terça-feira, 20 de julho de 2010

A Fé e a Razão (i)

Escrito por Karol Wojtyla (João Paulo II)








1. As etapas significativas do encontro entre a fé e a razão

Os Actos dos Apóstolos testemunham que o anúncio cristão se encontrou, desde o início, com as correntes filosóficas do tempo. Lá se refere a discussão que S. Paulo teve com «alguns filósofos epicuristas e estóicos» (17, 18). A análise exegética do discurso no Areópago destacou repetidas alusões a ideias populares, predominantemente de origem estóica. Certamente, isso não se deu por acaso; os primeiros cristãos, para se fazerem compreender pelos pagãos, não podiam citar apenas «Moisés e os profetas» nos seus discursos, tinham de servir-se também do conhecimento natural de Deus e da voz da consciência moral de cada homem (cf. Rm 1, 19-21; 2,14-15; Act 14, 16-17). Como, porém, na religião pagã, esse conhecimento tinha degenerado em idolatria (Rm 1, 21-32), o Apóstolo considerou mais prudente ligar o seu discurso ao pensamento dos filósofos, que desde o início tinham contraposto, aos mitos e cultos mistéricos, conceitos mais respeitadores da transcendência divina.

De facto, um dos cuidados que levaram mais a peito os filósofos do pensamento clássico, foi purificar de formas mitológicas a concepção que os homens tinham de Deus. Bem sabemos que a religião grega, como grande parte das religiões cósmicas, era politeísta, chegando a divinizar até coisas e fenómenos da natureza. As tentativas do homem para compreender a origem dos deuses e, nestes, a do universo tiveram a sua primeira expressão na poesia. As teogonias permanecem, até hoje, o primeiro testemunho desta investigação do homem. Os pais da filosofia tiveram por missão mostrar a ligação entre a razão e a religião. Estendendo o olhar para os princípios universais, deixaram de contentar-se com os mitos antigos e procuraram dar fundamento racional à sua crença na divindade. Abriu-se assim uma estrada que, saindo das antigas tradições particulares, levava a um desenvolvimento que correspondia às exigências da razão universal. O fim em vista era a verificação crítica daquilo em que se acreditava. A primeira a ganhar com esse caminho feito foi a concepção da divindade. As superstições acabaram por ser reconhecidas como tais, e a religião, pelo menos em parte, foi purificada pela análise racional. Foi nesta base que os Padres da Igreja instituíram um diálogo fecundo com os filósofos antigos, abrindo o caminho ao anúncio e à compreensão do Deus de Jesus Cristo.

Já que se menciona este movimento de aproximação dos cristãos à filosofia, importa recordar a cautela com que eles olhavam para outros elementos do mundo cultural pagão, por exemplo, a gnose. A filosofia, enquanto sabedoria prática e escola de vida, podia ser facilmente confundida com um conhecimento de tipo superior, esotérico, reservado a poucos iluminados. É, sem dúvida, a especulações esotéricas deste género que alude S. Paulo, quando adverte os Colossenses: «Procurai que ninguém vos engane com vãs e falsas filosofias, fundadas nas tradições humanas, nos elementos do mundo, e não em Cristo» (2,8). São bem actuais estas palavras do Apóstolo, se referidas às diversas formas de esoterismo que hoje se difundem mesmo entre alguns crentes, privados do necessário sentido crítico! Seguindo as pegadas de S. Paulo, outros escritores dos primeiros séculos, designadamente Santo Ireneu e Tertuliano, puseram reservas a uma orientação cultural que pretendia subordinar a verdade da Revelação à interpretação dos filósofos.



São Gregório Palamas



Como vemos, o encontro do cristianismo com a filosofia não foi fácil nem imediato. O exercício desta e a frequência das respectivas escolas foi vista pelos primeiros cristãos mais como transtorno, do que como uma oportunidade. Para eles, a primeira e mais urgente missão era o anúncio de Cristo ressuscitado, que havia de ser proposto num encontro pessoal, capaz de levar o interlocutor à conversão do coração e ao pedido do Baptismo. De qualquer modo, tal não significa que ignorassem a obrigação de aprofundar a compreensão da fé e as suas motivações; pelo contrário. É injusta e improcedente a crítica de Celso, ao acusar os cristãos de serem gente «iletrada e rude» (1). A explicação deste seu desinteresse inicial tem de ser procurada noutro lado. Na realidade, o encontro com o Evangelho oferecia uma resposta tão satisfatória à questão do sentido da vida, até então insolúvel, que frequentar os filósofos parecia-lhes coisa sem interesse e, em certos aspectos, superada.

Hoje, isto é ainda mais claro, se pensarmos no contributo dado pelo cristianismo, ao defender o acesso à verdade como um direito universal. Derrubadas as barreiras raciais, sociais e sexuais, o cristianismo tinha anunciado, desde as suas origens, a igualdade de todos os homens perante Deus. A primeira consequência deste conceito registou-se no tema da verdade, ficando decididamente superado o carácter elitista que a busca da mesma tinha no pensamento dos antigos: se o acesso à verdade é um bem que permite chegar a Deus, todos devem estar em condições de poder percorrer este caminho. As vias para chegar à verdade continuam a ser muitas; mas, dado que a verdade cristã tem valor salvífico, cada uma delas só pode ser percorrida se conduzir à meta final, ou seja, à revelação de Jesus Cristo.

Como pioneiro dum encontro positivo com o pensamento filosófico, sempre marcado por um prudente discernimento, há que recordar S. Justino. Apesar da grande estima que continuava a ter pela filosofia grega, depois da sua conversão, afirmava decidida e claramente que tinha encontrado, no cristianismo, «a única filosofia segura e vantajosa» (2). De maneira semelhante, Clemente de Alexandria chamava ao Evangelho «a verdadeira filosofia» (3), e, por analogia com a lei mosaica, via a filosofia como uma instrução propedêutica à fé cristã (4) e uma preparação para o Evangelho (5). Uma vez que «a filosofia anseia por aquela sabedoria que consiste na rectidão da alma e da palavra e na pureza da vida, está aberta à sabedoria e tudo faz para a alcançar. No nosso meio, designam-se por filósofos os que amam a sabedoria que é criadora e mestra de tudo, isto é, o conhecimento do Filho de Deus» (6). Segundo este pensador alexandrino, a filosofia grega não tem como primeiro objectivo completar ou corroborar a verdade cristã; a sua função é, sobretudo, a defesa da fé: «A doutrina do Salvador é perfeita em si mesma e não precisa de apoio, porque é a força e a sabedoria de Deus. A filosofia grega não torna mais forte a verdade com o seu contributo, mas, porque torna impotente o ataque da sofística e desarma os assaltos traiçoeiros contra a verdade, foi justamente chamada sebe e muro de vedação da vinha» (7).






Entretanto, na história deste desenvolvimento, é possível verificar a assunção crítica do pensamento filosófico por parte dos pensadores cristãos. No meio dos primeiros exemplos encontrados, sobressai, sem dúvida, Orígenes. Contra os ataques lançados pelo filósofo Celso, recorre à filosofia platónica para argumentar e responder-lhe. Citando vários elementos do pensamento platónico, começa a elaborar uma primeira forma de teologia cristã. Naquele tempo, a própria designação de teologia e a sua concepção ainda estavam ligadas à sua origem grega. Na filosofia aristotélica, por exemplo, o termo designava a parte mais nobre e o verdadeiro apogeu do discurso filosófico. Mas, à luz da revelação cristã, o que anteriormente indicava uma doutrina genérica sobre a divindade, passou a assumir um significado totalmente novo, ou seja, a reflexão que o crente realiza para exprimir a verdadeira doutrina acerca de Deus. Este pensamento cristão, que era novo e que estava a desenvolver-se, servia-se da filosofia mas, ao mesmo tempo, tendia a distinguir-se nitidamente dela. A história revela que o próprios pensamento platónico, quando foi assumido pela teologia, sofreu profundas transformações, especialmente em conceitos como a imortalidade da alma, a divinização do homem e a origem do mal.

Nesta obra de cristianização do pensamento platónico e neoplatónico, merecem particular menção os Padres Capadócios, Dionísio chamado o Areopagita e sobretudo Santo Agostinho. O grande Doutor ocidental contactara diversas escolas filosóficas, mas todas o tinham desiludido. Quando se lhe deparou a verdade da fé cristã, teve a força de realizar aquela conversão radical a que os filósofos, anteriormente contactados, não tinham conseguido induzi-lo. Ele próprio confessa o motivo: «Preferindo a doutrina católica, já sentia, então, que era mais razoável e menos enganoso sermos obrigados a crer o que não demonstrava, quer houvesse prova, ainda que esta não estivesse ao alcance de qualquer pessoa, quer a não houvesse. Seria isto mais sensato do que zombarem da crença os maniqueístas, apoiados em temerária promessa de ciência, para depois nos mandarem acreditar em inúmeras fábulas tão absurdas que as não podiam provar» (8). Quanto aos platónicos, que ocupavam lugar privilegiado nos pontos de referência de Agostinho, este censurava-os porque, embora conhecessem o fim para onde se devia tender, tinham, ignorado o caminho que para lá conduzia: o Verbo encarnado (9). O Bispo de Hipona conseguiu elaborar a primeira grande síntese do pensamento filosófico e teológico, nela confluindo correntes do pensamento grego e latino. Também nele a grande unidade do saber, que tinha o seu fundamento no pensamento bíblico, acabou por ser confirmada e sustentada pela profundidade do pensamento especulativo. A síntese feita por Santo Agostinho permanecerá como a forma mais elevada de reflexão filosófica e teológica que o Ocidente, durante séculos, conheceu. Com uma história pessoal intensa e ajudado por uma admirável santidade de vida, foi capaz de introduzir, nas suas obras, muitos dados que, apelando à experiência, antecipavam já futuros desenvolvimentos de algumas correntes filosóficas.

