sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O criador do espelho envenenou a alma humana

Escrito por Fernando Pessoa








O homem não deve poder ver a sua própria cara. Isso é o que há de mais terrível. A Natureza deu-lhe o dom de não a poder ver, assim como de não poder fitar os seus próprios olhos.

Só na água dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura, mesmo, que tinha de tomar, era simbólica. Tinha de se curvar, de se baixar para cometer a ignomínia de se ver.

O criador do espelho envenenou a alma humana.

Bernardo Soares («Livro do Desassossego»).



quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Visão Unívoca

Texto hermético transcrito por Titus Burckhardt




«... O espelho fora feito de forma a que nenhum homem pudesse ver-se nele materialmente, pois mal se colocava diante do espelho esquecia-se de imediato da sua própria imagem. O espelho representa o Espírito divino. Assim, quando a alma se olha nele, descobre toda a vergonha que encerra em si, pelo que prontamente a lança para bem longe do seu olhar... Uma vez purificada, imita o Espírito Santo, tomando-o por modelo, de modo que, por sua vez, ela própria se torna espírito. Ansiando pelo descanso, retorna constantemente a estado elevado, estado no qual o homem sabe reconhecer Deus e é reconhecido por Ele. Então, já sem nada que a ensombre, liberta-se das suas grilhetas, assim como daquelas que a prendem ao corpo... Que diz o filósofo?... Conhece-te a ti mesmo!... E é ao espelho espiritual do reconhecimento que ele se refere. Mas que outra coisa é este espelho senão o Espírito divino, origem de tudo quanto existe?... Quando um homem se olha e se vê nele, afasta-se de tudo aquilo que de deuses e demónios tem nome e, ao unir-se ao Espírito Santo, transforma-se enfim num homem completo, passa a ver Deus em si mesmo... Este espelho encontra-se por detrás de sete portas..., portas que correspondem aos sete céus. Sobre este mundo material, sobre as doze mansões do céu..., sobre tudo isto encontra-se este olho do sentido invisível, este olho do Espírito que se acha presente em toda a parte. E ali pode ver-se este espírito perfeito, no qual tudo se contém e cujo poder tudo alcança...» (Texto hermético redigido em língua síria, transcrito, com base em Berthelot, La Chimie au Moyen Âge, por Titus Burckhardt, in Alquimia, Publicações Dom Quixote, 1991, p. 56).


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Língua de tradição e língua técnica

Escrito por Martinho Heidegger





Martinho Heidegger




A Escola» - isto significa o conjunto das instituições escolares desde a escola primária até à universidade. É esta última que é hoje provavelmente a forma de escola mais esclerosada, a mais atrasada na sua estrutura. O nome «universidade» perpetua-se pesadamente e apenas como um título fictício. Na mesma medida o nome «escola profissional» atrasa-se sobre aquilo a que se refere o seu trabalho na era industrial. É igualmente duvidoso que os propósitos relativos à escola que forma para uma profissão, a formação geral e a formação (Bildung) como tal, se apliquem ainda à conjuntura que a era técnica marca com o seu cunho. Poder-se-ia certamente objectar: que importam as palavras se é das coisas que se trata. Seguramente. Mas se acontecesse não existir para nós coisa alguma e nenhuma relação suficiente com uma coisa, sem a língua que lhe correspondesse e inversamente, não haveria uma verdadeira língua sem a justa relação à coisa? Mesmo quando atingimos o inexprimível, este não existe senão na medida em que a significação (Bedeutsamkeit) da palavra nos conduz ao limite da língua. Este limite é ainda, por si só, qualquer coisa que pertence à língua e que abriga em si a relação do termo e da coisa.

