quinta-feira, 17 de junho de 2010

Deuses, demónios e homens

Escrito por Santo Agostinho





Agostinho sacrificando a ídolos maniqueístas. Atribuído a Aert van den Bossche.




Definição dada pelo platónico Apuleio, dos deuses celestes, demónios aéreos e homens terrestres

Mas quê? Merecerá alguma atenção a definição que ele dá dos demónios (cujos termos a todos se aplicam) em que diz:

Os demónios são - quanto ao género, seres animados; passíveis, quanto ao ânimo; quanto à mente, racionais; aéreos, quanto ao corpo; quanto ao tempo, eternos.


Nestas cinco propriedades, nada, absolutamente nada, referiu em que os demónios parecessem ter de comum exclusivamente com os homens bons alguma coisa que não tivessem em comum com os maus. Efectivamente, descreve um pouco mais pormenorizadamente, no seu lugar próprio, homens, deles falando como de seres ínfimos e terrestres, depois de ter falado dos deuses do Céu; e, uma vez evocados os dois extremos, inferior e superior, trata em último lugar dos demónios, que ocupam o meio. Escreve ele:


Portanto, os homens, - orgulhosos pela razão, poderosos pela palavra, dotados de alma imortal, de membros votados à morte, de espírito ágil e inquieto, de corpos pesados e débeis, de costumes dessemelhantes e erros parecidos, de audácia obstinada e de esperança firme, de actividade estéril e de fortuna instável, individualmente mortais, todos, porém, no seu género, perpétuos porque se sucedem na renovação das gerações, de existência fugitiva, de tardia sabedoria, de morte rápida, de vida lastimosa -, habitam na terra.


Lúcifer



Ao mencionar tantas coisas que se referem à maior parte dos homens, acaso se calou acerca desse pormenor que sabia pertencer a um pequeno número - a tardia sabedoria? Se o tivesse omitido, a sua descrição do género humano, apesar de tão atento, ficaria na verdade incompleta. Pois bem - quando põe em relevo a excelência dos deuses, frisou bem que ela consistia nessa beatitude a que os homens pretendem chegar por meio da sabedoria. Por conseguinte, se a sua intenção fosse a de dar a entender que há bons demónios, teria juntado à sua descrição alguma propriedade donde parecesse que eles possuem, em comum com os deuses, uma certa beatitude, ou, com os homens, alguma sabedoria.

Ora ele não lhes pôs em relevo qualquer destas boas qualidades que permitem distinguir os bons dos maus. E, embora se tenha abstido de fazer ressaltar demasiado livremente a sua malícia, fê-lo, não para os ofender a eles, mas antes para não ofender os seus adoradores, a quem se dirigia. Todavia permitiu que os seus leitores precavidos compreendessem o que deviam pensar desses demónios: assim, aos deuses, no seu entender todos bons e felizes, pô-los absolutamente a salvo das paixões e, como ele mesmo confessa, das tempestades que agitam os demónios, e só os relacionou pela eternidade dos corpos; todavia, em relação à alma, declarou abertamente que os demónios se assemelham, não aos deuses, mas aos homens. E, mesmo esta semelhança, respeita não à sabedoria, bem de que os próprios homens podem participar, mas à perturbação das paixões que dominam os insensatos e os maus, que os sábios e os bons dominam, preferindo não as ter, a ter de as vencer. Se Apuleio quisesse dar a entender que os demónios têm de comum com os deuses, não a eternidade do corpo mas a da alma, não teria de certo excluído os homens deste comum privilégio porque, como platónico que é, pensa sem dúvida que também os homens têm alma imortal. Por isso é que, ao descrever esta espécie de seres animados, ele diz que os homens são dotados


de alma imortal, de membros votados à morte. (...)


Se o homem pode obter a amizade dos deuses por intercessão dos demónios

De que raça são então esses mediadores entre os deuses e os homens, por intermédio dos quais poderão os homens aspirar à amizade com os deuses - se o que há de melhor nos seres animados, a alma, é o que neles, como nos homens, há de pior; e se o que há de pior nos seres animados, o corpo, é o a que neles, como nos deuses, há de melhor? Efectivamente, o ser animado ou animal é composto de alma e corpo. Destes dois, o melhor é, sem dúvida, a alma, mesmo que viciosa e doente seja ela, e perfeitamente são e vigoroso o corpo. É que a sua natureza é de ordem mais elevada; a mácula dos vícios não a faz descer abaixo do corpo. É assim como o ouro, que, mesmo impuro, tem maior valor do que a prata e o chumbo mais puros. Estes mediadores entre os deuses e os homens têm como os deuses um corpo eterno e, como os homens, uma alma viciosa - como se a religião, pela qual pretendem que os homens se unem aos deuses por intermédio dos demónios, tivesse o seu fundamento mais no corpo do que na alma!



Arcanjo S. Miguel



Enfim, que malícia, que castigo suspendeu estes falsos e falazes mediadores, como se, por assim dizer, estivessem de cabeça para baixo? É que a parte inferior do seu ser animado, isto é, o corpo, têm-na eles em comum com os seres superiores; mas a parte superior, isto é, a alma, têm-na em comum com os seres inferiores. Estão unidos aos deuses celestes pela parte que é escrava e, desgraçados, estão unidos aos homens terrestres pela parte que domina. Realmente, o corpo é escravo, como diz Salústio:


Usamos do espírito preferentemente para mandar e do corpo para servir,

e acrescenta:


Uma qualidade é comum a nós e aos deuses, e outra a nós e aos brutos,


ao falar dos homens que têm, como os brutos, um corpo mortal. Mas estes, que os filósofos nos propuseram como mediadores entre nós e os deuses, bem podem dizer do seu corpo e da sua alma: esta é comum a nós e aos homens, e aquele é comum a nós e aos deuses. Com a diferença, como disse, de que estão ligados e suspensos às avessas, tendo o corpo escravo comum com os deuses bem-aventurados e a alma suspensa, com os desgraçados dos homens, ou seja: exaltados pela parte inferior e rebaixados pela parte superior. Donde se conclui: ainda que alguém julgue que eles têm de comum com os deuses a eternidade, porque morte nenhuma poderá, como acontece nos seres terrestres, separar o seu espírito do seu corpo como veículo eterno de um corpo de seres dignos de honra, mas antes como eterno veículo de condenados.


Na opinião de Plotino, são menos desgraçados os homens num corpo mortal do que os demónios num corpo eterno

Plotino é justamente louvado por ter, nos tempos mais recentes, compreendido Platão melhor que os seus outros discípulos. Diz ele, ao tratar das almas humanas:


O Pai, na sua misericórdia, preparava-lhes vínculos (vincla) mortais.


Assim, o facto de os homens terem um corpo mortal, pensou ele atribuí-lo à misericórdia de um Deus-Pai, que não quis mantê-los sempre na miséria desta vida. Desta misericórdia considerou indigna a iniquidade dos demónios, que, na miséria duma alma sujeita às paixões, receberam, não um corpo mortal como o dos homens, mas sim um corpo eterno. De certo que seriam mais felizes do que os homens se, como estes, tivessem um corpo mortal e, como os deuses, uma alma bem-aventurada. E seriam iguais aos homens se, com uma alma atribulada, tivessem ao menos merecido, como eles, um corpo mortal - contanto que, evidentemente, pudessem repousar, pelo menos depois da morte, das suas tribulações. Mas eles, devido à miséria da sua alma, não são mais felizes do que os homens, e, devido à perpétua prisão que é o seu corpo, são até mais infelizes do que os homens. Ao afirmar que eles são eternos, quis dar a entender que eles não poderiam transformar-se em deuses, porque os demónios não são capazes de progredir na prática da piedade e da sabedoria.



Arcanjo S. Miguel



(...) Sendo mortais, poderão os homens gozar da verdadeira felicidade?

Se o homem poderá ser simultaneamente feliz e mortal - é a grande questão que entre os homens se põe. Alguns, olhando para a sua condição com demasiada modéstia, negaram ao homem a capacidade de ser feliz enquanto vive sujeito à mortalidade. Outros, considerando-se superiores, ousam dizer que os mortais poderão ser felizes desde que estejam de posse da sabedoria. Se assim é, porque é que se não colocam estes como intermediários entre os homens miseráveis e os felizes imortais, pois têm de comum com os imortais felizes a felicidade e com os mortais miseráveis a mortalidade? Com certeza que, se são felizes, a ninguém invejam (haverá realmente algo de mais miserável que a inveja), e ajudam, na medida que lhes é possível, os mortais infelizes a obterem a felicidade para que possam também ser imortais depois da morte e possam unir-se aos anjos imortais e felizes.


O homem Jesus Cristo mediador entre Deus e os homens

Mas, se, segundo a opinião mais aceitável e mais provável, todos os homens são necessariamente infelizes por serem mortais, tem que se procurar um intermediário que seja, além de homem, também Deus - para, por mediação da sua bem-aventurada imortalidade, encaminhar os homens da sua miserável mortalidade à imortalidade bem-aventurada. Era necessário que nem fosse excluído da mortalidade nem constrangido a permanecer mortal. Tornou-se, de facto, mortal, não por enfraquecimento da divindade do Verbo, mas por assunção da fraqueza da carne. Mas não permaneceu mortal na carne, que Ele ressuscitou dos mortos. O fruto da sua mediação é precisamente este: que aqueles para cuja libertação se fez mediador não permaneçam mais na morte perpétua da carne. Foi, pois, necessário que o mediador entre Deus e nós possuísse uma mortalidade transitória e uma felicidade permanente, para se poder acomodar aos mortais no passageiro e levá-los de entre os mortos ao que permanece.


