domingo, 28 de fevereiro de 2016

Agostinho da Silva, ele próprio

Palavras de Agostinho da Silva segundo a transcrição de um vídeo gravado por António Escudeiro




«Se, porém, está marcado nos destinos que se seja ao mesmo tempo fraterno e universal, o que muitas vezes sucede é que se tenha de começar por pôr de lado aquilo que é apenas uma falsa fraternidade e repousa no desejo que têm os outros de exercer suas escravaturas, tanto mais perigosas e difíceis de evitar quanto, na maior parte das vezes, se acobertam com os pretextos de uma irmandade que é necessário não quebrar. E Portugal teve, quase logo de início, de tomar a sua definida atitude em face de uma Castela que se não resignava a deixar que cumprisse seu particular destino uma daquelas regiões periféricas sem as quais a vida material lhe seria extraordinariamente difícil. Portugal teve de resistir a Castela para manter o seu direito de ser; teve, por obediência ao pai que o concitava com o seu chamamento, de ser aquela espada de que fala o Evangelho e começar por actos de guerra a missão que era, afinal, essencialmente de paz; teve, para poder unir mais tarde, de separar primeiro.

Fê-lo como logo de princípio se constituíra em nacionalidade, apoiado nas características físicas de sua terra, toda em brando declive até o mar; apoiado no voluntarismo de sua gente, disposta a talhar-se um domínio que fosse não o próprio, mas o domínio daquela Santa Maria, a quem o Rei entregara o território; o único domínio sobre o mundo daquela que nada tivera enquanto o universo pagão se sustentara vivo e continuava a nada ter numa Europa que, no fundo, pagã continuava; o domínio daquela que representava a porção virgem da alma que sempre persiste em todo o homem e em que sempre se pode renovar o milagre de nascer um Deus; finalmente apoiado, pelo que respeitava ao irmão-corpo, numa economia que era das mais importantes para a Europa e que, por outro lado, se imbricava perfeitamente em todo o jogo da economia inglesa.

E é por este lado que a guerra da independência de Portugal é, paradoxalmente, ao mesmo tempo que o faz voltar as costas à Europa, o único momento em que Portugal está fundamentalmente interessado numa guerra europeia. Atoleiros, Trancoso, Aljubarrota e Valverde são episódios da Guerra dos Cem Anos. Aos Espanhóis aliados da França se opõem os portugueses aliados de Inglaterra; e, neste ponto, a vinda dos arqueiros ingleses significa o primeiro dos desembarques que, de vez em quando, para defender sua insularidade, a Inglaterra tem de realizar na Europa. Mas não só politicamente Portugal se opõe à Europa, não só militarmente, e pondo de parte todos os desencontros de terreno e de tempo, Nunálvares está contra Joana d'Arc. Em toda a sua luta, jamais o Português tomou uma atitude que pudesse de algum modo envolver uma quebra da unidade da Igreja. Porque a realidade era essa: todo o atentado contra a unidade da Igreja, todo o gesto por menor que fosse para impedir que Roma, pelo menos espiritualmente, governasse todo o Ocidente da Europa como ponto de partida para governar o mundo, era efectivamente um atentado contra o cristianismo; para o pormos mais claro no vocabulário moderno, contra o catolicismo.






Estátua de Joana d'Arc na Catedral de Notre-Dame de Paris



Pintura de Paul Delaroche mostrando o Cardeal Henrique Beaufort interrogando Joana d'Arc na prisão.





As objurgatórias de Camões contra os outros povos que se denominavam cristãos e estavam por suas lutas internas enfraquecendo o cristianismo têm aqui o seu ponto de arranque. O infiel perdurará na medida em que essa fraternidade cristã se quebrar. O bárbaro continuará existindo na terra na medida em que o civilizado se dividir. E que estava fazendo apesar de tudo Joana d'Arc? Estava dando, quando tomava para si o direito de interpretar pessoalmente, segundo o seu sentimento e sua razão, as vozes do Céu, estava dando a primeira base para o protestantismo germânico; e estava dando, quando defendia uma França contra uma Inglaterra, o primeiro reconhecimento daquele nacionalismo que tão anticristão se haveria depois de mostrar; tão protestante, de igual modo. Por esse lado se explica que um tribunal eclesiástico a condenasse. E se explica depois que a Igreja a canonizasse: porque na sua luta dramática, quando tudo parecia conluiar-se para a desesperar, Joana jamais deixou de ser humilde; como S. Francisco, defendendo doutrinas tão semelhantes às de Valdus, humilde fora e, por humilde, Santo; Valdus, porém, por seu orgulho, herege.