Assim, os termos «técnica», «língua», «tradição», tal como os escutamos, falam-nos, não nos deixam indiferentes. Tanto como saber se neles nos fala aquilo que hoje é, aquilo que nos tocará amanhã e que já ontem nos atingia. Também tentaremos no presente por nossa conta e risco indicar a direcção de uma meditação. Em que é que existe aqui um risco? Na medida em que meditar significa despertar o sentido para o inútil. Num mundo para o qual não vale senão o imediatamente útil e que não procura mais que o crescimento das necessidades e do consumo, uma referência ao inútil fala sem dúvida, num primeiro momento, no vazio. Um sociólogo americano reconhecido, David Riesman, em A Multidão Solitária, verifica que na sociedade industrial moderna o potencial de consumo deve, para assegurar o seu fundo (Bestand), tomar a dianteira sobre o potencial de tratamento das matérias-primas e sobre o potencial de trabalho. Contudo, as necessidades definem-se a partir daquilo que é tido por imediatamente útil. Que deve e que pode ainda o inútil face à preponderância do utilizável? Inútil, de maneira que nada de imediatamente prático pode ser feito, tal é o sentido das coisas. É por isso que a meditação que se aproxima do inútil não projecta qualquer utilização prática, e portanto o sentido das coisas é que se afigura como mais necessário. Porque se o sentido faltasse, o próprio útil ficaria desprovido de significação e por conseguinte não seria útil. Em lugar de discutir esta questão em si própria e de lhe responder, escutemos um texto retirado dos escritos do velho pensador chinês Tchouang- Tseu, um discípulo de Lao-Tseu:




A Árvore Inútil

«Houi-Tseu dirigiu-se a Tchouang-Tseu e disse: "Eu tenho uma grande árvore. As pessoas chamam-lhe a àrvore dos deuses. O seu tronco é tão nodoso e disforme que não se pode cortar a direito. Os seus ramos são tão torcidos e tortos que se não podem trabalhar com peso e medida. Está à beira do caminho, mas nenhum marceneiro a olha. Assim são as vossas palavras, senhor, e todos se afastam de vós ao mesmo tempo."

Tchouang-Tseu respondeu: "Nunca haveis visto uma marta que se põe à espreita com o corpo encolhido e que espera que qualquer coisa aconteça? Ela vai e vem correndo sobre as traves e não se impede de dar saltos elevados até que um belo dia cai numa armadilha onde perece por um laço. E depois há também o yak. É grande como uma nuvem de tempestade, eleva-se no seu poder. Mas não pode apanhar os ratos. Da mesma maneira vós tendes uma grande árvore e lamentais que não sirva para nada. Porque não a plantais numa terra deserta ou num campo vazio? Aí poderíeis passear na sua proximidade ou dormir à vontade sob os seus ramos sem nada fazer. O machado e a machadinha não lhe reservam um fim prematuro e ninguém lhe pode fazer mal.

Como é bom que nos preocupemos com uma coisa que não tem utilidade!"»
(in Martin Heidegger, Língua de tradição e língua técnica, Vega, 1999, pp. 7-11).


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ah! A Cultura!

Escrito por Orlando Vitorino





A cultura é sempre cultura de alguma coisa que deixa de ser precisamente porque se faz dela objecto de cultura. E acabando por ver o que há de vão na sua tarefa, a cultura acaba por se fazer ela mesma um valor a cultivar e, então, os valores culturais põe-se a substituir os valores (filosóficos, religiosos e artísticos) que a cultura se destinava a cultivar. A cultura passa, então, a ser cultura da cultura, depois, cultura da cultura da cultura, depois cultura da... e assim sucessivamente.

As situações de decadência diagnosticadas pelo predomínio da cultura são cíclicas. De tais situações, a mais prolongada e a mais brilhante, foi a do império bizantino que constituiu, ao longo de alguns séculos, o longo amortecer da antiguidade. Atingindo expressões de grande requinte, fez de tudo o que fora grande na antiguidade objectos de cultura e deixou como seu maior monumento as compilações do direito romano quando o direito romano estava cada vez mais remoto e morto. Pormenor curioso: foi também essa uma época de socialismo que os socialistas contemporâneos procuram ignorar (ou ignoram mesmo).

Nas situações que não são de decadência, do que se trata é de filosofia, de religião, de ciência ou de arte, não de cultura. Trata-se de filosofia ou de filosofar, não de cultura da filosofia. Trata-se de fazer o que a arte faz, não de defender as obras de arte ou levar a todos os valores que, precisamente, não são susceptíveis de ser levados a todos. Trata-se de entender imediatamente um teatro original que um tal Gil Vicente ou um tal Shakespeare nos ofereceram há quatro séculos: trata-se de teatro, não de cultura teatral.

Quando, nas situações de decadência, a cultura da filosofia substitui a filosofia ou a cultura do teatro substitui o teatro, é porque a filosofia e o teatro se evanescem e perderam. Faz-se tudo para fazer entender Shakespeare e Gil Vicente, mas se um novo Shakespeare ou um novo Gil Vicente de súbito aparecessem, ninguém daria por eles. Tal como na famosa lenda do inquisidor-mor, os mesmos que vigiam pela cristianização da humanidade ou pela cultura do cristianismo não reconhecem o Cristo que de súbito surge entre eles; tal como aqui entre nós, ninguém reconhece um filósofo por excelência como é Leonardo Coimbra (in Escola Formal, n.º 1, Jun. 1977, p. 24).