Ressurreição de Jesus Cristo



Os anjos bons não podem, portanto, ocupar uma posição intermediária entre os infelizes mortais e os imortais bem-aventurados. Contrário a eles está o bom mediador que, contra a imortalidade e desgraça dos anjos maus, quis tornar-se mortal por algum tempo e pôde permanecer bem-aventurado na eternidade. Assim, para impedir que os maus anjos, imortais orgulhosos e infelizes criminosos, seduzissem os homens, valendo-se da sua imortalidade para os conduzir à infelicidade, - o bom mediador, pela humildade da sua morte e a suavidade da sua beatitude destruiu o domínio daqueles nos corações que pela fé purificou da sua imundíssima tirania.

Assim, o homem mortal e infeliz, muito afastado dos seres imortais e felizes, que mediador poderá escolher que o conduza à imortalidade e à beatitude? O que poderia deleitá-lo na imortalidade dos demónios, é miséria; o que poderia chocá-lo na mortalidade de Cristo, já não existe. Naquele caso, tem que se precaver contra a desgraça sem fim, - neste caso, já não tem que temer a morte que não pôde ser eterna, mas amar a felicidade sempiterna. Se se interpusesse um mediador imortal e infeliz, seria para fechar a passagem à imortalidade feliz, porque o que impede de lá chegar - a própria infelicidade - persiste sempre. Mas, ao contrário, o que era mortal e feliz interpôs-se, uma vez passada a mortalidade, para dar aos que morreram a imortalidade - o que ele mostrou em si próprio ressuscitando e conferindo aos que são infelizes a beatitude de que jamais foi privado.

Há, pois, um mediador mau que separa os amigos - e há um mediador bom que congraça os inimigos. São muitos os mediadores que separam, porque, se a multidão dos anjos bons tira a sua beatitude da participação no Deus único, a desgraçada multidão dos anjos maus, privada desta participação, faz oposição mais para impedir do que para facilitar a nossa felicidade. A sua própria multidão de certo modo nos ensurdece com a sua vozearia, para nos tornar impossível o acesso ao bem único e beatificante. Para o conseguirmos, não são precisos muitos mediadores: basta um - precisamente aquele cuja participação nos torna felizes, o Verbo de Deus incriado, por quem tudo foi criado. Todavia, não é enquanto Verbo que ele é mediador, porque o Verbo, soberanamente imortal e soberanamente feliz, está longe dos imortais infelizes. Ele é mediador enquanto homem, mostrando por isso mesmo que, para atingir aquele que é, não somente o Bem feliz (beatum) mas também beatificante (beatificum) não é preciso procurar outros mediadores que julguemos encarregados de dispor os degraus da nossa ascensão - pois foi o próprio Deus bem-aventurado (beatus) e beatificante (beatificus), tornado partícipe da nossa humanidade, quem nos forneceu um meio rápido de participarmos na sua divindade. Realmente, ao libertar-nos da mortalidade e da miséria, não foi para os anjos imortais e felizes que nos encaminhou, para nos alcançar uma felicidade e uma imortalidade deles recebida: foi sim para aquela Trindade cuja participação faz a felicidade dos próprios anjos. Por isso, quando quis, para ser mediador, pôs-se abaixo dos anjos na forma de escravo, manteve-se acima deles na sua forma de Deus, fazendo-se caminho da vida entre os inferiores, Ele mesmo que é a vida entre os superiores (in A Cidade de Deus, Fundação Calouste Gulbenkian,1993, Vol. II, pp. 837-44 e 853-857).




Conversão de Santo Agostinho, por Charles-Antoine Coypel.



Agostinho ensinando em Roma



Agostinho na Universidade de Cartago



Túmulo de Santo Agostinho, em San Pietro in Ciel d'Oro, em Pavia.


Triunfo da Igreja, por Peter Paul Rubens


terça-feira, 15 de junho de 2010

Quem é filósofo e quem não é

Escrito por Olavo de Carvalho





Machado de Assis (1839-1908).










Diário do Comércio, 7 de maio de 2009

À medida que se espalha a consciência da debacle total das nossas universidades públicas e privadas, cresce o número de brasileiros que, valentemente, buscam estudar em casa e adquirir por esforço próprio aquilo que já compraram de um governo ladrão – ou de ladrões empresários de ensino – e jamais receberam.

Quase dez anos atrás a Fundação Odebrecht – no mais, uma instituição admirável – me perguntou o que eu achava de uma campanha para cobrar do governo um ensino de melhor qualidade. Respondi que era inútil. De vigaristas nada se pede nem se exige. O melhor a fazer com o sistema de ensino era ignorá-lo. Se queriam prestar ao público um bom serviço, acrescentei, que tratassem de ajudar os autodidatas, aquela parcela heróica da nossa população que, de Machado de Assis a Mário Ferreira dos Santos, criou o melhor da nossa cultura superior. O meio de ajudá-los era colocar ao seu alcance os recursos essenciais para a auto-educação, que é, no fim das contas, a única educação que existe. Cheguei a conceber, para isso, uma coleção de livros e DVDs que davam, para cada domínio especializado do conhecimento, não só os elementos introdutórios indispensáveis, mas as fontes para o prosseguimento dos estudos até um nível que superava de muito o que qualquer universidade brasileira poderia não só oferecer, mas até mesmo imaginar.

Minha sugestão foi gentilmente engavetada, e, com ou sem campanha de cobrança, o ensino nacional continuou declinando até tornar-se aquilo que é hoje: abuso intelectual de menores, exploração da boa-fé popular, crime organizado ou desorganizado.

Na mesma medida, o número de cartas desesperadas que me chegam pedindo ajuda pedagógica multiplicou-se por dez, por cem e por mil, transcendendo minha capacidade de resposta, forçando-me a inventar coisas como o programa True Outspeak, o Seminário de Filosofia Online e outros projetos em andamento. E ainda não dou conta da demanda. As cartas continuam vindo, e o pedido que mais se repete é o de uma bibliografia filosófica essencial. É pedido impossível. O primeiro passo nessa ordem de estudos não é receber uma lista de livros, mas formá-la por iniciativa própria, na base de tentativa e erro, até que o estudante desenvolva uma espécie de instinto seletivo capaz de orientá-lo no labirinto das bibliotecas filosóficas. O que posso fazer, isto sim, é fornecer um critério básico para você aprender a discernir à primeira vista, entre os autores que falam em nome da filosofia, quais merecem atenção e quais seria melhor esquecer.

Tive a sorte de adquirir esse critério pelo exemplo vivo do meu professor, Pe. Stanislavs Ladusãns. Quando ele atacava um novo problema filosófico – novo para os alunos, não para ele –, a primeira coisa que fazia era analisá-lo segundo os métodos e pontos de vista dos filósofos que tinham tratado do assunto, em ordem cronológica, incorporando o espírito de cada um e falando como se fosse um discípulo fiel, sem contestar ou criticar nada. Feito isso com duas dúzias de filósofos, as contradições e dificuldades apareciam por si mesmas, sem a menor intenção polêmica. Em seguida ele colocava em ordem essas dificuldades, analisando cada uma e por fim articulando, com os elementos mais sólidos fornecidos pelos vários pensadores estudados, a solução que lhe parecia a melhor.

A coisa era uma delícia, para dizer o mínimo. Num relance, compreendíamos o sentido vivo daquilo que Aristóteles pretendera ao afirmar que o exame dialético tem de começar pelo recenseamento das “opiniões dos sábios” e tentar articular esse material como se fosse uma teoria única. Cada filósofo tem de pensar com as cabeças de seus antecessores, para poder compreender o status quaestionis – o estado em que a questão chegou a ele. Fora disso, toda discussão é puro abstratismo bocó, opinionismo gratuito, amadorismo presunçoso.






A conclusão imediata era a seguinte: a filosofia é uma tradição e a filosofia é uma técnica. Chega-se ao domínio da técnica pela absorção ativa da tradição e absorve-se a tradição praticando a técnica segundo as várias etapas do seu desenvolvimento histórico.

Note-se a imensa diferença que existe entre adquirir pura informação, por mais erudita que seja, sobre as idéias de um filósofo, e levá-las à prática fielmente, como se fossem nossas, no exame de problemas pelos quais sentimos um interesse genuíno e urgente. A primeira alternativa mata os filósofos e os enterra num sepulcro elegante. A segunda os revive e os incorpora à nossa consciência como se fossem papéis que representamos pessoalmente no grande teatro do conhecimento. É a diferença entre museologia e tradição. Num museu pode-se conservar muitas peças estranhas, relíquias de um passado incompreensível. Tradição vem do latim traditio, que significa “trazer”, “entregar”. Tradição significa tornar o passado presente através da revivescência das experiências interiores que lhe deram sentido. A tradição filosófica é a história das lutas pela claridade do conhecimento, mas como o conhecimento é intrinsecamente temporal e histórico, não se pode avançar nessa luta senão revivenciando as batalhas anteriores e trazendo-as para os conflitos da atualidade.

Muitas pessoas, levadas por um amor exagerado à sua independência de opiniões (como se qualquer porcaria saída das suas cabeças fosse um tesouro), têm medo de deixar-se influenciar pelos filósofos, e começam a discutir com eles desde a primeira linha, isto quando já não entram na leitura armadas de uma impenetrável carapaça de prevenções.

