sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

As seitas na Rússia (ii)

Escrito por Leonardo Coimbra








Há neste conceito implícito de Mística, mesmo tomada no simples plano da vida comum da fé, os dois pólos do mesmo erro.

Passa aqui como que uma sombra do pelagianismo, não do pelagianismo autêntico, o da origem, o do poder e suficiência da vontade humana, mas a sua magra sombra intelectual - o pelagianismo duma inteligência platónica fazendo-se, só por si, capaz de vida mística.

Em vez duma simples potência obediencial aceitando a graça, a maior graça da contemplação infusa, da visão intelectual ou até imaginativa, uma «capacidade especial, que é necessário que o homem tenha».

Ao mesmo tempo: uma inteligência, que podendo erguer-se à visão mística, não consegue inserir-se na matéria e disciplinar a imaginação e a sensibilidade.

Deste modo a inteligência voa para o mundo inteligível, e cá em baixo fica uma matéria abandonada da salvação redentora.

Bem sei que este mesmo livro de Bulgakoff nos apresenta como ortodoxo o critério cósmico do homem salvando, por si, o seu corpo e o Universo físico, sua base e prolongamento. É até muito bela esta parte deste honrado e profundo livro; mas o que nos interessa é mostrar como, mesmo depois de tornadas conscientes as maiores falhas da ortodoxia, os seus mais sérios representantes se não furtam ainda, por amor à verdade e por hábito espiritual, à exposição dum cristianismo incompleto ou da atenção quase fixada apenas num dos aspectos da sua preciosa e infinita riqueza.

A prece é dada no capítulo da Mística como sendo uma conversa com Deus, que leva à «aquisição do Espírito Santo».

Esta aquisição é ainda eivada do mesmo involuntário ontologismo. Os santos são os portadores deste Espírito - os pneumatóforos. Serafim de Sarov, do século XIX, é um dos grandes santos pneumatóforos.

O seu discípulo Motoviloff conta que S. Serafim lhe havia manifestado o Espírito que nele habitava. S. Serafim, diz, Motoviloff, pôs-se a resplandecer como o sol, numa irradiação fulgurante. Dava-se isto no Inverno, no meio das neves, e, contudo, Motoviloff sentia um calor doce, um estranho perfume, experimentava uma alegria celeste.



S. Serafim de Sarov




Fulguração, esplendor, beleza: eis o santo ortodoxo...

Veremos na outra extremidade um ascetismo cruel, de ódio à matéria, como este o é de desdém e fuga.

Aqui é um platonismo amoroso, penetrado de feminina ternura; mas, mais ainda, é um abandono da história, não a requeimando de ardente caridade que, então e só então, a nimbaria de radiosa auréola.

De resto, eis a confissão do autor: «Não se poderá negar que a ortodoxia, não como igreja ecuménica mas como cristianismo oriental, revista um aspecto que é menos deste mundo que o do cristianismo ocidental...

O cristianismo ocidental é impregnado sobretudo do espírito de dois príncipes dos apóstolos: Pedro (catolicismo) e Paulo (protestantismo). João queria repousar no seio do Mestre, enquanto Pedro pergunta se duas espadas bastam e se preocupa da organização da Igreja.

De aí o carácter contemplativo da vida monacal no Oriente.

Esta vida monacal ignora a variedade e as tonalidades das diversas ordens religiosas do catolicismo. A contemplação no Ocidente é própria de certas ordens, apenas; no Oriente é o traço característico de toda a vida monástica.

O estado monástico é aí a aceitação da forma angélica (9)»...

Aceitação do que vem, fuga do que é: eis o que nós vemos implicado no modo de se manifestar da ortodoxia.

A própria compreensão das beatitudes é repassada desta, quase diríamos, passividade contemplativa.

O nosso teólogo, Sérgio Bulgakoff, diz-nos que o mundo católico ama o Cristo humano, ama a sua humanidade em sofrimento e na cruz.

Mas esta imagem é para o russo apenas a imagem do Cristo doce e humilde, cordeiro de Deus, que, sofrendo sem murmurar os ultrajes e a desonra, responde pelo amor.

É este o caminho da pobreza espiritual, que dá os grandes santos russos.

«A santidade que ela (10) procura (o povo russo exprimiu esta tendência pelo nome da Santa Rússia) apareceu-lhe sob a forma de humildade e abnegação suprema».

E assim «os homens de Deus», os «loucos por Cristo», os peregrinos, são próprios da ortodoxia russa. Loucos que abdicam, que renunciam à sua razão para receberem voluntariamente ultrajes por amor de Cristo.






Mas o Cristo da igreja católica não quer que nenhuma alma seja ultrajada, e, se recebeu ele os ultrajes, foi para os poupar aos homens. Quer sim que recebamos ultrajes por seu amor, quando, por o seguirmos, os outros nos ultrajem.

Mas não quer o escândalo de, sem amor de amizade, sem destino de obras, sem fim de caridade, provocarmos o escárnio e o desamor dos outros.

Bulgakoff põe-nos diante do Getsémani para aprendermos aquela abnegação e renúncia.

Mas abnegação e renúncia de quê?

Nessa formidável solidão de Getsémani, Jesus abandona o seu poder divino para, em obediência perfeita, entregar o homem à justiça dos homens.

E, na sua angústia, passam então todas as angústias humanas, incluindo o horror da carne martirizada, o pânico animal e humano duma morte irremediável e cruel.

Sobre a sua pobre carne passa o vendaval de todos os sofrimentos, a antevisão de todas as torturas e ultrajes; em sua alma de homem, o peso de todas as ingratidões, o desamor dos homens, a teimosa incompreensão e cegueira das almas.

Imaginemos um mar do lodo de todas as vilezas humanas, um deserto de areia de todas as solidões da alma dos pobres do pão e do amor, um nordeste de todas as friezas do desdém, um Etna de todas as cóleras do ódio e da inveja, e que tudo isso se faz uma opressão de horror congelando-se em torno dum coração amante e clarividente: eis a sombra da hora de Getsémani.

Esta visão de toda a história do mal, da inveja, da cegueira moral obstinada em propositada intenção centrifugante, da impermeabilidade intelectual das almas que se cerram no egoísmo dum orgulho esterilizante e agressivo, é acompanhada dos estremecimentos de horror duma carne retalhada a pontas de ferro, acicatada de espinhos, percorrida das convulsões aniquilantes da vida que vai partir. A angústia moral aliada ao terror físico - o frémito da carne sob o açoite da Morte e o estremecimento da alma diante do abismo do Abandono.

E tudo isto suportado numa luta bem humana, num encontro de vontades, em que a vontade humana, fixa na vontade divina, procura, sem pecado, afastar o cálice de tamanha amargura.






E, ao fim, a agonia do corpo, regando o solo com o próprio sangue, e a angústia da alma, vendo o imenso Sara do desamor humano, vencidas na formidável aceitação da Vontade de Deus.

Aceitação de quê?

De peso da dor universal, transfigurada assim em universal amor.

O ensino de Getsémani não é o ensino da renúncia e do abandono, mas da transfiguração da Dor pelo Amor.

Não é o abandono do humano, porque o homem ressuscitará; nem o abandono das alegrias naturais legítimas, porque elas ressurgirão também pelo poder transfigurante dum renovado e fecundo amor.

O Cristo de Getsémani é um Cristo herói, preparando, na aceitação verdadeira, a integral vitória da vida, por cima e para além da morte.

Não são as pompas humanas que ele vence, não são as seduções terrestres vencidas (isso, ele o fizera nas tentações), não é o espírito de pobreza exemplificado; é, sim, a natureza humana aprofundada até ao âmago das suas mais íntimas rebeldias, até ao imo do seu ser perdido no mundo e sentindo o terror da sua insubsistência, o medo pânico do caos de que emergira e o assalto de seus sinistros vagalhões destruidores...

Uma barca ao largo do Atlântico de Fúrias, na barca uma criança abandonada, e, em seus olhos, o horror do Abismo feito a própria essência do seu olhar!

Um sentimento de destruição, carregado do realismo do peso dos mundos e dos pecados, dos turbilhões dos astros desorbitados, do gemer e arrancar dum Vendaval - fúria dos mundos entrechocando-se...

Este sentido de aniquilamento duma consciência clarividente e vendo a morte inconcebível mas irremediável, e o dizer sim a essa morte, porque só uma morte integral, uma morte em que num ser morram todos os seres, em que numa consciência se aceite a morte universal, é que podem dar a semente duma universal ressurreição.

Nem abandono, nem renúncia - tudo aceitação; mas aceitação activa duma morte dolorosa, fonte e germe duma vida transfigurada em eternidade, fogo requeimado até ao ponto em que se refaz a temperatura da Origem.

Heroísmo tamanho, que é o salto dum Atlas, carregado dos mundos e das almas, do finito para o Infinito.



Atlas


A lição de Getsémani é para os cristãos integrais um atletismo da alma, não de alma que abdica, mas que quer levar, no ímpeto do seu heróico amor, asas de salvação para todos os voos.

De resto, o próprio espírito de pobreza é também o mesmo heroísmo e nunca uma abdicação.

Para um cristão integral vale mais o rico, que, em caridade, serve aos homens a sua riqueza do que o rico que a entrega e se desinteressa dos seus tesouros.

Ao contrário, por todos os modos e em todas as afirmações - as mais belas da ortodoxia - encontramos sempre uma demissão e renúncia, que explica o fundo niilista e a passividade do grande povo russo.

«A ortodoxia (11) tem a visão da beleza espiritual ideal, da qual a alma procura aproximar-se. É o reino celeste das ideias, que já Platão tinha contemplado; são as imagens do mundo angélico, o Céu espiritual que se reflecte nas águas terrestres. E um ideal religioso de tendência estética, ideal situado para além do bem e do mal, considerados como entidades separadas».

