quinta-feira, 15 de julho de 2010

Saramago e a "revolução cultural" (iii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte








3. «Apenas os cegos incuráveis – bem mais cegos do que Saramago terá sido ideologicamente – e os medíocres mais desprezíveis se atrevem a negar» que o autor de O Ano da Morte de Ricardo Reis foi «um dos maiores de toda a literatura portuguesa de todos os tempos». Aliás, «a intolerância política a que associamos Saramago revela-se quase inócua ao voltarmos a verificar, por ocasião da sua morte, o ódio furibundo que alguns dos seus inimigos lhe votavam, na miserável incapacidade de reconhecer a grandeza literária do escritor». Demais, num dos governos em que Cavaco Silva fora primeiro-ministro, a censura do livro O Evangelho segundo Jesus Cristo representou, qual espelho desse governo, «uma vergonha inédita em democracia», «impedindo-o de concorrer a um prémio internacional e invocando, para isso, a doutrina mais toscamente inquisitorial contra a liberdade de expressão e criação literária. Um subsecretário de Estado da Cultura (!), que se distinguiu pelo analfabetismo mais boçal, foi o autor do crime». Consequentemente, Aníbal Cavaco Silva, bem como o Secretário de Estado que tutelava «directamente o ridículo censor», «deixaram que esse crime cultural se consumasse». De resto,  Cavaco Silva não estava «à altura de zelar pelo património mais valioso de uma nação: a sua Cultura»; e podendo na morte de Saramago «reparar simbolicamente a falta» enquanto Presidente da República, não o fizera por «total incapacidade de ultrapassar uma visão estreitamente economicista e contabilística do país». Depois, temia «desagradar novamente as clientelas católicas mais conservadoras que o tinham criticado pela promulgação da lei do “casamento gay”». Em suma: «um homem minúsculo que não foi capaz de um gesto de grandeza institucional».


Refutação:

Quando alguém, alardeando a "grandeza literária" de Saramago, chama de “cegos incuráveis” a todos os que não perfilhem de suas afirmações ocas e vazias, é então que o feitiço se volta contra o feiticeiro. Seria então interessante saber como é que a cegueira e a militância comunistas de Saramago pudessem ser toleráveis quando comparadas com o inevitável «ódio furibundo que alguns dos seus inimigos lhe votavam» na hora da morte. Ou seria deveras interessante saber como a «doutrina mais toscamente inquisitorial contra a liberdade de expressão e criação literária» não fosse algo de particularmente inerente à cegueira ideológica instilada por Saramago ao longo de toda a sua odienta e ressentida existência.

É, pois, uma veleidade teatral que se recorra ao fantasma da Inquisição para acusar de censura a tomada de posição de um subsecretário da Cultura relativa à internacionalização de um libelo que é, para todos os efeitos, um exemplo confrangedor e acintoso de inusitada ignorância religiosa. Por outras palavras, a reacção de Sousa Lara parece ter apenas representado uma reserva moral perante um ataque descabelado ao património católico dos Portugueses, e, por sinal, tão sintomático da esquerda institucionalizada.


António Ferro



Oliveira Salazar entrega "O Prémio Camões 1937" ao escritor suíço Conde Gonzague de Reynold, autor do livro "Portugal".


Mais: alegar simplesmente que se tratou de uma censura inquisitorial é também branquear o facto de, em Portugal, existir uma planificação da cultura que, nos últimos quarenta anos, constitui apanágio do socialismo triunfante. E, já agora, é igualmente branquear a cultura que já no tempo de Salazar fora, com o Secretariado da Propaganda Nacional e, depois, com o Secretariado Nacional de Informação, subsidiada e premiada no cinema, no teatro, nas artes plásticas e na literatura à sombra de uma legislação de que muitos escritores enviesados extraíram os seus dividendos. Este processo remonta, aliás, ao Marquês de Pombal, que foi quem determinou, entre nós, o fenómeno da estatização política, económica e cultural.

Ora, Sebastião José, rindo-se dos dominicanos e dos apóstolos de Loyola, conservara o Tribunal da Inquisição «sinistramente influenciado», ordenando até que o tratassem por Sua Majestade a Inquisição. Ou seja «O dominicano que não podia, sem ordem do marquês, queimar em público, despedaçava a ocultas o judeu e o herege. Pombal era indiferente aos processos recônditos, contanto que não houvesse o escândalo do auto-da-fé, que ele, na sua depravada estupidez, atribuía aos jesuítas. D. Luís da Cunha tinha escrito a D. José, quando lhe pedia que admitisse ao ministério Sebastião José de Carvalho, que os estrangeiros escarneciam o hediondo espectáculo do auto-da-fé; mas o marquês só vinte e nove anos depois entrou nas ideias do seu amigo e mestre» (9)

Entretanto, não há dúvida de que os livros de Saramago foram propositadamente escritos e utilizados como arma de arremesso contra uma tradição que, não obstante os seus erros seculares, continua a merecer o maior respeito pelo património espiritual legado à humanidade. Logo, atendendo à expressão «analfabetismo boçal», vejamos então esse livro intitulado O Evangelho segundo Jesus Cristo. E vejamo-lo partindo do princípio de que, se o ateísmo é um analfabetismo do qual decorre a não menos boçal, grotesca e perversa forma de propaganda anticristã que é a vida sexual de padres e freiras, quão boçal, lassa e superficial não será, por seu turno, a suposta vida sexual de Jesus com a primeira mulher a ver Cristo depois da Ressurreição?

Ora, Saramago pinta essa mesma relação como um ensinamento sexual de Maria de Magdala a Jesus nos seguintes termos:

«Jesus calou-se e voltou a cara para o lado. Ela não o ajudou, podia ter-lhe perguntado, És virgem, mas deixou-se ficar calada, à espera. Fez-se silêncio, tão denso e profundo que parecia que apenas os dois corações soavam, mais forte e rápido o dele, o dela inquieto com a sua própria agitação, Jesus disse, Os teus cabelos são como um rebanho de cabras descendo das vertentes pelas montanhas de Gaalad. A mulher sorriu e ficou calada. Depois Jesus disse, Os teus olhos são como as fontes de Hesebon, junto à porta de Bat-Rabim. A mulher sorriu de novo, mas não falou. Então Jesus voltou lentamente o rosto para ela e disse, Não conheço mulher. Maria segurou-lhe as mãos, Assim temos de começar todos, homens que não conheciam mulher, mulheres que não conheciam homem, um dia o que sabia ensinou, o que não sabia aprendeu, Queres tu ensinar-me, Para que tenhas de agradecer-me outra vez, Dessa maneira, nunca acabarei de agradecer-te, E eu nunca acabarei de ensinar-te…».






Enfim, este trecho só revela a mais cabal ignorância sobre o amor físico, anímico e espiritual. Como tal, é, na melhor das hipóteses, baixo e torpe erotismo na medida em que, da mera e simples relação entre corpos, apela tão-só para a manipulação do ser humano reduzido à mais pura animalidade. Saramago desconhecia assim que o verdadeiro amor, não obstante a sua manifestação física, sentimental e psicológica, é essencialmente logóico ao permitir a transição da sexualidade dos corpos e do erotismo das almas para o amor entre espíritos.

Depois, Saramago também desconhecia que a felicidade se sublima pela renúncia e não pela posse. E que esse é precisamente o grande ensinamento ocidental no âmbito da paixão mítica entre Tristão e Isolda, posto que, sem entraves ao romance, a simples consumação física põe fim à magia amorosa. E daí a consagração do amor platónico no sentido de que, estar ao lado de quem se ama, é estar em contacto e proximidade profunda com a sua natureza espiritual.

De resto, a suposta relação carnal entre Jesus e Maria Madalena não decorre exclusivamente do Evangelho de Saramago. Ela, de facto, surgiria na sequência de certos escritores e divulgadores que, no século XIX, se debruçaram sobre Jesus e as origens do Cristianismo, entre os quais sobressai, no sentido historiográfico positivista, o escritor francês Ernesto Renan com o livro intitulado A Vida de Jesus (Origens do Cristianismo). Ora, este livro criara polémica e discussão internacionais ao esvaziar o cristianismo de toda a aura sobrenatural que o caracteriza, mais particularmente nestes termos:

«Que os Evangelhos são em parte lendários, isso é evidente, porque estão cheios de milagres e de sobrenatural; mas há lendas de lendas. Ninguém duvida das passagens principais da vida de S. Francisco de Assis, embora a sua história apresente a cada passo o sobrenatural. Pelo contrário, ninguém tem fé na – vida de Apolónio de Tiana – porque foi escrita muito depois do falecimento do herói e nas condições de puro romance. Em que época, por que mãos e em que condições foram redigidos os Evangelhos? Tal é a questão essencial de que pende a opinião que é mister formar da sua credibilidade» (10).

S. Francisco de Assis perante o Sultão.


Entretanto, em 1916, o anglo-irlandês George Moore apresentaria a história romanceada de Jesus em The Brook Kerith, na qual o Filho de Deus logra sobreviver ao suplício da cruz em virtude da solicitude e dos cuidados prestados por José de Arimateia. Apareceria depois, em 1946, o romance de Robert Graves intitulado King Jesus, que também retrata a sobrevivência de Cristo ao martírio da cruz. E, em 1954, surgiria A Última Tentação de Cristo, do grego Kikos Kazantzákis, em que Jesus desce da cruz e encontra Maria Madalena (11).

A relação erótica entre Jesus e Maria Madalena seria finalmente explorada numa vaga avassaladora de livros publicados sobre o Código Da Vinci, de Dawn Brown. Conteúdo do mesmo: negar a divindade de Cristo, conforme já sugerido e preconizado por autores como Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln em livros sensacionalistas como O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, de 1982, ou A Herança Messiânica, de 1984.

Deste modo, retratado Cristo como uma figura revolucionária destinada a perpetuar a Casa de David mediante a linhagem sagrada proveniente de Maria Madalena, eis, pois, o engodo mediático urdido contra a Igreja Católica e assaz propício a uma Nova Ordem Mundial anticristã. De facto, trata-se de uma campanha subterrânea que nem sequer alude aos livros maçónicos de Robert Ambelain, tais como A Vida Secreta de São Paulo, Os Pesados Segredos do Gólgota e Jesus ou o Mortal Segredo dos Templários. De resto, tais livros não só rejeitam a divindade de Jesus, como ainda preconizam a sua crucificação quando já quinquagenário, a existência de um irmão gémeo e a sua relação com as mulheres.






