domingo, 13 de fevereiro de 2011

Górgias ou da retórica (i)

Escrito por Platão






(...) Querefonte

Pois bem, diz-me então qual é a arte exercida por Górgias e qual o nome que, consequentemente, lhe devemos atribuir.

Polo

Querefonte, muitas são as artes cultivadas pelos homens, que as descobriram experimentalmente através de experiências. Na realidade, é a experiência que orienta a vida do homem segundo as regras da arte, ao passo que a inexperiência a faz caminhar ao acaso. Perante estas variadas artes, uns declaram-se por umas, outros por outras, e os melhores escolhem as melhores. Górgias pertence ao número destes últimos, e a arte que cultiva é a mais bela de todas.

Sócrates

Tenho a impressão, Górgias, de que Polo está muito bem equipado em matéria de discursos, mas não me parece que esteja a cumprir a promessa que fez a Querefonte.

Górgias

Explica-te melhor, Sócrates.

Sócrates

Acho que ele ainda não respondeu ao que se lhe perguntou.

Górgias

Pergunta-lhe então tu, se preferes.

Sócrates

Não, gostaria muito mais de te interrogar a ti, no caso, evidentemente, de estares disposto a responder-me. Do que acabo de ouvir a Polo deduzo que ele se tem dedicado mais à chamada retórica do que à dialéctica.

Polo

Porquê, Sócrates?

Sócrates

Porque Querefonte te perguntou qual era a arte cultivada por Górgias, e tu, em vez de dizeres qual é, limitaste-te a elogiá-la, como se alguém a estivesse a atacar.

Polo

Não respondi eu que era a mais bela das artes?

Sócrates

Respondeste, mas ninguém te perguntou quais eram as qualidades da arte de Górgias: perguntaram-te apenas que arte era e qual o nome que convém atribuir a Górgias. Relativamente aos exemplos que há pouco te apresentou Querefonte, respondeste com justeza e concisão. Diz agora da mesma maneira qual é a arte de Górgias e como devemos designá-lo. Ou antes, Górgias, diz-nos tu próprio como devemos chamar-te em função da arte que exerces.

Górgias

A minha arte é a retórica, Sócrates.

Sócrates

Devemos então chamar-te orador?

Górgias

E bom orador, Sócrates, se me queres chamar aquilo que «me glorifico de ser», como diz Homero.

Sócrates

Sem dúvida que quero.








Górgias

Chama-me então assim.

Sócrates

E poderemos dizer que és capaz de formar outros oradores?

Górgias

Essa é a profissão que exerço, não apenas aqui, mas em toda a parte.

Sócrates

Estarias tu disposto, Górgias, a continuar o nosso diálogo como até aqui, com perguntas e respostas, deixando para outra altura os longos discursos com que Polo começou? Mas, por favor, não faltes à promessa, responde sempre com brevidade ao que eu te perguntar.

Górgias

Há respostas, Sócrates, que não podem deixar de ter longos desenvolvimentos. Esforçar-me-ei, no entanto, por usar da maior brevidade. Esta é afinal uma das coisas de que me orgulho, a de que ninguém é capaz de dizer o mesmo que eu em menos palavras.

Sócrates

É exactamente aquilo de que eu preciso, Górgias. Faz-me agora uma demonstração de brevidade, deixando para outra altura a abundância.

Górgias

Com todo o gosto, e hás-de convir que nunca encontraste ninguém que falasse mais concisamente.

Muito bem. Ora, uma vez que te apresentas como alguém versado na arte da retórica e capaz de formar outros oradores, diz-me qual é o objecto da retórica. A tecelagem, por exemplo, trata da fabricação do vestuário, não é verdade?

Górgias

Trata.

Sócrates

E o objecto da música é a composição de melodias?

Górgias

É.

Sócrates

Por Hera, Górgias, admiro as tuas respostas, que mais breves não podiam ser.

Górgias

Também creio, Sócrates, que não me saio disto nada mal.

Sócrates

Tens razão. Diz-me então da mesma maneira a respeito da retórica qual é o objecto de que ela é ciência.

Górgias

Os discursos.

Sócrates

Que discursos, Górgias? Aqueles que indicam aos doentes o regime que devem observar para se restabelecerem?

Górgias

Não.

Sócrates

Nesse caso, a retórica não se ocupa de toda a espécie de discursos.

Górgias

Claro que não.

Sócrates

Mas tu tornas os teus discípulos hábeis em discursos.







Górgias

Exacto.

Sócrates

E também os ensinas, certamente, a pensar sobre aquilo que dizem.

Górgias

Evidente.

Sócrates

Mas não é verdade que a medicina, de que tratávamos há pouco, também ensina a pensar e a falar sobre os males dos doentes?

Górgias

Necessariamente.

Sócrates

Então a medicina, segundo parece, também tem discursos por objecto.

Górgias

Sim.

Sócrates

Os discursos relativos às doenças.

Górgias

Precisamente.

Sócrates

E o objecto da ginástica não são os discursos referentes à boa ou má disposição dos corpos?

Górgias

Absolutamente.

Sócrates

E assim por diante com todas as outras artes: cada qual tem por objecto os discursos relativos aos assuntos que lhe são específicos.

Górgias

Assim parece.

Sócrates

Então porque não chamas tu retórica às outras artes, também relativas a discursos, uma vez que chamas retórica a uma arte cujo objecto são os discursos?

Górgias

É que todas as outras artes se ocupam praticamente apenas de operações manuais e coisas dos mesmo género, ao passo que a retórica não tem nada que ver com esses aspectos, pelo contrário, toda a sua acção e eficácia se realizam através da palavra. É por isso que eu digo que a retórica é a arte dos discursos e estou convencido de que digo bem.

Sócrates

Estarei eu a compreender bem o carácter desta arte que, em tua opinião, se deve chamar «retórica»? Em breve o verei mais claramente. Ora responde: existem artes, não é verdade?

Górgias

Existem.

Sócrates

Entre todas as artes, umas atribuem, creio eu, um papel fundamental à acção, necessitando de muito poucas palavras; algumas prescindem inteiramente do discurso, podendo realizar toda a sua obra em silêncio, como é o caso da pintura, da escultura e muitas outras. Suponho que é destas que dizes que nâo têm relação nenhuma com a retórica. Não será?

Górgias

A tua suposição está perfeitamente certa, Sócrates.

Há, pelo contrário, outras artes que realizam todos os seus objectivos pela palavra e não carecem praticamente de nenhuma ou quase nenhuma acção. É o caso da aritmética, do cálculo, da geometria e, certamente, também do jogo do tabuleiro e de muitas outras artes em que o discurso desempenha, por vezes, um papel quase igual ao dos actos materiais e, na maioria dos casos, um papel superior, dado que toda a actuação e eficácia se verificam nestas artes através da palavra. É do número destas últimas que suponho dizes pertencer a retórica.

Górgias

É exactamente assim.

Sócrates

Não creio, que tu quisesses dar o nome de retórica a nenhuma destas artes e, no entanto, a tomar à letra a tua afirmação de que a retórica concentra toda a sua virtude no discurso, poderia alguém, interessado em jogar com as palavras, perguntar-te: «Será, Górgias, que dás o nome de retórica à aritmética?» Não estou, claro, a pensar que tu chamas retórica à aritmética ou à geometria.












Górgias

Ainda bem, Sócrates; estás a pensar como deve ser.

Sócrates

Acaba então agora de responder à minha pergunta. Uma vez que a retórica é uma arte que faz largo emprego do discurso e que muitas outras estão no mesmo caso, procura explicar-me qual é o objecto específico desta arte, actuante pela palavra, a que chamas retórica. Se, por exemplo, referindo-se a uma das artes que acabo de mencionar, alguém me perguntasse: «Sócrates, o que é a aritmética?», responder-lhe-ia, como tu fizeste há pouco, que é uma das artes que se realizam pelo discurso. E se a mesma pessoa depois me perguntasse: «Relativamente a que objecto?», diria que o seu objecto era o conhecimento do par e do ímpar nas suas respectivas grandezas». Da mesma maneira, se me perguntassem: «Que entendes por cálculo?», diria que é também uma das artes que assenta na palavra. E se insistissem: «Qual é o seu objecto?», responderia, nos termos dos que redigem os decretos, que quanto ao resto, não há diferença entre a aritmética e o cálculo, que se ocupam igualmente do par e do ímpar. Diferem, no entanto, em que o cálculo considera a grandeza do par e do ímpar, não só em relação a cada um deles em particular, mas também nas relações entre si. E se me interrogassem sobre a astronomia e eu dissesse que também ela realiza todos os seus objectivos por meio da palavra e depois acrescentassem: «Mas a que se referem os discursos da astronomia?», responderia que se referem à velocidade relativa do movimento das estrelas, do Sol e da Lua.

Górgias

Terias respondido muito bem, Sócrates.

Sócrates

É a tua altura de responder, Górgias. É exacto que a retórica seja uma das artes que tudo executam e acabam por meio do discurso?

Górgias

Perfeitamente exacto.

Sócrates

Diz-me então agora sobre que versam os discursos da retórica. Qual é das realidades existentes aquela que constitui o objecto dos discursos de que a retórica se serve?

Górgias

São as maiores e as melhores coisas humanas, Sócrates.

Sócrates

Mas, Górgias, o que acabas de dizer é não só discutível como bastante vago. Suponho que já ouviste cantar em festins aquela canção-de-mesa onde se enumeram os bens da vida, dizendo-se que o primeiro de todos é a saúde, o segundo a beleza e o terceiro ser rico sem fraude, na expressão do autor.

Górgias

Claro que já ouvi; mas a que propósito vem isso?

Sócrates

A propósito de dizer que, se estivessem aqui presentes os artífices destes bens elogiados pelo autor da canção, ou seja, o médico, o professor de ginástica e o financeiro, observaria em primeiro lugar o médico: «Górgias está a enganar-te, Sócrates. Não é a arte dele que se ocupa do maior bem do homem, mas a minha». E se eu lhe perguntasse: «Mas quem és tu para falar dessa maneira?», responderia, creio eu, que era médico. «Que estás tu a dizer? Que o maior bem de todos é produto da tua arte?» A isto replicaria certamente: «Tens dúvidas a este respeito, sabendo que a minha arte produz a saúde? Que bem há mais precioso para o homem do que a saúde?».

Seria depois a vez do professor de ginástica: «Também eu me espantaria, Sócrates, se Górgias conseguisse demonstrar-te que da sua arte deriva um bem maior do que da minha». Eu perguntar-lhe-ia: «Quem és tu e a que trabalho te dedicas?» «Sou professor de ginástica - diria ele -, e dedico-me a tornar belos e fortes os corpos dos homens».

Finalmente, viria o financeiro que, cheio de desprezo por todos os outros, falaria mais ou menos deste modo: «Vê Sócrates, se junto de Górgias ou de qualquer outra pessoa podes achar algum bem maior do que a riqueza» «O quê? - dir-lhe-ia -, és um artífice de riqueza?» «Sou». «Na realidade de quê?» «Na de financeiro». Quer dizer, na tua opinião a riqueza é para o homem o maior dos bens». «Sem a menor dúvida». «No entanto - acrescentaria eu -, Górgias, aqui presente, sustenta que a sua arte produz um bem maior do que a tua». É evidente que nesta altura ele me perguntaria: «Mas que bem é esse? Cabe a Górgias explicá-lo».

