terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Juízo Final (v)

Entrevista a Franco Nogueira




Batalha de Aljubarrota


Seguem-se alguns trechos de «uma entrevista também feita em Londres, para o jornal O Tempo, pelo jornalista Alves Fernandes, no ano de 1979».

- Como encara a presente conjuntura portuguesa e vê a sua evolução próxima futura?

- Por estar longe, não estou bem informado, mas reajo como qualquer português, ao que suponho: com a maior amargura e apreensão. Julgo que Portugal não atravessou, depois de 1580, uma crise mais grave. Talvez a de hoje seja ainda mais séria porque os nossos recursos são agora infinitamente mais pobres. Do ponto de vista económico e financeiro, penso haver, unanimidade em classificar a situação de catastrófica. É hoje tão pesada a dívida externa, e desbarataram-se tantos haveres nacionais que bem se pode afirmar ter o país perdido a sua autonomia de decisão. Quantas gerações serão precisas para pagar o que devemos e reabilitar o país? Do ponto de vista político, e tanto quanto posso acompanhar a situação, julgo que atingimos um caos que nos avilta. O debate político e partidário não se processa em torno de ideias ou de princípios, mas em torno de homens ou de grupos; e a luta que estes travam orienta-se por ambições pessoais, por despeito ou ressentimento, por intrigas, até por birras. Trata-se de saber como ultrapassar o rival ou adversário em astúcia, em capacidade de manobra, desferindo golpes de surpresa, negociando combinações, procurando alianças que se fazem ou desfazem, e tudo isto com base na clientela, no compadrio e não no desejo de resolver problemas nacionais. Hoje [refere-se a 1978/1979], a filiação num partido não se determina por afinidades ideológicas ou de princípios, mas pelo oportunismo, ou pela esperança de auferir benefícios, geralmente de ordem material - um lugar, um negócio, uma comissão, qualquer coisa. Outros filiaram-se de boa-fé e sentem-se traídos. Por isso creio ser imensa a multidão dos desiludidos, dos frustrados. E o mais grave é ainda a indiferença, o alheamento, a apatia em que o povo português parece mergulhado: não acredita nos homens, não acredita nas instituições, dir-se-ia duvidar de si próprio. Por isso todo o esforço é havido por inútil, nada parece valer a pena, nada parece ser possível tentar. Para quê trabalhar se não há incentivos? Para quê tomar iniciativas se estas são cerceadas? Para quê tentar fazer mais e melhor se a recompensa é idêntica à do que fizer menos e pior? Além de uma crise económica e de uma crise política, há assim uma profunda crise moral. Quanto à evolução, próxima ou futura, julgo que ninguém, seriamente e com sentido de responsabilidade, pode fazer previsões. Tudo pode acontecer. E tudo a meu ver depende da ressurreição da consciência nacional. Mas não podemos ou devemos perder a esperança.

- Portugal está ou não a caminhar para uma colectivização da sociedade portuguesa?


Mário Soares e Álvaro Cunhal


Suavemente? Eu diria, ao contrário, que essa colectivização se processa velozmente. E desastrosamente para o país, acrescentarei. Em harmonia com um plano concebido de longa data, realizaram-se as nacionalizações de Março de 1975; foi um golpe apressado e atrabiliário que era preciso vibrar na economia portuguesa, para a destruir, antes da institucionalização da revolução. E bem vê: os actos políticos e os sistemas têm a sua lógica interna e a sua dinâmica própria. De posse dos meios facultados por aquelas nacionalizações, os mesmos passaram a ser utilizados, não em favor da Nação mas em favor da oligarquia política, e não para investimentos ou expansão de empresas; depois, as empresas, tanto públicas como privadas, passaram a ser administradas de harmonia com critérios políticos, e os créditos passaram a cobrir os deficits da má exploração. Sobre uma produção e uma produtividade que baixaram, foi aumentada a carga fiscal; mas como a matéria colectável vai decrescendo, uma incidência tributária altíssima vai produzindo cada vez menos receitas. Quero dizer, pagam-se cada vez mais impostos sobre rendimentos cada vez menores em termos reais. Daqui resulta o atrofiamento de toda a actividade, de toda a iniciativa. Põe-se como limite ao trabalho não a capacidade de cada um mas o que vale a pena trabalhar, isto é, para além de certo limite não importa trabalhar porque tudo será absorvido pelo imposto. Há assim um incitamento à ociosidade. Em Portugal, o imposto não tem hoje [refere-se a 1978/1979] um carácter social e de justiça correctiva, mas de extorsão aflitiva de recursos. E é a esta colectivização que tem sido conduzido o país: é a socialização pela miséria. Pode dizer-se com verdade, e com tristeza, que Portugal é um país do quarto mundo. Mais dramático do que tudo, é isto: da parte de alguns, são estes os resultados que precisamente se pretendem»

(...) - Além da alternativa do Mercado Comum, poder-se-iam encarar outros aspectos, outras soluções. Por exemplo: futuro arranjo da Península; Portugal a desempenhar um papel na esfera internacional (designadamente na forma de envio de tropas para África ou outras regiões, ao serviço da ONU e da países estrangeiros); Portugal protectorado ou colónia de qualquer potência. Que pensa destas hipóteses, aliás já levantadas por alguns sectores?

Margarida Marante e Freitas do Amaral (1.º à esq.), Francisco Pinto Balsemão, Mário Soares e Álvaro Cunhal (1982).


- Veja até onde a revolução de Abril e o desânimo e o desespero já conduziram os Portugueses! Certamente faz-me estas perguntas como reflexo de interrogações que andam no ar em Portugal. Pergunto-lhe eu: antes do 25 de Abril sentiria necessidade de formular tais interrogações? Penso bem que não. Mas não sei o que hei-de entender por arranjo peninsular. Se se trata de boas relações de vizinhança, dentro de absoluto respeito mútuo, ou de cooperação independente no que for de interesse recíproco, creio que nisso todos estaremos de acordo. Se se trata de qualquer outra coisa, não vejo que construção política ou económica se possa fazer que respeite e garanta a independência e a soberania de Portugal. Quererá referir-se ao iberismo? Quererá aludir às teses de federação ou integração peninsular? Mas todas essas teses são simplesmente suicidas. Não sejamos ingénuos. Não acreditemos que o iberismo seja solução para qualquer problema português, salvo se quisermos perder a independência. Quanto aos outros aspectos que toca, parece-me o seguinte. Desempenharemos no mundo o papel que um povo de dez milhões, diferenciado e dotado de vontade própria, quiser desempenhar, condicionado decerto pelos seus recursos, mas aproveitando-os até ao limite máximo. Isto exclui a ideia de qualquer hipótese de protectorado ou colónia. Eu sei, nós sabemos que Portugal é um país em crise. Mas então essa crise vai ao ponto de se haver esgotado todo o patriotismo, todo o brio, todo o amor-próprio nacional? Já não há corações portugueses? A juventude já não vibra com Portugal? Somos mercenários de interesses alheios? Julgo que isso repugna à sensibilidade do Povo Português. Para os Portugueses não há sucedâneo ou alternativa para a independência.

- Tem-se pretendido definir a política enterna portuguesa anterior ao «25 de Abril» como uma sucessão de malogros e infelicidades em relação aos verdadeiros interesses nacionais. Parece-lhe justa a asserção e merecido o anátema que se tem lançado sobre a diplomacia portuguesa anterior à revolução?

- Repito-lhe a observação que fiz quanto à pergunta anterior: uma política julga-se em função dos objectivos que se propõe e dos resultados que alcança. Toda a política implica riscos e sacrifícios. E uma política é boa quando os benefícios obtidos são superiores aos prejuízos sofridos. Ora qual era o objectivo da política externa portuguesa antes do 25 de Abril? Em síntese grosseira, era manter o Ultramar na Nação Portuguesa; evitar a formação de uma coligação de forças hostis que fosse invencível; obter o maior número possível de auxílios que nos ajudassem a defender-nos. Eu penso que os resultados foram alcançados. Ou não foram? a ideia dos malogros, das infelicidades, e do anátema que é agora lançado tem outras razões, que se filiam no que parece ser uma velha e desgraçada ideia, e que é esta: só está certo e corresponde aos interesses portugueses o que tiver o aplauso dos estrangeiros. E não se vê que os outros apenas nos aplaudem quando fazemos o que convém aos seus interesses; porque dos nossos interesses ninguém cuida, se nós não o fizermos. Por que se critica a política externa naquele período? Porque suscitava a hostilidade de muitos círculos internacionais, porque éramos condenados pelas Nações Unidas, porque tínhamos relações difíceis com países importantes, etc. Isto é verdade. Mas o problema parece dever pôr-se de outra forma. E a pergunta que importa fazer penso ser esta: era mais importante para Portugal manter o Ultramar ou evitar a condenação das Nações Unidas? Bem vê: a ONU, inteiramente manipulada pelas grandes forças imperiais, exigia a entrega do Ultramar, sem transigências e negociações; não satisfazer essa exigência implicava a condenação sob a forma de uma resolução aprovada por grande maioria; e portanto não era viável ao mesmo tempo manter o Ultramar e obter o aplauso da ONU. Entre o aplauso de Nova Iorque e a integridade da Nação, que se deveria escolher? O caso de Goa demonstra precisamente que não havia então uma terceira alternativa: a União Indiana queria Goa - e o conflito apenas se evitava entregando Goa. Da parte das elites portuguesas, perante situações semelhantes, surge logo a ideia de transigir, de negociar, de recorrer a habilidades e expedientes, com o intuito de mistificar os outros, como se os outros fossem ingénuos. Tudo foi oferecido à União Indiana: acordos de fronteiras, acordos de segurança, privilégios em Goa, etc. - mas o que aquela queria era Goa. Deveria ser-lhe entregue? Se o fizéssemos, de facto não haveria conflito; mas também não haveria Goa. O que não se teria dito do Governo de então se houvesse entregue Goa?! Às vezes tenho a sensação de que algumas elites portuguesas raciocinam assim: o ourives não tem o direito de exibir jóias na montra porque está a provocar o ladrão e para evitar o roubo é preferível entregar as jóias. Esta é uma imagem simplista, mas que tem muito de verdade. Então, porque uma política pode vir a falhar (repito: é da essência de qualquer política poder vir a falhar) deixa-se logo à partida de executar essa política que se considera preferível? Nenhuma política seria jamais possível se não fosse tentada. Decerto: não se deve tentar uma política sobre que tenhamos a certeza antecipada de que falhará. Era esse o caso? Evidentemente, não. Em suma, para as elites porrtuguesas apenas é boa uma política que não imponha sacrifícios, nem riscos, e que seja de resultados seguros. Não sei de qualquer política com essas características. Ou então parece existir às vezes uma outra ideia: conseguir ao mesmo tempo os benefícios de uma política e os benefícios da política que lhe seja contrária. O ideal teria sido, neste contexto, manter o Ultramar, não fazer sacrifícios, não haver luta, obter o aplauso de todo o mundo. Ninguém sugeriu, que eu saiba, como se conseguia esse milagre. Mas também neste caso o melhor é deixar à História o julgamento. Não vale a pena afadigar-nos: a História não se deixará iludir. Só direi mais que Portugal era atacado, condenado, porque na defesa dos seus interesses se opunha aos de outros, e por isso era respeitado e ouvido, e acatado na solução de importantes problemas internacionais. Também o é hoje? (in Juízo Final, pp. 28-30 e 32-34).