Por outro lado, está mais que visto que Saramago, política e religiosamente obtuso (12), era um caso perdido. Reduzia tudo ao aspecto demasiadamente humano: «… a transcendência é o olhar gerado pela consciência obsessiva da sua própria imanência» (in Cadernos de Lanzarote, III/IV, p. 55). E ao «dizer que ninguém é mais tolerante que um ateu», persistia na sua pequenez mental, como, a propósito do seu Evangelho, torna patente na resposta a um crítico (José Felicidade Alves) que o acusara de ter descrito Jesus como «um imbecil, um indeciso»:

«Que demónio de leitura terá ele feito do romance para concluir que fiz de Jesus um "imbecil"? Indeciso, talvez, pelas mesmas razões que um qualquer de nós o poderá ser diante de circunstâncias que nos excedam – e que maior excesso que ver-se um pobre ser humano às voltas com Deus? Mas "imbecil"? Será "imbecil" o rapazinho que discute com o escriba no Templo? Será "imbecil" o homem capaz de viver e partilhar um amor como o de Maria de Magdala? Será "imbecil" o taumaturgo que renuncia a ressuscitar Lázaro porque essa ressurreição não seria mais do que um truque, uma prestidigitação, uma demonstração gratuita do poder de Deus? Será "imbecil" o agonizante que, espetado na cruz aonde Deus o levou, lucidamente grita "Homens, perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez"? Agradeço-lhe o escrúpulo, mas já agora permito-me sugerir-lhe, se tiver paciência para tanto, que o leia uma terceira. Com a condição, se me permite também, de ir olhando mais para o homem que se chama Jesus e menos para o "Filho de Deus" que se vai chamar Cristo…» (in Cadernos de Lanzarote, III/IV, pp. 27-28).

Posto isto, vejamos agora a questão do genocídio praticado por regimes comunistas, tais como: China maoísta e nacionalista (Kuomintang), Vietname, Cambodja, Coreia do Norte, México, Cuba, Jugoslávia, outros mais. É pois caso para se dizer estarmos perante regimes desumanamente cruéis que já ultrapassam em muito os 100 milhões de mortos ou de vítimas indefesas. Aliás, Olavo de Carvalho, com base «no estudo mais completo já empreendido sobre assassinatos em massa no mundo» (13), relata-nos que o total de vítimas à conta dos governos revolucionários ronda, só no século XX, 205 milhões de mortos por contraste aos «episódios de democídio documentados desde o século III a. C. até o fim do século XIX», com um total aproximado de 133.147.000 vítimas. Quase o dobro em comparação com os 17 séculos anteriores, para só dar uma pequena imagem do sofrimento e do morticínio em causa.







Ora, face a tamanha evidência, Saramago limitava-se a rir e a proferir mentiras compulsivas e enormidades contraditórias como estas:

1. «União Soviética não é nem nunca foi, para mim, uma referência política» (Expresso, 2 de Novembro de 1991).

2. «Comunismo é um estado de espírito. Um dia participei no programa do Bernard Pivot [na televisão francesa] que veio com essa: “Como é que você ainda se considera comunista?” Disse espontaneamente: “Acontece que sou uma espécie de comunista hormonal. Da mesma maneira que a barba me cresce, há uma hormona que fez de mim isto, e não posso deixar de o ser. Pode dizer-me: depois disto que aconteceu, e isto e isto; de acordo, tudo isso aconteceu, e parece-me mal que tenha acontecido, e condeno quem o fez. Mas isso não me tira o direito, e o dever, de ser aquilo que sou”. Ele riu-se muito…» (Público, 7 de Novembro de 2008).


Comentário:

Assim, das duas uma: ou se perfilha uma ideologia que matou mais de 200 milhões de seres humanos sob o pretexto de ter havido um desvio acidental de percurso, ou, para além desse falso pretexto, se parte para a defesa ostensiva dessa mesma ideologia e sua respectiva prática revolucionária. Os dois trechos de Saramago acima referidos parecem ir ao encontro do antecedente da disjunção, mas, como provaremos já de seguida, é ao consequente que dizem particularmente respeito.

3. «[A ETA] … Passou à luta armada em 1960 e adoptou a ideologia marxista em 1965. (…) Suponho que duas palavras andam a confundir algumas consciências portuguesas: que a ETA é "socialista", que a ETA é "marxista". A ingenuidade tem limites. A ETA não é nem marxista nem socialista. Ou será socialista na medida em que o nacional-socialismo também dizia sê-lo. A mentalidade nazi reencarnou nos militantes (dirigentes ou não) da ETA, e a julgar pelo seu comportamento habitual, não anda longe dos dirigentes HB» (Visão, 24 de Julho de 1997).




É um manifesto absurdo começar por afirmar que a ETA adoptou a ideologia marxista para tão logo se negar tal facto por conta do suposto nazismo reencarnado nos «militantes (dirigentes ou não) da ETA». E assim é porque, em termos históricos, é um facto comprovado que o nacional-socialismo representou uma combinação de nacionalismo e internacionalismo, isto é, os nazis são, em grande parte, a versão dissidente do marxismo-leninismo, uma vez que, desde os anos trinta até ao pacto germano-russo (1940), os comunistas e os nazis trabalharam em conjunto para levarem a cabo uma cultura de genocídio. Mais: foram os nazis que adoptaram os campos de concentração criados pelos comunistas, assim como foram eles que, como já vimos, se inspiraram nas organizações e nos movimentos totalitários orquestrados pelos comunistas do Leste europeu e, só depois, transferidos para a Europa central, como é o caso da Alemanha, ou para o Sul mediterrânico, como é o caso da Itália. Logo, separar nazismo e comunismo, como faz Saramago, é, no mínimo, ou pura ignorância ou pura propaganda com vista a uma desinformação generalizada.

4. «Leio nos jornais que Do Muoi, secretário-geral do Partido Comunista do Vietname, declarou, na abertura do congresso da associação de escritores de lá, que a arte e a literatura devem permanecer sob a orientação do Partido, que "a liberdade de criação literária e artística é a liberdade de servir o povo, que a literatura nunca está separada da política". Pergunta minha, urgente: não há por aí ninguém que vá explicar a este homem que acaba de precipitar-se, cabeça, tronco e membros, no mesmo fatal engano em que tropeçaram e se afundaram outros dirigentes comunistas, com as conhecidas consequências? A revolução vietnamita, será inútil dizê-lo, é merecedora de toda a admiração e de todo o respeito [o negrito é nosso], mas não é assim que a defenderão. Diz Do Muoi que as artes são um factor importante na guerra que o Vietname mantém "contra as forças hostis que tentam desunir-nos para acabar com o nosso regime". Como vivo neste mundo, não duvido nada da existência de tais forças hostis, nem de que seja esse o seu objectivo, mas verifico, uma vez mais, que a História, por muito que se esforce, não encontra quem seja capaz de receber-lhe as lições a tempo e horas. O resultado destes e semelhantes comportamentos tem sido perderem-se as literaturas e as revoluções» (in Cadernos de Lanzarote, III/IV, pp. 62-63).


Comentário:

A revolução vietnamita é tão «merecedora de toda a admiração e de todo o respeito», apregoa Saramago omitindo o número de mortos que causou, a saber: 1.670.000 mortos entre 1945 e 1987. Ora, coisa ínfima para um comunista como Saramago, pois, como dizia Lenine, fazendo sua a sentença de Heraclito: «Não esqueceis que a guerra é a rainha do universo!» Ou ainda aquela sentença que, de sua lavra, o próprio Lenine preconizara perante quem censurara o sacrifício inaudito de milhares de vidas para triunfo do império russo: «Que importa! Racha-se a lenha: saltam cavacos! Ainda que fosse preciso empregar dez milhões de corpos humanos na edificação do comunismo, sobejariam os suficientes para povoar o nosso território». Por fim, quanto à existência de forças hostis ao regime comunista do Vietname, convém não esquecer como os activistas contra a guerra do Vietname também foram efectivamente mobilizados no plano interno dos Estados Unidos por agentes de infiltração subversiva em prol do comunismo.


Che Guevara



5. «Não importa que retrato. Um qualquer: sério, sorrindo, de arma na mão, com Fidel ou sem Fidel, discursando nas Nações Unidas, ou morto, de tronco nu e olhos entreabertos, como se do outro lado da vida ainda quisesse acompanhar o rasto do mundo que teve de deixar, como se não se resignasse a ignorar para sempre os caminhos das infinitas crianças que estavam por nascer. Sobre cada uma destas imagens poder-se-ia discorrer profusamente, de um modo lírico ou de um modo dramático, com a objectividade prosaica do historiador ou simplesmente como quem se dispôs a falar do amigo que percebe ter perdido porque o não chegou a conhecer.

Ao Portugal infeliz e amordaçado de Salazar e de Caetano chegou um dia o retrato clandestino de Ernesto Che Guevara, o mais célebre de todos, aquele feito com manchas fortes de negro e de vermelho, que se tornou em imagem universal dos sonhos revolucionários do mundo, promessa de vitórias a tal ponto férteis que nunca haveriam de murchar em rotinas e cepticismos, antes dariam lugar a outros muitos triunfos, o do bem sobre o mal, o do justo sobre o injusto, o da liberdade sobre a necessidade. Emoldurado ou seguro à parede por meios precários, esse retrato assistiu a debates políticos apaixonados na terra portuguesa, exaltou argumentos, minorou desânimos, acalentou esperanças. Foi olhado como um Cristo que tivesse descido da cruz para descrucificar a humanidade, como um ser dotado de poderes absolutos que fosse capaz de extrair de uma pedra a água com que se matariam todas as sedes e transformar essa mesma água no vinho com que se beberia ao esplendor da vida. E tudo isto era certo porque o retrato de Che Guevara foi, aos olhos de milhões de pessoas, o retrato da dignidade suprema do ser humano» (in Cadernos de Lanzarote, III/IV, p. 448).


Comentário:

Este trecho constitui a prova cabal da defesa directa e ostensiva, por parte de Saramago, do comunismo em sua essência assassina. O guerrilheiro cubano, «olhado como um Cristo que tivesse descido da cruz para descrucificar a humanidade», é algo que só o satanismo de Saramago poderia acalentar, embora prontamente desmentido pela natureza vil de um dos assassinos mais mediáticos e romantizados pela esquerda mundial. Aliás, as suas afirmações falam por si:

a) “Fuzilamos e seguiremos fuzilando enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta até à morte.” (Discurso na Assembleia-Geral da ONU, em 11 de Dezembro de 1964);



Che Guevara na ONU



b) “O ódio intransigente ao inimigo (…) converte (o combatente) em uma efectiva, selectiva e fria máquina de matar. Nossos soldados têm de ser assim.” (Revista cubana Tricontinental, em Maio de 1967).

Depois, há ainda, da parte de Che Guevara, aquelas afirmações capitais sobre a instrumentalização da cultura e dos intelectuais, tais como:

a) “Um dos grandes deveres da Universidade é implantar suas práticas profissionais no seio do povo”;

b) “A culpa de muitos dos nossos intelectuais e artistas reside em seu pecado original; não são autenticamente revolucionários.”

Aí estão, pois, dois dos deveres revolucionários que, apregoados por um assassino comunista glorificado por Saramago, permitem desmentir a sua pseudo-crítica dirigida ao Partido Comunista do Vietname, o qual, como vimos, pressupunha que «a liberdade de criação literária e artística é a liberdade de servir o povo, que a literatura nunca está separada da política». Enfim, tudo contradições da mentalidade revolucionária ante as quais Saramago não desarmava ou sequer mesmo se importava.

6. «Até aqui cheguei. A partir de agora, Cuba seguirá o seu caminho, eu fico onde estou. Dissentir é um direito que se encontra e se encontrará inscrito com tinta invisível em todas as declarações de direitos humanos passadas, presentes e futuras. Diseentir é um acto irrenunciável de consciência.

