domingo, 16 de janeiro de 2011

Palavras do Condestável (iii)

Compilação de textos de Henrique Barrilaro Ruas






V. Amigos e companheiros:

1 - "(...) E, porque há dias que vós sois meus companheiros e eu hei provado vosso bom desejo acerca de meus feitos, por en vos faço saber esta cousa (...) E aqueles de vós a que prouguer de comigo em ele saltarem, ter-lhe-ei a grande bem e extremado serviço; os outros a quem nom prouguer podem-se ir pera u quiserem e fazer de seus corpos o que por mais seu proveito sentirem. E, porque minha tençom é de me ir pera ele [o Mestre] e o servir em ela, por em vos disse se vos prazia de serdes em elo meus companheiros". (F.L., Cr. I, 74-75).

2 - "Amigos e irmãos, bem sabeis a tenção pera que acá saímos (...) E rogo-vos que (...) vos praza de serdes membrados de vossas honras (...)". (Cr. Cond. 29-30).

3 - "(...) e eu leixarei aqui [com irmão D. Pedro, no tempo das guerras de D. Fernando] todolos meus, que nom quero comigo levar senom cinco ou seis companheiros com nossas armas sem outras azêmelas". (Cr. Cond. 35-36).

4 - "Amigos, nenhum nom duvide de mim (...)". (F.L., Cr. I, 181).

5 - "Amigos (...) minha vontade é, com a ajuda de Deus, em companha de vós outros, de os ir buscar ante que entrem (...) E espero na mercê de Deus que nos dará deles tam bom vencimento per que sempre de vós ficará honrada fama e boa nomeada (...)". (F.L., Cr. I, 174).

6 - "Amigos, eu nom sei mais que diga, do que vos já tenho dito; pero ainda vos quero responder (...) Quanto é ao que dizeis (...) Na outra cousa em que duvidais segundo parece (...) e, pera vós verdes que é assi, se a vós praz de em esta obra sermos todos companheiros, eu vos juro e prometo que eu seja dianteiro (...) e assi podereis ver a vontade que eu neste feito tenho (...) mas, nom embargando isto, se vossa tençom é todavia qual me dissestes, aqueles que se quizerem ir pera suas casas e lugares, vam-se com Deus; cá eu com esses poucos de bons portugueses que comigo vêm (...)" (F.L., Cr. I, 176).

7 - "Ora, amigos, eu vos rogo quer os que comigo quiserdes ir a esta obra, que vos passeis da parte além deste regato de água; e os que nom quiserdes ficai desta outra parte". (F.L., I, 76).

8 - "Ó Irmãos, amigos! E pera vós é fazerdes tal obra? Leixardes tanta honra como vos Deus tem prestes, e falecerdes do que prometido tendes (...)?" (F.L., Cr. I, 177; cf. Cr. Cond. 67).

9 - "E sequer vós, Gil Fernandes, que eu pensava e penso que sois um dos bons servidores que o Mestre meu Senhor em esta terra tem, tal míngua mostrais vós em tal obra como esta?" (F.L., Cr. I, 177; cf. Cr. Cond. 67).

10 - "Nembrai-vos bem de quatro cousas, e afirmai-as em vossos corações. A primeira, que vos encomendeis a Deus e à Virgem Maria sua Madre, que nos queira ajudar contra nossos imigos, (...) e firme fé que assi há-de ser. A segunda, como vindes aqui defender-nos e vossas casas e bens (...). A terceira, como sois aqui per servir vosso senhor e alcançar grande honra que a Deus prazerá de vos dar mui cedo. A quarta, que firmeis em vossos entendimentos de sofrer todo o trabalho e aperfiar na peleja, nom uma hora, mas um dia se mester for". (cf. F.L.; cf. Cr. Cond. 92).

11 - "Amigo meu, eu vos agradeço vosso bom conselho (...)". (F.L., Cr. I, 321; cf. Cr. Cond. 92).

12 - "Senhor, vossa mercê seja tal cousa nom fazer, porque os que de mim terras tinham bem mas hão servidas, e não era bom galardom haver-lhas assi de tirar (...)". (cf. Cr. Cond. 158).

13 - "(...) E eu vos rogo de serdes em esto meus companheiros. E, se algum de vós tiver alguma dúvida de o não poder fazer, assi mo diga logo". (cf. Cr. Con. 159).


VI. Adversários:





1 - "(...) E, considerando como o Mestre D. Fernando Ançores vos há feitos alguns desserviços [ao Rei D. Fernando] em vossa terra, em esta guerra que a Vossa Mercê há com El-Rei de Castela; como eu nom som em tal estado nem de tanta gente, nem de tal maneira que lho pudesse contrariar; e vendo como João Ançores é bom cavaleiro e rijo, e é seu filho, o qual muito ama, cuidei de o requestar, como de feito fiz, par a me matar com ele, dez por dez (...)". (Cr. Cond. 24-25).

2 - "(...) sobre essa intençom que ele [o Conde Mayorgas] diz (...) e se me ele nega (...) e que porende o Reino pertence ao Mestre, meu Senhor (...), que eu lhe poerei o corpo sobrelo, e lho farei conhecer, quer um per um, ou dous por dous, ou quantos ele quiser (...)". (F.L., Cr. I, 138; cf. Cr. Cond. 52).

3 - "Rui Gonçalves, (...) que se percebem bem pera a batalha e rogo-vos, Rui Gonçalves, amigo, que tanto façais por o meu amor, que vos vades com este recado o mais depressa que puderdes (...) cá entendo que nom podereis ir tam aginha que eu com a ajuda de Deus nom seja deles mui cerca". (F.L., Cr. I, 179; cf. Cr. Cond. 69).

4 - "Cavaleiro amigo, ora vós í-vos com Deus, e dizei vós a meu amigo Pedro Sarmento e a esses capitães que som em sua companhia, que se venham ao caminho quando quiserem, e i me acharõm prestes como eles desejam". (F.L., Cr. I, 297). V. também o texto n.º 4 do parág. 3.

5 - "Amigo meu, vós sejais mui bem-vindo com tais novas como estas, que me nom podíeis ora trazer outras com que me tanto prouvesse, salvo se me trouvéreis recado que El-Rei de Castela me mandava desafiar. E vós dizei ao Mestre [de Alcântara] meu senhor e amigo que me praz muito com sua desafiaçom". (Cr. Cond. 132-33).

6 - "(...) o Mestre [de Santiago de Castela], meu senhor e meu amigo, não nos havia de deixar passar por esta terra, que nos nom pusesse a batalha. Ora há mester que nos façamos prestes para ela. E quem nos tam boas novas trouxe, razão é que haja boa alvíçara". (Cr. Cond. 133).

7 - "(...) ao virtuoso e bom tanto é guardar a verdade ao imigo como ao amigo (...)". (Cr. Cond. 97).

8 - "Senhor [D. Diniz, Infante de Portugal, quando se intitulava Rei de Portugal] (...) me encomendo em vossa graça e mercê, e vos faço saber (...) E, hoje este dia à feitura desta carta, cheguei aqui a Castelo Branco. E envio-vo-lo dizer, por serdes delo certo. E rogo-vos e peço-vos que nom hajais nojo um pouco vos deter, porque, Deus querendo, eu serei convosco daqui a três dias pouco mais ou menos". (Cr. Cond. 174).

9 - "Senhor amigo, (...) a mim foi dito que vós tendes feito vosso ajuntamento de vossa gente para me vir buscar (...) E saberdes que me prouve e praz serdes assi prestes como dizem que sodes; porque dias há que esta mesma vontade tinha eu de vos ir buscar (...) E porque, outrossim, esta terra [Évora, em Junho] é muito quente, e por vos escusar de trabalho, vos rogo quanto posso que vos sofrades, e nom cureis de vir trabalhar. Porque, prazendo a Deus, eu entendo de ser onde quer que vós fordes, tan toste e mais do que vós vir. E por vos entanto avisardes de algumas cousas se vos pera esto cumprem, vo-lo faço saber". (Cr. Cond. 174).


VII. Arte Militar:




Batalha de Aljubarrota








1 - "Senhor, a mim me parece muita gente mal acaudelada, e que pouca gente com bom capitam bem acudelada os poderia desbaratar". (cf. Cr. Cond. 56).

2 - "(...) minha vontade é de em outro dia lançar uma cilada aos da frota (...)". (cf. Cr. Cond. 28).