Continua


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Juízo Final (iv)

Entrevista a Franco Nogueira





As duas questões que se seguem, no decurso de uma entrevista feita a Franco Nogueira em Londres (1976) e publicada no jornal Expresso, foram formuladas pela jornalista Maria João Avilez.

- Como definiu as grandes linhas que orientaram a sua política? Disse-me uma vez que, no que dizia respeito ao Ultramar português, as vicissitudes eram as mesmas, apenas a nomenclatura ou os pretextos mudavam, segundo as épocas e as ópticas?

-Desde que Portugal sentiu necessidade, para sobreviver, de procurar pontos de apoio para além do continente europeu, e a partir do momento em que perdeu a sua força militar para manter exclusivamente através dela esses pontos de apoio, e quando outras nações europeias se lançaram também na expansão ultramarina, Portugal passou a ser, ciclicamente e através dos séculos, vítima de ataques. Esses ataques eram sempre cobertos por uma ideologia que justificava os imperialismos das outras potências em relação aos territórios portugueses. Chamou-se em primeiro lugar a liberdade dos mares; depois vieram as doutrinas do anti-esclavagismo (repare que não estou a defender o esclavagismo, aliás praticado por todos e não só por Portugal, mas a dizer que, por detrás de uma posição, evidentemente sã, manobravam grandes interesses políticos e materiais), das esferas de influência, dos mandatos, da autodeterminação, etc. Em todos os momentos, fomos atacados. Sempre com o mesmo motivo: Portugal em África era um embaraço à política alevantadamente idealista das grandes potências. Tudo foi sempre a capa ideológica e a concepção doutrinária que permitiu mascarar a intervenção das grandes forças internacionais e dos grandes impérios para restabelecerem, à custa dos mais fracos, um equilíbrio que dificilmente encontram entre eles próprios. E é evidente que, dada a importância e a posição dos territórios ultramarinos portugueses, as cobiças por eles suscitadas eram imensas, e não poderiam ficar imunes à planificação que esses próprios impérios faziam dos seus objectivos mundiais. E era desta realidade que a mim me parecia importante que os Portugueses se tivessem apercebido. Tratava-se de mais um ciclo de ataques e de críticas como nos séculos passados. A História não muda tanto como se pensa. Creio que já alguém disse que o que muda são as perguntas que nós fazemos à História.

- Não considera então que a descolonização feita pelo 25 de Abril pode, de algum modo, ter sido um efeito, uma consequência de nada estar preparado, de nunca se haver avançado um passo, de sempre se terem defendido as mesmas ideias, e da mesmíssima maneira? (1)

- Preparado - Como? Avançado um passo - em que sentido? Era esse o erro: haver em alguns a ideia de que se poderia avançar um passo ou dois, e depois parar quando se quisesse. Bem vê: se na conjuntura que era a da época se avançasse um passo, só poderia ser no sentido do que os interesses alheios pretendiam. Pensa que eles se contentavam com um passo apenas? Suponha que se declarava que ia ser dada independência a Angola e a Moçambique dentro de dez anos, ou mesmo dentro de cinco. Diga-me uma coisa; acha que as Nações Unidas, a União Soviética, os Afro-Asiáticos, iam cessar os ataques e ficar silenciosos e quietos durante esses anos? Sinceramente, alguém pode achar isso? Não vê que a pressão feita para que se declarasse a independência seria transferida para o encurtamento do prazo? E não se vê que o simples anúncio de uma nova política cria logo a velocidade dessa mesma política? Bem sei: alegavam-se os ventos da história, os exemplos inglês ou francês, os novos Brasis que se poderiam fazer de Angola ou Moçambique, etc. Em relação ao primeiro ponto, há que ter em atenção não haver qualquer analogia entre a situação portuguesa e a da França e da Inglaterra. Porque a França e a Inglaterra são grandes potências, com grandes recursos financeiros, económicos, técnicos, científicos, industriais e militares. O que lhes permitiu realizar uma descolonização em nome da autodeterminação, que foi apenas uma tentativa de reconversão da soberania própria. Reconversão que incidiu sobre dois pontos: o primeiro foi que, pela sua capacidade económica, técnica, militar, etc., a França e a Inglaterra estavam em posição de descolonizar e poder continuar a ser, para esses povos, centros de atracção como eram anteriormente. E essa mesma capacidade política, e essa força de que dispunham os dois países, permitiam-lhes evitar que terceiros se substituíssem à França ou à Inglaterra na influência dos territórios. Portugal não era a França nem a Inglaterra. E era muito claro que uma vez quebrados ou enfraquecidos os laços políticos, todos os outros laços desapareceriam. Muitos pensavam que se poderia fazer uma descolonização mantendo os laços económicos e financeiros e culturais. Como se as grandes forças internacionais que nos atacavam estivessem interessadas, graciosamente, em permitir a Portugal que mantivesse esses laços económicos e financeiros, e outros interesses, aliás legítimos, nos antigos territórios ultramarinos. Era uma pura ilusão. Quanto ao segundo ponto: a ideia de que Angola e Moçambique eram semelhantes ao Brasil. Por que não fazer destes territórios novos Brasis? Esquecia-se este pormenor: a independência do Brasil tinha sido feita pelos colonizadores, a independência de Angola e de Moçambique só seria legítima no plano internacional quando feita exclusivamente pelos colonizados. Ou então teria de se dizer que a independência de Angola e de Moçambique deveria ser dada aos brancos, fazendo daí duas Rodésias. Parece que não era isso também que a comunidade internacional desejaria. Nem essa solução estava na linha ideológica da política seguida: a construção de sociedades multirraciais não era uma ideia vã, nem artificial (in Juízo Final, p. 21).






(1) Entre esta pergunta e a anterior, foram feitas pela jornalista numerosas outras. Quem o desejar pode ler o texto integral da entrevista no (...) volume Entre Palavras.

Continua


sábado, 13 de fevereiro de 2010

Juízo Final (iii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte



e) o terrorismo em Angola fora, na realidade, preparado, instigado e lançado do exterior. Tivera, portanto, o apoio comunista por via diplomática, académica e revolucionária dirigida aos países africanos, especialmente no que toca à ficção jurídica da autodeterminação e do plebiscito. De resto, a política estadounidense também fora paradoxalmente contraditória na defesa da Europa, acabando por favorecer o inimigo comunista (6);

f) o comunismo multiforme e aparentemente inócuo na sua identidade doutrinal tivera por base o nacionalismo na Ásia e o internacionalismo na Europa;

g) a instrumentalização da ONU fora já então essencial para a consecução de uma Nova Ordem Mundial em detrimento da existência soberana dos povos, nações e pátrias de todo o mundo (7).

Ora, assim se explica o porquê da crise político-diplomática em 1961, que veio na sequência do ataque à província de Angola a 15 de Março e da invasão de Goa a 18 de Dezembro do mesmo ano. Atestam-no, em parte, as palavras de Franco Nogueira:

«Naquele dia de 11 de Dezembro de 1961, ao cair da tarde e conforme um anterior pedido de audiência, Salazar vai receber o ministro da Educação Nacional. Afaga a testa, aperta a cabeça nas mãos, e diz para os ministros que saem: "A Educação Nacional! Que será? Bem, vamos tratar do analfabetismo em Santa Comba! A Educação Nacional! Que interesse posso eu neste momento sentir pela Educação Nacional!"» (in Franco Nogueira, ob. cit., Vol. V, p. 361).

Seja como for, o salazarismo encontra-se definitivamente morto, como já o reconhecera Franco Nogueira (cf. «Duas Palavras Finais», in ob. cit., vol. VI). Ficam, porém, os factos históricos, ainda que discretos e omissos, protagonizados pelo último monarca na defesa de Portugal perante o movimento hostil e desnacionalizante da maré internacionalista.






Não há dúvida: hoje, em termos políticos e económicos, os portugueses encontram-se reféns de uma máquina burocrática ao serviço de partidos, poderes e organizações internacionais. E no que toca à cultura e à universidade, tudo se processa segundo uma planificação ideológica que, por um lado, distorce e falsifica a verdade histórica, e, por outro, minora valores científicos, artísticos e filosóficos.