Pode suceder que dissentir conduza à traição, mas isso terá sempre de ser demonstrado com provas irrefutáveis.

Não creio que se tenha actuado sem deixar lugar a dúvidas no recente julgamento em que foram condenados a penas desproporcionadas cubanos dissidentes. E não se compreende que, se houve conspiração, não tenha sido já expulso o encarregado da Secção de Interesses dos Estados Unidos em Havana, a outra parte dela.

Agora chegam os fuzilamentos. Sequestrar um barco ou um avião é crime severamente punido em qualquer país do mundo, mas não se condenam à morte os sequestradores, sobretudo tendo em conta que não houve vítimas.

Cuba não ganhou nenhuma heróica batalha fuzilando esses três homens, mas, isso sim, perdeu a minha confiança, ofendeu as minhas esperanças, defraudou as minhas ilusões. Até aqui cheguei» (in Visão, 17 de Abril de 2002).


Comentário:

Quer dizer: Saramago mostrara-se ofendido por a ditadura genocida de Fidel Castro mandar fuzilar três terroristas responsáveis pelo sequestro de barcos e aviões, mas nem uma palavra de indignação e pesar proferira para as 17 000 vítimas inocentes do regime comunista de Cuba, sem contar os cerca de 60 000 ou mais assassinados no Peru, na Nicarágua e na Colômbia por tropas treinadas e financiadas pelo governo de Havana. E aí tendes a duplicidade cúmplice de Saramago com o comunismo ateu, também capaz de surpreender até o próprio Diabo, mormente quando diz: «Provavelmente sou um homem bastante religioso. Bom, para se ser ateu como eu sou, deve ser preciso um alto grau de religiosidade» (in Visão, 6 de Novembro de 2008).



Fiódor Dostoiévski






Contudo, não faltarão certamente intelectuais a promover um Saramago para quem «as obras dos grandes criadores do passado, de Homero a Cervantes, de Dante a Shakespeare, de Camões a Dostoievski, apesar da excelência do pensamento e fortuna de beleza que diversamente nos propuseram, não parecem ter originado, em sentido pleno, nenhuma efectiva transformação social…» (in Cadernos de Lanzarote, III/IV, p. 309). Um desses intelectuais, Francisco José Viegas, ex-director da Casa Fernando Pessoa, vimo-lo já na televisão dissertando sobre o comunismo de Saramago para, desse modo, ficarmos a saber que, no caso da ditadura cubana, o Prémio Nobel se demarcara na questão dos três terroristas supramencionados. E perante tamanha burrice, eis senão a prodigiosa nata da intelectualidade em Portugal.

De resto, foi-nos possível deparar, no site da Fundação José Saramago, com expressões sinistras do tipo:

«Los saramaguianos, una especie autóctona que se produce em vários continentes y en todos los terrenos…».

«Poderíamos dar um milhão de razões para sermos um milhão de Saramagos, mas não vamos dar nenhuma: quem queira ser Saramago, que se revele, que se junte. Ser Saramago é bom, ser um milhão de Saramagos é melhor…».

Bem, só resta dizer a todos eles:


Vade retro, Satana


Notas:

(9) Camilo Castelo Branco, Perfil do Marquês de Pombal, Lello & Irmãos Editores, 1982, pp. 197-198.

(10) Ernesto Renan, A Vida de Jesus, Lello & Irmãos Editores, p. 17.

(11) É com Marta que Jesus se casa e forma família após a morte de Maria Madalena. Por fim, Jesus desperta da sua visão e retorna ao Calvário para terminar a sua Paixão.

(12) No «fundo - como dizia -, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à humanidade (cf. «Penso que não merecemos a vida», in O Globo, de 17 de Outubro de 2009).

(13) O autor do estudo é um professor de Ciência Política da Universidade do Havai, chamado Rudolph J. Rummel. Este estudo valeu-lhe o Lifetime Achievement Award da American Science Association em 1999.






terça-feira, 13 de julho de 2010

Saramago e a "revolução cultural" (ii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte








O redactor da missiva adiantara ainda que O Ano da Morte de Ricardo Reis é, a seu ver, «um dos maiores da literatura portuguesa dos últimos tempos», superando «todas as reservas levantadas pela personalidade humana, política e até literária do seu autor». Ora, tal não passa de uma mera opinião sem nenhum valor literário que se preze, e a qual, no mínimo, seria preciso justificar, coisa, aliás, que o redactor não concretiza nem muito menos realiza.

De resto, Fernando Pessoa vem sendo «atirado à fama «como um osso aos cães», talvez para «que, «envenenados pelo osso, os cães o larguem» (2). A confirmá-lo está a Casa Fernando Pessoa entregue ao feitiço da cultura esquerdista dominante, por cuja direcção já transitaram feministas analfabetas como Clara Ferreira Alves e Inês Pedrosa, a quem, na sobredita casa, também se devem as "missas negras" em homenagem ao literato comunista, designadas por "maratonas de leitura". O que diria, entretanto, o próprio Fernando Pessoa que não podia suportar o que apodava por «vária horrorosa subgente sindicalística, socialística e outras coisas»?

Na verdade, Saramago jamais poderá vir a ser um escritor universal como é o caso de Camões, Pessoa, Padre António Vieira e Agostinho da Silva. E a razão é que jamais alcançou, como eles, aquela grandeza sublime, artística e pneumatológica que só os talentos mais sensíveis e abertos à transcendência logram realizar. Ademais, Saramago era não só um feroz, obsessivo e intransigente inimigo da civilização cristã, como também de toda e qualquer manifestação religiosa e espiritual. Desse modo, Saramago nem sequer passara da idade pueril ao fazer da literatura um instrumento ideológico ao serviço do comunismo, de que também O Ano da Morte de Ricardo Reis é um caso paradigmático em função da "personagem" projectada na pele de um ideólogo antifascista.

Não se pode separar a obra de Saramago do ideólogo fanático que ele era e ostensivamente protagonizou até ao último suspiro (3). Daí não poder ser uma “figura consensual” por lhe ter faltado a fé, a esperança e a caridade que formam os homens de “boa vontade” e recta inteligência. Nesse sentido, era um obstinado que explorava a credulidade dos fracos e dos ressentidos de espírito.

Mas dir-se-á: os grandes nomes da literatura mundial, como Camões, Pessoa e outros afins, poderão ser igualmente consagrados sem que a maioria das pessoas vejam e compreendam o conteúdo e a altitude espirituais a que puderam culminar. Sim, é verdade que nem toda a gente está à altura de os compreender, mas, por contrapartida, sempre podem inspirar e despertar o espírito de quem espiritualmente contemple a sua mensagem originária. Porém, já o mesmo não acontecerá com Saramago cuja “mensagem”, lesiva da natureza profunda e espiritual do ser humano, limita-se a uma falsa moral, a um falso erotismo e a uma falsa ideologia já comprovada e saldada na morte de centenas de milhões de seres humanos.

E perante tudo isto, ressalta ainda esta verdade espiritualmente expressa por Álvaro Ribeiro:

«A literatura, para não dizer a escritura, tem por missão revelar ao homem os acontecimentos de ordem preternatural e sobrenatural. Sabemos que a esta intenção correspondem os mais antigos textos literários, considerados sagrados, e sabemos também que o mesmo pensamento inspira as tradições orais que vão correndo de terra em terra. Cada obra literária está real ou virtualmente relacionada com uma tradição paradigmática, e na determinação da respectiva genealogia consiste o primeiro mérito da exegese e da hermenêutica.

Nenhuma obra literária exerceria qualquer efeito sobre o leitor, nenhuma obra literária seria de algum modo comunicativa, se não aludisse a uma relação entre o real e o possível, entre a aparência e a essência, entre o consciente e o inconsciente. O puro realismo das motivações egoístas no condicionalismo social, defendido por muitos historiadores da literatura, tende a decair na polémica ou na apologia, porque não pode manter-se na região superior da arte. A literatura de relações sintomáticas tem de ser aperfeiçoada na literatura das relações simbólicas.







(...) Todas as obras literárias que contenham narrativas de ordem preternatural ou sobrenatural hão-de pela crítica iluminista, positivista ou socialista ser julgadas como destituídas de valor de verdade, pelo que será considerada impostura a declaração em que o autor afirme ter sido testemunha do acontecimento e de que a obra vale de documento histórico. O crítico literário nunca admitirá que o autor da obra de arte seja um homem superior, inspirado por um génio, ou agraciado por Deus. A história da literatura pretende, em consequência, reduzir a actividade artística às dimensões humanas, limitando a psicologia aos dizeres elementares e comuns, analisando os textos pela exegese positivista, justificando os valores por imitação cultural» (4).

Não há de facto na produção infraliterária de Saramago narrativas de ordem preternatural ou sobrenatural. O que há são inversões ensombradas e perversamente caricaturais de uma realidade religiosa e espiritualmente assente em símbolos alegóricos e anagógicos. Assim, ressaltam apenas as trevas da ignorância furiosamente expressas numa permanente e recalcitrante revolta contra o Espírito.

Mas voltemos à suposta obra-prima que é O Ano da Morte de Ricardo Reis, e que o redactor da missiva preconiza conter «algumas das páginas mais admiráveis escritas em português no último século». Refere-se, pois, aos extensos períodos "gramaticais" sem fim à vista, pautados pela escassez de vírgulas e pontuação, em que as palavras não podem sequer alcançar o domínio inteligível dos conceitos e das ideias. Mas fiquemos com uma curta amostra dessa infraliteratura transformada em pura burla mediática:

«… é duvidoso ter-se despedido Cristo da vida com as palavras da escritura, as de Mateus e Marcos, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste, ou as de Lucas, Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito, ou as de João, Tudo está cumprido, o que Cristo disse foi, palavra de honra, qualquer pessoa sabe que é esta a verdade, Adeus mundo, cada vez a pior. Mas os deuses de Ricardo Reis são outros, silenciosas entidades que nos olham indiferentes, para quem o mal e o bem são menos que palavras, por as não dizerem eles nunca, e como as diriam, se mesmo entre o bem e o mal não sabem distinguir, indo como nós vamos no rio das coisas, só deles distintos porque lhes chamamos deuses e às vezes acreditamos. Esta lição nos foi dada para que não nos afadiguemos a jurar novas e melhores intenções para o ano que vem, por elas não nos julgarão os deuses, pelas obras também não, só juízes humanos ousam julgar, os deuses nunca, porque se supõem saber tudo, salvo se tudo isto é falso, se justamente a verdade última dos deuses é nada saberem, se justamente não é sua ocupação única esquecerem em cada momento o que em cada momento lhes vão ensinando os actos dos homens, os bons como os maus, iguais derradeiramente para os deuses, porque inúteis lhes são. Não digamos, Amanhã farei, porque o mais certo é estarmos cansados amanhã, digamos antes, Depois de amanhã, sempre teremos um dia de intervalo para mudar de opinião e projecto, porém ainda mais prudente seria dizer, Um dia decidirei quando será o dia de dizer depois de amanhã, e talvez nem seja preciso, se a morte definidora vier antes desobrigar-me do compromisso, que essa, sim, é a pior coisa do mundo, o compromisso, liberdade que a nós próprios negámos» (5).

