quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Aristóteles e as Mutações (i)

Escrito por Mário Ferreira dos Santos








Texto de Aristóteles

I-13

I. Mas não devemos colocar como pontos ou linhas a matéria de onde vem o corpo, pelas mesmas razões.

II. e III. E também que os pontos e as linhas são limites, que é a matéria, a qual nunca pode existir independentemente da qualidade nem independentemente da forma. (...)


Reexposição comentada


I. Já demonstrou Aristóteles que nem os pontos nem as linhas podem ser consideradas como sujeito da magnitude, nem podem existir separadamente de per si.

II. Provado por Aristóteles, que não pode ser sujeito de aumento, o que não tem a quantidade em acto ou em potência, o ponto e a linha não poderiam ser elementos consistentes dos corpos; embora o sejam da matemática, não o são da matéria enquanto tal. Falta à linha e ao ponto as dimensões que possuem os corpos materiais. Se a linha tem superfície não tem profundidade nem latitude. O ponto, por sua vez, carece de toda a magnitude. Expõe Aristóteles que os pontos e as linhas são os limites da matéria, coisas incorpóreas em acto, e não podem engendrar um corpo que tenha uma grandeza. Também a matéria não pode existir sem a sua configuração e as suas qualidades, como bem salientam os comentaristas ao analisar este tópico. Acusava Tomás de Aquino os platónicos de considerar os entes matemáticos como substâncias dos corpos naturais.

Fundamentavam eles o seu pensamento no facto de serem o ponto e a linha termos das dimensões, como a forma é termo da matéria, e afirmavam que aquilo que, pelo qual é terminado, seria a matéria dos corpos, e sendo os pontos e linhas os últimos termos, seriam consequentemente o fundamento da matéria.

III. Na Metafísica demonstrou Aristóteles que uma coisa nasce absolutamente de uma outra, e que sua causa eficiente é, ora uma coisa em acto, da mesma espécie ou do mesmo género, ora uma enteléquia. Todo o devir implica um ser em acto de onde ele se origina e ele pode ser, como o esquematiza Tricot:

a) uma coisa é em acto, quer dizer uma forma na matéria, idêntica com a coisa produzida, quer específica, quer genericamente.

b) Para a poíesis propriamente dita (realização, criação de uma obra), resultado da tekhnê (arte) uma forma, que está no espírito do artista no estado de enteléquia.

Júpiter e seus satélites


(...) Impõe-se distinguir duas classes de mutações. Há em cada mutação a transição de um termo inicial para um termo final (terminus a quo e terminus ad quem). Serão esses dois termos, para que haja mutação, diferentes entre si, pois, do contrário, não haveria mutação. Algo entre eles deve-se opor. Mas essa oposição pode ser vária. Se a oposição é contraditória, e neste caso há afirmação e negação, isto é, mutação de um "ser" para um "não-ser", não se pode dar nenhum intermediário, como já nos mostrou Aristóteles no "Organon", pois não há entre opostos contraditórios possibilidade de um meio termo. Entre ser e não-ser não lugar para intermediários. Num movimento contínuo, duas esferas que ao se aproximarem se tocam, a passagem entre o "não-tocar" e o "tocar" é instantânea, como é instantânea a passagem de um corpo do estado de quietude para o de movimento.

O outro tipo de mutação é aquela em que o sujeito da mutação passa através de fases intermédias entre o terminus a quo e o terminus ad quem. No movimento tópico, local, vemos tal exemplo, pois há uma distância que o móvel percorrerá. Nas mutações intensistas, por exemplo, aquecimento-resfriamento, dá-se o mesmo. A teoria dos minima de Aristóteles pode ser aplicada também às intensidades como já o faziam os escolásticos, como o expõe Suarez nas "Disputationes Metaphysicas"... (in Mário Ferreira dos Santos, Aristóteles e as Mutações, Livraria e Editora Logos, S. Paulo, 1955, pp. 18-19; 97-98).



