domingo, 13 de junho de 2010

A Grande Deturpação (iv)

Escrito por Orlando Vitorino






C. Excertos de uma entrevista em que se descrevem os tristes resultados do que anteriormente foi testemunhado

O entrevistado é (...) Orlando Vitorino, o entrevistador é o jornalista Martins Gaspar, o jornal onde a entrevista foi publicada é O Dia de 5 de Janeiro de 1980.

Pergunta - A que atribui a quebra de qualidade da literatura portuguesa quer quanto aos temas, quer quanto ao próprio espírito e afirmação da nossa língua?

Resposta - Não houve, depois do 25 de Abril, isto é, depois da proclamação constitucional do socialismo, qualquer quebra de qualidade da literatura portuguesa. A literatura portuguesa tem, neste século, o seu período culminante, reunindo nele três dos seus maiores poetas - Pascoaes, Pessoa e Régio - e os seu três maiores pensadores: Leonardo Coimbra, José Marinho e Álvaro Ribeiro. Pascoaes pode, sem grandes possibilidades de séria contestação, figurar entre os génios artísticos da humanidade, sendo, na linhagem de Homero, Virgílio, Dante e Shakespeare, o poeta da idade que vivemos agora. Por Leonardo, Marinho e Álvaro Ribeiro terá de passar todo o pensamento filosófico que não queira aceitar, como não pode aceitar, a demissão da filosofia anunciada pelos alemães posteriores a Hegel, expressamente por Heidegger no seu testamento filosófico.

Aquilo a que V. se refere, ao afirmar uma "quebra de qualidade na literatura portuguesa", é uma infraliteratura que, durante os últimos quarenta anos, foi motivada, alimentada e celebrizada pela sua oposição ao salazarismo, portanto pelo salazarismo, e constituiu, para os chamados políticos de esquerda um instrumento preciso das tácticas e estratégias a que reduzem a política.

Pergunta - Quer V. dizer, portanto...?

Resposta - Quero dizer que com a derrota do salazarismo, essa infraliteratura perdeu a razão da existência e deixou efectivamente de existir. Falta-lhe o regime, o establishment, a matéria onde ia buscar seus motivos. Por outro lado, isso pôs a nu o mínimo ou nenhum valor dos livros que, durante os seus findos anos de existência, produziu.



Pergunta - Poderia V. explicar essa análise aparentemente cruel?

Resposta - Sem dúvida alguma. Por um fenómeno facilmente explicável, embora à primeira vista paradoxal, essa espécie de literatura satisfazia igualmente a mentalidade do establishment salazarista e a mentalidade da sua oposição política, correspondia à imagem que ambas tinham da literatura como servil instrumento dos políticos, beneficiava do igual interesse de ambas em fazer ignorar a literatura portuguesa, desde Leonardo a Pascoaes, desde Marinho a Pessoa, desde Álvaro Ribeiro a José Régio e, até, desde Camões aos nossos dias. Por isso as suas obras - ensaios superficiais, como hoje claramente se vê que são até os de A. Sérgio, poemas de gazetilha como os de J. Gomes Ferreira, e novelas de magazine negro como as de Alves Redol e Pereira Gomes - se viam editadas, lançadas, exaltadas e premiadas pelos poderes, instituições e empresas do regime, coligidas nas selectas escolares oficiais, adaptadas ao cinema e ao teatro subsidiados pelo Estado fascista, instaladas com seus autores e panegiristas nos liceus e universidades. Organizou-se deste modo um tão eficaz ludíbrio da opinião que ela ficava impedida de observar como essa infraliteratura que se dava por perseguida, vitimada e censurada pelo regime político era também a única literatura reconhecida e protegida por esse regime. Naturalmente, menos se observava ainda que a literatura portuguesa, essa que era todos os dias silenciada, tinha de recorrer aos editores marginais ou fora das grandes redes de distribuição, escondida pelos livreiros, segregada do ensino e, até, a única verdadeiramente proibida pela censura.

Pergunta - Não haverá exagero nessa descrição?

Resposta - Oiça, meu caro. Quando foi extinta a famigerada instituição, uma sociedade de direitos de autor subitamente convertida ao socialismo triunfante, organizou uma exposição dos livros que a censura havia proibido. Depressa teve que a encerrar e tornar inacessível o seu catálogo por se verificar que os autores mais censurados não eram os que fazem profissão de esquerdismo, mas sim novelistas como Domingos Monteiro e dramaturgos como José Régio. Este acontecimento mostra bem como a infraliteratura tentou prolongar o ludíbrio que lhe mantivera a existência até para além de todos os limites da verosimilhança.

Pergunta - Há muitos exemplos de tudo isso. Mas tem havido pouca coragem para os mostrar.

Resposta - Exactamente. O exemplo que lhe dei é, porém, o de um caso demasiado ingénuo e tolo. Um deles é-nos oferecido por Eduardo Lourenço que, em livro recente, ainda veio repetir o chavão neo-realista de que pensadores como Álvaro Ribeiro, José Marinho, Afonso Botelho, António Quadros, António Telmo, eu próprio, formavam uma corrente de pensamento de apoio ao salazarismo. E. Lourenço tem memória curta. Esqueceu, entre outras coisas, que era ele, e seus parceiros de opinião e organização, quem desempenhava cargos, como os de professor universitário, que não podiam deixar de ser da confiança do Governo, então o salazarista.






Pergunta - Bem... e depois?

Resposta - Desaparecido o salazarismo, desapareceu a infraliteratura que dele se alimentava. Os ambientes que a tomavam a sério, forjados pela imprensa dirigida e pelo ensino marxizado da universidade, ficaram efectivamente sem literatura, pois só aquela lhes era acessível, e substituíram-na pela televisão e algum cinema, nada tendo perdido com a troca, embora também não tenham ganho grande coisa. Mas os políticos que nela tinham a sua "literatura própria", esses é que, ao passarem da oposição para o poder, ficaram sem o que seria a sua "literatura oficial".

Pergunta - Não quereria, Orlando Vitorino, clarificar esse ponto de vista?

Resposta - Pois sim. Sabendo eles, esses políticos, que os valores, princípios, pensamentos e sentimentos de toda a verdadeira literatura (ao contrário do que o bem-pensantismo ainda julga, os intelectuais não são da esquerda) têm efeitos nefastos e destruidores para o socialismo, vêem-se obrigados, como o salazarismo, a fazê-los ignorar. Ficam, assim, sem nenhuma literatura. Para lavarem daí as mãos declaram toda a literatura em crise, fazem constar coisas como essa de haver uma "quebra de qualidade na literatura portuguesa actual". Você, meu caro amigo, fez-se eco dessa balela, deixou-se levar.

Pergunta - Não o creia. Fiz-lhe essa pergunta sabendo o que ela significa e pensando de certo modo como V. bastará ler alguns dos meus trabalhos, em jornal e até em livro. Mais adiante. O meu caso não interessa e o entrevistado é V. e não eu.

Resposta - Eu sei, eu sei... E repare agora que não é só a actual literatura que eles pretendem englobar na balela. É toda a literatura portuguesa, desde a clássica até à contemporânea. Observe o que tem sido a acção das autoridades socialistas desde que assumiram o poder político: fizeram a campanha contra Camões, dizendo-o poeta militarista, colonialista e racista, cantor de uma história com "cinco séculos de fascismo"; comemoraram o centenário de Herculano, mas tendo o cuidado de deixar sepultados os seus inéditos e por reeditar a sua obra (os salazaristas tinham feito o mesmo com Junqueiro); congelaram, nas mãos dos universitários, a obra de Pascoaes e Camilo; prolongaram a campanha, que já vinha do regime anterior (como quase tudo), contra José Régio, campanha que há quem diga ter sido a responsável pela sua morte, para depois, numa sinistra macacada comicieira, lhe chamarem "o nosso camarada socialista"; fizeram comprar pelo Estado o espólio de Fernando Pessoa para o entregarem, com os seus 26 000 inéditos às mãos servis dos professores universitários que dele vão extraindo, sem qualquer garantia da verídica autoria (já chegaram a publicar, como sendo um inédito de Pessoa, uma versalhada do antiquário Kamersky à Greta Garbo) aqueles textos que julgam poder servir para a deturpação do pensamento do grande poeta; cercam de sinistro silêncio e obstáculos editoriais as obras de Leonardo e José Marinho, de seus epígonos e seus companheiros; enchem as selectas escolares de textos que esterilizam para sempre a capacidade de compreensão intelectual e estética de sucessivas gerações de estudantes; fazem do ensino da língua portuguesa o ensino de uma técnica de comunicação na qual o homem se não distingue do animal.

Tudo isto são factos. Factos pontuais, dirá V. utilizando a linguagem corrente...






Pergunta - Talvez...

Resposta - Sim, respondo eu. Mas é unindo os pontos que se aprende na escola a desenhar as figuras...

Pergunta - Como é que, perante tal situação, pode sobreviver a literatura portuguesa que, sem quebras, continua a existir?

Resposta - Como sempre sobreviveu: em guetos.

Pergunta - Não sente profundamente a necessidade de uma como que purificação da língua portuguesa?

Resposta - A língua portuguesa - que foi a primeira das línguas românicas a adquirir virtualidades de expressão descritiva, com Fernão Lopes, e de expressão conceptual (o que é muito mais importante) com D. Duarte - parece ser também a primeira delas a passar, como o latim e o grego, a "língua morta". A maneira como se fala nos meios escolares de todos os graus e nos jornalísticos, radiofónicos e políticos, a maneira como está redigida a Constituição, são um espectáculo em que facilmente se diagnostica a doença mortal. E são um espectáculo tão generalizado, consentido e até aplaudido - sobretudo quando se fala nos "novos países de expressão portuguesa" - que é difícil esperar que o doente encontre remédio. Dela ficará, mais uma vez confirmando a antiquíssima sabedoria de que "o pássaro de Minerva levanta voo ao anoitecer", a literatura que nos nossos dias alcança, com essa língua já moribunda, as suas mais perfeitas expressões designadamente no domínio conceptual. Daqui resulta que os nossos escritores, sendo ainda operantes, são já escritores clássicos, no sentido em que se diz que os romanos e os gregos, com seus livros escritos numa língua há muito morta, são clássicos. Trata-se de uma situação análoga àquela que Fernando Pessoa alegorizou no poema dos "Jogadores de Xadrez", uma situação talvez única na história: escritores a escreverem numa língua que lhes é natural mas se debate, já moribunda, nas convulsões e no tumulto da morte. Nada se pode fazer contra isto. Durante mais alguns anos, durante ainda uma ou duas gerações, assistir-se-á, nas escolas, na imprensa, na rádio e na política, agora também nas igrejas, que aboliram o latim, à degenerescência cada vez mais acelerada, mais grosseira e mais vil de uma língua que alguns raros homens, os escritores que Pessoa via na figura dos jogadores de xadrez, continuaram a utilizar com uma perfeição que ela nunca antes teve.