Que farfalhudas maravalhas, como diria Camilo Castelo Branco. De facto, o heterónimo de Fernando Pessoa surge aqui como uma figura evanescente de nenhum valor espiritual. É, no fundo, uma imagem larvar: («…uma coroa mortuária com as suas flores de pano cada vez mais pálidas…) que se olha ao espelho e não se vê, e que, qual sombra, anda entre os vivos (6).








Fora disso, Fernando Pessoa procurava ser e sentir tudo de todas as maneiras por via de um «eu» que, quanto mais unificadamente diverso e dispersamente atento estivesse, melhor realizaria a existência excedente e omnímoda do Universo. Daí a heteronímia vivida e experienciada não como pluralidade social de um «nós», mas como unidade individual na convergência do uno e do múltiplo, ou do mesmo e do outro em que ninguém poderá dizer o que vem antes e o que vem depois, nem onde começa e onde acaba a circunferência de um círculo. Deste modo, sublimar-se-iam todas as contradições lógicas por virtude de intuições paradoxais como Deus «é tudo / e fora d’Ele há só Ele», ou «Tudo para Ele é pouco».

Demais, Ser e sentir tudo de todas as maneiras extravasa todo e qualquer ecletismo decorrente dos extremos que atravessam a história do pensamento, sejam eles o espiritualismo e o materialismo, o idealismo e o realismo, o teísmo e o panteísmo. Por outras palavras, Fernando Pessoa ia trilhando todos os caminhos e nenhum. Porém, há um ponto fundamental a reter: o Poeta tivera por horizonte último um Tudo-Universo para Deus, em que a alma se excede num processo que vai do uno ao múltiplo, ou do mesmo ao outro sem deixar de ser o que é, ou sem nunca se perder enquanto alma capaz de atravessar todos os contrários permanecendo uma e a mesma.

Ora, Saramago, falho de espírito, não soube senão distorcer o pensamento assistemático de Fernando Pessoa, conforme se segue:

«Talvez Fernando Pessoa lhe responda, como outras vezes, Você bem sabe que eu não tenho princípios, hoje defendo uma coisa, amanhã outra, não creio no que defendo hoje, nem amanhã terei fé no que defenderei, talvez acrescente, porventura justificando-se, Para mim deixou de haver hoje e amanhã, como é que quer que eu ainda acredite, ou espere que os outros possam acreditar, e se acreditarem, pergunto eu, saberão verdadeiramente em que acreditam, saberão, se o Quinto Império foi em mim vaguidade, como pode ter-se transformado em certeza vossa, afinal, acreditaram tão facilmente no que eu disse, e mais sou esta dúvida que nunca disfarcei, melhor teria feito afinal se me tivesse calado, apenas assistindo» (p. 120).



Antiga sede da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (R. António Maria Cardoso).




Outras passagens sugerem, por sua vez, o teor ideológico retorcido de Saramago, tal como a que descreve Ricardo Reis a ser interrogado na Rua António Maria Cardoso, sede da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (pp. 157-160). Uma outra passagem não menos retorcida associa politicamente Hitler e Salazar por terem nascido em 1889 «com pouca diferença de dias» (p. 250). Essa identificação também é, de certo modo, sugerida e ampliada na descrição de um comício nacionalista na Praça de Touros do Campo Pequeno, onde, por entre a saudação romana e entusiásticos vivas ao Estado Novo, se reúnem, respectivamente, os camisas negras, castanhas e azuis do fascismo italiano, do nazismo alemão e do falangismo espanhol (pp. 333-339).

Essa identificação, pura e simples, não corresponde de todo à verdade histórica. E, assim, o primeiro aspecto a esclarecer é o de que tais movimentos jamais caracterizaram a direita propriamente dita, pois revelam uma visão do mundo originada e propagada por socialistas cujos instrumentos de doutrinação os nazis e os fascistas vieram depois a utilizar. É o que diz, aliás, Frederico Hayek, Prémio Nobel em 1976:

«Na Alemanha e na Itália, os nazis e os fascistas já não tinham efectivamente muito que inventar. A invasão de todos os aspectos da vida pelos movimentos políticos tinha já sido lançada, em ambos os países, pelos socialistas. Foram os socialistas que pela primeira vez puseram em prática a concepção de um partido que abrangesse todas as actividades de um indivíduo desde o berço até ao túmulo, um partido que se propusesse orientar as opiniões de todos sobre todas as coisas, que traduzisse todos os problemas em termos de uma welthanschaung partidária. Um escritor socialista austríaco [G. Weiser], referindo-se ao movimento socialista no seu país, dizia com orgulho que era "sua característica ter criado organizações especiais para todos os sectores da actividade dos operários e assalariados". E embora os socialistas austríacos tenham ido mais longe neste sentido, a situação não era muito diferente nos outros países. Não foram os fascistas, mas os socialistas, quem começou a levar as crianças de tenra idade para as organizações políticas a fim de estarem seguros de que elas se formariam como "bons proletários". Não foram os fascistas, mas os socialistas, quem primeiro tentou a organização de jogos e desportos, de futebol e exercícios pedestres em clubes partidários onde os seus membros estariam ao abrigo do contágio de ideias diferentes. Foram também os socialistas quem primeiro estabeleceu maneiras de cumprimentar e formas de saudação com as quais os membros dos seus partidos se distinguiriam dos outros. Foram ainda os socialistas quem, através da sua organização em "células" e dos seus planos de supervisão permanente da vida privada, criaram o protótipo do partido totalitário. Balilla e Hitlerjugend, Dopolavoro e Kraft durch Freude, uniformes políticos e formações partidárias militares fascistas e nazis, pouco mais são do que imitações de instituições anteriores…» (7).




Por conseguinte, a existência de tais movimentos em Portugal só indiciam que o regime salazarista já continha em si os germes e as estruturas socializantes que, nalguns aspectos, haveriam de dar lugar, na sequência do 25 de Abril de 1974, ao novo regime e à nova Constituição socialista. Porém, nem Salazar era Hitler nem muito menos se assumia como um caudilho de tipo fascista ou falangista, como, aliás, Franco Nogueira, referindo-se ao ano de 1935, deixa transparecer no seguinte trecho:

«Sem desperdício de tempo, Salazar cuida da frente interna. Assegurada no possível a vigilância das fronteiras, terrestre e marítima, são reforçadas as medidas de ordem pública. Por outro lado, são exaltados, para que se revigore o ânimo português, os grandes valores do patriotismo e da nacionalidade. Fora ponto básico da União Nacional, recolhido e consagrado pelo Estado Novo, o enquadramento da mocidade, de modo a valorizá-la física, moral, espiritual e fisicamente. Não se dera ainda execução a esse projecto, todavia. Mas agora Carneiro Pacheco, na Educação Nacional, toma a iniciativa de o fazer, e Salazar aprova-a. E é lançada a Organização Nacional da Mocidade Portuguesa. Esta vai abranger mais de duzentos mil jovens de ambos os sexos, e é instrumento para culto de um nacionalismo de raiz, acima de governos e regimes. Suscita a Mocidade Portuguesa entusiasmo entre a juventude; mas a Igreja Católica encara a organização com alguma reserva, no temor de que a divinização de ideais terrenos possa afastar dos caminhos de Deus os que se abrem para a vida. Fica preocupado o cardeal Cerejeira; e Carneiro de Mesquita, servindo de intermediário, intervém junto de Salazar. Este, todavia, já se dera conta dos perigos possíveis; e assegura a Carneiro de Mesquita que não será totalitarista a orientação a seguir» (8).

Mas para que não fiquem dúvidas de maior, vejamos ainda nova passagem de Franco Nogueira atinente ao aproximar do fim da Segunda Guerra Mundial:

«No plano político-social, o ano de 1944 fecha-se na acalmia. (…) No terreno político, correm novas especulações. Pelo facto de ser monárquica a maioria dos membros do novo governo, acreditam alguns, mais uma vez, que Salazar se prepara para restaurar o trono em Portugal; seria uma forma de preservar as conquistas e a estrutura do regime e de tornar este aceitável no após-guerra. Mas Salazar não dá um passo nesse caminho; e os mais íntimos sabem que o chefe do governo nada fará que ponha em risco a unidade nacional ou que ressuscite divisões partidárias e paixões entre monárquicos e republicanos. De momento, os monárquicos confiam e esperam; e os republicanos estão tranquilos porque a figura de Carmona, venerada pela sua idade e permanência e cujo republicanismo não sofre mácula, constitui garantia de que não será alterada a ordem republicana. Por outro lado, insensivelmente, gradualmente, Salazar transfere as suas bases de apoio político. Combate com igual veemência o extremismo da esquerda, o comunismo, o socialismo, e o Diário da Manhã acentua que não é possível a neutralidade na luta entre o Ocidente e a Rússia; mas limita o poder e a influência dos mais exaltados, dos que se haviam identificado com o fascismo e o nazismo; e, sem prejuízo dos princípios doutrinários do regime, procura uma linha de moderação, de tolerância, de apaziguamento. Fundada num momento de perigo, a Legião Portuguesa tornara-se um símbolo que muitos, fora e dentro do país, consideravam totalitário; e agora Salazar põe em surdina as actividades da Legião, e desvia-as para objectivos cívicos e caritativos» (ob. cit., pp. 558-559).






Notas: 

(2) Cf. «Agostinho da Silva: o filho pródigo», in Leonardo, Revista de Filosofia Portuguesa, Ano I, n.º 4, p. 41.

(3) Saramago, além de comunista, era um grandíssimo hipócrita por nos querer convencer de que não era de modo nenhum um fanático (cf. Cadernos de Lanzarote, Círculo de Leitores, Diários III e IV, p. 419).

(4) Álvaro Ribeiro, A Razão Animada, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2009, p. 209-211.

(5) José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Colecção Mil Folhas, 1984, pp. 47-48.

(6)  Ob. cit., pp. 65-66 e 169.

(7)  Frederico Hayek, O Caminho para a Servidão, Teoremas, 1977, pp. 185-186.

(8) Franco Nogueira, Salazar, Livraria Civilização Editora, 1983, Vol. III, pp. 20-21.

Continua


domingo, 11 de julho de 2010

Saramago e a "revolução cultural" (i)

Escrito por Miguel Bruno Duarte











«A literatura degenera sempre que se submete a um realismo servil, incompatível com o pensamento criacionista. O êxito de uma obra meramente realista será tão efémero como o fenómeno observado. Nunca foi possível conciliar duramente o realismo com uma verdadeira filosofia da arte».

Álvaro Ribeiro



Em «Operação Saramago», já tivémos a oportunidade de dizer alguma coisa sobre a maior fraude literária imposta ao povo português. Cabe-nos, por agora, dizer algo mais sobre o completo domínio que a esquerda ocupa em todos os sectores políticos, económicos e culturais em Portugal. E como exemplo disso temos a “carta aberta” de mais um socialista - um tal de Vicente Jorge Silva - dirigida ao Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, para assim o pressionar perante uma das maiores operações vermelhuscas que já ocorreram no âmbito da cultura portuguesa e até estrangeira.