Júpiter


quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Sobre os Pitagóricos

Escrito por Simplício e Aristóteles







«Eles [os Pitagóricos] entendiam por infinito os números pares, "visto que tudo o que é par", como dizem os comentadores, "é divisível em partes iguais, e o que é divisível em partes iguais é infinito no que diz respeito à divisão em dois; pois a divisão em metades continua ad infinitum, ao passo que a adição do ímpar a limita ao pôr fim à divisão dicotómica". Assim os comentadores referem o ilimitado ao par, no que diz respeito à divisibilidade em metades, e é claro que pensam na divisibilidade infinita, não em termos de números mas de grandezas... Mas é claro que Aristóteles não considera de modo algum a divisibilidade em partes iguais como uma explicação do infinito». (Simplício, Phys., 455, 20).

«Ora os Pitagóricos também acreditam numa espécie de número - o matemático; só que, dizem eles, não existe separado, mas a partir dele formam-se as substâncias sensíveis. Pois eles constroem o universo inteiro a partir de números - somente não são números constituídos por unidades abstractas; pois eles supõem que as unidades têm grandeza espacial... Todos... supõem que os números consistem em unidades abstractas, excepto os Pitagóricos; mas eles supõem que os números têm grandeza, como já foi dito atrás». (Aristóteles, Met., M 6, 1080 b 16).

«A doutrina dos Pitagóricos, por um lado, oferece menos dificuldades do que as referidas anteriormente, mas, por outro lado, tem outras que lhe são peculiares. Pois não pensar que o número é capaz de existir separadamente afasta muitas das consequências impossíveis; mas admitir que os corpos se componham de números, e que isto seja o número matemático, é impossível. Pois não é verdade falar-se de grandezas espaciais indivisíveis; e por mais que possa haver grandezas desta espécie, as unidades pelo menos não têm grandeza; e como pode uma grandeza ser composta por indivisíveis? Mas o número aritmético, pelo menos, consiste em unidades abstractas, ao passo que estes pensadores identificam o número com coisas reais; de qualquer forma, aplicam os seus teoremas a corpos, como se eles fossem constituídos por aqueles números». (Aristóteles, Met., M 8, 1083 b 8).


domingo, 3 de janeiro de 2010

Sobre a Igualdade

Escrito por António Correia de Oliveira







Vi um fantasma, entre as névoas;
- «Quem és?» - Fugiu, mas ouvi;
«Dizem que sou a IGUALDADE...
Mentira! eu nunca existi!»

Roteiro de Gente Moça


sábado, 2 de janeiro de 2010

Agostinho da Silva: "doutorado em raiva e licenciado em liberdade"

Escrito por Miguel Bruno Duarte







«(...) eu creio mesmo que o homem possui as qualidades dos seus defeitos... É possível que destes resultem aquelas, por contraste ou evolução criadora. Pode ser que o Bem não seja mais do que o Mal superiormente degenerado. Não foi assim, por degenerescência electiva, que o homem se destacou do orango?

Se admitirmos tal teoria, o que não nos repugna, temos de olhar os nossos defeitos com esta vaga e lusitana consideração devida às coisas ruins:


Contigo, Senhor Diabo,
Antes de bem que de mal 

(DITADO POPULAR).


O bom senso nacional conciliou o culto divino e o maléfico.

Deus e o Demónio são incompatíveis em toda a parte, excepto em Portugal.


Um chabo
Ao diabo
Sempre se deu... 

(DITADO POPULAR)».

Teixeira de Pascoaes («Arte de Ser Português»).



Em "Conversas Vadias", Cáceres Monteiro, lendo perante Agostinho da Silva uma passagem do Best-Seller A Casa da Rússia, de John le Carré, diz que o autor, «por vezes, durante o dia, [chegara a] ouvir os discursos de um velho místico, com rosto de santo, que gosta de receber os seus discípulos, discípulos de todas as idades...». Referia-se, obviamente, ao Professor Agostinho da Silva, personalidade ímpar que logo corrigira essa coisa da dependência mental entre espíritos e pessoas, simplesmente dizendo: «Se fosse navio, não tinha jeito para ser rebocador, e em terra continua da mesma maneira». E assim, alheio a toda e qualquer ficção novelesca, acrescentava ainda: «Depois, ele [John le Carré] fala no tal místico com cara de santo. Eu suponho que ele estava de lado, só viu metade da cara. Se tivesse visto a outra metade, talvez mudasse de opinião...».