Raríssimos são, pois, os indivíduos que conseguem ver como a revolução comunista de 1974 deu lugar a um processo de branqueamento sobre o que verdadeiramente se passou antes e depois do 25 de Abril. Por conseguinte, torna-se perfeitamente compreensível que Franco Nogueira, já devedor de uma larga e comprovada experiência política, se visse desde logo confrontado com sérias dificuldades e obstáculos na sua investigação sobre a vida, o pensamento e a obra de Salazar. Daí nas suas palavras:

«… o Arquivo Salazar, transferido das caves de S. Bento (onde julgo que foi largamente saqueado após o 25 de Abril) para a Biblioteca Nacional (onde creio estar devidamente instalado), continua defeso para os historiadores. Todas as consultas e extensas pesquisas que ali fiz, quando ainda em S. Bento, cessaram pelo menos para mim com o 25 de Abril – ainda que segundo parece o Arquivo esteja agora aberto estranhamente à pesquisa política, com objectivos que antecipadamente se confessam comprometidos e orientados num sentido, e destinados a provar o que deliberadamente se quer provar, sem sujeição à contradita e à rectificação através de pesquisas de investigadores e historiadores. (…) Quando comecei a descrever períodos mais recentes, nos volumes IV e V, e a aludir à acção de homens ainda felizmente vivos, deparei com reacções opostas. Uns teriam querido que eu simplesmente omitisse qualquer referência: sentem horror em que se documente que trabalharam ou exerceram funções de grande relevo com Salazar. Outros teriam desejado que lhes fizesse alusão, e extensa, mas somente para sugerir que já naquela altura se opunham a Salazar, e que até foram vítimas deste, mesmo quando a documentação demonstra quanto eram seus devotados colaboradores…» (in «Duas Palavras Finais»).





Nesta linha, prossegue ainda Franco Nogueira: «Iniciada antes do que se designa por revolução de 25 de Abril de 1974, apenas agora, ao cabo de mais de onze anos, me foi possível concluir esta biografia. Para os hábitos portugueses, é trabalho que tem de ser considerado excepcional, e a obra tem de ser havida por inusitada, embora em muitos países seja curial que a história da vida e do tempo dos seus homens importantes ocupe muitos volumes, às vezes distribuídos por vários autores. Digo trabalho excepcional, evidentemente, apenas no sentido da sua extensão, minúcia, documentação, e até tenacidade no esforço. Durante aqueles anos, muitas foram as vicissitudes a enfrentar. Por um longo período, julguei mesmo inviável prosseguir e terminar o trabalho. Primeiro, pela razão óbvia de, sem acusação, sem interrogatório, sem julgamento, estar preso meses e meses, sem saber se o estaria por anos; e depois porque não cessavam em Portugal as perseguições contra mim, os insultos, as ameaças. Sendo de prever um assalto ao andar onde moro em Lisboa, fiz dispersar toda a documentação, por residências de amigos. Mas o facto foi misteriosamente sabido por misteriosos e solícitos vigilantes. E aqueles amigos começaram-se a sentir também em risco; alguns foram também vítimas de ameaças pouco veladas; houve outros que, tendo escondido malas com documentos em jazigo de família, nem aí os consideraram salvos; e como resultado de todo esse admirável clima de liberdade, de segurança, de respeito pela cultura e pela história, esses amigos sentiram-se forçados a devolver para minha casa toda a documentação, lamentando não poder mais guardá-la. Entretanto, eu estava já exilado em Inglaterra. Então minha mulher, que se conservava em Lisboa, tomou uma decisão, e fê-lo sem mesmo me avisar, porque a correspondência para mim era aberta e as ligações telefónicas de minha casa estavam sob escuta: reúne toda a documentação, os meus apontamentos, os manuscritos, e quase uma biblioteca, em pastas e malas; e, com o auxílio de parentes, atravessa a fronteira numa madrugada, pondo a coberto de atentados todo o material que de outra forma estaria destinado a perda quase certa. Assim foi viável continuar e completar em país estrangeiro o meu trabalho» (in «Duas Palavras Finais»).

De facto, é sempre útil contarmos com informação e documentação de inestimável valor para a posteridade, até porque a «realidade», de um modo geral, parece ir ao encontro do que já Luís Furtado afirmara algures: «…não pensamos o mundo e a realidade… somos pensados!» (8).


Notas:

(6) Sobre o terrorismo em Angola, escreve Oliveira Salazar: «Trata-se de um fio de água, nascido além-fronteiras, protegido até elas, que se infiltra através das ínvias picadas das florestas para reaparecer no interior do nosso território. Por mais estranho que pareça, esse pequeno fio que nasce no Congo, em Conakry ou em Accra, ou ainda mais longe, poderia no entanto ser estancado e enxuto nalgumas grandes capitais como Washington ou Londres. Mas a política não é aí compreendida da mesma forma» (in «Defesa de Angola – Defesa da Europa», SNI, 1962, p. 4). Ora, por um lado, tal se devia aos «contactos secretos entre a Administração Kennedy e a UPA» (cf. José Freire Antunes, Kennedy e Salazar, Difusão Cultural, 1991, p. 237) e, por outro, a «um entendimento ou acordo político entre o encarregado de negócios americano em Léopoldville [antiga Kinshasa] e o chefe do movimento terrorista, Holden Roberto (…), discriminando subsídios financeiros [de início 6000 dólares acrescidos de mais 10.000 por ano de 1961 a 1969 – in José Freire Antunes, ob. cit., p. 238] e fornecimento de armas» (in Franco Nogueira, Salazar, Vol. V, pp. 271- 272). Isto para já não falar das actividades dos missionários em Angola (Metodistas e Baptistas) para fins de cover up (ou fins subversivos, na expressão de Adriano Moreira) levados a cabo por operacionais da CIA em África (in José Freire Antunes, ob. cit., pp. 171-173).

Adriano Moreira e Kaúlza de Arriaga


Demais, também se sabe como o terrorismo, ateando fogo em Angola e na Guiné, tentou fazê-lo em Moçambique. Mas não pôde – conta-nos Franco Nogueira – ir muito além em intensidade comparável, «porque nos encontraram preparados e atentos» (in Salazar, Vol. VI, p. 7). Aliás, sabia-se perfeitamente que o alegado chefe canalizado para a "libertação" de Moçambique era «um professor de uma universidade norte-americana» (ob. cit., Vol. V, p. 507), o que não constituía uma simples coincidência.

Trata-se, como é óbvio, de Eduardo Mondlane, que chegara mesmo a visitar Moçambique enquanto funcionário da ONU. E nisto, chegou-se até ao ponto de, nas Nações Unidas, bem como em Adis Abeba (1963), acusar Portugal de genocídio em Angola, havendo até quem atribuísse aos responsáveis portugueses «uma estranha incompreensão sobre o valor de um genocídio ou uma impossível ignorância do que realmente se passava na colónia» (cf. «A Saga Solitária de Franco Nogueira na ONU», in Os Anos de Salazar, Centro Editor PDA, 2008, 25, p. 77). Contudo, a ignorância e a má-fé são tristes requisitos de quem escreve ao sabor da história dos vencedores, e segundo a qual os actos terroristas praticados na África portuguesa (uma “inacreditável selvajaria”, segundo a expressão apropriada de Vasco Garin nas Nações Unidas) não passavam – imagine-se – de uma versão menor nas comunicações oficiais do Governo português da época.

Correndo o ano de 1965, veio ainda à baila o plano do embaixador Anderson para o desmantelamento programado do Ultramar português. É claro que o Departamento de Estado norte-americano se descomprometera a dar garantias políticas no que respeita ao cessar imediato do terrorismo na África portuguesa. Porém, o curioso é que George Anderson, após visita aos territórios portugueses em África (Fevereiro e Março de 1964), tivesse chegado à conclusão de que «a alternativa a uma continuação da presença portuguesa em Angola e Moçambique num futuro imediato» era «o retorno ao tribalismo e o desenvolvimento do caos interno» (cf. «O Plano Anderson de Descolonização», in Os Anos de Salazar, 21, p. 53).



15 de Março de 1961: Massacres pela UPA de Holden Roberto, no Norte de Angola, com a conivência dos EUA.




Além disso, o embaixador americano não só pudera constatar como a maioria dos países-membros das Nações Unidas se abstivera de condenar a venda de armas aos «nacionalistas», como ainda «criticara» a política dos Estados Unidos em relação a Portugal, nomeadamente quanto ao «reconhecimento» da UPA e do seu líder Holden Roberto, que nem sequer tinha «uma base legítima para falar pelo povo de Angola», posto ser apenas «o líder tribal do povo bacongo». E mais dizendo, referia também a existência de «armas, muitas fabricadas por comunistas e fornecidas por outros africanos [do Ghana e da Guiné-Conakry – cf. José Freire Antunes, ob. cit., p. 250] e, possivelmente de forma directa, por certos estados comunistas, incluindo a União Soviética, a Checoslováquia, a China Vermelha e a Jugoslávia». Em suma: tudo isso não somente confirmava a orientação intuitiva de Salazar perante uma «África em fogo», mas também o relatório elaborado pelo segundo secretário da embaixada em Lisboa, Everett Briggs, que sugeria uma mudança da política norte-americana por ser altamente lesiva para Portugal na qualidade de potência aliada, e, como tal, não menos lesiva para os interesses americanos na região.

(7) Esta instrumentalização torna-se perfeitamente visível na organização internacional do ensino, bastando ver como, entre nós, se processa a passiva e obediente subordinação do sistema escolar e universitário às directrizes programáticas de organizações internacionais, como é o caso da UNESCO e da OCDE. Referi-mo-nos, pois, a um processo que, por via do veiga-simonismo - em pleno governo marcelista -, levou a que os portugueses ficassem, técnica e financeiramente, dependentes de modelos de ensino copiados e importados do estrangeiro. Deste modo, advogando a «democratização do ensino», Veiga Simão foi não só o agente encarregue do igualitarismo socialista no plano universitário – para cujo efeito copiava os modelos universitários da Alemanha, da América, da Inglaterra e dos países socialistas –, como ainda, a par da contratação de professores estrangeiros, no plano do ensino médio e primário.