Atenas



Jerusalém


De diversas formas, pois, os Padres do Oriente e do Ocidente entraram em relação com as escolas filosóficas. Isto não significa que tenham identificado o conteúdo da sua mensagem com os sistemas a que faziam referência. A pergunta de Tertuliano: «Que têm em comum Atenas e Jerusalém? Ou, a Academia e a Igreja?» (10), é um sintoma claro da consciência crítica com que os pensadores cristãos encararam, desde as origens, o problema da relação entre a fé e a filosofia, vendo-o globalmente, nos seus aspectos positivos e nas suas limitações. Não eram pensadores ingénuos. Precisamente porque viviam de forma intensa o conteúdo da fé, conseguiam chegar às formas mais profundas da reflexão. Por isso, é injusto e redutor limitar o seu trabalho a mera transposição das verdades da fé para categorias filosóficas. Fizeram muito mais; conseguiram explicitar plenamente o que era ainda implícito e preliminar no pensamento dos grandes filósofos antigos (11). Estes, conforme já disse, tiveram a função de mostrar o modo como a razão, livre dos vínculos exteriores, podia escapar do beco sem saída dos mitos, para melhor se abrir à transcendência. Uma razão purificada e recta era capaz de se elevar aos níveis mais elevados da reflexão, dando fundamento sólido à percepção do ser, do transcendente e do absoluto.

Aqui mesmo se insere a novidade operada pelos Padres. Acolheram a razão na sua plena abertura ao absoluto e, nela, enxertaram a riqueza vinda da Revelação. O encontro não foi apenas questão de culturas, uma das quais talvez seduzida pelo fascínio da outra; mas verificou-se no íntimo da alma, e foi um encontro entre a criatura e o Criador. Ultrapassando o fim mesmo, para o qual inconscientemente tendia por força da sua natureza, a razão pôde alcançar o sumo bem e a suma verdade na pessoa do Verbo encarnado. Ao encararem as filosofias, os Padres não tiveram medo de reconhecer os elementos comuns e as diferenças que elas apresentavam relativamente à Revelação. A percepção das convergências não ofuscava neles o reconhecimento das diferenças.

Na teologia escolástica, o papel da razão educada filosoficamente torna-se ainda mais notável sob o impulso da interpretação anselmiana do intellectus fidei. Segundo o santo Arcebispo de Cantuária, a prioridade da fé não faz concorrência à investigação própria da razão. De facto, esta não é chamada a exprimir um juízo sobre os conteúdos da fé; seria incapaz disso, porque não é idónea. A sua tarefa é, antes, saber encontrar um sentido, descobrir razões que a todos permitam alcançar algum entendimento dos conteúdos da fé. Santo Anselmo sublinha o facto de que o intelecto deve pôr-se à procura daquilo que ama: quanto mais ama, mais deseja conhecer. Quem vive para a verdade, tende para uma forma de conhecimento que se inflama num amor sempre maior por aquilo que conhece, embora admita que ainda não fizera tudo o que estaria no seu desejo: «Ad te videndum factus sum; et nondum feci propter quod factus sum» (12). Assim, o desejo da verdade impele a razão a ir sempre mais além; esta fica como que embevecida ao verificar que a sua capacidade é sempre maior do que aquilo que alcança. Chegada aqui, porém, a razão é capaz de descobrir onde está o termo do seu caminho: «Penso efectivamente que, quem investiga uma coisa incompreensível, se deve contentar com chegar, pela razão, a reconhecer com a máxima certeza a sua existência real, embora não seja capaz de penetrar, pela inteligência, o seu modo de ser (...). Aliás, que há de tão incompreensível e inefável como aquilo que está acima de tudo? Portanto, se aquilo de cuja essência suprema discutimos até agora ficou estabelecido sobre razões necessárias, ainda que a inteligência não o possa penetrar de forma a conseguir traduzi-lo em palavras claras, nem por isso vacila minimamente o fundamento da sua certeza. Com efeito, se uma reflexão anterior compreendeu de maneira racional que é incompreensível (rationabiliter comprehendit incomprehesibile esse) o modo como a sabedoria suprema sabe aquilo que fez (...), quem explicará como ela própria se conhece e exprime, dado que sobre ela o homem nada ou quase nada pode saber?» (13).



João Paulo II



Confirma-se assim, uma vez mais, a harmonia fundamental entre o conhecimento filosófico e o conhecimento da fé: a fé requer que o seu objecto seja compreendido com a ajuda da razão; por sua vez a razão, no apogeu da sua indagação, admite como necessário aquilo que a fé apresenta» (in Carta Encíclica Fides et Ratio, do Sumo Pontífice João Paulo II, Edições Paulinas, 1998, pp. 51-60).


Notas:

(1) ORÍGENES, Contra Celso 3, 55: SC 136, 130.

(2) Diálogo com Trifão, 8, 1: PG 6, 492.

(3) Stromata I, 18, 90, 1: SC 30, 115.

(4) cf. ibid. I, 16, 80, 5: SC 30, 108.

(5) cf. ibid. I, 5, 28, 1: SC 30, 65.

(6) ibid., VI, 7, 55, 1-2: PG 9, 277.

(7) ibid., I, 20, 100, 1: SC 30, 124.

(8) SANTO AGOSTINHO, Confessiones VI, 5, 7: CCL 77-78.

(9) cf. ibid. VII, 9, 13-14: CCL 27, 101-102.

(10) «Quid Ergo Athenis et Hierosolymis? Quid academiae et ecclesiae?» [De praescriptione hereticorum, VII, 9: SC 46, 98].

(11) cf. CONGR. DA EDUCAÇÃO CATÓLICA, Instr. sobre o estudo dos Padres da Igreja na formação sacerdotal (10 de Novembro de 1989), 25: AAS 82 (1990), 617-618.

(12) SANTO ANSELMO, Proslogion, 1: PL 158, 226.

(13) idem, Monologion, 64: PL 158, 210.



Jesus Cristo no Monte das Oliveiras



Continua


sábado, 17 de julho de 2010

Ignorando o essencial

Escrito por Olavo de Carvalho








Diário do Comércio, 3 de abril de 2009

Há alguns dados históricos elementares sobre o movimento comunista, ignorados pela maioria e mal conhecidos ou bem esquecidos pelas minorias letradas e dirigentes, sem os quais é impossível, literalmente impossível entender o que quer que seja da história recente. Se você procurar se informar a respeito e começar a levar esses dados em conta, verá quanta coisa obscura se esclarece automaticamente, sem necessidade de grande esforço interpretativo.

1. O comunismo foi e é, ao longo da história humana, o único – repito: o único – movimento político organizado em escala mundial, com ramificações e agentes nos lugares mais remotos do planeta, disciplinados e capacitados para entrar em ação de maneira imediata, coordenada e simultânea ao primeiro chamado de seus centros de comando.

2. Embora tendo a seu serviço uma quantidade enorme de organizações e partidos de massa, o comunismo é substancialmente um movimento clandestino, cujo comando e cujos planos de ação devem permanecer invisíveis aos profanos, mesmo nas épocas de legalidade em que várias organizações comunistas atuam publicamente sem sofrer a menor perseguição. O primado da elite clandestina sobre a liderança visível é, pelo menos desde Lênin, uma cláusula pétrea da estratégia comunista. É impossível compreender essa estratégia e as táticas que a implementam levando em conta somente a atuação ostensiva dos líderes comunistas mais visíveis em cada país, sem acesso às discussões internas e às conexões internacionais de cada organização.

3. O comunismo foi e é, em todo o mundo e em todas as épocas, o único movimento político que teve e tem a seu dispor recursos financeiros ilimitados, superiores às maiores fortunas conhecidas no Ocidente e aos orçamentos de muitos governos somados. Suas possibilidades de ação devem ser medidas na escala dos seus recursos.

4. Só uma parcela ínfima da atividade comunista consiste em propaganda doutrinária reconhecível direta ou indiretamente. A parte maior e mais significativa consiste em infiltrar-se e mesclar-se em toda sorte de organizações – partidos políticos (inclusive liberais e conservadores), mídia, sindicatos, empresas estatais e privadas, instituições culturais, educacionais, religiosas e de caridade, Forças Armadas, Maçonaria, a lista não tem fim – de modo a torná-las instrumentos da estratégia comunista e a controlar por meio delas toda a sociedade, fazendo do Partido “um poder onipresente e invisível” (a expressão é de Antonio Gramsci, mas a técnica existia desde muito antes dele). É pueril imaginar que, uma vez inseridos nessas entidades, os comunistas aí se dediquem a doutrinação ou proselitismo, como se fossem pastores protestantes espalhando o Evangelho entre infiéis. A arregimentação de todas as forças para que sirvam à estratégia comunista é um mecanismo tremendamente sutil e complexo, que envolve doses maciças de camuflagem e despistamento, com muitos lances paradoxais pelo caminho.