Daí também não ser surpreendente que Agostinho da Silva, naquele seu jeito frontal e sem papas na língua, tivesse confessado terem sido as suas relações com Leonardo Coimbra «as mais desastrosas que se podem imaginar». Aliás, convém relembrar o Ensaio de Psicologia Portuguesa, de Francisco da Cunha Leão, a propósito do perfil caracterológico do filósofo criacionista: «Também o filósofo Leonardo Coimbra nos parece de enquadrar nos coléricos. Sempre empenhado, aproveitando todas as oportunidades para agir, talento demonstrativo e oratório manifesto. Espírito largo convivente, de feição optimista e luminosidade solar. Dado à acção pessoal directa, mas assistemático, ressumam da sua vida e obra emotividade primária e a febre de acção. Pedagogo apóstolo por excelência, vivia o imediatismo e a dialéctica das relações humanas; deixou por isso discípulos» (ob. cit., Guimarães Editores, 1971, p. 203).

De resto, para Agostinho, sempre havia duas metades do mesmo rosto, tal como, no dizer de Pascoaes, «o dia e a noite crescem sobre a terra». E, por conseguinte, algo de muito interessante aqui ressalta acerca desta dualidade em Agostinho, nomeadamente quando, em certa ocasião, fora alertado por António Augusto Salgado Júnior quanto à possibilidade de tirar o doutoramento para seguir a carreira universitária:

«"- A mim não me interessa muito, porque quem deu cabo da Faculdade do Porto foi a Universidade de Coimbra e a Universidade de Lisboa, de maneira que quando eu puder rebentar com elas, rebento. Carreira também não tenciono seguir, mas sou contra injustiças...

De repente pensei melhor e disse para mim: "Quem sabe se um dia realmente um doutoramento até não me vai ser útil." E disse-lhe:

"- Também vou!"» (in A Última Conversa, Editorial Notícias, 1998, p. 59).




sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

"Minha pátria é a língua portuguesa"

Escrito por Fernando Pessoa




Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.

Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.

Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso; depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.


Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Não me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único odeio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

Bernardo Soares Livro do Desassossego»).


segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

'Socialismo universitário' (ii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte








É sabido que Agostinho da Silva não embarcava no simplismo judicativo assente na dicotomia Esquerda-Direita. Contudo, dava por vezes lugar a estranhas afirmações como a de que a «Espanha é que vai fazer funcionar bem as ideias do 25 de Abril» (17). Logo, pese embora a eventual prudência de Agostinho perante a bandeira de «um socialismo com face humana» (18), a verdade é que não procurou atender aos perigos do intervencionismo socialista traduzido numa economia mista em que se combinam sectores económicos públicos e privados.

No fundo, trata-se de um intervencionismo presente nas mais variadas instituições como a da Segurança Social, e, nessa medida, de um intervencionismo assente na centralização sindicalista e no controlo da moeda. Deste modo, a par de uma crescente e contínua desagregação no plano cultural, moral e religioso, estamos, de facto, perante um sistema de permanente crise e caos económico mundial, de que também nos fala Olavo de Carvalho nos seguintes termos: «Ninguém entenderá nada do mundo histórico em que vive hoje se não tiver em conta a longa colaboração entre o movimento comunista e algumas das maiores fortunas do Ocidente, por exemplo Morgan, Rockefeller e Rothschild. Os livros clássicos a respeito são os de Anthony Sutton, mas já em 1956 o Comitê Reece da Câmara de Representantes dos EUA levantou provas substanciais de que algumas fundações bilionárias estavam usando seus recursos formidáveis “para destruir ou desacreditar o sistema de livre empresa que lhes deu nascimento”. Essas fundações estão hoje entre os mais robustos pilares de suporte do governo socialista de Barack Hussein Obama» (19).

Seja como for, há sempre quem, ante o facto consumado da Nova Ordem Mundial, aponte como solução a implementação de uma Religião Universal entendida como «a Unidade subjacente à aceitação ecuménica das várias religiões e filosofias do Oriente e do Ocidente» (20). Porém, o problema não passa, a nosso ver, nem pela negação unilateral da «crise agónica do sistema capitalista» (21), nem muito menos por considerar «o amor da pátria ou do nacionalismo nas gerações de Pascoaes e de Fernando Pessoa» como algo de irreal e de inexequível (22). Senão vejamos: a ideia pascoalina de Raça em nada perdeu do seu valor eminentemente espiritual, valor esse que nunca será apreendido num sentido sociológico, ou num sentido puramente eugenésico à maneira dos povos germânicos e eslavos, pois quer apenas sublinhar um certo número de qualidades electivas, (num sentido superior) próprias de um Povo, organizado em Pátria, isto é, independente, sob o ponto de vista político e moral (23).