De facto, o veiga-simonismo encontra-se hoje praticamente induzido nas nossas escolas, ainda que a maioria do professorado o ignore. Por outras palavras, o veiga-simonismo continua presente por via de uma máquina burocrática que vai substituindo os professores por agentes de ensino que devem proceder todos da mesma maneira, dar os mesmos programas e utilizar os mesmos textos num sentido que compromete e apaga a personalidade única e singular dos seres individuados. Deste modo, o socialismo veiga-simonista é, entre nós, um dado incontornável, ora comprovado no facto de Veiga Simão ter aparecido «no dia 26 de Abril de 1974 a querer inculcar-se como um dos próceres da revolução e a pretender figurar no primeiro governo provisório», ora no facto de também ter aceite «o lugar, eminentemente político, de embaixador de Portugal nas Nações Unidas» (cf. «Resposta do prof. Marcello Caetano à carta do Prof. Veiga Simão», in Marcello Caetano, o 25 de Abril e o Ultramar/Três Entrevistas e alguns Documentos, Verbo, p. 97). Enfim, um verdadeiro camaleão à luz dos estudos zoológicos de António Quadros (cf. A Arte de Continuar Português, Edições do Templo, 1978, pp. 139-140).





(8) Aliás, o trecho que se segue fala igualmente por si no que toca à formação das mentalidades: «Dizia-se em Portugal que a diferença de atitude do público perante os discursos do Doutor Salazar e os seus [de Marcello Caetano] é que as pessoas não entendiam o Doutor Salazar, mas sabiam perfeitamente o que ele queria, ao passo que, a si, entendiam muito bem o que dizia, mas não percebiam o que queria…» (in «primeira entrevista», publicada em 25 de Junho de 1976 no jornal do Rio de Janeiro O Mundo Português, in ob. cit., p. 14).

Continua


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Juízo Final (ii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte



Não há dúvida de que Franco Nogueira, pela larga e exaustiva documentação, bem como pela exposição serena, correcta e objectiva, legou à posteridade um testemunho nada despiciendo sobre um passado ainda recente, e cabalmente adulterado, quando não omitido, pela planificação cultural de expressão política e universitária. Não há, pois, sobre o passado em questão, uma obra tão objectiva na correcção de opiniões e juízos como os que revoam, sem prévia e cuidada reflexão, em artigos de jornais, revistas, teses universitárias e documentários televisivos. Enfim, tudo se dispõe de modo a que não seja possível um tratamento sistemático e objectivo numa sociedade em que os novos senhores do poder detêm - como nunca detiveram os seus antecessores -, o controlo ditatorial da economia, da informação e do ensino adulterado por via de um marxismo larvar.

É claro que alguns dos aspectos que ora estamos vivendo são, de certo modo, a projecção dos erros e das contradições do regime anterior, bastando mencionar o que directamente se reporta à Universidade, já então predisposta ao entendimento com os intelectuais de doutrinação marxista que, de resto, também ocupavam cargos universitários. Porém, há ainda casos que põem de sobreaviso os novos senhores do poder logo que paire a denúncia sobre o modo como se pôs fim à soberania histórica e política de Portugal. Ora, nesse processo, ressalta o testemunho de Franco Nogueira sobre factos tão indesmentíveis tais como:

a) Portugal, com os seus altos e baixos, permaneceu até à revolução comunista de 1974 uma comunidade patrimonial, histórica e espiritual à luz do sentimento nacional;

b) Portugal, até à referida revolução, prosseguia a sua missão histórica no sentido de abrigar e civilizar as populações mais diversas num processo compatível com os diversos graus de autonomia administrativa e financeira que as novas e ditas independências africanas fizeram recuar em nome da luta nacionalista e revolucionária (3);

c) o multirracialismo de expressão lusa não era, de modo algum, compatível com racismo negro que as supostas independências africanas procuraram implantar (4);

d) o incêndio ateado na África, designadamente na África Portuguesa, obedecera à estratégia leninista projectada em três fases: anticolonialismo, nacionalismo, comunismo (5);






Notas:

(3) Sobre a natureza compósita da nação euro-africana e euro-asiática, atente-se na seguinte passagem de Oliveira Salazar: «A Estrutura constitucional não tem aliás nada que ver (…) com as mais profundas reformas administrativas, no sentido de maiores autonomias ou descentralizações, nem com a organização e competência dos poderes locais, nem com a maior ou menor interferência dos indivíduos na constituição e funcionamento dos orgãos da Administração, nem com a participação de uns ou de outros na formação dos orgãos de soberania, nem com as alterações profundas que tencionamos introduzir no regime do indigenato. Só tem que ver com a natureza e a solidez dos laços que fazem das várias parcelas o Todo nacional» (in Oliveira Salazar, «O Ultramar Português e a ONU», SNI, 1961, pp. 20-21).

(4) Neste ponto, vejamos: «Os novos Estados africanos discriminam contra o branco, e isso podem fazer nos territórios em que a obra colonizadora obedeceu a moldes diferentes e o branco, se trabalhava para viver, não estava instalado para ficar. Ora nós estamos precisamente no limite do racismo negro que vem estendendo-se até ao Zaire e que pelo Tanganica e pela Niassalândia atinge o Norte e Noroeste de Moçambique. Esse racismo negro tem-se revelado de tal modo violento e exclusivista que as sociedades mistas existentes ao sul se lhe não podem confiar. Pode-se, matando ou expulsando o branco, eliminar o problema, mas este não o pode resolver o racismo, se o branco, porque tem ao menos os mesmos títulos e goza de pelo menos igual legitimidade, pretende ficar naquela terra que é também sua» (in Oliveira Salazar, «O Ultramar Português e a ONU», p. 19). Logo: «A questão é de facto muito mais intrincada quando os territórios são povoados por brancos e por negros, sobretudo se o branco ocupou territórios livres, desbravou as terras, estabeleceu as explorações agrícolas ou industriais, financiou os empreendimentos, organizou a administração, manteve a ordem e a paz. A descoberta, a conquista, o trabalho incorporado no solo, a sucessão das gerações são títulos de legitimidade, contra os quais a frase explosiva corrente – a África é dos africanos – pretende nada menos que refazer a história, sem dispor de força para dar solução ao problema. Esses territórios encontram-se premidos entre o valor da qualidade que é a administração, a direcção do trabalho, a posse dos meios económicos, e o peso do número, por si só insuficiente para assegurar o progresso geral. Pretende-se democraticamente resolver o problema, conferindo ao maior número a direcção total da comunidade. Devemos ter a coragem de afirmar que estes casos não têm solução possível – digo solução pacífica, equitativa, progressiva – dentro das ideias correntes; não têm solução nenhuma no quadro do racismo negro nem do racismo branco. O único caminho seria enveredar no sentido de sociedades pluri-raciais em que as raças se misturassem ou convivessem, vindo a pertencer a direcção e o mando aos mais hábeis e melhores; mas este processo nem sempre é espontâneo e não pode em qualquer caso dispensar a tutela e guia da soberania tradicional» (in Oliveira Salazar, «Portugal e a Campanha Anticolonialista», SNI, 1961, pp. 5-6).

(5) «Qualquer pessoa de boa fé pode verificar existirem paz e inteira tranquilidade nos nossos territórios ultramarinos, sem emprego da força e apenas pelo hábito da convivência pacífica. Mas fora delas, no Congo, na Guiné, no Ghana e nalguns outros, não falando já dos países comunistas ou sob a sua direcção, sabemos que se organizam comités, ligas, partidos contra a unidade portuguesa, ao mesmo tempo que emissões radiofónicas de vários lados e servindo-lhes de apoio, tentam perturbar o viver da nossa gente. Estes agitadores dispõem, ao que parece, de fundos importantes e de protecções especiais, e com uns e outras se publicam ainda manifestos e pequenos jornais para exploração da credulidade pública. A gente é pouca mas desdobra-se, para parecer muita, mudando de nome; em todo o caso apresenta-se mesmo em capitais qualificadas e consegue meter pé em imprensa de categoria mundial e considerada responsável. Este ponto é digno de atenção, tanto mais quanto a essa grande imprensa lhe era fácil mandar informar-se localmente da verdade dos factos.


As coisas mudaram muito e mudaram muito em pouco tempo. Havia dantes certo número de regras que pautavam a conduta dos Estados e de certo modo condicionavam a sua admissão na Comunidade internacional. Era admissível asilar políticos em desgraça, mas não se admitia organizar bandos de guerrilheiros, para intervir em território alheio, alimentar programas de difamação, financiar a sublevação de populações pacíficas, fornecer armamento, preparar cientificamente revolucionários. Pois tudo se faz hoje e se apregoa com a altiva segurança de estar servindo grandes causas, ao mesmo tempo que se tem como norma sagrada a boa vizinhança e a não intervenção nos negócios internos dos Estados. Está a abusar-se da hipocrisia e do cinismo; com eles desaparece na sociedade internacional o mínimo de confiança e de respeito mútuo, indispensável à vida. Mas é esta vida que vamos viver alguns anos» (in Oliveira Salazar, «Portugal e a Campanha Anticolonialista», pp. 17-18).

Continua


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Juízo Final (i)

Escrito por Miguel Bruno Duarte









Introdução

Os trechos doravante apresentados encontram-se coligidos na obra Juízo Final, de Alberto Franco Nogueira. Consistem, pois, em excertos resumidos de várias entrevistas feitas ao autor no exílio, o qual, tendo sido um notável diplomata no consulado de Oliveira Salazar, foi também um dos poucos portugueses a poder formar uma perspectiva tão consciente quão fidedigna da problemática jurídico-política que Portugal enfrentara entre a crise da Índia e a revolução comunista de 1974. São, por conseguinte, trechos marcantes quer para a compreensão da campanha das Nações Unidas contra a política ultramarina portuguesa, quer para um mais claro entendimento da alta maré socialista que marcou e continua marcando a actualidade política, económica e cultural dos Portugueses.