5. É tolice imaginar o comunismo como uma “doutrina” ou “ideal”, sobretudo quando se entende por isso a pregação aberta da abolição da propriedade privada. O movimento comunista nunca teve nem precisou ter qualquer unidade doutrinária, e já provou mil vezes sua capacidade de adaptar-se taticamente às fórmulas ideológicas mais díspares, de maneira sucessiva ou simultânea, desnorteando por completo o observador leigo (incluo nisto os políticos em geral e a quase totalidade dos intelectuais liberais e conservadores). Campanhas ateísticas as mais truculentas, por exemplo, coexistem pacificamente, no seio do movimento comunista, com o aproveitamento do discurso religioso como meio de atingir o coração das massas. Mutatis mutandis, a exploração dos sentimentos nacionalistas extremados vem lado a lado com o esforço de diluir as soberanias nacionais em unidades maiores, regionais ou mundiais, de modo que, por trás da cena, o movimento comunista se beneficia tanto das resistências patrióticas quanto do poder global em ascensão. A unidade do movimento comunista é de tipo estratégico e organizacional, não ideológico. O comunismo não é um conjunto de teses: é um esquema de poder, o mais vasto, fexível, integrado e eficiente que já existiu. Mesmo o radicalismo islâmico, hoje em rápida expansão, nada poderia sem o apoio da rede mundial de organizações comunistas.

6. Tolice maior ainda é imaginar que a oposição lógico-formal entre os conceitos abstratos de capitalismo e comunismo se traduza, na prática, em conflito mortal entre capitalistas e comunistas. À variedade de diferentes situações locais e temporais corresponde uma infinidade de nuances e transições, com um vasto espaço para os arranjos e cumplicidades mais estranhos em aparência (só em aparência). Ninguém entenderá nada do mundo histórico em que vive hoje se não tiver em conta a longa colaboração entre o movimento comunista e algumas das maiores fortunas do Ocidente, por exemplo Morgan, Rockefeller e Rothschild. Os livros clássicos a respeito são os do economista inglês Anthony Sutton, mas já em 1956 o Comitê Reece da Câmara de Representantes dos EUA levantou provas substanciais de que algumas fundações bilionárias estavam usando seus recursos formidáveis “para destruir ou desacreditar o sistema de livre empresa que lhes deu nascimento”. Essas fundações estão hoje entre os mais robustos pilares de suporte do governo socialista de Barack Hussein Obama.

O desconhecimento ou incompreensão desses fatos entre liberais e conservadores está na raiz de sua incapacidade de opor uma resistência séria à marcha triunfante do comunismo na América Latina. Muitos ainda acreditam, por exemplo, que será uma grande vitória da democracia obrigar as Farc a abandonar a luta armada para transformar-se em partido legal. Não entendem que criar uma força política reconhecida é, no fim das contas, o único objetivo da luta armada – na Colômbia ou em qualquer outro lugar. Guerrilhas não vencem guerras: tudo o que desejam é uma derrota politicamente vantajosa. Por isso, ao mesmo tempo que trocam tiros com as forças do governo, na selva e nas cidades, colocam seus agentes em postos-chave dos partidos esquerdistas legais, de onde clamam contra o derramamento de sangue e apelam dramaticamente ao retorno da legalidade. Fizeram isso no Brasil, fazem agora na Colômbia.

Enquanto os liberais e conservadores não obtiverem uma clara visão de conjunto do fenômeno enormemente complexo do comunismo, enquanto insistirem em se opor somente às facetas mais imediatas e repugnantes desse movimento, se não apenas às doutrinas comunistas consideradas abstratamente, estarão condenados à derrota mesmo quando se julgam vencedores.





O fato de que jamais tenha havido uma internacional anticomunista torna difícil para muitas pessoas obter essa visão de conjunto, que os próprios comunistas obtêm tão facilmente. Mas a ausência de suporte social não pode servir de desculpa para a preguiça intelectual. Há sempre algumas inteligências individuais capazes de raciocinar acima das perspectivas grupais, quando existem, ou sem elas, quando não existem. Nada justifica que essas inteligências permaneçam à margem das discussões públicas, deixando aos ignorantes o monopólio dos microfones. Neste como em todos os demais assuntos humanos, quem não estudou nada está cheio de certezas simplórias e as proclama com um ar de tremenda superioridade, sem perceber o papel ridículo que faz. Quem estudou fica às vezes parecendo maluco ou excêntrico, mas, afinal, para que é que alguém estuda, se não é para ficar sabendo de algo que a maioria não sabe?


quinta-feira, 15 de julho de 2010

Saramago e a "revolução cultural" (iii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte








3. «Apenas os cegos incuráveis – bem mais cegos do que Saramago terá sido ideologicamente – e os medíocres mais desprezíveis se atrevem a negar» que o autor de O Ano da Morte de Ricardo Reis foi «um dos maiores de toda a literatura portuguesa de todos os tempos». Aliás, «a intolerância política a que associamos Saramago revela-se quase inócua ao voltarmos a verificar, por ocasião da sua morte, o ódio furibundo que alguns dos seus inimigos lhe votavam, na miserável incapacidade de reconhecer a grandeza literária do escritor». Demais, num dos governos em que Cavaco Silva fora primeiro-ministro, a censura do livro O Evangelho segundo Jesus Cristo representou, qual espelho desse governo, «uma vergonha inédita em democracia», «impedindo-o de concorrer a um prémio internacional e invocando, para isso, a doutrina mais toscamente inquisitorial contra a liberdade de expressão e criação literária. Um subsecretário de Estado da Cultura (!), que se distinguiu pelo analfabetismo mais boçal, foi o autor do crime». Consequentemente, Aníbal Cavaco Silva, bem como o Secretário de Estado que tutelava «directamente o ridículo censor», «deixaram que esse crime cultural se consumasse». De resto,  Cavaco Silva não estava «à altura de zelar pelo património mais valioso de uma nação: a sua Cultura»; e podendo na morte de Saramago «reparar simbolicamente a falta» enquanto Presidente da República, não o fizera por «total incapacidade de ultrapassar uma visão estreitamente economicista e contabilística do país». Depois, temia «desagradar novamente as clientelas católicas mais conservadoras que o tinham criticado pela promulgação da lei do “casamento gay”». Em suma: «um homem minúsculo que não foi capaz de um gesto de grandeza institucional».


Refutação:

Quando alguém, alardeando a "grandeza literária" de Saramago, chama de “cegos incuráveis” a todos os que não perfilhem de suas afirmações ocas e vazias, é então que o feitiço se volta contra o feiticeiro. Seria então interessante saber como é que a cegueira e a militância comunistas de Saramago pudessem ser toleráveis quando comparadas com o inevitável «ódio furibundo que alguns dos seus inimigos lhe votavam» na hora da morte. Ou seria deveras interessante saber como a «doutrina mais toscamente inquisitorial contra a liberdade de expressão e criação literária» não fosse algo de particularmente inerente à cegueira ideológica instilada por Saramago ao longo de toda a sua odienta e ressentida existência.

É, pois, uma veleidade teatral que se recorra ao fantasma da Inquisição para acusar de censura a tomada de posição de um subsecretário da Cultura relativa à internacionalização de um libelo que é, para todos os efeitos, um exemplo confrangedor e acintoso de inusitada ignorância religiosa. Por outras palavras, a reacção de Sousa Lara parece ter apenas representado uma reserva moral perante um ataque descabelado ao património católico dos Portugueses, e, por sinal, tão sintomático da esquerda institucionalizada.


António Ferro



Oliveira Salazar entrega "O Prémio Camões 1937" ao escritor suíço Conde Gonzague de Reynold, autor do livro "Portugal".


Mais: alegar simplesmente que se tratou de uma censura inquisitorial é também branquear o facto de, em Portugal, existir uma planificação da cultura que, nos últimos quarenta anos, constitui apanágio do socialismo triunfante. E, já agora, é igualmente branquear a cultura que já no tempo de Salazar fora, com o Secretariado da Propaganda Nacional e, depois, com o Secretariado Nacional de Informação, subsidiada e premiada no cinema, no teatro, nas artes plásticas e na literatura à sombra de uma legislação de que muitos escritores enviesados extraíram os seus dividendos. Este processo remonta, aliás, ao Marquês de Pombal, que foi quem determinou, entre nós, o fenómeno da estatização política, económica e cultural.

Ora, Sebastião José, rindo-se dos dominicanos e dos apóstolos de Loyola, conservara o Tribunal da Inquisição «sinistramente influenciado», ordenando até que o tratassem por Sua Majestade a Inquisição. Ou seja «O dominicano que não podia, sem ordem do marquês, queimar em público, despedaçava a ocultas o judeu e o herege. Pombal era indiferente aos processos recônditos, contanto que não houvesse o escândalo do auto-da-fé, que ele, na sua depravada estupidez, atribuía aos jesuítas. D. Luís da Cunha tinha escrito a D. José, quando lhe pedia que admitisse ao ministério Sebastião José de Carvalho, que os estrangeiros escarneciam o hediondo espectáculo do auto-da-fé; mas o marquês só vinte e nove anos depois entrou nas ideias do seu amigo e mestre» (9)

Entretanto, não há dúvida de que os livros de Saramago foram propositadamente escritos e utilizados como arma de arremesso contra uma tradição que, não obstante os seus erros seculares, continua a merecer o maior respeito pelo património espiritual legado à humanidade. Logo, atendendo à expressão «analfabetismo boçal», vejamos então esse livro intitulado O Evangelho segundo Jesus Cristo. E vejamo-lo partindo do princípio de que, se o ateísmo é um analfabetismo do qual decorre a não menos boçal, grotesca e perversa forma de propaganda anticristã que é a vida sexual de padres e freiras, quão boçal, lassa e superficial não será, por seu turno, a suposta vida sexual de Jesus com a primeira mulher a ver Cristo depois da Ressurreição?