Com o Pe. Ladusãns aprendíamos que, no conjunto, as influências se melhoram umas às outras e até as más se tornam boas. Incorporadas à rede dialética, mesmo as cretinices filosóficas mais imperdoáveis em aparência acabam se revelando úteis, como erros naturais que a inteligência tem de percorrer se quer chegar a uma verdade densa, viva, e não apenas acertar a esmo generalidades vazias.

Algumas regras práticas decorrem dessas observações:

1. Quando você se defrontar com um filósofo, em pessoa ou por escrito, verifique se ele se sente à vontade para raciocinar junto com os filósofos do passado, mesmo aqueles dos quais “discorda”. A flexibilidade para incorporar mentalmente os capítulos anteriores da evolução filosófica é a marca do filósofo genuíno, herdeiro de Sócrates, Platão e Aristóteles. Quem não tem isso, mesmo que emita aqui e ali uma opinião valiosa, não é um membro do grêmio: é um amador, na melhor das hipóteses um palpiteiro de talento. Muitos se deixam aprisionar nesse estado atrofiado da inteligência por preguiça de estudar. Outros, porque na juventude aderiram a tal ou qual corrente de pensamento e se tornaram incapazes de absorver em profundidade todas as outras, até o ponto em que já nada podem compreender nem mesmo da sua própria. Uma dessas doenças, ou ambas, eis tudo o que você pode adquirir numa universidade brasileira.




2. Não estude filosofia por autores, mas por problemas. Escolha os problemas que verdadeiramente lhe interessam, que lhe parecem vitais para a sua orientação na vida, e vasculhe os dicionários e guias bibliográficos de filosofia em busca dos textos clássicos que trataram do assunto. A formulação do problema vai mudar muitas vezes no curso da pesquisa, mas isso é bom. Quando tiver selecionado uma quantidade razoável de textos pertinentes, leia-os em ordem cronológica, buscando reconstituir mentalmente a história das discussões a respeito. Se houver lacunas, volte à pesquisa e acrescente novos títulos à sua lista, até compor um desenvolvimento histórico suficientemente contínuo. Depois classifique as várias opiniões segundo seus pontos de concordância e discordância, procurando sempre averiguar onde uma discordância aparente esconde um acordo profundo quanto às categorias essenciais em discussão. Feito isso, monte tudo de novo, já não em ordem histórica, mas lógica, como se fosse uma hipótese filosófica única, ainda que insatisfatória e repleta de contradições internas. Então você estará equipado para examinar o problema tal como ele aparece na sua experiência pessoal e, confrontando-o com o legado da tradição, dar, se possível, sua própria contribuição original ao debate.

É assim que se faz, é assim que se estuda filosofia. O mais é amadorismo, beletrismo, propaganda política, vaidade organizada, exploração do consumidor ou gasto ilícito de verbas públicas.


domingo, 13 de junho de 2010

A Grande Deturpação (iv)

Escrito por Orlando Vitorino






C. Excertos de uma entrevista em que se descrevem os tristes resultados do que anteriormente foi testemunhado

O entrevistado é (...) Orlando Vitorino, o entrevistador é o jornalista Martins Gaspar, o jornal onde a entrevista foi publicada é O Dia de 5 de Janeiro de 1980.

Pergunta - A que atribui a quebra de qualidade da literatura portuguesa quer quanto aos temas, quer quanto ao próprio espírito e afirmação da nossa língua?

Resposta - Não houve, depois do 25 de Abril, isto é, depois da proclamação constitucional do socialismo, qualquer quebra de qualidade da literatura portuguesa. A literatura portuguesa tem, neste século, o seu período culminante, reunindo nele três dos seus maiores poetas - Pascoaes, Pessoa e Régio - e os seu três maiores pensadores: Leonardo Coimbra, José Marinho e Álvaro Ribeiro. Pascoaes pode, sem grandes possibilidades de séria contestação, figurar entre os génios artísticos da humanidade, sendo, na linhagem de Homero, Virgílio, Dante e Shakespeare, o poeta da idade que vivemos agora. Por Leonardo, Marinho e Álvaro Ribeiro terá de passar todo o pensamento filosófico que não queira aceitar, como não pode aceitar, a demissão da filosofia anunciada pelos alemães posteriores a Hegel, expressamente por Heidegger no seu testamento filosófico.

Aquilo a que V. se refere, ao afirmar uma "quebra de qualidade na literatura portuguesa", é uma infraliteratura que, durante os últimos quarenta anos, foi motivada, alimentada e celebrizada pela sua oposição ao salazarismo, portanto pelo salazarismo, e constituiu, para os chamados políticos de esquerda um instrumento preciso das tácticas e estratégias a que reduzem a política.

Pergunta - Quer V. dizer, portanto...?

Resposta - Quero dizer que com a derrota do salazarismo, essa infraliteratura perdeu a razão da existência e deixou efectivamente de existir. Falta-lhe o regime, o establishment, a matéria onde ia buscar seus motivos. Por outro lado, isso pôs a nu o mínimo ou nenhum valor dos livros que, durante os seus findos anos de existência, produziu.



Pergunta - Poderia V. explicar essa análise aparentemente cruel?

Resposta - Sem dúvida alguma. Por um fenómeno facilmente explicável, embora à primeira vista paradoxal, essa espécie de literatura satisfazia igualmente a mentalidade do establishment salazarista e a mentalidade da sua oposição política, correspondia à imagem que ambas tinham da literatura como servil instrumento dos políticos, beneficiava do igual interesse de ambas em fazer ignorar a literatura portuguesa, desde Leonardo a Pascoaes, desde Marinho a Pessoa, desde Álvaro Ribeiro a José Régio e, até, desde Camões aos nossos dias. Por isso as suas obras - ensaios superficiais, como hoje claramente se vê que são até os de A. Sérgio, poemas de gazetilha como os de J. Gomes Ferreira, e novelas de magazine negro como as de Alves Redol e Pereira Gomes - se viam editadas, lançadas, exaltadas e premiadas pelos poderes, instituições e empresas do regime, coligidas nas selectas escolares oficiais, adaptadas ao cinema e ao teatro subsidiados pelo Estado fascista, instaladas com seus autores e panegiristas nos liceus e universidades. Organizou-se deste modo um tão eficaz ludíbrio da opinião que ela ficava impedida de observar como essa infraliteratura que se dava por perseguida, vitimada e censurada pelo regime político era também a única literatura reconhecida e protegida por esse regime. Naturalmente, menos se observava ainda que a literatura portuguesa, essa que era todos os dias silenciada, tinha de recorrer aos editores marginais ou fora das grandes redes de distribuição, escondida pelos livreiros, segregada do ensino e, até, a única verdadeiramente proibida pela censura.

Pergunta - Não haverá exagero nessa descrição?

Resposta - Oiça, meu caro. Quando foi extinta a famigerada instituição, uma sociedade de direitos de autor subitamente convertida ao socialismo triunfante, organizou uma exposição dos livros que a censura havia proibido. Depressa teve que a encerrar e tornar inacessível o seu catálogo por se verificar que os autores mais censurados não eram os que fazem profissão de esquerdismo, mas sim novelistas como Domingos Monteiro e dramaturgos como José Régio. Este acontecimento mostra bem como a infraliteratura tentou prolongar o ludíbrio que lhe mantivera a existência até para além de todos os limites da verosimilhança.

Pergunta - Há muitos exemplos de tudo isso. Mas tem havido pouca coragem para os mostrar.

Resposta - Exactamente. O exemplo que lhe dei é, porém, o de um caso demasiado ingénuo e tolo. Um deles é-nos oferecido por Eduardo Lourenço que, em livro recente, ainda veio repetir o chavão neo-realista de que pensadores como Álvaro Ribeiro, José Marinho, Afonso Botelho, António Quadros, António Telmo, eu próprio, formavam uma corrente de pensamento de apoio ao salazarismo. E. Lourenço tem memória curta. Esqueceu, entre outras coisas, que era ele, e seus parceiros de opinião e organização, quem desempenhava cargos, como os de professor universitário, que não podiam deixar de ser da confiança do Governo, então o salazarista.






Pergunta - Bem... e depois?

Resposta - Desaparecido o salazarismo, desapareceu a infraliteratura que dele se alimentava. Os ambientes que a tomavam a sério, forjados pela imprensa dirigida e pelo ensino marxizado da universidade, ficaram efectivamente sem literatura, pois só aquela lhes era acessível, e substituíram-na pela televisão e algum cinema, nada tendo perdido com a troca, embora também não tenham ganho grande coisa. Mas os políticos que nela tinham a sua "literatura própria", esses é que, ao passarem da oposição para o poder, ficaram sem o que seria a sua "literatura oficial".

Pergunta - Não quereria, Orlando Vitorino, clarificar esse ponto de vista?

Resposta - Pois sim. Sabendo eles, esses políticos, que os valores, princípios, pensamentos e sentimentos de toda a verdadeira literatura (ao contrário do que o bem-pensantismo ainda julga, os intelectuais não são da esquerda) têm efeitos nefastos e destruidores para o socialismo, vêem-se obrigados, como o salazarismo, a fazê-los ignorar. Ficam, assim, sem nenhuma literatura. Para lavarem daí as mãos declaram toda a literatura em crise, fazem constar coisas como essa de haver uma "quebra de qualidade na literatura portuguesa actual". Você, meu caro amigo, fez-se eco dessa balela, deixou-se levar.