Um ideal, uma beleza espiritual ideal?

Mas é um puro regresso ao idealismo platónico.

A religião não pode ser - e não o é para os ortodoxos - uma categoria do Ideal; a Religião é uma relação com Deus, é a suprema realidade ontológica, é relação com o Ser Realíssimo; nada nela é, sob este ponto de vista, ideal, tudo é real, o absoluto e máximo da realidade, mais que absoluto e máximo, o Real sem limitações.

O Ideal é a nota, o sinal, um esquema de acção, é uma seta dirigindo um movimento, movimento que não está mas tende, caminha, dirige-se.

Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida. No cristianismo não há ideal como realidade possuída. O Ideal, no cristianismo, é o sentimento de imperfeição, de desvio do Caminho, da não realização.

O Ideal é em cada alma o sentido das suas falências. Não é o cristianismo que é Ideal, são as almas insuficientemente cristianizadas, que sentem, em termos de Ideal, a sua insuficiência do Real cristão.

«Para além do bem e do mal, como entidades separadas?»

Mas uma religião para além do bem e do mal não é mais que, pura e exclusivamente, uma Estética.

E ainda uma estética particular, pois que a verdadeira estética não está para além do bem e do mal na apresentação da Beleza, mas a Beleza é que está do lado do Bem.

A beleza criada é um esplendor do espírito na alma, um luar da alma no corpo, uma transparência da ideia na matéria. A beleza é a magnetização do inferior pela presença invisível do superior, seja, a orientação orgânica e hierárquica dos seres inferiores pelas linhas de força vindas dos superiores, a gravitação do Universo para Deus. É um movimento, mas não um puro movimento dirigido, é como o deslocamento dum berço pela piedade dos braços maternais.

A Beleza incriada é Deus encerrando em si a virtude e a fonte de todos os seres, seja, Deus esplenderoso de vida integral, vida-origem, a vida viva da plena convivência trinitária.



Ícone da Santíssima Trindade



Onde uma beleza, estranha ao bem e ao mal?

Só num Universo-animal, em que Deus fosse a alma do grande Todo.

Estranho encontro do sacerdote ortodoxo com o genial escritor eslavo Frederico Nietzsche!

Mas esta estética é uma invenção de Nietzsche, e nada mais afastado da realidade.

A sua interpretação da tragédia grega, indo, aliás, para além da banalidade de quase todos os intérpretes, é completamente falsa.

O Uno primordial purga-se da pletora das suas exuberâncias interiores, das suas contradições até: o Universo plural é a catarse desse Uno originário. A tragédia não é mais do que a fixação por Apolo, numa película de sonho, das propulsões dionisíacas da pletora do Ser.

Criação e destruição: eis o ritmo da Realidade.

O Universo não é mais que a afloração de forma (Apolo) fremente duma seiva dionisíaca, que por dentro responde à pressão da grande embriaguez universal.

A tragédia grega era a objectivação desse ritmo, apreendido pela magnífica saúde dos Helenos, pondo-lhes diante dos olhos as grandes calamidades e horrores como naturais produções do Uno primordial.

Era um desafio do seu optimismo profundo, bebido na origem, do seu Deus amoral, do seu Deus-Artista, ao pessimismo duma vida, que, julgada em termos de moralismo, seria a pior possível.

Ora a tragédia grega não é nada disso, é, muito pelo contrário, uma posição da vontade prometeica ou humana em face dos tabos, mitos e deuses excedidos numa luta, que nem sempre acabava pela derrota dessas vontades.

As Fúrias de olhar seco e sem lágrimas não vencem o sentimento de justiça dos altares atenienses. O Prometeu não cede perante a simples Força.

Os Persas, que erguem da sombra da morte o seu mais glorioso rei, para socorrer a aflição da rainha Atossa e do seu povo, contam a derrota dizendo que, acima de tudo, foram vencidos pela dignidade e pelo consciente amor da Pátria dum povo, que ia para o combate livremente, defendendo o seu lar, como foco da Justiça.

Não há, pois, aí nenhuma estética para além do bem e do mal.

Mas a afirmação de Bulgakoff do estetismo da religião ortodoxa completa-se, quando, no capítulo sobre o culto, nos mostra - e é a verdade - como o ensino ortodoxo, essencialmente litúrgico, era feito quase só pelas expressões artísticas das suas igrejas.

As pinturas murais e os ícones faziam das igrejas um verdadeiro livro de ensino religioso.

«O motivo dos ícones não se reduz a uma simples representação, mas pode incluir descrições inteiras sobre a vida de Cristo (ícone das festas) e pode exprimir ideias dogmáticas muito complicadas (diferentes ícones de Santa Sofia, a Sabedoria divina, ícones cósmicos da Virgem, etc.»).



Santa Sofia e suas três filhas (Fé, Esperança e Caridade).




O ícone é uma pintura simbólica, não só do simbolismo da presença do superior no inferior, base de toda a arte, mas dum simbolismo restrito, diríamos até que o ícone é um criptograma.

«... O ícone não conhece as três dimensões, não tem profundeza, mas contenta-se, como a pintura egípcia, duma representação plana e duma perspectiva inversa, o que exclui a sensualidade e arrasta o predomínio das formas e das cores e do seu simbolismo... A pintura das imagens é severa, séria; pode parecer seca, porque toda a arte elevada e pura pode parecer seca aos filhos da carne».

Uma paisagem de alma, em que a carne é deformada em pretexto de exaltação do sentido angélico e intenção de fuga às seduções da sua intrínseca maldade.

E é esta a arte que é verdadeiramente ortodoxa, pois que «a influência do Ocidente se fez indubitavelmente sentir na pintura dos ícones na época em que a sua decadência começa, desde o século XVI (12).

Nos séculos XVIII e XIX a influência do gosto ocidental sobre a arte russa abaixa o seu nível, aparecem traços de naturalismo e diletantismo, o estilo propriamente russo apaga-se, a arte do ícone transforma-se num ofício».

O culto é todo ele duma grande beleza simbólica, embora com as restrições que temos mostrado. O centro da liturgia é a ressurreição de Cristo. É o lado de além da vida, a volta à vida, que, mais que o Natal e todas as outras festas, fala à alma ortodoxa.

Este afastamento do histórico dá à ortodoxia um sentido de realismo (13) que mais uma vez nos lembra um acordar das concepções platónicas e um vago estetismo, onde quereríamos vigor e objectividade.

«Um outro carácter do serviço ortodoxo é o seu realismo.

Durante o serviço do Natal, não se comemora apenas o nascimento de Cristo; mas verdadeiramente, o Cristo nasce duma maneira misteriosa, da mesma maneira que ressuscita na Páscoa: o mesmo acontece com a transfiguração, entrada em Jerusalém, mistério da ceia, paixão, enterro e ascensão de Cristo e ainda o mesmo sucede com todos os acontecimentos da vida da Santa Virgem, desde a Natividade até à Assunção».

Não há aqui o vago que dá lugar a todas as possíveis fusões e confusões, próprias das almas inquietas e pouco capazes de crenças sólidas e bem definidas?

Não há aqui uma realidade vaga, misteriosa, mal definida, de sugestão platónica, chamando tudo para o mundo ideal e misterioso do simples sentimento de presença, isto é, de evocação dum objecto requerido por exigências emocionais?

Não parece o reaparecimento daquele mitologismo com que Platão socorria a ausência de realíssima ontologia do seu etéreo mundo inteligível?

A falta de doutrina, de esforço da inteligência para o desenvolvimento explícito ou dogmático do que o Caminho, a Verdade e a Vida possuem, em si, de Ser infinito, e, para nós, implícito, e a ausência de ensino e exigência de objectividade, do social e comunicável, sendo a característica do pensamento ortodoxo russo, são também a razão deste vago simbolismo interpretativo, à beira dum quase mitologismo de simples reacções emocionais.

Basílica de Santa Sofia em Istambul (Turquia).
















Novo predomínio do carácter estético da ortodoxia, pois que este realismo é ainda mais uma revelação artística que uma clara e consciente sede de vontade universal e até de verdade social comunicável, onde todas as almas possam ir buscar o substancioso pão duma fé desperta, diligente, viva.

Este carácter de estetismo, e dum estetismo abstracto e diminuído, pode ver-se directamente na concepção da iconografia religiosa, exposta pelos teólogos, como já vimos aqui com Bulgakoff; mas pode comprovar-se duma maneira notável pelas analogias encontradas na própria sensibilidade dos artistas.

Se os religiosos acham, na iconografia religiosa, uma espécie do estetismo platónico, de exemplificação e exposição do paradigma inteligível, os artistas, por sua vez, encontram, quando pretendem dar uma impressão de vida fantasmática, o símile da mesma iconografia religiosa (in ob. cit., pp. 269-281).


Notas:

(9) Os anjos são os monges, que, assim, a si mesmo se chamam.

(10) A alma ortodoxa.

(11) L'Orthodoxie, S. Bulgakoff. O itálico do último período é nosso.

(12) A Itália da Renascença influiu sobretudo na arte monumental e decorativa e mais realizações do que em educação.

(13) Realismo no sentido medieval.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

As seitas na Rússia (i)

Escrito por Leonardo Coimbra




Catedral de S. Basílio


O historiador Pogodine, com Akskov que o cita e outros, afirmou que a liberdade religiosa dada à Rússia de então faria com que metade dos camponeses passasse para o Raskol [aproximação da Igreja ortodoxa russa à Igreja ortodoxa grega num contexto caracterizado pelo intervencionismo do Estado na esfera eclesial] e metade da aristocracia para o catolicismo.