3 - "(...) per causa que avenha, nunca tornedes as costas. E, pera esso, com ajuda de Deus, eu serei o primeiro que eles toparei, e vós seguide-me e fazede como eu fizer, e certos sede que os Castelãos não vos sofrerão, se em vós sentirem esforço de bem fazer, mas logo volverão as costas, que não têm esperança de outro acorro, e assim nos ajudaremos deles (...)". (Cr. Cond. 29-30).

4 - "Deus, que vos deu a cidade, vos dará o castelo". (cf. F.L., Cr. I, 80).

5 - "(...) E sobre tais cousas como estas convém de havermos nosso conselho (...) E, porque, fazendo-se este conselho presente(s) quantos aqui somos, seria cousa muito devassa e logo sabudo pelos de fora, que pouco convém a poucos guerreiros; poren me semelha boa ordenança que, quando tais cousas coms as semelhantes vierem, onde cumprir vosso conselho, que eu o fale com alguns de vós, pera com vosso acordo ordenarmos o que vos melhor parecer. E, se eu escolhesse alguns de vós outros, crendo que eles tinham avantagem pera seguir seu acordo, logo aqueles que som seus iguais se haveriam por descontentes e sempre seriam anojados tendo que, com desprezamento, os nom fizera do Conselho, nom os havendo por tam bons, e porem me parece que é bem que os de Lisboa escolham antre si quais lhe prouguer com que fale meus segredos, e isso mesmo os de Évora e de Beja e de outros lugares se os i houvesse, e desta guisa eu haverei meu conselho com eles como cumpre, e eles vos podem depois razoar o que é pera descobrir, e requerer-vos quais quer cousas que a cada uns de vós outros pertençam (...) Além desto vos encomendo que nossa ajuda e acorro seja de tal guisa feita aos nossos naturais, que andando nós pela terra pola defender, eles nom sentam de nós tal dano como recebem de seus imigos; doutra guisa a mim conviria tornar a elo fazendo-vos algum desprazer, o que eu nom queria por cousa que fosse". (F.L., I, 172).

6 - "(...) minha vontade é, com ajuda de Deus, em companha de vós outros, de os ir buscar ante que entrem, e pelejar com eles. (...)". (F.L., Cr. I, 174; cf. Cr. Cond. 65).

7 - "(...) já muitas vezes aconteceu os poucos vencerem muitos, porque todo vencimento é em Deus e nom nos homens (...)". (F.L., Cr. I, 176).

8 - "(...) Nem por levarem alguns dos gados nom é cousa que nos monte. Porque em terra somos que bem nos entregaremos prazendo a Deus". (Cr. Cond. 135).




VIII. Questões de Estado:

- V. texto n.º 1 do parág. 2.

1 - "Isto é obra de Deus, que se quer lembrar do Reino de Portugal; pois os da Cidade querem tomar o Mestre por seu Regedor e Defensor, para defender o reino, de El-Rei de Castela, que é fama que vam pera entrar nele". (F.L., Cr. I, 73; cf. Cr. Cond. 44).

2 - "Tais menagens nom som de guardar, poisque El-Rei [de Castela] quebra os tratos. Todolos fidalgos podem ser em ajuda do Mestre sem nenhum prasmo, o qual bem poderia juntar mil homens de armas e muitos homens de pé (...)". (F.L., Cr. I, 73).

3 -"(...) o Mestre, meu senhor, e nós outros Portugueses com ele (...) fazemos justa guerra por defensom de nossos corpos e haveres, e (...) El-Rei de Castela, mal e como nom deve, entrou em este reino ante do tempo que devera, britando os trautos que teúdo era de guardar, por a qual razom perdeu todo quanto dereito em ele havia e (...) porende o reino pertence ao Mestre, meu Senhor, (...) como filho d'El-Rei Dom Pedro que é (...)". (F.L., Cr. I, 138).

4 - "Peço-vos por mercê que me deis poder que possa dar os bens de quaisquer pessoas que vossa voz nom tenham; e, dados por mim primeiro que por vós, que a minha dada seja mais valiosa; e que possa dar dinheiro de graça e fazer quaisquer mercês e acrescentamentos, como cada um merecedor for". (cf. F.L., Cr. I, 168). V. texto n.º 5 do parág. 7.

5 - "Digo-vos, senhor Conde [D. Álvaro Pires de Castro] que, pois vós ficastes com meu Senhor o Mestre, e vontade boa tendes de o servir, que tais razões e aconselho como esse que vós dais, nom é bom nem comunal, nem ele vo-lo deve de crer, ante deve de ir per seu feito em diante e nenhuma cousa tornar atrás. (...) deve continuar sua defensom, e de todos aqueles que lhe som sujeitos (...)". (F.L., Cr. I, 145; cf. Cr. Cond. 56).

6 - "Ora, Senhor, vós não tendes aqui outrem que seja contra vosso serviço, nem que torve de vós serdes rei, salvo este roncador de Martim Vasques; e, se vós quiserdes, eu vos despacharei de seu estorvo". (F.L., Cr. I, 411). V. texto n.º 10 do parág. 3. V. texto n.º 12 do parág. 5* (in ob. cit., pp. 66-71).


* Utilizei para Fernão Lopes, a edição da Liv. Civilização (1983); para a Cr. do Condestável, a edição de Mendes dos Remédios. A obra do Pe. Valério Corseiro é: A Vida de Beato Nuno Alvarez Pereira (1919).







sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Palavras do Condestável (ii)

Compilação de textos de Henrique Barrilaro Ruas






II. A Pátria:

1 - "Que há-de ser do Reino, que assim fica deserto? Quem o há-de defender de alguns se contra ele quiserem ir?" (cf. F.L., I, 10; cf. Cr. Cond. 41).

2 - "Deus não queira que por dádivas e largas promessas vá contra a terra que me criou; mas antes despenderei meus dias e espargerei meu sangue por amparo dela". (cf. Cr. Cond. 47).

3 - "Não cumpre que por vosso aso se perca a Cidade, e o Reino seja posto em aventura. A qual coisa, pois verdadeiro português, sois, não vos deve consentir o coração". (...) (cf. F.L., Cr. 181).

4 - "Tais menagens nom som de guardar, pois que El-Rei [de Castela] quebra os tratos. Todos os fidalgos podem ser em ajuda do Mestre sem nenhum prasmo, (...) E mais vale pôr-se o Mestre em aventura com eles todos e pelejar com El-Rei de Castela que ficarem sujeitos a Castela (...)". (cf. F.L., Cr. 1, 73).

5 - "Portugal sempre foi Reino e isento por si e não sujeito a Castela, e ora não é a razão de o ser". (F.L., Cr. 1, 73).

6 - "(...) temos justa querela e razão dereita para defender nossa terra (...)". (F.L., Cr. I, 172).

7 - "(...) ainda que fosse contra todos los reis do mundo, ele [o Mestre] deve de continuar a sua defensão e de todos aqueles que lhe som sujeitos (...)" (F.L., Cr. I, 174; cf. Cr. Cond. 65).

8 - "(...) que defender vossa terra e bens, o que dereitamente sois teúdos de fazer". (F.L., Cr. I, 174; cf. Cr. Cond. 65).

9 - "Na outra cousa em que duvidais segundo parece, que é a vinda de meus irmãos em sua campanha, isto nom temais per nenhuma guisa, nem Deus nom quisesse que nenhum per mim fosse enganado; cá eu nom os hei por meus irmãos em esta parte, pois que vêm por destruir a terra que os gerou; e nom digo contra meus irmãos, mas em verdade vos juro que, ainda que i viesse meu padre, eu seria contra ele (...)" (F.L., Cr. I, 176; cf. Cr. Cond. 66).

10 - "Ah! Portugueses! Pelejai, filhos e senhores, por vosso rei e por vossa terra!" (Cr. Cond. 124).


III. O Rei:

1 - "Senhor [D. Fernando], a Vossa Mercê saiba que, por eu ser como sou, vosso criado, e pelas muitas mercês que meu padre e meu linhagem e isso mesmo eu hei de vós recebidas, e entendo de receber mais ao diante, hei [correcção de "em"] grande desejo de vos servir em tal causa que Vossa Mercê se houvesse de mim por bem servido. (...)" (Cr. Cond. 24-25).