Imagina, Górgias, que estás portanto a ser interrogado por eles e por mim e explica-nos que coisa é essa que dizes ser o maior bem para o homem e de que te consideras criador.

Górgias

É a que, na realidade, constitui o maior de todos os bens, proporcionando a quem a possui ao mesmo tempo liberdade para si próprio e domínio sobre os outros na cidade.

Sócrates

Mas, insisto em perguntar, que coisa é essa?

GórgiasÉ a capacidade de persuadir pela palavra os juízes no Tribunal, os senadores no Conselho, o povo na Assembleia, enfim, os participantes de qualquer espécie de reunião política. Com este poder farás teus escravos o médico e o professor de ginástica, e até o grande financeiro chegará à conclusão de que arranjou o dinheiro não para ele, mas para ti, que sabes falar e que persuades a multidão.






Sócrates

Agora é que me parece, Górgias, que definiste, com a possível exactidão, a espécie de arte que é a retórica e, se te compreendi bem, afirmas que ela é obreira de persuasão, que tal é o objectivo e a essência de toda a sua actividade. Ou pensas que a retórica tende a mais do que a fazer nascer a persuasão na alma dos ouvintes.

Górgias

De modo nenhum, Sócrates, acho que a definiste perfeitamente: essa é com efeito a sua característica fundamental.

Sócrates

Escuta, Górgias. Se há pessoas que, quando conversam, desejam saber exactamente qual é o tema da conversa, podes estar certo de que eu pertenço a esse número, e o mesmo creio que se passa contigo.

Górgias

Está bem; e depois, Sócrates?

Sócrates

Já vais saber. A questão é que eu não entendo claramente que espécie de persuasão é essa que tu dizes que a retórica produz e qual o objecto sobre que se exerce. Tenho, evidentemente, uma ideia do que tu pensas a este respeito. Gostaria, no entanto, de te perguntar qual é, em tua opinião, a natureza dessa persuasão que nasce da retórica e a que objecto se aplica. Mas, fazendo eu uma ideia do teu pensamento, porque te interrogo, em vez de apresentar simplesmente as minhas conjecturas? Não é, certamente, para te pôr à prova, mas apenas em atenção à conversa, que desejo se processe de maneira a ficar perfeitamente claro o assunto de que tratamos. Vê tu próprio se tenho ou não razão para te interrogar deste modo. Se, por acaso, eu te tivesse perguntado que espécie de pintor era Zêuxis e tu me respondesses que era um pintor de figuras, não era natural que eu quisesse saber o género de figuras que ele pintava? Não concordas com isto?

Górgias

Absolutamente.

Sócrates

E a razão não está em que há outros pintores que pintam também figuras?

Górgias

Exacto.

Sócrates

Claro que, se Zêuxis fosse o único a pintá-las, a tua resposta teria sido correcta.

Górgias

É evidente.

Sócrates

Pois bem, diz-me agora a respeito da retórica: pensas que é a única arte capaz de produzir persuasão ou que há outras artes que fazem o mesmo? O que quero dizer é o seguinte: aquele que ensina alguma coisa persuade ou não os outros daquilo que ensina?

Górgias

Fá-lo no mais alto grau, Sócrates.

Sócrates

Regressemos àquelas artes de que falávamos há pouco. A aritmética e aquele que é entendido na aritmética não nos ensinam tudo o que diz respeito ao número?

Górgias

Claro que ensinam.

Sócrates

Logo, também persuadem.

Górgias

Também.

Sócrates

A aritmética é, pois, também ela, obreira de persuasão.

Górgias

Assim parece.

Sócrates

E, se nos perguntarem a natureza e o objecto desta persuasão, responderemos certamente que se trata duma persuasão didáctica relativa à série completa dos números pares e ímpares. Poderíamos, do mesmo modo, demonstrar que todas as outras artes que há pouco citámos são obreiras de persuasão e indicar o carácter e o objecto desta persuasão. Não será assim?

Górgias

É

Sócrates

Portanto, a retórica não é a única obreira de persuasão.

Górgias

Dizes bem.


Scuola di Atene, de Rafael


Sócrates

Mas se ela não é a única a produzir este efeito, havendo outras artes nas mesmas condições, parece justo que façamos uma pergunta idêntica à que fizemos há pouco a propósito do pintor: De que persuasão é a retórica a arte e sobre que incide esta persuasão? Não achas razoável esta pergunta?

Górgias

Acho.

Sócrates

Responde então, Górgias, já que essa é a tua opinião.

Górgias

Entendo que a persuasão em causa é a que se realiza nos tribunais e em outras assembleias, como há pouco afirmei, e que o seu objecto é o justo e o injusto.

Sócrates

Já suspeitava, Górgias, que era dessa persuasão e desse tipo de objectos que falavas, mas, mesmo assim, fiz a pergunta para não te admirares se, daqui a pouco, te interrogar sobre coisas que parecem evidentes e que, no entanto, me obrigam a interrogar-te de novo. Se assim procedo, é, repito, para conduzir de forma coerente a discussão, não por qualquer espécie de má vontade pessoal. Penso que não nos devemos habituar a adivinhar-nos mutuamente o pensamento, antecipando as palavras que ainda estão por proferir; importa que tu desenvolvas livremente os teus raciocínios segundo os princípios que tu próprio estabeleceste.

Górgias

Parece-me esse um método excelente, Sócrates (in Górgias, Edições 70, 1997, 448b-454c).

Continua


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Portugal e o iberismo (v)

Escrito por Franco Nogueira







A que doutrinação se encosta o moderno iberismo espanhol? Sob forma aparentemente nova, retoma a linha tradicional. No historiador Juan Beneyto podemos encontrar uma clara expressão da tese actual (15). Convém observá-la, ainda que em síntese. Na tradição e na mitificação do Centro, este está ligado ao Círculo, que depende daquele e de Deus. Quando está dentro do Círculo, é o Cosmos; para além do Círculo, é o Caos. Firmar-se-ia esta análise em concepções de Platão, e depois na filosofia cristã; a Renascença exaltara o Centro; e durante a Idade Moderna o Centro é utilizado como esquema ordenador da vida e da convivência. Do Centro partem as vias radiais; e esta realidade deve comandar as estradas e os caminhos-de-ferro (e portanto comunicações e transportes) (16) e actividades culturais também. Em termos políticos, o Centro seduz e arrasta. Do Centro manda-se melhor, e de maneira mais firme. Por isso o Centro tem a vocação de coagir; e historicamente todas as periferias têm sido subordinadas aos poderes instalados no Centro (17). Este e a periferia são assim quantidades que se completam, e os pormenores dessa conjugação reflectem-se nas suas variáveis de Meseta e Litoral. Aliás, já Sanchez Albornoz sustentava parecer semelhante: considerava Castela um país de Meseta, onde a vida de pobreza e de luta contra a natureza áspera produz uma força expansiva que arrasta à procura, para além do território, de uma vida amável e mais doce, e da fortuna. Em termos políticos, Centro e Periferia, Meseta e Litoral são variáveis que dependem do elemento telúrico, que é particularmente ligado à proximidade ou ao afastamento do mar. E os Espanhóis, instalados numa terra subordinada ao Continente por uma montanha de fogo, têm ao invés toda a periferia encostada ao mar, pois que Espanhóis são também ao modo antigo os Portugueses. A Oeste, quedava-se Portugal, que se havia afirmado para lá da órbita de Castela, eximindo-se à identificação da Espanha política com a Espanha física (segundo o que se alega ser uma terminologia antiga), e isso numa Península que deve estar sob um único mando, rodeada como está pela França e com a saída para o Atlântico por Lisboa. Esta foi a suprema obsessão de Filipe II; e essa continua a ser a maior tragédia de Castela, que vê morrer o Douro fora da sua terra. Castela - Centro e Meseta - jamais tomou consciência de que a periferia e a meseta fossem coisa diferente; e não teve em conta os reinos em seu derredor. Se Maquiavel sublinhou o dilema em que se debatem os príncipes - serem amados ou serem temidos - Castela usou de ambos os instrumentos: o amor de Deus e o temor do Rei. E para compreender a Espanha e filiar as suas estruturas tradicionais, importa investigar o que é Castela. Se a invasão islâmica impediu o surto do Feudalismo - e consequentemente um forte alheamento da história europeia - a conquista de novo mundo atrasou o impulso que a levaria a ocupar toda a Península. Apenas a utilização por Filipe II do poder marítimo marítimo português conduziu à integração da velha Lusitânia no mecanismo político-administrativo, aproveitando-se do problema sucessório; e parece assim evidente que o esforço militar necessário para eliminar o separatismo no resto da Espanha foi deslocado para as Índias, isolado e abandonado o Litoral. No entanto, tudo foi gradualmente submetido. Portugal foi a única entorse à política de homogeneidade da Península. Saavedra Fajardo dissera que Portugal abandonara a coroa de Castela como condado e a esta regressaria como reino. Seriam diferentes os métodos; mas impunham-se os mesmos mecanismos sociais. Tentaram-se os casamentos, fundindo-se interesses e obrigações; e também o intercâmbio de funções. Em súmula, era esta aliás a famosa defesa do conde-duque dirigida a Filipe IV, a quem acusava de não ter querido proceder como Filipe II. Mas Portugal, nascido cedo para a liberdade, possuía uma identidade tão arreigada, nota Beneyto, que não se podia assimilar por Castela. E deste conjunto de circunstâncias - que concluir? Para prosseguir e completar a epopeia política castelhana, de avanço da Meseta para o Litoral, pode prever-se uma alteração de porte, de que a Espanha necessita. À castelhanização dos não-castelhanos deve seguir-se uma espanholização do todo, e que, progredindo num desenvolvimento convergente, atinja como ponto de coincidência o sentido de uma Pátria Nova, numa concepção integral hispânica, sem anexações nem secessões; e uma integração que avance até ao Litoral, aceitando as estruturas dos que aí habitam mas subordinando-as também.