Pergunta - Qual deve ser a posição do escritor na época actual, não apenas em Portugal como no mundo?

Resposta - Amar a verdade.

Pergunta - Face a uma Pátria em perigo, o escritor, que também é cidadão, em que sentido deve orientar a sua missão intelectual, responsável dentro de uma sociedade?

Resposta - Dizer a verdade.



QUINTA ILUSTRAÇÃO

que mostra como a grande deturpação está internacionalizada

com três notícias: Pablo Neruda e o Diário de Notícias, Ionesco e o Observer, M. Elliade e a Gallimard

A. Pablo Neruda e o Diário de Notícias





Pablo Neruda




André Coyné é um escritor e professor francês, minucioso e profundo conhecedor da literatura da América do Sul, onde viveu largos anos. Em 1973, habitando em Lisboa, escreveu, provocado, um artigo sobre Pablo Neruda, um mês depois de este poeta ter morrido. A provocação que o levou a escrever o artigo foi o coro de elogios a Neruda que, a pretexto agora da sua morte, mais uma vez se fazia ouvir na imprensa de todo o mundo. O artigo de Coyné começa assim: "Lamento discordar do coro."

Aí nos diz Coyné que tudo que de valioso, significativo e autenticamente poético Pablo Neruda escreveu, está na obra elegíaca que publicou antes de 1935. Vinte Poemas de Amor y un Cancion Desperada e as Residencias en la Tierra. De tal modo é assim que quando, depois dos seguintes vinte anos de "verborreia, incontinências e diatribes", ainda uma vez se salva é com um regresso à elegia nos Cem Poemas de Amor. Isso o leva a concluir:"Um livro basta para assegurar a perpetuidade de um poeta e Neruda podia ter morrido em 1935."

O que André Coyné nos descreve é, efectivamente, uma impressionante carreira de aviltamento perante a política, a publicidade, o dinheiro e a lisonja que Neruda percorre desde 1936 até à sua morte em 1973, desde que adere ao comunismo, escreve o Nuevo Canto de Amor a Staline e obtém, para toda a vida, os serviços da "máquina propagandística, à escala mundial, da Terceira Internacional". A poesia deixa de valer para ele e chega a anunciar, em 1941: "Passo a dedicar-me à política e à minha colecção de conchas." O que daí em diante faz já não é efectivamente poesia, mas um "alinhar de vocábulos descompostos" onde se amontoa "a confusão e a chateza imaginativas mal disfarçadas pelo ribombar da litania": España en el Corazon, Canto General, Alturas de Macchu Picchu. Repudia a obra elegíaca, declarando que é "perniciosa, que não deve ser lida pela juventude, que são poemas empapados de pessimismo, que não ajudam a viver mas a morrer". Todavia, acrescenta Coyné, "não suspende a sua venda nem proíbe as suas reedições as quais, obtendo mais procura com o repúdio anunciado, convertem Neruda no único poeta a quem a poesia permite rivalizar, em sibaratismo, com as estrelas de Hollywood". Observando a verborreia que passam a ser os seus poemas, um outro poeta sul-americano, César Moro, "cuja voz crescerá à medida que a de Neruda irá enfraquecendo", dirá que "a poesia não perdoa".


Em todo este processo, a degradação de Neruda chega a atingir as vilezas mais baixas: ao poeta peruano César Vallejo, comunista como ele mas caído na pobreza e na doença, faz desaparecer os escritos para, depois de o ver morto, lhe dedicar um poema dizendo-se seu "amigo para lá da vida e da morte"; cantando Estaline quando Estaline manda, logo canta o que o substitui ("Malenkov agora continuará a sua obra") e logo o repudia: "bigodudo deus com botas postas/e aquelas calças impecáveis/engomadas pelo servilismo realista"; a espreitar o Nobel, namora a luxuosa propaganda do capitalismo americano que, entre outras coisas, lhe dedica um número de "Life"; troca, na reedição de velhos poemas panfletários, os nomes de Trujillo, Somoza e Carias, escritos em 1948, pelos de Nixon, Frei e Pinochet, escritos em 1973, sem alterar os versificados atributos: "hienas vorazes da nossa história". À medida que os anos avançam, a impudicícia e a avidez da lisonja não diminuem. Em 1967, faz encomendar a uma sua secretária, Margarita Aguirre, um ensaio sobre ele próprio no qual os elogios mergulham no grotesco: desde dizer-se, em cada frase ou gesta, "0 maior poeta do mundo" até se descrever que, sendo ele de grande corpulência, mas de pés e mãos minúsculos, e gostando de bailar, que "a sua falta de graça quando baila é a graça mesma". A máquina propagandística da grande deturpação acompanha até ao fim todo este delírio grotesco. Quando este mediano poeta morre, em 1973, "o tradutor oficial de Neruda para francês, Jean Marcenac, não hesita em dizê-lo poeta tal que é muito possível que não tenha havido dez como ele desde que foi outorgado ao homem o poder da palavra".

Tal é o artigo em que André Coyné desmascara uma exemplificativa montagem da grande deturpação. O autor leva-o à direcção do Diário de Notícias que não era, então, a que é hoje. O artigo foi recusado. André Coyné publicou-o agora em apêndice ao primeiro volume do livro Sobre Portugal Nestes Tempos do Fim.


B. Ionesco e o Observer




Eugène Ionesco




Quando se representaram em Londres as primeiras peças de Ionesco - As Cadeiras e A Lição - o crítico Kenneth Tynan, do celebrado, influente e esquerdista Observer, escreveu um artigo representativo das posições políticas de obediência ideológica, no qual afirmou:

"Os aplausos entuasistas do público tiveram uma intensidade ensurdecedora, uma espécie de frenesim que é sintomático de um novo culto. O culto é Ionesco. E eu farejo aí um perigo [...] O perigo começa quando se apresenta como exemplar, como único caminho aberto ao teatro do futuro, esse lúgubre mundo do qual serão excluídas para sempre as heresias humanas de fé na lógica e de fé no homem. [...] O teatro de Ionesco é picante, é excitante. Mas não passa de um divertimento marginal. Não avança pela estrada larga, e os que pretendem que é nela que ele se encontra, não servem Ionesco nem servem o teatro".

Este artigo provocou uma resposta de Ionesco. Vale a pena transcrever os seguintes trechos:


o artista não é um Messias:

"Trazer uma mensagem aos homens, pretender dirigir os destinos do mundo, ou salvá-lo, é o que se propõem os fundadores de religiões, os moralistas e o políticos, e todos nós temos pago bem caro essas pretensões."


a arte não é ideologia:

"Uma obra de arte nada tem que ver com as doutrinas. já uma vez escrevi que uma obra de arte que não fosse senão ideológica, seria uma total inutilidade, uma tautologia, inferior à doutrina que se propusesse representar e que terá sempre uma melhor expressão na linguagem demonstrativa e discursiva. A obra de arte possui um sistema de expressão que lhe é próprio, tem meios próprios para apreender directamente o real".


a arte não é realista:

"Quanto à noção de realidade, o Sr. Tynan parece já conhecer um modo do real: o modo chamado social que é, a meus olhos, o mais superficial, o menos objectivo, pois está sempre sujeito às interpretações passionais."




Ionesco




a política é o mal:

"Creio que o que nos separa uns dos outros é esta política que ergue muralhas entre os homens e constitui uma origem permanente de mal-entendidos. Se me fosse permitida a expressão paradoxal, direi que a verdadeira sociedade, a autêntica comunidade humana é extra-social. É uma sociedade mais vasta e mais profunda, que se revela nas angústias comuns, nos desejos e secretas nostalgias e essas angústias, que a acção política se limita a reflectir e a interpretar muito imperfeitamente. Nenhuma sociedade conseguiu jamais abolir a tristeza humana, nenhum sistema político pôde alguma vez libertar-nos da dor de viver, do meio de morrer, da sede de absoluto. É a condição humana que governa a condição social, não o contrário."


as ideologias são álibis dos poderosos:

"Se alguma coisa existe que deva ser desmistificada, são as ideologias que oferecem soluções acabadas. Constituem elas álibis provisórios dos partidos que chegam ao poder. A linguagem cristaliza-as, fixa-as. Tudo deve ser continuamente reexaminado à luz das nossas angústias e dos nossos sonhos, e a linguagem anquilosada das revoluções instaladas deve, sem cessar, ser sujeita a um descongelamento, a fim de não se perder a fonte original, a verdade primeira".


a obra de arte não é redutível:

"Poderia eu agarrar numas tantas obras de arte, numas tantas peças de teatro, não importa quais, e aposto que seria possível atribuir a cada uma delas, sucessivamente, um carácter marxista, budista, cristão, existencialista, psicanalítico; provar como a obra assim sujeita a todas estas interpretações e atribuições e confirma, de modo exclusivo, tanto uma ideologia como a ideologia contrária. Tal possibilidade só demonstra, quanto a mim, que toda a obra de arte está fora das ideologias, não é redutível a uma ideologia".


arte e comunicação:

"A questão de saber se a obra se encontra, ou não, na estrada larga, se é não conforme com aquilo que nós quereríamos que ela fosse, resulta de um juízo preestabelecido, juízo portanto exterior, insignificante e falso. Uma obra de arte é a expressão de uma realidade incomunicável que se tenta comunicar e que, às vezes, se consegue comunicar. Esse é o seu paradoxo e a sua verdade."

Com esta resposta de Ionesco, abriu-se, nas páginas do Observer, uma polémica que marcou data na história do teatro contemporânea. Nela intervieram, entre outros, Orson Welles e Philip Toynbee. Um dos intervenientes considerou a resposta de Ionesco "a mais lúcida refutação da actual teoria do realismo social".

Entretanto, K. Tynan replicou com um novo artigo intitulado "Ionesco e o Fantasma". Ionesco envia ao Observer uma segunda resposta sua. Generoso, o famoso semanário comprou-lhe os direitos de publicação em Inglaterra dessa resposta, mas não a publicou. O autor veio a incluí-la, anos mais tarde, no livro Notes et Contre-Notes.



SÉTIMA ILUSTRAÇÃO

que mostra como a grande deturpação ilude até aqueles que estão mais avisados

com uma recensão do livro Le Cinquième Empire



Dominique de Roux à esquerda


O livro simultaneamente mais interessante e mais valioso entre tantos que, depois de Abril de 1974, se escreveram sobre Portugal, é sem dúvida o de Dominique de Roux, Le Cinquième Empire (Ed. Belfont, Paris).

A tese do autor é a seguinte: Portugal foi o último dos impérios e seu termo, agora dado, abre a história da humanidade para o Quinto Império, aquele que, anunciado nos livros da tradição mais sagrada e mais secreta, será o império da universalidade. Em termos mais correctos: encerrado o longo ciclo do imperialismo, a humanidade vai entrar no ciclo do universalismo. Ao poder na terra e no tempo, sucederá o poder do uno e do espírito. A dissolução do último império terrenal, equivale à putrefacção, ou saturnificação, onde germinará a flor.