A “carta” em questão constitui um sinal deveras sintomático da animosidade doentia que permanentemente embota a mentalidade esquerdista infiltrada no ensino e nos centros de decisão do poder político, económico e jornalístico. Mas analisemo-la para demonstrar que assim é, procurando expor o que nela se afirma e sua respectiva refutação:

1. O Presidente da República - assim como a segunda figura do Estado, o Presidente da Assembleia da República -, não compareceu ao funeral do único Nobel da literatura portuguesa. Que, além do mais, deu justificações hipócritas para não comparecer, a ponto de nem sequer recorrer a um avião da Força Aérea para cumprir os seus deveres institucionais.


Refutação:

Ora, o que aqui está em causa não são as alegadas justificações que o Presidente da República deu para não comparecer ao culto fúnebre de um agente «cultural» do comunismo, mas sim o facto de haver sido criada uma mobilização em massa para sancionar uma actividade criminosa em nome da cultura. Canalizar, portanto, os deveres institucionais do Presidente da República em nome de uma consagração internacional estultamente enganosa, eis senão o maior engodo que se quis incutir aos Portugueses.

De resto, fazer crer que o Nobel de Saramago foi pura e simplesmente o resultado de um reconhecimento internacional é como sustentar um feitiço para todos os efeitos bem sucedido. É, pois, passar uma esponja sobre as instituições ditas culturais em Portugal, como o Instituto Camões, ao qual coube financiar as edições suecas de quem se denunciava a si próprio e à organização esquerdista que o apoiava em múltiplas e infindáveis ocasiões, como naquela em que, juntamente com Gabriel Garcia Marques, também internacionalizado pelo Nobel, festejou os 40 anos da revolução cubana em Santiago. Enfim, tudo isso aparece agora como sendo apenas o fruto espontâneo de um “talento miraculoso” que a esquerda pretende equiparar ao talento verídico e inquestionável de um Luís de Camões, de um Fernando Pessoa e de um Padre António Vieira.

Gabriela Canavilhas


Depois, não menos relevante é o avião da Força Aérea pago com o dinheiro dos portugueses para que a sonsa da ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, fosse à vulcânica terra de Lanzarote buscar o cadáver de quem verberara contra Portugal em jeito de represália para com as estruturas planificadas da cultura no tempo do Governo de Cavaco Silva (1). Por conseguinte, a esquerda insana engendrara a maior farsa em terra portuguesa, que o dito Nobel queria ver territorial, administrativa e culturalmente integrada em Espanha (na Ibéria como dizia), pelo que o melhor, o mais sensato e inteligente teria sido deixar nuestros hermanos ficar com o sinistro, assim se livrando Portugal de uma mancha vergonhosa para todo o sempre.

2. O Presidente da República, sem embargo «das divergências e conflitos políticos, de opinião ou de natureza pessoal», «é o Presidente de todos os portugueses (mesmo daqueles com quem possa divergir radicalmente)». Logo, por que não fora ao funeral «do único Prémio Nobel da Literatura de nacionalidade portuguesa»? Saramago podia não ser consensual «quer no plano literário quer no plano político e das ideias», mas, não obstante cultivar «frequentemente, sobretudo desde a sua “nobelização”, uma sobranceria, uma prosápia e uma vaidade tão destemidas que chegavam a ser patéticas e suscitavam uma compreensível aversão», o literato comunista, «apesar disso e contra isso», foi «um imenso escritor, com uma formidável irradiação em todo o mundo e a quem devemos algumas das páginas mais admiráveis escritas em português no último século». Mais: «Um romance como O Ano da Morte de Ricardo Reis é, sem sombra de dúvida, um dos maiores da literatura portuguesa de todos os tempos, um livro cuja magia ainda nos deslumbra – e supera todas as reservas levantadas pela personalidade humana, política e até literária do seu autor».


Refutação:

Sobre as razões para o Presidente da República não ter ido ao funeral, nisso implicando ou não as «divergências e os conflitos políticos de opinião ou de natureza pessoal», já pouco ou nada importa pela posição entretanto assumida. O que importa é, isso, sim, deslindar a engenharia social com vista à hegemonia da esquerda em todos os sectores da política, da economia e da cultura triunfantes.



Ressurreição de Lázaro (Giotto).



E não se trata somente de um Nobel da literatura, pois a esquerda tem apostado praticamente tudo para consolidar a maior fraude cultural mediante a projecção do globetrotter através de conferências, apresentações de livros, tournées por esse mundo fora, recepções, cerimónias, carrancas e apertos de mão, passeatas ideológicas em aldeias e escolas, incursões não menos ideológicas no Centro Cultural de Belém, adaptações cinematográficas de seus livros, como Jangada de Pedra, pelo holandês Georges Sluitzer, operetas italianas como a Bilmunda a partir do Memorial do Convento ou La Morte di Lazzaro e Cruci-verba, inspiradas no Evangelho segundo Jesus Cristo, enfim, um regabofe a que não faltaram 25 prémios, como o Prémio Camões, ou, ao jeito soarista, os 37 títulos de Doutor honoris causa nessas instituições que dão pelo nome de universidades.

Quanto ainda ao facto de o Presidente da República ser o Presidente de todos os Portugueses, seria preciso provar e demonstrar que Saramago tivesse sido português no verdadeiro sentido da palavra. Sim, porque ser português não é ofender, caluniar e denegrir o culto, a cultura e a civilização católica dos Portugueses com mais de oito séculos de existência. Mais: alegar as atrocidades da Inquisição, sempre condenáveis, não é nada perante as incomparáveis atrocidades do comunismo destruidor. Mas já lá iremos para contar, medir e pesar o que mais importa.

Convém, pois, notar que todo e qualquer Presidente da República Portuguesa que se preze como tal, e revele, acima de tudo, carácter e inteligência à altura do povo que representa e simboliza, não pode nem deve fugir ao acto de condenar energicamente toda a organização esquerdista responsável pelo ataque sem limites nem fronteiras ao sangue e à fisionomia espiritual de um povo já sacrificado no altar do mundo. Essa, pois, é que é e deveria ser a sua missão capaz de zelar pelo património histórico e sobrenatural dos Portugueses que percorreram e continuam percorrendo as Sete Partidas do Mundo.

E de nada vale alegar que o literato comunista não era política e literariamente uma «figura consensual» ao mesmo tempo que, num juízo de valor enviesado, se dá por adquirido tratar-se «de um imenso escritor (…) a quem devemos algumas das páginas mais admiráveis escritas em português no último século». Mas qual português? O português que uma tal de Lídia Jorge caracterizou em termos de uma «revolução cultural» à boa maneira gramsciana? O português que a cultura plumitiva e de magazine exibiu nos termos «de uma escrita original, tecida ao longo de extensos períodos» e supostamente bebida na estética dos «autores barrocos do século XVII» para exprimir as reivindicações sociais da “pseudo-literatura de intervenção”? O português tão zelosamente cultivado ao ponto de Saramago, aprendiz de operário mecânico, não passar do 11 a par de «um 15 a serralharia e outro a francês»? O português que na falta de pontuação e parágrafos não se distinguira no 24 de Abril de 1974 para, no 25 de Abril, passar a ser um escritor já comparável a Camões e a Pessoa, quando não mesmo a um Shakespeare entre os romancistas?


William Shakespeare



Diga-se de passagem que tão ramalhosa índole chegara a ser glorificada numa edição especial da revista Visão exclusivamente dedicada a tão sinistra figura. Uma revista, aliás, altamente prestável por conter aspectos tão interessantes e elucidativos como o que, referente ao episódio do Registo Civil, menciona Saramago como «nome de planta daninha», bem como aquele que, resultante da iliteracia de Saramago, tivera origem em certa tertúlia de poetas e intelectuais onde se fazia troça do apelido por que era então conhecido: Saragago.


(1) Era então Santana Lopes secretário de Estado da Cultura, com Sousa Lara no cargo de subsecretário.

Continua


quinta-feira, 8 de julho de 2010

As 24 teses tomistas




S. Tomás vencendo



1. A potência e o acto dividem o ser de tal maneira, que tudo o que existe ou é acto puro, ou resulta necessariamente dum composto de potência e acto, como seus princípios primários e intrínsecos.

1. Potentia te actus ita dividunt ens, ut quidquid est, vel sit actus purus, vel ex potentia et acta tamquam primis atque intrinsecis principiis necessario coalescat.

2. O acto, que é a perfeição, só a potência a limita, a qual é capacidade de perfeição. Donde se conclui que, na medida em que o acto é puro, é único e ilimitado; logo, onde é finito e múltiplo, constitui com a potência uma composição real.

2. Actus, utpote perfectio, non limitatur nisi per potentiam, quae est capacitas perfectionis. Proinde, in quo ordine actus purus, in eodem nonnisi ilimitatus et existit ubi vero est finitus ac multiplex, in veram incidit cum potentia compositionem

3. Pelo que só Deus subsiste na forma absoluta do ser e só ele é perfeitamente simples; tudo o que, fora dele, participa do ser, tem uma natureza que restringe o ser, e é formado de essência e de existência, como de princípios realmente distintos.

3. Quapropter in absoluta ipsius esse ratione unus subsistit Deus, unus est simplicissimus; cetera cuncta, quae ipsum esse participant, naturam habent qua esse coarctatur, ac, tanquam distinctis realiter principiis, essentia et esse constant.

4. O ser que tira o seu nome do ser não se aplica a Deus e às criaturas num sentido unívoco, nem, mesmo, num sentido puramente equívoco, mas segundo uma analogia, quer de atribuição, quer de proporcionalidade.

4. Ens, quod denominatur ab esse, non univoce de Deo ac de creaturis dicitur: nec tamen prorsus aequivoce., sed analogice, analogia tum attributionis tum proportionalitatis.

5. Além disso, há nas criaturas uma composição real do sujeito subsistente com as formas secundariamente acrescentadas, ou acidentes - composição que seria inconcebível, se o ser não fosse realmente recebido numa essência distinta.

5. Est praeterea in omnia creatura realis compositio subiecti subsistentis cum formis secundario additis sive accidentibus: ea vero, nisi esse realiter in essentia distincta reciperetur, intelligi non posset.






6. Além dos acidentes absolutos, há um relativo ou ad aliquid. Ainda que este não signifique, segundo a sua razão própria, alguma coisa inerente a um sujeito, ele tem frequentemente, a causa nas coisas, e possui, ainda, uma entidade real distinta do sujeito.

6. Praeter absoluta accidentia est etiam relativum sive ad aliquid. Quamvis enim ad aliquid non significet secundum propriam rationem aliquid alicui ihaerens, saepe tamen causam in rebus habet, et ideo realem entitatem distinctam a subjecto.

7. A criatura espiritual é absolutamente simples na sua essência; todavia há nela uma dupla composição; uma, de essência e de existência; outra, de substância e de acidentes.

7. Creatura spiritualis est in sua essentia omnino simplex. Sed remanet in ea compositio duplex: essentiae cum esse et substantiae cum accidentibus.

8. A criatura corporal é, na sua essência mesma, composta de potência e de acto, os quais, em relação à essência, se chamam matéria e forma.

8. Creatura vero corporalis est quod ipsam essentiam composita potentia et actu; quae potentia et actus ordinis essentiae, materiae et formae nominibus designantur.