Mas Nunálvares estava, por uma parte, claramente obediente a um Papa de Roma, enquanto o castelhano, cismático, defendia o Papa de Avinhão; por outra parte, ele não estava batendo-se por uma nação portuguesa contra uma nação espanhola. Em primeiro lugar porque não havia uma nação espanhola, embora as tropas que invadiram o país fossem exclusivamente castelhanas; em segundo lugar porque mesmo muito tempo depois de terminada a guerra, nunca os portugueses negaram que fossem espanhóis no sentido de pertencerem à Península: espanhóis, sim, mas espanhóis de Portugal, não espanhóis de Castela; espanhóis, mas espanhóis que defendiam, contra um estilo de vida de opressão e de fanatismo e de pura cobiça, um estilo de vida de liberdade, de compreensão e de cooperação que deveria ter sido, por suas razões históricas e por suas tradições, o verdadeiro estilo de vida da Península; espanhóis, mas espanhóis que defenderiam com o seu sangue e quantas vezes fosse preciso, atravessando os martírios de Almada ou de Lisboa, o direito de determinarem o seu próprio destino: e que, graças à geografia de seu território, graças à qualidade de sua gente, graças à fileira de seus portos marítimos, graças à sua plataforma de excelente pesca, graças a seus verões de excelente sal, podiam realizar as façanhas de que não seriam capazes nem o Sul, nem a Galiza, nem Catalunha. A guerra da independência não é uma guerra entre grupos nacionais, mas uma guerra entre irmãos: a guerra que o Evangelho já previra».

Agostinho da Silva («Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa»).


«Há na Península duas nacionalidades de estilo irredutível, e outras redutíveis. Mesmo irredutíveis, formam as duas um conjunto, por afinidades inegáveis - o que lhes marca posição própria no agregado da civilização ocidental europeia, de que derivam, mas com tonalidade inconfundível. Há uma expressão ibérica da vida, embora polimorfa, vincada por igual na História.

E dentro desta expressão ibérica, murada a leste por altos Pirenéus, mas sem qualquer outro limite para sul e ocidente, assim nos mares como nas terras - Portugal é no entanto irredutível. Há que aceitá-lo, no dizer de um notável escritor bem espanhol, como um facto irreparável.




Formado embora, a modos de manta de retalhos, o certo é que prevaleceu a fisionomia de um deles, e o exercício prolongado da comunidade dos interesses colectivos, perigos, sacrifícios e aspirações, tanto acentuou o seu carácter que a marca portuguesa é das mais pertinazes no seu vinco, imprimindo-se a elementos raciais, mesológicos e económicos diversíssimos. Giberto Freyre, por exemplo, tem surpreendido nas mais variadas manifestações dos povos tocados pela nossa acção histórica, ou comparticipes do nosso sangue, a dedada portuguesa. Múltiplos estudos de ordem parcelar contribuem para prova desse asserto.

Os que medem a civilização por sinais exteriores da obra material e da exploração intensiva dos territórios, não sentem porventura a profundeza genesíaca da "maior vitória do humano, do demasiado humano, sobre o económico", segundo a expressão feliz daquele autor».

Francisco da Cunha Leão («O Enigma Português»).


«Victor Mendanha - Portugal entrou para a Comunidade Económica Europeia, facto apoiado por uns e criticado por outros. Como vai a Europa de saúde?

Agostinho da Silva - A Europa, com tudo quanto fez, dando tanto instrumento ao Mundo e tendo Portugal transportado grande parte desses instrumentos para toda a Terra, está esgotada. A Europa esgotou-se, fisicamente, porque levou toda a sua vida a realizar coisas, a pesquisar para saber, a saber para prever e a prever para poder. Mas as pessoas, a maior parte das pessoas do Mundo - isto acontece com oito em dez homens - não são dessa zona europeia ou euro-americana.

Toda essa gente possui outros ideais que não são os do Poder sobre os outros nem os do Poder sobre si próprios. Coibindo-se, restringindo-se a um determinado código que lhe impuseram, a sua ambição não é o Poder mas, fundamentalmente, o Ser.