Na Rússia houve sempre judaizantes e seitas como o «Velho Israel» e o «O Novo Israel» que vieram até à actualidade.

A religiosidade russa é toda fortemente impregnada de semitismo, apocalíptica e catastrófica; mas principalmente nas seitas é mais evidente o catastrofismo e, em algumas, é clara a sua origem semita (1).

Já vimos surgir, no século XVI e com as reformas de Nicónio, o grande Raskol.

Mudanças de letras, correcção de uma prece, sinal da cruz feito com três dedos, etc., são os motivos de protesto feitos em defesa do imutável tesouro da tradição sagrada.

O concílio de 1666 que os condena é, para eles, pelo número 666, o sinal claro da Besta e do Anticristo.

É pois com o Apocalipse no pensamento que os velhos-crentes entram em campanha.

Se o Estado, protector e responsável de aqui a pouco, o Anticristo, como servi-lo, conservando pura a consciência?

Pedro Grande vê-se acusado de Anticristo e torpedeado pelo Raskol nos impostos, no serviço militar e em tudo em que a sua oposição se pode fazer sentir.

O Raskol dividiu-se logo em popovtsi ou com padres e bezpopovtsi ou sem padres, conforme admitiam ou não admitiam a sequência dos padres apostólicos na igreja e a possibilidade de transmissão de poderes por imposição das mãos, etc. Os popovtsi arranjavam padres seus para o serviço religioso por intermédio de ordenações feitas por padres ortodoxos fugitivos, ou por meio de contratos com os ortodoxos russos ou ortodoxos de outras igrejas orientais.

Os velhos-crentes tiveram, apesar de todas as perseguições que a dormente igreja ortodoxa fazia por sobressaltos terríveis, uma força enorme em todo o Império, chegando a possuir as melhores casas e fortunas em muitas regiões da Rússia.

O Teatro artístico de Moscovo foi obra de homens ricos do Raskol.

Esta força, não podia, no entanto, ser mais que uma força de relações sociais e compromissos de opinião.

Muitas vezes, personagens colocados em altas posições sociais ou políticas tinham simpatia pela seita; mas, como para ela o Estado era o Mal, só por compromissos morais se podia servir esse Estado - o que de resto, era feito sem convicção nem firmeza.

A não-aceitação da história russa niconiana e petroviana era fatalmente implicada em qualquer forma do Raskol.

Nesta ordem de sentimentos é mais claramente extremista a parte do Raskol, que não admitia padres - a dos bezpopovtsi.

Fugir do mundo, para não aceitar nenhum compromisso com o Anticristo, foi o seu lema, levado por vezes até à loucura do suicídio.



Estrela de Ouro (símbolo do Anticristo).




Nem padres nem sacramentos, a não ser o baptismo e, por vezes, a confissão feita a uma imagem em presença dum ancião.

Desaparecido o casamento, ficava obrigatório ou a castidade, ou a ligação monogâmica ou poligâmica.
Tudo isso se deu.

A poligamia deu em certos grupos uma espécie de prostituição sagrada, que fez aparecer, em reacção, o mais grosseiro ascetismo materialista com a seita dos «castrados».

Desta saiu, no século XVIII, um grupo extremo, pregando o suicídio colectivo em termos como estes: «Salvai-vos fugindo para a solidão e, se a autoridade vos procurar, queimai-vos ou deixai-vos morrer: assim ganhareis a coroa dos mártires».

Estes loucos encerravam-se em granjas e casas, que incendiavam de modo a tornar impossível a saída.

Mais de vinte mil loucos, homens, mulheres e crianças, morreram desta maneira, perecendo, também, das perseguições da autoridade, muitos milhares.

Os velhos-crentes iam emigrando para o Norte, Sudoeste e Sibéria, onde criavam aldeias do tipo comunista.

Esplêndidos colonos, contribuíam assim para a unificação do Norte e da Sibéria.

Catarina permitiu-lhes certas liberdades e a criação de comunidades mesmo em Moscovo.

Nos fins do século XVIII aparece entre eles a propaganda contra a cidade e a defesa dum comunismo, que, filho da vagabundagem psicológica, é como que a apoteose de economia natural.

Aparecem os beguni ou straniki, que são pregadores ambulantes, constituindo uma comunidade. Estes sectários recebem o «baptismo do caminhante», substituindo todos os seus papéis civis, que são queimados, por um papel com uma cruz, dizendo - este é o verdadeiro passaporte visado em Jerusalém.

Contrários ao casamento, davam preferência às ligações livres - pois que o homem casado ficaria entregue ao pecado para sempre.

O número destes vagabundos aumentando, a economia natural não lhes podia bastar e aparecem, ao lado dos homens errantes, os homens hospitaleiros (2), que recebem e alimentam os primeiros. Assim foi a Rússia atravessada por caminhos, aldeias e casas, por uma ingénua propaganda comunista e uma doutrinação religiosa, negadora do valor positivo de toda a organização social, que era, na Rússia, obra do Anticristo.

Os moltchalniki ou mudos, com o único voto de silêncio, constituíam outra derivação dos homens errantes.

Os niémoliaki surgem como que sendo uma ressurreição dos iconoclastas e supõe-se já no reino do Espírito Santo, outros supunham que, desde a chegada do Anticristo, tudo o que é sagrado subiu ao Céu, deixando a Terra vazia de sentido e realidade divina.



Representação alegórica do Espírito Santo (Igreja Ortodoxa Sérvia).




Outras formas heterodoxas, diferentes do Raskol clássico, aparecem na Rússia, tendo quase todas o mesmo fundo comum de desvalorização do histórico e da matéria, de ressurreição daquelas heresias, que vimos florescer na velha Bizâncio.

Os khlesti ou flagelantes, que se chamam também os homens de Deus, dizem, no reinado de Pedro Grande, ter recebido directamente a revelação da boca do próprio Deus. Deus incarnou, e a incarnação chamava-se Daniel Philippovitch.

«Sou o deus anunciado pelos Profetas, é a segunda vez que desço à Terra para a salvação da raça humana, não há outro Deus além de mim»: eis a revelação.

Este Deus teve um filho, chamado Ivan, que era um servo da família Narichkine.

Foi o profeta da seita, escolhendo doze apóstolos.

O khlesti acredita que todo o homem ou mulher pode fazer um Cristo ou uma Mãe de Deus.

O seu ascetismo consiste na proibição de bebidas, assistência às núpcias ou festas, juramento e roubo, casamento e união dos sexos.

Juntavam-se de noite e começavam a cantar e a girar em roda, aumentando pouco a pouco o ritmo até chegarem ao delírio e por vezes à loucura orgiástica.

As práticas dos khlesti foram recebidas nos conventos, casas aristocráticas e até por vezes na corte.

Uma derivante é a dos saltadores, que chegam ao êxtase e delírio, por meio de cantos, gritos e saltos. Alguns, atingido o delírio, iam celebrar o amor de Cristo em lugares escuros e orgias sexuais.

Os cholopats eram francamente comunistas e praticavam o comunismo.

A seita dos «brancas pombas», que já vimos aparecer em reacção ao orgiatismo de outras seitas, surge no fim do século XVIII com um certo Selianov, que se faz chamar «Deus dos deuses e Rei dos reis», ao mesmo tempo que se diz czar de todas as Rússias e reincarnação de Pedro III. Os seus sectários, skoptsi ou castrados, eram milenaristas e acreditavam na Parusia quando o seu número perfizesse uma certa conta. De aí o ardor da sua propaganda.

Os dukhobortsi crêem que Deus existe no homem, e portanto o homem pode e deve fazer, na Terra, o Paraíso.

Pacifistas, vegetarianos, comunistas e partidários da negação dos deveres e funções sociais, recusam o serviço militar, etc.

Tolstoi ajudou a sua emigração para o Canadá.

O luteranismo também exerceu um papel importante nas pressões oficiais sobre a igreja ortodoxa, porque a burocracia russa empregou sempre muitos elementos germânicos, e porque alguns imperadores ou foram directamente ligados à Prússia, ou, com Pedro Grande, tiveram como homens de confiança e direcção, elementos de origem ou cultura luterana.

Seitas protestantes extremistas também se espalharam na Rússia, podendo calcular-se, que, já em pleno bolchevismo, o número dos seus adeptos iria para cinco ou seis milhões.

Já os molokanos, protegidos pelo inquieto Alexandre I, discorreram do Volga até à Sibéria.

Eram também pacifistas e esperavam apocalipticamente o reino do Espírito.

As tendências comunistas dos anabaptistas são conhecidas de todos e a sua existência na Rússia pré-bolchevista e na Rússia bolchevique são de notar.






Satan









Ainda hoje o apocaliptismo dos adventistas e de outras seitas, como as do «Povo de Deus», «Pentecostes», etc., dos que falam em línguas e esperam a pronta conclusão de todas as coisas, mostram bem que o bolchevismo, filho das esperanças escatológicas, não fechou o ciclo dessas esperanças.

O carácter geral de todas as formas religiosas, saídas ou não da igreja ortodoxa, está no sentido apocalíptico das suas esperanças, na sua oposição ao histórico, na fuga e horror do mundo e, por vezes, nas consequências mórbidas e orgiásticas duma falsa disciplina da pureza e isenção. O Raskol foi olhado pelos pensadores russos, alguns até de dentro da igreja ortodoxa, dum modo bem curioso.

Os pensadores russos tinham, em regra, uma certa admiração pelo puritanismo da melhor parte dos velhos-crentes e o próprio Soloviev (3) vê neles uma justa negação erguida em frente da inconsistência ortodoxa.

Sérgio Bulgakoff afirma também o valor místico dos velhos-crentes.

