quarta-feira, 5 de maio de 2010

Esgrima Lusitana (i)

Escrito por Nuno Russo




Introdução


O nosso primeiro contacto com o Jogo do Pau veio na sequência da prática do Kobudo em Portugal, prática essa iniciada em 1990 e liderada por um português, Elmano Jorge Caleiro, e por um espanhol, Juan Bish Lorenzo. O Kobudo, designando o reportório técnico de armas ancestrais (Ko: «ancestral»; Budo: «o caminho da guerra») importadas da China pelas escolas de Okinawa (Ryu Kyu), teve, pois, em Portugal um sucesso relativamente considerável, dada a «novidade» suscitada por um conjunto de armas (bo, tonfa, sai, nunchaku, jo, kama e sansetsukon).  A sua prática resultaria, naturalmente, da extensão do Karaté, mais particularmente do Karaté Shito Ryu, inspirado em Teruo Hayashi Ha. Nos primeiros anos contou, além disso, com a singular participação, na Escola Preparatória de Miraflores, de Sensei Kenyu Chinen, cuja demonstração de kama foi, em oportuno quão memorável momento, a prova cabal e experimentada de um dos mais altos representantes do Kobudo a nível mundial.

Como tal, contávamos mais de 15 anos de prática do Kobudo quando descobrimos o Jogo do Pau Português. Descobrir, significa aqui praticar, experimentar e conhecer o melhor jogo do pau do mundo. A escola escolhida foi a do Santo Condestável, liderada por Nuno Russo no Ginásio Clube Português.

Não há dúvida quanto à eficácia e à superioridade marcial do Jogo do Pau sobre o Kobudo, cujas origens, curiosamente, remontam ao repertório técnico da esgrima medieval. Para o efeito, basta compulsar o Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela, d’el Rei D. Duarte, para confirmar a similitude terminológica na trajectória e técnicas de ataque entre a esgrima portuguesa de então e a actual prática do Jogo do Pau.

Com isto, não pretendemos, de maneira alguma, minorar o Kobudo, até porque a sua prática pode constituir uma mais valia para, com a devida transferência, melhor assimilar, nas suas diferenças, a prática simultaneamente empírica e táctica da esgrima lusitana. Entre uma e outra «modalidade», diferenças avultam, sem dúvida, a saber: os japoneses usam o bo rodando as mãos, de maneira que o mesmo pode e é, efectivamente, usado de ambos os lados, direito e esquerdo; no Jogo do Pau não se volteiam as mãos, quedando as mesmas na extremidade mais estreita do pau (à largura dos ombros), o que já não acontece no Kobudo, em que as mãos, de uma forma geral, se postam e configuram a meio do bo; para mais, no Jogo do Pau é a perna adiante posicionada que começa por recuar quando necessário, ao passo que no bo-jitsu o recuo principia com a perna posterior, etc.





Por conseguinte, podemos dizer que a prática do Jogo do Pau nos abriu o horizonte técnico e perceptivo implicado em tudo o que remeta para a extensão corporal que as armas, neste caso, dão e permitem como tal. Diremos até que a referida prática permite coroar, a nosso ver, disciplinas tão cruciais como o Kendo, o Kenjutsu e a Eskrima filipina segundo uma visão unívoca que a poucos lutadores será dado atender e vivenciar. Seja como for, fiquemos, entretanto, com o testemunho de Nuno Russo, personalidade com a qual, aliás, não só temos tido o privilégio de aprender, treinar e participar em demonstrações in loco, como ainda ficar com a certeza de que a superioridade da esgrima lusitana é um facto que qualquer um, do menos ao mais experimentado, pode experienciar e confirmar na hora.

Miguel Bruno Duarte




O Jogo do Pau


I – UM POUCO DE HISTÓRIA





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O chamado JOGO DO PAU é uma técnica de luta em que a arma é um simples pau direito e liso, da altura aproximada de um homem e manejado adequadamente por cada um dos contendores, que com ele procuram, por um lado, atingir o ou os adversários e por outro defender-se dos golpes por este ou estes desferidos. O JOGO DO PAU, nestes termos genéricos, foi praticado em todo o Mundo, conservando-se ainda hoje a prática desta técnica em vários países europeus, como, por exemplo, Portugal, França, Inglaterra (quarterstaff) e também na maioria dos países orientais, principalmente na Índia, China, Japão (bo-jitsu), Tailândia, Vietname e Afeganistão. Neste último, que ainda hoje conserva intactos costumes de combate medievais, qualquer turista que se aventure um pouco para o interior do país pode assistir a sangrentos combates com pau, tanto individuais como entre clãs.