9. Destes dois elementos, nenhum tem por si mesmo, existência; nenhum por si mesmo se produz ou corrompe; e tem lugar num predicamento, a não ser redutivamente, como princípio substancial.

9. Earum partium neutra per se esse habet; nec per se producitur vel corrumpitur, nec ponitur in praedicamento nisi reductive ut principium substantiale.

10. Ainda que a extensão em partes integrais seja uma consequência da natureza corporal, para um corpo, o ser substância e ser quantum não é a mesma coisa; a substância é, por natureza, indivisível, não à maneira do ponto, mas à maneira do que é fora da ordem da dimensão; a quantidade, que dá extensão à substância, essa difere dela realmente, e constitui um verdadeiro acidente.

10. Etsi corpoream naturam extensio in partes integrales consequitur, non tamen idem est corpori esse substantiam et esse quantum. Substantia quippe ratione sui indivisibilis est, non quidem ad modum puncti, sed ad modum eius quod est extra ordinem dimensionis. Quantitas vero, quae extensionem substantiae tribuit, a substantia realiter differt et est veri nominis accidens.

11. A matéria, determinada pela quantidade, é o princípio da individuação, isto é, da distinção numérica, que não pode existir nos puros espíritos, e que é a que existe entre dois indivíduos numa mesma natureza específica.

11. Quantitate signata materia principium est individuationis, id est, numericae distinctionis, quae in puris spiritibus esse non potest, unius individui ab alio in eadem natura specifica.


12. É também pelo efeito desta mesma quantidade que um corpo é circunscrito num lugar, e que ele não pode ser, desta maneira, senão num só lugar, trate-se de que potência se tratar.

12. Eadem efficitur quantitate ut corpus circumscriptive sit in loco, et in uno tantum loco de quacumque potentia per hunc modum esse possit.

13. Há duas categorias de corpos: os vivos e os não vivos. Para que, nos vivos, haja no mesmo sujeito uma parte movente e outra movida por si, a forma substancial, chamada alma, exige uma disposição orgânica, ou partes heterogéneas.

13. Corpora dividuntur bifariam: quaedam enim sunt viventia, quaedam expertia vitae. In viventibus, ut in eodem subiecto pars movens et pars mota per se habeantur, forma substantialis, animae nomine designata, requerit organicam dispositionem, seu partes heterogeneas.

14. As almas das ordens vegetativa e sensitiva não subsistem de forma alguma, por si mesmas, nem são geradas por si mesmas: elas são apenas o princípio por que o vivente é e vive, e como a sua dependência da matéria é total, com a corrupção do composto, corrompem-se por acidente.

14. Vegetalis et sensilis ordinis animae nequaquam per se subsistunt, nec per se producuntur, sed sunt tantummodo ut principium quo vivens est et vivit et, cum a mateira se totis dependeant, corrupto compositio, eo ipso per accidens corrumpuntur.

15. Pelo contrário, a alma humana subsiste por si mesma: podendo ser recebida num sujeito suficientemente preparado, é criada por Deus; e, por natureza, é incorruptível e imortal.

15. Contra, per se subsistit anima humana, quae, cum subiecto suficienter disposito potest infundi, a Deo creatur, et sua natura incorruptibilis est atque immortalis.

16. Esta mesma alma racional une-se ao corpo de tal modo, que é a sua única forma substancial, e que o homem por ela é que é homem, e animal, e vivente, e corpo, e substância, e ser; logo ela dá ao homem todo o grau essencial de perfeição; e ainda comunica ao corpo o acto de ser pelo qual é ela mesma.

16. Eadem anima rationalis ita unitur corpori, ut sit eiusdem forma substantialis unica, et per ipsam habet homo ut sit homo et animal et vivens et corpus et substantia et ens. Tribuit igitur anima homini omnem gradum perfectionis essentialem; insuper communicat corpori actum essendi, quo ipsa est.




17. Duas ordens de faculdades derivam naturalmente da alma humana: orgânicas e inorgânicas: as primeiras, a que pertencem os sentidos, têm como sujeito o composto; as segundas, só a alma. A inteligência é, pois, uma faculdade intrinsecamente independente de um orgão.

17. Duplicis ordinis facultates, organicae et organicae, ex anima humana per naturalem resultantiam emanant: priores, ad quas sensus pertinet, in compositio subiectantur, posteriores in anima sola. Est igitur intellectus facultas ab organo intrinsece independens.

18. A intelectualidade decorre necessariamente da imaterialidade, a ponto de a escala da intelectualidade estar na razão do afastamento da matéria. O objecto adequado da inteligência é comummente o próprio ser: o objecto próprio da inteligência humana, no seu estado presente de união, contem-se nas essências abstractas das condições materiais.

18. Immaterialitatem necessario sequitur intellectualitas, et ita quidem ut secundum gradus elongationis a materia, sint quoque gradus intellectualitatis. Adaequatum intellectionis objectum est communiter ipsum ens; proprium vero intellectus humani in praesenti statu unionis, quidditatibus abstractis a conditionibus continetur.

19. O conhecimento recebemo-lo, pois, das coisas sensíveis. Mas como o sensível não é inteligível em acto, tem que se admitir, na alma, além do intelecto formalmente inteligente, uma virtude activa que abstraia as espécies inteligíveis das representações sensíveis.

19. Cognitionem ergo accipimus a rebus sensibilibus. Cum autem sensibile non sit inteligibile in actu, praeter intellectum formaliter intelligentem, admittenda est in anima virtus activa, quae species intelligibiles a phantasmatibus abstrahat.

20. Por estas espécies, nós conhecemos directamente o universal; o singular atingimo-lo pelos sentidos, e também intelectualmente, por um retorno à representação sensível: às coisas espirituais, chegamos por analogia.

20. Per has species directe universalia cognoscimus; singularia sensu attingimus, tum etiam intellectu per conversionem ad phantasmata; ad cognitionem vero spiritualium per analogiam ascendimus.

21. A vontade não precede a inteligência: segue-a. Ela tende necessariamente ao objecto que se lhe apresenta como o bem capaz de satisfazer a sua tendência sob todos os pontos de vista; mas escolhe, livremente, entre os bens que se prestam a apreciações diversas. A escolha segue, pois, o último juízo prático, mas que seja o último, depende da vontade.

21. Intellectum sequitur, non praecedit voluntas, quae necessario appetit id quod sibi praesentatur tamquam bonum ex omni parte explens appetitum, sed inter plura bona, quae judicio appetenda proponuntur, libere eligit. Sequitur proinde electio iudicium practicum ultimum; at quod sit ultimum, voluntas efficit.




22. Não conhecemos Deus, por intuição imediata; não o demonstramos a priori mas a posteriori, isto é, pelas criaturas, por argumento conduzido do efeito para a causa, a saber, das coisas que se movem, e não podem ser a causa adequada do seu movimento, para um primeiro motor imóvel; concluindo da dependência das coisas deste mundo duma ordem hierarquizada da causas, para uma primeira causa não causada; das coisas corruptíveis, que podem igualmente ser ou não ser, para um ser absolutamente necessário; das coisas que segundo as perfeições diminuídas do ser, da vida e da inteligência, mais ou menos são, vivem, entendem, para um ser soberanamente inteligente, soberanamente vivente, soberanamente existente; finalmente, da ordem do universo, para uma inteligência separada que ordenou as coisas, as dispõe e as dirige a um fim.

22. Deum esse neque immediata intuitione percipimus neque a priori demonstramus, sed utique a posteriori, hoc est, per ea quae facta sunt, ducto argumento ab effectibus ad causam; videlicet, a rebus quae moventur et sui motus principium adaequatum esse non possunt, ad primum motorem immobilem; a processu rerum mundanarum e causis inter se subordinatis, ad primam causam incausatam; a corruptibilibus quae aequaliter se habent ad esse et non esse, ad ens absolute necessarium; ab iis quae secundum minoratas perfectiones essendi, vivendi, intelligendi, plus et minus sunt, vivunt, intelligunt, ad eum qui est maxime intelligens, maxime vivens, maxime ens; denique ab ordine universi ad intellectum separatum que res ordinavit, disposuit, et dirigit ad finem.

23. A constituição metafísica de Deus define-se bem, se dissermos que a sua existência é idêntica à sua essência actuada, isto é, existente; por outras palavras, que ele é a existência subsistente, e que é por isso que é infinito em perfeição.

23. Divina Essentia, per hoc quod exercitae actualitati ipsius esse identificatur, seu per hoc quod est ipsum. esse subsistens, in sua veluti metaphysica ratione bene nobis constituta proponitur, et per hoc idem rationaem nobis exhibet suae infinitatis in perfectione.

24. Deus distingue-se, pois, de todas as coisas finitas, pela pureza mesmo do seu ser. Donde se infere, em primeiro lugar, que o mundo só pela criação pode proceder de Deus; depois, que a virtude criadora que o ser atinge tanto como ser, não é comunicável, nem mesmo milagrosamente, a uma criatura finita, qualquer que ela seja; finalmente, que nenhum agente criado pode ter acção sobre o ser, produzindo-lhe qualquer efeito, se não receber um movimento da causa primária.

24. Ipsa igitur puritati sui esse a finitis omnibus rebus secernitur Deus. Inde infertur primo, mundum nonnisi per creationem a Deo procedere potuisse; deinde virtutem creativam, qua per se primo attingitur ens inquantum ens, nec miraculose ulli finitae naturae esse communicabilem; nullum denique creatum agens in esse cuiuscumque effectus influere, nisi motione accepta a prima Causa (in A Filosofia Tomista em Portugal, Lello & Irmão, 1978, pp. 245-251).





terça-feira, 6 de julho de 2010

O silogismo «cornudo»

Escrito por Pinharanda Gomes





Mendes dos Remédios, Oliveira Salazar e António Ferro



Acerca de um cidadão que foi o primeiro responsável pelo Governo de um estado durante quase meio século, milagre ou fenómeno seria que só houvesse motivos de regozijo, e idêntico fenómeno seria se houvesse apenas motivos de compunção, de indignação e de justa revolta. Quanto a Salazar, e segundo o que lemos e ouvimos, parece não dispormos de qualquer razão justa para o isentar seja de que culpa for. E, ainda quando o dedo lhe seja apontado à custa de anacronismo, ou de falta de rigor cronológico, dizem-me que ninguém leva a mal, isto é, se não teve culpa é como se a tivesse, de onde a injusta acusação carecer de relevo. Ocorre à mente o chamado sofisma absurdo, em que se confunde a categoria de tempo com a categoria de acção, a modos de quem diz: morreu quando bebia água; logo, morreu por beber água. Também havia o silogismo chamado «cornudo», com o qual a rapaziada se divertia a partir das aulas de Lógica, efectuando múltiplas variações, as mais inusitadas como seja: perdeste os cornos; ora, não tinhas cornos: logo, não perdeste os cornos. Ou seja, convocando o enigma peculiar ao falso silogismo: preso por ter cão, preso por não ter cão.