A autocracia, reunindo pela violência e visto que o czar era a «Cabeça da Igreja», não poderia tolerar dissidências. Deste modo as seitas, que, por vezes, eram até protegidas, eram, outras vezes, combatidas ferozmente (4) numa guerra de extermínio.

Nem de certo, podia ser de outra maneira visto que a ortodoxia era o lealismo para com o czar, e, consequentemente, a heterodoxia uma verdadeira traição à majestade do imperador.

Isto não impede, no entanto, que, sincera e ingenuamente, os ortodoxos acusem o Ocidente de violências religiosas e se apresentem como a Igreja da tolerância.

A verdade é que, à parte autênticos erros e maldades consumadas, foi o Ocidente o mestre da tolerância para com os homens e de intolerância para com as ideias.

A ortodoxia russa foi mais a tolerância para as ideias e o esporádico sobressalto da intolerância e crueldade para os homens portadores dessas ideias.

De resto é fácil compreender a sua tolerância ideológica, que resulta da falta duma doutrinação séria, de vontade de ordenação lógica e demonstrativa.

Eis o que nos diz um dos seus teólogos, daqueles poucos pertencentes ao corpo eclesiástico, Philareto (5):

«A verdadeira igreja cristã abraça todas as igrejas particulares, que confessam Jesus Cristo vindo em carne. A doutrina de todas essas sociedades religiosas é, no fundo, a mesma verdade divina, mas que pode estar misturada com opiniões e erros humanos. Por isso há no ensino dessas igrejas particulares uma diferença de mais ou menos pureza.


Cristo Pantokrátor



A doutrina da igreja oriental é mais pura que as outras e pode reconhecer-se que ela é completamente pura, pois que não junta nenhuma opinião humana à verdade divina (6).

Mas, como, de resto, cada confissão religiosa sustenta em absoluto a mesma pretensão de perfeita pureza de fé e doutrina, não nos convém julgar os outros e devemos abandonar o juízo definitivo ao Espírito de Deus que governa as igrejas».

A esta modéstia em face das ideias, correspondia a opressão dos homens pela polícia religiosa, militar e civil do Império.

A influência das seitas foi profunda e extensa na criação do corpo histórico da Rússia.

De resto, já vimos uma opinião insuspeita sobre a imensidade da heterodoxia, e não será uma estatística forçando os números a que nos deu um Raskol de quinze a vinte milhões de almas proselíticas, espalhadas pela vastidão do Império.

Em face delas, a ortodoxia.

A ortodoxia, de que já vimos mais ou menos a organização e até a alma, é um cristianismo que se apresenta a si mesmo, por seus corifeus e representantes oficiais, como essencialmente contemplativo e místico.

Vejamos a doutrina oficial (7) sobre estas características:

«Chama-se mística a experiência interior que permite atingir o mundo espiritual, divino... Para que a mística seja possível é preciso que o homem tenha uma capacidade especial de concepção imediatamente supra-racional e supra-sensível, a capacidade duma concepção intuitiva, que justamente nós chamamos mística».

A seguir o autor explica que não deve confundir-se esta intuição com qualquer psicologismo, mas que deve ter um carácter objectivo - um contacto ou encontro espiritual.

Os leitores ocidentais conhecem o erro, que é o do chamado ontologismo.

Mas logo que nos sentimos em pleno erro, filho da falta duma teoria do conhecimento humano, verificamos a seguir que, afinal, não é nada disto.

O autor confunde apenas a vida mística, no sentido restrito e específico, com toda a vida da Fé. Aqueles contactos não são mais que a vida sobrenaturalizada pela fé e os sacramentos.

A falta duma teoria do conhecimento humano, que dá afirmações eivadas de ontologismo, dá logo a seguir um protesto contra a incarnação da vida sobrenatural.

Eis-nos em pura paisagem platónica pelo vago dum pensamento, que mal admite o esforço da representação intelectual do ser.

A espiritualidade ortodoxa «tende a eliminar a imaginação, que serve ao homem para representar e reviver pelos sentidos as coisas espirituais. As imagens contidas na oração eclesiástica e nos ícones, bem como as dos Evangelhos, bastam para que se possa entrar em espírito (8) nos acontecimentos comemorandos.

«Tudo o que provém da imaginação humana é maculado de subjectividade e, o que é pior, da sua sensualidade - isso para nada serve».

Então o homem é espírito?

Então a imaginação vive destacada e apenas sobreposta à inteligência?

A própria imaginação natural, isto é, sem a sobrenaturalização da Fé ou da Graça mística, pode servir a inteligência - a imaginação dum mégagono será, porventura, impossível ou manchada de sensualidade?



A imperatriz Teodora no Coliseu (óleo de Jean-Joseph Benjamin-Constant).






O monofisismo duma só natureza de bom quilate - a alma - é aqui a presença dum platonismo mais ou menos maniqueísta»(in A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre, Livraria Tavares Martins, 1962, pp. 258-268).


Notas:

(1) É até uma tese já defendida - embora falsa - que o bolchevismo é puro judaísmo. Ele o é em parte pelas origens e por muitos propagandistas. Seria mais interessante, e mais viável até, considerar o bolchevismo como um extremo lógico do Raskol.

(2) Comparar com a organização revolucionária dos séculos XIX e XX.

(3) O Soloviev que acaba por demonstrar que o centro do catolicismo foi, é, e deve ser a igreja romana.

(4) Soloviev, livro citado, págs. 42 e 43. O próprio Dostoiewsky - Casa dos Mortos, et. - os admira.

(5) Século XIX, Soloviev.

(6) O itálico é nosso. Repare-se que isto envolve o conservantismo dogmático dos sete primeiros concílios e a incompreensão (Newman) da evolução na explicitação do dogma.

(7) Sérgio Bulgakoff: L'Orthodoxie. Os itálicos são nossos.

(8) No sentido tomista e não bergsoniano.

Continua


domingo, 5 de dezembro de 2010

Que é filosofia?

Escrito por Olavo de Carvalho




Fresco de Rafael (Scuola di Atene).



Zero Hora, 17 de outubro de 2004

Toda filosofia nasce de um impulso originário – infantil, se quiserem - de entender a realidade da experiência. Mas, entre esse impulso e a “filosofia” como atividade curricular acadêmica, a distância é às vezes tão grande que ele desaparece por completo.

As desculpas para isso são sempre as mais respeitáveis. Antes de responder às perguntas da infância é preciso adquirir os instrumentos intelectuais do saber adulto, o que inclui o estudo das obras dos filósofos; este estudo supõe o domínio da interpretação de textos; e a interpretação de textos pode ser tão interessante que se torna um pólo de atração independente. Eis-nos então nos píncaros do saber filosófico acadêmico, ao menos no sentido franco-uspiano do termo, e imunizados para sempre às perguntas que nos levaram, pela primeira vez, ao estudo da filosofia. Na USP dos anos 60, que não parece ter mudado muito desde então, qualquer tentativa de enfrentar essas perguntas em vez de ocupar-se da nobre tarefa da análise de textos era desprezada como amadorismo, beletrismo, ensaísmo. Quando o prof. José Arthur Gianotti, no auge da sua maturidade intelectual, define a filosofia como uma ocupação com textos, ele não faz senão expressar sua experiência de algo que, no ambiente da sua formação, recebia o nome de “filosofia”, mas que jamais seria reconhecido como tal por Sócrates e Platão.

Platão - ou Sócrates - mostrava um caminho para a filosofia que jamais poderia ser encontrado num texto. Ele falava de uma anamnesis, de um mergulho na memória pessoal em busca do instante do nascimento da consciência filosófica. A consciência filosófica era a antevisão das formas universais eternas. Essas formas transcendiam infinitamente a esfera da experiência corporal, portanto também da memória sensível, mas, em algum momento esquecido do tempo, haviam se entremostrado nela e despertado, na alma do indivíduo carnal, a aspiração do Bem supremo. No curso posterior da vida, a maioria dos homens se esquecia desse momento para sempre. Em outros, a ocultação era parcial. Se o objeto experienciado desaparecia da consciência, a aspiração a que ele dera nascimento permanecia viva. Viva, mas buscando satisfação a esmo em objetos impróprios, errando entre símbolos e simulacros até atinar - ou não - com o caminho de volta. O encontro do aprendiz com o filósofo maduro era um momento decisivo dessa busca. O filósofo atraía os discípulos porque algo, nele, evocava o Bem supremo. O filósofo era um símbolo. O discípulo podia agarrar-se a ele como a qualquer outro símbolo, adorando-o ao ponto de desejar possuí-lo carnalmente. É o que Alcebíades, após a noitada do Banquete, confessa a Sócrates. Mas Sócrates lhe explica que ele está buscando na direção errada. O que move a alma do discípulo é o desejo de um bem espiritual esquecido, que a carne de Sócrates não pode satisfazer. O filósofo é um símbolo do Bem e não o próprio Bem. Nesse sentido, ele não é diferente de qualquer outro símbolo. Mas ele não é apenas símbolo. Ele não se limita a representar exteriormente o Bem, como a beleza material o representa sem saber o que faz. Ele é um registro consciente daquele Bem que ele próprio simboliza. Ele é o homem que realizou a anamnesis e descobriu na própria alma a abertura para o Bem. Por isso ele pode ensinar a Alcebíades o caminho de volta, mostrar que esse caminho não se encontra no corpo de Sócrates, e sim na alma de Alcebíades. Ele convida o discípulo à metanóia, ao giro da direção da atenção desde fora para dentro, desde a atualidade dos sinais sensíveis para a escuridão da memória, em cujo fundo brilha, escondida, a recordação da abertura primordial para a experiência do Bem e das formas eternas.