Ora, Saramago pinta essa mesma relação como um ensinamento sexual de Maria de Magdala a Jesus nos seguintes termos:

«Jesus calou-se e voltou a cara para o lado. Ela não o ajudou, podia ter-lhe perguntado, És virgem, mas deixou-se ficar calada, à espera. Fez-se silêncio, tão denso e profundo que parecia que apenas os dois corações soavam, mais forte e rápido o dele, o dela inquieto com a sua própria agitação, Jesus disse, Os teus cabelos são como um rebanho de cabras descendo das vertentes pelas montanhas de Gaalad. A mulher sorriu e ficou calada. Depois Jesus disse, Os teus olhos são como as fontes de Hesebon, junto à porta de Bat-Rabim. A mulher sorriu de novo, mas não falou. Então Jesus voltou lentamente o rosto para ela e disse, Não conheço mulher. Maria segurou-lhe as mãos, Assim temos de começar todos, homens que não conheciam mulher, mulheres que não conheciam homem, um dia o que sabia ensinou, o que não sabia aprendeu, Queres tu ensinar-me, Para que tenhas de agradecer-me outra vez, Dessa maneira, nunca acabarei de agradecer-te, E eu nunca acabarei de ensinar-te…».






Enfim, este trecho só revela a mais cabal ignorância sobre o amor físico, anímico e espiritual. Como tal, é, na melhor das hipóteses, baixo e torpe erotismo na medida em que, da mera e simples relação entre corpos, apela tão-só para a manipulação do ser humano reduzido à mais pura animalidade. Saramago desconhecia assim que o verdadeiro amor, não obstante a sua manifestação física, sentimental e psicológica, é essencialmente logóico ao permitir a transição da sexualidade dos corpos e do erotismo das almas para o amor entre espíritos.

Depois, Saramago também desconhecia que a felicidade se sublima pela renúncia e não pela posse. E que esse é precisamente o grande ensinamento ocidental no âmbito da paixão mítica entre Tristão e Isolda, posto que, sem entraves ao romance, a simples consumação física põe fim à magia amorosa. E daí a consagração do amor platónico no sentido de que, estar ao lado de quem se ama, é estar em contacto e proximidade profunda com a sua natureza espiritual.

De resto, a suposta relação carnal entre Jesus e Maria Madalena não decorre exclusivamente do Evangelho de Saramago. Ela, de facto, surgiria na sequência de certos escritores e divulgadores que, no século XIX, se debruçaram sobre Jesus e as origens do Cristianismo, entre os quais sobressai, no sentido historiográfico positivista, o escritor francês Ernesto Renan com o livro intitulado A Vida de Jesus (Origens do Cristianismo). Ora, este livro criara polémica e discussão internacionais ao esvaziar o cristianismo de toda a aura sobrenatural que o caracteriza, mais particularmente nestes termos:

«Que os Evangelhos são em parte lendários, isso é evidente, porque estão cheios de milagres e de sobrenatural; mas há lendas de lendas. Ninguém duvida das passagens principais da vida de S. Francisco de Assis, embora a sua história apresente a cada passo o sobrenatural. Pelo contrário, ninguém tem fé na – vida de Apolónio de Tiana – porque foi escrita muito depois do falecimento do herói e nas condições de puro romance. Em que época, por que mãos e em que condições foram redigidos os Evangelhos? Tal é a questão essencial de que pende a opinião que é mister formar da sua credibilidade» (10).

S. Francisco de Assis perante o Sultão.


Entretanto, em 1916, o anglo-irlandês George Moore apresentaria a história romanceada de Jesus em The Brook Kerith, na qual o Filho de Deus logra sobreviver ao suplício da cruz em virtude da solicitude e dos cuidados prestados por José de Arimateia. Apareceria depois, em 1946, o romance de Robert Graves intitulado King Jesus, que também retrata a sobrevivência de Cristo ao martírio da cruz. E, em 1954, surgiria A Última Tentação de Cristo, do grego Kikos Kazantzákis, em que Jesus desce da cruz e encontra Maria Madalena (11).

A relação erótica entre Jesus e Maria Madalena seria finalmente explorada numa vaga avassaladora de livros publicados sobre o Código Da Vinci, de Dawn Brown. Conteúdo do mesmo: negar a divindade de Cristo, conforme já sugerido e preconizado por autores como Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln em livros sensacionalistas como O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, de 1982, ou A Herança Messiânica, de 1984.

Deste modo, retratado Cristo como uma figura revolucionária destinada a perpetuar a Casa de David mediante a linhagem sagrada proveniente de Maria Madalena, eis, pois, o engodo mediático urdido contra a Igreja Católica e assaz propício a uma Nova Ordem Mundial anticristã. De facto, trata-se de uma campanha subterrânea que nem sequer alude aos livros maçónicos de Robert Ambelain, tais como A Vida Secreta de São Paulo, Os Pesados Segredos do Gólgota e Jesus ou o Mortal Segredo dos Templários. De resto, tais livros não só rejeitam a divindade de Jesus, como ainda preconizam a sua crucificação quando já quinquagenário, a existência de um irmão gémeo e a sua relação com as mulheres.






Por outro lado, está mais que visto que Saramago, política e religiosamente obtuso (12), era um caso perdido. Reduzia tudo ao aspecto demasiadamente humano: «… a transcendência é o olhar gerado pela consciência obsessiva da sua própria imanência» (in Cadernos de Lanzarote, III/IV, p. 55). E ao «dizer que ninguém é mais tolerante que um ateu», persistia na sua pequenez mental, como, a propósito do seu Evangelho, torna patente na resposta a um crítico (José Felicidade Alves) que o acusara de ter descrito Jesus como «um imbecil, um indeciso»:

«Que demónio de leitura terá ele feito do romance para concluir que fiz de Jesus um "imbecil"? Indeciso, talvez, pelas mesmas razões que um qualquer de nós o poderá ser diante de circunstâncias que nos excedam – e que maior excesso que ver-se um pobre ser humano às voltas com Deus? Mas "imbecil"? Será "imbecil" o rapazinho que discute com o escriba no Templo? Será "imbecil" o homem capaz de viver e partilhar um amor como o de Maria de Magdala? Será "imbecil" o taumaturgo que renuncia a ressuscitar Lázaro porque essa ressurreição não seria mais do que um truque, uma prestidigitação, uma demonstração gratuita do poder de Deus? Será "imbecil" o agonizante que, espetado na cruz aonde Deus o levou, lucidamente grita "Homens, perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez"? Agradeço-lhe o escrúpulo, mas já agora permito-me sugerir-lhe, se tiver paciência para tanto, que o leia uma terceira. Com a condição, se me permite também, de ir olhando mais para o homem que se chama Jesus e menos para o "Filho de Deus" que se vai chamar Cristo…» (in Cadernos de Lanzarote, III/IV, pp. 27-28).

Posto isto, vejamos agora a questão do genocídio praticado por regimes comunistas, tais como: China maoísta e nacionalista (Kuomintang), Vietname, Cambodja, Coreia do Norte, México, Cuba, Jugoslávia, outros mais. É pois caso para se dizer estarmos perante regimes desumanamente cruéis que já ultrapassam em muito os 100 milhões de mortos ou de vítimas indefesas. Aliás, Olavo de Carvalho, com base «no estudo mais completo já empreendido sobre assassinatos em massa no mundo» (13), relata-nos que o total de vítimas à conta dos governos revolucionários ronda, só no século XX, 205 milhões de mortos por contraste aos «episódios de democídio documentados desde o século III a. C. até o fim do século XIX», com um total aproximado de 133.147.000 vítimas. Quase o dobro em comparação com os 17 séculos anteriores, para só dar uma pequena imagem do sofrimento e do morticínio em causa.







Ora, face a tamanha evidência, Saramago limitava-se a rir e a proferir mentiras compulsivas e enormidades contraditórias como estas:

1. «União Soviética não é nem nunca foi, para mim, uma referência política» (Expresso, 2 de Novembro de 1991).

2. «Comunismo é um estado de espírito. Um dia participei no programa do Bernard Pivot [na televisão francesa] que veio com essa: “Como é que você ainda se considera comunista?” Disse espontaneamente: “Acontece que sou uma espécie de comunista hormonal. Da mesma maneira que a barba me cresce, há uma hormona que fez de mim isto, e não posso deixar de o ser. Pode dizer-me: depois disto que aconteceu, e isto e isto; de acordo, tudo isso aconteceu, e parece-me mal que tenha acontecido, e condeno quem o fez. Mas isso não me tira o direito, e o dever, de ser aquilo que sou”. Ele riu-se muito…» (Público, 7 de Novembro de 2008).


Comentário:

Assim, das duas uma: ou se perfilha uma ideologia que matou mais de 200 milhões de seres humanos sob o pretexto de ter havido um desvio acidental de percurso, ou, para além desse falso pretexto, se parte para a defesa ostensiva dessa mesma ideologia e sua respectiva prática revolucionária. Os dois trechos de Saramago acima referidos parecem ir ao encontro do antecedente da disjunção, mas, como provaremos já de seguida, é ao consequente que dizem particularmente respeito.