No que tem de narrativo (toda a história da preparação e execução do golpe do 25 de Abril), o livro de Dominique de Roux é uma minuciosa descrição de um povo putrefacto. A famosa lamentação shakespereana de que "alguma coisa está podre no reino da Dinamarca", pode completar-se agora com a exultação de que "tudo está podre no reino de Portugal". Isso explica que, sendo este livro o mais interessante e valioso de quantos se publicaram sobre Portugal, seja também o mais silenciado, o que "ninguém leu", o que nenhum jornal noticiou. Com efeito, todos ali figuram mergulhados na podridão, desde os campeões militares e os caudilhos políticos que executaram o golpe até aos homens e mulheres mais em evidência na velha e na nova sociedade familiar portuguesa. Todos são descritos "en su tinta"; os campeões militares, por exemplo, surgem em ambientes e actos, em que o autor também participou, vividos na guerra do ultramar de cuja realidade e sentido todos foram igualmente ignorantes, moscas saturninas e tontas.

Dominique de Roux era uma personalidade enigmática: jornalista de celebridade mundial, era também "intelectual", de um tipo que os jornalistas nunca são; nos campos de guerra em África, entrevistava, antes do 25 de Abril, Kaúlza, Spínola e Otelo, e, depois do 25 de Abril, Jonas Sawimbi, mas ao mesmo tempo fundava e dirigia a colecção "10-18", que todos nós conhecemos, e organizava os sucessivos números da revista Exil. Nos primeiros dias que se seguiram ao golpe de Abril, três diários comunistas publicavam a várias colunas da 1.ª página o seu retrato com a legenda: "Á solta em Portugal um dos principais agentes da reacção internacional..." Tinha preocupações de aristocrática elegância e havia quem dissesse que era um dirigente da polícia secreta francesa, o que este seu livro permite confirmar. Morreu de repente, quando acabava de publicar o Le Cinquième Empire e dias depois da invasão do Congo pelos comunistas de Angola. Há quem diga que foi assassinado.

Ao lermos o Le Cinquième Empire, mais uma vez evocámos o antiquíssimo mito de como tantas vezes se vai procurar longe o que se tem à mão. Procurando a "flor azul" na "distância impossível de percorrer", Dominique de Roux só pôde conhecer, do último império, a putrefacção. Nunca foi aonde o mito do império do espírito é todos os anos celebrado, embora ponha em epígrafe do seu livro um poema de Natália Correia, e não mostra conhecer (exceptuada uma apressada alusão a António Telmo) aqueles que, como Agostinho da Silva, melhor lhe poderiam falar. O jornalista atraiçoou o intelectual. Ofuscado pelas vedetas, passou ao lado do que buscava e não o viu. Condenou-se a só ver a podridão (in ob. cit., pp. 166-179).


Kaúlza de Arriaga e Dominique de Roux












sexta-feira, 11 de junho de 2010

A Grande Deturpação (iii)

Escrito por Orlando Vitorino








QUARTA ILUSTRAÇÃO

que mostra como a inteligência portuguesa está encurralada com

A. o testemunho de um militante que nos descreve, por dentro, a organização marxista para a destruição da literatura e da filosofia portuguesa, entre os anos de 1930 e 1974;

B. o testemunho de um crítico literário que nos descreve, por fora, a actuação da organização antes descrita por dentro;

C. os excertos de uma entrevista em que o autor deste livro nos descreve os tristes resultados do que anteriormente se testemunhou.

A. Testemunho de um militante comunista



A contribuição marxista para a deturpação da cultura portuguesa foi feita através de uma organização de escritores, jornalistas, professores e editores que recebeu a designação, primeiro, de "novo humanismo" (cujas manifestações foram coligidas num livro que se deixou esquecer, Por um Novo Humanismo, da autoria de Rodrigo Soares, pseudónimo de um professor da Universidade de Coimbra) e, depois, de "neo-realismo".

Augusto da Costa Dias, recentemente falecido, descreve-nos, num livro editado em 1975 com o título de Literatura e Luta de Classes, a história deste neo-realismo. Logo em 1930, "à nascença - diz-nos Costa Dias - o neo-realismo é contemporâneo dos primeiros esforços para a reorganização do partido comunista e destina-se a ser a sua expressão na batalha cultural e ideológica" (p. 65). É neste sentido que actua e se desenvolve. Faz da "sua imprensa uma via de difusão das consignas políticas" (p. 73), "combateu as ideologias e filosofias burguesas (que se situavam) à margem do fascismo, sem compromissos mas também sem conflitos com ele (p. 66); "difundiu as ideias marxistas na universidade de Coimbra numa data que podemos calcular entre fins da década de 30 e os dois primeiros anos da seguinte" (p. 79); "desenvolveu um imenso labor de animação cultural-política em múltiplos planos: imprensa regional, organização de bibliotecas, trabalhos em clubes, palestras, cursos, exposições"; "controlava e dirigia colaboração para variadíssimos jornais da província" e "em comissões, discutia, planeava os temas dos artigos a enviar, notícias sobre os livros recentes do neo-realismo [...], debatia o tipo de linguagem mais adequado e acessível [...] recrutava, entre jovens, divulgadores, escritores que balbuciavam os primeiros passos, para um trabalho de anonimato, escondido em pseudónimos" (p. 80/81); combateu, entre as "ideologias e filosofias burguesas", os escritores e artistas "sem qualquer identidade com a luta de classes" (p. 66), escritores e artistas que Costa Dias não nomeia mas que são, ou porque são, os que compõem a teoria da nossa autêntica cultura: os modernistas do Orfeu, como Pessoa, Sá-Carneiro e Almada, os epígonos da Renascença Portuguesa e os próprios Leonardo Coimbra e Pascoaes (1), os poetas e romancistas da Presença, então em pleno vigor especulativo, como Branquinho da Fonseca, Gaspar Simões e, sobretudo, José Régio, finalmente os pensadores da "filosofia portuguesa" tendo à frente José Marinho e Álvaro Ribeiro. Sobre os três primeiros grupos, a sanha da organização obedecia a uma consigna, durante todos esses anos extensiva a qualquer escritor ou obra independente, que Costa Dias exprime nestes termos grosseiros: "As suas interrogações (as desses escritores e artistas) dirigiam-se às cisternas da vida íntima (individual, em todas as suas fermentações e decomposições onde explodiam e bufavam apenas angústias, impotências, rebeldias privadas sem qualquer identidade com o pesadelo da luta de classes" (p. 66). Sobre o último daqueles grupos, a vesânia junta-se à sanha e Costa Dias orgulha-se de ter sido o bloco marxista do neo-realismo que impediu os pensadores da "filosofia portuguesa" de exercerem o magistério, ou apenas a influência, que, a avaliar pelas obras de Álvaro Ribeiro e José Marinho, o leitor verificará como teria sido libertador. Deles diz Costa Dias: "Aos homens do neo-realismo se deve o não passarão às filosofias fascistas. Nunca excederam as fronteiras das suas ilhotas. A sua última tentativa - "a filosofia portuguesa" de Álvaro Ribeiro, António Quadros, Orlando Vitorino e consortes [sic] - não chegou a escapulir-se da sua lura de traficantes de mercado negro ideológico" (p. 85).






Pois bem: todo este trabalho de deturpação era realizado, desde 1930, em pleno domínio "fascista", com censuras, polícias, perseguições de que Costa Dias faz mais uma vez, e muitas vezes, o aparatoso rol e que deveriam, naturalmente, impedir que as suas vítimas, os neo-realistas, tivessem qualquer possibilidade de acção. Ora não foi isto o que aconteceu. O trabalho fez-se durante 44 anos, ininterruptamente, espectacularmente, como Costa Dias descreve e nós sabemos que foi. Durante 44 anos o bloco marxista pesou, omnipotente e esmagador, sobre a cultura portuguesa, e Eduardo Lourenço não podia deixar de ter razão e razões para denunciar, como também Costa Dias nos informa, que "os neo-realistas eram terroristas" (p. 84). Não passará de uma suspeita justificada ou será uma conclusão necessária que um acordo, talvez tácito, mas comprovadamente eficaz se estabeleceu entre os governantes ou o establishment fascista e a organização marxista para a deturpação da cultura? Como, de outro modo, será possível explicar tudo o que Costa Dias orgulhosamente descreve e o mais esconde ou cala e nós ainda não esquecemos? Como sem esse acordo, explicar, por exemplo, que as "filosofias fascistas", como C. Dias diz, pudessem, em tempo de fascismo, serem fechadas "na sua lura" pelos marxistas enquanto estes se exprimiam, expandiam e dominavam com a amplitude que também C. Dias nos descreve? Não era a "filosofia portuguesa" e a liberdade de pensamento da literatura e da arte o temeroso inimigo comum a marxistas e salazaristas? Aliás, o próprio Costa Dias confirma, de algum modo, a existência desse acordo quando se indigna com o facto de "prolongando-se o neo-realismo em manifestações ricas" [sic] desde 1930, os governantes fascistas tenham, nos anos 60, "facilitado a liberdade de imprensa [...] para se declarar [como Eduardo Lourenço fez] que os neo-realistas eram terroristas" (p. 84), o que claramente significa que sem liberdade de imprensa que os governantes "fascistas" controlavam não seria possível declarar o que o neo-realismo era.


B. O testemunho de um crítico

Em Novembro de 1970, A Ilha, suplemento cultural do Jornal da Madeira, publicava o artigo que a seguir transcrevemos. O leitor não deixará de observar como este artigo está escrito com um meticuloso cuidado de não dizer tudo, isto é, de não dizer o que explicava tudo e que era isso mesmo de o neo-realismo ser, como vimos no parágrafo, "a expressão do Partido Comunista na batalha cultural e ideológica". Vivia-se, então, em regime oficial de censura mas, como se verifica, a censura funcionava, de facto, em favor do bloco marxista ou, como disse Eduardo Lourenço, do terrorismo cultural marxista.

Em 1938, aparecia nas livrarias um romance com o título de Marés. Era o primeiro romance de Alves Redol e, viria a saber-se mais tarde, a primeira manifestação do neo-realismo. A fotografia do autor, de perfil e de boina, passou a figurar em todos os jornais e em todas as montras. Casais Monteiro, que exercia então uma crítica literária de bem informada e bem estruturada exigência artística, iniciava nos seguintes termos o seu artigo sobre tão celebrado livro:

"Acabo de ler um romance de que a imprensa tem dito muito bem. Como se trata de um novo, há razões para supor que tais elogios não sejam suspeitos... Com efeito, que vemos nós em Marés senão uma tentativa de fazer "arte social", "romance poético" e a estilização, em cenas simbólicas, do ritmo normal do romance? Dizem os papelinhos publicitários distribuídos pelo editor que os seus personagens vivem como a realidade que mostram. No seu conjunto, o romance é enfadonho, lendo-se com dificuldade. A personagem central do livro não é falsa, mas não chega a viver. Todas as outras são ou um apontamento ainda mais escasso ou figuras falsas e insubsistentes. A acção tem, no romance de Alves Redol, uma parte reduzidíssima. Haverá então uma grande percentagem de análise, perguntará o leitor. Não. Há reportagem e má literatura."