A análise infindável de textos é uma longa deleitação viciosa no corpo dos símbolos, um derivativo carnal que afasta para sempre da recordação do Bem ao mesmo tempo que crê piamente “fazer filosofia”. Foi isso que ensinaram ao prof. Gianotti com o nome de “filosofia”. Mas não era isso o que Sócrates e Platão ensinavam.


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Fedro ou da Beleza (ii)

Escrito por Platão




Estátua de Zeus em Olímpia



Ruínas do Templo de Zeus em Olímpia



O estádio

Conforme disse anteriormente, em virtude da essência, todas as almas humanas contemplaram a Verdade, pois, se assim não acontecesse, jamais poderiam insuflar-se num corpo humano. Mas nem todas as almas podem recordar-se daquela Verdade perante a simples contemplação das coisas deste mundo com a mesma facilidade, pois, uma vez sujeitas à queda, facilmente são impelidas à prática da injustiça, olvidando os augustos mistérios que um dia tinham contemplado. Assim, poucas são as almas a quem foi dado o dom da reminiscência, e estas, quando se apercebem de qualquer objecto semelhante ao reino superior, como que ficam perturbadas e perdem o poder do auto-domínio! Mal podem aperceber-se de si mesmas e são incapazes de se analisar.

Pois bem: nem a justiça, nem a Sabedoria, nem qualquer outra virtude das almas, tem aqui a mesma luminosidade e, ao observá-la com estes fracos orgãos, reconhecemos, nas suas imagens, o modelo que representam. Mas a Beleza era deslumbrantemente visível quando, no coro dos bem-aventurados, podíamos assistir a esse espectáculo de visão beatífica, em que uns seguiam no cortejo de Zeus e, outros, no cortejo dos outros deuses. Nesse tempo em que tudo se encontrava sob o olhar dos deuses, em que iniciados nos mistérios divinos os celebrávamos na ingenuidade da nossa pureza, isentos de todos os pecados que nos aguardavam no decurso ulterior do tempo: integridade, simplicidade, imobilidade, felicidade, eram as visões que a iniciação fazia passar em frente de nossos olhos, no seio de uma luminosidade pura e deslumbrante, justamente porque também nós éramos puros e não tínhamos contacto com este sepulcro que se chama corpo, dentro do qual nos movemos, a ele tão ligados como a ostra à sua concha... Perdoa-me por me ter alongado desta maneira, mas tudo isso resulta da reminiscência do passado, dos esplendores que jamais voltarão a repetir-se!

Quanto à Beleza - conforme já disse - ela sobressaía entre todas as ideias puras a que nos referimos. Depois que viemos para esta existência, é ainda ela que ofusca todas as coisas com o seu brilho, pois a visão é de facto o mais subtil dos nossos sentidos, embora não possa aperceber-se da Sabedoria! Que veementes amores não despertaria se nos oferecesse uma visão nítida daquelas imagens que poderíamos ver para além do céu! Somente a Beleza tem a ventura de ser mais perceptível e cativante! Quem não foi recentemente iniciado ou quem se deixou corromper não pode erguer-se à contemplação da Beleza total, apenas lhe sendo permitido conhecer o que nesta existência se chama o Belo e a que não pode adorar. Diversamente, tendo-se entregue ao prazer, procede como um quadrúpede, entrega-se ao prazer sensual e à procriação dos filhos e, uma vez familiarizado com a intemperança, deixa de ter medo de se entregar a todos os prazeres, incluindo aqueles que são contra a natureza (1). Mas, o que foi recentemente iniciado e que outrora teve o dom de contemplar muita coisa, esse, quando vislumbra um rosto divino ou qualquer outro objecto que traga a recordação da Beleza, ou um corpo formoso, esse experimenta primeiramente uma espécie de tremor e, depois, uma certa emoção, semelhante à de outrora. Nessa altura volta o olhar para o objecto belo que assim o despertou, e venera-o, como se de um deus se tratasse. Nestas circunstâncias, não fosse o receio de ser considerado como um monomaníaco, cumularia de homenagens o objecto bem-amado, como se de deus se tratasse! No momento em que o contempla, é percorrido por um estremecimento febril pois que, uma vez recebida pelos olhos a emanação da beleza, sente-se aconchegado e essa emanação dá a vitalidade às asas da sua alma. Por sua vez, o calor funde os obstáculos que impediam a expansão da vitalidade, aquilo que impedia a germinação, em virtude da sua dureza. O afluxo de alimento provoca uma entumescência, um élan de crescimento no suporte das pernas, a partir da raiz, e este ímpeto de vitalidade espalha-se por toda a alma. Com efeito, a alma estava outrora repleta de penas e eis que, agora, sente a dor própria do crescimento das asas! As impressões que sofre são exactamente como as que derivam do nascimento dos deuses: dores e irritação nas gengivas.


Quando, de repente, contempla a beleza de um jovem, sente um afluxo de partículas dele provenientes, de onde nasce o que se designa por onda de desejo (hímeros) e a alma encontra nisso refrigério para as suas dores, e assim nasce a alegria.

Mas, quando se encontra separada do objecto amado, sente-se fenecer. As aberturas pelas quais saem as asas começam a murchar e, logo que se fecham, interceptam o crescimento da asa.

Por sua vez, a asa, feita prisioneira no interior, juntamente com a força do desejo, começa a palpitar fortemente, fazendo pressão sobre cada uma das saídas. Assim atormentada, a alma abandona-se abulicamente à dor, ao mesmo tempo que a recordação do objecto belo a leva a deixar-se invadir pelo frenesim. A mistura destes dois sentimentos leva a alma a atormentar-se com o aspecto derrotista da sua situação, por verificar que é incapaz de a vencer. Neste delírio em que foi lançada, não pode repousar, nem de noite, nem de dia, e, impelida pela paixão, lança-se em busca dos lugares onde, segundo julga, pode encontrar a Beleza. Quando a consegue rever, e dirigir para ela a força do desejo, os poros, havia pouco obstruídos, começam a abrir-se. A alma retoma a respiração, deixa de sentir o aguilhão da dor e goza, nesse instante, a volúpia mais deliciosa. Esta é uma das coisas de que ela não pode afastar-se voluntariamente, e nada existe que possa merecer-lhe tanta atenção como o objecto amado. Nem mãe, nem irmãos, nem camaradas! Tudo isto é olvidado e a perda dos bens materiais, por culpa da sua incúria, não tem para a alma a menor importância. Os bons costumes e as boas maneiras, que a alma até aí se comprazia em praticar, são vistas com o mesmo desdém. Está disposta à escravidão, a repousar em qualquer parte, desde que seja o mais próximo possível do seu amado. Efectivamente, não contente em venerar o ser que possui a Beleza, ela encontra nele, e só nele, o remédio para a sua grande dor. Os homens, belo jovem a quem dirijo este discurso, denominam de amor este estado mas, se souberes como é chamado pelos deuses, a tua mocidade não deixará reagir-te de outro modo senão pelo riso. Creio que alguns Homéridas recitam dois versos sobre Eros, o segundo dos quais não dispõe de uma prosódia muito elegante. Eis o que esses versos dizem:


«Amor alado é o seu nome para os mortais
Mas para os imortais é Pteros, por fazer crescer as asas».


No que estes dois versos dizem tanto é permitido acreditar como não acreditar, mas eles explicam a paixão dos amantes, bem como as suas causas e efeitos. Mas prossigamos: um comparticipante do cortejo de Zeus, que se tenha deixado enredar pelo deus alado, é capaz de suportar essa provocação com a maior facilidade. Quanto aos que fazem parte do cortejo de Ares, uma vez possuídos por Eros, julgam que são vítimas da ofensa dos amados e deixam-se invadir pela raiva assassina, dispondo-se a sacrificar-se, não somente a eles mesmos, mas também aos seus amados. O mesmo se verifica em relação aos acompanhantes dos cortejos da cada um dos deuses, pois os acompanhantes procuram imitar o seu deus o melhor possível e assim procedem enquanto são vivos e, como não pode haver contaminação, assim vivem depois do primeiro nascimento, imitando o seu deus em todos os actos, seja nas relações com o objecto amado, seja nas relações com os outros homens. Cada um escolhe o amor segundo o seu carácter e como consideram o objecto escolhido uma espécie de imagem da divindade, erigem-lhe uma estátua no coração, com o fito de o adorar e de lhe prestar um culto secreto. Assim, os que se encontram na órbita de Zeus procuram amar o que tenha alma semelhante a Zeus. Procuram saber se o amado tem vocação filosófica e qualidades de chefia e, logo que chegam a uma conclusão, dispõem-se a amá-lo e tudo fazem para desenvolver no amado o amor desse deus. E se acontece que não viveram antes sob o signo deste deus, entregam-se totalmente a cultivar as suas qualidades e esforçam-se por as aperfeiçoar pelo ensino, e eles mesmos se decidem a prosseguir este aperfeiçoamento. Outros procuram descobrir o carácter de Zeus e, uma vez descoberto, entregam-se inteiramente ao seu aperfeiçoamento, pois a sua maior necessidade passa a ser a de tudo orientar no sentido desse deus. Logo que o conseguem encontrar através da reminiscência e se deixam invadir pelo deus, são tomados de um vivo entusiasmo e dedicam-se a imitar, tanto quanto lhes é possível, o carácter da divindade. E, como consideram o amado como a causa deste estado, passam a amá-lo ainda mais. Mesmo se, como as Bacantes, vão buscar o alimento a Zeus, espalham-no sobre a alma do bem-amado, tornando-o semelhante, na medida do possível, ao deus!