Leonardo Coimbra



sábado, 9 de janeiro de 2010

Aristóteles e as Mutações (ii)

Escrito por Mário Ferreira dos Santos



S. Tomás de Aquino


Para Tomás de Aquino, em todo género, o ser mais perfeito é exemplar e medida dos outros seres do género.

Deus é o exemplar de todos os que participam da sua bondade (como bem e bom).

Para ele o efeito tem sua perfeição própria; seu limite, é o que é, nem mais nem menos. E diversos epítetos apresentam toda essa ausência de excessos, como de defeitos, essa moderação, esse "justo meio", e daí resulta uma ordem, uma disposição harmoniosa.

A causa de tal harmonia chamar-se-á medida de seus efeitos. Deus tudo dispôs com medida e, por isso, é medida de tudo.

(...) Em cada instante, há um ser que é o melhor de sua série. Entre todas as macieiras do mundo, há de haver, agora, neste instante, uma que seja a mais perfeita, a que melhor corresponde, não apenas ao esquema abstracto macieira nem apenas ao esquema concreto imanente na macieira, mas à forma, na ordem universal do ser. A macieira mais macieira de todas.

Todo o género tem um termo que é a perfeição do género. E esse termo se dá, de facto sempre, e em potência, porque o perfeito de hoje poderá ser superado amanhã, pois a perfeição absoluta da macieira só caberia à forma essencial, porque esta é macieira.

Estas digressões mais comezinhas à dialéctica platónica que à aristotélica, levar-nos-iam à afirmação de que um ser que atingisse a perfeição da forma essencial, do eidos platónico, por exemplo, ou do arithmós plethos (o número de conjunto) pitagórico, seria materialmente inalcançável. No segundo caso, seria compreensível, porque o número da harmonia platónica, os arithmói harmonikoi são sempre indefinidos, portanto nunca alcançáveis, materialmente, na sua perfeição extensista e definitivamente acabada, como a relação entre o diâmetro e a circunferência, ou a hipotenusa e o quadrado, dão sempre um número indefinido.


"Escola de Atenas"


A forma essencial na ordem ontológica é perfeita e jamais alcançada pela materialidade, que dela pode potencialmente aproximar-se sempre, como o número de ouro pitagórico, que jamais alcança um termo finito.

Assim, o esquema concreto de um ser aqui e agora, esta macieira, por exemplo, imita a ideia exemplar (na linguagem de Tomás de Aquino), o eidos platónico, a forma escotista, ou o arithmós plethos pitagórico, mas, como imitante jamais o repetiria perfeitamente, pois do contrário com ele se identificaria, deixando de ser o ente material, aqui e agora, para tornar-se o ente ideal, não topicamente localizável, infinito e perfeito da essência ontológica, que está na ordem do Ser Supremo. Consequentemente, a perfeição, como termo final, é a ideia exemplar ontológica (e um teólogo poderia dizer teológica, porque está em Deus) jamais identificada senão formalmente com as coisas, e nunca existencialmente.

Ora, tais digressões exigem outros estudos de metafísica, que não caberiam nesta introdução tratar, mas que apontam, pelo menos, possibilidades pensamentais, e supinamente controversas, que exigem grande subtileza de espírito e ideias muito claras para penetrar num terreno, aparentemente fantasioso para o ignorante de tais assuntos.

E para tornar mais simples o que dizemos, bastaria atentássemos para estes pontos: se esta macieira é macieira é por que nela o que, pelo qual, ela é isto e não outra coisa. É através de, ou por algo que ela é uma macieira e não uma pereira. E naquela macieira, ali, que é semelhante a esta, também há nela um pelo qual ela é macieira e não outra coisa, que nela também se repete, como naquela primeira. Há, portanto, em ambas, e em todas as macieiras do mundo, algo pelo qual elas são macieiras e não outra coisa, e esse algo é o que os filósofos chamam forma.