Pergunta - Não o creia. Fiz-lhe essa pergunta sabendo o que ela significa e pensando de certo modo como V. bastará ler alguns dos meus trabalhos, em jornal e até em livro. Mais adiante. O meu caso não interessa e o entrevistado é V. e não eu.

Resposta - Eu sei, eu sei... E repare agora que não é só a actual literatura que eles pretendem englobar na balela. É toda a literatura portuguesa, desde a clássica até à contemporânea. Observe o que tem sido a acção das autoridades socialistas desde que assumiram o poder político: fizeram a campanha contra Camões, dizendo-o poeta militarista, colonialista e racista, cantor de uma história com "cinco séculos de fascismo"; comemoraram o centenário de Herculano, mas tendo o cuidado de deixar sepultados os seus inéditos e por reeditar a sua obra (os salazaristas tinham feito o mesmo com Junqueiro); congelaram, nas mãos dos universitários, a obra de Pascoaes e Camilo; prolongaram a campanha, que já vinha do regime anterior (como quase tudo), contra José Régio, campanha que há quem diga ter sido a responsável pela sua morte, para depois, numa sinistra macacada comicieira, lhe chamarem "o nosso camarada socialista"; fizeram comprar pelo Estado o espólio de Fernando Pessoa para o entregarem, com os seus 26 000 inéditos às mãos servis dos professores universitários que dele vão extraindo, sem qualquer garantia da verídica autoria (já chegaram a publicar, como sendo um inédito de Pessoa, uma versalhada do antiquário Kamersky à Greta Garbo) aqueles textos que julgam poder servir para a deturpação do pensamento do grande poeta; cercam de sinistro silêncio e obstáculos editoriais as obras de Leonardo e José Marinho, de seus epígonos e seus companheiros; enchem as selectas escolares de textos que esterilizam para sempre a capacidade de compreensão intelectual e estética de sucessivas gerações de estudantes; fazem do ensino da língua portuguesa o ensino de uma técnica de comunicação na qual o homem se não distingue do animal.

Tudo isto são factos. Factos pontuais, dirá V. utilizando a linguagem corrente...






Pergunta - Talvez...

Resposta - Sim, respondo eu. Mas é unindo os pontos que se aprende na escola a desenhar as figuras...

Pergunta - Como é que, perante tal situação, pode sobreviver a literatura portuguesa que, sem quebras, continua a existir?

Resposta - Como sempre sobreviveu: em guetos.

Pergunta - Não sente profundamente a necessidade de uma como que purificação da língua portuguesa?

Resposta - A língua portuguesa - que foi a primeira das línguas românicas a adquirir virtualidades de expressão descritiva, com Fernão Lopes, e de expressão conceptual (o que é muito mais importante) com D. Duarte - parece ser também a primeira delas a passar, como o latim e o grego, a "língua morta". A maneira como se fala nos meios escolares de todos os graus e nos jornalísticos, radiofónicos e políticos, a maneira como está redigida a Constituição, são um espectáculo em que facilmente se diagnostica a doença mortal. E são um espectáculo tão generalizado, consentido e até aplaudido - sobretudo quando se fala nos "novos países de expressão portuguesa" - que é difícil esperar que o doente encontre remédio. Dela ficará, mais uma vez confirmando a antiquíssima sabedoria de que "o pássaro de Minerva levanta voo ao anoitecer", a literatura que nos nossos dias alcança, com essa língua já moribunda, as suas mais perfeitas expressões designadamente no domínio conceptual. Daqui resulta que os nossos escritores, sendo ainda operantes, são já escritores clássicos, no sentido em que se diz que os romanos e os gregos, com seus livros escritos numa língua há muito morta, são clássicos. Trata-se de uma situação análoga àquela que Fernando Pessoa alegorizou no poema dos "Jogadores de Xadrez", uma situação talvez única na história: escritores a escreverem numa língua que lhes é natural mas se debate, já moribunda, nas convulsões e no tumulto da morte. Nada se pode fazer contra isto. Durante mais alguns anos, durante ainda uma ou duas gerações, assistir-se-á, nas escolas, na imprensa, na rádio e na política, agora também nas igrejas, que aboliram o latim, à degenerescência cada vez mais acelerada, mais grosseira e mais vil de uma língua que alguns raros homens, os escritores que Pessoa via na figura dos jogadores de xadrez, continuaram a utilizar com uma perfeição que ela nunca antes teve.

Pergunta - Qual deve ser a posição do escritor na época actual, não apenas em Portugal como no mundo?

Resposta - Amar a verdade.

Pergunta - Face a uma Pátria em perigo, o escritor, que também é cidadão, em que sentido deve orientar a sua missão intelectual, responsável dentro de uma sociedade?

Resposta - Dizer a verdade.



QUINTA ILUSTRAÇÃO

que mostra como a grande deturpação está internacionalizada

com três notícias: Pablo Neruda e o Diário de Notícias, Ionesco e o Observer, M. Elliade e a Gallimard

A. Pablo Neruda e o Diário de Notícias





Pablo Neruda




André Coyné é um escritor e professor francês, minucioso e profundo conhecedor da literatura da América do Sul, onde viveu largos anos. Em 1973, habitando em Lisboa, escreveu, provocado, um artigo sobre Pablo Neruda, um mês depois de este poeta ter morrido. A provocação que o levou a escrever o artigo foi o coro de elogios a Neruda que, a pretexto agora da sua morte, mais uma vez se fazia ouvir na imprensa de todo o mundo. O artigo de Coyné começa assim: "Lamento discordar do coro."

Aí nos diz Coyné que tudo que de valioso, significativo e autenticamente poético Pablo Neruda escreveu, está na obra elegíaca que publicou antes de 1935. Vinte Poemas de Amor y un Cancion Desperada e as Residencias en la Tierra. De tal modo é assim que quando, depois dos seguintes vinte anos de "verborreia, incontinências e diatribes", ainda uma vez se salva é com um regresso à elegia nos Cem Poemas de Amor. Isso o leva a concluir:"Um livro basta para assegurar a perpetuidade de um poeta e Neruda podia ter morrido em 1935."

O que André Coyné nos descreve é, efectivamente, uma impressionante carreira de aviltamento perante a política, a publicidade, o dinheiro e a lisonja que Neruda percorre desde 1936 até à sua morte em 1973, desde que adere ao comunismo, escreve o Nuevo Canto de Amor a Staline e obtém, para toda a vida, os serviços da "máquina propagandística, à escala mundial, da Terceira Internacional". A poesia deixa de valer para ele e chega a anunciar, em 1941: "Passo a dedicar-me à política e à minha colecção de conchas." O que daí em diante faz já não é efectivamente poesia, mas um "alinhar de vocábulos descompostos" onde se amontoa "a confusão e a chateza imaginativas mal disfarçadas pelo ribombar da litania": España en el Corazon, Canto General, Alturas de Macchu Picchu. Repudia a obra elegíaca, declarando que é "perniciosa, que não deve ser lida pela juventude, que são poemas empapados de pessimismo, que não ajudam a viver mas a morrer". Todavia, acrescenta Coyné, "não suspende a sua venda nem proíbe as suas reedições as quais, obtendo mais procura com o repúdio anunciado, convertem Neruda no único poeta a quem a poesia permite rivalizar, em sibaratismo, com as estrelas de Hollywood". Observando a verborreia que passam a ser os seus poemas, um outro poeta sul-americano, César Moro, "cuja voz crescerá à medida que a de Neruda irá enfraquecendo", dirá que "a poesia não perdoa".


Em todo este processo, a degradação de Neruda chega a atingir as vilezas mais baixas: ao poeta peruano César Vallejo, comunista como ele mas caído na pobreza e na doença, faz desaparecer os escritos para, depois de o ver morto, lhe dedicar um poema dizendo-se seu "amigo para lá da vida e da morte"; cantando Estaline quando Estaline manda, logo canta o que o substitui ("Malenkov agora continuará a sua obra") e logo o repudia: "bigodudo deus com botas postas/e aquelas calças impecáveis/engomadas pelo servilismo realista"; a espreitar o Nobel, namora a luxuosa propaganda do capitalismo americano que, entre outras coisas, lhe dedica um número de "Life"; troca, na reedição de velhos poemas panfletários, os nomes de Trujillo, Somoza e Carias, escritos em 1948, pelos de Nixon, Frei e Pinochet, escritos em 1973, sem alterar os versificados atributos: "hienas vorazes da nossa história". À medida que os anos avançam, a impudicícia e a avidez da lisonja não diminuem. Em 1967, faz encomendar a uma sua secretária, Margarita Aguirre, um ensaio sobre ele próprio no qual os elogios mergulham no grotesco: desde dizer-se, em cada frase ou gesta, "0 maior poeta do mundo" até se descrever que, sendo ele de grande corpulência, mas de pés e mãos minúsculos, e gostando de bailar, que "a sua falta de graça quando baila é a graça mesma". A máquina propagandística da grande deturpação acompanha até ao fim todo este delírio grotesco. Quando este mediano poeta morre, em 1973, "o tradutor oficial de Neruda para francês, Jean Marcenac, não hesita em dizê-lo poeta tal que é muito possível que não tenha havido dez como ele desde que foi outorgado ao homem o poder da palavra".

Tal é o artigo em que André Coyné desmascara uma exemplificativa montagem da grande deturpação. O autor leva-o à direcção do Diário de Notícias que não era, então, a que é hoje. O artigo foi recusado. André Coyné publicou-o agora em apêndice ao primeiro volume do livro Sobre Portugal Nestes Tempos do Fim.