3. «[A ETA] … Passou à luta armada em 1960 e adoptou a ideologia marxista em 1965. (…) Suponho que duas palavras andam a confundir algumas consciências portuguesas: que a ETA é "socialista", que a ETA é "marxista". A ingenuidade tem limites. A ETA não é nem marxista nem socialista. Ou será socialista na medida em que o nacional-socialismo também dizia sê-lo. A mentalidade nazi reencarnou nos militantes (dirigentes ou não) da ETA, e a julgar pelo seu comportamento habitual, não anda longe dos dirigentes HB» (Visão, 24 de Julho de 1997).




É um manifesto absurdo começar por afirmar que a ETA adoptou a ideologia marxista para tão logo se negar tal facto por conta do suposto nazismo reencarnado nos «militantes (dirigentes ou não) da ETA». E assim é porque, em termos históricos, é um facto comprovado que o nacional-socialismo representou uma combinação de nacionalismo e internacionalismo, isto é, os nazis são, em grande parte, a versão dissidente do marxismo-leninismo, uma vez que, desde os anos trinta até ao pacto germano-russo (1940), os comunistas e os nazis trabalharam em conjunto para levarem a cabo uma cultura de genocídio. Mais: foram os nazis que adoptaram os campos de concentração criados pelos comunistas, assim como foram eles que, como já vimos, se inspiraram nas organizações e nos movimentos totalitários orquestrados pelos comunistas do Leste europeu e, só depois, transferidos para a Europa central, como é o caso da Alemanha, ou para o Sul mediterrânico, como é o caso da Itália. Logo, separar nazismo e comunismo, como faz Saramago, é, no mínimo, ou pura ignorância ou pura propaganda com vista a uma desinformação generalizada.

4. «Leio nos jornais que Do Muoi, secretário-geral do Partido Comunista do Vietname, declarou, na abertura do congresso da associação de escritores de lá, que a arte e a literatura devem permanecer sob a orientação do Partido, que "a liberdade de criação literária e artística é a liberdade de servir o povo, que a literatura nunca está separada da política". Pergunta minha, urgente: não há por aí ninguém que vá explicar a este homem que acaba de precipitar-se, cabeça, tronco e membros, no mesmo fatal engano em que tropeçaram e se afundaram outros dirigentes comunistas, com as conhecidas consequências? A revolução vietnamita, será inútil dizê-lo, é merecedora de toda a admiração e de todo o respeito [o negrito é nosso], mas não é assim que a defenderão. Diz Do Muoi que as artes são um factor importante na guerra que o Vietname mantém "contra as forças hostis que tentam desunir-nos para acabar com o nosso regime". Como vivo neste mundo, não duvido nada da existência de tais forças hostis, nem de que seja esse o seu objectivo, mas verifico, uma vez mais, que a História, por muito que se esforce, não encontra quem seja capaz de receber-lhe as lições a tempo e horas. O resultado destes e semelhantes comportamentos tem sido perderem-se as literaturas e as revoluções» (in Cadernos de Lanzarote, III/IV, pp. 62-63).


Comentário:

A revolução vietnamita é tão «merecedora de toda a admiração e de todo o respeito», apregoa Saramago omitindo o número de mortos que causou, a saber: 1.670.000 mortos entre 1945 e 1987. Ora, coisa ínfima para um comunista como Saramago, pois, como dizia Lenine, fazendo sua a sentença de Heraclito: «Não esqueceis que a guerra é a rainha do universo!» Ou ainda aquela sentença que, de sua lavra, o próprio Lenine preconizara perante quem censurara o sacrifício inaudito de milhares de vidas para triunfo do império russo: «Que importa! Racha-se a lenha: saltam cavacos! Ainda que fosse preciso empregar dez milhões de corpos humanos na edificação do comunismo, sobejariam os suficientes para povoar o nosso território». Por fim, quanto à existência de forças hostis ao regime comunista do Vietname, convém não esquecer como os activistas contra a guerra do Vietname também foram efectivamente mobilizados no plano interno dos Estados Unidos por agentes de infiltração subversiva em prol do comunismo.


Che Guevara



5. «Não importa que retrato. Um qualquer: sério, sorrindo, de arma na mão, com Fidel ou sem Fidel, discursando nas Nações Unidas, ou morto, de tronco nu e olhos entreabertos, como se do outro lado da vida ainda quisesse acompanhar o rasto do mundo que teve de deixar, como se não se resignasse a ignorar para sempre os caminhos das infinitas crianças que estavam por nascer. Sobre cada uma destas imagens poder-se-ia discorrer profusamente, de um modo lírico ou de um modo dramático, com a objectividade prosaica do historiador ou simplesmente como quem se dispôs a falar do amigo que percebe ter perdido porque o não chegou a conhecer.

Ao Portugal infeliz e amordaçado de Salazar e de Caetano chegou um dia o retrato clandestino de Ernesto Che Guevara, o mais célebre de todos, aquele feito com manchas fortes de negro e de vermelho, que se tornou em imagem universal dos sonhos revolucionários do mundo, promessa de vitórias a tal ponto férteis que nunca haveriam de murchar em rotinas e cepticismos, antes dariam lugar a outros muitos triunfos, o do bem sobre o mal, o do justo sobre o injusto, o da liberdade sobre a necessidade. Emoldurado ou seguro à parede por meios precários, esse retrato assistiu a debates políticos apaixonados na terra portuguesa, exaltou argumentos, minorou desânimos, acalentou esperanças. Foi olhado como um Cristo que tivesse descido da cruz para descrucificar a humanidade, como um ser dotado de poderes absolutos que fosse capaz de extrair de uma pedra a água com que se matariam todas as sedes e transformar essa mesma água no vinho com que se beberia ao esplendor da vida. E tudo isto era certo porque o retrato de Che Guevara foi, aos olhos de milhões de pessoas, o retrato da dignidade suprema do ser humano» (in Cadernos de Lanzarote, III/IV, p. 448).


Comentário:

Este trecho constitui a prova cabal da defesa directa e ostensiva, por parte de Saramago, do comunismo em sua essência assassina. O guerrilheiro cubano, «olhado como um Cristo que tivesse descido da cruz para descrucificar a humanidade», é algo que só o satanismo de Saramago poderia acalentar, embora prontamente desmentido pela natureza vil de um dos assassinos mais mediáticos e romantizados pela esquerda mundial. Aliás, as suas afirmações falam por si:

a) “Fuzilamos e seguiremos fuzilando enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta até à morte.” (Discurso na Assembleia-Geral da ONU, em 11 de Dezembro de 1964);



Che Guevara na ONU



b) “O ódio intransigente ao inimigo (…) converte (o combatente) em uma efectiva, selectiva e fria máquina de matar. Nossos soldados têm de ser assim.” (Revista cubana Tricontinental, em Maio de 1967).

Depois, há ainda, da parte de Che Guevara, aquelas afirmações capitais sobre a instrumentalização da cultura e dos intelectuais, tais como:

a) “Um dos grandes deveres da Universidade é implantar suas práticas profissionais no seio do povo”;

b) “A culpa de muitos dos nossos intelectuais e artistas reside em seu pecado original; não são autenticamente revolucionários.”

Aí estão, pois, dois dos deveres revolucionários que, apregoados por um assassino comunista glorificado por Saramago, permitem desmentir a sua pseudo-crítica dirigida ao Partido Comunista do Vietname, o qual, como vimos, pressupunha que «a liberdade de criação literária e artística é a liberdade de servir o povo, que a literatura nunca está separada da política». Enfim, tudo contradições da mentalidade revolucionária ante as quais Saramago não desarmava ou sequer mesmo se importava.

6. «Até aqui cheguei. A partir de agora, Cuba seguirá o seu caminho, eu fico onde estou. Dissentir é um direito que se encontra e se encontrará inscrito com tinta invisível em todas as declarações de direitos humanos passadas, presentes e futuras. Diseentir é um acto irrenunciável de consciência.

Pode suceder que dissentir conduza à traição, mas isso terá sempre de ser demonstrado com provas irrefutáveis.

Não creio que se tenha actuado sem deixar lugar a dúvidas no recente julgamento em que foram condenados a penas desproporcionadas cubanos dissidentes. E não se compreende que, se houve conspiração, não tenha sido já expulso o encarregado da Secção de Interesses dos Estados Unidos em Havana, a outra parte dela.

Agora chegam os fuzilamentos. Sequestrar um barco ou um avião é crime severamente punido em qualquer país do mundo, mas não se condenam à morte os sequestradores, sobretudo tendo em conta que não houve vítimas.

Cuba não ganhou nenhuma heróica batalha fuzilando esses três homens, mas, isso sim, perdeu a minha confiança, ofendeu as minhas esperanças, defraudou as minhas ilusões. Até aqui cheguei» (in Visão, 17 de Abril de 2002).


Comentário:

Quer dizer: Saramago mostrara-se ofendido por a ditadura genocida de Fidel Castro mandar fuzilar três terroristas responsáveis pelo sequestro de barcos e aviões, mas nem uma palavra de indignação e pesar proferira para as 17 000 vítimas inocentes do regime comunista de Cuba, sem contar os cerca de 60 000 ou mais assassinados no Peru, na Nicarágua e na Colômbia por tropas treinadas e financiadas pelo governo de Havana. E aí tendes a duplicidade cúmplice de Saramago com o comunismo ateu, também capaz de surpreender até o próprio Diabo, mormente quando diz: «Provavelmente sou um homem bastante religioso. Bom, para se ser ateu como eu sou, deve ser preciso um alto grau de religiosidade» (in Visão, 6 de Novembro de 2008).