Esta a tese. Importa ensinamentos e autoriza ilações. Alicerçada no que se considera a própria natureza das coisas, baseada numa especiosa interpretação da geografia, firmada em dados quase havidos por sacrossantos, invocando unilateralmente uma raiz telúrica, apresentando-se como necessidade filosófica evidente, a tese estriba-se em elementos que por definição não desaparecem nem se alteram na essência, e assim tem de se dizer que se pretende atribuir-lhe validade permanente. Na actualidade, a tese não cumpre; mas porque é sempre válida, haverá de cumprir-se mais tarde ou mais cedo. E então as perguntas são: qual o motivo do seu não cumprimento? e que se impõe fazer para transformar em realidade o princípio implícito numa tese válida? Estão encontradas as respostas desde Filipe II: porque Castela se empenhou distraidamente noutras tarefas (as Índias, isto é, as Américas), e porque se não aplicaram os mecanismos previstos (e preconizados desde Carvajal e Floridablanca até Pelayo e Pidal, Unamuno e Margall, Albornoz e Madariaga, e os demais iberistas). Mas Castela está agora bem consciente das distracções a que se entregou no passado; e está livre de se dedicar doravante à concretização da tese. Por outro lado, Portugal oferece hoje uma oportunidade rara, e portanto a não desperdiçar: reduzido ao mínimo nos seus recursos e no seu espaço; enfraquecido nas suas estruturas; trabalhado por forças que tentam destruir no seu cerne os mecanismos psicológicos de defesa; infiltrado por interesses económicos e financeiros alheios, e que não raramente obedecem a comandos estrangeiros, e a que naturalmente são inconvenientes a soberania, a independência e a integridade portuguesas; fascinado por construções internacionalistas, efémeras como sempre; convencido de que estão ultrapassados os valores essenciais (nacionalismo, patriotismo), ainda que os demais países os cultivem com empenho e os respeitem com fervor; e descrente de si próprio. Todas estas realidades foram inspiração para um expressivo e premonitório editorial no jornal A B C, assinado por Florentino Perez-Embib, que prevê um adeus ao Portugal Grande, e concluiu com esta pergunta elucidativa: «que será na Península um Portugal pequeno?» (editorial de 7. V. 1974). E tempo depois o mesmo A B C, em artigo de Alfonso de La Cerna, saúda o reencontro com a Espanha de António Sardinha (editorial de 14-VIII-1977). E ainda mais tarde, de novo o A B C, em artigo de Manuel Fraga Iribarne, antigo ministro de Franco e integrado na situação portuguesa post-franquista, não cita o nome de Portugal mas a este se aplica a sua doutrina. E esta é integradora: «negar a tendência integradora e seus benefícios é falsificar a história»; e a «pressão exterior actua hoje em favor da integração, justamente porque os desafios externos são mais agudos» (artigo de 28-III-1984). E neste particular importa acaso abrir um rápido parêntesis. Manuel Fraga é tido em Portugal, por muitos, como não partilhando, quanto a Portugal, das correntes iberistas, e o próprio Fraga se apresenta como desejoso de construir um sonho: uma região aparte constituída pela Galiza e Portugal (não o Minho apenas, mas Portugal); e esse seria um pequeno mundo diferenciado de tudo o mais na Península. Mas não é esse, no fundo, o seu pensamento, nem o seu sentimento. Num volume recente, acaso sem o pretender, fugiu-lhe a pena para a sua verdade: Escreveu: «O resultado tem sido uma penalização injusta para a maioria das regiões fronteiriças. Este tem sido o caso na maior parte da fronteira hispano-portuguesa: todas as nossas províncias ocidentais, como parte oriental de Portugal, viram-se cortadas nas suas relações económico-sociais mais naturais. Chegou o momento de dar solução aos seus problemas, no marco da integração comum da Europa, e em particular da nova política estrutural da Comunidade». Por outras palavras, Manuel Fraga pretende o desenvolvimento em comum das regiões fronteiriças de Portugal, cujas relações económico-sociais normais seriam com a Espanha. Acrescenta mais Manuel Fraga: «As estatísticas indicam que a integração económica de Portugal e Espanha continua a um ritmo superior ao da integração do conjunto da Península Ibérica no contexto da CEE com um ritmo quase duplicado das correntes comerciais». Dito de outro modo: ainda que venha a acabar a CEE, a integração económica de Portugal na Espanha será um facto. E para o fim do volume escreve Manuel Fraga: «Não podemos continuar a desertificar a nossa Meseta; é preciso enchê-la de oásis, ligados entre si, que sejam verdadeiros depósitos de inovação e humanismo» E a região Galiza-Portugal idealizada por Fraga tem evidentemente a sua sede em Tui - sede histórica, psicológica, geográfica, política. Manuel Fraga, em suma e explicitamente, adere à tese Meseta-Litoral, a Portugal ficando reservado o papel de ser um oásis no conjunto da Meseta (Manuel Fraga, Iribarne, A Galiza e Portugal no Marco Europeu, pp. 27, 29, 78, na colecção Textos da Presidência da Xunta de Galicia, Santiago de Compostela). Mais elucidativo é Ramon Villares. Traçando o ideário do nacionalismo galego, com base no histórico Manifesto da Asamblea Nazionalista de Lugo, Villares resume-o assim: «no plano político, expõe-se em primeiro lugar a necessidade da autonomia integral para a Galiza, a organização federal da Península (já que Portugal deveria entrar na federação) e a casualidade das formas de governo, embora a simpatia que se preconiza por aquela forma de governo que torne mais fácil a federação com Portugal, suponha uma clara opção antimonárquica. Nacionalismo, republicanismo, federalismo e iberismo são os conceitos que dominam as posturas políticas» daquela Assembleia (Ver Ramon Villares, História da Galiza, Livros Horizonte, 162). Estas palavras, tanto de alguns anos atrás como de hoje, poderão acaso penetrar e dissipar a candura dos portugueses entusiastas do Movimento Minho-Galiza como do igualmente cândido Movimento Algarve-Andaluzia. Mas feche-se o parêntesis. De um outro ângulo, a revista Cambio 16 (número de Julho de 1983) interpreta a seu modo a situação, e não é ambígua: ocupa-se do iberismo; defende a integração de Portugal na Espanha; e considera que o ingresso dos dois países no Mercado Comum constituiria um excelente caminho para a União Ibérica, através da união económica, da união aduaneira e do desaparecimento das fronteiras. Destes comentários a conclusão pode ser uma só: procura-se a execução dos princípios da tese Meseta e Litoral. Excluída a violência, ocorrem métodos tradicionais desde Filipe II. E a doutrinação retoma as linhas constantes. Julian Marias, que sem embargo da sua avançada idade é ensaísta prestigioso e comentador político, escreve muito nitidamente: «A Espanha, como um todo, mais do que uma recordação, é uma meta, um destino. A separação de Portugal foi um fracasso, uma rebelião contra a geografia. A Península Ibérica está preparada, desde o princípio do tempo, para ser a morada dos Espanhóis» (J. M., Cinco años de España, Espasa Calpe, 1982, pp. 24, 25). Julian Marias é havido como admirador, acaso discípulo de Pelayo, de Maragall, de Unamuno, de Sanchez Albornoz, de Madariaga, sobretudo de Ortega y Gassett, dos iberistas integradores em suma; e por isso é análoga a sua concepção da Espanha. E por isso insiste em que Portugal independente é contra a estrutura primária do conjunto; o Brasil não faz sentido fora do mundo hispânico; e a nova fusão entre Portugal e Espanha, a fazer-se, deve ser impulsionada pelos povos da América Hispânica (ob. cit., p. 227). Através dos seus volumes - A Espanha Real, La devolución de España, España en nuestras manos - sustenta uma visão global de que um vivo iberismo faz parte integrante, e muito intensa. Em síntese, pode neste particular, do lado português, dizer-se: «do lado espanhol, raros são, mesmo entre os melhores desses homens, os que aceitam sem azedume esta bizarra mutilação que nós representamos no todo geográfico da Península; e os que podiam orientar os governos, repetidas vezes quiseram emendar o que lhes parecia defeituoso; éramos um enfermo crónico do el morbo do separatismo, mas a cura devia tentar-se» (Alberto Martins de Carvalho, Iberismo, Vol. III do Dicionário da História de Portugal, dirigido por Joel Serrão). E tudo isto continua a ser o eco do pensamento de Lafuente, nome já mencionado, e que Hernâni Cidade citou como fonte essencial da matéria: «não podemos reconhecer nunca, nem ao filho de Henrique de Borgonha, nem aos Portugueses, o direito à emancipação». A tese Meseta e Litoral, actualizada e modernizada, constitui a forma do iberismo neste fim de século e de milénio. Para se avaliar da sua excepção, de que elementos objectivos dispõe?

Santiago de Compostela


Com a evidência dos factos, e só esta, e que deve recusar-se a qualquer emoção ainda que legítima, haverá de dizer-se que do lado espanhol se estão a utilizar instrumentos culturais, económicos, políticos, militares. No plano cultural, e em síntese: penetração da televisão espanhola, que cobre bem um terço do território nacional; exibição de filmes espanhóis não legendados em português; aliciamento da juventude portuguesa raiana para se deslocar a território espanhol; esmagamento dos descobrimentos portugueses com os descobrimentos espanhóis, que já conseguiram chegar aonde nunca chegaram; multiplicação dos encontros de poetas de expressão ibérica, de técnicos de expressão ibérica, de comerciantes e empresários de expressão ibérica, de jornalistas de expressão ibérica, e houve mesmo um encontro ibérico de municípios (em Lagos, em 1988, segundo a imprensa); sugestão por alguns da possibilidade de a língua espanhola ser uma opção nos liceus portugueses (18); e uniformização da História de Portugal e da de Espanha, de modo a eliminar da primeira quanto a possa exaltar e quanto possa desagradar à segunda. Reitores das Universidades do Minho, Porto e Vila Real, reuniram-se com os das Universidades espanholas de Corunha, Santiago de Compostela e Vigo, e concordaram em que os alunos portugueses daquelas universidades do Norte de Portugal poderiam fazer a sua formação académica naqueles três centros de ensino superior da Galiza (Diário de Notícias, 4-XII-91). Tudo isto na orientação preconizada por Sinibaldo de Más: criar a habitualidade do iberismo no espírito e na alma do povo português. E depois o uso de instrumentos económicos: compras de excelentes locais na cidade de Lisboa e nos arredores do Porto, e outros sítios; aquisição do controle de bancos, companhias e empresas de Portugal por capitais espanhóis; compras por parte de espanhóis feitas com financiamentos portugueses; investimentos espanhóis que não se destinam a criar riqueza nova mas a financiar simples transferências de propriedade; desenvolvimento em comum dos territórios fronteiriços, estando naturalmente os Espanhóis prontos a tomar à sua custa o maior quinhão das despesas e ficando cerca de dois terços do continente português cobertos por esse desenvolvimento comum (veja-se, por ex., António Pintado e Eduardo Barrenchea, La Raya de Portugal, la frontera del subdesarrollo, Cuadernos por el dialogo, Madrid); construção de vias rápidas para Espanha, aparentemente na convicção de que se estão a lançar para a Europa; acolhimento de esquemas como o eixo Minho-Galiza ou Andaluzia-Algarve, já velhos desde antes de Filipe II, e cujo real significado e propósito vimos há pouco; abandono da marinha mercante, passando a usar os transportes terrestres para a esmagadora maioria das nossas exportações e importações; e por tudo não deverá causar surpresa que a mesma revista Cambio 16 haja escrito em largas parangonas que o «capital espanhol pôs cerco à economia portuguesa» (número de Dezembro de 1989). Neste particular, e neste contexto, cabe lembrar o apólogo conhecido: o da panela de barro e a panela de ferro que procuram resistir à corrente (Alberto Martins de Carvalho, artigo citado). Neste contexto, há que registar um artigo publicado da imprensa portuguesa, sob o título de «Bolsa ibérica é provável». Aí se escreve: «comentando a hipótese de uma fusão entre Lisboa e Madrid», considera-se que «em termos económicos Portugal não deixa de ser um prolongamento de Espanha», e a «verdade» - acrescenta um responsável, segundo o jornal, «é que os espanhóis já estão aí a comprar tudo, podendo dar-se o caso de não se pôr sequer esse problema no futuro» (o da bolsa ibérica), «uma vez que grande parte das empresas portuguesas poderão já ser detidas maioritariamente por espanhóis» (Semanário, 4-I-92). E encaremos o terreno propriamente político. No que há de fundamental, teremos de ver o seguinte; constitui grave risco pertencer Portugal conjuntamente com a Espanha à mesma estrutura internacional e multilateral político-militar e económica (assunto levantado, por ex., por Medeiros Ferreira. Um século de problemas), estimulando-se assim uma tendência, encorajada naturalmente pela Espanha, para se tratar a Península como um conjunto em que Portugal se dilui e para se adoptarem soluções que correspondam mais ao peso da Espanha (por exemplo, exigir a sede de multinacionais em Madrid, mas com jurisdição em toda a Península). Um exemplo frisante, e elucidativo: a comissão de transportes e comunicações da Comunidade Europeia, ao planear as ferrovias trans-europeias, atribuiu à Península um triângulo ferroviário para alta velocidade: Porto, Lisboa, Madrid. Quer isto dizer que a CEE entende que para Portugal a Europa é Madrid. Por todas estas razões, procurou sempre Portugal pertencer a estruturas de países periféricos - de que a aliança luso-britânica é o mais expressivo exemplo - e não a estruturas continentais, ao contrário da Espanha, que prefere estas, sempre mais saudosa de Carlos V do que da aventura atlântica. Mas o uso de instrumentos políticos, por parte de Madrid, importa ainda uma outra coordenada: a obsessão de substituir a presença ou a influência de Portugal por toda a parte, desde o Brasil até aos países africanos de expressão oficial portuguesa. E finalmente o quadro militar. E aqui ganha toda a sua virtualidade a frase inicial: fazer coincidir a geoestratégia da Península com a sua geopolítica. Logo à sua entrada para o Pacto do Atlântico, mostrou a Espanha empenho vivo em se responsabilizar pela defesa do flanco ocidental e sul da aliança; não sentiu a menor dificuldade ou hesitação em reivindicar toda a responsabilidade por aquela zona; e assim, muito naturalmente, os meios espanhóis são dispostos por forma envolvente, pondo em causa a liberdade irrestrita das nossas costas (sul e ocidental), e também a do triângulo estratégico português, ou seja o Atlântico decisivo, de que fala o professor Borges de Macedo (cf. Álvaro de Vasconcelos, Portuguese/US Relations in the Field of Security, em Portugal: An Atlantic Paradox, 64, 65). Enfim, estamos perante a política permanente. Há que repisar o comentário: os tempos não são novos, nem são outros: e os fantasmas do passado estão bem vivos no presente - porque não são fantasmas.