2 - "Senhor irmão [D. Pedro], a mim parece que todalas cousas do mundo vos devia[am] esquecer e leixar, por todavia serdes na batalha com vosso rei do que vós e vosso padre e nós e todo nosso linhagem tantas mercês havemos recebidas. (...) parece-me que é bem de lhe serdes obediente e cumprirdes seu mandato. (...)" (Cr. Cond. 35-36).

3 - "Senhor [o Mestre de Avis], grandes dias há que eu muito desejei e desejo de vos servir, e nom foi minha ventuira de o até este tempo poder fazer; e, porque ora vós sois em tal ponto e estado que cuido que poderei cobrar o que tanto desejava, eu vos ofereço [a] mim e meu prove serviço, com mui boa vontade, e vos peço por mercê que, daqui em diante, me hajais por todo vosso quite, servindo-vos de mim todalas cousas, como d'homem que pera ello serei mui prestes". (F.L., Cr. I, 76; cf. Cr. Cond., 46).



O Mestre de Avis, D. João I



4 - "O Mestre fez bem e o que devia, em vingar a desonra d'El-Rei seu irmão e se pôr a defensor do reino que seus avós com tanto trabalho ganharam. (...)" (F.L., Cr. I, 73).

5 - "Meu Senhor o Mestre nom é razom que lhe ponha o corpo (...) e que porende o Reino pertence ao Mestre, meu Senhor, (...) como filho d'El-Rei Dom Pedro que é, (...)" (F.L., Cr. I, 138).

6 - "(...) tem [o Mestre] coraçom e razom de o fazer, e nenhum outro há em Portugal pertencente para ello senom ele; e todolos bons portugueses têm razom de o servir e ajudar e seguir o que começado tem, despendendo com ele os corpos e haveres atá morte. E Deus que o a esta chamou encaminhará seus feitos de bem em melhor, e o tragerá em sua guarda, e ao fim que ele deseja (...)". (F.L., Cr. I, 145; cf. Cr. Cond. 56).

7 - "Se o Mestre meu Senhor faz com El-Rei [de Castela] algumas avenças de qualquer guisa que seja, eu o conheço por tal e tão bem, que ele nom faria nenhuma preitesia salvo com sua honra e de todolos seus. (...)". (cf. F.L., cr. i, 287).

8 - "Desta vez, meu senhor o Mestre será rei, a prazer de Deus, e a pesar de quem pesar». (F.L., Cr. I, 423).

9 - "Dizei a El-Rei meu Senhor que eu nom som homem de muitos conselhos, e, pois uma vez por ele foi determinado, como ele bem sabe, de não deixar passar El-Rei de Castela [sem] todavia lhe pôr batalha, que eu desta tenção não me entendendo de mudar nem tornarei um pé atrás, mas dizei-lhe que peço por mercê que me deixe ir meu caminho, cá eu, com estes poucos e bons homens portugueses que comigo vão, lha entendo de pôr. Se sua mercê for de ir lá, mande-me dizer, e aguardá-lo-ei em Tomar". (F.L., Cr. II; in Val. Cordeiro, op. cit. 109; cf. Cr. Cond. 119).

10 - "Senhor [D. Dinis, filho de D. Pedro e de D. Inês], a mim é dito que vós sodes vindo com muitas gentes ao Reino de meu Senhor El-Rei, a fazer guerra e mal e dano. E ainda o pior, que é que por onde vós vindes vos chamais Rei de Portugal, do que muito me maravilho. (...)". (Cr. Cond. 184-85).


IV. Família:

1 - "Senhor, vós me falais em casamento, cousa de que eu nom era avisado; poren vos peço por mercê que me deis lugar para cuidar em ello, e assi vos poderei responder". (F.L., Cr. I, 69; Cr. Cond. 9).

2 - "Minha vontade nom é de em nenhuma guisa casar" (cf. Cr. Cond. 10).

3 - "Praz-me de o fazer, pois que a meu padre apraz e vóz haveis por bem" (cf. Cr. Cond. 10).

4 - "Senhor irmão, bem sabeis (...) E por em vos peço por mercê que me deis lugar e licença para eu me, com a ajuda de Deus, dela me desembargar". (Cr. Cond. 23).

5 - "Senhor irmão, (...) vos peço, senhor, por mercê, que me dedes lugar para ser ela [batalha projectada, entre D. Fernando e o Rei de Castela] (...)" (Cr. Cond. 35-36).

6 - "Nós [ele e o irmão Fernão] não temos prol nem honra de aqui mais estar. E por en é bem que nos vamos pera as posadas. Mas, ante que nos vamos, eu quero fazer que estes que nos pouco prezaram e de nós escarneceram, que fiquem escarnecidos". (Cr. Cond. 38).






7 - "E, porque eu hei por novas certa que o prior do Hespital meu irmão (...) e outros senhores (...) som prestes para entrarem em esta terra (...), minha vontade é, com a ajuda de Deus, (...) de os ir buscar (...) e pelejar com eles. (...)" (F.L., Cr. I, 174; cf. Cr. Cond. 65; v. também o texto n.º 9 do parág. 2).

8 - "Rui Gonçalves, (...) em breve vos respondo assi: que vós digais ao Prior meu irmão que eu, neste feito, nom quero seu conselho, nem Deus nom querrá que o haja de crer do que me manda dizer (...)". (F.L., Cr. I, 179; cf. Cr. Cond. 69).

9 - "Mas maravilho-me muito de vós [o irmão Pedro] haver tão pouco tempo que andais com os Castelãos, e saberdes já tantas castelanias". (cf. F.L., Cr. I, 287).

10 - "A Senhora D. Izabel minha netinha faça Deus santa. (...) mas vós, minha linda, nom leixo de vos querer como à vida. (...) sendo uns e outros pedaços da alma (...) sodes a vossa madre (...) e nom digo al senom enviar-nos a minha bênçom, e a de Deus vos cubra, minha linda". (É uma das cartas publicadas pelo Pe. Pereira de Santana, em 1745; v. Pe. Valério Cordeiro, op. cit., 164 n; cf. Pe. Silva Tarouca, loc. cit., 140).

11 - "(...) E dizei a meu irmão Mestre de Calatrava [D. Pedro] que de mim não cure e cure de si, que entendo haverá mal de passar, do que a mim muita pesa, por não querer crer, no começo destes feitos, o que lhe disse (...)" (cf. Cr. Cond. 123) 'Senhor, eu vos peço por mercê que, pois lhe dou [a d. Afonso, futuro duque de Bragança] o condado de Barcelos, que o façais conde (...)" (cf. Cr. Cond. 199).

(in ob. cit., pp. 62-66).




Continua


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Palavras do Condestável (i)

Nota introdutória e compilação de textos de Henrique Barrilaro Ruas







Ruínas da nave da igreja do Convento do Carmo de Lisboa































Quereria corresponder à generosa intenção de quem me convidou a participar activamente neste colóquio, oferecendo aos estudiosos do Carmo e aos portugueses em geral o discurso do próprio Nun'Álvares (Comemoração dos 600 anos da Fundação do Convento do Carmo em Lisboa. Actas do Colóquio Comemorativo, Lisboa, Associação dos Arqueólogos, 1989, pp. 73-86). Tantas vezes me tem sido dado falar do Santo Condestável - e só hoje, afinal, me acolho a esta sua Casa, para o propor à contemplação e à amizade dos seus irmãos em Pátria. Bem é que seja ele a falar, e eu não passe de escriba.

Parto da ideia, que me serve de hipótese de trabalho e ao mesmo tempo de guia espiritual, de que é legítimo ter por autêntico - não direi cada palavra, mas o discurso global que os cronistas seus contemporâneos lhe atribuem. A gelada desconfiança com que os historiadores pegam, a medo, esses textos, já de há muito me pareceu sem verdadeiro fundamento. Embora geralmente se diga que a estenografia (ou notas tironianas) caiu em desuso durante a Idade Média, parece bem possível supor que alguns dos clérigos ou outros homens cultos que desde cedo acompanharam o fronteiro de Ante Tejo e Odiana, o membro do Conselho de Regedor do Reino, o Condestável e Mordomo-Mor de El-Rei, o Conde de Barcelos, de Ourém e de Arraiolos, o íntimo da Família Real - algum entre tantos fosse tendo o cuidado de recolher, com melhor ou pior técnica, as palavras de D. Nuno. Fernão Lopes refere-se, como é sabido, a vários autores que se dedicaram a escrever os feitos do Herói. Definitivamente desterrada (será possível dizê-lo?), a tese identificadora do autor da Crónica de D. João I, o trabalho de cotejar ambas as Crónicas, seguindo, por vezes, a aguda análise do grande historiador dos nossos Reis e do nosso Povo, creio eu que permite uma conclusão aproximada da verdade - verosímil - como tantas coisas em História! Por outro lado, há na massa de discursos e proposições atribuídas ao Condestável, sem esquecer as simples exclamações, os clamores de incitamento bélico, quase diríamos o seu fresco riso e o suave cântico da sua alma em prece - há em tudo isso, e também nas cartas que com alguma felicidade dele se puderam conservar, uma tão perfeita unidade, uma harmonia tão acolhedora, que soa a falso o sorriso do céptico.