Flor de macieira


Nas macieiras, há uma forma da macieira. Mas essa forma que está nesta, está naquela também. Portanto, essa forma não é algo material, porque o que é material ocupa um lugar e não poderia estar, simultaneamente, em tantos lugares e tão distantes. Essa forma é uma proporcionalidade intrínseca, uma "ratio", uma estrutura que a ordena como tal, e que se repete, em seu número (que não deve ser apenas considerado quantitativamente, o que é maneira bem grosseira de ver os números, mas também qualitativamente, como os viam os pitagóricos). No ser, o que o constitui onticamente repete o número, imita-o, como um triângulo qualquer imita a proporcionalidade intrínseca do triângulo (três ângulos, cuja soma é igual a dois ângulos rectos). Posteriormente, o homem constrói desse esquema imanente nos seres um esquema em sua mente, um esquema abstracto noético, que intencionalmente o repete, com os conteúdos da mente humana, mas que imitam o que há fundamentalmente na coisa. Temos, assim, um esquema concreto, na coisa (in re) e um esquema abstracto noético, o conceito, em nós, após a experiência, após o acto de abstracção realizado pelo nosso espírito, que separa da coisa esse quê, quid, essa quididade, que é formal, e realiza o esquema formalmente (post rem) da coisa.

Mas o que sucedeu naquele ente era um arithmós, dirá o pitagórico, que era possível actualizar-se nele, pois, do contrário, terá vindo do nada. E como não veio do nada, veio do ser. Portanto, já era no ser numa modalidade diferente da que existe aqui e agora, era no ser como algo essencial e não existencializado ainda, estava, portanto, na ordem do ser (ante rem). E nessa ordem é um único, um só, perfeito, imutável, como é perfeito e imutável o triângulo (o autotrigonon, o triângulo-em-si, de Platão) que as coisas repetem. E essa perfeição do triângulo-em-si, que nós matemática e formalmente podemos esboçar, não é materialmente perfeito, nunca.

O triângulo é sempre perfeito como ideal, mas as formas triangulares que se repetem na matéria são sempre escalarmente imperfeitas, e não seria possível realizar um triângulo materialmente perfeito, cuja soma de seus ângulos fosse absolutamente igual a dois ângulos absolutamente rectos. No entanto, poderíamos construir triângulos (é uma possibilidade ao menos) cada vez mais perfeitos, mais próximos dessa perfeição, sem jamais atingi-la.

Com essa sintética explanação, cremos tornar claro o pensamento tanto de Platão como o de Pitágoras, bem como o que pensava Tomás de Aquino, pois aceitava tais formas como ideias exemplares, únicas e perfeitas, que pertenceriam à mente divina, ao Ser Supremo, fonte de todos os seres finitos.

Não queremos com isso forçar conciliações de pensamento, mas apenas mostrar que o nosso modo de ver os esquemas, encontra também uma positividade no pensamento de grandes figuras da filosofia (in Mário Ferreira dos Santos, Aristóteles e as Mutações, pp. 14-16).




quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Aristóteles e as Mutações (i)

Escrito por Mário Ferreira dos Santos








Texto de Aristóteles

I-13

I. Mas não devemos colocar como pontos ou linhas a matéria de onde vem o corpo, pelas mesmas razões.

II. e III. E também que os pontos e as linhas são limites, que é a matéria, a qual nunca pode existir independentemente da qualidade nem independentemente da forma. (...)


Reexposição comentada


I. Já demonstrou Aristóteles que nem os pontos nem as linhas podem ser consideradas como sujeito da magnitude, nem podem existir separadamente de per si.

II. Provado por Aristóteles, que não pode ser sujeito de aumento, o que não tem a quantidade em acto ou em potência, o ponto e a linha não poderiam ser elementos consistentes dos corpos; embora o sejam da matemática, não o são da matéria enquanto tal. Falta à linha e ao ponto as dimensões que possuem os corpos materiais. Se a linha tem superfície não tem profundidade nem latitude. O ponto, por sua vez, carece de toda a magnitude. Expõe Aristóteles que os pontos e as linhas são os limites da matéria, coisas incorpóreas em acto, e não podem engendrar um corpo que tenha uma grandeza. Também a matéria não pode existir sem a sua configuração e as suas qualidades, como bem salientam os comentaristas ao analisar este tópico. Acusava Tomás de Aquino os platónicos de considerar os entes matemáticos como substâncias dos corpos naturais.

Fundamentavam eles o seu pensamento no facto de serem o ponto e a linha termos das dimensões, como a forma é termo da matéria, e afirmavam que aquilo que, pelo qual é terminado, seria a matéria dos corpos, e sendo os pontos e linhas os últimos termos, seriam consequentemente o fundamento da matéria.