Quanto fica para trás, suscita naturalmente uma interrogação: por que havia de mudar a Espanha? Por que abandonar um sonho multissecular? E que se opõe à execução prática da tese Meseta e Litoral? Em verdade, nada, rigorosamente nada - salvo a vontade, a resolução, a lucidez, a capacidade, a consciência nacional, o rasgo dos Portugueses. Em qualquer caso, objectivamente, não há por que criticar a Espanha. É um grande povo; está no seu papel; está na sua lógica; mas não está no seu direito. Quando dizemos a um francês, ou a um inglês, ou a um italiano, que admiramos o seu país, mas não queremos ser franceses, ingleses ou italianos, acham a afirmação óbvia: admiram também muito Portugal mas não querem ser portugueses. Se com toda a simplicidade afirmamos a um espanhol a nossa admiração pelo seu país, mas acrescentamos que não queremos ser espanhóis - este mostra-se surpreendido e afrontado, tem-se por ofendido, e considera que se está a ser anti-espanhol. Como explicá-lo? Nós, Portugueses, parecemos porém não estar por vezes à altura dos destinos que são os nossos, e dos nossos incontestáveis direitos. Se o iberismo avançar, são culpados os Portugueses. Todos os Portugueses. Em consciência, com objectividade e com isenção, não podemos responsabilizar este ou aquele vulto político, este ou aquele partido, este ou aquele círculo social ou económico. São responsáveis - apenas todos os Portugueses. E «todo o povo que se esquece da terra em que nasceu e contempla indiferentemente as cores estrangeiras que a proclamam vencida - é um povo morto, uma nação cujo espírito passou enquanto o corpo se dissolve» (Rebelo da Silva, Bosquejos Histórico-Literários, I, 72) (19).

(in ob. cit., pp. 143-151).


Notas:

(15) Já atrás citado, España y Litoral, Madrid Siglo XXI, 1980.

(16) Como se sabe, quem dominar transportes e comunicações domina tudo o mais. Transportes e comunicações significam império.

(17) Esta teoria poderia também explicar (a especulação é minha) por que motivo a Inglaterra sempre se opôs a um continente europeu unido. E também explicaria a luta permanente de Portugal contra e em face do Centro.

(18) Este ponto suscita alguns reparos. Para lerem os livros da grande cultura espanhola, os Portugueses não precisam de aprender espanhol. São outros, portanto, os objectivos. Acaso se julgará que optar pelo espanhol é o mesmo que optar pelo italiano, ou sueco, ou sânscrito? Há que reflectir em que, por detrás da opção pelo espanhol, há logo a poderosa vontade de Espanha, os poderosos meios de Espanha, e o aliciamento e exploração que se fariam de quantos jovens portugueses fizessem tal opção, através de subsídios, bolsas de estudo em Espanha, etc.




(19) Julgo estar bem consciente de que o problema do iberismo, para ser tratado em toda a extensão e profundidade, requereria um grosso tomo pelo menos. O autor sabe que muito e muito ficou por dizer; e ainda haverá mais a dizer e que o autor não sabe. Mas as páginas que antecedem serão talvez bastantes, como ponto de partida, para o leitor curioso ou preocupado se lançar nas suas reflexões ou até nas suas investigações.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Portugal e o iberismo (iv)

Escrito por Franco Nogueira




Península Ibérica vista do espaço


Uma pergunta ocorrerá certamente: o iberismo espanhol, naqueles finais do século XIX, limitava-se aos círculos políticos militantes, tanto republicanos como monárquicos, e por razões de oportunismo? Ou era reflexo também de toda uma elaboração cultural e doutrinária? Na realidade, naquele período afirmou-se em Espanha toda uma teoria de escritores, ensaístas, filósofos, historiadores, críticos, polígrafos em suma. Foram homens eminentes, e representaram sem exagero uma das mais altas expressões da intelectualidade europeia na época. Como se definiram esses homens em face do iberismo? Não tento sequer esboçar aqui um inventário, mesmo aproximado, de todas aquelas figuras, e seu comportamento no capítulo. Deverá adiantar-se, contudo, que o escol castelhano daquele período se conservou inteiramente à altura das grandes tradições na matéria, e foi fervorosamente iberista, e em nada se desviou da rotina do passado. Haverá mesmo de acrescentar-se que procurou para o iberismo novos fundamentos doutrinários, novos motivos históricos, nova inspiração ideológica, novos objectivos políticos. Dir-se-ia que assim melhor se ocultariam os propósitos reais, tornando estes, porque mais disfarçados e mais subtis, mais aliciantes também, e até aparentemente inócuos e favoráveis a Portugal. Reflectiam além disso, como sempre, a própria orientação oficial. Esta foi constantemente iberista durante os reinados espanhóis na transição para o século XX, e durante este até Afonso XIII, bem expressivo aliás na entrevista já conhecida. E afigura-se plausível sugerir, e acaso até concluir, que toda aquela orientação era inspirada, entre outras fontes, pela História Geral de Espanha, de Modesto Lafuente, de grande influência na primeira metade do século XIX. Mas o iberismo dos intelectuais transcende em muito os aspectos meramente históricos: trata-se, para aqueles, de uma alta missão a ser cumprida por mandato de épocas imemoriais, de obediência a um sentido providencial que aponta um destino, de um imperativo escrito nas coisas e nas almas, de um dever sacrossanto para cada espanhol.

Menendez Pelayo é um primeiro nome. Foi grande admirador de Oliveira Martins, que considerava o maior historiador-artista da Península. Para a sua reconstituição da Espanha, esta aparecia a Pelayo como una, e abarcava toda a Península. Na sua obra de história e de crítica literária, poetas portugueses como Gil Vicente e Camões, surgem ao lado de espanhóis sem que se assinalem diferenças de raiz ou cultura: porque todo o complexo peninsular, como escreve Garcia Morejon, continua sendo Espanha na actualidade, sem embargo de 1640. Para Pelayo, a Espanha é toda a Península Ibérica, e a unidade da história não permite que se atendam artificiais divisões políticas (Miguel Artigas, La España de Menendez Pelayo, 54, Valhadolide, 1938). Portugal era simples região, a pertencer a um federalismo que deveria constituir a forma de governo natural do conjunto. Uma futura união não deveria usar o nome de Ibéria mas o nome «tradicional e venerando de Espanha»; a literatura portuguesa não era distinta da espanhola mas irmã da castelhana, de que é parte integrante; e não havia teatro português, ou castelhano, ou catalão, mas singelamente teatro espanhol. Das mesmas opiniões partilha Juan Valera, que foi embaixador em Lisboa, e grande amigo de Pelayo. E Ramon Menendez Pidal, discípulo preferido de Pelayo, é igualmente claro. Para este, a emancipação de Portugal é sintoma e resultado da decadência geral de Espanha; esta deve procurar ser unitária e antilocalista; e Pidal lamenta que corresponda a uma idade áurea já ida o pensamento de Quevedo, para quem o Deus dos exércitos havia ajudado a Espanha nas batalhas do Cid, das Navas de Tolosa, e «nas empresas de Vasco da Gama, de Cortez ou de Cisneros» (Ramon Menendez Pidal, Los Españoles en la História, 193). Paralelamente, persistiam na mesma orientação muitos dos que, por alturas do ultimatum, já haviam sido entusiastas da união ibérica: eram então jovens impetuosos: e estão neste caso Angel Canivet, Valle Inclan, Pio Baroja, Martinez Ruiz (Azorin), Ramiro de Maetzu; e o próprio Miguel de Unamuno, mais do que todos conhecido e admirado então em Portugal, não excedia os seus vinte e seis anos (8). Sobre Unamuno justifica-se por isso uma palavra à parte.