Dir-me-ão que há regras precisas e exigentes, para escrever história. E há. Mas tomara eu conseguir apresentar-vos, minhas Senhoras e meus Senhores, uma sombra que fosse das duas Crónicas!...

O que vou provar a V. Exas. não é, como me perdoarão que ainda não seja, um trabalho completo e de inteiro rigor. Gostaria de ter ainda ocasião de tentar uma análise de tudo quanto, nessas duas obras exemplares, nos traz, em discurso directo e mesmo no indirecto, a fala ou a escrita do Condestável. A esses trechos se juntaria, somente, a breve e mal tratada epistolografia - e, como é óbvio, as fontes diplomáticas. Por hoje, vou apenas cuidar de justapor e depois encadear e de algum modo ordenar com certa lógica e um aceno de hierarquia axiológica - as palavras do Conde Santo que vão sangrando as páginas das suas Crónicas. Só raramente atendi ao discurso indirecto, tratando de ver o direito desse avesso. E tive presentes, para me estimularem e guiarem, algumas das obras modernas dedicadas à biografia do Condestável, com preferência para aquela que julgo ser a mais científica: a do Pe. Valério Cordeiro, que entendo mereceria uma reedição actualizada. Muito devo também ao eruditíssimo e exigentíssimo estudo do Pe. Carlos da Silva Tarouca, "O 'Santo Condestável' Pode Ser Canonizado?", publicado na Brotéria de Agosto-Setembro de 1949.

Vamos ouvir Nun'Álvares. Dele escreveu Fernão Lopes: "Nun'Álvares era de pouca e branda palavra e seu gasalhado e doces razões contentava muito a todos" (I, 173 da ed. Civilização); e ainda: "(...) com boas palavras, com gesto ledo e prazível" (I, 180 id.). E o Cronista, depois de falar do "evangelho português", esclarece: "A qual pregação, Nun'Álvares e os seus, por palavra e obra, fizeram tão cumpridamente, que alguns deles, como depois vereis, foram mortos por a defender" (30 id.). A palavra que havemos de escutar é daquelas raras palavras em que o sangue e o espírito estão presentes, ensinam e comandam, recordam e vivificam. Sequiosos dessa água viva, perdidos como estamos no dilúvio da palavra morta, peçamos ao Espírito Santo (cuja festa de avizinha), que nos renove interiormente para que a palavra viva do Seu Servo não morra ao entrar em nós.


Os Textos







I. Diante de Deus e da Imagem de Deus:

1 - "Amigos! Eu vos quero contar um segredo e grande feito que trago cuidado em meu coraçom, o qual é este: assim é que eu vejo, no meu entendimento, um poço mui alto e mui profundo, cheio de grande escuridão; e bem me diz a vontade que non há homem que nele salte que d'ele possa escapar, salvo por grande milagre, querendo-o Deus livrar d'ele por sua mercê. E nom posso com meu coraçom se nom todavia que salte em ele. (...) Amigos! O poço mui alto e escuro que vejo ante meus olhos é a grande demanda que o Mestre dizem que quer começar por defensom destes reinos contra El-Rei de Castela. E entendo que quem com ele em ela entrar que lhe será grave e mui perigoso, nem é ainda de cuidar que d'ela escape, salvo per graça de Deus". (F.L., Crónica de D. João I, I, 74-75).

2 - "Isto é obra de Deus, que se quer lembrar do reino de Portugal (...)". (Cr. do Condestável, 44).

3 - "Deus que Vos deu a Cidade, Vos dará o Castelo". (F.L., Cr. I; cf. Cr. Cond., 49).

4 - "Outrossim porque nós temos justa querela e razom dereita para defender nossa terra, crendo que Deus é justo juiz, cheguemo-nos a Ele que nos ajude; e, se assi fezermos tendo firme esperança em Deus, poucos de nós venceram muitos". (F.L., Cr. I, 172).

5 - "E Deus que o a esto chamou encaminhará seus feitos de bem em melhor, e o trará em sua guarda, e à fim que ele deseja (...)". (F.L., Cr.I, 145; cf. Cr. Cond., 56-57).

6 - "Amigos! Nenhum nom duvide de mim; e todos aqueles que me ajudardes, Deus seja aquele que vos ajude; e, se eu aqui morrer per vossas culpas e míngua, Deus seja aquele que vos demande minha morte". (F.L., Cr. I, 181).

7 - "(...) minha vontade é, com ajuda de Deus, em companha de vós outros, de os ir buscar ante que entrem, e pelejar com eles. E espero na mercê de Deus que nos dará deles tão bom vencimento (...)". (F.L., Cr. I, 174; cf. Cr. Cond., 65).

8 - "Amigos! Eu nom sei mais que diga, do que vos tenho dito; pero ainda vos quero responder a esto a que me dissestes. (...) todo vencimento é em Deus e nom nos homens. (...); mas, não embargando isto, se vossa tenção é todavia qual me dissestes, aqueles que se quiserem ir pera suas casas e lugares, vam-se com Deus (...)". (F.L., Cr. I, 176; Cr. Cond., 66).

9 - "Ora, amigos, eu vos rogo que os que comigo quiserdes ir a esta obra, que vos passeis da parte além deste regato d'água; e os que nom quiserdes, ficai desta outra parte". (F.L, Cr. I, 176).

10 - "Oh! Irmãos, amigos! E pera vós é fazerdes tal obra? Leixardes tanta honra como vos Deus tem prestes (...)". (F.L., Cr. I, 177; cf. Cr. Cond., 67).

11 - "(...) eu, da intençom que tenho tomada, nom me mudarei em nenhuma guisa, senom com a ajuda de Deus levá-la em diante (...)". (F.L, Cr. I, 179; cf. Cr. Cond., 69).

12 - "Nom me parece bem nem aguisado tomar dinheiros de nenhuma pessoa, salvo daquela a que se entenda servir (...)". (F.L., Cr., I, 248).









13 - "Desta vez, meu Senhor o Mestre será rei, a prazer de Deus (...)". (F.L., Cr. I, 423).

14 - "Amigo meu! Eu vos agradeço bom conselho; mas esta cousa Deus a fará melhor do que vós dizeis; e, para vós não verdes esto que assi sonhastes, eu vos mando que fiqueis e nom vades comigo; per esta guisa vós nom vereis vosso sonho cumprido, nem prazerá a Deus que será assi". (F.L., Cr. I, 321).

15 - "À Senhora Dona Izabel, minha netinha, faça Deus Santa. (...)". (Carta atribuída ao Santo Condestável por antigos cronistas; datada de 11 de Abril de 1429; in Valério Cordeiro, 164 n).

16 - "Afonso Pires amigo! Ora prouvesse a Deus de serem aqui as gentes de todo o reino de Castela, cá, com a graça de Deus, tanto haveríamos maior honra. (...)". (Cr. Cond., 134-35).

17 - "Ora prouvesse a Deus que, de tanta terra me a mim Deus e meu senhor El'Rei há feito mercê, eu nom tevesse nenhuma cousa: e tal cousa nom fosse feita". (Cr. Cond., 373).

18 - "Pela nossa fé santa, de verdade e com boa e desejada vontade". (Cr. Cond., 24).

(in S. Nuno de Santa Maria, Nuno Álvares Pereira, Antologia de documentos e estudos sobre a sua espiritualidade, Selecção e Apresentação de J. Pinharanda Gomes, Zéfiro, 2009, pp. 59-62).



Detalhe da porta principal com tímpano e arquivoltas (Mosteiro de Santa Maria da Vitória, Batalha).