Consequentemente, é de todo incompreensível que alguém procure traduzir essa ideia em termos de «eficácia» (24), quando ela revela, por certo, uma realidade universal enraizada na herança e na tradição que a legitimam como tal. Por isso mesmo, Portugal é, em virtude do meio físico (paisagem) e da herança étnica, uma Raça espiritualmente explicável segundo a existência, por vezes potencial, ou, simplesmente, latente, de uma Língua portuguesa, uma Arte, uma Literatura, uma História (incluindo a religiosa) – uma actividade moral portuguesa; e, sobretudo, por uma Língua e uma História portuguesas (25). Aqui não há, portanto, lugar para o falso e abstracto universalismo tão badalado no meio universitário, onde, aliás, predomina incaracterístico e amorfo.


De resto, bastante afim desta vacuidade encontra-se o neo-orientalismo de espectro búdico, na medida em que, consagrado como meta-sistema dissolvente da visão dualista, substancialista e entitativa da realidade, não logra apreender, numa lógica verdadeiramente predicativa do movimento mais oculto ou patente, a presença do substante milagrosamente significado na Pessoa do Cristo redentor. E daí, por entre as névoas e os fumos do misticismo, a consagração do jogo insubstancial e indeterminado da ilusão constitutiva da realidade e não-realidade do Universo. Entretanto, resulta manifestamente abusivo considerar a lógica aristotélica como conceptualmente inoperativa perante a dissolvente experiência búdica da vacuidade, e, desse modo, como uma lógica supostamente antinómica perante a inesgotável potencialidade da não menos inesgotável perfeição do Acto (26).

Depois, temos ainda a hermenêutica de Álvaro Ribeiro que logrou reactualizar a teoria aristotélica das categorias nos termos de uma teoria da predicação. Assim, segundo o filósofo portuense, segue-se que: 1. As «categorias são variantes ou variedades de predicados», e não, como na cultura neo-platónica de Porfírio e Boécio, espécies ou géneros de ideias (27); 2. A ciência dos contrários, como afirmara Aristóteles, é só uma (28); 3. Exposta e traduzida em termos latinos, «a designação de substância primeira e substância segunda ontologiza-se por equívoco» (29).

De facto, a filosofia clássica, nomeadamente a aristotélica, revela-se perfeitamente actual. De sorte que estamos perante um caminho que, particularmente estranho a um sincretismo trans-religioso e trans-patriótico, se revê no princípio de individuação, assim como no princípio da liberdade tendencialmente ameaçado com o proliferar de movimentos nominalmente cívicos, quanto mais não seja em sua megalómana pretensão de querer salvar o mundo mediante o recurso a medidas tais como: aumentar os impostos sobre os altos rendimentos; reduzir, além do consumo em geral, o consumo de carne em particular; dar como predominantes a ética e a política sobre a economia em nome da produção e da distribuição da riqueza com vista à preconizada abstracção do «bem comum»; dar como desnecessária a Defesa do território e, nesse sentido, a existência do Exército; determinar, na Constituição Política, um estranho quão patético reconhecimento da personalidade jurídica dos animais, etc (30).



Mário Soares




Na verdade, o socialismo não se propaga somente por via político-económica, mas também, e, sobretudo, por via erudita, intelectual e cultural. Veja-se, por exemplo, o caso da Associação António Sérgio, a qual, correndo o ano de 1974, tivera por fim, consoante o testemunho de Rui Mateus, angariar fundos internacionais de apoio ao Partido Socialista, entre os quais, curiosamente, constam, por iniciativa e mediação de Mário Soares, os fornecidos por Mu' Ammar Kadhafi (31). Mas isso, caro leitor, é, a par das estruturas financeiras e políticas da Internacional Socialista, bem como da ingerência de dupla face soviética e americana em termos de apoio não menos financeiro e ideológico ao Portugal do pós-25 de Abril, uma outra história a ser revelada em lugar e momento oportunos.