No momento em que o Homem se conhece como homem a habitar este planeta, ele tomou consciência que tinha de lutar para sobreviver e a sua inteligência logo lhe fez compreender que, se aproveitasse certos materiais que o rodeavam como instrumentos de trabalho, a vida lhe seria muito facilitada. Foi aí que o pau, utensílio simples e fácil de adquirir, começou a ser utilizado para os fins a que se propunha. E porque o homem primitivo era um ser rude e guerreiro e mesmo que o não fosse, outros dos animais seus contemporâneos o eram, o homem atacava e defendia-se também utilizando o pau. Com a evolução dos tempos e porque infelizmente havia necessidade de lutar com o seu semelhante, o homem criou uma série de movimentos específicos, ataques e defesas, próprios para combater com o pau. A partir desses ataques e dessas defesas feitas com esse pau e o constante contacto com esse mesmo pau, irão desenvolver-se, conforme as condições geográficas, as diferentes raças e outros aspectos, a formação de diferentes maneiras de luta de pau características. Esta nova técnica de luta é, em todos os países, própria das gentes e da cultura campesinas, variando não só de terra para terra, como também consoante as medidas do pau que em comprimento nunca ultrapassa os dois metros.

Mas se há países, como por exemplo o Afeganistão e a Índia, onde se utiliza para combate ou treino qualquer pau independentemente do tamanho ou da forma, outros há, como a Inglaterra, onde, como o nome indica – QUARTERSTAFF –, a sua arma específica é um pau robusto com cerca de dois metros de altura que se empunha e maneja com as duas mãos; e, tal como o Jogo do Pau Português, ele reveste a dupla forma de combate e desporto.



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No entanto, as diferentes técnicas utilizadas para os diversos tamanhos de paus são muito semelhantes tanto nos países Orientais cuja fonte inspiradora foi a técnica indiana, como na maioria dos países Ocidentais, como por exemplo na Inglaterra e França. Os diferentes jogos do pau e o complexo belicoso em que eles se integram (nomeadamente na forma que eles apresentam seja em que país for, sobretudo nas zonas rurais), por eles próprios criado ou alimentado e que lhes dá um tom característico, parece resultar de fundas tendências do homem em que a agressividade não se dissocia de um ludismo basilar, e que neles encontram um campo particularmente adequado para se expandirem. A grande diferença entre estes países do Ocidente e os do Oriente reside sobretudo na mentalidade com que praticam a sua técnica.

Contudo, em Portugal desenvolveu-se uma técnica muito rica, adaptada a um tipo de pau, «o varapau ou cajado», que não é, porém, apenas elemento específico de tal jogo ou luta, ele faz – e sobretudo fazia – parte da indumentária normal do homem do campo, associado essencialmente às suas deslocações a pé e também a cavalo como companheiro e apoio e, sobretudo, como arma elementar para se defender de eventuais agressões de gente e de animais.

Como arma de ataque ou de defesa, o pau é uma forma tão simples que a etnologia, em geral, não o inclui na categoria das «armas que se seguram com as mãos». No entanto, um bom jogador de pau não receia enfrentar qualquer adversário que use essas outras armas. Põe-se assim o problema de saber se o uso do pau como arma representa apenas um aspecto do uso do pau como implemento de carácter geral, ou se, pelo contrário, o uso do pau em geral representa a ampliação a outras funções daquilo que principalmente e basicamente era apenas uma arma.




Nuno Russo


No Norte de Portugal (sobretudo Minho), o pau era o companheiro dos moços rondadores, dos viandantes ao longo dos caminhos, dos pastores no cume das serras; o seu ofício era múltiplo: no caminho era uma ajuda, ora a subir as encostas ora a descê-las, descansando-se nele o peso do corpo; quando um regato cortava um caminho, saltava-se por cima dele apoiando-se no pau. O pastor no monte e o feirante na feira carregava nele o seu peso, aliviando assim deste as pernas; também o pastor tangia com ele o gado que lhe estava confiado; e «só se largava da mão enquanto o jovem conversava com a sua namorada na lareira da casa desta; então o pau ficava à porta, para indicar aos outros que nada tinham a fazer ali». Além disso, nessas terras o varapau era a arma por excelência, com ele se resolviam os problemas diários que provinham sobretudo de rivalidades entre aldeias, de namoros, desvios de água de irrigação, etc.