A Europa esgotou-se no Poder e temos, agora, de partir para outra fórmula que é cada homem ser aquilo que é. Para isso há necessidade de mudar, muitas vezes, as próprias estruturas do Homem e é para isso que estão a avançar as ciências técnicas e médicas. Temos de avançar para modificar, radicalmente, todas as circunstâncias em que até hoje tem vivido o Homem.






V.M. - Poderia o Homem ter vivido de uma outra forma?


A.S. - Não existia outra maneira de viver. Era esse o trajecto que havia para cumprir mas, agora, temos à nossa disposição o saber científico e as técnicas necessárias para modificar tudo isso e modificá-lo radicalmente, dando a liberdade a todo o homem de ser aquilo que ele tem de ser: um criador sem nenhuma espécie de inibição.

V.M. - Será verdade, então, que a Europa já deu tudo o que tinha a dar, como muitos afirmam?

A.S. - Deu o que tinha a dar e deu muito. Todos aqueles instrumentos fundamentais que Portugal levou ao Mundo, nos séculos XV e XVI e ainda, depois, em virtude da emigração, tudo isso foi fundamental para que o Mundo se conseguisse entender.

O Direito Romano renascido é a linguagem que todo o Mundo tem de usar para se entender e se entender até num sentido: modificar esse Direito Internacional de tal maneira que se adapte às culturas de cada homem. Estamos, a cada passo, a assistir a um conflito entre o Direito Internacional existente e a cultura de cada povo frequentes vezes muito diferente.

Esse Direito foi-lhe imposto pelos portugueses, nos séculos XV e XVI, mas é evidente que terá de ser modificado.

Levou-se a essa gente uma economia de trabalho bastante dura, estrita, que escravizou praticamente todos os homens, quer eles fossem tecnicamente escravos quer não, mas necessária à construção das estruturas fundamentais do dito Mundo.

No entanto, nós, hoje, dispondo do automático e da informática, estamos a avançar, cada vez mais e de uma forma inteligente, para a possibilidade de transformar tudo isso e de irmos, a pouco e pouco, criando o lazer, as horas livres, aquele ócio tão necessário para que as qualidades do Homem possam agir espontaneamente.

Por outro lado, juntamente, nós levámos a essa gente uma disciplina de ideologia, uma disciplina de religião, uma disciplina de pensamento transcendente que, muitas vezes, chocou com o pensamento transcendente de outros povos e que tem, evidentemente, de se modificar.

V.M. - Como poderão os portugueses contribuir para esse tipo de mudança?

A.S. - Os portugueses levaram a Europa ao Mundo mas, agora, todos aqueles que falam a língua portuguesa, têm o dever de trazer o Mundo à Europa.

E espero que tragam esse Mundo tão diferente da Europa, que não deseja aniquilar a Europa como muita gente supõe mas, isso sim, humanizar essa Europa, restituir-lhe aquela força interior e aquela capacidade de imaginação por ela perdida por só imaginar num determinado sentido, por se restringir a um certo campo.





12 de Junho de 1985: assinatura da adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE), no MOSTEIRO DOS JERÓNIMOS.


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António Guterres: antigo Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados










V.M. - A nossa entrada para a Comunidade Económica Europeia é tida, por alguns, como um verdadeiro malefício para a cultura portuguesa, capaz de permitir a sua dissolução na cultura de outros povos mais poderosos. Qual é a sua opinião sobre isto?

A.S. - A minha opinião sobre este assunto é a mesma que deve ter tido o homem que, pela primeira vez, afrontou um cavalo: também ele pensou que o cavalo, com um coice apenas, o poderia inutilizar para sempre. Mas esse homem achou que não, que a única coisa a fazer era inventar a arte da equitação, montando o cavalo.


Ficar triste com os malefícios que a Europa pode trazer é uma atitude de fraqueza, a qual não desejo nem pensada nem falada.

O que tem de haver é uma atitude de força e, digamos, de boa "agressividade" impondo o que Portugal e o mundo português tem, para que essa Europa se restabeleça, pois vamos ser médicos e enfermeiros da Europa ou não seremos nada.

V.M. - E as nossas relações com a Espanha, no contexto da Comunidade Económica Europeia?