Notas:

(17) Cf. António Quadros, ob. cit., p. 203. Neste prisma, também não deixa de ser curioso como António Telmo, procurando, em sua manifesta e prudente inteligência, demarcar-se do salazarismo, caíra na afirmação, deveras infeliz, de que o seu livro, intitulado História Secreta de Portugal, «até» tivesse sido «a favor do 25 de Abril». Tal é, de facto, o provincianismo do autor, a avaliar pelo trecho que se segue: «Mas antes de ir para lá [Brasil] aconteceu-me um episódio que posso contar, muito curioso. Eu estava em Lisboa sem trabalhar, e um amigo meu apareceu e disse-me para eu ir com ele àquele astrólogo, o Hórus. Eu não queria, disse que não estava interessado nessas coisas da astrologia. Bom, ele lá me levou, pagou-me a consulta e então aconteceu esta coisa extraordinária: pegou-me na mão, perguntou a hora e data de nascimento e disse: “Isto é uma coisa impressionante, você é o único homem que pode derrubar o Salazar”. E adiantou: “Mas não o faça, não o faça”» (António Telmo, Viagem a Granada, Fundação Lusíada, 2005, pp. 68 e 73).

(18) «Segunda Carta de Agostinho da Silva», in A Arte de Continuar Português, p. 193.

(19) Olavo de Carvalho, Ignorando o Essencial, in Diário do Comércio, 3 de Abril de 2009.

(20) Cf. Pedro Teixeira da Mota, «Da actualidade de alguns ensinamentos de Teixeira de Pascoaes», in NA, n.º 4, p. 20.

(21) Id., p. 16.

(22) Id., p. 18.

(23) Teixeira de Pascoaes, Arte de Ser Português, Assírio & Alvim, 1998, p. 10

(24) Pedro Teixeira da Mota, p. 19.

(25) Teixeira de Pascoaes, ob. cit., p. 17.

(26) Cf. Paulo Borges, «Índias espirituais e ilusão em Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa: Portugal como centro do descentramento e re-orientação do velho mundo europeu-ocidental», in NA, n.º 4, p. 36.

(27) Álvaro Ribeiro, Uma Coisa que Pensa, pp. 90-100.

(28) Id., p. 102. Tal não significa que «debaixo de algumas categorias [seja] possível estabelecer pares de adjectivos de significação contrária». Mas «nem sempre há nomenclatura inequívoca para as diversas categorias. Agudo pode opor-se a grave, mas também a rombo e a obtuso; ligeiro pode opor-se a moroso, mas também a pesado; claro opõe-se a escuro, mas estes adjectivos aplicam-se equivocamente segundo a luz e o som. Muitos outros exemplos confirmariam esta indução» (ibidem).

(29) Id., p. 104.

(30) Cf. Manifesto “Refundar Portugal», assinado por Paulo Borges in arevistaentre.blogspot.com, 10 de Nov. de 2009. Neste contexto, ver ainda, a propósito do “aquecimento global” e das «legislações draconianas alegadamente destinadas a “salvar o planeta”», o texto de Olavo de Carvalho, intitulado A mãe de todas as fraudes.

(31) Rui Mateus, Contos Proibidos, Memórias de um PS Desconhecido, Publicações Dom Quixote, 1986, p. 63.










sábado, 26 de dezembro de 2009

'Socialismo universitário' (i)

Escrito por Miguel Bruno Duarte






A campanha contra a filosofia portuguesa continua na ordem do dia. A confirmá-lo estão as opiniões vazias e desorbitantes de um anarca universitário apostado em relegar Álvaro Ribeiro para as trevas do inexistente. Quer dizer: no seu entender, Álvaro Ribeiro, embora passível de ser caracterizado pelo «brilho estilístico» - «nada de palpável» - a par de José Marinho e de outras personalidades da filosofia portuguesa, pouco ou nada nos legara no sentido - ora bem - do já podre e vil socialismo (1).