De facto, a visão de Franco Nogueira sobre Portugal e o mundo remontava, de acordo com Jaime Nogueira Pinto, ao nacionalismo romântico e mítico do século XIX («O que fica e o que muda», in Juízo Final, Livraria Civilização Editora, 2000). Daí a sua percepção do primado do Estado Nacional português sobre a Realpolitik, percepção, aliás, tanto menos atendida quanto maior tem sido o silêncio ao redor da ofensiva mundialista contra o carácter multirracial e pluri-continental da Nação Portuguesa.

De resto, espreitemos agora pela janela que Franco Nogueira nos proporciona:

«Entretanto, em Nova Iorque, na segunda quinzena de Julho de 1963 efectua-se a reunião do Conselho de Segurança, imposta pela Organização da Unidade Africana. Esta escolhe quatro países para a representar: Tunísia, Libéria, Serra Leoa, Madagáscar. Por sua vez, os governos destes quatro estados fazem-se representar nos debates em Conselho pelos seus ministros dos Estrangeiros; e Portugal também. Pelos afro-asiáticos, é criada, em torno da sessão do Conselho, uma atmosfera de expectativa, de gravidade, de nervosismo, de drama: afluem jornalistas e operadores de cinema africanos e do bloco comunista, transborda a sala do Conselho de delegações afro-asiáticas e latino-americanas, e estão repletas as galerias do público: e todos se diriam preparados para assistir a um acontecimento que marque o desabar de uma época. Pelo secretariado da ONU, foram poderosamente reforçadas as medidas de segurança, e os seus guardas privativos patrulham os corredores. Oferece o Conselho o espectáculo dos dias memoráveis (1). Abrem os debates com violência maior que a do uso. Cabe a presidência, por rotação, ao delegado marroquino, e o delegado do Ghana dirige-se-lhe, marcando o tom moral e político em que os africanos querem manter a reunião: "V. Ex.ª está a presidir à liquidação do Império Português. A África espera que cumpra o seu dever". Depois, durante uma semana, são trocados entre os ministros africanos e o de Portugal os mais ásperos argumentos. Para os delegados de África, a política portuguesa é de agressão, de genocídio, de afronta à Carta da ONU, de ameaça à paz do mundo, e constitui já um estado de agressão e de guerra. Portugal tem de conceder de pronto a independência aos seus territórios ultramarinos. Replica com extrema aspereza de linguagem o delegado português: não existem as condições que se alegam; todos os factos citados são falsos; tudo quanto se tem passado é preparado, instigado, sustentado e apoiado de fora; é absurdo falar de ameaça à paz do mundo, ou de um estado de guerra; e quem viola a Carta são os países africanos. De um lado e outro, são lançados ao debate todos os pormenores: como foi bombardeada uma aldeia senegalesa; como data de 1613 a designação de províncias ultramarinas dada aos territórios portugueses; quem vota nas eleições portuguesas; quantos representantes tem o Ultramar nos orgãos centrais de administração e de governo. Em final de debate, e como acto espectacular de política, Portugal convida os quatro ministros dos Estrangeiros africanos para visitarem imediatamente Angola e Moçambique, com liberdade total de movimentos. De permeio, intervêm também membros efectivos do Conselho. Por parte da União Soviética, os ataques incidem na NATO e no Mercado Comum; a França, a Inglaterra, os Estados Unidos pronunciam-se em favor da autodeterminação, mas contra quaisquer medidas radicais ou precipitadas. É particularmente favorável o delegado francês: declara que Portugal não constitui ameaça à paz. Condenam a política portuguesa os demais membros do Conselho: é arrogante a Noruega, que dá conselhos e promete subsídios se Portugal abandonar África; é branda a Venezuela; é corajosa a China, que aplaude a política multirracial portuguesa; são agressivas as Filipinas, que acusam de racismo a política portuguesa; é de extrema violência o Ghana, que usa palavras de guerra; e o Brasil pratica uma demagogia fácil contra Portugal. Mas através de tudo sabe-se que em causa está um ponto, e um ponto só: vota o Conselho sanções contra Portugal ou não? Neste particular, os três membros ocidentais – Estados Unidos, França e Inglaterra – são categóricos e não ocultam que oporiam o seu veto a qualquer resolução que tentasse aplicar a Portugal sanções políticas, económicas, ou outras. Está assim bem marcado o limite da política consentida aos afro-asiáticos. E em 31 de Julho de 1963 é posto à votação um projecto de resolução apresentado pelo Ghana: confirma resoluções anteriores contra Portugal; deplora a atitude do governo de Lisboa; verifica que a situação nos territórios portugueses constitui ameaça à paz e à segurança em África; convida Portugal a reconhecer o direito à independência, a retirar as forças militares, a promulgar uma amnistia política e permitir em África o funcionamento de partidos políticos, a empreender negociações com os representantes desses partidos tanto no interior como no exterior, e a conceder imediatamente a independência; e pede a todos os Estados membros da ONU que cessem qualquer ajuda ao governo português, designadamente de natureza militar. Estados Unidos, Inglaterra e França abstêm-se na votação, e os demais países votam afirmativamente: o texto transforma-se em resolução do Conselho de Segurança (2). Declara o delegado português: "Pura e simplesmente, rejeito esta resolução: é um texto moralmente errado: e o que está moralmente errado não pode estar politicamente certo"» (in Salazar, Livraria Civilização Editora, 1984, Vol. V, pp. 501-503).






Notas: 

(1) São nesta altura membros do Conselho, além dos cinco permanentes (Estados Unidos, França, Inglaterra, China e Rússia), os seguintes países: Marrocos, Ghana, Filipinas, Venezuela, Noruega e Brasil. A Organização da Unidade Africana também solicitara, para data ulterior, uma reunião do Conselho contra a África do Sul, por causa da política de apartheid. O governo sul-africano declinou participar. O facto de o governo de Lisboa se ter antecipado a aceitar a participação nos debates causou boa impressão nos africanos moderados e desarmou os extremistas. Tunísia, Libéria, Serra Leoa, Madagáscar e Portugal, não sendo membros do Conselho, participavam como convidados. Tinham liberdade absoluta de debate e intervenção, mas sem direito a voto, como é óbvio.







(2) Esta resolução recebeu o n.º S/5380.

Continua


sábado, 6 de fevereiro de 2010

A força dos políticos... e o desprezo dos povos (ii)

Escrito por Orlando Vitorino



Este carácter socializante e, por fim, declaradamente socialista do salazarismo veio-se acentuando à medida que as forças do capitalismo se tornavam dominantes. Todos nós sabemos (ver «Escola Formal», n.º 3) como o capitalismo, através dos monopólios resultantes do domínio que exerce sobre o aparelho de Estado, prepara com o controle da produção e o planeamento da economia, o advento e a proclamação do socialismo. Quando se dá, por fim, o golpe do 25 de Abril, o país estava, em todos os sectores, entregue às estruturas socialistas. De tal modo que, para se proclamar socialista, o «novo» regime político nada, praticamente, estruturalmente, precisou de substituir ou sequer alterar. Apenas num ou noutro sector teve de gravar a legislação já existente: no da disciplina ou relações de trabalho, em que agravou as sanções sobre os trabalhadores; no controlo da expressão, em que está substituindo a abominável censura exercida por uma comissão oficial pelos condicionalismos de taxas alfandegárias, aquisição de papel, etc., que conduzem à mais abominável censura universal; no da organização do ensino, em que declara que toda a aprendizagem se deve subordinar à utilidade económica, anula o direito de ensinar condicionando de modo impeditivo o ensino «particular» ou livre, e aperta nos mais estreitos critérios - «numerus clausus», etc. - a selecção escolar.

O semanário «A Rua», que durante dois anos foi o valente e fiel defensor das «soluções» salazaristas, acabou por reconhecer, num dos seus últimos números, que o socialismo hoje instituído entre nós é, afinal, consequência e obra do salazarismo.

É, pois, este desenvolvimento - que a muitos, politicamente desprevenidos ou desarmados, se afigurará estranho - que o livro de Franco Nogueira não explica, embora contenha elementos para o fazer. Fundamentalmente:

- Como explicar que o salazarismo tenha sido inicialmente, no domínio das «finanças», um liberalismo contra o qual, conforme diz F. Nogueira, «a alta roda económica e financeira dos conservadores redobrava as discordâncias, os ataques, as queixas» (p. 36) ou do qual «a alta roda económica e financeira... hesitava em aplaudir um estado de coisas que vinha cercear os seus privilégios, contrariar os seus hábitos, retirar-lhe posições» (p. 50)?

- Como explicar que, restauradas liberalisticamente as finanças, o salazarismo passe a ceder à «alta roda económica e financeira» até se deixar dominar inteiramente por ela (F. Nogueira sabe como, a partir de certa data, os próprios ministros eram designados ou destituídos pela «alta roda») e fazer do aparelho do Estado um instrumento da monopolização e da planificação da economia?

-Como explicar que, simultaneamente com essa «capitalização» do país, se tenha procedido à sua integral «socialização»?

Por não haver, no minucioso livro de Franco Nogueira, traço algum ou vestígio de tal facto, do seguinte vamos dar aqui notícia.

Charles de Gaulle


Quando, em 1958 ou 1959 (citamos de lembrança), foi feito Presidente da República Francesa, o General Charles de Gaulle nomeou uma Comissão, presidida por Jacques Rueff, com todos os poderes para «restaurar as finanças». Jacques Rueff era, e é, um famoso economista de uma corrente muito contrária ao socialismo, corrente que, na época, ainda não tinha reconquistado a confiança que em nossos dias está reconquistando uma vez que se encontrava submersa pela onda do socialismo que, a partir de 1930 e, sobretudo, nos anos seguintes à guerra mundial, ocupava toda as posições de comando na Europa. Jacques Rueff foi, na altura, entrevistado pelo semanário «L'Express» que não era, então, lido em Portugal como é hoje e alinhava num «esquerdismo» que parece agora estar a abandonar. A entrevista foi naturalmente conduzida com patente hostilidade para com o entrevistado. Quando ele expôs as directrizes, de carácter liberalista, que se propunha seguir, os jornalistas manifestaram-lhe a estranheza de ele adoptar tais directrizes num mundo tão confiantemente entregue ao socialismo e perguntaram-lhe que mínimas garantias concretas e práticas ele poderia apresentar para a defesa do liberalismo que preconizava. Respondeu-lhes Jacques Rueff que ele próprio fizera a experiência em Portugal; que, em 1828, o Dr. Oliveira Salazar, ao assumir o Ministério das Finanças, lhe solicitara o que De Gaulle lhe solicitava, a restauração das finanças do seu país, o que ele fizera com os resultados conhecidos. Acrescentou ainda que todos os anos vinha a Portugal observar a evolução da sua obra e a acertar aquilo que naturalmente as circunstâncias obrigavam a acertar.