A.S. - Se tivermos por objectivo rever toda a História de Portugal, inclusive a sua fundação, é evidente que esse mesmo princípio terá de ser revisto. Não é mais possível, daqui por diante, um afastamento de Portugal em relação aos outros povos da Ibéria peninsular da mesma forma como isso aconteceu da outra vez.

É evidente ter de manter cada povo a sua individualidade, cada país ou cada Estado tem de ser muito bem definido e muito bem limitado, mas torna-se completamente impossível praticar, entre as culturas, os divórcios havidos na História de Portugal até agora.

Temos de entender todas as culturas da Península e teremos de compreender todas as culturas desses povos, a partir daqui, a entrarem numa obra conjunta.

V.M. - A recente visita do Presidente da República do Brasil terá a ver com os planos portugueses na Europa e poderá significar uma aliança tácita connosco nessa acção?

A.S. - A visita do Presidente José Sarney indica precisamente isso. É a oferta de que o Brasil poderá estar connosco e tenhamos a certeza de que, deste modo, não é apenas o pequeno Portugal, julgado por muitos fraco e pobre, a entrar na CEE, pois entra o Brasil também.







Recordemos que toda a Comunidade Económica Europeia, e muitos outros países da Europa, cabem no Brasil à vontade, e que é só uma questão de os ir recortando e colocando, direitinhos, no mapa para se verificar caberem todos lá. A viagem de uma ponta à outra do Brasil poderia levar-nos de Lisboa a Moscovo, ou ainda mais longe.

Com o Brasil connosco não vamos ter qualquer espécie de receio na Comunidade Económica Europeia, uma Organização inútil, doente, que não se entende, que dificilmente resolve os seus problemas pois levou anos, até, para saber qual deveria ser a cor do passaporte europeu.

V.M. - A que se deve semelhante situação?

A.S. - A Comunidade Económica Europeia encontra-se, continuamente, em desacordo consigo própria pois trata-se de pequenas nações provincianas a tentarem agregarem-se numa Nação grande.

Nós, que fizemos o Brasil, sabemos o que isso é há muito tempo, há centenas de anos. Além do mais a CEE não é a Europa, como se costuma erradamente dizer, mas apenas o departamento económico da Europa. Qualquer departamento económico deve ser, sempre, secundário porque o que devemos ter é uma Europa onde a economia seja o sustento mas nunca o objectivo.

V.M. - Há povos mais iguais do que outros. No entanto, o povo português é muito especial, com grandes virtudes e enormes defeitos. A que se poderá dever essa característica?

A.S. - A que se deve não sei, já que ninguém decifrou ainda o mistério fundamental do Mundo. Mesmo os grandes matemáticos, os grandes homens da ciência vão, sempre, chocar com o mistério quando tentam definir o Mundo. Para essa pergunta não há forma racional e positiva de responder.

O que se pode dizer é que os portugueses aparecem, efectivamente, com uma característica diferente, muito diferente da dos outros povos. É um ser a albergar em si, tranquilamente, variadas contradições impenetráveis, até hoje, ao racionalizar de qualquer pensamento filosófico.

O homem português comporta-se, exactamente, como se tivesse ao seu dispor um molho de chaves tendo de empregar cada chave na fechadura própria e não, como sucede com muitos outros povos, apenas uma chave com a qual pretendem abrir todas as portas...

V.M. - Como poderá, então, o homem português aproveitar a sua maneira de ser?

A.S. - Torna-se necessário que o homem português alargue, ao máximo, as estruturas interiores e as circunstâncias exteriores para que esse alargamento, dessa tal característica de possuir todas as características, possa agir.






O português, em situações difíceis, aparece como capaz de apresentar uma solução de que ninguém se tinha lembrado e perante a qual os outros povos até recuaram, por parecer não existir qualquer espécie de solução.

Do português há a esperar tudo e haver um povo no Mundo do qual tudo há a esperar parece-me ser uma coisa extraordinária. Pegando num tema da moda, nós diríamos que o extraordinário de Fernando Pessoa não foi ele ter feito poesia sendo Álvaro de Campos ou sendo Caeiro ou, ainda, outros sujeitos bem diferentes. O extraordinário de Fernando Pessoa foi o facto de se tratar de um indivíduo imprevisível.

Gostaria muito que o Povo português se especializasse no imprevisível».

«Conversas com Agostinho da Silva» (1994).