B. Ionesco e o Observer




Eugène Ionesco




Quando se representaram em Londres as primeiras peças de Ionesco - As Cadeiras e A Lição - o crítico Kenneth Tynan, do celebrado, influente e esquerdista Observer, escreveu um artigo representativo das posições políticas de obediência ideológica, no qual afirmou:

"Os aplausos entuasistas do público tiveram uma intensidade ensurdecedora, uma espécie de frenesim que é sintomático de um novo culto. O culto é Ionesco. E eu farejo aí um perigo [...] O perigo começa quando se apresenta como exemplar, como único caminho aberto ao teatro do futuro, esse lúgubre mundo do qual serão excluídas para sempre as heresias humanas de fé na lógica e de fé no homem. [...] O teatro de Ionesco é picante, é excitante. Mas não passa de um divertimento marginal. Não avança pela estrada larga, e os que pretendem que é nela que ele se encontra, não servem Ionesco nem servem o teatro".

Este artigo provocou uma resposta de Ionesco. Vale a pena transcrever os seguintes trechos:


o artista não é um Messias:

"Trazer uma mensagem aos homens, pretender dirigir os destinos do mundo, ou salvá-lo, é o que se propõem os fundadores de religiões, os moralistas e o políticos, e todos nós temos pago bem caro essas pretensões."


a arte não é ideologia:

"Uma obra de arte nada tem que ver com as doutrinas. já uma vez escrevi que uma obra de arte que não fosse senão ideológica, seria uma total inutilidade, uma tautologia, inferior à doutrina que se propusesse representar e que terá sempre uma melhor expressão na linguagem demonstrativa e discursiva. A obra de arte possui um sistema de expressão que lhe é próprio, tem meios próprios para apreender directamente o real".


a arte não é realista:

"Quanto à noção de realidade, o Sr. Tynan parece já conhecer um modo do real: o modo chamado social que é, a meus olhos, o mais superficial, o menos objectivo, pois está sempre sujeito às interpretações passionais."




Ionesco




a política é o mal:

"Creio que o que nos separa uns dos outros é esta política que ergue muralhas entre os homens e constitui uma origem permanente de mal-entendidos. Se me fosse permitida a expressão paradoxal, direi que a verdadeira sociedade, a autêntica comunidade humana é extra-social. É uma sociedade mais vasta e mais profunda, que se revela nas angústias comuns, nos desejos e secretas nostalgias e essas angústias, que a acção política se limita a reflectir e a interpretar muito imperfeitamente. Nenhuma sociedade conseguiu jamais abolir a tristeza humana, nenhum sistema político pôde alguma vez libertar-nos da dor de viver, do meio de morrer, da sede de absoluto. É a condição humana que governa a condição social, não o contrário."


as ideologias são álibis dos poderosos:

"Se alguma coisa existe que deva ser desmistificada, são as ideologias que oferecem soluções acabadas. Constituem elas álibis provisórios dos partidos que chegam ao poder. A linguagem cristaliza-as, fixa-as. Tudo deve ser continuamente reexaminado à luz das nossas angústias e dos nossos sonhos, e a linguagem anquilosada das revoluções instaladas deve, sem cessar, ser sujeita a um descongelamento, a fim de não se perder a fonte original, a verdade primeira".


a obra de arte não é redutível:

"Poderia eu agarrar numas tantas obras de arte, numas tantas peças de teatro, não importa quais, e aposto que seria possível atribuir a cada uma delas, sucessivamente, um carácter marxista, budista, cristão, existencialista, psicanalítico; provar como a obra assim sujeita a todas estas interpretações e atribuições e confirma, de modo exclusivo, tanto uma ideologia como a ideologia contrária. Tal possibilidade só demonstra, quanto a mim, que toda a obra de arte está fora das ideologias, não é redutível a uma ideologia".


arte e comunicação:

"A questão de saber se a obra se encontra, ou não, na estrada larga, se é não conforme com aquilo que nós quereríamos que ela fosse, resulta de um juízo preestabelecido, juízo portanto exterior, insignificante e falso. Uma obra de arte é a expressão de uma realidade incomunicável que se tenta comunicar e que, às vezes, se consegue comunicar. Esse é o seu paradoxo e a sua verdade."

Com esta resposta de Ionesco, abriu-se, nas páginas do Observer, uma polémica que marcou data na história do teatro contemporânea. Nela intervieram, entre outros, Orson Welles e Philip Toynbee. Um dos intervenientes considerou a resposta de Ionesco "a mais lúcida refutação da actual teoria do realismo social".

Entretanto, K. Tynan replicou com um novo artigo intitulado "Ionesco e o Fantasma". Ionesco envia ao Observer uma segunda resposta sua. Generoso, o famoso semanário comprou-lhe os direitos de publicação em Inglaterra dessa resposta, mas não a publicou. O autor veio a incluí-la, anos mais tarde, no livro Notes et Contre-Notes.



SÉTIMA ILUSTRAÇÃO

que mostra como a grande deturpação ilude até aqueles que estão mais avisados

com uma recensão do livro Le Cinquième Empire



Dominique de Roux à esquerda


O livro simultaneamente mais interessante e mais valioso entre tantos que, depois de Abril de 1974, se escreveram sobre Portugal, é sem dúvida o de Dominique de Roux, Le Cinquième Empire (Ed. Belfont, Paris).

A tese do autor é a seguinte: Portugal foi o último dos impérios e seu termo, agora dado, abre a história da humanidade para o Quinto Império, aquele que, anunciado nos livros da tradição mais sagrada e mais secreta, será o império da universalidade. Em termos mais correctos: encerrado o longo ciclo do imperialismo, a humanidade vai entrar no ciclo do universalismo. Ao poder na terra e no tempo, sucederá o poder do uno e do espírito. A dissolução do último império terrenal, equivale à putrefacção, ou saturnificação, onde germinará a flor.

No que tem de narrativo (toda a história da preparação e execução do golpe do 25 de Abril), o livro de Dominique de Roux é uma minuciosa descrição de um povo putrefacto. A famosa lamentação shakespereana de que "alguma coisa está podre no reino da Dinamarca", pode completar-se agora com a exultação de que "tudo está podre no reino de Portugal". Isso explica que, sendo este livro o mais interessante e valioso de quantos se publicaram sobre Portugal, seja também o mais silenciado, o que "ninguém leu", o que nenhum jornal noticiou. Com efeito, todos ali figuram mergulhados na podridão, desde os campeões militares e os caudilhos políticos que executaram o golpe até aos homens e mulheres mais em evidência na velha e na nova sociedade familiar portuguesa. Todos são descritos "en su tinta"; os campeões militares, por exemplo, surgem em ambientes e actos, em que o autor também participou, vividos na guerra do ultramar de cuja realidade e sentido todos foram igualmente ignorantes, moscas saturninas e tontas.

Dominique de Roux era uma personalidade enigmática: jornalista de celebridade mundial, era também "intelectual", de um tipo que os jornalistas nunca são; nos campos de guerra em África, entrevistava, antes do 25 de Abril, Kaúlza, Spínola e Otelo, e, depois do 25 de Abril, Jonas Sawimbi, mas ao mesmo tempo fundava e dirigia a colecção "10-18", que todos nós conhecemos, e organizava os sucessivos números da revista Exil. Nos primeiros dias que se seguiram ao golpe de Abril, três diários comunistas publicavam a várias colunas da 1.ª página o seu retrato com a legenda: "Á solta em Portugal um dos principais agentes da reacção internacional..." Tinha preocupações de aristocrática elegância e havia quem dissesse que era um dirigente da polícia secreta francesa, o que este seu livro permite confirmar. Morreu de repente, quando acabava de publicar o Le Cinquième Empire e dias depois da invasão do Congo pelos comunistas de Angola. Há quem diga que foi assassinado.

Ao lermos o Le Cinquième Empire, mais uma vez evocámos o antiquíssimo mito de como tantas vezes se vai procurar longe o que se tem à mão. Procurando a "flor azul" na "distância impossível de percorrer", Dominique de Roux só pôde conhecer, do último império, a putrefacção. Nunca foi aonde o mito do império do espírito é todos os anos celebrado, embora ponha em epígrafe do seu livro um poema de Natália Correia, e não mostra conhecer (exceptuada uma apressada alusão a António Telmo) aqueles que, como Agostinho da Silva, melhor lhe poderiam falar. O jornalista atraiçoou o intelectual. Ofuscado pelas vedetas, passou ao lado do que buscava e não o viu. Condenou-se a só ver a podridão (in ob. cit., pp. 166-179).


Kaúlza de Arriaga e Dominique de Roux












sexta-feira, 11 de junho de 2010

A Grande Deturpação (iii)

Escrito por Orlando Vitorino








QUARTA ILUSTRAÇÃO

que mostra como a inteligência portuguesa está encurralada com

A. o testemunho de um militante que nos descreve, por dentro, a organização marxista para a destruição da literatura e da filosofia portuguesa, entre os anos de 1930 e 1974;

B. o testemunho de um crítico literário que nos descreve, por fora, a actuação da organização antes descrita por dentro;

C. os excertos de uma entrevista em que o autor deste livro nos descreve os tristes resultados do que anteriormente se testemunhou.

A. Testemunho de um militante comunista



A contribuição marxista para a deturpação da cultura portuguesa foi feita através de uma organização de escritores, jornalistas, professores e editores que recebeu a designação, primeiro, de "novo humanismo" (cujas manifestações foram coligidas num livro que se deixou esquecer, Por um Novo Humanismo, da autoria de Rodrigo Soares, pseudónimo de um professor da Universidade de Coimbra) e, depois, de "neo-realismo".