Por outras palavras, o nacionalismo alvarino – que o dito-cujo aparenta não ter compreendido, assim seguindo o exemplo dos seus congéneres universitários –, não somente peca por não ter atendido ao ideário geo-estratégico de Pascoaes para Portugal, como também por não ter vivamente repudiado a ditadura salazarista. E assim se implicam ad hoc todos aqueles que, repudiando o socialismo no âmbito da filosofia portuguesa, ora ficam eventualmente conotados com um presumível «totalitarismo de direita», ora directa ou indirectamente conotados com «qualquer outro reaccionário integralista» (2).

Depois, há ainda a questão do iberismo no quadro da segunda República espanhola, perante a qual o dito-cujo, vendo em Pascoaes a «evidente simpatia pelos anarquistas espanhóis e por um projecto político ibérico de natureza federal», exulta pelo que «parecia propender para a constituição duma União das Repúblicas Socialistas de Espanha, inspirada por republicanos e por anarco-sindicalistas e longe da influência de Moscovo» (3). Pois claro: a iminência do comunismo ibérico sob o auxílio maciço da União Soviética, ora determinado pelo envio de armas e conselheiros militares, ora pelo recrutamento, a nível internacional, de milhares de revolucionários prontos a combater e a destruir em solo espanhol, tudo isso estava longe de se fazer sentir no âmbito do ideário federalista e independentista da Espanha unitária (4). E daí até ao tumulto, ao caos e ao assassinato praticado por republicanos, socialistas, comunistas, anarquistas, trotzquistas - a que necessariamente correspondera a reacção violenta e não menos incisiva das forças de sinal contrário -, talvez tudo isso não passasse de uma questão de pormenor, e sem nenhum perigo para Portugal no contexto de um iberismo a fortiori (5).

No lance, Pinharanda Gomes é, efectivamente, um dos poucos portugueses que sabe pesar e avaliar as múltiplas implicações decorrentes da unidade hispânica ou ibérica, sobretudo quando afirma que o «mote "Espanha una, grande, livre" tanto serve o unionismo monárquico como o unionismo republicano, em que o peso de Castela é predominante»(6). De resto, Pinharanda Gomes, admitindo a «coexistência de nações reais em sua diversidade, num diálogo de estados» assente na respectiva autonomia e liberdade em relação a Castela, refere casos em que o nosso sentimento de independência pátria estivera indubitavelmente presente, a saber: «O Integralismo Lusitano não foi iberista havendo matizes a evidenciar: face ao poderio da Europa, António Sardinha preconizou uma aliança e uma aproximação estratégicas, de modo algum comprometedoras da independência nacional, nem outra coisa seria de esperar de um movimento que a si mesmo se intitulou de Integralismo Lusitano. A Guerra Civil (1936-1939) provocou receios, e a política diplomática de António de Oliveira Salazar levou a efeito o projecto de António Sardinha, o de uma coexistência em paz, de onde o Tratado de Amizade e de Não-agressão (1939, ratificado em 1948), e o Bloco Peninsular (1942), ambos denunciados ou reformulados após a Revolução de 25 de Abril de 1974. [Curiosa e contraditoriamente, os encontros entre chefes de Governo de Espanha e de Portugal eram chamados, na nomenclatura oficial, "Cimeira Luso-Espanhola". Hoje em dia, o Governo socialista fez desaparecer o Luso, passando a usar a designação "Cimeira Ibérica"]».








Por outro lado, o caso de Agostinho da Silva é também particularmente digno da mais funda atenção. Decerto que o seu pensamento, especialmente expresso no contexto de um nacionalismo místico e ecuménico, constitui uma das mais notáveis produções de que a cultura portuguesa se pode e deve realmente orgulhar. No entanto, revela igualmente aspectos insólitos no âmbito desse mesmo pensamento, designadamente no que à política e à economia se reportam.

Relembremos, pois, Agostinho da Silva aquando de uma sua resposta a Luís Machado, que, no papel de entrevistador, pergunta ao entrevistado se acha realmente que a paixão e o amor «são coisas que, quando existem, é difícil que existam»: «Eu acho [responde Agostinho da Silva]. Quando você me diz: "Gosto muito de quintas", eu posso perguntar-lhe de imediato: "Tem alguma?" E você responde: "Tenho uma!" Então eu desconfio que isso não tem nada a ver com amor... É simplesmente o lucro, é a comodidade, qualquer coisa do género... Se, por outro lado, você me diz: "Não tenho nenhuma quinta, nem quero!", então aí já eu penso: "Este sabe o que é amar". Como vê, são dois verbos distintos, o verbo "amar" e o verbo "ter"; a posse destrói sempre o amor» (7).