Fiódor Dostoiévski






Contudo, não faltarão certamente intelectuais a promover um Saramago para quem «as obras dos grandes criadores do passado, de Homero a Cervantes, de Dante a Shakespeare, de Camões a Dostoievski, apesar da excelência do pensamento e fortuna de beleza que diversamente nos propuseram, não parecem ter originado, em sentido pleno, nenhuma efectiva transformação social…» (in Cadernos de Lanzarote, III/IV, p. 309). Um desses intelectuais, Francisco José Viegas, ex-director da Casa Fernando Pessoa, vimo-lo já na televisão dissertando sobre o comunismo de Saramago para, desse modo, ficarmos a saber que, no caso da ditadura cubana, o Prémio Nobel se demarcara na questão dos três terroristas supramencionados. E perante tamanha burrice, eis senão a prodigiosa nata da intelectualidade em Portugal.

De resto, foi-nos possível deparar, no site da Fundação José Saramago, com expressões sinistras do tipo:

«Los saramaguianos, una especie autóctona que se produce em vários continentes y en todos los terrenos…».

«Poderíamos dar um milhão de razões para sermos um milhão de Saramagos, mas não vamos dar nenhuma: quem queira ser Saramago, que se revele, que se junte. Ser Saramago é bom, ser um milhão de Saramagos é melhor…».

Bem, só resta dizer a todos eles:


Vade retro, Satana


Notas:

(9) Camilo Castelo Branco, Perfil do Marquês de Pombal, Lello & Irmãos Editores, 1982, pp. 197-198.

(10) Ernesto Renan, A Vida de Jesus, Lello & Irmãos Editores, p. 17.

(11) É com Marta que Jesus se casa e forma família após a morte de Maria Madalena. Por fim, Jesus desperta da sua visão e retorna ao Calvário para terminar a sua Paixão.

(12) No «fundo - como dizia -, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à humanidade (cf. «Penso que não merecemos a vida», in O Globo, de 17 de Outubro de 2009).

(13) O autor do estudo é um professor de Ciência Política da Universidade do Havai, chamado Rudolph J. Rummel. Este estudo valeu-lhe o Lifetime Achievement Award da American Science Association em 1999.






terça-feira, 13 de julho de 2010

Saramago e a "revolução cultural" (ii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte








O redactor da missiva adiantara ainda que O Ano da Morte de Ricardo Reis é, a seu ver, «um dos maiores da literatura portuguesa dos últimos tempos», superando «todas as reservas levantadas pela personalidade humana, política e até literária do seu autor». Ora, tal não passa de uma mera opinião sem nenhum valor literário que se preze, e a qual, no mínimo, seria preciso justificar, coisa, aliás, que o redactor não concretiza nem muito menos realiza.

De resto, Fernando Pessoa vem sendo «atirado à fama «como um osso aos cães», talvez para «que, «envenenados pelo osso, os cães o larguem» (2). A confirmá-lo está a Casa Fernando Pessoa entregue ao feitiço da cultura esquerdista dominante, por cuja direcção já transitaram feministas analfabetas como Clara Ferreira Alves e Inês Pedrosa, a quem, na sobredita casa, também se devem as "missas negras" em homenagem ao literato comunista, designadas por "maratonas de leitura". O que diria, entretanto, o próprio Fernando Pessoa que não podia suportar o que apodava por «vária horrorosa subgente sindicalística, socialística e outras coisas»?

Na verdade, Saramago jamais poderá vir a ser um escritor universal como é o caso de Camões, Pessoa, Padre António Vieira e Agostinho da Silva. E a razão é que jamais alcançou, como eles, aquela grandeza sublime, artística e pneumatológica que só os talentos mais sensíveis e abertos à transcendência logram realizar. Ademais, Saramago era não só um feroz, obsessivo e intransigente inimigo da civilização cristã, como também de toda e qualquer manifestação religiosa e espiritual. Desse modo, Saramago nem sequer passara da idade pueril ao fazer da literatura um instrumento ideológico ao serviço do comunismo, de que também O Ano da Morte de Ricardo Reis é um caso paradigmático em função da "personagem" projectada na pele de um ideólogo antifascista.

Não se pode separar a obra de Saramago do ideólogo fanático que ele era e ostensivamente protagonizou até ao último suspiro (3). Daí não poder ser uma “figura consensual” por lhe ter faltado a fé, a esperança e a caridade que formam os homens de “boa vontade” e recta inteligência. Nesse sentido, era um obstinado que explorava a credulidade dos fracos e dos ressentidos de espírito.

Mas dir-se-á: os grandes nomes da literatura mundial, como Camões, Pessoa e outros afins, poderão ser igualmente consagrados sem que a maioria das pessoas vejam e compreendam o conteúdo e a altitude espirituais a que puderam culminar. Sim, é verdade que nem toda a gente está à altura de os compreender, mas, por contrapartida, sempre podem inspirar e despertar o espírito de quem espiritualmente contemple a sua mensagem originária. Porém, já o mesmo não acontecerá com Saramago cuja “mensagem”, lesiva da natureza profunda e espiritual do ser humano, limita-se a uma falsa moral, a um falso erotismo e a uma falsa ideologia já comprovada e saldada na morte de centenas de milhões de seres humanos.

E perante tudo isto, ressalta ainda esta verdade espiritualmente expressa por Álvaro Ribeiro:

«A literatura, para não dizer a escritura, tem por missão revelar ao homem os acontecimentos de ordem preternatural e sobrenatural. Sabemos que a esta intenção correspondem os mais antigos textos literários, considerados sagrados, e sabemos também que o mesmo pensamento inspira as tradições orais que vão correndo de terra em terra. Cada obra literária está real ou virtualmente relacionada com uma tradição paradigmática, e na determinação da respectiva genealogia consiste o primeiro mérito da exegese e da hermenêutica.

Nenhuma obra literária exerceria qualquer efeito sobre o leitor, nenhuma obra literária seria de algum modo comunicativa, se não aludisse a uma relação entre o real e o possível, entre a aparência e a essência, entre o consciente e o inconsciente. O puro realismo das motivações egoístas no condicionalismo social, defendido por muitos historiadores da literatura, tende a decair na polémica ou na apologia, porque não pode manter-se na região superior da arte. A literatura de relações sintomáticas tem de ser aperfeiçoada na literatura das relações simbólicas.







(...) Todas as obras literárias que contenham narrativas de ordem preternatural ou sobrenatural hão-de pela crítica iluminista, positivista ou socialista ser julgadas como destituídas de valor de verdade, pelo que será considerada impostura a declaração em que o autor afirme ter sido testemunha do acontecimento e de que a obra vale de documento histórico. O crítico literário nunca admitirá que o autor da obra de arte seja um homem superior, inspirado por um génio, ou agraciado por Deus. A história da literatura pretende, em consequência, reduzir a actividade artística às dimensões humanas, limitando a psicologia aos dizeres elementares e comuns, analisando os textos pela exegese positivista, justificando os valores por imitação cultural» (4).

Não há de facto na produção infraliterária de Saramago narrativas de ordem preternatural ou sobrenatural. O que há são inversões ensombradas e perversamente caricaturais de uma realidade religiosa e espiritualmente assente em símbolos alegóricos e anagógicos. Assim, ressaltam apenas as trevas da ignorância furiosamente expressas numa permanente e recalcitrante revolta contra o Espírito.

Mas voltemos à suposta obra-prima que é O Ano da Morte de Ricardo Reis, e que o redactor da missiva preconiza conter «algumas das páginas mais admiráveis escritas em português no último século». Refere-se, pois, aos extensos períodos "gramaticais" sem fim à vista, pautados pela escassez de vírgulas e pontuação, em que as palavras não podem sequer alcançar o domínio inteligível dos conceitos e das ideias. Mas fiquemos com uma curta amostra dessa infraliteratura transformada em pura burla mediática:

«… é duvidoso ter-se despedido Cristo da vida com as palavras da escritura, as de Mateus e Marcos, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste, ou as de Lucas, Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito, ou as de João, Tudo está cumprido, o que Cristo disse foi, palavra de honra, qualquer pessoa sabe que é esta a verdade, Adeus mundo, cada vez a pior. Mas os deuses de Ricardo Reis são outros, silenciosas entidades que nos olham indiferentes, para quem o mal e o bem são menos que palavras, por as não dizerem eles nunca, e como as diriam, se mesmo entre o bem e o mal não sabem distinguir, indo como nós vamos no rio das coisas, só deles distintos porque lhes chamamos deuses e às vezes acreditamos. Esta lição nos foi dada para que não nos afadiguemos a jurar novas e melhores intenções para o ano que vem, por elas não nos julgarão os deuses, pelas obras também não, só juízes humanos ousam julgar, os deuses nunca, porque se supõem saber tudo, salvo se tudo isto é falso, se justamente a verdade última dos deuses é nada saberem, se justamente não é sua ocupação única esquecerem em cada momento o que em cada momento lhes vão ensinando os actos dos homens, os bons como os maus, iguais derradeiramente para os deuses, porque inúteis lhes são. Não digamos, Amanhã farei, porque o mais certo é estarmos cansados amanhã, digamos antes, Depois de amanhã, sempre teremos um dia de intervalo para mudar de opinião e projecto, porém ainda mais prudente seria dizer, Um dia decidirei quando será o dia de dizer depois de amanhã, e talvez nem seja preciso, se a morte definidora vier antes desobrigar-me do compromisso, que essa, sim, é a pior coisa do mundo, o compromisso, liberdade que a nós próprios negámos» (5).