Miguel de Unamuno



Muito jovem estudante de Filosofia e Letras em Madrid, Unamuno observa a Espanha e considera os seus problemas, organiza para si uma consciência de pátria; e esta leva-o ao iberismo. É também um discípulo de Menendez Pelayo, e por igual um admirador de Oliveira Martins. Segue-lhes os mesmos traços; mas evolui depois, já nas primeiras décadas do século XX, para um iberismo diferente. Tem os Portugueses por irmãos, e também os Latino-Americanos; mas não concebe a sua existência separada da Hispania. Para Unamuno, a palavra hispanidade reveste-se da máxima dimensão e do máximo conteúdo: deve abranger todos os povos peninsulares e todos os povos ultramarinos junto de quem a acção da Hispania se tenha feito sentir. É a antiga concepção dos Reis Católicos e de Filipe II. Jamais Unamuno encarou o conjunto de um ângulo localista, isto é, vasco, ou castelhano, ou português, ou catalão. E assim o mestre salamantino se torna um inimigo do republicanismo federativo peninsular: este era, para Unamuno, um impossível absoluto. Porquê? Porque o federalismo não supunha integração; e sem esta seria efémera toda a unidade (e aqui parece que o professor de Salamanca não entrava em linha de conta com o génio centralizador de Castela). Neste particular, Unamuno frisa com o pensamento de Oliveira Martins: se em vez de união real e exploração se houvesse seguido o caminho da incorporação e assimilação, Portugal haveria desaparecido para sempre do rol das nações (9). Assim considera Unamuno que uma monarquia, ainda que federal, não unia: apenas uma república revolucionária, por lógica crítica e unitária, conseguiria esse objectivo: e convinha por isso não confundir federalismo com republicanismo ou liberalismo. No fundo, o reitor de Salamanca regressa à unicidade dos Filipes, de Pelayo e de Pidal. E nas suas prolongadas estâncias em Portugal, julga Unamuno encontrar provas complementares das suas concepções. Firma-se a sua amizade por Teixeira de Pascoaes, o «poeta dulcíssimo», e com Guerra Junqueiro, «o maior lírico português entre os vivos e um dos maiores do mundo de hoje»; e globalmente entende a poética portuguesa como de essência peninsular. Não apenas a poética portuguesa: toda a alta cultura portuguesa, toda a grande literatura portuguesa são peninsulares, ibéricas, espanholas. É quanto resulta claramente dos livros e cartas de Unamuno; e tudo está pormenorizado no bem documentado volume de Júlio Garcia Morejon Unamuno y Portugal, Madrid, 1971. Unamuno admirava profundamente alguns escritores portugueses de fins do século XIX e princípios do actual. Tornemos a Antero. Com este partilhava o reitor de Salamanca do mesmo sentimento trágico da vida e de igual agonia filosófica. Mas para Unamuno e Morejon, Antero é ibérico; e sublinham que o poeta dos Sonetos defendeu com calor a fusão ibérica e confabulou com José Fontana uma república federal ibérica. Mas Morejon, que cita a carta de Antero a Stork, omite que nesse mesmo documento concluiu o poeta pelo repúdio do iberismo. Unamuno considerava João de Deus «o maior lírico entre os mortos»; admirava-lhe a extrema simplicidade; e o autor do Campo de Flores teria um fundo espanhol e romântico. Também Camilo Castelo Branco era um novelista ibérico por excelência, símbolo da paixão peninsular; e para Unamuno o Amor de Perdição, que lhe teria sido dado a conhecer pelo seu amigo Teixeira de Pascoaes, era obra fundamental da literatura ibérica, da alma ibérica. Mas nem Unamuno nem Morejon aludem à recusa de Camilo em acolher o iberismo no momento de emoção causada pelo ultimatum britânico. De Eça de Queirós diz Unamuno que é ibérico o seu sarcasmo, que tem um ímpeto ibérico, que mergulha em fundas raízes ibéricas, e que é parente dos grandes escritores peninsulares de todos os tempos. Morejon sublinha a popularidade de Eça em Espanha, nas traduções de Valle-Inclan, ou Gonzalez-Blanco, ou Fernández Flórez, ou pelo estudo de Perez de Ayala; mas não se nos documenta qualquer atitude iberista do autor de Os Maias, que evidentemente nunca existiu. Quanto a Junqueiro, que Unamuno admirava prodigiosamente, não seria um poeta português, mas ibérico, e de ressonância universal, e muito mais espanhol do que português; mas não há, nem por parte de Morejon, a menor alusão ao firme repúdio do iberismo feito por Junqueiro a propósito do congresso de Badajoz. Para Unamuno, Oliveira Martins é historiador artista, tem um pensamento de carácter peninsular; e a História da Civilização Ibérica, que representaria o momento mais alto do iberismo do autor do Portugal Contemporâneo, deveria ser um livro de cabeceira de todos os espanhóis. Mas nem Unamuno nem Morejon se aperceberam de que, no termo de tudo, Oliveira Martins era um patriota português. Por último, Fidelino de Figueiredo. Entre este e Unamuno, ainda que se tivessem encontrado pessoalmente apenas uma vez ao que parece, houve intimidade de relações intelectuais. A hispanofilia de Fidelino, o iberismo de Fidelino, o hispanismo de Fidelino são constantemente sublinhados; e citam-se em apoio muitos dos seus livros, em particular As Duas Espanhas. As duas Espanhas, para Fidelino, são a do Quixote e a dos Filipes. Mas o que Unamuno e Morejon omitem é isto: em As Duas Espanhas, como veremos, pergunta Fidelino a qual pertence Portugal: e responde que Portugal não pertence a nenhuma. E para Unamuno, os Portugueses são um povo triste, mesmo quando sorri; a sua literatura, mesmo que se pretenda cómica ou jocosa, é triste; e o sorriso de Eça de Queirós é enigmático e triste. São de superfície a brandura e a meiguice portuguesas: por debaixo encontra-se uma violência plebeia que assusta. E escreve: «Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida; a vida não tem para os Portugueses um sentido transcendente; querem talvez viver, mas não sabem bem para quê, e por isso acaso valerá mais não viver». Esta visão de um Portugal suicida encontrou ressonância num português: Manuel Laranjeira. Com efeito, escreveu em carta a Unamuno: «Em Portugal chegou-se a este estado de filosofia desesperada: o sacrifício é uma espécie de redenção moral. Neste desgraçado país tudo que é pobre se suicida»; «eu, por mim, não sei em boa verdade, amigo, não sei para onde vamos»; «sei que vamos mal»; «até onde nos leva a má ventania do destino, até onde?». E Manuel Laranjeira suicida-se em 1911 (Maria Amália Vaz de Carvalho, Coisas de Agora, 173, 174). Mas nenhum daqueles traços sombrios impediu Unamuno de ver Portugal como parte integrante da pátria espanhola, numa compreensão que queria mútua e fraternal. Anos mais além, por 1930, em entrevista a António Ferro, Unamuno mitigava o seu iberismo, para não ferir os Portugueses: estes seriam os únicos senhores do seu destino; a Espanha apenas faria o que Portugal quisesse; e só os Portugueses têm o direito de se governar, de saber o que lhes convém. Mas não consegue fugir a repisar os seus velhos conceitos: se os Portugueses quisessem uma república federal, deveria fazer-se; fora sempre contrário à fragmentação da Península; a personalidade de um povo não se perde numa república federal. E Unamuno sugere o gradual desaparecimento da língua portuguesa e lembra que Camões «fez versos em espanhol». E vem a nota final, aliciante, sortílega, anestesiadora: nada receiem, os Portugueses nunca serão absorvidos pelos Espanhóis (10). Não ocorreu decerto ao mestre de Salamanca que, ao afirmar que a Espanha faria o que Portugal quisesse, estava a indicar que no seu pensamento reservava para a Espanha um papel quanto ao futuro de Portugal. Faria Unamuno as mesmas afirmações quanto a uma França, por exemplo?






Acolhe Unamuno calorosamente a solidariedade iberista de Juan Maragall, que no dizer de Morejon foi um dos mais exaltados, se não o mais exaltado iberista espanhol. Catalão, como Pi y Margall, que fora em As Nacionalidades teorizador entusiasta do movimento federalista ibérico, também Juan Maragall se proclama iberista com euforia. Dizia a um português: «Há uma pátria comum, uma grande Espanha a construir. E nessa Espanha entram também vocês. Vamos fazê-la; e animá-la; façamos uma política comum, uma política ibérica; uma pátria maior». Abre-se correspondência entre Juan Maragall e Miguel de Unamuno. Maragall quer uma unidade firmada no triângulo Portugal, Castela, Catalunha; mas esta não era a solução última sonhada pelo professor de Salamanca; porque este aproximava-se mais, no que toca a este ponto, de um «amor a Portugal», à maneira de Gimenez Caballero. Numa sugestão, todavia, se encontra Unamuno de acordo: no lançamento de uma revista. Tratava-se de fazer evangelização ibérica. Unamuno declara o seu apoio: era o sonho da alma ibérica: e para isso estaria pronto a escrever aos seus «amigos de Portugal, da Galiza, das Astúrias, etc., e se for necessário a americanos e até a judeus orientais de língua espanhola, que a alguns conheço». Por seu turno, o poeta catalão pormenoriza: a alma ibérica, que tão poucos ainda sentem, há que buscá-la dentro de Castela, de Portugal, da Catalunha, até alcançar a raiz comum: daqui arrancará a Espanha grande, a Espanha europeia, por invasão espiritual: e este é o caminho. E Unamuno lembra mesmo que para evitar susceptibilidades deverá a revista surgir em Portugal. De outro modo, os Portugueses poderão imaginar que acaso se trata de «coisas do Diabo».

Mas na década de 1930 está em plena pujança toda uma nova geração espanhola, por igual eminente, e iberista. Neste último particular, não se afastou da tradição. E vale a pena salientar alguns nomes: porque foram chefes de fila de importantes correntes de pensamento espaanhol: e ainda porque se projectaram igualmente, e com inteira justiça, muito para além das fronteiras espanholas. Verdadeiramente, muitos conquistaram uma audiência europeia.

Claudio Sanchez Albornoz é um desses nomes. Repete as grandes pisadas de Pelayo e Pidal (como as virá a repetir mais recentemente Pedro Sainz-Rodrigues). Mestre de historiografia espanhola, as investigações e os estudos de Albornoz fizeram fé no mundo culto. Fez pesquisas em Lisboa, na Torre do Tombo, nos inícios da década de vinte, e então ainda conheceu Gama Barros, a quem admirava e que cultivava. Por 1935, depois de uma passagem pelo Governo da República Espanhola, foi Sanchez Albornoz embaixador em Lisboa, e então conviveu com uma restrita comunidade de espanhóis emigrados, de que Ortega y Gasset e Sainz-Rodrigues eram homens de destaque.






Foram sempre cordiais as suas relações pessoais com Oliveira Salazar, e até de deferência mútua, quando este era ministro das Finanças e foi depois chefe do Governo. Mais tarde, após o início da guerra civil espanhola em 1936, e sobretudo com a vitória de Francisco Franco, Albornoz abandonou quaisquer funções oficiais, e exilou-se para a Argentina. Neste país se fixou, e aí retomou o seu magistério de professor de consequência. Foi sempre um iberista convicto: e ao seu iberismo foi levado pelo desejo de decifrar o enigma espanhol (outros em Espanha lhe têm chamando mistério) e por uma interpretação das suas origens. Nestas, via o fundamento de «uma comunidade hispânica de nações», em que incluía Portugal. Esta comunidade seria uma reivindicação histórica de Castela. E no seu Testamento Histórico-Político, Sanchez Albornoz não é ambíguo: «Respeito o orgulho nacionalista dos Portugueses e repito quanto estou enamorado da sua pátria, mas mentiria se ocultasse a minha esperança num futuro retorno de Portugal à matriz da Hispânia de onde saiu». Que espécie é esta de iberismo? O de Unamuno, o de Pelayo, o de Pidal? Não. Esclarece-nos o próprio Albornoz, noutra passagem: «anseio pela conjugação federal de Portugal e Espanha». Era portanto um iberismo federalista, à maneira de Pi y Margall ou de Juan Maragall, catalães que eram ambos. E no mesmo sentido foi o iberismo de outro espanhol de alto nível, e da mesma geração de Albornoz: refiro-me a Salvador de Madariaga. Este tinha a independência de Portugal por rebelião contra a geografia e contra a história. Portugal independente constituía assim uma mentira política. Madariaga queria portanto que fosse corrigida essa mentira, e reposta a verdade; e esta implicava uma península unitária, federada ou não, mas com uma só nação, um só Estado, um só governo. Depois de abandonar as suas funções oficiais de representante da Espanha em Londres, e pelo mesmo motivo por que as abandonou Albornoz em Lisboa, Madariaga continuou a viver na capital inglesa; e no fim da década de trinta avistava-se de quando em vez com Armindo Monteiro, que por 1937 deixara o Ministério dos Estrangeiros e assumira o cargo de embaixador de Portugal na Grã-Bretanha. Nas conversas, o iberismo de Madariaga era irreprimível, e manifestava-se com paixão e empenho. Desenterrava para o efeito os argumentos banais que impressionam os portugueses crédulos, ou provincianos, ou oportunistas, ou inconscientes: o primeiro chefe do Governo do novo país unitário poderia bem ser o chefe do Governo português (11); a capital da nova Espanha poderia bem ser Lisboa; e Portugal teria evidentemente o seu lugar assegurado, a sua influência respeitada, o seu peso reconhecido na nova Grande Espanha. Madariaga resumiu o seu pensamento num volume publicado postumamente: o que há de peculiar nos Portugueses - é que são espanhóis. Mas um outro homem, que pertenceu à mesma geração extraordinária, exprimiu-se ao arrepio da corrente geral. Foi Gregório Marañon. Talvez haja sido o único, entre os espanhóis de grande talento, e daquela geração, que não partilhava de qualquer iberismo. Cientista de alto destaque, também humanista de vulto, Marañon deu-se à literatura e à história, e o seu Conde-Duque de Olivares rapidamente se converteu num clássico, e assim permaneceu (12). Marañon foi naturalmente impelido a estudar a actuação dos Filipes em Portugal, e assim a percorrer o processo que transformou uma união pessoal num regime de estrangulamento, de opressão, de destruição das estruturas vitais portuguesas. Por isso deu à sua biografia do Conde-Duque um subtítulo: a paixão de mandar. E Marañon compreendeu bem que Portugal era realidade à parte e não identificável com a Hispânia: e Olivares foi apenas o motivo imediato que fez desencadear uma restauração inevitável. Escreveu Marañon: «era tão artificial a incorporação deste Reino (Portugal) na coroa de Espanha que a sua separação, imposta pela realidade dos factores étnicos, e por tudo o que há de mais vivo e eficaz no jogo da história, não se teria feito esperar, com Olivares ou sem ele» (13). Esta posição do escritor ilustre constitui assim uma excepção entre a alta intelectualidade espanhola: um caso isolado. Pelo menos, na minha limitada investigação não encontrei outro.