O rapaz tinha-se já por moço quando arranhava o seu varapau e ia de ronda com os outros: era uma coisa assim como ser armado cavaleiro.

Quem em Portugal não ouviu falar das lutas com paus em feiras (não só no Norte como em todo o país), onde aldeias inteiras se defrontavam em combates sangrentos e até mortais?

Também as romarias e festas rematavam sempre com paulada entre moços de freguesias diferentes.

O varapau era sem dúvida uma arma eficaz. Bem jogado punha nas mãos do seu dono grandes vantagens na luta. Afirmam-no bem alguns casos que deixaram memória entre as gentes daquelas terras nortenhas. Eis aqui um sucesso já de fins do século passado que teve lugar numa feira da Galiza e que é narrado por um galego XANQUIM LORENZO FERNANDEZ, de Orense, num artigo enviado por ele para o jornal 0 «Comércio do Porto» em 1950, intitulado «O VARAPAU».

Diz Fernandez:

«passou-se a coisa na feira de Porqueiróz, feira de ano, em que se juntaram feirantes de toda a comarca e fora dela. Os das diferentes freguesias iam com o seu gado e com os seus frutos fazendo-se uma das melhores feiras da Galiza daquele tempo. Uma vez, ignora-se porquê, começou uma rixa entre os feirantes e dois Portugueses que, vizinhos moradores naquelas terras havia já em tempos, acudiram a Porqueiróz. A rixa assanhou-se e chegou, como sempre a hora dos paus. Um dos Portugueses ao ver o perigo berrou ao seu companheiro:






– «oh irmão! Junta costa com costa!!!» – Postos deste jeito, cada um com o seu varapau, defenderam-se os dois sozinhos dos que os atacavam. Durante muito tempo mantiveram-se firmes, a despeito dos muitos atacantes; pouco a pouco, foram-se desfazendo dos adversários; uns feridos e outros acobardados. O triunfo coube-lhes a eles, que sozinhos, «desfizeram a feira». Tal era a superioridade que lhes dava a sua perícia em «Jogar o Pau». E, Fernandez continua:

«no resto da Galiza, desconheço tal arma. E assim, parece-me evidente que se trata de um instrumento de origem portuguesa o facto do seu emprego preferente nas terras raianas, e não no resto da Galiza; o de este se encontrar pelo contrário, de uso muito corrente em Portugal; a nacionalidade dos seus mais famosos cultivadores».

O jogo do pau fazia, pois, parte da vida do Português do Norte. Por toda a parte havia escolas onde se juntavam grupos de rapazes novos ávidos de aprender, em volta de velhos mestres e que se faziam pagar bem alto pelas suas lições. Os próprios pais enviavam os filhos a esses mestres para que aprendessem essa disciplina que fazia parte da sua educação, tal era a importância dada ao jogo do pau nessa época.

Era vulgar nas longas noites de Verão ver-se nas eiras grupos jovens exercitarem-se desportivamente no manejo da vara em treinos que muitas vezes se prolongavam quase até ao romper da aurora.

Mas esses tempos de lutas de pau nas feiras e romarias são águas passadas.

Realmente, por volta dos anos 30, o jogo do pau no Norte foi atingido pela decadência. As razões desta quebra foram várias e estão intimamente ligadas entre si: depois de todas as lutas em feiras, a acção das autoridades policiais fez-se sentir, proibindo o uso do pau nos recintos de feira. Também a emigração para o estrangeiro e as migrações para as grandes cidades, feita geralmente pelos chefes de família que não conseguiam tirar o sustento da terra que cultivavam, originou um enorme desfalque nos que poderiam vir a ser futuros «puxadores» (nome pelo qual eram designados os jogadores nortenhos).

Por outro lado, a facilidade de aquisição de armas de fogo contribuiu também para a «desnecessidade» de jogar o pau, pois a justiça pessoal feita com a vara exigia um treino bastante moroso para realmente alguém poder confiar eficiência na sua arma.









Assim, por estas e por outras razões de menos peso, esta arte de combate no Norte de Portugal foi-se reduzindo deixando apenas a representá-la pequenas escolas onde pequenos grupos de antigos jogadores se treinavam apenas para jogos de exibição ou onde velhos mestres carolas preparavam um punhado de miúdos para o mesmo fim de demonstração.