Ora, aqui mesmo deparamos com um paralogismo cuja origem podemos situar no que já Ernesto Palma caracterizara como sendo o retomar agostiniano do «blá-blá socializante da sua juventude sergista» (8). E assim é porque, além de partir de uma suspicácia já de si escudada na «pobreza escolhida», conforme bem vira e exprimira António Quadros (9), a verdade é que, não obstante a existência dos ambiciosos e sôfregos de lucro, também existem os que, consciente ou inconscientemente, procuram reconhecer na propriedade uma categoria simultaneamente primeira e final que resulte em benefício dos homens, ou, se quisermos, uma categoria que, traduzindo e reflectindo a realidade do que é próprio das coisas e do mundo, permita, não uma relação de posse ou de destruição, mas antes uma relação de mútua complementaridade entre o homem e o mundo (10). Aliás, só assim se compreende que a propriedade, mais do que uma relação económica, seja uma relação que, referida mais propriamente à fortuna do que à riqueza, assegure e perpetue, em termos de substância religiosa, o culto e o património familiares.






Entretanto, haverá sempre quem, com inteira razão, encontre em Agostinho da Silva um natural repúdio pela colectivização da propriedade levada à cabo por experiências comunistas e socialistas do século XX (11). Sobre isso, não há, portanto, dúvida nenhuma, bastando, aliás, ver como Agostinho da Silva, atendendo à tradição municipalista portuguesa, preconizara, de algum modo, a economia comunitária de produção e consumo da Idade Média (12). Porém, se de facto assim é, não menos verdade é igualmente o facto de que Agostinho da Silva, a avaliar pelos «claros vestígios nos Dispersos», teria, apesar de tudo, tido «a ilusão de que o comunismo teria trazido a abundância aos povos que se lhe submeteram e hoje são alimentados a rações» (13).

Não admira, pois, que do pensamento de Agostinho decorram e prevaleçam interpretações que facilmente redundam nas falsas e vazias abstracções provenientes do esquerdismo triunfante, tais como as relativas à «repartição da riqueza», bem como à «distribuição justa e paritária da capacidade de “fazer política”» (14). Enfim, tudo ilusões alicerçadas em simplismos mentais e bem-pensantes como o que ora se segue: «Numa sociedade em que “nossas” seriam apenas as coisas que nos eram imediatamente mais próximas, como a roupa e uma habitação, tudo o mais seria gratuito e a ficção do dinheiro e da eterna e fátua necessidade deste seria desfeita. Se precisássemos de transporte, tomá-lo-íamos. Se precisássemos de um livro, buscá-lo-íamos numa biblioteca ou livraria (tornada neste modelo, numa espécie de biblioteca de bairro), se precisássemos de alimentos, ou os buscávamos na nossa horta, plantada com gosto e prazer, ou a procurávamos no mercado automatizado ou provido apenas daqueles vendedores que retirassem prazer do contacto humano e da actividade mercantil característica do festivo “espírito de feira” da nossa medievalidade» (15).


Notas:

(1) Cf. António Cândido Franco, «Nota corrida sobre o pensamento geo-estratégico de Teixeira de Pascoaes», in revista Nova Águia, 2009, n.º 4, p. 100.




António Sardinha




(2) Id., p. 100. É curioso observar como já nem a Universidade, ou pelo menos uma parte dela, consegue fazer tábua rasa do nacionalismo inerente aos poetas e filósofos portugueses, tais como Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, etc. Contudo, a Universidade, mercê das estruturas socializantes que a informam, continua a decidir quem, de facto, merece ou não o devido reconhecimento no domínio da cultura portuguesa. Caso típico é o de Miguel Real, cuja aparente consideração por Pascoaes dá-se em nome do carácter «lírico» e «amorável» da respectiva obra, pois «nunca assume um conteúdo xenófobo» como aquele que supostamente transparece no nacionalismo «absolutista» e «cruzadístico» de António Sardinha (cf. «O perfil de Portugal segundo Teixeira de Pascoaes», in Nova Águia, n.º 4, pp. 41-42).