Alves Redol publicou a seguir mais algumas novelas - Fanga, Glória, Nasci com o passaporte de turista - e fez uma breve e desgraçada incursão no teatro. E Casais Monteiro, incompatibilizado com os meios literários e os ambientes políticos, abandonava o país, a crítica literária e até a literatura para se refugiar no Brasil, numa universidade do sertão, onde se deixou ficar até hoje [Casais Monteiro morreu em 1972, na cidade de S. Paulo].

Alves Redol era de Vila Franca de Xira e em Vila Franca de Xira escrevia sobre os rurais e os operários desse subúrbio lisboeta. Ali vivera seus anos de infância e adolescência, a admirar toureiros, touros e grandes lavradores. Dessa admiração, e também do ressentimento socializante que ele deixa nas pequenas almas, deixou os sinais no melhor romance que conseguiria escrever: Barranco de Cegos.

De Alhandra, ao lado de Vila Franca, veio a segunda manifestação neo-realista: a de Soeiro Pereira Gomes, autor de Esteiros, romance da borda d'água inspirado pelo Jorge Amado dos Capitães da Areia e, sobretudo, pelo William Wyler de As Ruas de Nova Iorque. Pereira Gomes era cunhado de Casais Monteiro e, penetrado da atmosfera proletária, fabril e socialista dos ambientes onde estava empregado, adoptava, como Alves Redol, uma atitude humilde e simpática perante os altos valores literários que o seu cunhado, discípulo de Leonardo Coimbra, presencista e cosmopolista, então representava. Nas aparições que ele e A. Redol faziam nas tertúlias de café, à espera de horas para o tramway de Vila Franca, eram duas figuras respeitosas, burguesas, provincianas, de gestos compungidos, quase a pedirem desculpa de também fazerem literatura.

Um dia Pereira Gomes exila-se em Inglaterra e Alves Redol suspende a laboração literária para se dedicar, com êxito, ao patronato industrial e publicitário, também, nesta última actividade, pioneiro neo-realista pois à publicidade se vieram a dedicar a maior parte dos seus sequazes.

A reacção de Casais Monteiro ao injustificável êxito do primeiro romance de Redol, era a reacção de uma inteligência culta e artística a uma produção artificiosa e esteticamente nula de um escritor que satisfazia as veleidades literárias no serviço do sentimentalismo socialista. O acolhimento e o êxito que esta produção alcançou, e ainda perdura, transformava em irritação o que, sem esse acolhimento, Casais Monteiro decerto exprimiria em termos menos desanimadores. No êxito obtido via Casais Monteiro um refluxo, agora em termos populistas, daquela literatice atávica que a Presença julgava ter banido definitivamente das fronteiras nacionais dos valores literários. Para mais, tal literatice, mais inculta do que aquela - académica e juliodantesca, fradesca e aquiliana - que a Presença conseguira desacreditar, aparecia à sombra de reivindicações da chamada "justiça social" que Casais Monteiro também perfilhava e chegou a exprimir em livros de versos como Confusão e Voo sem Pássaro Dentro: a um poema em que cantava deslumbrantes flaneios pelas ruas, pospunha versos como "mas esquecia-me de que há propriedade". Todavia, o poeta soube, durante muito tempo, defender a pureza da poesia que não punha ao serviço de nenhum socialismo. Dizia: "A arte não serve, a arte é." Perdido o combate, inútil a indignação perante a avalancha que não cessava de subir, o seu único recurso foi o exílio mais doloroso e forçado, o que se chama voluntário.

O neo-realismo, entretanto, absorvido A. Redol no patronato industrial e fugido Pereira Gomes em Inglaterra, transferia-se de Vila Franca para Coimbra e caía nos braços de estudantes, bacharéis e doutores. Sem ainda terem feito coisa nenhuma, anunciavam, em sueltos que espalhavam por todas as folhas de imprensa da província, uma grandiosa e definitiva obra cultural, intelectual e artística, um "movimento cultural-político único na história do nosso país" [sic]. Reuniam, depois, os sueltos em livro, Por um Novo Humanismo (a designação de neo-realismo surgiu mais tarde), que recebia encómios em todas as mãos. Gaspar Simões, que ficara a representar a estética presencista nos jornais de Lisboa, infatigável e operoso, escandalizava-se com tantos encómios, elogios mútuos, declarações redentoras e revolucionárias, feitos a escritores sem livros, a poetas sem poemas, a romancistas sem romances. E gritava, de Lisboa, aos neo-realistas de Coimbra. Venham obras!




Caricatura de Fernando Namora




As obras acabaram por vir: as novelas de Fernando Namora, publicadas num ritmo certo que ainda se não suspendeu; um livro de poemas de Joaquim Namorado; dois ou três opúsculos de Carlos de Oliveira. Enviavam-nas à crítica, à celebridade, a Gaspar Simões: Aí vão obras! Eram todas lançadas com estrondo e o estrondo soava como uma fúria em laboração incessante.

Começou depois a invasão da capital. Bacharelados, os neo-realistas desciam a Lisboa, à procura de emprego, casavam, instalavam-se nas avenidas do Estado Novo, andares já com duas casas de banho, enchiam-nos de electrodomésticos, colocavam-se no professorado liceal para depois descobrirem o filão das agências de publicidade e das empresas editoriais fundadas pelos capitalistas, compravam automóvel, enviavam artigos para a Vértice natalícia, ocupavam a velha e democrática Seara Nova, assaltavam as redacções dos jornais, apossavam-se de todas as páginas literárias da grande imprensa.

Os literatos de Lisboa, mais "naturais" e urbanos, sem aquele arrebatamento que a província filtrada por Coimbra dá aos triunfadores, rendiam-se aos bárbaros já instalados na direcção das editoriais mais conspícuas e conservadoras e na presidência das colunas dos jornais mais reaccionários: ou se lhes entregavam logo arvorando o rótulo de socialistas, como Urbano Tavares Rodrigues; ou largavam a correr as salas da Mocidade Portuguesa para confessarem eternas fidelidades neo-realistas, como Luís Francisco Rebelo; ou identificavam, como Romeu Correia, o seu populismo cacilheiro e ingénuo com a segura doutrina dos novos doutores de Coimbra; ou saltavam, como Vergílio Ferreira, das vestes negras do seminário para as bandeiras rubras dos neo-realistas. Passou a ser difícil encontrar um funcionário que o não fosse. Depois, passou a considerar-se fascista e reaccionário quem o não era.

Gaspar Simões, já não apenas infatigável mas também teimoso, resistia ainda. Afirmava critérios, impunha determinações formais e conceptuais da poesia e do romance, exigia doutrinas estéticas. Um livrinho de Cochofel, Doutrina Estética, viria, conciliador, satisfazer a exigência. Satisfação insuficiente? Mas não se sabia já que o que importa não é a estética, coisa sempre formalista, coisa de presencistas e reaccionários? O que importa é a finalidade e essa está fora da literatura: na política e no socialismo.

Infatigável, teimoso, mas também prudente, Gaspar Simões acabou por se render também aos novos senhores. E chegou até, na reedição de um volume onde reunira as suas críticas, a alterar os textos originais: como os novos senhores já reivindicavam uma tradição de que Aquilino seria o representante, Gaspar Simões limou as críticas presencistas com que desacreditara o romancista da Via Sinuosa, o prosador que restituía a língua portuguesa ao estilo fradesco de que Eça a libertara.






O que mais tempo resistiu foi, afinal, Joaquim Paço d'Arcos, novelista dos salões da alta burguesia e da alta finança lisboeta onde não tinham entrada os neo-realistas, coimbrões e provincianos. Mas, pouco a pouco, Paço d'Arcos foi acentuando as anedotas sobre a corrupção da alta burguesia e, por fim, com a peça O Braço da Justiça, os neo-realistas acolhiam-no em seu seio. Deram-lhe até, provincianos astutos, a presidência da sua Sociedade de Escritores.

Iam entretanto perdendo fôlego, cansando, os neo-realistas de origem coimbrã. Joaquim Namorado ficou todo no único livro que publicara; Carlos de Oliveira ficou a reeditar os sempre mesmos, sempre festejados e sempre breves opúsculos e quando, vinte anos depois, publicava enfim novo opúsculo de versos, a pobreza do talento ficou à mostra. Fernando Namora é que persistiu, mas o lugar de primeira figura começou a ser-lhe disputado pelo lisboeta Cardoso Pires, com um aparato publicitário em que a literatura bateu todos os produtos comerciais.

Com a invasão coimbrã, Alves Redol, em Vila Franca, silenciara durante longos anos. Mas dominada pela escola toda a organização da literatura, reapareceu com a patriarcal auréola de fundador do neo-realismo e seus romances investindo mais cuidadosamente o parco talento que Deus lhe dera, sucedem-se com uma regularidade operarial.

O triunfo é, deste modo, total, imponente, majestoso. Quem há aí que se atreva a não ser neo-realista? (in ob. cit., pp. 157-166).


(1) A táctica utilizada pela deturpação consiste em ocultar o que não é susceptível de ser deturpado. Pascoaes, Pessoa, Régio e os "filósofos portugueses" são os alvos mais significativos dessa táctica. A ocultação, por sua vez, recorre a vários processos que vão desde a confusão interpretativa, como a que se tem lançado sobre as obras publicadas de Pessoa, a divulgação de imagens caluniosas e aviltantes, como se tem feito com as obras de Pascoaes, Régio e os "filósofos portugueses", até aos obstáculos impeditivos da difusão e mesmo da edição como se procede com os pensadores que são fechados na "sua lura", com os inéditos de Pessoa e com as reedições de Pascoaes.





Casa-Museu de José Régio, Portalegre.



Casa-Museu de José Régio, Vila do Conde.


Continua


quarta-feira, 9 de junho de 2010

A Grande Deturpação (ii)

Escrito por Orlando Vitorino




'Arca de Fernando Pessoa'




SEGUNDA ILUSTRAÇÃO

que mostra como o Estado se mancomuna com a universidade para espoliar e deturpar o património dos portugueses

com a história dos 26 000 inéditos de Fernando Pessoa

Em 1935, morria Fernando Pessoa. Deixava numerosos textos dispersos por diversas publicações, um único livro editado e inúmeros inéditos guardados numa arca.

Em 1942, Luís de Montalvor, que dirigia as Edições Ática, iniciou, com Gaspar Simões, a edição das Obras Completas do grande poeta. Planearam eles a edição de modo a terminá-la no ano seguinte: "Esperamos - diziam na introdução ao primeiro volume - poder organizar os volumes subsequentes de maneira a que as Obras Completas de Fernando Pessoa possam estar inteiramente publicadas no decurso do próximo ano". Todavia, achavam tal prazo demasiado demorado e quase se desculpavam: "Quando se trabalha com cuidado é preciso trabalhar devagar. Fernando Pessoa merece-o".