Entretanto, o jogo do pau sofreu, também, uma migração importante. Partindo do seu núcleo original que foi o Minho, repousando francamente em Trás-os-Montes, ele parte em grande velocidade, passa na capital, atravessa o Tejo e vai-se fixando na zona Sul, principalmente na Estremadura e Ribatejo.

Nesta viagem ele expandiu-se pelas mãos de vários mestres profissionais que percorriam o País fazendo estágios em várias localidades, sendo entre eles os mais famosos: mestres Calado Campos, pai e filho, mais conhecidos pelos «pretos», que ensinaram desde o Minho até Setúbal. Neste meio do jogo do pau foi também conhecido o profissionalíssimo mestre Joaquim Baú que sempre montado na sua mula percorria Portugal vivendo única e simplesmente dos donativos que recebia em troca das lições que dava.

Também os jornaleiros vindos do Minho e Trás-os-Montes para fazer empreitadas no Sul do País foram grandemente responsáveis pela transmissão do jogo do pau para esta zona.

Desde os fins do século passado que o jogo do pau se alastrou a Lisboa, onde se veio implantar.






Na cidade, sob condicionalismos muito diferentes dos da Província, o «espírito» do jogo do pau altera-se. Liberto que está dos imperativos de luta que o acompanhavam nas origens, em época e em região, vêmo-lo agora virado para o aspecto desportivo.

Os primeiros ginásios onde foi aberta a prática desta nova modalidade foram o então Real Ginásio, hoje Ginásio Clube Português, o Ateneu Comercial de Lisboa e o Lisboa Ginásio Clube. Além destes centros existiam ainda os chamados «Quintais», que eram recintos ladeados por um muro fazendo-se a prática do jogo no pátio interior. Os quintais encontravam-se espalhados por toda a Lisboa e neles treinavam centenas de jogadores que recebiam lições do mestre ou do contramestre da escola (estilo) que escolhiam.

Estes famosos Quintais não eram, longe do que muita gente da nossa burguesia supunha, frequentados por desordeiros, nem por criaturas de espécie pouco recomendável. Homens de trabalho, na sua maioria provincianos de Trás-os-Montes, Minho e outras províncias chegadas ao Norte, tinham um gosto especial por este exercício que era praticado com admiração nas terras das suas naturalidades. Era sempre grande o entusiasmo destes homens em aprender porque apreciavam o ensino, e sabiam dar o devido valor ao sacrifício que faziam para o pagar, pois apenas 10 minutos de lição correspondiam naquela época ao salário diário de um operário.






É fácil de compreender que um homem que às vezes não ganhava mais do que quatrocentos réis por dia, a arrancar pedra numa pedreira, ou quinhentos ou seiscentos réis diários em qualquer outro mister extenuante, não ia pagar ao mestre por snobismo.

Mas também aqui em Lisboa o auge desta arte pouco durou devido a variadíssimos factores, tais como o desenvolvimento de novos desportos trazidos do estrangeiro e que na altura faziam moda. Por serem novidade, vieram cativar as gerações mais novas, deixando um vazio de uma geração e, se não fosse carinhosamente conservado nas mãos de carolas apaixonados, o jogo do pau (que hoje está de novo a reviver com grande entusiasmo numa homenagem àqueles tempos heróicos dos velhos puxadores) teria visto em perigo a sua existência, pois praticamente nada havia escrito sobre o assunto, sendo toda a técnica transmitida por via oral (in Os Portugueses e o Mundo, Fundação Eng. António de Almeida, 1989, Vol. VI, pp. 119-123).


Continua


domingo, 2 de maio de 2010

O Livro dos Cinco Anéis

Escrito por Miyamoto Musashi













Introdução

No prólogo de Go Rin No Sho, Miyamoto Musashi, também chamado «Kinsei», ou o «Santo da Espada», traça o seu percurso de vida nos seguintes termos:

«Ao longo de muitos anos, fui aperfeiçoando o caminho da estratégia, denominado Niten Ichi Ryu [Escola dos Dois Céus]. Agora, pela primeira vez, desejo explicá-lo por escrito. Estamos no décimo dia do décimo mês do vigésimo ano de Kanei [1643]. Subi ao monte Iwato, em Higo, na ilha de Kyushu, para prestar homenagem ao Céu, venerar a deusa Kwannon e ajoelhar-me diante de Buda. Sou um guerreiro da província de Harima, chamo-me Shinmen Musashi No Kami Fujiwara No Genshin e tenho 60 anos de idade.

