colonial; partia de uma superioridade sobre tudo o mais, acaso até com um laivo de racismo; o colosso a construir seria o centro do mundo; e era formado por um complexo de republicanismo, de literatura, de gosto em ofender e afrontar as classes dirigentes, e de ressentimento. E era sobretudo edénico, fantástico, paradisíaco, entretecido de ignorância da história e de inconsciência da realidade.



Guerra Junqueiro



Mostraram pela mesma altura toques de iberismo - por republicanismo, ingenuidade, emoção, indigência ideológica, boa-fé mal informada, ainda outros motivos fortuitos - homens como Jaime e Sebastião Magalhães Lima, Guerra Junqueiro, Cunha e Costa, outros ainda. Mas ver-se-á que se tratava de uma titude episódica, ligada a acontecimentos fora do comum, e que faziam estremecer a grei. No fundo, não estavam a par da verdadeira dimensão e do propósito real do iberismo espanhol: quando se apercebiam das realidades, arrepiavam caminho e volviam-se em portugueses. (Para propósitos diversos e sob ângulos diferentes, pode ver-se o estudo A Questão Ibérica na Segunda Metade do Século XIX, de Fernando Catroga).

(in Juízo Final, Livraria Civilização Editora, 2000, pp. 95-98 e 108-09).


Notas:

(1) É palavra usada pela generalidade dos iberistas espanhóis.

(2) Para que o leitor de hoje, que despreza a História, possa ter uma remota ideia do que foi a subtileza dessa política casementeira, recolho do insuspeito Quintanar, Diálogo Peninsular, alguns passos: «Chegamos ao auge do transe tremendo da unidade (peninsular) com D. Manuel I, que casa duas filhas dos Reis Católicos, Isabel e Maria, e como uma irmã de Carlos V» ; mas «D. Manuel passa, e passa D. João III, e neste momento há todo um conjunto de noivas na Europa, solteiras ou viúvas» e «também um exército de pretendentes europeus» e entre estes avultam Sebastião de Portugal e «acima de todos Filipe de Espanha». Note-se que na altura D. Sebastião era ainda uma criança; mas o seu nome e o de outros entravam já no cálculo de alianças matrimoniais.

Continua