III. Na Metafísica demonstrou Aristóteles que uma coisa nasce absolutamente de uma outra, e que sua causa eficiente é, ora uma coisa em acto, da mesma espécie ou do mesmo género, ora uma enteléquia. Todo o devir implica um ser em acto de onde ele se origina e ele pode ser, como o esquematiza Tricot:

a) uma coisa é em acto, quer dizer uma forma na matéria, idêntica com a coisa produzida, quer específica, quer genericamente.

b) Para a poíesis propriamente dita (realização, criação de uma obra), resultado da tekhnê (arte) uma forma, que está no espírito do artista no estado de enteléquia.

Júpiter e seus satélites


(...) Impõe-se distinguir duas classes de mutações. Há em cada mutação a transição de um termo inicial para um termo final (terminus a quo e terminus ad quem). Serão esses dois termos, para que haja mutação, diferentes entre si, pois, do contrário, não haveria mutação. Algo entre eles deve-se opor. Mas essa oposição pode ser vária. Se a oposição é contraditória, e neste caso há afirmação e negação, isto é, mutação de um "ser" para um "não-ser", não se pode dar nenhum intermediário, como já nos mostrou Aristóteles no "Organon", pois não há entre opostos contraditórios possibilidade de um meio termo. Entre ser e não-ser não lugar para intermediários. Num movimento contínuo, duas esferas que ao se aproximarem se tocam, a passagem entre o "não-tocar" e o "tocar" é instantânea, como é instantânea a passagem de um corpo do estado de quietude para o de movimento.

O outro tipo de mutação é aquela em que o sujeito da mutação passa através de fases intermédias entre o terminus a quo e o terminus ad quem. No movimento tópico, local, vemos tal exemplo, pois há uma distância que o móvel percorrerá. Nas mutações intensistas, por exemplo, aquecimento-resfriamento, dá-se o mesmo. A teoria dos minima de Aristóteles pode ser aplicada também às intensidades como já o faziam os escolásticos, como o expõe Suarez nas "Disputationes Metaphysicas"... (in Mário Ferreira dos Santos, Aristóteles e as Mutações, Livraria e Editora Logos, S. Paulo, 1955, pp. 18-19; 97-98).



Júpiter


quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Sobre os Pitagóricos

Escrito por Simplício e Aristóteles







«Eles [os Pitagóricos] entendiam por infinito os números pares, "visto que tudo o que é par", como dizem os comentadores, "é divisível em partes iguais, e o que é divisível em partes iguais é infinito no que diz respeito à divisão em dois; pois a divisão em metades continua ad infinitum, ao passo que a adição do ímpar a limita ao pôr fim à divisão dicotómica". Assim os comentadores referem o ilimitado ao par, no que diz respeito à divisibilidade em metades, e é claro que pensam na divisibilidade infinita, não em termos de números mas de grandezas... Mas é claro que Aristóteles não considera de modo algum a divisibilidade em partes iguais como uma explicação do infinito». (Simplício, Phys., 455, 20).

«Ora os Pitagóricos também acreditam numa espécie de número - o matemático; só que, dizem eles, não existe separado, mas a partir dele formam-se as substâncias sensíveis. Pois eles constroem o universo inteiro a partir de números - somente não são números constituídos por unidades abstractas; pois eles supõem que as unidades têm grandeza espacial... Todos... supõem que os números consistem em unidades abstractas, excepto os Pitagóricos; mas eles supõem que os números têm grandeza, como já foi dito atrás». (Aristóteles, Met., M 6, 1080 b 16).

«A doutrina dos Pitagóricos, por um lado, oferece menos dificuldades do que as referidas anteriormente, mas, por outro lado, tem outras que lhe são peculiares. Pois não pensar que o número é capaz de existir separadamente afasta muitas das consequências impossíveis; mas admitir que os corpos se componham de números, e que isto seja o número matemático, é impossível. Pois não é verdade falar-se de grandezas espaciais indivisíveis; e por mais que possa haver grandezas desta espécie, as unidades pelo menos não têm grandeza; e como pode uma grandeza ser composta por indivisíveis? Mas o número aritmético, pelo menos, consiste em unidades abstractas, ao passo que estes pensadores identificam o número com coisas reais; de qualquer forma, aplicam os seus teoremas a corpos, como se eles fossem constituídos por aqueles números». (Aristóteles, Met., M 8, 1083 b 8).


domingo, 3 de janeiro de 2010

Sobre a Igualdade

Escrito por António Correia de Oliveira







Vi um fantasma, entre as névoas;
- «Quem és?» - Fugiu, mas ouvi;
«Dizem que sou a IGUALDADE...
Mentira! eu nunca existi!»