Nave central e Capela-mor




Claustro real






Capela do Fundador



Abóbada da Capela-mor



Abóbada



Interior da Igreja







Continua


sábado, 8 de janeiro de 2011

Filosofia como valor e filosofia como utilidade (ii)

Escrito por José Marinho





Sócrates



Não é verdade, entretanto, como pretendem certos compêndios amáveis para a suficiência comum, não é verdade existir um filósofo em cada homem? Difícil é responder depressa e bem. Difícil, muitas vezes, decidir da verdade ou da justeza de uma questão aparentemente simples e bem posta. Há proposições de aspecto problemático nas quais se não põem verdadeiros problemas. E a afirmação, segundo a qual todo o homem é um filósofo, pode ser considerada justa, se entendermos por ela que a existência não pode realizar-se sem se pensar (ainda quando minimamente o faça) e que o homem não pode realizar as suas humanas possibilidades sem se pôr, por vezes, o problema do que lhe é seguramente possível, que não pode realizar o seu destino humano sem se pôr, por vezes, qualquer que seja a maneira como os resolva, os problemas do destino, do bem e da possibilidade de realizá-lo, da imortalidade e de Deus. Deste modo, é legítima a afirmação segundo a qual todo o homem é um filósofo. Mas ainda, reflectindo atentamente, não nos podemos contentar com isto. Pois quantas vezes a afirmação aludida não tem outro propósito que não seja legitimar a tranquilidade cómoda de quantos se não interessam por desenvolver o filósofo germinal que em si levam, quantas vezes tal afirmação visa apenas adormecer ou desvalorizar a inquietação angustiada ou ansiosa, o enigma que já vimos estar na origem de todo valioso pensamento! (3)

É o homem, quando não atingiu a inquietação angustiada ou ansiosa, como quem, minado por uma doença, não chegou ainda à dor ou sentimento do desgaste fisiológico ou orgânico que a revela plenamente. A situação de um tal homem traduz-se nesta pergunta: «Estou na verdade doente?» E não: «Estou gravemente doente; - mas será a minha doença curável ou incurável?»

É, pois, justa a ideia de que todo o homem é um filósofo, se entendermos por ela que todo o homem é um filósofo germinal. Falsa, porém, enquanto implique desvalorização da inquietação originária em todo o pensamento sincero e directo, falsa enquanto implique assimilação ou identidade do espírito de curiosidade do homem suficiente, com o espírito de problema pelo qual o pensamento se constitui, falsa enquanto assimile o devaneio estéril ou o pensamento satisfeito e tranquilo do homem de acção, erudítico, sabedor, técnico ou pragmático, com o pensamento que intui, perscruta, apreende e compreende.

Assim ao pensamento que se esforça pela luz e pela verdade se deparam seus dois ancestrais inimigos: o espírito simplista e o espírito idólatra. O espírito simplista da menor erudição acumulativa de conhecimentos e da cultura pragmatizante, que ou desatendem o valor da filosofia ou a consideram como um ramo de saber entre outros, ignorando, por este modo, a filosofia como árvore do saber e sua seiva; que ou reduzem a filosofia a propedêutica de cultura ou propedêutica de acção. O espírito idólatra do político ou do religioso vulgar que já tem a sua filosofia inconsciente, optimista ou pessimista, esperançada ou desesperada, e não quer ir além dela com receio, preguiça e insuficiência, ou por considerar o que, segundo ele, existe de impossível e quimérico no esforço por desvendar os mais fundos enigmas.

Por toda a parte e todas as épocas de transmutação de valores e em todos os filósofos inovadores, na cultura da humanidade ou na mais restrita de um país, se deparam à filosofia o simplismo de cultura e os vários ídolos, tendo de os criticar ou de se guardar do seu perigoso influxo. Assim com Sócrates, com Platão, com Bacon e Descartes, com Kant, e com Bergson no nosso tempo. Em poucos países, porém, terá o pensamento filosófico, como em Portugal, existência mais intermitente, mais dramático destino.



Francisco Bacon



O sentido de quanto aparece de precário, intermitente e inseguro no pensamento filosófico português, ditou a Bruno, na abertura de A Ideia de Deus, alguma palavras que importa aqui citar, palavras nas quais perpassa certa amarga ironia, aquela ironia certeira, embora pesada, que é a sua: «Nunca os portugueses mostraram queda para as altas especulações filosóficas; e a metafísica à nossa gente pareceu sempre ludíbrio fátuo de cerebrações senão já de raiz mórbidas, perturbadas, contudo, na normalidade clara de uma pachorrenta irrigação sadia. Não impediu esta originária indisposição, estrutural, de natureza e essência, que, à laia do demais, como dever de ofício e encargo de profissão, nas aulas públicas, de todo o tempo, se lesse, entre nós, de filosofia e que até pretendesse o engenho pátrio, donde a onde, alçapremar-se à região vaga das cogitações metafísicas, que, em regra, uma invencível, preguiçosa antipatia formalmente sentenciara e categoricamente condenara».

A leitura atenta desse trecho de Sampaio Bruno mostra como o autor de A Ideia de Deus via bem a crise filosófica portuguesa. Auscultou-a mais intimamente, embora - e porque - não tão agudamente a sentisse como a sentira Antero.

Não queremos deter-nos na interpretação do trecho citado, pois de Bruno só acidentalmente nos ocupamos, como de Antero, para melhor esclarecer pelas aproximações e contrastes o significado e o valor da obra e do pensamento cujo estudo nos interessa. No trecho citado, poremos em relevo a ideia (expressa com ironia pesada, mas certeira) de que a filosofia era cultivada à laia do demais, isto é, como disciplina entre as disciplinas, e não como fonte e fim de todo o saber, alfa e ómega de todo o pensamento e conhecimento. Essa citação bem deixa ver como Bruno superava aquele plano de erudição onde muitas vezes se moveu, mas de que se não satisfez.

Assim, um dos nossos grandes pensadores injustamente esquecidos se aproximou do sentido de autonomia especulativa nesse livro complexo e exteriormente vário, como são os seus livros, mas onde algumas ideias essenciais e dignas de reflexão aparecem. Entre essas, essencial e digna de reflexão se afigura a ideia inspiradora do trecho a seguir transcrito: «Parece que nascemos destituídos de imaginação criadora; e assim, os sistemas metafísicos hostilizamo-los, visto como não se entende nunca bem senão aquilo que se cria» (4).

Se se verificasse a presunção hipotética de Bruno, isto é, se os portugueses nascessem, com efeito, destituídos do que chama imaginação criadora, não haveria a esperar, certamente filosofia portuguesa. A tentativa anteriana teria sido veleidade e as de Bruno e Leonardo Coimbra obstinação. Não existem, porém, povos onde não surjam homens com imaginação criadora (aceitando a expressão de Bruno) e com as diversas virtualidades de que ela é susceptível. Simplesmente essa imaginação criadora pode estar frenada por hábitos mentais precários ou revelar-se ainda num compromisso com outras formas de actividade do espírito ou outras ordens de interesses.




A própria obra do autor de O Encoberto, cujo estudo sério e meditado trará um dia surpresas, mostra autêntico dom especulativo, perante o qual o do mais estimado Antero fará talvez má figura. E, ao afirmar tal dom para Bruno ou para Leonardo Coimbra, nenhum objectivo particularista ou nacionalista nos seduz, não nos move qualquer propósito destituído de universalidade e veracidade. Consideramos, simplesmente, a natureza ou o demiurgo muito mais generosos para os homens em geral do que de ordinário se supõe. Não vamos até afirmar que em todos os homens a imaginação criadora surja revelando-se. A imaginação na maioria dos homens é imaginação da criatura e não imaginação de criador. Se a revelação do homem criador se torna difícil em muitos casos e condições, isso não significa a inexistência ou o não valor do espírito criador ali onde, com firmeza, nos apercebemos dele. Basta ler com atenção A Ideia de Deus e meditar a concepção do divino em Bruno, basta ler a sua crítica do positivismo e as suas reflexões sobre a filosofia em geral e sobre o pensamento seu contemporâneo, em O Brasil Mental, basta seguir, o que requer alguma paciência e trabalho, mas não é impossível, a interpretação do messianismo em O Encoberto (implicada, aliás, com A Ideia de Deus), para nos sabermos perante um autêntico especulativo, embora realizando-se nas adversas condições possíveis.