(3) Id., p. 99.

(4) No contexto da situação revolucionária em causa, são de realçar as Brigadas internacionais organizadas pela Internacional Comunista, particularmente apostada em Paris como a grande e crucial placa giratória para inocular os brigadistas em Espanha. E nesse mesmo contexto, saliente-se ainda as tentativas de assassinato de Largo Caballero, Ortega y Gasset e Jiménez de Asúa.

(5) Após referência aos intelectuais de franca oposição aos regimes de Franco e Salazar, Pinharanda Gomes não deixa de reconhecer que, «(...) com ou sem razão, é exacto que se temeu a implantação de uma República comunista em Espanha pelos riscos de absorção que ela poderia trazer à identidade nacional. O que se diz da ameaça comunista é dizível da ameaça maçónica, mas é também dizível da ameaça falangista e dos fundamentalismos nacionalistas» (in Meditações Lusíadas, Fundação Lusíada, 2001, p. 126).

(6) Id., p. 123.

(7) A Última Conversa, entrevista de Luís Machado a Agostinho da Silva, Editorial Notícias, 1998, p. 79.

(8) Cf. «Agostinho da Silva, filho pródigo», in Leonardo, Revista de Filosofia Portuguesa, Ano I, n.º 4, p. 41.

(9) Cf. «Resposta do autor a Agostinho da Silva», in A Arte de Continuar Português, Edições do Templo, 1978, p. 199.

(10) Cf. Orlando Vitorino, Refutação da Filosofia Triunfante, Teoremas, 1976, Cap. III.






(11) Rui Martins, «Dez parágrafos agostinianos de pensamento político em “Ir à Índia sem abandonar Portugal”, in NA, n.º 3, 2009, p.81.

(12) Cf. Victor Mendanha, Conversas com Agostinho da Silva, Pergaminho, p. 43.

(13) Cf. Ernesto Palma, «Agostinho da Silva, filho pródigo», p. 41. De resto, o paralogismo que se segue é igualmente esclarecedor: «... não há propriedade alguma que Deus possa abençoar; Deus só abençoa a não propriedade» (Agostinho da Silva, «Considerando o Quinto Império», in Dispersos, Lisboa, ICALP, 1988, p. 193).

(14) Rui Martins, ibidem, p. 83.

(15) Id., p. 81.

Continua


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Tópicos de acção do Liceu Aristotélico

Escrito por Miguel Bruno Duarte







O Liceu Aristotélico propõe-se a:

1. Cultivar a arte de filosofar, tendo por eixo a obra lógica e psiconoética de Aristóteles.

2. Demonstrar, segundo a tese central de Álvaro Ribeiro, que filosofia sem teologia não é filosofia portuguesa, assim como a presença e o contributo das três tradições orientais - Judaísmo, Cristianismo e Islamismo - na formação da mesma.

3. Conciliar, mediante a noção de Pátria, nacionalidade e universalidade.

4. Distinguir a existência transcendente de Portugal de toda e qualquer forma de regime político, seja ele de ordem monárquica, corporativa ou socialista.

5. Distinguir o liberalismo, enquanto sistema da liberdade, do capitalismo e do socialismo.

6. Fazer ver como o liberalismo económico, jurídico e religioso é a única doutrina capaz de vencer o socialismo internacionalista.

7. Salientar, a par da concepção aristotélica de propriedade, a importância axial da Filosofia do Direito.

8. Tornar presente as duas Europas: a central, dominada pelo espírito prático dos nórdicos, e a periférica, que abrange os povos do Mediterrâneo, da Península Ibérica e das Ilhas Britânicas.

9. Tornar actual e actuante as potencialidades únicas do pensamento atlântico.

10. Denunciar o criptocomunismo e suas calamitosas consequências no ensino e na política mediante a estatização da economia, o controlo da informação e o repúdio da singularidade da pessoa humana.

11. Mostrar como a
 Universidade, inalterável nas suas estruturas e finalidades desde o Marquês de Pombal, continua a ser a mais poderosa instituição quando comparada com o Estado, a Maçonaria e os partidos políticos.

12. Dar a entender como a determinação e o conhecimento do essencial de um povo está na sua Constituição Política.