Francisco Franco



Do plano da história, da literatura, do ensaio, do humanismo, podemos passar, numa síntese rápida, ao terreiro da política na mesma época. Foi prosseguida pela República a atitude de Afonso XIII. Homens de todos os matizes políticos eram iberistas. Alcala Zamora, primeiro Presidente da República e liberal moderado; Calvo Sotello, figura intelectual e moral de grande dimensão, e chefe político e mental dos monárquicos; Alexandre Lerroux, liberal do centro-direita; José Maria Gil Robles, chefe da Confederação Espanhola das Direitas Autónomas; Manuel Azaña e Martinez Barrios, mentores da esquerda democrática; Largo Caballero e Indalécio Prieto, chefes socialistas - eram iberistas, quer partidários do federalismo, quer do unitarismo peninsular. Como eram iberistas os comunistas e os militantes da Federação Anarquista Ibérica. E poderia acaso pensar-se que o iberismo espanhol cessara, ou ao menos entrara em surdina, com a vitória dos militares e dos nacionalistas, que aceitaram Francisco Franco por chefe militar e político. Nada se alterou, todavia. Caberá mesmo afirmar que aquela vitória exacerbou o iberismo espanhol, e tornou-o mais virulento; mas eram muito discretas as manifestações porque da guerra civil saíra em ruínas a Espanha, e porque para o resultado da guerra muito contribuíra a política praticada pelo Governo de Lisboa. Era iberista Francisco Franco: quando cadete da Academia de Toledo, ao tema que escolheu para provas de oficial de Estado-Maior deu o título expressivo: como se ocupa Portugal em 28 dias. E eram iberistas sem disfarce ou ambages os homens que constituíam o regime de Franco. Era esse o sonho dos Falangistas de José António Primo de Rivera; e também o das Juventudes de Serrano Suñer (cunhado de Franco); e igualmente o dos velhos monárquicos que se acolheram a Franco. Mais tarde, pelo fim da década de quarenta, estruturada e estabilizada que foi a situação que Franco personificou, nem por isso cessaram os iberistas de afirmar o seu desígnio e de ocupar posições políticas de alta consequência (14). Entre mil outros que se poderiam citar, ocorrem estes: Ibañez Martin, que foi ministro da Educação, e depois por anos embaixador em Lisboa, onde exerceu de forma mal disfarçada uma tenaz acção antiportuguesa; José Félix de Lequerica, Martin Artajo, Fernando Maria Castiella, que foram ministros das Relações Exteriores de Espanha; e os três Lopes (Lopes Rodó, Lopes Letona, Lopes Bravo), que em vários momentos políticos foram membros do gabinete de Franco. E Serrano Suñer, quando ministro dos Estrangeiros, advogara o repúdio da aliança inglesa por parte de Portugal e a sua substituição pela sempre desejada aliança peninsular (Serrano Suñer, Entre Hendaya y Gibraltar; 143).



Bandeira da Falange Espanhola





Brasão de Armas da família Franco antes de 1940





Brasão de Armas de Francisco Franco



Nesta fase do iberismo importa distinguir duas correntes fundamentais: os unitaristas e os federalistas. Foram unitaristas Pelayo, Pidal, Unamuno, os monárquicos, os falangistas; foram federalistas Juan Maragall, Pi y Margall, Sanchez Albornoz, os republicanos, os socialistas. No termo de tudo, as duas linhas de pensamento, ambas absorventes e imperiais, correspondem às duas Espanhas que em tempo, em Portugal, Fidelino de Figueiredo definiu e procurou caracterizar (Fid. Fig., As Duas Espanhas, Coimbra, 1932). Escreveu Fidelino: «Os dois espanhóis mais vivos e, portanto, mais presentes na consciência espanhola, são Filipe II que, querendo unificá-la, a dividiu para sempre, e o Quixote que, querendo ridicularizar o seu gosto, a engrandeceu e lhe personificou as excelsitudes do espírito ante o mundo». Poder-se-ia talvez dizer que, no campo do iberismo, os federalistas pretendem a incorporação de Portugal por meios políticos e de pressão, e que os unitaristas preferem o uso da cultura, da penetração psicológica, da assimilação pelo espírito e pelo aliciamento, pela sugestão e pela lisonja, pela promessa e até pela corrupção. Ambos formam as duas espanhas. A qual pertence Portugal? Já vimos como replicou o autor da Crítica do Exílio. A nenhuma, respondeu Fidelino de Figueiredo. E explica: «O mar arredou-o para sempre da massa continental ibérica; é um país atlântico, simples cais de embarque, bastante unificado, sem acções revulsivas internas; não forma parte de nenhuma das duas Espanhas» (F. de Fig., ob. cit., 256). Confronte-se com Hernâni Cidade, atrás citado. E assim, e por isso, Portugal teve de «buscar apoios fora do mundo hispânico», e firmá-los, e daqui proveio «aquela diferença essencial que aparta a história portuguesa da história castelhana», o que levou «este povo da beira-mar a prescindir das intrigas políticas da Europa» (também Fidelino de Figueiredo, Pyrene, 1935).

(in ob. cit., pp. 134-143).


Notas:

(8) Alguns destes homens, na sua maturidade, moderaram os seus entusiasmos pelos objectivos iberistas. Foi o caso de Canivet, que passou a considerar a separação entre os dois países como facto inevitável.

(9) Este, como se sabe, foi o pensamento expresso por O. M. na sua História de Portugal. Mais tarde, o autor do Portugal Contemporâneo modificou-o para esta síntese: para sermos unidos em pé de igualdade, éramos poucos; para sermos assimilados, éramos de mais.

(10) Citações e conceitos de Miguel Unamuno são obviamente extraídos de obras daquele escritor, em especial Por Terras de Portugal e de Espanha, e também de Unamuno e Portugal, de Julio Garcia Morejon, que cito várias vezes.

(11) Na altura, como se sabe, Oliveira Salazar. Sem embargo do abismo ideológico entre os dois homens, Madariaga dizia-se pronto a aceitar aquele como chefe do Governo de toda a Península. E até é de acreditar que o aceitaria. Depois se veria qual seria o segundo. Delicadamente, Monteiro repelia sempre as teses de Madariaga.

Serrano Suñer, Franco e Salazar em Sevilha


(12) Como se sabe, não foi esta a única obra de Moranon. Dom João, Tempo Velho e Tempo Novo, Vida e História, Ensaios Liberais, ainda outros volumes. Mas para os propósitos deste capítulo, é a biografia do conde-duque que oferece interesse.

(13) G. M.., El Conde-Duque de Olivares, 1965, p. 317. Também Morejon, 333.

(14) Dois exemplos frisantes. O jornal falangista intitulava-se unidade, publicava na primeira página um mapa de toda a Península como um só país; e o lema era: Espanha una, grande e livre. Também os meios de direita espanhola faziam circular uma composição heráldica com as armas de Castela, Aragão e Portugal, ao mesmo nível e por igual subordinadas à àguia dos Áustrias. Por debaixo, a legenda: El Imperio Español.

Continua


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Portugal e o iberismo (iii)