Ruínas do Templo de Hera em Olímpia


Os que se integram no cortejo de Hera, esses, procuram alguém com qualidades régias e, logo que o encontram, todos procedem como se reis fossem; os que seguiram Apolo, bem como aos outros deuses, regulam a sua conduta consoante os casos e procuram que os seus amados se adaptem à sua natureza. Quando conseguiram alcançar o seu objectivo pela limitação do seu próprio deus, persuadem os amantes e levam-nos a proceder em obediência a esse deus, tanto no aspecto da actividade espiritual, como no aspecto do comportamento social. Da capacidade de cada um depende o não terem inveja do amado nem mesquinhas malquerenças. Pelo contrário, tudo fazem para tornar os seus amados semelhantes aos deuses, e deste desejo se encontram animados os verdadeiros amantes. Podemos então concluir: se conseguem levar o amado a participar do seu interesse, essa vitória é, simultaneamente, uma iniciação. O amado que se deixar subjugar por um amante possesso desse delírio entrega-se a uma paixão deveras nobre, que será uma fonte de felicidade. Assim se deixa seduzir o que foi seduzido.

Lembremos que, no princípio da narração deste mito, dividi a alma em três partes, duas correspondentes aos corcéis e, uma terceira, correspondente ao cocheiro. Devemos continuar a ter esta divisão em mente. Disse que um dos corcéis era de boa raça e outro de má raça. Mas agora importa que procuremos saber em que consiste a bondade de um e a maldade de outro. Pois bem!

O primeiro, de melhor aspecto, tem um corpo harmonioso e bem lançado, pescoço altivo, focinho arrebitado, pêlo branco, olhos negros, desejo de uma glória que faça boa companhia à moderação e sobriedade. Como é amigo da opinião certa, para ser conduzido, não precisa de ser esporeado, pois basta, para o fazer brotar, uma palavra de comando, ou de encorajamento. Por sua vez, o segundo, é torto e disforme. Foi criado não sabemos como, tem o pescoço baixo, a nuca amarrada, o focinho achatado, a cor negra, os olhos cinzentos, uma compleição sanguínea. Amigo da soberba e da lascívia, as orelhas muito peludas, não obedece a ordens e a muito custo obedece, depois de castigado com açoite.

O cocheiro, se encontra um objecto digno de ser amado, esse encontro aquece-lhe a alma, enche-a de calor, de pruridos de desejo. O cavalo obediente obedece ao cocheiro enquanto o outro não obedece, nem ao freio nem ao castigo, e move-se, à força, entre obstáculos, embaraçando tanto o cocheiro como o outro corcel, e levando-os para onde ele quer, para o desejo e para a lascívia!

Finalmente, ambos os corcéis acabam por se sentir indignados perante a consciência que lhes diz o que é abominável e contrário aos bons costumes, e assim acabam por se deixar conduzir, sem qualquer espécie de relutância, decidindo proceder de acordo com o convite que lhes foi dirigido.

Ei-los no entanto perante o amado! Ambos observam esta aparição ofuscante: é o bem-amado! À sua vista, a lembrança chama o cocheiro para a suprema realidade da Beleza: volta a contemplá-la, acompanhada da Sabedoria, no seu pedestal sagrado! Ao contemplá-la, sente um misto de temor e de amor e refreia a marcha do coche. Com tal violência o faz, que ambos os cavalos acabam por cair: um, o bom, sem retraimento e de boa vontade; o outro, o mau, terrivelmente contrafeito. Ao mesmo tempo que ambos se afastam do amado, um deles acossado pela vergonha e pelo arrependimento, banha de suor toda a alma; enquanto o outro, uma vez passada a dor causada pelo freio e pela queda, faz um enorme esforço de respiração, encoleriza-se e luta contra o cocheiro e contra a sua parelha, por uma questão de indolência, de pusilanimidade, pois desertara do acordo, traindo o compromisso que em comum tinham assumido.






E novamente o cocheiro os obriga a aproximarem-se, apesar das recusas sucessivas, não lhes concedendo descanso por muito tempo, pois, a breves intervalos, os faz lembrar do amado por eles menosprezado.

Finalmente, após estas tentativas, quando se aproximam, o mau corcel precipita-se para a frente, levanta a cauda, morde o freio e puxa-o para o seu objectivo de maneira despudorada. Neste ínterim, o cocheiro, ainda mais impressionado do que anteriormente, logo tenta fugir, e, como maior esforço e violência, puxa o cavalo mau para trás, fazendo pressão no freio, provocando-lhe dores e feridas, de onde escorre sangue. Obrigando-o a ir a terra, obriga-o ao sofrimento. Depois de assim ter sido submetido aos castigos sucessivos, o mau cavalo acaba por renunciar à tendência má. A partir de então torna-se humilde, obedecendo ao cocheiro e, sempre que contempla o belo, quase morre de medo! Só a partir deste momento a alma do amante segue, com discrição e pudor, o amado!

Também o jovem que se vê honrado como um deus pelo amante não pode aceitar este facto como se de comédia se tratasse. Pelo contrário, deseja encarar o facto a sério e sente a necessidade de amar o seu devoto servo.

Suponhamos que, antes disso, os seus amigos e outras pessoas denegriram diante dele este sentimento, dizendo-lhe que é vergonhosa a mantença de relações com um amante e que, por esse motivo, se deve afastar! No caso de se afastar do amante, com o andar dos tempos, a idade e a necessidade de amar e de se sentir retribuído, leva-lo-ão a reaproximar-se do amante. O destino não determinou que um malvado ame a um malvado ou que um homem virtuoso ame a um outro igualmente virtuoso. Quando o amado aceita o amante, que se entreteve com a sua ternura e a sua convivência, compreende que o afecto de todos os outros reunido, seja dos amigos, seja dos familiares, não pode ser comparado ao amor daquele que ama inspirado pelo amor divino. Perseverando neste comportamento, encontram o convívio que procuram, seja nos ginásios, seja em qualquer outro local de encontro, e assim nasce essa emanação a que já me referi, essa a que Zeus, ao amar Ganímedes, chamou de onda de desejo. Esse desejo corre abundantemente para a alma do amante mas, enquanto uma parte se perde nele, outra, uma vez o amante repleto dela em plenitude, transvasa. Do mesmo modo que o sopro ou um som reflectido por um corpo sólido e resistente, também as emanações da Beleza, entrando pelos olhos, através dos quais se reflectem, atingem a alma. Quando, seguindo o caminho natural que leva à alma, aí chega, enche totalmente a alma e as aberturas das asas que, recebendo nova vitalidade, ganha nova plumagem e, por sua vez, a alma do amado fica também cheia de amor!

Assim ama o que ama: sem saber o que ama! Nem sabe, nem pode dizer o que se passou consigo. Tal como um doente de oftalmia, que desconhece a causa da moléstia, embora a sinta, assim também o amado não se dá conta de que se viu mesmo no espelho do amante! Quando este se encontra presente, termina a sua dor e, logo que se ausenta, imediatamente mergulha no sofrimento. Quando o amado está longe, também se sente invadido pela tristeza, pois o reflexo do amor se encontra no seu peito. Todavia, o nome que ele dá a este sentimento, segundo julgo, não é o de amor, mas sim o de amizade. A sua ambição, análoga à do outro, embora menos dominadora, é ver, tocar, beijar, deitar-se a seu lado. A partir daí, há muitas possibilidades de, em tais condições, as coisas não levarem muito tempo a acontecer! Uma vez que partilham da mesma cama, o corcel indisciplinado tem muita coisas a dizer ao cocheiro: como prémio de tantos sofrimentos, apenas solicita um instante de prazer!




Quanto ao corcel do amado nada diz, mas, ao sentir algo que não compreende, lança os seus braços ao pescoço do amante, beija-o, persuadido de que assim melhor mostrará o seu afecto a quem lhe quer tanto bem e, sempre que ambos se deitam lado a a lado, não consegue recusar nenhum favor ao amante, sempre que este lho pede.

Por outro lado, o companheiro de jugo, que é bom, junta-se ao cocheiro e ambos resistem, porque isso mesmo lhe impõem o pudor e a razão.

Admitamos que a melhor parte da alma é, por conseguinte, a ordenada e a vitoriosa, que ama a harmonia e a filosofia. Será feliz e plena de harmonia a existência que tiverem na terra, pois escravizaram a sua própria alma, a indócil e desvergonhada, para poderem viver em concórdia e com regra. Assim, quando chegarem ao termo da vida, ei-las levantando voo pelas suas próprias asas, libertas das três fases deste duro certame verdadeiramente olímpico, o maior bem que a sabedoria humana ou a loucura divina podem proporcionar a um ser humano! Admitamos, todavia, que, pelo contrário, se dedicam a uma vida grosseira, que substituíram o amor da sabedoria pelo amor das honras: pode acontecer que ambos os corcéis se deixem dominar pela embriaguez ou, num momento de abandono, se tornem indisciplinados e venham a escolher a conduta que, aos olhos das multidões, representa a felicidade. Uma vez satisfeitos, voltarão a gozar dos mesmos prazeres, mas isso já não será tão frequente, pois que raramente esses prazeres são aprovados pela totalidade da alma. Embora amigos, se-lo-ão menos que os precedentes. Viverão um para o outro, mas a sua afeição não os ligará da mesma forma que liga os que se amam verdadeiramente e, ao cessar o delírio, continuam a pensar que se encontram unidos por profundos compromissos. No final da vida, será sem asas, embora tenham feito algum esforço para as conseguir, que sairão dos corpos que habitaram. Aliás, a lei divina não permite aos que iniciaram juntos a viagem celeste, que venham a precipitar-se nas trevas. Pelo contrário, promulga que, tendo passado uma existência luminosa, sejam muito felizes e façam juntos esta viagem porque, em virtude do amor, ambos recebem asas quando chegar o tempo de as receberem.