Em diversos lugares, os mais prestigiados, tem-se afirmado que a primeira Faculdade de Letras do Porto, criada em 1919, pelo então ministro da Instrução, o filósofo Leonardo Coimbra (que para tanto extinguiu a venerável faculdade coimbrã), foi extinta por Salazar em 1928. No 4º volume do Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, 1998, a páginas 360-361, na biografia do Poeta Adolfo Casais Monteiro, lá se escreve: «Frequentou a antiga e famosa Faculdade de Letras do Porto, que a ditadura de Salazar extinguiu» (sic). Ora, o que se considera um erro cronológico sem importância, torna-se um juízo ideológico condenável do ponto de vista do conhecimento histórico, e ainda mais grave, do ponto de vista ético, porque: a) se atribui a um sujeito um predicado que lhe não inere, como se afirmássemos que a água é vinho; b) se ensina, a leitores não necessariamente informados, um erro como se verdade fosse. Não me incumbe a defesa de Salazar, nem disponho de poder e de saber para refutar as exegeses que o situam no palco, como principal actor de todos os malefícios. E também, ele, decerto, não precisará de testemunhos exógenos, porque os documentos de chancelaria testificam a verdade. Julgo eu!

Basta prestar atenção à cronologia oficial, documentada pelo Diário do Governo e pela história, para se verificar que, entre os malefícios de que o Porto se pode queixar, o relativo à Faculdade de Letras não se confirma, a saber:

O decreto que extingue a Faculdade de Letras tem o n.º 15 365, a data de 12 de Abril de 1928, e foi publicado no Diário do Governo, n.º 85, 1.ª série, no dia 14 do mesmo mês e do mesmo ano, a páginas 922-923. O Governo tinha tomado posse dias antes, sob a presidência do general José Vicente de Freitas (falecido, 1952). O Ministério da Instrução fora entregue ao médico minhoto, portuense adoptivo, Alfredo Mendes de Magalhães (falecido, 1957), que chegou a presidente da Câmara do Porto em 1933. Salazar não fez parte deste governo, porque, e caminhando à retaguarda:


Em 1 de Junho de 1926, Salazar é indigitado para o Governo. Vai a Lisboa, e, no dia 3, o seu nome aparece no Diário do Governo como nomeado ministro das Finanças. Recusa a nomeação e, no dia 4, regressa a Coimbra. Após diversas tentativas de Mendes Cabeçadas, que chegou a deslocar-se a Coimbra, para obter de Salazar um «sim», consegue o que desejava, e Salazar tomou posse do Ministério das Finanças no dia 12 de Junho, mas, no dia 17 desse mês de 1926, solidário com os demais membros civis do Governo, que estavam descontentes com o filme governativo, renunciou e regressou de novo a Coimbra. Lá viveu, com pouco frequentes deslocações a Lisboa, na qualidade de presidente da Comissão de Contribuintes e Impostos, cargo que aceitara e lhe deu, sem dúvida, prática na análise das contas do Estado. E a situação de Salazar manteve-se até 27 de Abril de 1928, data em que, no seguimento de um processo cujos aspectos são irrelevantes para o caso, o Presidente Carmona, tendo obtido o «sim» de Salazar, o nomeou ministro das Finanças (Decreto n.º 15 409, de 27 de Abril de 1928, no Diário do Governo, n.º 95, 1.ª Série de 28.4.1928, a páginas 1075).

O decreto que extingue a faculdade portuense tem a data de 12 de Abril de 1928; o decreto que coloca Salazar nas Finanças tem a data de 27 de Abril de 1928. Presidente do Governo, general Vicente de Freitas; ministro da Instrução, José Alfredo Mendes de Magalhães. Salazar não fazia parte, nem teria ideia nessa data.

A ditadura de Salazar demorou um pouco mais a implantar-se.

Esclarecidas as datas, importa citar três factos:

O primeiro, que a criação da Faculdade de Letras do Porto, por Leonardo Coimbra, foi uma espinha atravessada na corporação universitária do Mondego. Professor na Faculdade de Direito, Salazar não foi pessoalmente afectado pelo decreto leonardino, mas, enquanto membro da universidade, cremos que foi solidário. O segundo: face ao radicalismo de decreto de Mendes de Magalhães, o Governo do qual Salazar já fazia parte, e apesar da miséria financeira, emite uma lei correctiva, o Decreto n.º 15 856 (Diário do Governo, n.º 186, 1.ª Série, 15.8.1928, a páginas 18-19), pela qual se permitiu o funcionamento da faculdade até à licenciatura do último aluno! Que foi o já falecido Dr. António Alvim, da freguesia lisboeta do Sacramento, que obteve a nota de dezasseis valores (1933).

Terceiro e último aspecto. Em 17 de Agosto de 1961, sendo ministro da Educação o ilustre professor Manuel Lopes de Almeida, o Governo atribuiu ao Porto uma nova faculdade. Talvez pelo desejo de uma colagem à fausta história da primeira. Impossível: se o decreto da fundação quisesse restaurar, seria como dar o ámen à faculdade leonardina, de que, enquanto coimbrão, Salazar teria algum pejo; e, corolário do que nos aparece, é o articulado do Decreto n.º 45 864 (Diário do Governo, n.º 190, 1.ª Série, 17.8.1961). Esse articulado não diz restaurar, antes reza «... criando a Faculdade de Letras do Porto...». Salazar não restaura; cria, como se antes nada tivesse havido. Esperemos então que, por força d'O Diabo, já que outros seres não o conseguiram, não se volte a repetir, em escritos de pessoas responsáveis, o que não passa de um ostensivo erro de cronologia, suspeitável de intencionalidade... («Os malefícios de Salazar ao Porto», in O Diabo, 4 de Julho de 2000).


Porto, Cidade Invicta



sábado, 3 de julho de 2010

O pensamento português está contra o marxismo

Entrevista a Orlando Vitorino





Formado em Histórico-Filosóficas e Filologia, Orlando Vitorino é, sem dúvida, um dos maiores pensadores do [passado] século, definição que, além de verdadeira, fará crescer o interesse do leitor pela entrevista de hoje, a segunda subordinada ao título genérico de «Em busca da identidade nacional através da Filosofia Portuguesa».

Sobre o pensamento político português, uma manifestação da filosofia quando aquele tem esta como mãe e mestra, escutemos Orlando Vitorino, filósofo nascido em Trancoso, terras de Bandarra e de muralhas graníticas desafiadoras do tempo, autor de várias obras fundamentais, sendo de destacar a «Exaltação da Filosofia Derrotada» e a «Refutação da Filosofia Triunfante».

Esclarecido, polémico e profundo, o discurso filosófico de Orlando Vitorino, aqui expresso nas nossas edições de hoje e amanhã, abre caminhos para o pensamento português comum, tantas vezes alvo e vítima dos vendavais capazes de o fazerem ter a nuvem por Juno, sintoma de uma época demasiado pródiga em armadilhas mentais como o é a que atravessamos.




Acção política não coincide com pensamento


CM – Existe, na verdade, um pensamento político português?

O.V. – Não pode deixar de existir um pensamento político português, pois não pode existir Pátria ou Nação sem haver um pensamento. Pode existir uma Nação sem pensamento mas depressa se evanesce se não possuir um pensamento próprio.

O que acontece, em Portugal, é que o pensamento político português encontra-se dissociado do pensamento que preside à actual acção política.

Houve um período, desde o início da Nacionalidade até à época final dos Descobrimentos, em que o pensamento português coincidiu com a acção política.

A principal expressão dessa coincidência encontra-se no Rei D. Duarte, com o seu «Leal Conselheiro», um livro admirável, uma obra que os portugueses têm sido obrigados, propositadamente, a não conhecer. Basta dizer que o «Leal Conselheiro» só foi editado no século XIX.

No entanto trata-se do livro criador daquela aristocracia que deu origem à governação de Portugal conducente aos Descobrimentos.

CM – Já existiam, nesse tempo, forças contrárias ao Pensamento português?

O.V. – Sem dúvida. O próprio D. Duarte foi incitado pelo irmão, o famoso Infante D. Pedro, a impedir o Infante D. Henrique de prosseguir os trabalhos e os estudos necessários às descobertas.

O Infante D. Pedro é uma espécie de representante da CEE no século XIV. Ele escreveu a célebre carta de Bruges, na qual aconselhava D. Duarte a contrariar a obra de D. Henrique, andando pela Europa e procurando integrar Portugal nesse espaço geográfico, político e filosófico, impedindo a expansão marítima.




CM – Tivemos outros «delegados» da CEE nesses tempos?

O.V. – Damião de Góis é outro desses inimigos do pensamento nacional. Viveu a maior parte da sua vida nesses países que são, hoje, a Comunidade Económica Europeia e veio para Portugal com a finalidade de escrever umas crónicas e outros textos, nos quais representa uma posição contrária à do pensamento português que tinha feito Portugal.

Opõe-se, por exemplo, a João de Barros, contemporâneo seu, que dirigia os Descobrimentos na altura, como feitor da Casa da Índia. João de Barros possuía um conhecimento não só teórico como directo do que seria a essência de Portugal, e sobre isso escreveu as famosas «Décadas da Ásia», as que restam de uma obra que teria projectado, ou até teria escrito, incluindo as «Décadas da Europa», as «Décadas da África» e as «Décadas de Santa Cruz».

Escreveu, igualmente, livros de filosofia, um deles com o título «Tratado das Causas», o que significa ter sido um livro sobre o que há de mais essencial na filosofia. Estes tratados também desapareceram, sem deixar rasto, pois quem venceu o conflito foram os partidários do pensamento não português.


Sempre tivemos delegados da CEE


CM – Essa linha de ataque contra o Pensamento português, desde o Infante D. Pedro a Damião de Góis, teve continuação?

O.V. – Não só teve continuação como se desenvolveu, através de toda a decadência de Portugal iniciada no século XVI, quer com os «estrangeirados» do século XVIII, quer com o seu último representante, o António Sérgio, passando por homens como Oliveira Martins, Luís António Verney, etc.

Todos eles tiveram e emitiram uma má opinião de Portugal.

CM – Podemos considerar a época governativa do Marquês de Pombal como um período de grande avanço do pensamento antiportuguês?

O.V. – Está provado que o Marquês de Pombal promoveu, até, uma separação institucional entre o pensamento político da acção exercida e o pensamento político português.

Isto verificou-se, por exemplo, na sua reforma da Universidade, que ainda hoje vigora, pois a nossa Universidade continua sendo pombalina... Foi uma Universidade feita sob o signo da abolição da filosofia substituindo-a, apenas, pelo iluminismo.





CM – Assim, somos obrigados a pensar que 1820 não passa de mais uma ofensiva daquilo a que poderemos chamar pensamento antiportuguês?

O.V. – Foi a realização, em termos de acção política, de algo que já vinha de antes e frutificou sob esse aspecto de chamar liberalismo ao que não era liberalismo mas, apenas, um pensamento francês.

Depois, em 1870, esse liberalismo acaba por ser substituído pelo positivismo como doutrina, digamos, oficial, tendo segregado o pensamento português no ensino, nas instituições e na acção política.

Naturalmente, do positivismo transita-se para o marxismo e, actualmente, caso se possa chamar pensamento ao marxismo – pois trata-se mais de uma ideologia que de um pensamento – é esse marxismo que domina as instituições portuguesas e, sobretudo, domina toda a organização do nosso ensino.