Agora, um problema instante nos ocupará. Se a filosofia verdadeira se distingue pelo sentido de autonomia especulativa nos homens que a cultivam, se a filosofia se cria e se não aprende, se vale por si mesma e não pelas aplicações que se lhe atribuam - como se situa o pensamento, a actividade e a obra de Leonardo Coimbra em relação a esta ideia? (in ob. cit., pp. 21-26).


Notas:

(3) Não consiste, claramente, a filosofia na manifestação da inquietude. Essa manifestação caracteriza mais propriamente a arte. A filosofia é um acto de conhecimento cuja raiz é o sentido enigmático do ser de que a inquietação é dramática forma. Há, aliás, duas ordens de filósofos: aqueles em que a inquietação subsiste invisível e aqueles em que é subjacente. Veremos como o pensamento de Leonardo Coimbra realiza aquele primeiro tipo de conhecimento.

(4) A Ideia de Deus, p. 32.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Filosofia como valor e filosofia como utilidade (i)

Escrito por José Marinho








Há ou não filosofia em Portugal? Esta ingénua pergunta tem sido muitas vezes formulada e obtém resposta de sim ou não. Os propensos a negar consideram naturalmente encerrado o debate e crêem possível seguir adiante como se tudo estivesse decidido. Mas a querela mais ou menos surdamente se renova e prossegue, sinal, como sempre, de que existe ao fundo alguma coisa de sério a atender.

Estranho se afigura admitir, sem mais exame, que os homens que em Portugal no amor da verdade essencial e permanentemente viveram, tenham andado iludidos, enquanto aqueles para os quais a filosofia não passa de mera curiosidade ocasional, saibam bastante bem o que filosofia seja para desmentirem a ilusão dos primeiros.

Não podemos dispensar a filosofia e dormir satisfeitos sobre o gesto. Não o podemos por isso mesmo que na filosofia, e só nela, está posto o problema do ser, da verdade e do destino. Pela filosofia, todo o ser e saber buscam seu fundamento, por ela todas as criações e todas as disciplinas humanas procuram a exacta consciência e juízo de si, de uma ou de outra maneira, a religião e a arte, as ciências e a política, a moral e o direito, sempre buscaram pela filosofia o seu fundamento: sempre o buscaram e buscam mesmo quando o não sabem.

Seria, finalmente, adequado ao reflexivo intento admitir, e de uma vez por todas, que a filosofia, arte, religião, não são aleatórios atributos. Onde está o homem, elas estão com ele. O problema, e não pequeno, está em saber como estão: em que forma ou formas? em que grau? em que momento? com que conteúdo ou expressão?

Decisivo será saber quais as razões da específica forma que, sob vários matizes, assume a filosofia em Portugal, com suas profundas implicações estéticas e religiosas, sua exclusão tão peculiarmente marcada das exigências cientistas ou positivistas. Para isso bem parece urgente determinar as profundas e não extrínsecas ou convencionais razões por que a filosofia portuguesa se emancipa mais tardiamente e lentamente da teologia e da dogmática, determinar por que motivo os nossos pensadores ou se detêm subitamente a meio de uma promissora carreira especulativa, ou regressam às mesmas formas de ortodoxia das quais o pensamento se libertara.

Torna-se cada vez mais urgente averiguar se foi, como em geral se julga, por insuficiência, receio ou crédula obstinação que os nossos pensadores, como os da vizinha Espanha, se mantiveram perplexos e até renitentes perante os caminhos da filosofia moderna, ou se, pelo contrário, se aperceberam da unilateralidade, hoje patente, em que na linha cartesiana ou baconiana a filosofia europeia se começara desenvolvendo. Notamos, por um lado, que a história não está por inteiro contada, propendemos, por outro lado, a admitir, e cada vez com mais implacável firmeza, que se a causa da verdadeira filosofia não foi assegurada por uma escolástica de inspiração divina e teológica, ela não é também assegurada pela nova escolástica de inspiração humanística e científica.


Renato Descartes


A causa da filosofia não é a daquele céu, mas não é também a desta terra. Importa primordialmente aprendê-lo. A partir disso será compreendida e valorizada a filosofia que temos e tivemos.

Visando ao mais fundo, impõe-se, entretanto, ao intérprete a exigência de mais modesto início.

Muitos foram os homens que em Portugal, desde a época pombalina como já antes do século XVIII, mostraram interesses filosóficos. Admira até como em tão pragmático ambiente tantos tivemos. E se alguns se limitaram, como talentosos ou menos dotados imitadores, a seguir servilmente caminhos já traçados na prestigiosa Europa, outros, abertos ao sentido do autónomo valor do saber e do conhecimento, atingiram e exprimiram, nas precárias e adversas circunstâncias, concepções originais.

O pensador que vamos estudar aparece estreitamente ligado - quer pelos temas que tratou, quer pela orientação especulativa, quer pelas muito reveladoras interpretações das respectivas obras de pensamento - a Antero de Quental e Sampaio Bruno. Nessa linha cumpre, portanto, considerá-lo.

Impõe-se uma referência preliminar a Antero. O sentimento do que há de significativo na sua personalidade e na sua obra, muitos o tiveram; tiveram-no ou têm-no todos quantos em Portugal pensaram ou pensam. Mas esse sentimento parece ter sido mais indeciso até Bruno, tanto a grandeza do poeta obscurecia o valor do pensador. O autor das Tendências é um dos mais estimados de entre os homens superiores de Portugal e o único estudado, até agora, dos nossos especulativos. Compreende-se, aliás, que seja estudado. Só não se compreende tão bem que o seja no esquecimento de Silvestre Pinheiro Ferreira, Cunha Seixas, Domingos Tarroso, Ferreira Deusdado, para citar aqui apenas alguns de diferente e desigual mas inegável merecimento, alguns daqueles que a ignorância e o desdém dos seus patrícios ocultou à nossa grata memória, ao nosso interesse e possibilidade de compreensão.

É Antero um dos precursores: diferente dos homens de intento meramente culturalista, seja Verney, seja Herculano (1), teve ele o sentido da verdadeira actividade do espírito, aquela de que a filosofia não é uma peça, como a de um relógio, mas o conceito e a expressão universal.

Leonardo Coimbra e Teixeira de Pascoaes


Assim, ao pretendermos situar a actividade de Leonardo Coimbra e a sua obra na corrente de pensamento premente neste país, não teremos em conta indiferentemente as várias obras realizadas em Portugal desde o século XVIII, inspiradas de filosófico propósito ou com aspecto de obras de filosofia. E, se não consideramos o trabalho de Verney no seu Verdadeiro Método de Estudar, ou os de outros autores de restrito interesse cultural, pedagógico ou histórico, isso procede de a filosofia não ter assumido em tais autores soberano e decisivo valor, aparecendo ainda posta ao serviço da cultura ou da acção, quando não nos surge, noutros menores, como pretexto ou ornamento erudito.

A filosofia não é, em tais casos, processo de conhecer ou compreender, realizado com propósito autonómico num espírito inquietado pela origem e pelo fim do homem, pela sua condição e seu destino, mas uma destas duas coisas: ou ramo de saber entre vários ramos de saber, ou disciplina do saber e da acção revestindo forma histórica ou didáctica. Atribui-se-lhe, então, não valor mas simplesmente fecundidade ou até utilidade, não se aprecia pelo que é, mas pelo que pode dar ou render, pela aptidão que pode conferir ao intelecto para tratar outras disciplinas: a crítica e a história, a pedagogia e a política.

Não pretendemos negar a fecundidade da filosofia como formação espiritual para compreender, com maior penetração ou amplitude, os vários domínios do saber. Não a negamos também como propedêutica da actividade humana no sentido mais geral. O cientista, o crítico, o historiador, o pedagogista, o jurista, carecem indubitavelmente dela e mais do que estão, em geral, supondo. Dela carecem os artistas ainda e, num pólo oposto, os próprios homens políticos. Mas aqui cabe uma reflexão: neste sentido, a filosofia é insubstituível; nada, todavia, mais oposto aos seus mais altos fins do que considerá-la apenas actividade fecunda ou fecundante, nada mais desviado da sua essência activa do que atribuir-se-lhe valor, não por ela mesma mas pelas aplicações possíveis. Ideia falsa, essa, pois resulta de uma incompreensão do que seja valor (2).