«O modelo bélico clássico foi substituído pela crise económica. Os grupos de poder e as nações mais poderosas declaram-nos uma guerra financeira, intervêm e impõem as leis que, segundo eles, devem legislar o país intervencionado para recuperar do problema que eles causaram.

Em 2010, em plena crise, criou-se na Europa uma instituição supranacional e não democrática, a troika (formada pelo BCE, o FMI e a Comissão Europeia), que interveio na soberania dos países. Em troca da oferta de ajuda económica obrigou-os a ajustes cruéis: subida de impostos, cortes nos gastos da educação, da saúde, das prestações sociais, do desemprego e das pensões, redução do número de funcionários públicos, redução ou estagnação dos salários... Estas leis afectaram os aspectos fundamentais da vida das pessoas. E ainda que não fosse ético, sim, era legal. Antes da crise criaram as estruturas legislativas e judiciais com as quais obteriam o máximo benefício desta catástrofe. Só depois de aprovado o Tratado de Lisboa, no ano de 2007 (a Constituição Europeia), é que principiou a crise, no ano de 2008. É, no mínimo, suspeito.

(...) Para os senhores do poder, a guerra é um instrumento de organização social e, neste processo, a crise é uma intervenção criada com vários fins. É uma guerra económica para estabelecer uma escravidão humana mais sofisticada, concordante com o seu conceito de sociedade global.





Atacam-nos por todos os flancos socioeconómicos. Primeiro, "oferecem-nos" o dinheiro, ao abrir de modo desafogado os créditos. Depois mudam as condições das hipotecas subscritas, com a subida dos juros, ou seja, do preço do dinheiro emprestado. A prestação mensal de uma hipoteca média passou de 400 para 1200 euros mensais. Em paralelo, de forma brusca, restringiram o crédito, produzindo a paralisação ou a estagnação da actividade económica. A seguir chegou o efeito devastador do desemprego.

(...) O segundo passo deu-se quando os bancos privados receberam uma série de ajudas públicas para compensar o incumprimento das hipotecas e o impacto da crise imobiliária. Converteram-se em receptores das ajudas e nos donos de todas as casas hipotecadas não pagas e embargadas. Os bancos privados ficaram com as ajudas públicas e com as casas de todas essas pessoas que, ao verem-se sem trabalho, as perderam, continuando todavia devedoras das entidades financeiras porque a garantia prestada não foi aprovada.

Na fase das execuções por incumprimento os bancos avaliaram os imóveis a preço de crise, como uma enorme depreciação do valor pelo qual foram comprados. Assim, no momento de execução das hipotecas, a perda do imóvel não cobre, na maioria dos casos, a totalidade da dívida contraída com a entidade financeira. O resultado é que a pessoa embargada não só perde a habitação como continua a dever dinheiro ao banco. O negócio da banca privada foi perfeito. Ficou com:

- As ajudas públicas
- Os imóveis
- E continuam a ter uma quantidade imensa de pessoas presas por uma dívida, escravas dessa dívida.

(...) Por seu lado, o BCE regula os tipos de juros e injecta dinheiro nos bancos para o seu resgate, o seu saneamento. Em síntese, e tomando como modelo o ocorrido em Espanha, a banca privada, animada pela bolha imobiliária, começou por socializar os empréstimos: dinheiro fácil e rápido para toda a gente. A seguir provocou uma subida gradual dos tipos de juro. Depois, ou ao mesmo tempo, reduziu drástica e repentinamente o empréstimo e a bolha imobiliária rebentou. O resultado foi o aumento dramático do desemprego e das execuções hipotecárias maciças perante a falta de pagamento e a altíssima morosidade.

Por fim veio o resgate bancário por parte do Estado, com o dinheiro dos contribuintes. Através do BCE, o Governo de Espanha recebeu uma série de ajudas que foram parar à banca privada (às entidades bem e mal geridas) com o argumento, ainda não demonstrado, de que a queda de certos bancos provocaria um dano maior. A consequência última é a depressão económica.






(...) O que se fez foi seguir as directrizes do FMI, do BCE e da Comissão Europeia: subir impostos, fazer reformas laborais, das pensões, etc. As ajudas não chegaram à economia doméstica nem às pequenas e médias empresas. Há uma restrição absoluta. A juntar a uma das pressões fiscais mais elevadas da Europa, acompanhada por uma taxa de desemprego igualmente alta. Estamos numa situação de colapso e de depressão económica desorbitada e dramática.