Que farfalhudas maravalhas, como diria Camilo Castelo Branco. De facto, o heterónimo de Fernando Pessoa surge aqui como uma figura evanescente de nenhum valor espiritual. É, no fundo, uma imagem larvar: («…uma coroa mortuária com as suas flores de pano cada vez mais pálidas…) que se olha ao espelho e não se vê, e que, qual sombra, anda entre os vivos (6).








Fora disso, Fernando Pessoa procurava ser e sentir tudo de todas as maneiras por via de um «eu» que, quanto mais unificadamente diverso e dispersamente atento estivesse, melhor realizaria a existência excedente e omnímoda do Universo. Daí a heteronímia vivida e experienciada não como pluralidade social de um «nós», mas como unidade individual na convergência do uno e do múltiplo, ou do mesmo e do outro em que ninguém poderá dizer o que vem antes e o que vem depois, nem onde começa e onde acaba a circunferência de um círculo. Deste modo, sublimar-se-iam todas as contradições lógicas por virtude de intuições paradoxais como Deus «é tudo / e fora d’Ele há só Ele», ou «Tudo para Ele é pouco».

Demais, Ser e sentir tudo de todas as maneiras extravasa todo e qualquer ecletismo decorrente dos extremos que atravessam a história do pensamento, sejam eles o espiritualismo e o materialismo, o idealismo e o realismo, o teísmo e o panteísmo. Por outras palavras, Fernando Pessoa ia trilhando todos os caminhos e nenhum. Porém, há um ponto fundamental a reter: o Poeta tivera por horizonte último um Tudo-Universo para Deus, em que a alma se excede num processo que vai do uno ao múltiplo, ou do mesmo ao outro sem deixar de ser o que é, ou sem nunca se perder enquanto alma capaz de atravessar todos os contrários permanecendo uma e a mesma.

Ora, Saramago, falho de espírito, não soube senão distorcer o pensamento assistemático de Fernando Pessoa, conforme se segue:

«Talvez Fernando Pessoa lhe responda, como outras vezes, Você bem sabe que eu não tenho princípios, hoje defendo uma coisa, amanhã outra, não creio no que defendo hoje, nem amanhã terei fé no que defenderei, talvez acrescente, porventura justificando-se, Para mim deixou de haver hoje e amanhã, como é que quer que eu ainda acredite, ou espere que os outros possam acreditar, e se acreditarem, pergunto eu, saberão verdadeiramente em que acreditam, saberão, se o Quinto Império foi em mim vaguidade, como pode ter-se transformado em certeza vossa, afinal, acreditaram tão facilmente no que eu disse, e mais sou esta dúvida que nunca disfarcei, melhor teria feito afinal se me tivesse calado, apenas assistindo» (p. 120).



Antiga sede da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (R. António Maria Cardoso).




Outras passagens sugerem, por sua vez, o teor ideológico retorcido de Saramago, tal como a que descreve Ricardo Reis a ser interrogado na Rua António Maria Cardoso, sede da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (pp. 157-160). Uma outra passagem não menos retorcida associa politicamente Hitler e Salazar por terem nascido em 1889 «com pouca diferença de dias» (p. 250). Essa identificação também é, de certo modo, sugerida e ampliada na descrição de um comício nacionalista na Praça de Touros do Campo Pequeno, onde, por entre a saudação romana e entusiásticos vivas ao Estado Novo, se reúnem, respectivamente, os camisas negras, castanhas e azuis do fascismo italiano, do nazismo alemão e do falangismo espanhol (pp. 333-339).

Essa identificação, pura e simples, não corresponde de todo à verdade histórica. E, assim, o primeiro aspecto a esclarecer é o de que tais movimentos jamais caracterizaram a direita propriamente dita, pois revelam uma visão do mundo originada e propagada por socialistas cujos instrumentos de doutrinação os nazis e os fascistas vieram depois a utilizar. É o que diz, aliás, Frederico Hayek, Prémio Nobel em 1976:

«Na Alemanha e na Itália, os nazis e os fascistas já não tinham efectivamente muito que inventar. A invasão de todos os aspectos da vida pelos movimentos políticos tinha já sido lançada, em ambos os países, pelos socialistas. Foram os socialistas que pela primeira vez puseram em prática a concepção de um partido que abrangesse todas as actividades de um indivíduo desde o berço até ao túmulo, um partido que se propusesse orientar as opiniões de todos sobre todas as coisas, que traduzisse todos os problemas em termos de uma welthanschaung partidária. Um escritor socialista austríaco [G. Weiser], referindo-se ao movimento socialista no seu país, dizia com orgulho que era "sua característica ter criado organizações especiais para todos os sectores da actividade dos operários e assalariados". E embora os socialistas austríacos tenham ido mais longe neste sentido, a situação não era muito diferente nos outros países. Não foram os fascistas, mas os socialistas, quem começou a levar as crianças de tenra idade para as organizações políticas a fim de estarem seguros de que elas se formariam como "bons proletários". Não foram os fascistas, mas os socialistas, quem primeiro tentou a organização de jogos e desportos, de futebol e exercícios pedestres em clubes partidários onde os seus membros estariam ao abrigo do contágio de ideias diferentes. Foram também os socialistas quem primeiro estabeleceu maneiras de cumprimentar e formas de saudação com as quais os membros dos seus partidos se distinguiriam dos outros. Foram ainda os socialistas quem, através da sua organização em "células" e dos seus planos de supervisão permanente da vida privada, criaram o protótipo do partido totalitário. Balilla e Hitlerjugend, Dopolavoro e Kraft durch Freude, uniformes políticos e formações partidárias militares fascistas e nazis, pouco mais são do que imitações de instituições anteriores…» (7).




Por conseguinte, a existência de tais movimentos em Portugal só indiciam que o regime salazarista já continha em si os germes e as estruturas socializantes que, nalguns aspectos, haveriam de dar lugar, na sequência do 25 de Abril de 1974, ao novo regime e à nova Constituição socialista. Porém, nem Salazar era Hitler nem muito menos se assumia como um caudilho de tipo fascista ou falangista, como, aliás, Franco Nogueira, referindo-se ao ano de 1935, deixa transparecer no seguinte trecho:

«Sem desperdício de tempo, Salazar cuida da frente interna. Assegurada no possível a vigilância das fronteiras, terrestre e marítima, são reforçadas as medidas de ordem pública. Por outro lado, são exaltados, para que se revigore o ânimo português, os grandes valores do patriotismo e da nacionalidade. Fora ponto básico da União Nacional, recolhido e consagrado pelo Estado Novo, o enquadramento da mocidade, de modo a valorizá-la física, moral, espiritual e fisicamente. Não se dera ainda execução a esse projecto, todavia. Mas agora Carneiro Pacheco, na Educação Nacional, toma a iniciativa de o fazer, e Salazar aprova-a. E é lançada a Organização Nacional da Mocidade Portuguesa. Esta vai abranger mais de duzentos mil jovens de ambos os sexos, e é instrumento para culto de um nacionalismo de raiz, acima de governos e regimes. Suscita a Mocidade Portuguesa entusiasmo entre a juventude; mas a Igreja Católica encara a organização com alguma reserva, no temor de que a divinização de ideais terrenos possa afastar dos caminhos de Deus os que se abrem para a vida. Fica preocupado o cardeal Cerejeira; e Carneiro de Mesquita, servindo de intermediário, intervém junto de Salazar. Este, todavia, já se dera conta dos perigos possíveis; e assegura a Carneiro de Mesquita que não será totalitarista a orientação a seguir» (8).

Mas para que não fiquem dúvidas de maior, vejamos ainda nova passagem de Franco Nogueira atinente ao aproximar do fim da Segunda Guerra Mundial:

«No plano político-social, o ano de 1944 fecha-se na acalmia. (…) No terreno político, correm novas especulações. Pelo facto de ser monárquica a maioria dos membros do novo governo, acreditam alguns, mais uma vez, que Salazar se prepara para restaurar o trono em Portugal; seria uma forma de preservar as conquistas e a estrutura do regime e de tornar este aceitável no após-guerra. Mas Salazar não dá um passo nesse caminho; e os mais íntimos sabem que o chefe do governo nada fará que ponha em risco a unidade nacional ou que ressuscite divisões partidárias e paixões entre monárquicos e republicanos. De momento, os monárquicos confiam e esperam; e os republicanos estão tranquilos porque a figura de Carmona, venerada pela sua idade e permanência e cujo republicanismo não sofre mácula, constitui garantia de que não será alterada a ordem republicana. Por outro lado, insensivelmente, gradualmente, Salazar transfere as suas bases de apoio político. Combate com igual veemência o extremismo da esquerda, o comunismo, o socialismo, e o Diário da Manhã acentua que não é possível a neutralidade na luta entre o Ocidente e a Rússia; mas limita o poder e a influência dos mais exaltados, dos que se haviam identificado com o fascismo e o nazismo; e, sem prejuízo dos princípios doutrinários do regime, procura uma linha de moderação, de tolerância, de apaziguamento. Fundada num momento de perigo, a Legião Portuguesa tornara-se um símbolo que muitos, fora e dentro do país, consideravam totalitário; e agora Salazar põe em surdina as actividades da Legião, e desvia-as para objectivos cívicos e caritativos» (ob. cit., pp. 558-559).






Notas: 

(2) Cf. «Agostinho da Silva: o filho pródigo», in Leonardo, Revista de Filosofia Portuguesa, Ano I, n.º 4, p. 41.