Augusto da Costa Dias, recentemente falecido, descreve-nos, num livro editado em 1975 com o título de Literatura e Luta de Classes, a história deste neo-realismo. Logo em 1930, "à nascença - diz-nos Costa Dias - o neo-realismo é contemporâneo dos primeiros esforços para a reorganização do partido comunista e destina-se a ser a sua expressão na batalha cultural e ideológica" (p. 65). É neste sentido que actua e se desenvolve. Faz da "sua imprensa uma via de difusão das consignas políticas" (p. 73), "combateu as ideologias e filosofias burguesas (que se situavam) à margem do fascismo, sem compromissos mas também sem conflitos com ele (p. 66); "difundiu as ideias marxistas na universidade de Coimbra numa data que podemos calcular entre fins da década de 30 e os dois primeiros anos da seguinte" (p. 79); "desenvolveu um imenso labor de animação cultural-política em múltiplos planos: imprensa regional, organização de bibliotecas, trabalhos em clubes, palestras, cursos, exposições"; "controlava e dirigia colaboração para variadíssimos jornais da província" e "em comissões, discutia, planeava os temas dos artigos a enviar, notícias sobre os livros recentes do neo-realismo [...], debatia o tipo de linguagem mais adequado e acessível [...] recrutava, entre jovens, divulgadores, escritores que balbuciavam os primeiros passos, para um trabalho de anonimato, escondido em pseudónimos" (p. 80/81); combateu, entre as "ideologias e filosofias burguesas", os escritores e artistas "sem qualquer identidade com a luta de classes" (p. 66), escritores e artistas que Costa Dias não nomeia mas que são, ou porque são, os que compõem a teoria da nossa autêntica cultura: os modernistas do Orfeu, como Pessoa, Sá-Carneiro e Almada, os epígonos da Renascença Portuguesa e os próprios Leonardo Coimbra e Pascoaes (1), os poetas e romancistas da Presença, então em pleno vigor especulativo, como Branquinho da Fonseca, Gaspar Simões e, sobretudo, José Régio, finalmente os pensadores da "filosofia portuguesa" tendo à frente José Marinho e Álvaro Ribeiro. Sobre os três primeiros grupos, a sanha da organização obedecia a uma consigna, durante todos esses anos extensiva a qualquer escritor ou obra independente, que Costa Dias exprime nestes termos grosseiros: "As suas interrogações (as desses escritores e artistas) dirigiam-se às cisternas da vida íntima (individual, em todas as suas fermentações e decomposições onde explodiam e bufavam apenas angústias, impotências, rebeldias privadas sem qualquer identidade com o pesadelo da luta de classes" (p. 66). Sobre o último daqueles grupos, a vesânia junta-se à sanha e Costa Dias orgulha-se de ter sido o bloco marxista do neo-realismo que impediu os pensadores da "filosofia portuguesa" de exercerem o magistério, ou apenas a influência, que, a avaliar pelas obras de Álvaro Ribeiro e José Marinho, o leitor verificará como teria sido libertador. Deles diz Costa Dias: "Aos homens do neo-realismo se deve o não passarão às filosofias fascistas. Nunca excederam as fronteiras das suas ilhotas. A sua última tentativa - "a filosofia portuguesa" de Álvaro Ribeiro, António Quadros, Orlando Vitorino e consortes [sic] - não chegou a escapulir-se da sua lura de traficantes de mercado negro ideológico" (p. 85).






Pois bem: todo este trabalho de deturpação era realizado, desde 1930, em pleno domínio "fascista", com censuras, polícias, perseguições de que Costa Dias faz mais uma vez, e muitas vezes, o aparatoso rol e que deveriam, naturalmente, impedir que as suas vítimas, os neo-realistas, tivessem qualquer possibilidade de acção. Ora não foi isto o que aconteceu. O trabalho fez-se durante 44 anos, ininterruptamente, espectacularmente, como Costa Dias descreve e nós sabemos que foi. Durante 44 anos o bloco marxista pesou, omnipotente e esmagador, sobre a cultura portuguesa, e Eduardo Lourenço não podia deixar de ter razão e razões para denunciar, como também Costa Dias nos informa, que "os neo-realistas eram terroristas" (p. 84). Não passará de uma suspeita justificada ou será uma conclusão necessária que um acordo, talvez tácito, mas comprovadamente eficaz se estabeleceu entre os governantes ou o establishment fascista e a organização marxista para a deturpação da cultura? Como, de outro modo, será possível explicar tudo o que Costa Dias orgulhosamente descreve e o mais esconde ou cala e nós ainda não esquecemos? Como sem esse acordo, explicar, por exemplo, que as "filosofias fascistas", como C. Dias diz, pudessem, em tempo de fascismo, serem fechadas "na sua lura" pelos marxistas enquanto estes se exprimiam, expandiam e dominavam com a amplitude que também C. Dias nos descreve? Não era a "filosofia portuguesa" e a liberdade de pensamento da literatura e da arte o temeroso inimigo comum a marxistas e salazaristas? Aliás, o próprio Costa Dias confirma, de algum modo, a existência desse acordo quando se indigna com o facto de "prolongando-se o neo-realismo em manifestações ricas" [sic] desde 1930, os governantes fascistas tenham, nos anos 60, "facilitado a liberdade de imprensa [...] para se declarar [como Eduardo Lourenço fez] que os neo-realistas eram terroristas" (p. 84), o que claramente significa que sem liberdade de imprensa que os governantes "fascistas" controlavam não seria possível declarar o que o neo-realismo era.


B. O testemunho de um crítico

Em Novembro de 1970, A Ilha, suplemento cultural do Jornal da Madeira, publicava o artigo que a seguir transcrevemos. O leitor não deixará de observar como este artigo está escrito com um meticuloso cuidado de não dizer tudo, isto é, de não dizer o que explicava tudo e que era isso mesmo de o neo-realismo ser, como vimos no parágrafo, "a expressão do Partido Comunista na batalha cultural e ideológica". Vivia-se, então, em regime oficial de censura mas, como se verifica, a censura funcionava, de facto, em favor do bloco marxista ou, como disse Eduardo Lourenço, do terrorismo cultural marxista.

Em 1938, aparecia nas livrarias um romance com o título de Marés. Era o primeiro romance de Alves Redol e, viria a saber-se mais tarde, a primeira manifestação do neo-realismo. A fotografia do autor, de perfil e de boina, passou a figurar em todos os jornais e em todas as montras. Casais Monteiro, que exercia então uma crítica literária de bem informada e bem estruturada exigência artística, iniciava nos seguintes termos o seu artigo sobre tão celebrado livro:

"Acabo de ler um romance de que a imprensa tem dito muito bem. Como se trata de um novo, há razões para supor que tais elogios não sejam suspeitos... Com efeito, que vemos nós em Marés senão uma tentativa de fazer "arte social", "romance poético" e a estilização, em cenas simbólicas, do ritmo normal do romance? Dizem os papelinhos publicitários distribuídos pelo editor que os seus personagens vivem como a realidade que mostram. No seu conjunto, o romance é enfadonho, lendo-se com dificuldade. A personagem central do livro não é falsa, mas não chega a viver. Todas as outras são ou um apontamento ainda mais escasso ou figuras falsas e insubsistentes. A acção tem, no romance de Alves Redol, uma parte reduzidíssima. Haverá então uma grande percentagem de análise, perguntará o leitor. Não. Há reportagem e má literatura."






Alves Redol publicou a seguir mais algumas novelas - Fanga, Glória, Nasci com o passaporte de turista - e fez uma breve e desgraçada incursão no teatro. E Casais Monteiro, incompatibilizado com os meios literários e os ambientes políticos, abandonava o país, a crítica literária e até a literatura para se refugiar no Brasil, numa universidade do sertão, onde se deixou ficar até hoje [Casais Monteiro morreu em 1972, na cidade de S. Paulo].

Alves Redol era de Vila Franca de Xira e em Vila Franca de Xira escrevia sobre os rurais e os operários desse subúrbio lisboeta. Ali vivera seus anos de infância e adolescência, a admirar toureiros, touros e grandes lavradores. Dessa admiração, e também do ressentimento socializante que ele deixa nas pequenas almas, deixou os sinais no melhor romance que conseguiria escrever: Barranco de Cegos.

De Alhandra, ao lado de Vila Franca, veio a segunda manifestação neo-realista: a de Soeiro Pereira Gomes, autor de Esteiros, romance da borda d'água inspirado pelo Jorge Amado dos Capitães da Areia e, sobretudo, pelo William Wyler de As Ruas de Nova Iorque. Pereira Gomes era cunhado de Casais Monteiro e, penetrado da atmosfera proletária, fabril e socialista dos ambientes onde estava empregado, adoptava, como Alves Redol, uma atitude humilde e simpática perante os altos valores literários que o seu cunhado, discípulo de Leonardo Coimbra, presencista e cosmopolista, então representava. Nas aparições que ele e A. Redol faziam nas tertúlias de café, à espera de horas para o tramway de Vila Franca, eram duas figuras respeitosas, burguesas, provincianas, de gestos compungidos, quase a pedirem desculpa de também fazerem literatura.

Um dia Pereira Gomes exila-se em Inglaterra e Alves Redol suspende a laboração literária para se dedicar, com êxito, ao patronato industrial e publicitário, também, nesta última actividade, pioneiro neo-realista pois à publicidade se vieram a dedicar a maior parte dos seus sequazes.