Passaram-se, desde então, mais de trinta anos, e a publicação das Obras Completas está longe de ver o seu termo. Luís de Montalvor morreu e Gaspar Simões, não sabemos porquê, abandonou a tarefa: haviam, ambos, publicado os quatro primeiros volumes em 1946, sem dúvida os mais seriamente organizados.

No ano seguinte, em 1947, já sem a interferência de Gaspar Simões mas com uma breve nota circunstancial de David Mourão-Ferreira, reedita-se a Mensagem.

Anos mais tarde, em 1952, é Eduardo Freitas da Costa quem organiza o 1.º volume dos Poemas Dramáticos, cujo 2.º volume ainda não apareceu.

Surgem depois, em 1956, dois volumes com o título inadmissível de Poesias Inéditas de Fernando Pessoa, organizados por Jorge Nemésio com o auxílio de Freitas da Costa e uma nota paternal e credencial de Vitorino Nemésio.






Em 1965, entra em cena Jacinto Prado Coelho com um volume de título também inadmissível: Quadras ao gosto Popular. Eram versos que Fernando Pessoa reunira num "envelope verde", anotando do lado de fora: "quadras". Jacinto P. Coelho entendeu por bem acrescentar " ...ao gosto popular", e juntar-lhes um longo ensaio onde diz ter sido G. R. Lind quem "em boa hora exumou as quadras" Percebe-se?

Com esta entrada em cena de Jacinto P. Coelho, o "espólio" de Fernando Pessoa parece ter caído definitivamente nas mãos dos "universitários", o que deve ter coincidido com a negociação desse "espólio" pelos solícitos familiares do poeta que, da Inglaterra, o ofereceram por um milhão de dólares à Fundação Gulbenkian [passagem truncada] depois o vieram entregar ao Estado não sabemos em que condições.

Jacinto P. Coelho está especializado nesta espécie de tutoria universitária dos espólios literários. É ele quem preside à edição das Obras Completas de Teixeira de Pascoaes e de Camilo juntando aos volumes, a título de prefácio, textos escolares tão inadequados que uma instituição particular, ao adquirir grande quantidade de exemplares das obras de Camilo, pôs como condição não figurarem neles tais "prefácios". Mas com Pascoaes e Camilo o mal não é tão grave como com Fernando Pessoa, pois as obras deles estão, em outras edições, publicadas à muito.

Nas mãos de Jacinto P. Coelho, a edição das obras de Fernando Pessoa tornou-se ainda mais demorada. Depois das Quadras, saiu mais um volume com o título inadmissível de Poesias Inéditas, agora Novas Poesias Inéditas. Saiu em 1973, oito anos depois das Quadras, e foi "elaborado" por Maria Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno - quem são? senhoras que, numa singela "nota prévia", expressam o seu agradecimento - porquê? - ao seu professor Dr. Jacinto Prado Coelho.

No ano seguinte, 1974 - mas segundo o prefaciador, Jorge de Sena, já encomendado pelo editor em 1958 - sai o volume Poemas Ingleses, revertidos em português pelo dito prefaciador, por Casais Monteiro e por José Blanc de Portugal. No prefácio, Jorge de Sena fala das "homéricas contendas burocráticas" para conseguir cópias dos originais que só acabaram por ser autorizadas graças "aos porfiados esforços do escritor Luís Amaro".






Entretanto, organizados pelos mesmos Jacinto P. Coelho e G. R. Lind, são publicados dois volumes de textos em prosa que aqueles organizadores dizem ter "estabelecido". Embora editados pelo mesmo editor, embora organizados pelos mesmos organizadores, embora sendo igualmente de Fernando Pessoa, estes volumes aparecem, porém, fora das Obras Completas. Percebe-se? E o mesmo acontece a um terceiro e quarto volumes de prosas, esses com o título de Textos Filosóficos, reunidos e prefaciados por outro "universitário", António de Pina Coelho.

Entretanto, mais de trinta anos decorridos sobre a data marcada por Luís de Montalvor e Gaspar Simões para a total publicação das obras de Fernando Pessoa, a maior parte deles continua por editar. Uma ou outra indiscrição vai-nos revelando que "a maior parte dos escritos continuam a aguardar a luz da publicação" (A. Pina Coelho, introdução aos Textos Filosóficos, p. XI), ou que, segundo informação do poeta austríaco Max Holzer, que teve acesso à famosa "arca", se encontram inéditos cerca de 26 000 textos!

Como é possível que a mais importante obra inédita do génio poético português continue entregue a tais tratos e escondida dos portugueses? Daqui apelamos para o Secretário de Estado da Cultura, por cujo pelouro cremos que estes assuntos correm, para que mande editar imediatamente, sem atender a outro critério que não seja o da sua publicação integral, todos os textos inéditos deixados por Fernando Pessoa.

Ora como assim houvéssemos denunciado na Escola Formal a existência de 26 000 inéditos no espólio de Fernando Pessoa entregue à guarda de J. Prado Coelho, como houvéssemos mostrado o que isto constitui de roubo e burla dos portugueses assim espoliados do que só a eles pertence e como, ainda, houvéssemos requerido que, para pôr termo ao escândalo, o Governo mandasse editar imediatamente os referidos inéditos para cujo trabalho de edição nos oferecíamos (reservando as edições escolhidas" e críticas para depois), ora foi assim que o Professor Joel Serrão veio anunciar que, por incumbência do Professor Prado Coelho, publicaria ele - ele ou duas senhoras, decerto também professoras e decerto por ele marxisticamente condicionadas - três volumes de textos políticos inéditos escolhidos no espólio do poeta. O Pessoa que do socialismo dizia "vária horrorosa subgente sindicalista, socialista e outras coisas", vai pois aparecer-nos, em três volumes de textos escolhidos, purificado de seus pecaminosos dizeres e, com certeza, socialista. Preparando a purificação, o referido professor vai já dizendo, aliando Pessoa a António Sérgio, que são os dois as máximas figuras intelectuais deste século o que, evidentemente, não significa coisa nenhuma pois, se significasse, o Professor não o diria.



Que Fernando Pessoa seja, com Pascoaes, Junqueiro e Régio, um dos grandes poetas deste século, nenhuma objecção suscita e toda a gente o sabe. Agora António Sérgio, personalidade feita de alguns aspectos estimáveis e alguns outros insusceptíveis do menor apreço e caracterizada por uma total ausência de génio, seja sobreposto àqueles que, como Bruno, Leonardo ou José Marinho, foram, neste crepúsculo em que os morcegos são professores, "as aves de Minerva que levantam voo ao anoitecer", é afirmação que só pode ocorrer a um funcionário público ao serviço do socialismo.

Mais uma vez requeremos a quem de direito, e não sabemos quem seja, que mande arrancar o espólio de Pessoa de quem o espolia e, para usarmos a linguagem dos mandantes, o restitua ao povo a quem pertence.


TERCEIRA ILUSTRAÇÃO

que nos mostra como os intelectuais não são de esquerda com a história de uma decepção do poeta Miguel Torga

Miguel Torga publicou mais um belo volume, o XII, do seu Diário. Abrange ele o período que precedeu e sucedeu ao 25 de Abril de 1974. As observações e comentários que o compõem são o espelho de uma profunda decepção. Homem que sempre foi da "esquerda", da "velha esquerda", alimentou até àquela data a ilusão de que a "esquerda" continha os valores e princípios de liberdade e individualismo que prestigiaram, justamente, a esquerda liberal do século passado. Com o 25 de Abril e o que se lhe seguiu, Miguel Torga, como muito mais gente, verificou com amargura e espanto que a "nova esquerda" ou, simplesmente, a "esquerda" nada tinha que ver com os princípios da liberdade: é uma organização de "massas" com uma doutrina totalitária, demagógica, terrivelmente estatista e censória, poderosamente controladora de toda a vida pública e privada, eleitoralmente esmagadora e profundamente injusta.



Salvador Dalí



Este Diário de Miguel Torga poderá também contribuir para desfazer um erro difundido nos ambientes de cultura pouco ou mal informada, nos quais se confundem os intelectuais com os bem pensantes. Consiste esse erro na suposição de que os intelectuais são homens de esquerda. Ora a verdade é, rigorosamente, o contrário. Salvo uma ou outra raríssima excepção - talvez o caso de Picasso que se deixou ir levando, decerto o caso de Sartre que há poucas semanas Ionesco demonstrou "não saber o que quer" - não há, em qualquer país, um intelectual significativo que a "esquerda" de hoje não tenha de abominar; como não há, na orientação actual dos diversos géneros da actividade intelectual, um nome que a mesma esquerda não tenha de repelir: o cinema com Ingmar Bergman; a sociologia com R. Aron ou G. Gurvitch; a economia com Ludwig von Mises, Frederico Hayek ou Milton Friedman; as artes plásticas com Salvador Dalí ou Almada Negreiros; a novelística com Proust, Joyce, Lawrence ou Faulkner; o teatro, com Pirandello, Beckett, Anouilh ou Ionesco; a poesia com Claudel, Pound, Eliot, Pascoaes, Pessoa ou Régio; a filosofia com Unamuno, Heidegger, Ortega, Jaspers, Leonardo ou José Marinho. todos estes nomes são os de homens que defendem valores que a actual "esquerda" condena radicalmente. Poderão, alguns deles, não se declarar em termos - para um intelectual necessariamente simplistas e grosseiros - de "esquerda" ou "direita". Mas não há dúvida de que a "esquerda" tem, inevitavelmente, de os abominar como, efectivamente, abomina. E só lhe resta, então, ou recorrer à falsificação da poderosa propaganda que possui para fazer famosos intelectuais medíocres, como aconteceu com o dramaturgo comunista B. Brecht e como vimos entre nós acontecer durante anos com os neo-realistas, hoje ridicularizados, ou recorrer à mentira pura e simples, como fez o desembaraçado "leader" Salgado Zenha ao chamar a José Régio o "camarada socialista" (in ob. cit., pp. 152-157).

Continua


segunda-feira, 7 de junho de 2010

A Grande Deturpação (i)

Escrito por Orlando Vitorino








Já se encontra disponível, com uma nota prefacial de João Luís Ferreira, o Manual de Teoria Política Aplicada, de Orlando Vitorino. Na referida nota consta o seguinte:

«A passagem atribulada pela Faculdade de Letras de Lisboa na década de 40, valeu-lhe [a Orlando Vitorino] o comentário de Vitorino Nemésio de que seria o primeiro contestatário da universidade portuguesa. Polémico e provocador, interveio na vida espiritual portuguesa da segunda metade do século XX fundando e dirigindo o jornal Acto (2 números, 1951-52), com António Quadros, a revista Teoremas de Teatro (13 números, 1955-71) e Teoremas de Filosofia (um único número de 1969), o suplemento do Jornal da Madeira a "Ilha" (12 números, 1970) e a revista Escola Formal (6 números, 1977-78) com Afonso Botelho.