Escrito por Franco Nogueira





Oliveira Martins



Um outro grande vencido da vida impõe de novo destaque especial: Oliveira Martins. Já se percorreram os passos maiores do seu iberismo: era mitigado, inocente, de boa-fé; melhor compreensão das realidades e lúcida percepção dos objectivos espanhóis suscitaram sérias dúvidas ulteriores; e estas levaram ao repúdio final. E agora, perante a crise: foi modificada pelo ultimatum a atitude de Martins? Prostrado pela emoção, poucos dias após o gesto inglês, em artigo no Tempo, vai ao extremo de defender a aliança das duas monarquias peninsulares. E por muitos volumes e artigos seus podemos encontrar referências ao episódio dramático. Asserenado um tanto o seu ânimo, será talvez no Portugal em África que melhor se concentra e exprime o pensamento deste vencido da vida quanto ao ultimatum. Para Martins, mais do que as consequências imediatas da crise, importa analisar o futuro; e em qualquer caso, pela sua seriedade, a crise obriga a meditar. Talvez mais grave, e de emoção ainda mais funda, foi a separação do Brasil, «um momento de desespero muito mais cruel do que pode vir a tornar-se a situação agora». Mas a grandeza do perigo exaltou a energia nacional. Há que compreender a agitação popular, mas já se entende menos o seu aproveitamento para «interesses facciosos»; e isso porque, nos momentos solenes de risco, é «o patriotismo e não o partidarismo que deve falar». Na circunstância, para Oliveira Martins, o Conselho de Estado e o Governo não podiam fazer senão o que fizeram, sob pena de, por retaliação inglesa, se perder uma parte importantíssima do Ultramar; e a manifestação feita contra Barros Gomes foi suma injustiça - para o ministro e para o Governo. Decerto: o ultimatum de 11 de Janeiro foi, escreve Oliveira Martins, «um destes actos odiosamente brutais que nem são das temeridades, nem dos arrojos, tantas vezes expiatórios de violência»; e impôs «a lei da força a quem só podia invocar o direito»; e a Inglaterra usou de «uma astúcia felina», iludindo os Portugueses enquanto se mobilizavam meios navais para eventual assalto a posições portuguesas. E agora - o desagravo. Que desagravo? Há que fortalecer o Exército, e a Marinha; mas a «força que principalmente há-de sair da comoção nacional é a força filha do civismo e do juízo». Cortar passo a passo os vínculos com os ingleses, nada mais racional, sensato e patriótico; mas «isso não é o desagravo pleno e satisfatório». Liquide-se o litígio com a Inglaterra pela melhor forma possível; e depois há que pôr a casa em ordem; e emancipar Portugal; e recuperar para os Portugueses o comércio; e extirpar em suma o «nosso desleixo e a nossa inércia». E como remata Martins a sua visão da crise e do futuro? Recomenda o rearmamento de Portugal - e acaso a substituição, como propôs no Tempo sob o espinho do desespero, da aliança luso-britânica por uma aliança luso-espanhola. Neste último ponto, há assim um retorno de Martins a uma posição mental e psicológica anterior; e sucumbiu por instantes ao mesmo sentimento que a crise desencadeou em alguns espíritos mais frouxos, ou impressionáveis, ou precipitados. Cedo se refez Oliveira Martins, contudo, e de desencantou. Bem antes da sua morte prematura, espírito lúcido e patriótico que era, soube bem perscrutar as realidades. E manteve-se, ao fim e ao cabo, fiel à sua síntese: «amizade espanhola primeiro; pressão depois; violência final». E em qualquer caso, como remédio para os males nacionais, este vencido da vida via apenas o civismo, o juízo, a reforma dos hábitos de desleixo e inércia, o patriotismo. Mas entre os nossos homens de génio do século XIX um nome está ainda omitido. Não foi um vencido da vida, no sentido de pertencer ao seu grémio. Mas acaso se poderá considerar o maior dos vencidos, e decerto o foi pelo drama e pela tragédia. Refiro-me naturalmente a Camilo Castelo Branco. Este homem, de tanto génio como infortúnio, está torturado pela ameaça de cegueira em fins de 1889, princípios de 1890. Nos começos de 90, justamente, escreve ao seu grande amigo Tomás Ribeiro: «Ainda não ceguei de todo; mas estou perdido, se não me acodes». Pouco depois, nova carta: «Estou a cegar. Perdido! Vou fugir daqui para não me matar debaixo dos teus olhos e do teu amor». Mas quando em 1 de Janeiro Portugal é agredido pelo ultimatum, aquele homem, que escrevia «estar sem olhos, sem pernas, sem cérebro», reage, e lança-se num poema que intitula Extermínio da Inglaterra. E foi essa a contribuição camiliana para a Anátema, publicada em Coimbra. Uma outra parte dessa composição foi mais tarde inserida, por Abril de 90, no jornal República, do Porto. Camilo classifica o poema, de seiscentos e cinquenta versos, repartidos em quadras, como de trovas alegres. Mas não parece, ainda que haja sido sumária a minha investigação, que o contributo de Camilo para o protesto contra a Grã-Bretanha tenha ultrapassado aquela poema. E depois, em Maio de 90, de novo é o autor do Amor de Perdição solicitado para colaborar na imprensa antibritânica. Enfermo, martirizado pela cegueira, o desesperado de S. Miguel de Seide recusa-se. E escreve a Tomás Ribeiro uma carta de angústia: «Eu estou na cama em trevas cerradas e cortado de dores. Se houvesse Deus, eu já devia ter morrido pelo muito que lhe peço a morte. Não contribuo para o jornal contra a Inglaterra porque não sou inimigo dos Ingleses. Encontro-os com os primeiros Afonsos a conquistar o Sul de Portugal; achei-os em Aljubarrota defendendo os falsos direitos do Mestre de Avis contra D. João de Castela; encontrei-os em frente de Lisboa defendendo os direitos do rei português D. António contra Filipe II. No terramoto de 1755, a Inglaterra remeteu à desolada Lisboa uma frota com donativos superiores a quinhentos mil cruzados. Acho os Ingleses ligados a Portugal contra Napoleão e empenhados em restituírem D. João VI ao trono. Encontro ainda, nos nossos dias, os Ingleses por mar e por terra batendo as forças do usurpador D. Miguel. Estes factos não me irritam patrioticamente contra a Inglaterra. Quanto aos macololos, sabes de mais que no fim do reinado de D. João III eram já perdidas as linhas hidrográficas de África. Depois de Alcácer Quibir, nem portugueses nem espanhóis pensaram mais nos cafres. Depois de 1640, nunca lá se mandaram missionários, nem protecção, nem educação. Tudo aquilo prescreveu como se a vaga de dois séculos lambesse os areais onde foram escritos os direitos de Portugal». Não importa averiguar do rigor histórico de alguns pormenores desta carta. Convém reter essa conclusão, todavia: para o autor de Onde está a felicidade?, em momentos cruciais, fora com a Inglaterra, e não com potência continental europeia, que Portugal se deparara; e esta era a explicação da aliança luso-britânica. Porque os interesses permanentes de Portugal estavam mais próximos dos interesses permanentes daquele país do que de outro qualquer. E isso tinha um preço político, alto sem dúvida, mas inferior ao que resultaria da diluição na Península. Mas por que se torna pungente esta carta? Pelo estado de espírito em que foi escrita: cerca de quinze dias depois de a remeter a Tomás Ribeiro, a 1 de Junho de 1890, Camilo suicida-se em S. Miguel de Seide com um tiro de revólver.


Mapa Cor-de-Rosa


No quadro do ultimatum inglês, ligado ao surto de iberismo, cumpriria referir o estudo de Moniz Barreto intitulado A Situação geral da Europa e a política exterior de Portugal, publicado algum tempo depois na Revista de Portugal. Moniz Barreto foi espírito tão gentil e lúcido como idealista; e no terreno político deixou-se envolver e arrebatar pela emoção, pelo ódio à Inglaterra; e como retaliação contra esta advogou uma conduta externa que inelutavelmente entregava, como dádiva, Portugal à Espanha. Este texto de Moniz Barreto teve as suas repercussões, e vastas. E estas haviam de repor todo o problema - na sua constante pendular.

(...) Sim: os republicanos espanhóis haviam feito quanto possível para cativar os seus correligionários portugueses. Destes, por oportunismo ou convicção mas sobretudo por boa-fé, alguns se deixaram aliciar. Simplesmente, os republicanos espanhóis ligaram ao iberismo e à união ibérica o seu republicanismo e a sua hostilidade à Grã-Bretanha: e foi nessa base que apoiaram os portugueses da mesma família política. Cometeram neste particular um erro, e sério. Havia republicanos portugueses que eram iberistas? Havia-os, ao menos no sentido que a candura portuguesa atribui à palavra. Mas o partido republicano português, no seu ideário e na sua estrutura moral, não era iberista. Moreira Júnior, deputado monárquico, insinuara entendimentos iberistas por parte dos republicanos. Sem embargo de ocasionais tergiversações, Teófilo Braga parece manter-se numa linha firme depois do congresso de Badajoz, e por 1906 responde indirectamente aos rumores: «a história dos Estados peninsulares que se constituem em nações no fim da Idade Média assenta nas tendências separatistas», «a ideia da União Ibérica é um absurdo nascido da obsessão de interesses dinásticos»; e o português e o espanhol «não se confundiram na constituição histórica das nacionalidades peninsulares, nem se confundirão nas remodelações políticas vindouras» (T.B., A Monarquia e a União Ibérica, in A Lucta, I-XII-1906). Mas às insinuações ínvias de Moreira Júnior, replicava António José de Almeida, em público e com vigor: «no embate entre monárquicos e republicanos também eu só admito portugueses. Pela primeira vez, pela última, pela única vez, estamos de acordo. Em nome do meu partido, tomo o compromisso solene de que nós, republicanos, jamais aceitaremos qualquer auxílio interesseiro que nos venha de qualquer parte. Nesses casos, não queremos nem uma baioneta, nem um braço, nem uma moeda» (História da República, ed. Século, 242). Era claro António José, e firme.

Proclamada a República em 1910, logo no ano seguinte correm rumores de contra-revolução monárquica. Agitam-se Paiva Couceiro, e alguns seus adeptos. Consideram os republicanos que a Espanha é então o maior inimigo da República portuguesa; e sentem o pavor de uma intervenção espanhola. Diz Junqueiro: «A Espanha não digere Portugal vivo; a Espanha só pode digerir o cadáver de Portugal». E Bernardino Machado, para prevenir a intervenção espanhola que receia, envia a Madrid uma nota enérgica, que tem a aprovação do ministro britânico (Raul Brandão, O Vale de Josafat, 37, 38; também Carlos Malheiro Dias, Do Desafio à Debandada, I, 325, e II, 143 e segs). Há mesmo uma exaltação nacional, sobretudo na imprensa de Lisboa, perante o que se julga serem as possibilidades de um ataque armado da Espanha, próximo ou remoto. Por isso, José Relvas, na altura em Madrid, informa Lisboa de que a rede ferroviária espanhola obedecia ao plano de invasão de Portugal pela Espanha (J. Medeiros Ferreira, ob. cit., 28). Elementos militares portugueses sustentam a necessidade de rearmamento para defesa das costas portuguesas e dos arquipélagos dos Açores e da Madeira, com unidades marítimas de combate bastante fortes para defrontarem o inimigo que, por exclusão das grandes potências, só poderia ser a Espanha. Círculos espanhóis encaram como improvável um conflito com Portugal, e sem entusiasmo mas também sem receio; e têm-se por melhor armados e melhor disciplinados. Mas se a Espanha monárquica não tem intuitos agressivos, julga-se no entanto que Lisboa, e em particular após a entrevista dada por Teófilo Braga (chefe do Governo Provisório da República) a um jornalista espanhol, está ajudando os republicanos espanhóis (Carlos Malheiro Dias, Entre Precipícios, 273 e segs). Acaso poderemos talvez pensar, todavia, que alguns grandes nomes republicanos sentiram confusos estremecimentos iberistas em momentos fugazes das suas carreiras políticas. Possivelmente um Afonso Costa, que em Madrid sugerira uma aliança entre os dois países; possivelmente um Egas Moniz, a quem Afonso XIII exprimira o desejo de estreitas relações comerciais e económicas, e que se rendeu deslumbrado ao «alto espírito» que viu no rei de Espanha. Mais tarde, o mesmo rei Afonso XIII daria ao Diário de Notícias, através de Augusto de Castro, uma extensa entrevista: nas velhas pisadas de Filipe II, ou de Carlos III, ou Carlos IV, pronunciava-se sobre comunicações entre os dois países (agora vias férreas), problemas de pescas, tratados de comércio, intercâmbio económico: e manifestava o desejo de que fosse encurtado o tempo de viagem entre Lisboa e Madrid, exactamente como Filipe II cuidara de um projecto de encurtar distâncias entre as duas cidades. E mais; na conversa privada com Augusto de Castro, atacou Afonso XIII violentamente a Inglaterra; advogou a denúncia da aliança luso-britânica; e considerou de interesse para Portugal acolher-se à protecção de Espanha (Luiz Vieira de Castro, Limbo, 34). Nestes traços, não se podia descortinar quebra na linha tradicional do iberismo espanhol. Mas por detrás das palavras do rei, a imprensa portuguesa não viu nada. Mas o Governo britânico vira: ao aproximar-se a guerra na Europa, Londres julgava ter razões para pensar que a Espanha de Afonso XIII, para entrar na luta ao lado dos Aliados, exigiria Tânger, Gibraltar e as mãos livres em Portugal; mas a Inglaterra não se dispunha a anuir a essa ambição (J. Medeiros Ferreira, ob. cit., 20). E os passos conhecidos da entrevista foram muito louvados. Para A Lucta, orgão dos unionistas de Brito Camacho, o monarca espanhol fora muito amável para Portugal e criara direito ao reconhecimento dos Portugueses. E a República, que reflectia o sentir dos evolucionistas de António José de Almeida, e que este fundara, repetia os ditames de Afonso XIII, e descia ao pormenor já clássico: «amarrados à velha bandeirola da aliança inglesa, que nunca nos serviu para nada, não soubemos valorizar ainda nenhuma das nossas excepcionais condições». E no entanto fora àquela bandeirola que Bernardino Machado recorrera quando julgou Portugal ameaçado de invasão, por parte da Espanha. Mas sem embargo de um ou outro daqueles desvios, o Partido Republicano e a I República jamais adoptaram o iberismo como doutrina oficial, ou como política, e nem assumiram atitudes ou praticaram actos que tivessem esse cariz.