Eis as coisas que te oferecerá, meu rapaz, o que souber amar apaixonadamente! A iniciação amorosa feita por quem não ama, por quem apenas possui a sabedoria humana, entregando-se a regras de economia mortal, filhando na alma amiga um sentimento mesquinho, que a multidão louva como se fosse uma virtude, só gera na alma do amado a sabedoria do escravo, a qual o fará vaguear, pela terra, durante nove mil anos.

Eis de que maneira, Amor, recebeste a mais bela, a mais excelsa das palinódias que sou capaz de te oferecer, em sinal de expiação dos meus pecados! Se o meu discurso parecer "de uma eloquência maravilhosa, muito especialmente pelo vocabulário", isso fica a dever-se a Fedro, que a tanto me obrigou. Perdoa-me, pois, o meu primeiro discurso e sê indulgente para com este que acabo de proferir. Não enfraqueças, não me retires esta parte de amar com que me distinguiste, e faz por me lembrar sempre para que eu louve, de cada vez melhor, a Beleza. Se outrora, tanto Fedro como eu próprio te ultrajámos com os nossos discursos, acusa Lísias, o verdadeiro pai desse discurso, e indu-lo a dedicar-se à filosofia, tal como fizeste com seu irmão Polemarco, a fim de que o seu amante, aqui presente, se liberte da triste situação em que ora se encontra, entre dois ímpios, para que possa consagrar incondicionalmente a sua vida ao amor, o qual de todo em todo se inspira na Filosofia!» (in ob. cit., pp. 64-69).






(1) Platão condena, não apenas a pederastia, mas também todas as espécies de relações amorosas antinaturais.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Fedro ou da Beleza (i)

Escrito por Platão








Sócrates - Em primeiro lugar, meu caro rapaz, faz de conta que o discurso precedente foi pronunciado por Fedro, filho de Pítocles, natural de Mirrinúsio, enquanto que o que vou agora pronunciar será dito por Estesícoro, filho de Eufemo, e natural de Himereia.

O seu discurso deve ser do seguinte teor:

«Não pode ser verdadeiro um discurso que, tendo admitido a existência de um apaixonado, postule que devem conceder-se favores ao não apaixonado de preferência ao apaixonado, invocando como justificação o facto de o primeiro agir sensatamente e o segundo se encontrar possesso do delírio e da loucura! Seria verdadeiro se a loucura fosse apenas um mal, mas acontece que muitos dos nossos bens nascem da loucura inspirada pelos deuses. Efectivamente, é um estado de delírio que as profetisas de Delfos e as sacerdotisas de Dódona, prestam grandes serviços à Grécia, já na ordem privada, já na ordem pública, pois, quando se encontram no seu perfeito juízo, as suas possibilidades ficam reduzidas a pouco ou a nada. Depois delas podemos falar da Sibila? Podemos falar de todos os que, utilizando o poder divinatório que um deus lhes inspira, ditaram a muita gente e em muitas ocasiões o recto caminho a seguir? Fazer isso seria perder tempo com o que é evidente para todos nós!

Mas também esse facto merece ser aqui testemunhado, pois constitui uma prova de que na Antiguidade os homens, ao instituírem os nomes, não consideravam o delírio, ou mania, uma coisa vergonhosa, nem motivo de opróbrio. De outro modo, se assim não acontecesse, não teriam dado à arte de adivinhar o futuro, a mais bela das artes, o nome de maniké, a arte delirante! Foi justamente por considerarem o delírio como uma virtude bela, uma vez que provém de uma graça divina, que lhe deram esta denominação. Em contrapartida os modernos, destituídos do sentido do belo, introduziram naquela palavra um t e passaram a designá-la por mantiké, ou arte divinatória. De maneira diferente procedem as pessoas que se dedicam a prognosticar por meio da observação do voo das aves e de outros sinais; com efeito, esta arte procura dar ao pensamento humano (öiêsis), a inteligência (nôus) e o conhecimento (história) e por isso se denomina oïo-no-istikê. Actualmente, chama-se a esta arte oïônistiké, ou arte das aves, arte dos áugures, utilizando um o longo para tornar a palavra mais enfática. Por este motivo, a arte da profecia suplanta, já em perfeição, já em dignidade, a arte dos áugures, tanto na denominação como nas funções, e assim, tal como os Antigos no-lo testemunham, a loucura inspirada pelos deuses é, por sua beleza, superior à sabedoria de que os homens são autores!

Mas não ficamos por aqui: enquanto essas doenças, esses flagelos terríveis que, em consequência de antigos ressentimentos, vindos não sabemos de onde, ainda existem em certos indivíduos de uma raça, o delírio profético manifestou-se em alguns predestinados e encontrou o meio de afastar esses males, precisamente pelo recurso às preces dirigidas aos deuses e pela prática de cerimónias em seu louvor. Graças ao delírio, surgiram os ritos catárticos e iniciáticos, pondo o que neles participa ao abrigo dos males, tanto do presente como do futuro, e fazendo com que os homens, animados de espírito profético, encontrem o meio de proteger-se contra aqueles males. Há ainda uma terceira espécie de loucura, aquela que é inspirada pelas Musas: quando ela fecunda uma alma delicada e imaculada, esta recebe a inspiração e é lançada em transportes, que se exprimem em odes e em outras formas de poesia, celebrando as glórias dos Antigos, e assim contribuindo para a educação da posteridade. Seja quem for que, sem a loucura das Musas, se apresente nos umbrais da Poesia, na convicção de que basta a habilidade para fazer o poeta, esse não passará de um poeta frustrado, e será ofuscado pela arte poética que jorra daquele a quem a loucura possui.




Áugure



Embora não sejam somente estas, já ficas sabendo quais são as belas vantagens que se podem usufruir de um estado delirante inspirado pelos deuses. Podemos agora concluir que não devemos recear, nem devemos deixar-nos confundir pelo espantalho de uma doutrina, segundo a qual se deve preferir a amizade do homem sensato à amizade do homem apaixonado. Bem pelo contrário, a vitória deve ser dada ao apaixonado, pois o amor foi enviado pelos deuses no interesse do amante e do amado, e é isso mesmo, contra aquela tese, que procuraremos demonstrar: os deuses desejam a suprema ventura daqueles a quem foi concedida a graça da loucura. Certamente que esta demonstração não convencerá os habilidosos, mas será convincente para os sábios. Nestas condições, a primeira coisa a fazer é tornar explícita a natureza da alma, dos seus estados e actos, assim como indagar se esta natureza é humana ou divina.

Esta demonstração parte do seguinte princípio: a alma é imortal, pois o que se move a si mesmo é imortal, ao passo que, naquilo que move alguma coisa, por sua vez, é também movido por outra, a cessação do movimento corresponde ao fim da existência. Somente o que se move a si mesmo não deixará de mover-se e, vendo assim, constitui também fonte de movimento para as outras coisas que se movem. Ora, um princípio constitui algo inato, pois é a partir de um princípio que necessariamente assume existência tudo aquilo que existe, ao passo que o princípio não provém de coisa alguma, pois, se começasse a ser partindo de qualquer outra fonte, não seria princípio. Por outro lado, como não proveio de uma geração, não se encontra sujeito à corrupção, pois é evidente que, uma vez o princípio anulado, jamais poderia gerar-se nele, porque ele é o princípio e tudo provém necessariamente desse princípio. Podemos então concluir que o princípio do movimento é o que a si mesmo se move e por isso não pode ser anulado, nem pode ter começado a existir, pois, de outra maneira, todo o universo, todas as gerações parariam e jamais poderiam voltar a ser movidas a encontrar um ponto de partida para a existência.

Agora que foi demonstrada a imortalidade do que se move por si mesmo, não haverá qualquer escrúpulo em afirmar que essa é exactamente a essência da alma, que o seu carácter é precisamente este. Com efeito, todos os corpos movidos por um agente exterior são inanimados, enquanto o corpo movido de dentro é animado, pois que ele é o movimento e natureza da alma.

O que se move a si mesmo não pode ser outra coisa senão a alma, de onde se segue necessariamente que a alma é simultaneamente incriada e imortal.

No que respeita à imortalidade da alma basta o que dissemos. Quanto à natureza, é necessário explicá-la da seguinte forma:

Caracterizá-la daria ensejo a um longo e divino discurso, mas como se trata apenas de oferecer uma breve imagem, bastará um discurso humano de menores proporções, e nessa medida tentamos falar: a alma pode comparar-se a não sei que força activa e natural que unisse um carro a uma parelha de cavalos alados conduzidos por um cocheiro. Os cavalos dos deuses são de boa raça, mas os dos outros seres são mestiços. Quanto a nós, somos os cocheiros de uma atrelagem puxada por dois cavalos, sendo um belo e bom, de boa raça, e sendo o outro precisamente o contrário, de natureza oposta. De onde provém a dificuldade que há em conduzirmos o nosso próprio carro.