Entre textos e obras inéditas surge agora este Manual de Teoria Política Aplicada que organizou a partir de textos da revista Escola Formal e a que juntou dois capítulos do seu livro Exaltação da Filosofia Derrotada (1983), nomeadamente, aqueles em que propõe "Uma Constituição para Portugal" e "Uma Organização do Ensino". O projecto de livro, com uma introdução inédita, foi organizado e revisto pelo autor, embora tenha algumas lacunas que Orlando Vitorino não chegou a completar. Presume-se que a compilação de textos e a sua revisão, bem como a introdução, tenham sido elaboradas entre a conclusão da Exaltação e a apresentação, no Porto (Março de 1985), da sua pré-candidatura às eleições Presidenciais de 1986.

Com este volume, e com uma oportuna reedição de O Processo das Presidenciais de 1986 e de O Plutocrata, recupera-se o pensamento de teoria política de Orlando Vitorino disperso em publicações esgotadas e de difícil acesso. O leitor poderá, assim, ter oportunidade de conhecer não só o pensamento político de Orlando Vitorino como também uma outra forma de pensar a política e a realidade. A política definiu-a, Orlando Vitorino, como uma antiga arte de governar os povos».

Entretanto, cumpre-nos dizer que esta iniciativa, em torno da obra de Orlando Vitorino, constitui mais uma vitória sobre o silêncio que sobre ela tem recaído. Aliás, a obra orlandina é tanto mais significativa quanto, no presente, paira um criptocomunismo instalado em todos os sectores da sociedade portuguesa. De resto, exemplos não faltam, como o que releva da economia mista planificada em que se combinam sectores públicos com sectores privados, ou os que relevam do sindicalismo centralizado, da Universidade podre e vazia, quando não da Constituição Política ordenada segundo consensos ideológicos em detrimento de princípios transcendentes e filosóficos.

Por outro lado, sempre coube ao socialismo aumentar os poderes do Estado para assim tributar ou lançar impostos contra a propriedade, a prosperidade e o bem-estar dos portugueses. De sorte que num Estado despótico e autocrático a contribuição dá lugar ao imposto, porque aí, verdadeiramente, o Estado impõe. Desse modo, fiscalizar significa desapropriar o cidadão para, consequentemente, o tornar dependente de uma organização política, económica e culturalmente uniformizada. 



De facto, Portugal continua inteiramente refém do monopólio da representação popular, em que os partidos, confundidos com a democracia, se lançam à conquista do poder para benefício de poderes e organizações internacionais. Não admira, pois, que Orlando Vitorino escrevesse sobre o que designa por a Grande Deturpação, constituída por Oito Ilustrações, das quais serão apenas transcritas as sete primeiras, podendo o leitor, caso esteja interessado numa imagética de feição simbólica e esotérica, clicar aqui para ler a Oitava. Fiquemos, então, com as Sete Ilustrações da grande deturpação da inteligência, enquanto aguardamos, consoante informação aventada por João Luís Ferreira, mais um livro inédito de Orlando Vitorino, intitulado As Teses da Filosofia Portuguesa.

Miguel Bruno Duarte




O que é a Grande Deturpação






Há uma cultura real e uma cultura oficial. Trata-se de uma distinção que está longe de surpreender o leitor medianamente interessado por estas coisas. Há quarenta ou cinquenta anos, ainda era fácil detectar imediatamente a cultura oficial, com sua galeria de jarrões que teve como arquétipo o ainda hoje famoso Júlio Dantas. Os tempos mudaram e a imagem alterou-se. Com a alteração da imagem, alterou-se o conteúdo. O que se conservou foi a cultura oficial, a sua sanha à cultura real e a sua mesma eficácia, agora mais ampla e profunda que ameaça de morte - coisa inimaginável há quarenta anos - a presença dos valores do espírito. É a grande deturpação da inteligência.

Há cinquenta anos, o caso mais grave daquela eficácia não foi a obstrução de Júlio Dantas à estética do Orfeu, que deu origem ao admirável Manifesto do Almada. Vinte anos depois, o caso repetiu-se, com os neo-realistas no lugar do Dantas e a Presença no lugar do Orfeu. Trinta anos mais tarde, o caso volta a repetir-se, com os mesmos neo-realistas no lugar do mesmo Dantas e a Filosofia Portuguesa no mesmo lugar da Presença. Mas não deram origem, estas repetições, a novos Manifestos como o do Almada. Dantas é que premiou os seus epígonos, juntando aos jarrões azuis da Academia alguns jarrões vermelhos do neo-realismo, como J. Prado Coelho ou Urbano T. Rodrigues. Aliás, Dantas era um percursor dos neo-realistas, na literatura e na simpatia ideológica. Foi ele quem, primeiro, fez em Portugal o elogio de Brecht, ainda desconhecido no mundo, e sugeriu, para modelo da reforma do nosso Teatro Nacional, a organização soviética do teatro moscovita. Embora um tanto retrógrados, ainda hoje o elogio de Dantas e uma alfinetada, como a que David Mourão-Ferreira mesmo agora lhe deu, na Filosofia Portuguesa, são um ritual a respeitar para curriculum identificador.

Não são estes, todavia, os casos que dão a medida aproximada do que é capaz a sanha e a eficácia da cultura oficial.

Enfim, os tempos mudaram, alterou-se a galeria dos jarrões, alteraram-se os fins, os conteúdos e os modos de agir da cultura oficial, mas conservou-se a sua sanha e a sua eficácia.

Em nossos dias, com as sociedades indefesas à penetração até daqueles que se destinam a destruí-las, vimos formarem-se dois blocos de forças culturais que, com fácil domínio sobre os poderes dos Estados, sobre as instituições académicas, e argentárias e sobre as redes da informação pública, se vão introduzindo em todos os povos e aí esmagam os valores do espírito que só as singulares culturas reais são capazes de exprimir, representar e actualizar. Uma vez instaladas, são como as patas do cavalo de Átila e depressa constituem a cultura oficial que, satisfazendo todas as carências de civilizadismo intelectual dos governos absorvidos na planificação da economia e na recolha dos impostos, irá ser transmitida às inteligências pelo ensino e divulgada na opinião pelos meios de comunicação pública.










Os dois blocos que, desde 1945, entre si disputam dominar e esmagar, sob a bandeira da equidade uniformizante e humanitária, a infinita variedade do mundo do espírito, são o bloco marxista e o bloco da Unesco. As diferenças que há entre eles não são irredutíveis e um denominador comum os torna solidários até à morte: a destruição das culturas reais que, exprimindo cada uma delas, em sua singularidade, uma manifestação do espírito, são a razão de ser das pátrias. A resistência que fatalmente têm de encontrar em cada povo, leva-os a ambos, num primeiro estádio da penetração, a dizerem respeitar e reconhecerem a existência de cada cultura real. Antes de reduzirem cada uma delas a uma variedade folclórica para exibir em festivos congressos internacionais, chegam a atribuir-lhe uma função: a que consistirá em adaptar as singulares e vividas expressões do espírito às formas abstractas e vazias do internacionalismo humanitário. Encontram sempre em cada povo agentes ou sicários para exercerem essa função. Quando a adaptação estiver completada, também se evanesceu completamente a existência desse povo.

A introdução em Portugal da Unesco foi mais tardia do que a do modelo cultural marxista. Iniciou-se ao mesmo tempo, nos finais da 2.ª Guerra Mundial, a expansão organizada, e talvez acordada, de ambos. Mas as circunstâncias locais do salazarismo fizeram hostilizar o projecto da Unesco e, discreta ou secretamente, abrir as portas aos marxistas. Parece ter acontecido o equivalente na guerra de África onde, para "contrariar" a acção "ocidental", se facilitou a insinuação das forças comunistas. Entretanto, o bloco marxista já fizera, nos anos trinta, uma primeira investida.

Só em 1969, com a destituição de Salazar, se desfez a resistência oferecida à Unesco que logo afirmou decididamente a sua presença na reforma do ensino. Já, nessa data, o bloco marxista havia corroído sectores fulcrais da cultura real: os ambientes universitários já estavam marxizados, a imagem marxista da história de Portugal já havia sido composta por António Sérgio e seus epígonos, os mais libertos da literatura, do jornalismo e da arte estavam já minados.

O "25 de Abril" produto de vários factores, foi sobretudo um resultado desta cultura oficial em que se misturavam os dois blocos rivais. A partir de então, veio ela abandonando o bloco marxista para se entregar completamente nas mãos do bloco da Unesco que, sem dificuldades nem contradições, imediatamente absorve e integra a obra do seu rival. O sector onde esta situação se mostra mais patente e tem mais fundas consequências é o do ensino. Em alguns outros sectores, porém, a penetração do bloco marxista já era de tal modo profunda que o despertar político antimarxista da sociedade portuguesa não o consegue demover nem sequer atingir. É o caso da comunicação pública onde os próprios orgãos ao serviço dos partidos políticos anticomunistas continuam a valorizar e, até, a só conhecer os produtos culturais marxistas, sejam eles os mais insignificantes.

Os dois blocos vêem-se pois impedidos de, até sectorialmente, se afastarem do que lhes é comum, de separarem um do outro a respectiva actividade. Estão indissoluvelmente solidários na grande deturpação.


Sete Ilustrações da Grande Deturpação

O terreno onde a actividade da grande deturpação é mais fácil e eficaz é o do ensino. O leitor encontrará, na quinta parte deste Manual, um esboço do que ela tem levado a cabo. Nas páginas que imediatamente se vão seguir, apenas se reúnem alguns exemplos ou ilustrações, colhidos entre inumeráveis outros, que valem como amostras do trabalho incessante que, em todos os domínios da inteligência, entre nós como em toda a parte, a grande deturpação exerce sem descanso.



PRIMEIRA ILUSTRAÇÃO

que mostra como o ensino universitário é um agente de deturpação

com a narrativa de uma mentira




Reitoria da Universidade de Lisboa




O Dr. Soares Martinez, no colóquio que se seguiu a uma das conferências de Frederico Hayek no Grémio Literário, fez o elogio hiperbólico do grande economista para, a seguir, investir contra a Escola Formal em desagravo da Universidade. Disse, primeiro, que aquele era um dia para sempre memorável na sua vida por ser o dia em que conhecia pessoalmente o extraordinário pensador político e economista que é F. Hayek. Acrescentou depois que não podia calar a indignação contra a Escola Formal por ter afirmado ser F. Hayek "ignorado da nossa obscurantista e ridícula Universidade". É que ele, professor da Faculdade de Direito, sempre ensinara aos seus alunos as doutrinas de Hayek.

Orlando Vitorino respondeu a S. Martinez e delicadamente o desafiou a mostrar que os alunos formados nos institutos universitários de economia tenham aí alguma vez ouvido expor ou sequer falar das doutrinas de Hayek. Soares Martinez retorquiu que isso aconteceria - o que não negou - nos institutos de economia mas não na Faculdade de Direito.