No domínio do saber, em geral, está convencida a maioria dos homens «cultos» de que aquele se pode importar como se importam livros e com os mesmos livros. Disso resulta certa superstição e idolatria de cultura e um cientismo de pormenores ou ninharias. E quando o propósito de investigação surge, pretendem então os chamados sábios e os chamados cultos, ou empregar um método, fruto de simples transposição, no estudo das coisas portuguesas, ou, noutros casos, realizar uma adaptação das conclusões obtidas por verdadeiros pensadores e investigadores. Supõem eles, ingenuamente, aumentar a ciência ou ampliar seus domínios, pois tudo neles se avalia quantitativa e não qualitativamente. Conseguem apenas, afinal, «saber mais», como se isso tivesse valor de conhecimento, ou contentam-se de aplicar em estreito sentido local e nacional o verdadeiro saber, ao qual não fazem adiantar um passo. O mesmo acontece para a filosofia, por estranha e mais gritante aberração, desde Verney a Bruno - Bruno que contra tal preconceito ergueu a sua crítica, embora, neste caso, com brevidade excessiva e sem fidelidade bastante ou, pelo menos, bastante explícita, à sua própria descoberta. Ler filósofos, resumi-los, citá-los e até, de certo modo, comentá-los, representa, entretanto, muito pouco, e pode nada ter comum com filosofar.

A filosofia não tem seu início no contacto com os livros; ela tem seu início no sentido do enigma que é o homem para si mesmo. E não é a ciência aprendida nem a erudição livresca quem o sente, mas o espírito íntimo e solitário.

Nem há outro caminho de verdade senão o do pensamento, e a chamada cultura (cujo conceito é tão equívoco) suporá e implicará pensamento autónomo ou a caminho da autonomia: e nada será o pensamento se não for autónomo ou se à autonomia não buscar. Como é difícil a verdadeira autonomia! Como é difícil a verdadeira liberdade! Só o não sabe quem desdenhou conquistá-las e espera, em vão, o dador.






Há muitos homens que têm buscado a verdade. E enquanto uns a não atingem por lassidão de ânimo, outros a não conseguem por ambição precipitada. Difícil resignar-se a pensar de início menos bem, depurando o pensamento sem empobrecê-lo, intuindo e verificando, aprofundando e esclarecendo, compreendendo e explicando, cada vez mais e melhor. A quem começa pela preocupação de pensar desde logo com clareza e coerência satisfeitas de si, a esse espera um saber de acidentes, pragmatismo cultural, bom senso, ou judiciosa insensatez: tal como espera a vulgar e egoísta honestidade e honradez a quem começa por querer o bem fácil, ou se resigna a ele. Não há pior suficiência do que a da razão pretensamente lógica ou crítica: porque a suficiência moral ou política traz sempre o volver da vida, insofismável e, por vezes, tempestuoso desmentido, enquanto, na ordem do intelecto, a suficiência com seus sofismas pode viver-se, sem íntimo abalo, uma vida inteira. «Aprendamos a pensar bem; é esse o começo da (própria) moral». Isso é muito diferente de dizer: «Comecemos por pensar bem...» Coisa esta, é claro, que Pascal não disse, nem, por certo, pensou.

Contradição curiosa! Ninguém supõe que um homem possa pedir a outrem para amar em nome dele mesmo, todos, pelo contrário, consideram o amor experiência própria e pessoal; ninguém pede a outrem que por si jogue o futebol ou pratique o remo, desenvolvendo assim, por estranha participação, que se manifesta na gregária turba das bancadas, a própria musculatura e a destreza própria. Muitos, porém, como que reputam difícil pensar, julgar, conhecer e compreender, sem o adequado e pessoal exercício. Ora, assim como a quem não ama não consideraremos amoroso ou amante, nem por verdadeiramente desportivo se aceitará a quem não ousa e pratica, assim também não diremos que filosofa quem não pensa. Nada de essencial pode compreender da filosofia, quem não possua pensamento com origem autónoma e desenvolvimento autónomo. Desta maneira, muitos são excluídos que os bem pensantes aplaudem, e outros, que repudiam, aceitos (in O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra, Livraria Figueirinhas, Porto, 1945, pp. 15-21).


Notas:

(1) Não foi ainda estabelecida nítida distinção entre filosofia e propedêutica de cultura. Daqui procede que Verney ou Herculano, propedeutas de cultura, não sejam compreendidos segundo o que verdadeiramente realizaram. A distinção é capital. Ela permite determinar os limites da obra de Verney e Herculano, e ainda os de Antero, na medida em que este não pôde ou não soube permanecer fiel à sua vocação de poeta e pensador e adoptou a ingénua e moderna atitude religioso-cultural, ou religioso-política, de salvar a pátria, a cultura, a dignidade das letras.




(2) Neste capítulo (...) teremos presente a distinção adequada entre três noções: a de valor, a de fecundidade e a de utilidade. O valor tem como origem o espírito, e o seu mundo é o do espírito: nele se origina toda a criação e toda a especulação que provêm do mais íntimo ser do homem e não de motivos circunstanciais. A fecundidade tem como origem o espírito mas na sua relação com a ambiência vital ou social: como quando dizemos ter determinada obra ou acção influído da maneira tal ou tal: a chamada cultura e a crítica pertencem a esta esfera média. A utilidade tem como apreendida origem e finalidade a simples consciência do existir: daqui provém que toda a utilidade seja determinada como política, social, jurídica, económica, etc.

Continua


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Shihan Fumio Demura

Escrito por Miguel Bruno Duarte































Shihan (1) Fumio Demura nasceu em 1938, mais particularmente em Yokohama, Japão.

Começou os estudos de Kendo com apenas oito anos de idade, tendo inclusivamente treinado sob a direcção do lendário Nakamura Taisaboro Sensei. Também estudou Kendo e Karaté Ryusho no Dojo de Sakagami Sensei, então sediado no distrito Tsurumi, em Yokohama. Entretanto, foi igualmente iniciado no Kobudo sob a supervisão de Taira Shinken Sensei, tornando-se rapidamente num perito em armas de Okinawa.

Fumio Demura introduziu o Karaté Shito-Ryu nos Estados Unidos, corria o ano de 1965. Com o Karaté levou também o Kobudo enquanto extensão do mesmo. Escolheu a Califórnia para ensinar, tornando-se no primeiro profissional do mundo em demonstrações de Karaté, nomeadamente no Las Vegas Hilton, onde, durante dois anos consecutivos, apresentou diariamente um espectáculo inolvidável. Em 1974, entrou na indústria cinematográfica de Hong Kong e, em 1975, na de Hollywood. Participou em vários filmes, entre os quais The Island of Dr. Moreau, Red Sun, com Charles Bronson, Alain Delon e Toshiro Mifune, a que se seguiu a quadrilogia do Karate Kid (ver trailer de 1984), – onde representou algumas das cenas de acção atribuídas ao actor Pat Morita (“Mr. Miyagi”) -, além da sua não menos significativa participação na série Walker Texas Ranger, protagonizada por Chuck Norris.

Por outro lado, Sensei Demura (9.º Dan Shito-Ryu) foi e continua sendo uma inspiração e um exemplo para figuras distintas como Chuck Norris, Mike Stone, Richard Norton, Steven Seagal, Sho Kosugi e até para o já falecido Bruce Lee. Além disso, é presentemente o director e o Chefe-Instrutor do Shito-Ryu Genbu-Kai International, uma organização inspirada nos ensinamentos de Kenwa Mabuni (2) bem como nos de Mestre Shinken Taira.

Em Portugal, o maior professor e Mestre do Karaté Shito-Ryu é Elmano Jorge Caleiro. Com ele veio igualmente a prática do Kobudo através de estágios comparticipados por mestres japoneses, como Sensei Kenyu Chinen, ou tecnicamente assistidos na pessoa de Juan Bish Lorenzo. O percurso de Elmano Caleiro é, sem dúvida, um dos mais distintos e impressionantes, a ponto de os japoneses ligados ao mundo do Karaté-Do perguntarem sempre, quando na presença de portugueses, pela pessoa que notórias e relevantes provas prestou sob a égide de Soke Teruo Hayashi, o único professor e Mestre japonês que, como chegou a dizer, o deixou – a ele, Elmano Caleiro – realmente convencido face aos inúmeros mestres que conheceu ao longo dos seus mais de 40 anos de Karateka (3).