(3) Saramago, além de comunista, era um grandíssimo hipócrita por nos querer convencer de que não era de modo nenhum um fanático (cf. Cadernos de Lanzarote, Círculo de Leitores, Diários III e IV, p. 419).

(4) Álvaro Ribeiro, A Razão Animada, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2009, p. 209-211.

(5) José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Colecção Mil Folhas, 1984, pp. 47-48.

(6)  Ob. cit., pp. 65-66 e 169.

(7)  Frederico Hayek, O Caminho para a Servidão, Teoremas, 1977, pp. 185-186.

(8) Franco Nogueira, Salazar, Livraria Civilização Editora, 1983, Vol. III, pp. 20-21.

Continua


domingo, 11 de julho de 2010

Saramago e a "revolução cultural" (i)

Escrito por Miguel Bruno Duarte











«A literatura degenera sempre que se submete a um realismo servil, incompatível com o pensamento criacionista. O êxito de uma obra meramente realista será tão efémero como o fenómeno observado. Nunca foi possível conciliar duramente o realismo com uma verdadeira filosofia da arte».

Álvaro Ribeiro



Em «Operação Saramago», já tivémos a oportunidade de dizer alguma coisa sobre a maior fraude literária imposta ao povo português. Cabe-nos, por agora, dizer algo mais sobre o completo domínio que a esquerda ocupa em todos os sectores políticos, económicos e culturais em Portugal. E como exemplo disso temos a “carta aberta” de mais um socialista - um tal de Vicente Jorge Silva - dirigida ao Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, para assim o pressionar perante uma das maiores operações vermelhuscas que já ocorreram no âmbito da cultura portuguesa e até estrangeira.

A “carta” em questão constitui um sinal deveras sintomático da animosidade doentia que permanentemente embota a mentalidade esquerdista infiltrada no ensino e nos centros de decisão do poder político, económico e jornalístico. Mas analisemo-la para demonstrar que assim é, procurando expor o que nela se afirma e sua respectiva refutação:

1. O Presidente da República - assim como a segunda figura do Estado, o Presidente da Assembleia da República -, não compareceu ao funeral do único Nobel da literatura portuguesa. Que, além do mais, deu justificações hipócritas para não comparecer, a ponto de nem sequer recorrer a um avião da Força Aérea para cumprir os seus deveres institucionais.


Refutação:

Ora, o que aqui está em causa não são as alegadas justificações que o Presidente da República deu para não comparecer ao culto fúnebre de um agente «cultural» do comunismo, mas sim o facto de haver sido criada uma mobilização em massa para sancionar uma actividade criminosa em nome da cultura. Canalizar, portanto, os deveres institucionais do Presidente da República em nome de uma consagração internacional estultamente enganosa, eis senão o maior engodo que se quis incutir aos Portugueses.

De resto, fazer crer que o Nobel de Saramago foi pura e simplesmente o resultado de um reconhecimento internacional é como sustentar um feitiço para todos os efeitos bem sucedido. É, pois, passar uma esponja sobre as instituições ditas culturais em Portugal, como o Instituto Camões, ao qual coube financiar as edições suecas de quem se denunciava a si próprio e à organização esquerdista que o apoiava em múltiplas e infindáveis ocasiões, como naquela em que, juntamente com Gabriel Garcia Marques, também internacionalizado pelo Nobel, festejou os 40 anos da revolução cubana em Santiago. Enfim, tudo isso aparece agora como sendo apenas o fruto espontâneo de um “talento miraculoso” que a esquerda pretende equiparar ao talento verídico e inquestionável de um Luís de Camões, de um Fernando Pessoa e de um Padre António Vieira.

Gabriela Canavilhas


Depois, não menos relevante é o avião da Força Aérea pago com o dinheiro dos portugueses para que a sonsa da ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, fosse à vulcânica terra de Lanzarote buscar o cadáver de quem verberara contra Portugal em jeito de represália para com as estruturas planificadas da cultura no tempo do Governo de Cavaco Silva (1). Por conseguinte, a esquerda insana engendrara a maior farsa em terra portuguesa, que o dito Nobel queria ver territorial, administrativa e culturalmente integrada em Espanha (na Ibéria como dizia), pelo que o melhor, o mais sensato e inteligente teria sido deixar nuestros hermanos ficar com o sinistro, assim se livrando Portugal de uma mancha vergonhosa para todo o sempre.

2. O Presidente da República, sem embargo «das divergências e conflitos políticos, de opinião ou de natureza pessoal», «é o Presidente de todos os portugueses (mesmo daqueles com quem possa divergir radicalmente)». Logo, por que não fora ao funeral «do único Prémio Nobel da Literatura de nacionalidade portuguesa»? Saramago podia não ser consensual «quer no plano literário quer no plano político e das ideias», mas, não obstante cultivar «frequentemente, sobretudo desde a sua “nobelização”, uma sobranceria, uma prosápia e uma vaidade tão destemidas que chegavam a ser patéticas e suscitavam uma compreensível aversão», o literato comunista, «apesar disso e contra isso», foi «um imenso escritor, com uma formidável irradiação em todo o mundo e a quem devemos algumas das páginas mais admiráveis escritas em português no último século». Mais: «Um romance como O Ano da Morte de Ricardo Reis é, sem sombra de dúvida, um dos maiores da literatura portuguesa de todos os tempos, um livro cuja magia ainda nos deslumbra – e supera todas as reservas levantadas pela personalidade humana, política e até literária do seu autor».


Refutação:

Sobre as razões para o Presidente da República não ter ido ao funeral, nisso implicando ou não as «divergências e os conflitos políticos de opinião ou de natureza pessoal», já pouco ou nada importa pela posição entretanto assumida. O que importa é, isso, sim, deslindar a engenharia social com vista à hegemonia da esquerda em todos os sectores da política, da economia e da cultura triunfantes.



Ressurreição de Lázaro (Giotto).



E não se trata somente de um Nobel da literatura, pois a esquerda tem apostado praticamente tudo para consolidar a maior fraude cultural mediante a projecção do globetrotter através de conferências, apresentações de livros, tournées por esse mundo fora, recepções, cerimónias, carrancas e apertos de mão, passeatas ideológicas em aldeias e escolas, incursões não menos ideológicas no Centro Cultural de Belém, adaptações cinematográficas de seus livros, como Jangada de Pedra, pelo holandês Georges Sluitzer, operetas italianas como a Bilmunda a partir do Memorial do Convento ou La Morte di Lazzaro e Cruci-verba, inspiradas no Evangelho segundo Jesus Cristo, enfim, um regabofe a que não faltaram 25 prémios, como o Prémio Camões, ou, ao jeito soarista, os 37 títulos de Doutor honoris causa nessas instituições que dão pelo nome de universidades.

Quanto ainda ao facto de o Presidente da República ser o Presidente de todos os Portugueses, seria preciso provar e demonstrar que Saramago tivesse sido português no verdadeiro sentido da palavra. Sim, porque ser português não é ofender, caluniar e denegrir o culto, a cultura e a civilização católica dos Portugueses com mais de oito séculos de existência. Mais: alegar as atrocidades da Inquisição, sempre condenáveis, não é nada perante as incomparáveis atrocidades do comunismo destruidor. Mas já lá iremos para contar, medir e pesar o que mais importa.

Convém, pois, notar que todo e qualquer Presidente da República Portuguesa que se preze como tal, e revele, acima de tudo, carácter e inteligência à altura do povo que representa e simboliza, não pode nem deve fugir ao acto de condenar energicamente toda a organização esquerdista responsável pelo ataque sem limites nem fronteiras ao sangue e à fisionomia espiritual de um povo já sacrificado no altar do mundo. Essa, pois, é que é e deveria ser a sua missão capaz de zelar pelo património histórico e sobrenatural dos Portugueses que percorreram e continuam percorrendo as Sete Partidas do Mundo.

E de nada vale alegar que o literato comunista não era política e literariamente uma «figura consensual» ao mesmo tempo que, num juízo de valor enviesado, se dá por adquirido tratar-se «de um imenso escritor (…) a quem devemos algumas das páginas mais admiráveis escritas em português no último século». Mas qual português? O português que uma tal de Lídia Jorge caracterizou em termos de uma «revolução cultural» à boa maneira gramsciana? O português que a cultura plumitiva e de magazine exibiu nos termos «de uma escrita original, tecida ao longo de extensos períodos» e supostamente bebida na estética dos «autores barrocos do século XVII» para exprimir as reivindicações sociais da “pseudo-literatura de intervenção”? O português tão zelosamente cultivado ao ponto de Saramago, aprendiz de operário mecânico, não passar do 11 a par de «um 15 a serralharia e outro a francês»? O português que na falta de pontuação e parágrafos não se distinguira no 24 de Abril de 1974 para, no 25 de Abril, passar a ser um escritor já comparável a Camões e a Pessoa, quando não mesmo a um Shakespeare entre os romancistas?


William Shakespeare



Diga-se de passagem que tão ramalhosa índole chegara a ser glorificada numa edição especial da revista Visão exclusivamente dedicada a tão sinistra figura. Uma revista, aliás, altamente prestável por conter aspectos tão interessantes e elucidativos como o que, referente ao episódio do Registo Civil, menciona Saramago como «nome de planta daninha», bem como aquele que, resultante da iliteracia de Saramago, tivera origem em certa tertúlia de poetas e intelectuais onde se fazia troça do apelido por que era então conhecido: Saragago.


(1) Era então Santana Lopes secretário de Estado da Cultura, com Sousa Lara no cargo de subsecretário.

Continua