Honestamente nos propusemos publicar aqui um esclarecimento ou correcção do que afirmáramos. E para isso fomos ler a "sebenta" da cadeira de S. Martinez, publicada com o título de Manual de Economia Política em 1971/72. São dois grossos volumes de texto escrito pelo autor, não recolhido de apontamentos dos alunos, e na sua publicação ou elaboração colaboraram vários assistentes, entre os quais um de nome Sousa Franco que julgamos ser o actual presidente de um partido político que se está por saber se é ou não socialista.

Sofremos uma decepção. Ao longo de mais de 880 páginas, não só em parte alguma se expõem, por mais minimamente, as doutrinas de Hayek mas até o seu nome apenas aparece, a p. 274 do vol. II, entre os nomes dos "vários economistas contemporâneos da corrente neoliberal". Percorremos depois as bibliografias que à velha maneira universitária se alinham no final de cada capítulo: encontrámos, decerto, toda a espécie de mediocridades estrangeiras e nulidades portuguesas, como Teixeira Ribeiro ou Pereira de Moura, mas de Hayek nem um livro.

Que nos havia, então, dito o indignado Prof. Soares Martinez? Mas, mais grave, como se pode hoje ensinar economia sem ter em conta um dos doutrinadores e sistematizadores de mais larga influência em toda a actual investigação e prática da economia política? Como é que, sem os argumentos e contribuições de Hayek, se pode hoje ensinar o que seja o mercado (Cap. VIII do livro de S. Martinez), o que sejam os preços (Cap. VII), o que seja a origem e a história do liberalismo (Cap. IV), o que vale e aonde leva o planeamento da economia (Cap. XII) ? Vejamos este último caso.

A ignorância ou ausência da refutação que Hayek faz do planeamento tem consequências catastróficas para as lições do Prof. da Faculdade de Direito de Lisboa. Reconhecendo que o planeamento da economia só tem tido insucessos, expõe "as causas do insucesso do planeamento" que diz serem as seguintes:

1. "Falta de solidez das previsões do planeamento" que atribui a "excessos de abstracção dos planificadores". Ora F. Hayek demonstrou que o planeamento é sempre, inevitavelmente, dirigido por determinações abstractas do planificador. Daí a sua irrealidade e irrealização, ou o seu "insucesso" inevitável, que não resulta, portanto, da menos ou mais excessiva abstracção do seu dirigismo, mas lhe é inerente.

2. A falta de "directrizes políticas" do planeamento é a segunda causa. Ora o planeamento, com seu carácter abstracto e dirigista, nunca pode ser falta de directrizes políticas porque ele não pode ser senão (...)

3. Seria a 3.ª causa "a insuficiência de dados estatísticos", isto é, de informações. Ora o erro fundamental do planeamento reside, tecnicamente, na impossibilidade de haver informações suficientes quando o mercado é abolido ou, sequer, condicionado; e não há planeamento sem o condicionamento ou a abolição do mercado.






Não atendendo, deste modo, às doutrinas de F. Hayek, o Dr. S. Martinez não passa de mais um defensor do planeamento da economia e da intervenção do Estado, de mais um professor que ou só ensina socialismo ou inibe as gerações de alunos, que lhe passam pelas aulas, de conhecer os erros do socialismo e a pobreza e servidão a que eles conduzem (in Manual de Teoria Política Aplicada, Verbo, 2010, pp. 145-151).

Continua


quinta-feira, 3 de junho de 2010

O ideal civilizador dos Portugueses é imensamente superior (incomparavelmente superior) àquele que tem sido proclamado na ONU

Entrevista a Álvaro Ribeiro








«Mestre daqueles que sabem», no dizer suavíssimo de Dante, continua Aristóteles a exercer o melhor protectorado sobre quantos pensadores se dedicam aos estudos filosóficos» – escreveu Álvaro Ribeiro no começo do seu mais recente livro, Liceu Aristotélico. Foi na verdade, o Filósofo «sem émulo nem par», o grande, talvez o único preceptor das linhas fundamentais de pensamento deste outro valoroso combatente, padrão imorredoiro na história da filosofia portuguesa, que é mestre Álvaro Ribeiro. Que a sua humildade e sensibilidade, nos perdoe tais palavras, justíssimas e intencionais apesar de por muitos regateadas. Álvaro Ribeiro foi-nos mestre; foi-nos o primeiro alicerce lançado no estudo da história da filosofia portuguesa. Os mais pensadores que vieram, enriquecendo o tema com novos aspectos e considerações, desde as atitudes de adesão acrítica e de negação ingénua, até aos reflectidos estudos de quem analisa o problema nas suas dimensões de equilíbrio e na sua fundamentação racional, vieram-lhe na esteira, surgiram da revolução do seu primeiro livro, O Problema da Filosofia Portuguesa, em 1943. «A filosofia portuguesa representa uma aventura espiritual de fidelidade a Aristóteles», haveria de escrever mais tarde o autor portuguesíssimo. E demonstrava-o cabalmente.

Há dias Álvaro Ribeiro parece-nos desanimado. O ano de 1963 foi-lhe ingrato, num rosário amargo de dores físicas e morais. «Um ano improdutivo», exclama. E logo: «Lutei por uma causa perdida!». Com esta pequena introdução, com esta lúcida e excelente entrevista, que fez favor de nos facultar, pretendemos apenas demonstrar o contrário. Nenhuma causa é perdida, se justa, leal e necessária. Muito fez Álvaro Ribeiro! Muito lhe deve a cultura nacional, muito lhe devemos todos nós, sobretudo aqueles que do pensador admirável aproveitaram as lições. Para quantos, pois, a homenagem aqui proposta por José Valle de Figueiredo?

Mas demos lugar às importantes respostas, de ordem filosófica, pedagógica e política – mais expressivas que quantas palavras alheias – pelo filósofo português concedidas:

Qual o seu pensamento actual acerca da filosofia portuguesa?

O problema da filosofia portuguesa preocupou-me e ocupou-me durante vinte anos, de 1940 a 1960. Creio que cumpri o meu dever. Sem renegar as teses então formuladas, porque elas são para mim as chaves interpretativas dos nossos acontecimentos políticos, – desde 1140, desde 1640, – limito-me hoje a observar o que da filosofia portuguesa vão pensando e dizendo as novas gerações.

Vem então de uma meditação histórica, ou de uma reflexão política, a problemática que tanto absorveu o seu pensamento durante esses vinte anos.

Sinceramente o confesso, mas o momento de mais séria acuidade foi, para mim, a Segunda Guerra Mundial. Perante a posição nacional de neutralidade (que não está em questão), era de esperar que o bloco vitorioso, fosse ele qual fosse, viesse mais cedo ou mais tarde pôr em discussão o problema da legitimidade da nossa independência política. Assim aconteceu depois de 1960. As razões da independência política, ou seja, da autodeterminação de cada povo, só podem ser razões filosóficas, ou, por outras palavras, a projecção futurista ou futurante de autonomia cultural. As chamadas razões históricas e razões geográficas não são, efectivamente, razões. São apenas elementos utilizáveis para a constituição de um raciocínio completo ou silogismo.










É fácil de perceber onde Álvaro Ribeiro deseja chegar… E a pergunta nasce «per si»:

Alude porventura às discussões na ONU?


Sem dúvida. Eram de esperar por quem tivesse estado atento aos trabalhos da UNESCO. Sempre pensei que o ideal civilizador dos portugueses é imensamente superior, incomparavelmente superior, àquele que tem sido proclamado nas assembleias das Nações Unidas. Tal superioridade só pode ser conhecida até à evidência por quem estudar o assunto pelos métodos adequados à investigação filosófica. Nos termos vulgares da oratória parlamentar, de submissão a preconceitos, não é possível uma argumentação de valor transcendente, pelo que só resta à defesa o recurso de apelar reiteradamente para a energia moral.

As publicações da UNESCO afiguram-se-lhe de carácter predominantemente sociológico, e até positivista, não é verdade?

A proliferação de estudos sociais e de estudos sociológicos, em todo o hemisfério designado por ocidental, com a multiplicação de gabinetes, centros, institutos, faculdades e outras escolas, acusa uma tendência doutrinária que me parece perigosa na medida em que tende a minimizar, ou a minorar, os estudos de psicologia. A sociologia sem psicologia conduz à inversão, e portanto à falsificação, dos métodos explicativos e racionais. Ora a UNESCO está impregnada deste sociologismo tão internacionalista como abstracto, contra o qual não podem deixar de opor-se todos os intelectuais religiosos e todos os intelectuais espiritualistas que meditem sobre o destino transcendente da Humanidade.

Perguntámos então ao insigne mestre como deveriam proceder, em face da situação mundial, os intelectuais portugueses. A resposta é tanto mais dolorosa quanto verídica…

No último decénio, fiz o possível por dizer em livros e em artigos de jornais, primeiro no Diário Popular então dirigido por Luís Forjaz Trigueiros, e depois no Diário de Notícias, o que de urgência me parecia ser útil para formar um escol de nacionalistas autênticos, quero dizer, dotados de pensamento filosófico. Os meus escritos causaram boa impressão em meia dúzia de intelectuais mais novos, mas as minhas teses e as minhas propostas ninguém as honrou com meio dia de análise, exame, meditação ou estudo.

E voltamos ao assunto premente duma causa que, de maneira alguma, poderemos julgar perdida…

Não mereceu a filosofia portuguesa qualquer atenção do ensino público?

É inegável que nem da Universidade, nem do liceu, recebeu o problema da filosofia portuguesa, tal como fora então enunciado, a mínima colaboração válida. Aliás, como se verifica pela leitura dos programas oficiais, o Estado não prescreve que o ensino da filosofia (portuguesa) seja ministrado por textos de autores portugueses. Falta, portanto, o reflexo, a crítica, a superação das obras dos pensadores antigos pela docência dos novos professores. Não há continuidade didáctica nem tradição escolar. Assim se explica que a maioria dos diplomados pelas nossas escolas superiores, com a excepção dos que frequentaram a Faculdade de Letras, descreiam ou duvidem do pensamento nacional, porque o ignoram. Tremenda é a observação quando afecta até os historiadores e os militares…






Quer então dizer que atribui aos métodos utilizados no nosso ensino, a falta de um pensamento activo e actuante?

Temos de notar que, depois de proscritos o ensino de Aristóteles por decisão do Marquês de Pombal, nunca mais a Universidade foi favorável à expressão de uma filosofia livre, autêntica, original. Não foram universitários Amorim Viana, Antero de Quental, Cunha Seixas, Domingos Tarroso, Sampaio Bruno, etc. Quanto a Leonardo Coimbra, só por um decénio (1920-1930), pouco mais ou menos, lhe foi permitido ensinar de cátedra, pois oficialmente não passava de um obscuro professor de matemática e desenho. Tem sido a Universidade portuguesa dotada de professores cuja competência e cujo saber, aferidos por provas legais, nos parecem acima de qualquer discussão, mas para realizar obras originais, profundas e influentes no domínio da filosofia são indispensáveis outras condições, as quais relaciono com a altíssima inspiração de Deus.