Desde a juventude que o meu coração se sentiu atraído pelo caminho da estratégia. O meu primeiro duelo ocorreu quando eu tinha 13 anos. Derrotei então um estrategista da escola xintoísta, chamado Arima Kibei. Com 16 anos, venci Tadashima Akiyama, um valoroso estrategista. Quando atingi os 21 anos, fui para a capital e defrontei todo o género de guerreiros em muitos confrontos, sem nunca deixar de obter a vitória.

Depois, andei de província em província, travando duelos com mestres de várias escolas, sem que a vitória me escapasse uma só vez, apesar de ter participado em mais de 60 confrontos. Tudo isto ocorreu entre os meus 13 e 28 ou 29 anos.

Quando fiz 30 anos, reflecti sobre o meu passado e concluí que não alcançara as vitórias anteriores por ter adquirido o domínio da estratégia. Talvez fosse por uma aptidão natural ou pela ordem do céu, ou porque a estratégia das outras escolas era inferior. A partir desse momento, dediquei-me ao estudo de manhã à noite para encontrar um princípio mais profundo e, quando atingi os 50 anos, acabei por compreender o verdadeiro caminho da estratégia.



Desde então, tenho vivido sem seguir caminho algum em particular. Assim, aplicando o conhecimento da estratégia marcial, pratiquei muitas artes e técnicas, não recorrendo a qualquer mestre. Ao escrever este livro, não usarei a lei de Buda ou os ensinamentos de Confúcio, nem antigas crónicas militares ou textos sobre tácticas de combate. Para explicar o verdadeiro espírito da minha escola tal como se espelha no caminho do Céu e de Kwannon, pego agora no pincel, na noite do décimo dia do décimo mês, à hora do tigre [3-5 horas da madrugada]».

Posto isto, convém relembrar que o Japão, não obstante o influxo da civilização chinesa por via da Coreia, permanecera isolado do mundo durante séculos. Aliás, o Período Tokugawa (1600-1868), especialmente absorto nesse isolamento, fora mais tarde descrito como sakoku jiddai ou «Período do País Fechado». Um período, portanto, durante o qual todos os ocidentais - à excepção dos holandeses confinados à pequena ilha de Deshima, no Porto de Nagasáqui - haviam sido expulsos pelo xogunato em 1639 (Cf. Kenneth Henshall, História do Japão, Edições 70, 2005, p. 86).

Ora, é precisamente nesta época que se situa Miyamoto Musashi, também caracterizada pelas armas de fogo introduzidas pelos Portugueses. Aliás, basta recuar ao ano de 1575 para ver como Oda Nobunaga conseguira reunir 20.000 mosqueteiros para derrotar Takeda Katsuyori na batalha de Nagashine (ob. cit., p. 66.) E note-se também ter sido Oda Nabunaga, a par de Toyotomi Hideyoshi e Togugawa Ieyasu, o xógum responsável pela reunificação do Japão, ocorrida no período Azuchi-Momoyama (1568-1600).

O Período Tokugawa (1600-1868) é o período em que, após três séculos de intensas e sangrentas guerras feudais, se altera a percepção dos bushis («samurais») à luz do Budismo Zen. Daí que, a par da reformulação estratégica e religiosa do código dos samurais (Bushido ou o «Caminho do Guerreiro») - já por então manifesto na História dos Quarenta e Sete Ronins, ou nas descrições populares do Hagakure (Na Sombra das Folhas), escrito por Yamada Soko -, se destaquem igualmente os escritos do monge Zen Rinzai Takuan Soho, ademais amigo de espadachins proeminentes, entre os quais Miyamoto Musashi. Ora, do conteúdo de tais escritos inspirados na percepção holística do eu e do outro, é de notar a transcensão da técnica em prol do satori («iluminação suprema»).








Toshiro Mifune






Kendo no Rio de Janeiro (Brasil).