A ingenuidade dos partidos não marxistas


CM – Mas nem todos os partidos, da actual democracia, defendem o marxismo.

O.V. – Três desses partidos dizem-se não marxistas, no entanto o marxismo, até pela mão destes três partidos, é imposto, mantido e desenvolvido em todos os sectores da vida nacional, sobretudo no ensino.

A ingenuidade desses três partidos provém, totalmente, da ignorância em que eles se encontram sobre o que vem a ser a vida do Espírito e do pensamento. Por isso o partido actualmente do Poder, Partido Social-Democrata, está convencido – afirmando-o até com grande satisfação – de que erradicou o marxismo do ensino da História e da Filosofia oficiais.

O ridículo desta situação consiste no facto de julgar ter abolido o marxismo do ensino só por ter mandado cortar, dos compêndios da História, o capítulo sobre esta ideologia. Ora toda a estrutura do ensino, em todos os domínios, tanto na Filosofia como na História, é marxista e cortar esse capítulo até facilita mais a infiltração e a formação marxista das gerações...

CM – Perante tantos e tão grandes ataques, onde poderemos encontrar o pensamento português?

O.V. – Ao lado de toda esta acção política efectiva, comandada por um pensamento político estrangeiro, tem continuado a desenvolver-se o pensamento português. O que existe de patriótico em Portugal está concentrado, ou melhor, refugiado desde há dois ou três séculos no pensamento filosófico.

Esta linha de Filosofia Portuguesa vem, como lhe disse, de D. Duarte e mantém-se hoje. O seu maior desenvolvimento deu-se, até, no presente século, desde a obra de Sampaio Bruno até à obra de Álvaro Ribeiro e José Marinho.

CM – Voltemos à primeira metade deste século. Surge Oliveira Salazar com a sua ditadura antimarxista. Teria Salazar empregue, como orientação, o pensamento político português?

O.V. – Salazar não foi um pensador mas um pragmatista interessado, sobretudo, com os aspectos económicos e financeiros.

Óscar Carmona e Oliveira Salazar


Do mais tinha uma concepção moralista que procurou dar ao Governo que exerceu durante quase meio século.

CM – Não teve contactos com filósofos do pensamento português?

O.V. – Houve uma tentativa de aproximação com Leonardo Coimbra, depois do convite feito por António Ferro para o grande pensador português dar uma conferência no Teatro de S. Carlos.

A seguir à conferência António Ferro promoveu o encontro entre Leonardo Coimbra e Oliveira Salazar. Pouco se sabe de quanto foi dito nesse encontro, ao qual assistiram António Ferro e o jornalista Boavida Portugal. O primeiro nada disse, durante toda a sua vida, sobre o diálogo travado mas o segundo confidenciou, a algumas pessoas, ter o encontro começado de forma cordata mas descambado, depressa, numa discussão a chegar quase ao insulto. Tendo terminado com Salazar a perguntar a Leonardo Coimbra por que não escrevia romances em lugar de filosofia


Uma contradição capaz de ser compreendida


CM – Pode considerar-se o marxismo como uma doutrina dissolvente das Pátrias?

O.V. – O marxismo é um internacionalismo, evidentemente que um falso internacionalismo na faceta em que, actualmente, se manifesta. Não podemos esquecer tratar-se de uma ideologia assumida por um país, a União Soviética, e posto ao seu serviço.

À expansão do imperialismo soviético convém a desnacionalização dos outros países e povos, que essa despersonalização seja propagandeada e seja desejada.

O mesmo sucede, aliás, com os americanos, pois também eles fomentam, nos outros países, o predomínio do socialismo, apesar dos Estados Unidos serem um país capitalista.

Existe aqui uma contradição, mas uma contradição capaz de ser compreendida, pois o socialismo esvazia o carácter nacional e patriótico dos povos, substituindo-os por um jogo económico.

CM – O pensamento político português estará condenado a desaparecer, devido aos ataques desferidos pelo pensamento estrangeiro?

O.V. – Para que o pensamento português desapareça será necessário desaparecer Portugal.

Se tivermos confiança de que Portugal, apesar de tudo, prossiga – e Portugal apenas poderá prosseguir depois da crise que, actualmente, o afecta – só o poderá fazer com a Filosofia Portuguesa. De outro modo Portugal desaparecerá em breve, integrado em qualquer organização ou império.

CM – E a Filosofia Portuguesa tem força para sobreviver e ajudar Portugal a resistir?

O.V. – Com certeza. Temos o exemplo de Leonardo Coimbra, a figura central da Filosofia Portuguesa, que viveu nas condições mais hostis, mais desfavoráveis, e conseguiu ser o maior filósofo contemporâneo, não só de Portugal como de toda a Europa.

Leonardo Coimbra resistiu às maiores intrigas políticas, urdidas quer através dos partidos da época quer através do Parlamento.



Leonardo Coimbra



A força de uma Filosofia reside na verdade do pensamento por ela transmitido e, depois de Leonardo Coimbra, essa verdade de pensamento foi, pacientemente, sistematizada por um homem chamado Álvaro Ribeiro, tarefa a que entregou toda a sua vida, com ausência total da ambições e com sacrifício do seu bem-estar.

A escola de Filosofia Portuguesa está constituída, hoje, por um número suficiente de pessoas com grandes capacidades intelectuais, a ir desde jovens estudantes até aos discípulos directos de Álvaro Ribeiro (in Correio da Manhã, 4.12.86, texto de Victor Mendanha).


quinta-feira, 1 de julho de 2010

O maior dos genocídios

Escrito por Olavo de Carvalho




Cristo Redentor (Rio de Janeiro).



O Globo, 9 de setembro de 2000

Quando escrevi - na revista Época - que no Brasil o grupo mais discriminado eram os cristãos, nada disse sobre as perseguições que sofriam em escala mundial. Digo agora: nenhuma comunidade humana ofereceu mais vítimas à sanha assassina dos totalitários do que a Igreja cristã. Só na Ucrânia os mortos na perseguição religiosa chegaram a 4 milhões. É impossível um calculo global exato, mas, entre as revoluções francesa, russa, mexicana, espanhola, chinesa e cubana, o número de cristãos que pereceram nas mãos do regime que professou, nas palavras de Lênin, “extirpar o cristianismo da face da Terra”, não foi inferior a 15 milhões.

Se isso não foi o mais vasto genocídio da História, a aritmética elementar foi revogada.

A maioria dessas vítimas eram ortodoxos, mas a Igreja de Roma não saiu ilesa: em “Catholic Martyrs of the Twentieth Century: A Comprehensive World History” (New York, Crossroad Publishing, 2000), o historiador Robert Royal mostra que pelo menos um milhão de católicos foram sacrificados no altar do comunismo.

Esse fato só é ignorado do público graças à omissão proposital da hierarquia romana e dos intelectuais católicos. Estes são hoje um dos esteios da revolução comunista que, partindo da Colômbia, ameaça alastrar-se por toda a América Latina. Mas não se pode dizer que sua escolha seja individual e extra-oficial. Em 1962, na cidade francesa de Metz, emissários do Vaticano e do governo de Moscou assinaram um acordo secreto pelo qual a Igreja se comprometia a não fazer, durante o Concílio Vaticano II, nenhuma condenação ao comunismo. O pacto, inicialmente desmentido pelas autoridades vaticanas, foi revelado pelo arcebispo de Metz e depois confirmado por “La France Nouvelle”, boletim do Partido Comunista Francês, pelo diário católico “La Croix” e pelo próprio cardeal Tisserant, encarregado pela Igreja de assinar o documento e zelar pela sua aplicação.

Daí por diante, todas as acomodações e cumplicidades com os assassinos de cristãos tinham, por assim dizer, a chancela conciliar. Mesmo a CNBB, entidade dedicada à glamurização beata do comunismo, não pode ser acusada de desobediência.

Por isso é que, mais exatas ou menos exatas, as acusações ciclicamente repetidas de que o Vaticano foi omisso ante as perseguições de judeus não me espantam: por que é que o pastor há de proteger as ovelhas do vizinho, quando com tanta solicitude entrega ao lobo as suas próprias?

Cúpula da Basílica de São Pedro


Os judeus, ao organizar-se mundialmente para preservar a memória de seus mortos, fizeram algo mais do que agir na defesa de seu próprio direito: agiram no interesse da espécie humana, fazendo da insistente rememoração dos horrores da II Guerra um baluarte contra a revivescência do totalitarismo nazista. Cumpriram seu dever para com todos nós que, nascidos depois do Holocausto, poderíamos ter-nos deixado enganar pelas promessas de novos tiranos salvadores se a memória de seus feitos hediondos tivesse se apagado com o tempo em vez de nos ferir os olhos e alertar o coração a cada vez que nos chegam novos e novos documentos sobre esses fatos.

Contra o comunismo os judeus também não se calaram. Devemos a autores judeus algumas das primeiras e mais dramáticas revelações dos horrores por trás da Cortina de Ferro. Arthur Koestler, ex-agente do Comintern, tornou-se objeto de ódio mundial dos comunistas ao descrever a técnica da destruição psicológica dos acusados nos Processos de Moscou. Menahem Begin deu-nos o conhecimento do que se passava nos campos de concentração soviéticos na época em que Stalin brilhava nas telas do Ocidente como a melhor alternativa a Hitler.

E não pensem que, ao revelar essas coisas, eles tentem poupar os membros da sua própria comunidade envolvidos em cumplicidade com o comunismo. Ainda recentemente, os editores dos escritos do rabino Itzhak Schneerson, o grande líder espiritual preso, torturado e exilado pelos comunistas, não hesitaram em denunciar que entre os mais ferozes repressores do judaísmo na Rússia estavam os membros da famigerada Seção Judaica do Partido Comunista, que se prevaleciam de suas ligações de língua e parentesco para servir de espiões e desmantelar a comunidade judaica por dentro.

Por que os católicos não têm idêntica coragem de cortar na própria carne para expelir do seu meio os devotos de São Guevara? Será que estes se tornaram maioria entre os fiéis, como já o são na CNBB?

Mas o exemplo de coragem não vem só dos judeus. Vem também dos protestantes, como o pastor Richard Wurmbrand. Este notável homem espiritual romeno teve destino análogo ao do rabino Schneerson: 16 anos de cárcere, incontáveis torturas depois confirmadas por uma comissão médica da ONU. Espantado com a ênfase mais anti-religiosa do que anticapitalista da propaganda comunista na prisão, ao ver-se livre ele se dedicou a pesquisas históricas que resultaram na descoberta de que Karl Marx nem sempre fora um adepto do materialismo, mas andara metido num culto satanista e, segundo depoimento de sua empregada e amante Helene Demuth, fazia estranhos ritos dentro de casa. Publicados estes achados em “Marx and Satan” (Bartlesville, Oklahoma, The Voice of the Martyrs, 1986), o livro tornou-se um sucesso de distribuição clandestina nos países comunistas, ao mesmo tempo que, no Ocidente, os intelectuais de esquerda, inclusive católicos, faziam o possível para abafar sua difusão e a discussão séria de suas revelações.



De que adianta proclamar que o catolicismo tem o monopólio da salvação, se tantos e tão ilustres são entre os católicos os que servem ao império da danação?