(...) A Espanha está à venda. Como o resto dos países europeus a que o império Bilderberg declarou guerra económica, que baptizei com o nome de Eurosul: Grécia, Itália, Portugal, para além da Irlanda e de Chipre, com o escândalo do ataque que sofreram os aforradores em Março de 2013. O presidente Nicos Anastasiades foi obrigado a comunicar ao país que aceitara "a opção menos dolorosa", ou seja, o resgate, e que estava disposto a assumir o preço político" da decisão, ou seja, que os cipriotas não o reelejam nas próximas eleições. O Eurogrupo concedia-lhe um resgate de 10.000 milhões de euros em troca dos clientes dos bancos pagarem um imposto. Segundo Anastasiades, o dinheiro deste imposto seria recuperado com acções dos bancos resgatados, cujo valor está garantido com o retorno que o Estado cipriota espera obter da exploração de umas jazidas de gás recentemente descobertas.

Aí estava outra armadilha: a guerra pelos recursos. Endividam os países e apropriam-se de parte da sua soberania, do seu dinheiro e das suas riquezas naturais - no caso do Chipre, do gás - ao decidirem por eles. Outra jogada de mestre dos desenhadores do sistema.

Na Grécia, dois políticos alemães instaram-na a vender as ilhas para saldar a dívida. Já nem dissimulam. O descaramento não tem limites. A Grécia possui edifícios, empresas, e ilhas desabitadas, que poderiam ser utilizadas para o pagamento das dívidas, declararam o deputado liberal Frank Schäffler e o democrata-cristão Josef Schlarmann ao diário alemão Bild, segundo o jornal Abc. Ainda de acordo com o diário espanhol, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros grego, Dimitris Droutsas, respondeu numa entrevista à televisão ARD TV que, no momento, não lhe parecia uma sugestão adequada.

É nesta conjuntura que os bancos centrais, como na Europa o BCE, oferecem dinheiro e ajuda (os famosos resgates) em troca da cessão, ou da compra, da soberania nacional. E daí a referida frase de Draghi, o presidente do BCE: "Os Estados devem compreender que há tempo que perderam a sua soberania".

Mario Draghi, actual presidente do Banco Central Europeu (BCE).


Banco Central Europeu em Frankfurt Main, Alemanha


Durão Barroso, ex-Presidente da Comissão Europeia






















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Lord Monckton (ver aqui).










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Quando é que a perdemos? Quando, sem informarem correctamente os cidadãos, os responsáveis europeus, muitos deles membros de Bilderberg, como o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, aprovaram o Tratado de Lisboa, ou o Tratado de Maastricht, onde se incluía uma drástica cedência de soberania. Tudo se desenhou sem contar com o povo, nas costas dele. Ingenuamente ou através de enganos, o povo confiou numa série de políticos que representam os interesses do poder económico em vez daqueles que os elegeram nas urnas. A democracia é uma grande mentira. Não há democracia.

O resgate é a marca dos poderosos na Europa. Na realidade é uma perda de soberania e o fracasso da União Europeia como a venderam e continuam a vender os seus criadores: um projecto de paz, democracia, liberdade e direitos humanos, nas palavras de uns e de outros. Que mentira mais refinada, que sofisticação, que marketing mais esplêndido. Os cidadãos perguntam-nos: para quê tanta União Europeia e liberalização de mercados se, no fim, somos mais desiguais que antes, mais pobres que antes, mais escravos? Porque, como nos níveis da pirâmide, a União Europeia não está nas mãos do povo europeu, mas do império Bilderberg».

Cristina Martín Jiménez («O Clube Secreto dos Poderosos. Os Planos Ocultos de Bilderberg»).


«Luís Machado - Quem o conhece sabe que o senhor tem sido sempre um iberista. Porquê esse antieuropeísmo, não gosta mesmo da Europa?