A reacção de Casais Monteiro ao injustificável êxito do primeiro romance de Redol, era a reacção de uma inteligência culta e artística a uma produção artificiosa e esteticamente nula de um escritor que satisfazia as veleidades literárias no serviço do sentimentalismo socialista. O acolhimento e o êxito que esta produção alcançou, e ainda perdura, transformava em irritação o que, sem esse acolhimento, Casais Monteiro decerto exprimiria em termos menos desanimadores. No êxito obtido via Casais Monteiro um refluxo, agora em termos populistas, daquela literatice atávica que a Presença julgava ter banido definitivamente das fronteiras nacionais dos valores literários. Para mais, tal literatice, mais inculta do que aquela - académica e juliodantesca, fradesca e aquiliana - que a Presença conseguira desacreditar, aparecia à sombra de reivindicações da chamada "justiça social" que Casais Monteiro também perfilhava e chegou a exprimir em livros de versos como Confusão e Voo sem Pássaro Dentro: a um poema em que cantava deslumbrantes flaneios pelas ruas, pospunha versos como "mas esquecia-me de que há propriedade". Todavia, o poeta soube, durante muito tempo, defender a pureza da poesia que não punha ao serviço de nenhum socialismo. Dizia: "A arte não serve, a arte é." Perdido o combate, inútil a indignação perante a avalancha que não cessava de subir, o seu único recurso foi o exílio mais doloroso e forçado, o que se chama voluntário.

O neo-realismo, entretanto, absorvido A. Redol no patronato industrial e fugido Pereira Gomes em Inglaterra, transferia-se de Vila Franca para Coimbra e caía nos braços de estudantes, bacharéis e doutores. Sem ainda terem feito coisa nenhuma, anunciavam, em sueltos que espalhavam por todas as folhas de imprensa da província, uma grandiosa e definitiva obra cultural, intelectual e artística, um "movimento cultural-político único na história do nosso país" [sic]. Reuniam, depois, os sueltos em livro, Por um Novo Humanismo (a designação de neo-realismo surgiu mais tarde), que recebia encómios em todas as mãos. Gaspar Simões, que ficara a representar a estética presencista nos jornais de Lisboa, infatigável e operoso, escandalizava-se com tantos encómios, elogios mútuos, declarações redentoras e revolucionárias, feitos a escritores sem livros, a poetas sem poemas, a romancistas sem romances. E gritava, de Lisboa, aos neo-realistas de Coimbra. Venham obras!




Caricatura de Fernando Namora




As obras acabaram por vir: as novelas de Fernando Namora, publicadas num ritmo certo que ainda se não suspendeu; um livro de poemas de Joaquim Namorado; dois ou três opúsculos de Carlos de Oliveira. Enviavam-nas à crítica, à celebridade, a Gaspar Simões: Aí vão obras! Eram todas lançadas com estrondo e o estrondo soava como uma fúria em laboração incessante.

Começou depois a invasão da capital. Bacharelados, os neo-realistas desciam a Lisboa, à procura de emprego, casavam, instalavam-se nas avenidas do Estado Novo, andares já com duas casas de banho, enchiam-nos de electrodomésticos, colocavam-se no professorado liceal para depois descobrirem o filão das agências de publicidade e das empresas editoriais fundadas pelos capitalistas, compravam automóvel, enviavam artigos para a Vértice natalícia, ocupavam a velha e democrática Seara Nova, assaltavam as redacções dos jornais, apossavam-se de todas as páginas literárias da grande imprensa.

Os literatos de Lisboa, mais "naturais" e urbanos, sem aquele arrebatamento que a província filtrada por Coimbra dá aos triunfadores, rendiam-se aos bárbaros já instalados na direcção das editoriais mais conspícuas e conservadoras e na presidência das colunas dos jornais mais reaccionários: ou se lhes entregavam logo arvorando o rótulo de socialistas, como Urbano Tavares Rodrigues; ou largavam a correr as salas da Mocidade Portuguesa para confessarem eternas fidelidades neo-realistas, como Luís Francisco Rebelo; ou identificavam, como Romeu Correia, o seu populismo cacilheiro e ingénuo com a segura doutrina dos novos doutores de Coimbra; ou saltavam, como Vergílio Ferreira, das vestes negras do seminário para as bandeiras rubras dos neo-realistas. Passou a ser difícil encontrar um funcionário que o não fosse. Depois, passou a considerar-se fascista e reaccionário quem o não era.

Gaspar Simões, já não apenas infatigável mas também teimoso, resistia ainda. Afirmava critérios, impunha determinações formais e conceptuais da poesia e do romance, exigia doutrinas estéticas. Um livrinho de Cochofel, Doutrina Estética, viria, conciliador, satisfazer a exigência. Satisfação insuficiente? Mas não se sabia já que o que importa não é a estética, coisa sempre formalista, coisa de presencistas e reaccionários? O que importa é a finalidade e essa está fora da literatura: na política e no socialismo.

Infatigável, teimoso, mas também prudente, Gaspar Simões acabou por se render também aos novos senhores. E chegou até, na reedição de um volume onde reunira as suas críticas, a alterar os textos originais: como os novos senhores já reivindicavam uma tradição de que Aquilino seria o representante, Gaspar Simões limou as críticas presencistas com que desacreditara o romancista da Via Sinuosa, o prosador que restituía a língua portuguesa ao estilo fradesco de que Eça a libertara.






O que mais tempo resistiu foi, afinal, Joaquim Paço d'Arcos, novelista dos salões da alta burguesia e da alta finança lisboeta onde não tinham entrada os neo-realistas, coimbrões e provincianos. Mas, pouco a pouco, Paço d'Arcos foi acentuando as anedotas sobre a corrupção da alta burguesia e, por fim, com a peça O Braço da Justiça, os neo-realistas acolhiam-no em seu seio. Deram-lhe até, provincianos astutos, a presidência da sua Sociedade de Escritores.

Iam entretanto perdendo fôlego, cansando, os neo-realistas de origem coimbrã. Joaquim Namorado ficou todo no único livro que publicara; Carlos de Oliveira ficou a reeditar os sempre mesmos, sempre festejados e sempre breves opúsculos e quando, vinte anos depois, publicava enfim novo opúsculo de versos, a pobreza do talento ficou à mostra. Fernando Namora é que persistiu, mas o lugar de primeira figura começou a ser-lhe disputado pelo lisboeta Cardoso Pires, com um aparato publicitário em que a literatura bateu todos os produtos comerciais.

Com a invasão coimbrã, Alves Redol, em Vila Franca, silenciara durante longos anos. Mas dominada pela escola toda a organização da literatura, reapareceu com a patriarcal auréola de fundador do neo-realismo e seus romances investindo mais cuidadosamente o parco talento que Deus lhe dera, sucedem-se com uma regularidade operarial.

O triunfo é, deste modo, total, imponente, majestoso. Quem há aí que se atreva a não ser neo-realista? (in ob. cit., pp. 157-166).


(1) A táctica utilizada pela deturpação consiste em ocultar o que não é susceptível de ser deturpado. Pascoaes, Pessoa, Régio e os "filósofos portugueses" são os alvos mais significativos dessa táctica. A ocultação, por sua vez, recorre a vários processos que vão desde a confusão interpretativa, como a que se tem lançado sobre as obras publicadas de Pessoa, a divulgação de imagens caluniosas e aviltantes, como se tem feito com as obras de Pascoaes, Régio e os "filósofos portugueses", até aos obstáculos impeditivos da difusão e mesmo da edição como se procede com os pensadores que são fechados na "sua lura", com os inéditos de Pessoa e com as reedições de Pascoaes.





Casa-Museu de José Régio, Portalegre.



Casa-Museu de José Régio, Vila do Conde.


Continua


quarta-feira, 9 de junho de 2010

A Grande Deturpação (ii)

Escrito por Orlando Vitorino




'Arca de Fernando Pessoa'




SEGUNDA ILUSTRAÇÃO

que mostra como o Estado se mancomuna com a universidade para espoliar e deturpar o património dos portugueses

com a história dos 26 000 inéditos de Fernando Pessoa

Em 1935, morria Fernando Pessoa. Deixava numerosos textos dispersos por diversas publicações, um único livro editado e inúmeros inéditos guardados numa arca.

Em 1942, Luís de Montalvor, que dirigia as Edições Ática, iniciou, com Gaspar Simões, a edição das Obras Completas do grande poeta. Planearam eles a edição de modo a terminá-la no ano seguinte: "Esperamos - diziam na introdução ao primeiro volume - poder organizar os volumes subsequentes de maneira a que as Obras Completas de Fernando Pessoa possam estar inteiramente publicadas no decurso do próximo ano". Todavia, achavam tal prazo demasiado demorado e quase se desculpavam: "Quando se trabalha com cuidado é preciso trabalhar devagar. Fernando Pessoa merece-o".

Passaram-se, desde então, mais de trinta anos, e a publicação das Obras Completas está longe de ver o seu termo. Luís de Montalvor morreu e Gaspar Simões, não sabemos porquê, abandonou a tarefa: haviam, ambos, publicado os quatro primeiros volumes em 1946, sem dúvida os mais seriamente organizados.

No ano seguinte, em 1947, já sem a interferência de Gaspar Simões mas com uma breve nota circunstancial de David Mourão-Ferreira, reedita-se a Mensagem.