É deste facto, sem dúvida revelador, que o livro de Franco Nogueira não dá mínimo sinal. Devemos também dizer que, na época, dele se deu conhecimento, e até a Teutónio Pereira que era Ministro da Presidência, mas sem que disso se conheçam quaisquer consequências.

Longe de nós qualquer intuito de, com a lembrança da entrevista de Jacques Rueff, tirarmos a Salazar a sua glória ou, pelo menos, o mérito principal da sua acção de governante, a façanha que está na origem da autoridade que conquistou. Ele próprio - diz-nos Franco Nogueira - reconhecia que a restauração das finanças podia ser considerada a tarefa de um técnico, não de um político. E podemos admitir que, assim como Salazar recorreu a um economista estrangeiro, assim os actuais, sucessivos governantes socialistas que temos hoje recorram, para o mesmo fim, a técnicos estrangeiros fornecidos pelas «internacionais» a que pertencem. Há sinais disso. O que ficamos é a perguntarmo-nos: que coisa são, então, os políticos? Que coisa fazem eles da política? Que ciência é a sua? Que valor é o seu? Como justificam o exercício do poder? Que faz deles os senhores do nosso destino? (in ob. cit.).



Oliveira Salazar


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A força dos políticos... e o desprezo dos povos (i)

Escrito por Orlando Vitorino







Há quem diga que o prestígio dos políticos é coisa que só se mantém pela força: ou pela força manifesta, violenta e policial, ou pela força que emana, discreta, da simples existência do poder que os políticos exercem.

Há quem diga que numa sociedade livre e tranquila - que os políticos serão os primeiros a não querer que exista - a carreira política não poderá deixar de ser uma carreira desprezada. Ainda não há muitos decénios, era isso que acontecia em alguns países. De que acontecia nos EUA, dá-nos notícia Galbraith no livro «A Sociedade da Abundância». De que acontecia nas fulgurantes e remotas origens da nossa civilização, dá-nos notícia «O Político» de Platão. De que sempre acontece inevitavelmente, dá-nos notícia «O Príncipe», de Maquiavel.

Quando a força emanada do poder cessa ou se interrompe, o prestígio dos políticos que a utilizam esvai-se, e à imagem do herói, do santo e do sábio, substitui-se a imagem do medíocre, do oportunista e, até, do déspota e do monstro. Logo, porém, o novo político que ocupou o poder (jamais vazio), revela não ser diferente daquele que o antecedeu, e logo se tece uma teia de comparações em que muito jogam os interesses criados a perdidos e em geral leva a uma revalorização temporária do político substituído no poder.

Será a tal fenómeno que estamos assistindo hoje em Portugal com a imagem de Salazar. Indiscutível durante todo o seu longo consulado, logo que ele terminou se viu a sua imagem de herói, de sábio e de santo minada e desfeita pelo que primeiro lhe sucedeu e, dado o golpe de Abril, substituída pela imagem de um déspota e um monstro. Mas em três breves anos, os novos senhores do poder perderam toda a credibilidade ao deixarem cair sobre os portugueses o cortejo de impostos, imposições, prisões, torturas, sevícias, pobreza, sacrifícios, exigências de mais sacrifícios, promessas de mais pobreza, o cortejo apocalíptico de que acusavam e denegriam o seu percusor. E a imagem criada e difundida do déspota e do monstro começou a diluir-se, depois de refluir ao esvaído prestígio e anda neste momento envolta da auréola melancólica dos bons tempos perdidos.

É neste ambiente que adquirem maior relevo e maior importância os testemunhos que revalorizam o homem de cujo negro destino seus sucessores fizeram a base e a justificação do poder que lhes caiu nas mãos. Entre tais testemunhas, distingue-se pela larga documentação, correcção de opiniões e juízos, serenidade e seriedade de exposição, o livro de Franco Nogueira, «Salazar», de cujos anunciados quatro volumes já foram publicados dois. Limitado o primeiro à biografia pessoal e privada, só vamos aqui considerar o segundo que se ocupa da acção do político desde que, em 1928, «restaurou as finanças» até ao início da guerra civil espanhola.

Guernica (Pablo Picasso).


Não temos por Salazar a admiração que por ele têm os mais sinceros salazaristas e os mais directos anti-salazaristas, mas não embarcamos na imagem de propaganda que dele difundiram os seus actuais sucessores nos poderes do Estado. Pensamos, objectivamente, correctamente, que foi o melhor político português deste século, mas o que pensamos dos políticos não se afasta muito daquilo que nos ensinaram a pensar, conforme citamos, Platão e Maquiavel.

Do livro de Franco Nogueira, o mais significativo, e do qual depende tudo o que de Salazar se julgue, é o seguinte:

No que, em primeiro lugar, consistiu a obra de Salazar foi na «restauração das finanças»; para além disto, a sua acção governativa e política é feita de tão grande perplexidade de pensamento como de dura decisão pragmática. Isto, que sabíamos, vem Franco Nogueira confirmar. Restauradas as finanças, a acção de Salazar tem de passar ao campo da economia - criação de riqueza, desenvolvimento da produção, investimento público e privado, etc - e aí, dí-lo expressamente Franco Nogueira, não fez mais do que seguir e executar o que Ezequiel de Campos preconizara. Teve de passar, depois, às instituições do Estado, mas essas dependem já imediatamente do pensamento político que se tenha, e Salazar não só nada tem de original como se exprime e actua sem uma convicção capaz de resistir aos imperativos do mais imediato pragmatismo. Franco Nogueira resume o pensamento político de Salazar nos seguintes termos: «era uma síntese da democracia cristã de Leão XIII, das doutrinas económicas de Le Play, do princípio da vitória pela vontade de Gustave Le Bon, do historicismo de Maurras».






Essencialmente, tratava-se, pois, de uma ausência de pensamento político, tratava-se de um puro pragmatismo embora orientado, sem dúvida, por um hábil e admirável talento pessoal. E é essa ausência de pensamento político que deverá explicar todo o destino e todo o aparentemente contraditório desenvolvimento da salazarismo: desde o liberalismo inicial a que recorreu para «restaurar as finanças» até ao socialismo a que veio gradualmente cedendo, guiado pela exigência de autoridade necessária a todo o pragmatismo, e que veio gradualmente instituindo através do corporativismo de Estado, da organização da segurança ou previdência social, da institucionalização dos contratos colectivos de trabalho, da conservação de censura estabelecida pelos militares, da minoração do valor do ensino (tendo sobraçado todas as pastas ministeriais, desde a das Finanças até à Defesa, Salazar nunca quis ser Ministro da Educação, o que é tanto mais estranho num ditador que queria dar de si a imagem do professor e sábio) e sua sujeição à utilidade administrativa e económica... (in Escola Formal, n.º 4, Out./Nov. 1977).

Continua


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A Arte de Continuar Português (iv)

Escrito por António Quadros








Nesse dia [25 de Abril] do ano de 1974, um golpe de Estado militar alterava pois drasticamente o rumo histórico nacional, tomando o poder com o duplo objectivo expresso (Programa do MFA) de restaurar a democracia e de promover a auto-determinação do Ultramar português.

Mas em 28 de Setembro do mesmo ano, com a resignação de Spínola e com a ascensão do sector revolucionário e marxista do Movimento das Forças Armadas, principiava a desfiguração daquele Programa inicial e começava a eliminação pessoal dos partidários da auto-determinação referendada e da democracia pluralista, lançando-se ao mesmo tempo uma operação de lavagem ao cérebro do povo português ou de agressão ideológica maciça, de proporções entre nós nunca vistas.

Em 11 de Março do ano seguinte, no seguimento de uma estratégia já experimentada com êxitos noutros lugares, como a Checoslováquia e a Hungria, o mesmo grupo em fusão, assenhoreando-se dos postos-chaves do Governo, das Forças Armadas e dos Meios de Comunicação Social, estabelecia os fundamentos da Revolução comunista e do Estado totalitário, criando uma força policial-militar de repressão, o Copcon, encerrando os Partidos e os jornais sumariamente classificados de reaccionários e fascistas, efectuando prisões em massa sem culpa formada, realizando vertiginosamente a nacionalização de toda a Banca e das principais empresas e unidades industriais, precipitando ocupações de terras no Alentejo, criando unidades colectivas no modelo dos Kolkozes russos, organizando por todo o lado sovietes ou comissões de trabalhadores, de moradores, de soldados, de marinheiros, etc., ao mesmo tempo que lançava uma ofensiva de grande estilo contra a democracia «burguesa», aconselhava ostensivamente o voto em branco nas prometidas eleições para a Assembleia Constituinte e mais tarde deixava que os deputados fossem sequestrados dentro da própria Assembleia, por uma multidão manipulada e bem enquadrada.