Estátua de Sócrates


Posto isto, de onde derivam as denominações de mortal e imortal, atribuídas aos seres vivos? Convém que expliquemos igualmente este ponto. É sempre uma alma que rege todos os seres inanimados mas, ao circular na totalidade universal, reveste-se, aqui e ali, de formas diferentes. Quando é perfeita e alada, paira nos céus e governa o universo e, quando perde as asas, precipita-se no espaço, tombando em qualquer corpo sólido, onde se estabelece e se reveste com a forma de um corpo terrestre, o qual começa a mover-se, por causa da força que a alma que está nele lhe transmite. É a este conjunto do corpo e da alma, solidamente ajustados um ao outro, que designamos por ser vivo e mortal. Quanto ao imortal, não é coisa que possamos explicar de forma racional, mas podemos conjecturar, mesmo sem experiência e sem suficiente intelecção, a ideia de Deus: um ser vivo imortal que possui uma alma, que também possui um corpo, ambos unificados para uma duração eterna, o que depende da vontade da Divindade. Passemos agora ao estudo das causas que levam as almas a perder as asas. Uma causa pode ser esta:

A natureza da asa consiste em poder conduzir um corpo pesado para cima, para as alturas onde habita a raça dos deuses, e por isso a alma é, de entre tudo o que participa do corpóreo, o que, simultaneamente, mais participa da natureza divina. Ora, a natureza divina é bela, sábia e bondosa, dispondo de todos os atributos pertencentes a esta categoria. Nada existe melhor do que estas qualidades para alimentar e desenvolver o sistema alado da alma, da mesma maneira que o pesado, o feio, o mau, tudo o que contrasta com as qualidades precedentes, a degrada e conduz à ruína. O grande capitão do céu, Zeus, ao sair com o seu carro alado, é o primeiro a avançar, ordenando todas as coisas e cuidando de tudo. É logo seguido por um exército de deuses e de demónios, repartido por onze secções. Somente Héstia [a Terra] fica em casa. Quanto aos outros onze, cada um serve de guia à sua tribo, à tribo que foi destinada a cada um deles. Por este motivo, são frequentes e beatíficos os espectáculos que estas evoluções oferecem no espaço onde vive a grande família dos deuses, cada um deles realizando a tarefa que lhe foi atribuída, de onde resulta que o poder e a vontade estão sempre harmonizados, pois não há lugar para a Inveja no coração dos deuses! Muitas vezes, sempre que se dirigem para o banquete que aguarda os deuses, os carros sobem por um caminho escarpado que os conduz ao zénite da abóbada celeste. Como os cavalos que puxam os carros dóceis, a subida é fácil para os deuses; para os demais, é uma subida penosa, porque o corcel de má raça puxa e inclina o carro para a terra, dificultando a tarefa de condução do carro ao que dela está encarregado.

É nesse lugar que as almas experimentam a alegria suprema, pois as almas a que chamamos imortais, uma vez que atingiram o zénite, são tomadas de um movimento circular e podem contemplar as realidades que se encontram sob a abóbada celeste.

Nenhum poeta compôs ainda um hino em louvor desta região supra-celeste, e jamais haverá algum que possa compor um hino digno do tema. Mas vejamos como ela é, pois, se há um ensejo de dizer a verdade esse é, mais do que nunca, aquele em que falamos da própria Verdade.




Pois bem: a realidade que realmente não tem cor, nem rosto, e se mantém intangível; aquela cuja visão só é proporcionada ao condutor da alma pelo intelecto; aquela que é património do verdadeiro saber, é essa Verdade que ocupa efectivamente aquele lugar. Daqui se infere que o pensamento de um deus se alimenta de inteligência e de sabedoria puras, assim como o pensamento de todas as almas que se dedicam à procura do alimento que mais lhes convém quando, no decorrer do tempo, puderam aperceber-se da realidade, é nesse lugar que as almas encontram a possibilidade da contemplação das realidades verdadeiras (a qual é uma alimentação benfazeja), até que o movimento circular as faz retornar ao mesmo ponto. Enquanto este movimento dura, a alma pode contemplar a Justiça mesma, bem como a Ciência, pois ela tem na sua frente, sob os seus olhos, um saber que nada tem a ver com este que conhecemos, sujeito às modificações futuras, que se mantém sempre diversificado na diversidade dos objectos aos quais se aplica e aos quais, nesta existência, damos o nome de Seres. Ela é verdadeiramente Ciência que tem por objecto o Ser das seres. Depois de ter contemplado as essências das coisas, uma vez saciada no conhecimento, a alma regressa, o cocheiro põe os cavalos à manjedoura e dá-lhes ambrósia para comer, e néctar para beber. Se, quanto à existência dos deuses assim é, vejamos agora o que se passa com as outras almas.

Estas tentam tudo para serem dignas de seguir os deuses, erguendo para cima a cabeça do cocheiro mas, perturbadas pelos corcéis que puxam o carro, apenas conseguem vislumbrar as realidades. Tão depressa levantam como baixam a cabeça e, como não conseguem dominar a desarmonia dos corcéis, apenas vêem algumas realidades, mas não conseguem ver outras. Outras almas existem cuja única aspiração é subir, movimento que logram efectuar com perfeição. Mas isso de nada lhes vale porque, no movimento circular, com a ânsia de se colocarem nos primeiros lugares, acabam por se atropelar umas às outras e daí resulta uma grande confusão, a luta, os suores e, por culpa dos cocheiros, acabam por se ferir umas às outras, e muitas acabam por perder as penas das asas. Enfim, invadidas por extrema fadiga, acabam por cair, sem chegarem a iniciar a contemplação da Verdade e, uma vez caídas, apenas lhes resta a opinião como simples alimento. A causa que atrai as almas para a contemplação da Verdade consiste em que só ali encontram o alimento que as pode satisfazer inteiramente, desenvolver as asas, esse alimento que, enfim, liberta as almas das terrenas paixões.

Segundo a lei de Adrástea [a personificação da "justiça distributiva"], todas as almas que se integram no séquito de um deus são agraciadas com a contemplação de algumas verdades. Por outro lado, durante a viagem circular, mantêm-se isentas de pecado e, se conseguirem manter este estado, ao fim de cada viagem continuarão isentas de pecado, como a princípio. Mas, se não conseguirem a fortaleza para tanto, ser-lhes-á retirada a graça daquela visão. Com efeito, quando, por qualquer causa funesta, se animam de esquecimento e de perversão, tornando-se pesadas, perdem as asas e acabam por cair na terra. Todavia, uma lei existe que prescreve que, no primeiro nascimento, uma alma não pode entrar no corpo de um animal; aquela que maior número de verdades tenha contemplado, está destinada a implantar-se no sémen de onde se gerará um filósofo, um esteta ou um músico; a alma de segundo grau animará o corpo de um rei obediente às leis ou o de um guerreiro hábil na estratégia; a alma de terceiro grau animará o corpo de um político, economista ou financeiro; a de quarto grau animará o corpo de um atleta ou de um médico; a de quinto grau terá direito a dar a existência a um profeta, ou a um adivinho consagrado em qualquer forma de iniciação; a de sexto grau será a do poeta, ou de qualquer outro criador de imitações; a de sétimo grau será a de um artesão ou camponês; a de oitavo grau, será a do sofista, cuja arte consiste em lisonjear o povo, a demagogia; a de nono grau corresponderá à de um tirano.




Suponhamos que, dentre todos estes homens, houve um que teve uma existência digna. Receberá, como recompensa, melhor sorte, enquanto a pior será atribuída ao que levou uma existência indigna.

A alma não voltará ao ponto de onde saiu senão passados dez mil anos, isto é, não receberá as asas antes que esse tempo se cumpra, com excepção dos filósofos e dos que amam os jovens com amor filosófico. De facto, as almas destes, tendo escolhido três vezes seguidas a vida da filosofia, recebem as asas à terceira revolução milenar e afastam-se. Quanto às outras, uma vez terminada a primeira vida, são submetidas a juízo e, depois de julgadas, umas vão cumprir as penas para locais de penitência que há abaixo da terra, outras, absolvidas pela justiça, sobem para um lugar do céu, onde desfrutam de uma existência que as recompensa da vida que levaram enquanto tiveram a forma humana. Mas, no milésimo ano, as almas destas duas espécies são obrigadas a escolher uma segunda existência, cuja escolha depende da vontade de cada uma delas. Desta maneira, uma alma humana pode entrar no corpo de uma besta, assim como uma alma bestial pode entrar no corpo humanal, desde que noutra das suas vidas anteriores, tivesse sido a alma de um homem, pois as almas que nunca contemplaram a verdade não podem assumir a forma humana, pelo seguinte motivo: a inteligência humana deve exercer-se segundo o que designamos por Ideia, indo desde a multiplicidade das sensações para uma unidade cuja abstracção é a verdade racional. Este acto de abstracção consiste numa recordação das verdades eternas contempladas pela alma no momento em que se integrava no séquito de um deus, quando podia contemplar estas existências a que atribuímos a realidade e quando, depois, levantava os olhos para o que é verdadeiramente real. Assim, é perfeitamente justo que só o espírito do filósofo disponha de asas, porquanto nele a memória permanece fixada nesses objectos reais, tornando-se, dessa maneira, semelhante a um deus! É utilizando convenientemente essas recordações que um homem, cuja iniciação nos mistérios perfeitos, foi sempre perfeita, se torna autenticamente perfeito, pois um homem deste quilate dirige a sua alma somente para os objectos divinos, o que leva a multidão a considerá-lo como um louco, muito embora ele se encontre apenas possesso de um deus, coisa que a multidão não pode apreender! Do que dissemos, atingimos a quarta espécie de delírio, sim do delírio: quando, vivendo neste mundo, se consegue vislumbrar alguma coisa bela. A alma recorda-se então da beleza real, recebe asas e deseja subir cada vez mais alto, como se fosse uma ave. Impossibilitada de conseguir, negligencia as coisas terrenas, assim dando a parecer que não passa de um louco! Por isso, entre as várias formas de entusiasmo, esta revela-se como sendo a mais perfeita e a que melhores consequências acarreta, tanto para quem a possui como para quem dela participa, e por isso se costuma também dizer que os possuídos por este entusiasmo se designam por amantes (in Fedro, Guimarães Editores, 1989, tradução de Pinharanda Gomes, pp. 52-64).

Continua