Anos mais tarde, em 1952, é Eduardo Freitas da Costa quem organiza o 1.º volume dos Poemas Dramáticos, cujo 2.º volume ainda não apareceu.

Surgem depois, em 1956, dois volumes com o título inadmissível de Poesias Inéditas de Fernando Pessoa, organizados por Jorge Nemésio com o auxílio de Freitas da Costa e uma nota paternal e credencial de Vitorino Nemésio.






Em 1965, entra em cena Jacinto Prado Coelho com um volume de título também inadmissível: Quadras ao gosto Popular. Eram versos que Fernando Pessoa reunira num "envelope verde", anotando do lado de fora: "quadras". Jacinto P. Coelho entendeu por bem acrescentar " ...ao gosto popular", e juntar-lhes um longo ensaio onde diz ter sido G. R. Lind quem "em boa hora exumou as quadras" Percebe-se?

Com esta entrada em cena de Jacinto P. Coelho, o "espólio" de Fernando Pessoa parece ter caído definitivamente nas mãos dos "universitários", o que deve ter coincidido com a negociação desse "espólio" pelos solícitos familiares do poeta que, da Inglaterra, o ofereceram por um milhão de dólares à Fundação Gulbenkian [passagem truncada] depois o vieram entregar ao Estado não sabemos em que condições.

Jacinto P. Coelho está especializado nesta espécie de tutoria universitária dos espólios literários. É ele quem preside à edição das Obras Completas de Teixeira de Pascoaes e de Camilo juntando aos volumes, a título de prefácio, textos escolares tão inadequados que uma instituição particular, ao adquirir grande quantidade de exemplares das obras de Camilo, pôs como condição não figurarem neles tais "prefácios". Mas com Pascoaes e Camilo o mal não é tão grave como com Fernando Pessoa, pois as obras deles estão, em outras edições, publicadas à muito.

Nas mãos de Jacinto P. Coelho, a edição das obras de Fernando Pessoa tornou-se ainda mais demorada. Depois das Quadras, saiu mais um volume com o título inadmissível de Poesias Inéditas, agora Novas Poesias Inéditas. Saiu em 1973, oito anos depois das Quadras, e foi "elaborado" por Maria Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno - quem são? senhoras que, numa singela "nota prévia", expressam o seu agradecimento - porquê? - ao seu professor Dr. Jacinto Prado Coelho.

No ano seguinte, 1974 - mas segundo o prefaciador, Jorge de Sena, já encomendado pelo editor em 1958 - sai o volume Poemas Ingleses, revertidos em português pelo dito prefaciador, por Casais Monteiro e por José Blanc de Portugal. No prefácio, Jorge de Sena fala das "homéricas contendas burocráticas" para conseguir cópias dos originais que só acabaram por ser autorizadas graças "aos porfiados esforços do escritor Luís Amaro".






Entretanto, organizados pelos mesmos Jacinto P. Coelho e G. R. Lind, são publicados dois volumes de textos em prosa que aqueles organizadores dizem ter "estabelecido". Embora editados pelo mesmo editor, embora organizados pelos mesmos organizadores, embora sendo igualmente de Fernando Pessoa, estes volumes aparecem, porém, fora das Obras Completas. Percebe-se? E o mesmo acontece a um terceiro e quarto volumes de prosas, esses com o título de Textos Filosóficos, reunidos e prefaciados por outro "universitário", António de Pina Coelho.

Entretanto, mais de trinta anos decorridos sobre a data marcada por Luís de Montalvor e Gaspar Simões para a total publicação das obras de Fernando Pessoa, a maior parte deles continua por editar. Uma ou outra indiscrição vai-nos revelando que "a maior parte dos escritos continuam a aguardar a luz da publicação" (A. Pina Coelho, introdução aos Textos Filosóficos, p. XI), ou que, segundo informação do poeta austríaco Max Holzer, que teve acesso à famosa "arca", se encontram inéditos cerca de 26 000 textos!

Como é possível que a mais importante obra inédita do génio poético português continue entregue a tais tratos e escondida dos portugueses? Daqui apelamos para o Secretário de Estado da Cultura, por cujo pelouro cremos que estes assuntos correm, para que mande editar imediatamente, sem atender a outro critério que não seja o da sua publicação integral, todos os textos inéditos deixados por Fernando Pessoa.

Ora como assim houvéssemos denunciado na Escola Formal a existência de 26 000 inéditos no espólio de Fernando Pessoa entregue à guarda de J. Prado Coelho, como houvéssemos mostrado o que isto constitui de roubo e burla dos portugueses assim espoliados do que só a eles pertence e como, ainda, houvéssemos requerido que, para pôr termo ao escândalo, o Governo mandasse editar imediatamente os referidos inéditos para cujo trabalho de edição nos oferecíamos (reservando as edições escolhidas" e críticas para depois), ora foi assim que o Professor Joel Serrão veio anunciar que, por incumbência do Professor Prado Coelho, publicaria ele - ele ou duas senhoras, decerto também professoras e decerto por ele marxisticamente condicionadas - três volumes de textos políticos inéditos escolhidos no espólio do poeta. O Pessoa que do socialismo dizia "vária horrorosa subgente sindicalista, socialista e outras coisas", vai pois aparecer-nos, em três volumes de textos escolhidos, purificado de seus pecaminosos dizeres e, com certeza, socialista. Preparando a purificação, o referido professor vai já dizendo, aliando Pessoa a António Sérgio, que são os dois as máximas figuras intelectuais deste século o que, evidentemente, não significa coisa nenhuma pois, se significasse, o Professor não o diria.



Que Fernando Pessoa seja, com Pascoaes, Junqueiro e Régio, um dos grandes poetas deste século, nenhuma objecção suscita e toda a gente o sabe. Agora António Sérgio, personalidade feita de alguns aspectos estimáveis e alguns outros insusceptíveis do menor apreço e caracterizada por uma total ausência de génio, seja sobreposto àqueles que, como Bruno, Leonardo ou José Marinho, foram, neste crepúsculo em que os morcegos são professores, "as aves de Minerva que levantam voo ao anoitecer", é afirmação que só pode ocorrer a um funcionário público ao serviço do socialismo.

Mais uma vez requeremos a quem de direito, e não sabemos quem seja, que mande arrancar o espólio de Pessoa de quem o espolia e, para usarmos a linguagem dos mandantes, o restitua ao povo a quem pertence.


TERCEIRA ILUSTRAÇÃO

que nos mostra como os intelectuais não são de esquerda com a história de uma decepção do poeta Miguel Torga

Miguel Torga publicou mais um belo volume, o XII, do seu Diário. Abrange ele o período que precedeu e sucedeu ao 25 de Abril de 1974. As observações e comentários que o compõem são o espelho de uma profunda decepção. Homem que sempre foi da "esquerda", da "velha esquerda", alimentou até àquela data a ilusão de que a "esquerda" continha os valores e princípios de liberdade e individualismo que prestigiaram, justamente, a esquerda liberal do século passado. Com o 25 de Abril e o que se lhe seguiu, Miguel Torga, como muito mais gente, verificou com amargura e espanto que a "nova esquerda" ou, simplesmente, a "esquerda" nada tinha que ver com os princípios da liberdade: é uma organização de "massas" com uma doutrina totalitária, demagógica, terrivelmente estatista e censória, poderosamente controladora de toda a vida pública e privada, eleitoralmente esmagadora e profundamente injusta.



Salvador Dalí



Este Diário de Miguel Torga poderá também contribuir para desfazer um erro difundido nos ambientes de cultura pouco ou mal informada, nos quais se confundem os intelectuais com os bem pensantes. Consiste esse erro na suposição de que os intelectuais são homens de esquerda. Ora a verdade é, rigorosamente, o contrário. Salvo uma ou outra raríssima excepção - talvez o caso de Picasso que se deixou ir levando, decerto o caso de Sartre que há poucas semanas Ionesco demonstrou "não saber o que quer" - não há, em qualquer país, um intelectual significativo que a "esquerda" de hoje não tenha de abominar; como não há, na orientação actual dos diversos géneros da actividade intelectual, um nome que a mesma esquerda não tenha de repelir: o cinema com Ingmar Bergman; a sociologia com R. Aron ou G. Gurvitch; a economia com Ludwig von Mises, Frederico Hayek ou Milton Friedman; as artes plásticas com Salvador Dalí ou Almada Negreiros; a novelística com Proust, Joyce, Lawrence ou Faulkner; o teatro, com Pirandello, Beckett, Anouilh ou Ionesco; a poesia com Claudel, Pound, Eliot, Pascoaes, Pessoa ou Régio; a filosofia com Unamuno, Heidegger, Ortega, Jaspers, Leonardo ou José Marinho. todos estes nomes são os de homens que defendem valores que a actual "esquerda" condena radicalmente. Poderão, alguns deles, não se declarar em termos - para um intelectual necessariamente simplistas e grosseiros - de "esquerda" ou "direita". Mas não há dúvida de que a "esquerda" tem, inevitavelmente, de os abominar como, efectivamente, abomina. E só lhe resta, então, ou recorrer à falsificação da poderosa propaganda que possui para fazer famosos intelectuais medíocres, como aconteceu com o dramaturgo comunista B. Brecht e como vimos entre nós acontecer durante anos com os neo-realistas, hoje ridicularizados, ou recorrer à mentira pura e simples, como fez o desembaraçado "leader" Salgado Zenha ao chamar a José Régio o "camarada socialista" (in ob. cit., pp. 152-157).

Continua