A história da filosofia portuguesa não foi ainda publicada em livro. Apenas conhecemos o trabalho, antiquado e esgotado, de Lopes Praça. Como explicar tão grande falta?

Do que disse, na resposta à pergunta antecedente, pode inferir-se a dificuldade que agrava o trabalho universitário de escrever e ensinar a história da filosofia portuguesa. Colocada no fim de um curso na Faculdade de Letras, a disciplina de História da Filosofia em Portugal não pode deixar de obedecer a um programa delineado segundo a história da filosofia nos outros países, quer dizer, por um programa estrangeiro. Os resultados de tal ensino não podem ser senão contraproducentes por deprimentes, conforme verificamos em quase todas as expressões da nossa literatura.

Para terminar, pode dizer algumas palavras sobre a originalidade, as características e as teses da filosofia portuguesa?

É difícil responder brevemente. A perspectiva que adopto para apreciar o pensamento filosófico português, na sua evolução histórica, é o da sua maior ou menor fidelidade a Aristóteles, os seus desvios para a esquerda ou para a direita, em referência à Ética Nicomaqueia, e assim na sucessão do iluminismo, do positivismo e do materialismo, depois do Marquês de Pombal até aos nossos dias. Objectar-se-á que a fidelidade a Aristóteles é contraditória com a existência de um pensamento moderno, profundo e original. Simplesmente, a coordenar com a sistemática aristotélica, há a vivacidade e a vigência das três tradições judaica, cristã e islâmica, como factores expressivos da alma nacional. A nossa filosofia só o pode ser em relação com uma tecnologia definida ou indefinida, patente ou oculta. Nessa verdade, está a erudição dos caracteres da filosofia portuguesa mas também a significação mais alta da nossa missão civilizadora, e com ela, dos destinos superiores da Pátria.












terça-feira, 1 de junho de 2010

Portugal e a ONU

Escrito por Miguel Bruno Duarte


No século XX, várias foram as ilustres personalidades da alta cultura portuguesa que se revelaram perfeitamente conscientes dos malefícios atribuíveis ao universalismo abstracto. É o caso de Álvaro Ribeiro que, no Diário da Manhã de 13 de Janeiro de 1964, declarara, em o ideal civilizador dos Portugueses como sendo imensamente superior (incomparavelmente superior) àquele que tem sido proclamado na ONU, ter feito o possível para formar um escol de nacionalistas autênticos dotados de pensamento filosófico. Por outras palavras, não havia, na sequência do ataque à província de Angola (15 de Março de 1961), assim como da invasão de Goa a 18 de Dezembro do mesmo ano, uma especial atenção ao que já de si transcendia os problemas de acção política e militar nas fronteiras invadidas.

«Era na burocracia – dizia Álvaro Ribeiro – que Oliveira Salazar enquadrava a democracia orgânica mas representativa, mediante a qual alcançavam posições relevantes os homens gradualmente diplomados pelos serviços de Estado. A mentalidade dominante nas instituições públicas era a de certeza e rotina, em detrimento da imaginação inventiva e da pesquisa da verdade. As escolas recebiam o apoio financeiro do Estado Novo; os arquivos, as bibliotecas, os museus, as fábricas indispensáveis de cultura superior, gozavam de legislação decente; mas a vida do pensamento espontâneo, inspirado e livre, reflectido nas artes da palavra ou nas artes gráficas, era desdenhada pelo empirismo positivista que não sabia intuir nos movimentos as forças que os pressupõem, nem ver nas obras as consequências que se desenvolveriam em actos» (Memórias de Um Letrado, III, 1980).

É significativo notar que, com o fim da II Guerra Mundial e a consequente afirmação das potências vencedoras que davam por findo o nacionalismo político e filosófico, viria a maré alta do falso universalismo baseado numa cultura unificada para suposta defesa e salvaguarda da paz mundial. E, nisto, quem, de facto, a impunha era a Organização das Nações Unidas, mormente por intermédio da Unesco que tão logo se afirmara como instituição filosófica (cf. Philosophie et demócratie dans le monde, enquête de L'UNESCO, Éditions UNESCO, 1945, p. 35). Quer dizer: doravante, a filosofia deixaria de ser entendida como pensamento especulativo para virar «uma secção da Educação» ao serviço de uma ideologia propagadora da “democracia” e do “progresso”, visto que os problemas sociais, os únicos nominalmente concretos, passariam a constituir a preocupação dominante.

Há aqui, portanto, um propósito de ordem sociológica para fazer da filosofia um instrumento dependente do poder político, como, aliás, parece resultar do teor da seguinte passagem:

«É certo que os filósofos dificilmente suportam ver o seu pensamento subordinado às vicissitudes da política. Nós não exigiremos da sua parte que intervenham nas questões políticas, mas somente que se pronunciem sobre questões morais e de filosofia social».

Ora, perante isto, já Álvaro Ribeiro sabia que:

«A proliferação de estudos sociais e de estudos sociológicos em todo o hemisfério designado por ocidental, com a multiplicação de gabinetes, centros, institutos, faculdades e outras escolas, acusa uma tendência doutrinária que me parece perigosa na medida em que tende a minimizar ou a minorar os estudos de psicologia. A sociologia sem psicologia conduz à inversão, e portanto à falsificação, dos métodos explicativos e racionais. Ora a UNESCO está impregnada deste sociologismo tão internacionalista como abstracto, contra o qual não podem deixar de opor-se todos os intelectuais religiosos e todos os intelectuais espiritualistas que meditem sobre o destino transcendente da humanidade».





Deste modo, de nada vale objectar que a Unesco declare a filosofia como estando num plano superior ao das outras disciplinas, ou que os filósofos, jamais substituindo os especialistas doutros domínios, devam, ainda assim, dar uma «unidade intelectual» aos fins doutrinários daquela instituição. Caso contrário, teremos a «vulgarização de uma cultura filosófica internacional» segundo as directrizes e a nomenclatura do programa da Unesco, tal como expressamente delineado pela Comissão preparatória de 24 de Junho de 1946. Por conseguinte, este programa, profundamente adverso ao princípio das nacionalidades, representa apenas uma ideologia propensa a impor medidas, declarações e regulamentos globalmente consagrados.

Daí que, se já Álvaro Ribeiro, no seu tempo, afirmara estarem os problemas pedagógicos e filosóficos confiados a especialistas de informação estrangeira, o que hoje não diria perante o lamentável espectáculo de uma disciplina que, no meio escolar, abdica da filosofia para promover a idolatria do cidadão. Logo, muito dificilmente se poderá escapar a esta cultura globalmente unificada onde tudo conspira para extinguir a realidade nacional na ordem da abstracção supranacional. Basta, aliás, ver como estão planificados os programas com os quais, desde o ensino «básico» ao ensino universitário, se cumprem as «normas» e «sugestões» internacionais relativas às «disciplinas de humanidades e de letras», bem como tudo o que possa induzir ao positivismo e à tecnolatria.

Entretanto, se o nacionalismo português culminou igualmente numa fundamentação histórico-geográfica, é sinal de que podemos e devemos reconhecer «o portuguesismo e a consciência patriótica de Salazar e dos seus colaboradores mais sinceros», como já assim o reconhecera António Quadros na sua obra A Arte de Continuar Português (1978). De resto, no tocante à ONU, a coisa é por demais indubitável, se, para o efeito, prestarmos a devida atenção a esta nota escrita e correctamente lida por Oliveira Salazar:


«Afigura-se-me que as Nações Unidas se encontram num passo crucial da sua vida, não porque tenham avançado no sentido da universalidade – foram criadas para albergar em seu seio todos os estados independentes – mas porque se vão afastando do espírito que presidiu à sua criação, ao mesmo tempo que substituem os processos de trabalho. É visível a tendência para converterem-se em parlamento internacional, a que não faltam mesmo sessões tempestuosas, partidos ideológicos e rácicos, arranjos de corredores. Para que a solução por que alguns anseiam se completasse, seria no entanto necessário sobrepor-lhe um executivo da confiança da Assembleia, o que oferece dificuldades, na medida em que os Estados Unidos se não disponham a custear a política aventurosa de alguns novos Estados ou a Rússia não esteja resolvida a trabalhar com um parlamento que não seja inteiramente seu, e esse não é ainda o caso. Mesmo sem governo e sem capacidade de impor normas obrigatórias para os Estados membros, esse parlamento pode criar – está já criando – através das suas tribunas e da ressonância que emprestam às afirmações produzidas, vagas de agitação, ambientes subversivos, estados de espírito que funcionam como meios de pressão sobre as nações estranhas aos grandes clãs da Assembleia. E tendo sido instituídas para a paz, já ali se ouvem em demasia vozes que a não pressagiam» (in Portugal e a Campanha Anticolonialista, 1960).

Ora, perante este cenário internacional patente no paralelismo das políticas de Washington e Moscovo contra Portugal, compreende-se que Álvaro Ribeiro - numa outra linha política que não a de Oliveira Salazar - pusesse a tónica nas razões da independência política do povo português, que eram, a seu ver, razões de ordem filosófica, posto que as únicas susceptíveis de legitimar a sua autonomia cultural. Nesse sentido, aclara:

«Nos termos vulgares da oratória parlamentar, de submissão a preconceitos, não é possível uma argumentação de valor transcendente, pelo que só resta à defesa o recurso de apelar reiteradamente para a energia moral».

Nisto, como que a confirmar o sobredito, vejamos, aquando da votação na ONU de um projecto de resolução apresentado pelo Ghana contra Portugal, estas palavras do delegado português:

«Pura e simplesmente, rejeito esta resolução: é um texto moralmente errado: e o que está moralmente errado não pode estar politicamente certo» (in Franco Nogueira, Salazar, A Resistência, Vol. V, 1984).

Em termos políticos, não há dúvida de como nos areópagos e assembleias internacionais, bem como na opinião pública portuguesa e mundial da época, se procurou suscitar e improvisar a ficção jurídica da autodeterminação da África lusa por contrapartida às respectivas matérias-primas e às posições estratégicas daí decorrentes. Era, aliás, o que já reconhecera o insuspeito e denodado crítico da Situação, de seu nome Cunha Leal. E se dizemos insuspeito, é porque não só optara, durante o consulado de Salazar, por permanecer numa situação de ostracismo político, como também ousara denunciar a corrupção plutocrática dos já então poderosos gestores de negócios.

Nesse aspecto, a par da planeada liquidação da política portuguesa no concerto internacional, existem dois livros de Cunha Leal que merecem toda a nossa atenção para o que fora, a nível interno, a instrumentalização do Estado pela alta-roda económica e financeira precursora do socialismo. Ora, esses livros são os que correm com o título de Coisas do Tempo Presente, o primeiro datando de 1957 e o segundo de 1959. Quanto ao assunto, versa naturalmente sobre as «Coisas da Companhia de Diamantes de Angola».