Se o iberismo ao tempo da monarquia fora defendido por republicanos para destruírem o trono, são agora alguns monárquicos que se apresentam como arautos da mesma tese para atacarem a República, e acaso derrubá-la. Neste particular, é também esclarecedor o volume recente de Hipólito de la Torre sobre antagonismo e fractura peninsular. Estavam conscientes do «perigo espanhol», é a tese do livro, os mais esclarecidos políticos da I República, e em alguns momentos não excluíram mesmo a possibilidade de uma intervenção de além-fronteiras (6). Para mais, a I República vivia em crise permanente; indigência ideológica e doutrinal, angustiante desconfiança nos homens e nas instituições, instabilidade endémica. Como sempre durante as tormentas, e por nevoeiro mental e desvairo psicológico, confiava-se num milagre de curandeiros, num encoberto redentor, num sebastianismo de amuleto. Na sofreguidão por qualquer coisa que resolvesse os problemas nacionais - já que o espírito de sacrifício, o sentido de missão, a competência, o trabalho, a consciência cívica desaparecem ou ficam em surdina - desencadeiam-se pela década de 1910 alguns movimentos que tentam, do mesmo passo, preencher o vazio ideológico da sociedade portuguesa e modificar instituições. E desses movimentos, ou ao menos dos homens que neles participaram ou os inspiraram, alguns sucumbiram ao iberismo numa ou noutra fase da sua pregação. E importa aqui retomar agora o artigo de Moniz Barreto intitulado A Situação geral da Europa e a política exterior de Portugal. É este na verdade o texto fundamental, aproveitado durante a crise, para uma ulterior renovação da teoria iberista. Neste particular, António Sardinha é o mais minucioso doutrinador, e acaso o mais representativo. Não esconde Sardinha, aliás, o seu deslumbramento perante o ensaio de Moniz Barreto; e parece lícito afirmar que as teses daquele constituem ampliação das ideias do autor de A literatura contemporânea. Para Sardinha, a Espanha estava protegida a norte pelos Pirenéus; mas o seu flanco ocidental encontrava-se a descoberto; e isto porque Portugal não era apto, por si, a repelir uma agressão praticada por grande potência contra a Espanha. Deste modo, apenas uma Península politicamente unitária poderia ser garantia de defesa de ambos. Sardinha queria assim que a geoestratégia da Península coincidisse com a sua geopolítica. Precisamente fora essa a situação entre 1580 e 1640. Por outras palavras, e como sublinhado no início deste capítulo, aquela coincidência ou sobreposição significam a Península submetida ou ocupada por uma única soberania. Dentro deste unitarismo, e nas teses de Sardinha, à Espanha caberia uma política europeia e mediterrânica; e a Portugal, uma política atlântica; e contra este poder peninsular não teriam meios de agir as demais potências. Sardinha parecia supor ou imaginar que isto seria viável mantendo os dois países a sua soberania, independência, identidade próprias; e que esse, e somente esse, era o objectivo espanhol; e que assentes essas premissas, o simples decurso do tempo e a simples acção do peso espanhol não arrastariam a nenhumas outras consequências nem alterações. Mas completando-se assim, prosseguem as teses de Sardinha, os dois países dilatariam a e o império. E é este em síntese o fundamento de A Aliança Peninsular, que consubstancia o iberismo de António Sardinha. E é à luz daquelas ideias que interpreta as crises, os acontecimentos, as figuras: procura conciliar o inconciliável; homens e factos são deformados o que basta para os moldar às necessidades da tese. Com isenção, escreve o historiador e ensaísta espanhol Juan Beneyto: «A hispanofilia de Sardinha leva-o a dulcificar a impressão geral que produz aquele período (Beneyto, España, Meseta y Litoral, 131). Destaquem-se os que parecem mais expressivos. Reconhece Sardinha a existência de um perigo espanhol para Portugal; e logo invoca (tendo em mente possivelmente a Batalha de Toro) um perigo português para a Espanha. Simplesmente, não salienta que se não equivalem os dois perigos, nem pela sua extensão, nem pela sua natureza: o perigo espanhol resulta do poderio da própria Espanha, e da sua obsessão centralizadora e dominadora, ao passo que o invocado perigo português não provém de Portugal, da sua vontade ou da sua política, mas de uma eventual situação internacional em que uma grande potência, inimiga da Espanha, atacasse esta através de Portugal. Esta diferença é fundamental; e aquela situação, nos precisos termos em que Sardinha a entrevê, jamais se verificou na história. Aliás, ainda que tivesse fundamento a alegação de Sardinha, esse quadro nunca poderia justificar nem legitimar a eliminação da soberania portuguesa. Quando muito, autorizaria a Espanha a organizar e a fortificar defensivamente a sua fronteira com Portugal. No fundo, pessoalmente, António Sardinha sente-se bem em Espanha: é «um «pobre peregrino lusitano que deseja tomar assento à lareira de Castela», para receber desta a «fidalguia carinhosa»; mas não se recorda de que essa «fidalguia» significava precisamente a política praticada desde Afonso X a Afonso XIII, e de que Afonso Henriques foi acaso o primeiro a dar-se conta, e a recusar sempre. Equaciona Sardinha o quixotismo com o sebastianismo: considera o primeiro a expressão dramática de um sentir espanhol, de matriz telúrica, enquanto o segundo seria mera reacção ingénua perante desgraças indefinidas de que, ciclicamente, o povo português se julga vítima: e um outro actuariam em planos diferentes. Para documentar o paralelismo igualitário dos dois povos, Sardinha enumera o que supõe serem influências portuguesas em Espanha: Tirso de Molina haver-se-ia inspirado em temas portugueses; Serafim de Freitas ensinou em Valhadolide; L Calderón de la Barca usou a língua portuguesa num verso; Lope de Vega, Fernando Herrera, Velez de Guevara, Augustin Moreno, interpõem em obras suas alguns personagens portugueses; era português Velazquez; Antonio Moro teria sido inspirado por Sanchez Coelho; e Filipe II fora «um caso interessantíssimo de puro lusitanismo», e como rei fora melhor que muitos reis naturais, e isso porque despachava em português, escrevia às suas filhas a exprimir saudades do cantar dos rouxinóis em Portugal, e apreciava os púcaros e barros de Estremoz, além de procurar garantir as liberdades e privilégios dos Portugueses (7). Por outro lado, são mil as contradições de António Sardinha. E insensivelmente resvala para a negação do dualismo na Península: Castela é a irmã mais velha, a Espanha é a Espanha-Madre, a Madre-Espanha: e as figuras e episódios que contrariem as suas teses são postos em ridículo, ou ignorados. Um Álvaro Pais, um Mestre de Avis, um Febo Moniz são apoucados e reduzidos a nada. Mas Sardinha dá por vezes a sensação de pretender em verdade exaltar glórias e tradições nacionais; e sente-se alarmado quando na Liga Naval, por 1915, se lançaram conferências sobre a questão ibérica. Então insurge-se contra um iberismo que seja unitário ou unitarista, e que lhe aparece de súbito contrário à geografia e à história. Tem aqui afinidades com Teófilo Braga, que no entanto Sardinha acaba por classificar de faccioso e arcaico, de trabalhador estéril, de intelectual desacreditado. Mas Sardinha atribui aquele iberismo unitarista a manejos maçónicos, e liberalistas, e jacobinos. (Deverá anotar-se de passagem que, sem embargo do iberismo de alguns maçons portugueses, a Maçonaria Portuguesa, subordinada ao grande Oriente Lusitano e mesmo de outras obediências, não foi iberista. Era seu princípio fundamental o «amor da Pátria». Veja-se Fernando Catroga, estudo citado, 445 a 447). Lança-se então Sardinha no peninsularismo, espécie de supernacionalismo, a que se subordinam, em pé de igualdade, tanto Portugal como Espanha. Invoca o exemplo do Império Austro-Húngaro - mas esquecia que o equilíbrio entre a Áustria e a Hungria não existe entre Portugal e a Espanha, nem jamais existiu, ou poderá existir.



António Sardinha



Conduzia-se no fundo um iberismo em jeito de ataque aos republicanos, como estes o haviam advogado como método de ataque aos monárquicos. Mas por parte daquele doutrinador - também dirigente espiritual e intelectual do Integralismo Lusitano, além de escritor e poeta de consequência - foram transpostos limites e sustentadas teses em que os seus próprios amigos políticos não puderam acompanhá-lo. Hipólito Raposo, para citar um exemplo frisante, compreendeu todo o fatal alcance do iberismo: e sublinhava que na Espanha «sempre vive e palpita em segredo a aspiração do perigoso dualismo de Filipe II ou o intento de absorção de Filipe IV» (H.R., Folhas do Meu Cadastro, 25). Luís de Almeida Braga verberava os «castelhanos do interior» e julgou necessário vir explicar A Aliança Peninsular: o que Sardinha «queria era que não se diminuísse o sentido universal do nosso génio»: desejava uma simples «colaboração amigável» entre os dois países: mas não «a velha e estulta quimera do iberismo» (L. de A.B., Posição de António Sardinha, 76). João do Amaral, na Monarquia, não se eximia a acentuar que «entre uma nação forte e uma nação fraca, aliança quer dizer a breve trecho - absorção». Sobretudo quando essa absorção é facilitada pela existência de longa fronteira comum. E José Pequito Rebelo, outro integralista de nota, não escondia a sua devoção monárquica e os seus desejos de amizade com a Espanha; mas estacava aí o seu iberismo; e julgava que se poderia ir até uma determinada raia, e parar nesse risco, quando e se se quisesse. A tudo respondia Alfredo Pimenta, não integralista mas monárquico ardente na altura: «entre Castela e Portugal havia, há ainda hoje, e necessário é que haja sempre o abismo intransponível que abriram os reis de Portugal». Em particular, deveria acaso Pimenta ter acrescentado, quando deixaram de praticar e abandonaram a desastrosa política de casamentos peninsulares. E quanto ao Integralismo Lusitano em si, o movimento manteve-se sempre dentro do mais extremado patriotismo e do mais fervoroso nacionalismo, e também sempre na linha da aliança luso-britânica (in ob. cit., pp. 122-124 e 128-134).


Notas:

(6) Confirma a notícia dada por Raul Brandão, no Vale de Josafat, atrás referida. Outras fontes abonam o mesmo ponto. Segundo muitos responsáveis da época, aquela possibilidade teria mesmo estado iminente por ocasião do 19 de Outubro de 1922, a famosa e trágica noite sangrenta.

(7) Neste particular, e dentro de certos limites, e por uma política de tacto e aliciamento, há alguma verdade, quanto ao período inicial, na última afirmação. Mas acabou por prevalecer o centralismo de Madrid: o sempre presente conde-duque de Olivares.

Continua