Tudo isto foi possível devido à erosão do regime anterior, como já sublinhei, nomeadamente devido à despolitização, à impreparação e à inocência intelectual da maioria dos portugueses, ao que é preciso acrescentar os complexos de culpa, o oportunismo e o medo de muitos dirigentes políticos e militares que, não sendo comunistas, fizeram contudo o jogo comunista, tornando-se assim cumplíces conscientes ou inconscientes de uma tentativa totalitária que ia destruindo completamente o país e cujos efeitos foram de qualquer modo catastróficos. Efectivamente, numerosos foram os socialistas liberais, os sociais-democratas, os tecnocratas, os funcionários públicos, os cristãos-progressistas e os oficiais da Forças Armadas ontem conservadores, liberais ou patriotas, que aceitaram de braços cruzados ou até sancionaram uma política de terra queimada destinada patentemente à colectivização do país, à instauração de uma ditadura do proletariado e a uma descolonização sem referendo, sem garantia dos interesses portugueses e sem quaisquer concessões aos nossos colonos e assimilados, esses que mais tarde foram compelidos a fugir em massa das terras que desbravaram, das plantações que semearam e das cidades que edificaram, num dos êxodos mais pungentes e aviltantes da história contemporânea (ob. cit., pp. 30-32).


(...) de um 25 de Abril sem consenso geral


Fui dos que saudaram no 25 de Abril a devolução do país à liberdade democrática, depois da ilusão absolutista que muitos com sinceridade julgaram salvadora; e dos que, em plena fogueira da tresloucada tentativa totalitária gonçalvista, procuraram guardar a cabeça objectiva, distinguindo o trigo do joio, isto é, a libertação real, da nova ameaça à liberdade que a queria usar. Testemunha-o inequivocamente o livro que escrevi no verão de 1975 e que só pôde ser publicado nos princípios de 1976.






Não é possível contudo esquecer que a intenção democrática do 25 de Abril de 1974 foi interrompida desde que Vasco Gonçalves substituiu Palma Carlos e depois de Costa Gomes ter tomado o lugar de Spínola, só vindo a ser retomada a 25 de Novembro de 1975 e confirmada pela tomada de posse, em 1976, do Presidente da República e do Governo Constitucional, livremente eleitos pelo povo. Fundamentais foram estas rectificações, redimindo in partibus muito do que entre nós se fez de criminosamente anti-português após o 28 de Setembro e sobretudo após o 11 de Março. Mas não se esqueça que, se homens do 25 do Abril emendaram a mão, outros homens do 25 de Abril, e em nome do 25 de Abril, fizeram uma descolonização irresponsável, levaram a guerra civil a Angola e a Timor, propiciaram a entrega de Angola, Moçambique e Guiné ao domínio dos cubanos e dos soviéticos, bloqueando deste modo o que poderia ter sido (e será, estamos certos) uma continuidade lusa em África em moldes não-colonialistas, destruíram a nossa economia, desbarataram as reservas, desacreditaram o Estado, comprometeram a vida de quase um milhão de desalojados das suas casas, dos seus meios de subsistência e das terras onde muitos deles nasceram, e acabaram por criar entre nós um clima de guerra social e permanente e de bloqueamento político-económico que continua a pesar esmagadoramente sobre as tentativas do actual Governo, do Presidente da República e dos Partidos democráticos, para restaurar a saúde do país.

Quem indicou o 25 de Abril para novo Dia de Portugal não poderia nem deveria ter-se alheado do reverso da medalha!

É que demasiados problemas arrastamos connosco e nos estão a destruir, herdados desse outro 25 de Abril, do lado falso e falsificado da moeda; é que demasiadas chagas estão ainda abertas; é que demasiados sofrimentos continuam a afligir, não poucos, mas milhões de portugueses - sofrimentos físicos, psicológicos e morais, que não seria de bom augúrio ignorar ou desprezar; é que, numa palavra, não há um consenso geral acerca do 25 de Abril, e seria isso o bastante para desaconselhar a sua escolha para a data de um ritual cívico dedicado a todos os portugueses. Estas palavras são desagradáveis e parecerão importunas. Mas digo-as de um ponto de vista não só patriótico, como também democrático. O Dia de Portugal terá de ser o dia de todos os portugueses e não só de alguns. Podia sê-lo o 10 de Junho; não o é contudo o 25 de Abril.

Quais foram na verdade, para muitos, as consequências da «Revolução dos Cravos»?

A instauração da liberdade e da justiça, o que se está em vias de obter mau grado os incidentes do percurso, dirão os seus defensores incondicionais.

Não falta no entanto quem - e até intelectuais responsáveis - considere ter sido o 25 de Abril uma data catastrófica da história portuguesa, senão aquela que veio colocar o país num lugar de parente subalterno da Ibéria ou da Europa.






Para o malogrado e insuspeito Amorim de Carvalho, por exemplo, ela trouxe o fim histórico de Portugal, título do seu livro póstumo, recentemente publicado; o mesmo parece pensar Jaime Nogueira Pinto, no seu «Portugal, os anos do fim», ao escrever que «a grandeza parece ter-se perdido de vez, neste suicídio colectivo que hoje começamos a compreender»; pensa por seu turno Orlando Vitorino, embora por razões diferentes, na sua «Refutação da Filosofia Triunfante», que «o povo onde tudo isto aconteceu pode dar-se, com o que aconteceu, por dissolvido em sua existência histórica».

Quanto aos iberistas, a principiar por Oliveira Marques, que o vem repetindo insistentemente, só o Ultramar permitia ainda a independência portuguesa. «Com os seus 89.000 Km2, situado nos confins da Europa», pode ler-se no «Manifesto ao País», da Liga Iberista Portuguesa, divulgado em 1976, «Portugal deixou de ser um Estado visível no mundo civilizado moderno».

Será preciso continuar a fazer citações no mesmo sentido? «Portugal acabou», «Portugal está dissolvido», «Portugal não é viável»: a falta de consenso sobre o significado histórico do 25 de Abril, de tão flagrante, nem careceria aliás de demonstração (ob. cit., pp. 166-168).


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A Arte de Continuar Português (iii)

Escrito por António Quadros





Oliveira Salazar



Da plutocracia ao marxismo


Nestas condições, não admira que o ideário de Salazar e do Estado Novo, apesar de continuamente reafirmado com mais demagogia do que sinceridade, se tenha pouco a pouco tornado como numa carapaça formal que encobria as verdadeiras forças em ascensão: a plutocracia e o marxismo.

Na luta mortal que entre si travaram, o Estado Novo desgastado da fase final, com o seu corporativismo desacreditado, com os seus velhos cabos cansados, com o seu frouxo evolucionismo semântico-marcellista, com a sua tímida cobertura dos grupos de liberais e de tecnocratas da nova geração, pouco mais foi de que a testemunha impotente e estática. Por seu turno a plutocracia portuguesa mostrou-se de uma inferioridade total, acabando por justificar-se a sua derrota em todos os terrenos: especulando e acumulando capitais, não soubera realizar uma política de desenvolvimento e uma política de justiça, deste modo contribuindo para o fortalecimento dos sectores adversos.

Depois dos anos sessenta, as ideologias socialistas e marxistas levavam vantagem doutrinária e psicológica sobre o vazio que se ia fazendo do outro lado, alastrando por conseguinte a sua influência nas mesmas instituições que quarenta anos antes tinham sido os pilares da Revolução Nacional de 28 de Maio: a Universidade, a Igreja e as Forças Armadas.


Da Situação à Oposição


É oportuno lembrar que, ao declarar-se esta crise nacional de então incalculáveis consequências, apenas o pequeno grupo de pensadores e de escritores que, assumindo a herança intelectual de Bruno, de Pascoaes, de Leonardo Coimbra e da «Renascença Portuguesa», se reunia em volta de revistas como «Acto», «57», ou «Espiral», teve plena consciência do problema e procurou lutar contra o caminho degenerativo e desagregante para que o país estava a ser levado pela obstinação cega de uns e pela irresponsabilidade ou pela militância internacionalista dos outros. Um dia se compreenderá como os colóquios sobre «O Ideal Português», que organizou na Casa da Imprensa em 1961, constituíram um marco histórico.

Encontrávamo-nos então situados, do ponto de vista político, entre uma situação imobilista e uma oposição progressista. E um dos aspectos mais lamentáveis da tragédia, era que nem uma nem outra manifestava a mínima capacidade criativa, imaginativa e intelectual. A Situação, já sem outra doutrina que não fosse a da conservação do «statu quo», ia fazendo todas as concessões possíveis até ao ponto de não ver destruído o seu aparelho; e a oposição unida pelo ódio ao capitalismo e à ditadura, não queria mais do que derrubar, entregando-se completamente ao pronto-a-vestir das ideologias importadas da União Soviética.

As elites portuguesas cedo tinham aderido naturalmente à Oposição em nome da liberdade, o que era certo e justo; mas deixaram-se manipular, não souberam desenvolver um pensamento político adequado à realidade nacional e cederam demais. Poucos meses após o 25 de Abril, com excepção dos escritores militantemente obedientes às ordens do seu Partido, estavam outra vez na Oposição!

Deste fenómeno dá, por exemplo, testemunho o poeta Miguel Torga, no seu «Diário XII», com data de 15 de Julho de 1974: «Tem sido do caixão à cova!» Quatro dias depois: «A pátria assiste pasmada, com a epiderme coberta de chavões, a esta orgia verbal, a ver cada um apenas ocupado em conferir o seu radicalismo pelo do vizinho. Quem se desvia do rigor sumário da cartilha fica logo excomungado». E, em 19 de Março de 1975 (o gonçalvismo instalara-se no poder uma semana antes): «Apetece fugir, deixar de vez esta pátria que mais ninguém sabe reconhecer gramatical, cívica e humanamente...»



Miguel Torga




Tudo o que de catastrófico sucedeu depois do 25 de Abril era contudo de prever, porque não se pode melhorar qualitativamente um país por uma revolução com cravos mas sem ideias, ou apenas (o que é o mesmo) com ideias feitas, convencionais, com ideias que não nasceram livre e espontaneamente do próprio povo, no sentido lato da palavra, isto é, que não promanaram da sua língua e da sua cultura, da sua história, e da sua problemática concreta, da criatividade e da actividade mental dos seus filósofos, escritores e artistas.