Roteiro de Gente Moça


sábado, 2 de janeiro de 2010

Agostinho da Silva: "doutorado em raiva e licenciado em liberdade"

Escrito por Miguel Bruno Duarte







«(...) eu creio mesmo que o homem possui as qualidades dos seus defeitos... É possível que destes resultem aquelas, por contraste ou evolução criadora. Pode ser que o Bem não seja mais do que o Mal superiormente degenerado. Não foi assim, por degenerescência electiva, que o homem se destacou do orango?

Se admitirmos tal teoria, o que não nos repugna, temos de olhar os nossos defeitos com esta vaga e lusitana consideração devida às coisas ruins:


Contigo, Senhor Diabo,
Antes de bem que de mal 

(DITADO POPULAR).


O bom senso nacional conciliou o culto divino e o maléfico.

Deus e o Demónio são incompatíveis em toda a parte, excepto em Portugal.


Um chabo
Ao diabo
Sempre se deu... 

(DITADO POPULAR)».

Teixeira de Pascoaes («Arte de Ser Português»).



Em "Conversas Vadias", Cáceres Monteiro, lendo perante Agostinho da Silva uma passagem do Best-Seller A Casa da Rússia, de John le Carré, diz que o autor, «por vezes, durante o dia, [chegara a] ouvir os discursos de um velho místico, com rosto de santo, que gosta de receber os seus discípulos, discípulos de todas as idades...». Referia-se, obviamente, ao Professor Agostinho da Silva, personalidade ímpar que logo corrigira essa coisa da dependência mental entre espíritos e pessoas, simplesmente dizendo: «Se fosse navio, não tinha jeito para ser rebocador, e em terra continua da mesma maneira». E assim, alheio a toda e qualquer ficção novelesca, acrescentava ainda: «Depois, ele [John le Carré] fala no tal místico com cara de santo. Eu suponho que ele estava de lado, só viu metade da cara. Se tivesse visto a outra metade, talvez mudasse de opinião...».

Daí também não ser surpreendente que Agostinho da Silva, naquele seu jeito frontal e sem papas na língua, tivesse confessado terem sido as suas relações com Leonardo Coimbra «as mais desastrosas que se podem imaginar». Aliás, convém relembrar o Ensaio de Psicologia Portuguesa, de Francisco da Cunha Leão, a propósito do perfil caracterológico do filósofo criacionista: «Também o filósofo Leonardo Coimbra nos parece de enquadrar nos coléricos. Sempre empenhado, aproveitando todas as oportunidades para agir, talento demonstrativo e oratório manifesto. Espírito largo convivente, de feição optimista e luminosidade solar. Dado à acção pessoal directa, mas assistemático, ressumam da sua vida e obra emotividade primária e a febre de acção. Pedagogo apóstolo por excelência, vivia o imediatismo e a dialéctica das relações humanas; deixou por isso discípulos» (ob. cit., Guimarães Editores, 1971, p. 203).

De resto, para Agostinho, sempre havia duas metades do mesmo rosto, tal como, no dizer de Pascoaes, «o dia e a noite crescem sobre a terra». E, por conseguinte, algo de muito interessante aqui ressalta acerca desta dualidade em Agostinho, nomeadamente quando, em certa ocasião, fora alertado por António Augusto Salgado Júnior quanto à possibilidade de tirar o doutoramento para seguir a carreira universitária:

«"- A mim não me interessa muito, porque quem deu cabo da Faculdade do Porto foi a Universidade de Coimbra e a Universidade de Lisboa, de maneira que quando eu puder rebentar com elas, rebento. Carreira também não tenciono seguir, mas sou contra injustiças...

De repente pensei melhor e disse para mim: "Quem sabe se um dia realmente um doutoramento até não me vai ser útil." E disse-lhe:

"- Também vou!"» (in A Última Conversa, Editorial Notícias, 1998, p. 59).




sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

"Minha pátria é a língua portuguesa"

Escrito por Fernando Pessoa




Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.

Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.

Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso; depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.


Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Não me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único odeio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

Bernardo Soares Livro do Desassossego»).