Kendo Nito-Ryu



Com o rodar dos tempos, o Kenjutsu ou a «arte do sabre» daria lugar ao Kendo, que é, de alguma forma, o sucedâneo da «esgrima japonesa». Em 1938, com o aproximar da Segunda Guerra Mundial, o Kendo foi, a par do Judo («a Via da Não-Resistência»), do Karaté («a Via das Mãos Vazias») e do Kyudo («a Via do Tiro com Arco»), militarmente reabilitado na escola nacional das artes marciais (Butokukai), criada pelo Governo japonês em 1897. Finda a guerra, as artes marciais seriam proíbidas pela Ocupação americana, não obstante «os professores do Kodokan» («Escola para o Estudo da Via», fundada por Jigoro Kano) terem sido, em 1946, «autorizados a ensinar judo... às tropas americanas» (cf. Louis Robert, O Judo, Editorial Notícias, 1968, p. 23).

De facto, as artes marciais acabaram por ser readaptadas numa vertente essencialmente lúdica e desportiva. É o caso do Kendo, cuja Federação Internacional foi fundada em 1970 e cujo primeiro torneio do Campeonato do Mundo teve lugar no Japão (cf. Jeff Broderick, Kendo, Editorial Estampa, 2005, p. 15). E dito isto, fiquemos finalmente com a concepção de Miyamoto Musashi consignada no Livro da Terra.

Miguel Bruno Duarte




O LIVRO DA TERRA


A Estratégia é a arte do guerreiro. Quem está numa posição de comando tem a obrigação de pôr em prática esta arte, e mesmo os soldados devem conhecer tal caminho. Porém, não existe hoje guerreiro algum no mundo que compreenda realmente o caminho da estratégia.

Há vários caminhos. Há o caminho da salvação pela lei de Buda, o caminho de Confúcio que governa a aprendizagem, o caminho da cura próprio do médico, o caminho de Waka ensinado pelo poeta. Outros seguem os caminhos do chá, do tiro com arco e de muitas outras artes e técnicas. Cada um pratica aquele para que se sente mais inclinado. Poucos são os que preferem o caminho da estratégia marcial.






Diz-se que o guerreiro deve conhecer o caminho duplo da pena e da espada. Mesmo que não seja dotado de uma aptidão natural, o guerreiro tem obrigação de praticar com assiduidade as duas vias do caminho. Diz-se geralmente que o caminho do guerreiro é a resoluta aceitação da morte. Embora não só os guerreiros, mas sacerdotes, mulheres e camponeses e gente de mais baixa condição se disponham a morrer em cumprimento do dever ou em consequência da vergonha, trata-se aqui de um caso diferente. Porque o guerreiro segue o caminho da estratégia com a finalidade de atingir a excelência em todas as coisas e superar os demais, seja cruzando espadas em duelos ou combatendo em batalhas com numerosos soldados, seja para sua glória e seu proveito ou em benefício do seu senhor. Esta é a virtude da estratégia.

Algumas pessoas talvez pensem que mesmo que se aprenda a estratégia marcial, esta de nada servirá num confronto real. No entanto, o verdadeiro espírito da estratégia do guerreiro consiste em segui-la de modo que seja útil em todos os domínios.


Sobre o caminho da estratégia


Na China e no Japão, os praticantes deste caminho foram tradicionalmente conhecidos como «mestres de estratégia».

Os guerreiros devem aprender tal caminho.

Há pessoas que hoje ganham a vida como estrategistas, mas em geral são apenas professores de esgrima. Os sacerdotes dos templos de Kashima e Kantori, na província de Hitachi, afirmaram que receberam a instrução dos deuses e formaram escolas baseadas neste ensinamento, viajando de província em província para transmitirem o seu saber. É este o significado recente do termo «estratégia».








Nos tempos de outrora, a estratégia estava incluída nas Dez Aptidões e nas Sete Artes como uma prática benéfica. Era sem dúvida uma arte, mas como prática benéfica não se restringia ao combate com espada. O real valor do combate com espada não se pode conhecer dentro dos limites das técnicas da esgrima. Escusado será dizer que a arte da espada restringida somente às técnicas nunca poderá rivalizar com os princípios da estratégia.

Se olharmos para o mundo de hoje, vemos que as artes estão à venda. Os homens usam equipamentos para se venderem a si mesmos como mercadorias. Em comparação com a flor e o fruto, é como se o fruto se tivesse tornado menos importante do que a flor. Neste género de caminho da estratégia, tanto os que ensinam como os que aprendem o caminho estão preocupados com o estilo pomposo e o exibicionismo das suas técnicas, para que a flor mais rapidamente floresça através da popularidade e do comércio. Mas buscam somente o lucro rápido. Alguém afirmou uma vez: «A estratégia imatura é causa de grandes males.» E este dito é verdadeiro.