Soke Teruo Hayashi



Elmano Jorge Caleiro



Elmano Caleiro, actualmente 7.º Dan em Karaté Shito-Ryu e 6.º Dan em Kobudo – com exames públicos sancionados e aprovados no Japão -, iniciou a sua vida de Karateka em meados de 1964, quando já então se falava na Academia de Budo, onde Pires de Lima, após estagiar em França, introduzira, em 1963, o Karaté-Do, ainda que ministrado sob a forma de aulas de “Goshin-Jitsu" (4). Partindo para África em fins de 1964, onde cumpriu serviço militar como oficial da 7.ª Companhia de Comandos, em Angola e Moçambique, Elmano Caleiro retomaria, em 1969, a prática do Karaté, especialmente no âmbito do Shukokai (5) em Lourenço Marques. De notar fica ainda o facto de essa prática ter sido aí centrada na figura de Fernando Cruz (1.º Dan de Karaté Shukokai), de modo que, com o seu regresso a Salisbury (Rodésia), onde estava radicado, foi então Elmano Caleiro escolhido como futuro instrutor, embora na condição de ir estagiar Karaté Shukokai para Salisbury com Sensei Shigeru Kimura, 6.º Dan do respectivo estilo e seguidor da via Shito-Ryu/Shukokai liderada no Japão por Sensei Chojiro Tani, na altura 8.º Dan Kyoshi.

Por fim, é no contexto da "descolonização abrilesca", dita "exemplar", que Elmano Caleiro acompanha a transição da prática do Karaté de África para a Europa, na qual, aliás, o Shito-Ryu já se encontrava fortemente implantado em Inglaterra, França, Bélgica e Espanha mediante japoneses como Nambu, Kimura, Suzuki, Ishimi, Nino Satoru e, numa fase posterior, por via de Nakahashi, Mitsuya, Omi, Iwaza e discípulos afins de mestres japoneses altamente conceituados como Teruo Hayashi, Mabuni Ken, Tsujikawa, Tani, Abe, Sakagami, enfim, todos eles, de uma forma ou doutra, ligados ao desenvolvimento do Karaté em Portugal por via da colaboração directa ou indirecta com Elmano Caleiro em estágios nacionais ou internacionais. De facto, não obstante grandes figuras do Karaté português - como Raul Cerveira ou Vilaça Pinto -, Elmano Caleiro destaca-se como o vulto mais representativo de uma geração que, para além de figuras mais ecléticas, como a do já falecido Ruy de Mendonça, trouxera a Portugal o Karaté de pleno contacto tal como era, efectivamente, praticado nos anos 60 e 70.

No mais, Fumio Demura é sobretudo a personificação do espírito de sacrifício e abnegação pessoais, num estilo que certamente nos é comum. Por outras palavras, Shihan Demura é a figura exemplar do permanente alternar da contracção e seu contrário – à imagem do goju-ryu (6) - num movimento que vai desde uma série de esquivas e um mínimo de blocos (8) ao keage japonês traduzido num bate-rápido pontual e não-telegráfico por via da rotação do quadril. Enfim, uma forma de estar e de viver que nos dias de hoje surge como mais uma manifestação típica do Império do Sol Nascente (7).


Notas:

(1) Shihan significa Mestre, honorável professor.

(2) O fundador do estilo Shito-Ryu, inicialmente designado por Hanko-Ryu (1928). Shito reúne os caracteres que representam os nomes dos mestres de Mabuni: Itosu (Shi-Ito) e Higaonna (to-Higa).

(3) Muitas foram as personalidades estrangeiras ilustres que tentaram assistir aos combates de Sumo, no Japão, sem, no entanto, jamais o conseguirem por virtude do carácter estritamente reservado dos japoneses em tudo o que diga respeito às suas tradições sagradas. Elmano Caleiro foi, porém, a excepção à regra.




Hironori Otsuka




(4) É neste contexto que mestres japoneses, como Suzuki e Hironori Otsuka, este último fundador do estilo Wado-Ryu («O Caminho da Paz»), vêm fazer demonstrações em Lisboa, no Judo Clube de Portugal. Neste Clube se distinguiram, aliás, personalidades nacionais e estrangeiras, como Hugo d’Assunção, Bastos Nunes e Kiyoshi Kobayashi.

(5) O Shukokai foi fundado em 1958 por Chojiro Tani, depois de ter praticado Shito-Ryu sob a égide de Kenwa Mabuni. Caracterizado por posições altas, o Shukokai significa o «Caminho para todos».

(6) Go, neste caso, significa «dureza», ao passo que ju significa «suavidade». Daí o estilo de Karaté Goju-Ryu, fundado por Chojun Miyagi, que foi, por seu turno, discípulo de Higaonna, um dos mestres, como já vimos, de Kenwa Mabuni, fundador do Shito-Ryu. Chojun Miyagi combinou as flexíveis técnicas chinesas, tiradas do jun fa, com os pujantes métodos de luta de Okinawa. Paralelamente, o kata Seienchin, habitualmente praticado por Fumio Demura, representa uma forma que, caracterizada pela respiração ventral sonora e a movimentação dos pés em semi-círculos, foi também ela inspirada nas posturas fortes e estáticas do Naha-te (uma das três cidades principais de Okinawa, a par de Shuri e Tomari), isto é, oriundas dos estilos do sul da China e praticadas por Higaonna, que as transmitiu a Kenwa Mabuni.


























Dominique Valera






(7) Curiosamente, Yoshinao Nanbu, conhecendo, por intermédio de Sensei Tani e de Sensei Tanaka, o Karaté Shito-Ryu após ter praticado Judo e Kendo, diria - na sequência de uma iluminação que o levara, em 1970, a criar o Sankukai (um novo estilo de Karaté inspirado nos movimentos e nas esquivas circulares do Aikido) - «qu’il n’y a pas de blocages». Nesse sentido, afastava-se dos estilos e métodos tradicionais de Karaté, mantendo, no entanto, as múltiplas vertentes do mesmo, ora física ora espiritualmente consideradas. Yoshinao Nanbu foi também o responsável pela criação, em França, da primeira Federação de Kendo, assim como o treinador, durante três anos, da equipa francesa de Karaté, onde se fez valer o notável e admirável Dominique Valera.

(8) Note-se que o Karaté é uma criação de Okinawa e não do Japão propriamente dito. Tal pode e deve ser compreendido à luz da história do Extremo Oriente, a saber:

1. A influência chinesa em Okinawa, no que respeita ao to-de («as artes de mão»);

2. As guerras entre os clãs Taira e Minamoto do Japão, com o primeiro deles a refugiar-se em Okinawa e, por conseguinte, a influir no sistema nativo de luta;

3. O controlo feudal de Okinawa por parte da China (1372), durante o qual se desenvolve um intercâmbio cultural entre famílias, mercadores, diplomatas, militares chineses e nativos de Okinawa, acrescido da complexa transição do Shaolin chun fa (em japonês Shorinji Kempo) para o Okinawa-te (a mão de Okinawa);






4. A unificação feita, em 1429, pelo rei Sho Hashi, que ordenou a confiscação de todas as armas de Okinawa a ponto de contribuir, ainda que por via indirecta, para o enriquecimento marcial local através do intercâmbio de várias e diferentes técnicas vindas da Coreia, Malásia, Indonésia, Tailândia, etc.;

5. A invasão de Okinawa, no período Togugawa, pelo clã japonês dos Satsuma, que renovou a proibição de uso das armas e levou ao secreto desenvolvimento do te de Okinawa e ao uso de instrumentos agrários para fins marciais (Kobudo);

6. A imposição do Japão a Okinawa de um sistema legislativo, governamental e educacional (1871), de que resultou a rebelião, a matança e, por fim, o aprisionamento do rei de Okinawa em Tóquio;

7. O aparecimento do «Kara-te», cujo significado oscilava entre «mãos chinesas» e «mãos vazias», tudo dependendo do caractere empregue relativo a «kara»; A opção de Gishin Funakoshi - o fundador do Shotokan e o pai do Karaté-Do – pelo Karaté como «mão vazias» (1933), na intenção, aliás, de não ferir a susceptibilidade patriótica dos japoneses, que começaram a importar o «Karaté» na sequência de uma demonstração do próprio Funakoshi no Japão (1922), a convite do então Ministro da Educação, o fundador do Judo, Jigoro Kano.




















Steve McQueen, Bruce Lee e Fumio Demura

























Chuck Norris, Fumio Demura e Noriyuki "Pat" Morita.



Chuck Norris e Fumio Demura






























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