Não sendo possível a acção política sem pensamento político e não havendo entre nós, ao nível das classes dominantes e da universidade, nem pensamento político, nem pensamento filosófico capaz de o fundamentar, o resultado inevitável tinha de ser, ou a entrega do país e quem pensasse por ele (o que veio a suceder logo após o 28 de Setembro com o acesso de Vasco Gonçalves e com o domínio crescente do aparelho comunista) ou a proliferação de um pseudo-pensamento de cartilha, que, através dos diversos activismos grande ou pequeno-partidários, outra coisa não tinha ao seu alcance fazer do que tentar reproduzir no Portugal de hoje os seus diversos cenários de eleição: a Rússia dos anos 20, a França dos anos 30, a Jugoslávia dos anos 40, a Argélia dos anos 50, a China dos anos 60, etc., etc., etc., ou seja, anacronismos dentro de anatopismos, que não podem levar a perte nenhuma.

A própria «descolonização» que viemos a fazer para mal dos nossos pecados não foi mais do que um ersatz trafulha dos cenários das descolonizações inglesa ou francesa, com a diferença de que a Inglaterra ou a França souberam construir, ao mesmo tempo, a Commonwealth e a Union Française, enquanto nós tudo abandonámos sem contrapartida e sem honra, permitindo o êxodo vergonhoso de um milhão de portugueses metropolitanos, africanos ou timorenses.

Eis porque a grande batalha, para esse pequeno grupo isolado e marginalizado dentro da sociedade portuguesa, reduzido a editar revistas depressa falidas ou a publicar livros à sua própria custa, tinha sido a do pensamento, muito mais do que a do activismo político, que lhe aparecia viciada de origem. Que os portugueses aprendessem ou reaprendessem a pensar por si próprios, que conhecessem e assumissem a filosofia implícita e explícita na sua língua e na sua cultura, que formulassem os seus próprios ideais e projectos desde a raiz e não de fora para dentro, que fossem actuais e progressivos, sim, mas no acordo com a sua personalidade e com os valores da sua estrutura cultural, eis algumas das linhas mestras de um movimento, aliás plurifacetado, a que ficam principalmente ligados, quer os discípulos de Leonardo Coimbra, nomeadamente Álvaro Ribeiro e José Marinho, ou ainda (com certa distância) Agostinho da Silva, Sant'Anna Dionísio ou Delfim Santos, quer personalidades afins como a de Cunha Leão, quer pensadores das duas gerações que se lhes seguiram, como Orlando Vitorino, Afonso Botelho, António Telmo, Francisco Sottomayor, Avelino Abrantes, Dalila Pereira da Costa, António Braz Teixeira, Fernando Morgado, Fernando Sylvan ou Pinharanda Gomes, sem esquecer o núcleo brasileiro a que se ligaram José Santiago Naud, Almir Brunetti, Pedro Agostinho, etc...



Agostinho da Silva




Tratando-se contudo de um grupo vário e heterodoxo que pela sua própria natureza não podia ter quaisquer apoios políticos nem audiência pública num meio hostil, a realidade da vida nacional no período subsequente era basicamente a de uma Administração cada vez mais esclerosada e descrente, de uma Universidade cada vez mais estrangeirada e marxizante, de uma Igreja cada vez menos autêntica e vigorosa nos seus princípios ético-políticos e de umas Forças Armadas incomodadas com o prolongamento da guerra e infiltradas de elementos comunistas de obediência soviética a vários escalões da hierarquia, como é hoje do domínio público.

De modo que se tornara irreal e sem substância o poder que em 24 de Abril de 1974 regia a política portuguesa na metrópole e nos territórios ultramarinos; era agora um poder apenas administrativo, burocrático e policial, e por isso exterior e ilusório, tão ilusório quanto fora o poder monárquico em 4 de Outubro de 1910 ou o poder democrático em 27 de Maio de 1926.

Os acontecimentos não foram influenciados pelo nariz de Cleópatra. O 25 de Abril tinha de suceder, mais tarde ou mais cedo, pois se tornara inevitável pela força das coisas.

O 25 de Abril era o que estava destinado a este grande-pequeno-povo, traído pela sua classe política e pelas elites intelectuais dominantes. Um 25 de Abril com todas as marcas da doença nacional, reflectindo a erosão e as contradições que herdava do passado recente (ob. cit., pp. 26-30).

Continua


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A Arte de Continuar Português (ii)

Escrito por António Quadros












O nariz de Cleópatra


A primeira revolta de carácter emancipalista contra a administração portuguesa em África efectuou-se em Luanda, em Março de 1961. Em Dezembro do mesmo ano consumava-se a invasão e a ocupação de Goa, Damão e Diu, pondo termo à presença quatro vezes secular de Portugal na Índia.

Principiava um repto e desencadeava-se uma guerra em diversas frentes, para que no fim de contas o país não estava moralmente preparado.

Tal se tornava já patente, mesmo antes da doença de Salazar e da sua sucessão por Marcello Caetano.

É que, quanto ao nível das cúpulas políticas e militares, se continuava incansavelmente, mas com gradual perda de convicção, a propor o nacionalismo e o tradicionalismo, e enquanto o conceito unitário na nação pluri-racial e pluri-continental figurava ainda como doutrina oficial do Estado português e era defendida tanto no discurso interno do poder como nos areópagos internacionais, ia-se dando ao mesmo tempo a revolução invisível da Universidade docente e discente, atraída por outras formas de pensamento e outras ideologias; das novas gerações convertendo-se ao marxismo comunista, ao socialismo interancionalista ou ao catolicismo progressista de simpatias marxistas; de muitos jovens oficiais das Forças Armadas saturados da guerra e trabalhados pela ideia em crescendo da descolonização e pelos exemplos da França, da Inglaterra e da Bélgica; dos próprios colonos portugueses descontentes ou bloqueados pelos impecilhos burocráticos da autocracia lisboeta; e enfim dos movimentos emancipalistas crescentemente doutrinados, subsidiados e armados pelas potências que almejavam acima de tudo a substituição do poder português em Àfrica pelo seu próprio domínio ideológico ou pela sua influência económica irrestrita.

Circula nalguns meios a tese de que a guerra de África não estava de modo nenhum perdida, antes pelo contrário; de que a Marcello Caetano só faltaram a firmeza e por outro lado a humildade para continuar a política de Salazar; enfim de que, não fora a inabilidade marcellista para resolver o problema administrativo que originou o Movimento dos Capitães, este não teria crescido ao ponto de se tornar um Movimento revolucionário e de desencadear os golpes de 16 de Março e depois do 25 de Abril.

É a anedota do nariz de Cleópatra!


Os homens velhos e os homens novos


Na realidade, eram cada vez menos e estavam cada vez mais velhos os incondicionais da visão salazarista; a classe política já não podia reflectir o pensamento nacionalista e católico-integrista que presidira à ascensão política do grupo de Coimbra, do Estado Novo e do seu Chefe; após os anos cinquenta, os governos isolavam-se cada vez mais dentro de um país em evolução e aliás tinham de abrir-se à nova vaga dos tecnocratas e dos europeístas que não atacavam frontalmente a política ultramarina, mas também não tinham por ela qualquer entusiasmo ou mesmo interesse, se é que não a criticavam ou minavam nos bastidores.


Face à evolução geral do país e do mundo, que não podia ser ignorada, Salazar recusou-se a rever o projecto nacional, não só por temer que mudanças substanciais viessem a significar politicamente cedências, provas de fraqueza, acelerações de um processo finalmente dissolutório, mas também porque as autoridades e as ditaduras nunca podem renovar-se por dentro.

Tão-pouco o seu sucessor, que era mais novo e que teve nas mãos a oportunidade, foi capaz de apresentar um novo projecto convincente e coerente, refugiando-se nas alterações semânticas e num discurso só aparentemente renovador.

A história de uma nação faz-se com os homens que tem e com as ideias, as crenças e os mitos que os dirigem espiritualmente.

O 25 de Abril foi ao nível político a consequência necessária da erosão do regime, cujos erros, mormente após os anos cinquenta, se agravaram e repercutiram em ondas desde o centro lisboeta às periferias ultramarinas.

Mas, sendo o nível filosófico e cultural sempre mais profundo do que o político, importa mostrar como todos os vícios ideológicos de que o Movimento das Forças Armadas, estava contaminado, como todas as tendências negativas de que o sector «progressista» das nossas elites estava possuído, como todas as aspirações mitológico-utopistas e totalitárias que cresciam cancerigenamente na sociedade portuguesa, dando ao golpe do 25 de Abril, a breve trecho, um cariz revolucionário marxista-leninista à procura de uma nova ditadura (do proletariado), um carácter desagregante e dissolvente, uma total irresponsabilidade, senão uma criminosa intenção na abordagem de problemas tão vitais para o país como o do Ultramar e o da economia, foram além de tudo o mais a expressão do fracasso educativo, cultural e político do sistema anterior.

Fracasso de um ensino universitário (estrangeirado e escolástico), que não soube preparar e defender intelectualmente as elites portuguesas, deixando-as por conseguinte passivas e permeáveis perante o fascínio de ideologias «científicas» que chegavam até nós aureoladas pela fortíssima capa onírica dos mitos da Idade do Oiro e do Paraíso Perdido, ou perante o prestígio de teorias e doutrinas recebidas de fora sem crítica, sem reelaboração e sem recriação pessoal, sem sequer um repensá-las de raiz, a partir da nossa estrutura cultural e do nosso país real.

Deu-se pois a progressiva substituição dos homens velhos de um regime em degenerescência, pelos seus homens novos, novos em idade, mas infelizmente formados ou deformados por esta Universidade descaracterizadora, entre de um lado as imagens estereotipadas de um nacionalismo gasto e «carreirista», e de outro lado as fórmulas por contraste mais atraentes de um internacionalismo generalista ou de um ideologismo totalitário que, progressistas mas extrínsecos e imitativos, senão dogmáticos, não podiam, como depois se viu claramente, nem fomentar patriotismo, nem garantir a defesa dos interesses portugueses, nem descobrir uma solução de continuidade nacional renovada que, para além das transformações necessárias, não nos afastasse da nossa identidade como povo original, livre e soberano (in ob. cit., pp. 24-26).






Continua