(...) Esboço das cinco partes deste livro de estratégia


Para expor os diferentes aspectos do caminho, este livro é composto por cinco partes, intituladas Terra, Água, Fogo, Vento e Vazio.

O corpo principal do caminho da estratégia, segundo o ponto de vista da minha escola, é explicado no Livro da Terra. É difícil compreender o caminho verdadeiro somente através da arte da espada. Há que conhecer os lugares mais pequenos e os maiores, os mais superficiais e os mais profundos. Como se fosse uma estrada recta e plana marcada no solo, eis em primeiro lugar o Livro da Terra.











Em segundo lugar, o Livro da Água. Tomando a água por modelo, o espírito torna-se como água. A água adquire a forma do seu recipiente, quer seja quadrado ou redondo, por vezes surge como uma única gota, outras vezes como um vasto oceano. Tem a cor transparente da água-marinha. Através da sua claridade, escrevo sobre a minha escola neste livro.

Quando são dominados os princípios do combate com espada, a capacidade de derrotar à vontade uma só pessoa equivale à capacidade de derrotar todas as pessoas do mundo. O espírito que conduz à derrota de um homem é o mesmo que possibilita a derrota de dez mil homens. A estratégia de um comandante, exigindo que de algo pequeno faça algo grandioso, é comparável à execução de uma estátua gigante de Buda a partir de um modelo com dois palmos. Não posso esplicar por escrito e em pormenor de que modo isto se faz. O princípio da estratégia é conhecer miríades de coisas a partir de uma só. Alguns aspectos relativos à minha escola são explicados neste Livro da Água.

Em terceiro lugar, o Livro do Fogo. Este livro é sobre o combate. O espírito do fogo é violento, quer o fogo seja pequeno ou grande, e o mesmo se passa nas batalhas. O caminho da batalha é o mesmo em combates homem a homem e em confrontos de exércitos com dez mil soldados. O espírito pode abarcar o grande e o pequeno. O grande é fácil de percepcionar. Por exemplo, mudar de posição é difícil para um grande número de homens, pelo que os seus movimentos podem ser previstos com facilidade. Um indivíduo pode mudar facilmente de intenções, pelo que os seus movimentos são de difícil previsão. Há que ter em conta este aspecto. No essencial, este livro mostra a necessidade de praticar dia e noite com o objectivo de tomar decisões rápidas em combate, até que estas se tornem naturais. É preciso considerar o treino como parte da vida quotidiana, para que o espírito permaneça imutável. Assim, a forma de combater numa batalha é descrita no Livro do Fogo.









Em quarto lugar, o Livro do Vento. Este livro não trata da minha própria escola, mas de outras escolas de estratégia. Através da palavra «vento», refiro-me a tradições ancestrais, a tradições hoje seguidas e a tradições familiares de estratégia. Assim, explico claramente as estratégias das várias escolas do mundo. Isto é a tradição. É difícil o conhecimento de vós mesmos se não conhecerdes os outros. Em qualquer caminho há desvios. Se estudais um caminho todos os dias e o vosso espírito diverge, podeis julgar que seguis um bom caminho, mas objectivamente não é o caminho verdadeiro. Ao seguir o caminho verdadeiro, uma pequena divergência no início tornar-se-á depois uma grande divergência. É isto que deveis compreender. A estratégia acabou por ser concebida apenas como o combate com espada, não sem razões para que tal haja sucedido. A vantagem da minha estratégia, embora inclua o combate com espada, reside num princípio diferente. No Livro do Vento, explico o que as outras escolas entendem vulgarmente por estratégia.

Em quinto lugar, o Livro do Vazio. Por vazio entendo aquilo que não tem começo nem fim. Alcançar este princípio significa abandonar todos os princípios. O caminho da estratégia é o caminho da natureza. Quando se conhece o poder da natureza, discernindo o ritmo de qualquer situação, é possível atingir naturalmente o inimigo a cada golpe. É este o caminho do vazio. Pretendo mostrar como seguir o caminho verdadeiro de acordo com a natureza no Livro do Vazio.



A Escola das Duas Espadas







Os guerreiros, tanto comandantes como soldados, transportam duas espadas à cintura. Nos tempos de outrora, eram chamadas espada longa [tachi] e espada [katana]; hoje, são conhecidas como espada [katana] e espada auxiliar [wakizashi]. Não é necessário explicar isto em pormenor. Basta dizer que um guerreiro, no Japão, tem o dever de transportar duas espadas, quer saiba ou não manejá-las. É o caminho do guerreiro. Designei a minha escola por Nito Ichi Ryu [Escola das Duas Espadas] para mostrar a vantagem da utilização de ambas as espadas.

Quanto à lança e à alabarda, entre outras, são consideradas armas complementares do guerreiro.

Os estudantes da escola de estratégia Nito Ichi devem treinar desde o início com a espada numa das mãos e a espada longa noutra mão. Eis uma verdade: quando se sacrifica a vida, há que fazer o melhor uso do armamento disponível. Não é natural que se faça o contrário e se morra com uma espada ainda por desembainhar.

Quando se pega numa espada com ambas as mãos, é difícil brandi-la livremente à esquerda e à direita, pelo que o meu método consiste em manejar a espada com uma só mão. Isto não se aplica a armas compridas como a lança ou a alabarda, mas as espadas e as espadas auxiliares podem ser usadas com uma só mão. É incómodo empunhar uma espada com ambas as mãos quando se cavalga, quando se corre em caminhos acidentados, terrenos pantanosos, campos de arroz lamacentos, solos pedregosos ou entre uma multidão de pessoas. Pegar na espada longa com ambas as mãos não é o caminho verdadeiro, pois quando se transporta um arco, uma lança ou uma outra arma na mão esquerda, fica apenas livre uma das mãos para a espada longa. No entanto, quando golpear o inimigo com uma só mão se torna impossível, há que usar ambas as mãos.

Não é difícil brandir uma espada com uma só mão. O caminho para aprender esta técnica consiste em treinar com duas espadas longas, uma em cada mão. Parecerá difícil no início, mas tudo é difícil quando se começa. O arco é difícil de dobrar, a alabarda é difícil de empunhar. Porém, quanto mais acostumado se estiver ao arco, mais enérgico será o seu uso. Quando se estiver habituado a empunhar uma espada longa, será alcançado o poder do caminho e mais fácil se tornará brandir a espada.






(...) não é correcto brandir a espada longa com grande rapidez. A espada longa deve ser manejada com amplidão, e a espada auxiliar num espaço reduzido. Esta é a ideia essencial para quem principia.

Na minha escola, é possível vencer com uma arma longa, mas também com uma arma curta. Em suma, o caminho da minha escola consiste no espírito de vitória, qualquer que seja a arma e o seu cumprimento.

É melhor usar duas espadas em vez de uma quando se combate uma multidão e, especialmente, quando se pretende fazer prisioneiros.

Estes aspectos não permitem uma explicação pormenorizada. A partir de uma só coisa, podeis conhecer dez mil coisas. Uma vez alcançado o caminho da estratégia, nada haverá que não compreendais.


Os princípios da estratégia


Os mestres da espada longa são chamados estrategistas. Quanto às outras artes militares, aqueles que são peritos no arco são chamados arqueiros, aqueles que dominam a lança são chamados lanceiros, aqueles que manejam o fuzil são chamados atiradores, aqueles que usam alabarda são chamados alabardeiros. Mas não designamos os mestres do caminho da espada longa por «espadachins de espada longa», nem falamos de «espadachins de espada curta». Arcos, fuzis, lanças e alabardas pertencem ao equipamento de todos os guerreiros e fazem parte da estratégia. Porém, dominar a virtude da espada longa é governar o mundo e o nosso próprio ser, pelo que a espada longa é a base da estratégia. O princípio é «a estratégia por meio da espada longa». Se alcançar a virtude da espada longa, um homem pode vencer dez. Tal como um homem pode vencer dez, também cem homens podem vencer mil, e mil podem vencer dez mil. Esta estratégia é a arte completa do guerreiro.

O caminho do guerreiro não inclui outros caminhos, como o confucionismo, o budismo, a arte do chá, as realizações artísticas e a dança. Mas, embora não façam parte do caminho, se conhecerdes o caminho em toda a sua amplidão, vê-lo-eis em todas as coisas. Todo o ser humano deve aperfeiçoar o seu caminho individual» (in O Livro dos Cinco Anéis, Coisas de Ler, 2002, pp. 17-19 e 23-30).














Musashi vs. Shirakura Dengoemon