Agostinho da Silva - Realmente, não morro muito de amores por ela. Mas será que a Europa julga que pode governar sem a Península, sobretudo sendo ela, como é, duplamente mediterrânica e atlântica? É bom lembrarmo-nos que foi essa Península que construiu o Bundest Bank e outras coisas de grande dimensão; o Delors vem de vez em quando com um pacote e oferece-nos 10%, esquecendo-se que muito mais que esse dinheiro roubaram-nos eles no Tejo, aquando do negócio da pimenta, e mais tarde também ficaram com o dinheiro que veio do Brasil, a primeira grande exportação do açúcar. Mas depois ainda veio o ouro, e os diamantes, e a madeira da Amazónia, foi tudo isso que construiu a Europa. Talvez seja realmente menos pró-europeu, porque entendo que cabe à Península comandar essa união, sem a menor hesitação, e não só deve como pode fazê-lo».

Entrevista a Agostinho da Silva («A Última Conversa» - 6.ª edição de 1998).


«O que o levou a escrever a História Secreta de Portugal?

Eu acho que o escritor não programa... Eu não tenho cor política, nunca foi uma coisa que me interessasse muito. Embora, evidentemente, tenha as minhas posições, as minhas indignações. Também me indigno... Mas nesse meu livro o objectivo era o de ajudar os portugueses a criar um nacionalismo místico, que fosse como um suporte de tudo quanto se passa. E acho que isso está a aparecer.




Mas escrever sobre o nacionalismo naquela altura não podia ser considerado como uma recuperação dos ideais conservadores do Estado Novo?

Mas o livro até é a favor do 25 de Abril. O Estado Novo não tem nada a ver com D. Afonso Henriques nem com os Jerónimos... Aliás, a própria política de esquerda foi muito favorável, o livro agradou a toda a gente. O Assis Pacheco, por exemplo, escreveu um bom artigo sobre o livro.

Acha, então, que há "um desígnio português"?

Pois esse é o tema do meu último livro. Eu acho que sim.

Nesse sentido, o que lhe sugere a ideia do Quinto Império?

Não serão, de certeza, o império americano nem o russo. É um novo estádio da Humanidade, onde as pessoas serão mais inteligentes, mais livres, mais amigas umas das outras, mais criadoras...

Não quer definir isso de uma maneira mais concreta?

É um bocado difícil, mas vamos lá ver. A história de Portugal é como uma roda, com os seus raios. Um raio representa a era dos reis, outro a dos sacerdotes, o outro do clero, e o outro da plebe. O Quinto Império é o centro da roda, e o quinto tem de começar por cada um de nós. Deixamos de ter uma vida descentrada, temos de passar a dançar à volta de um centro - esse centro é um centro secreto, é onde está Deus. Se cada homem fizer isto, nasce o nacionalismo místico. E isso não tem nada a ver com qualquer ideia de ditadura, é um lugar onde todos nos entenderemos.

Mas para isso teremos de passar uma fase de decomposição...

Que é a que existe actualmente. Os Portugueses formam uma entidade, mas temos de andar à luta até ao fim, sobreviver aos conflitos, a coisas horríveis como a Inquisição, mas por fim tudo isto será integrado num centro e transfigurado. Cada português poderá então ser, ele mesmo, o Quinto Império.

Isso não conduz a uma concepção dos Portugueses como um povo superior? Isso é perigoso...


Pois, eu acho que devemos pensar assim. Embora a gente saiba que não é assim, devemos pensar dessa maneira, porque de outro modo estamos a pensar que os outros é que são superiores e ficamos debaixo deles.











É por isso que reage desfavoravelmente à integração de Portugal na União Europeia?

Não sou eu que reajo. É um dado, no horóscopo que Fernando Pessoa fez de Portugal.

Sim, mas identificado em 1986 como uma grande ameaça à independência do País. Comunga dessa opinião?

E quem sou eu para julgar a opinião dos astros? Mas se quer a minha opinião, fora do horóscopo, eu acho que é fatal o que se está a passar - já somos uma província da Europa, somos um país de turismo e pouco mais.

É um risco para a independência?

Sim, eu acho que Portugal acaba. Acaba enquanto entidade política, mas mantém-se o nacionalismo místico dentro de cada um - tal como a diáspora judaica, que mantém a pátria dentro de cada judeu. E repare que os judeus nunca deixaram de se sentir superiores, nem nunca perderam as suas tradições.

Mas ao povo judeu está subjacente uma religião, uma prática, uma tradição, os seus livros místicos...

O filósofo judeu Maimónides escreveu um livro com o objectivo de dar uma nova unidade ao povo judaico, o Guia dos Perplexos. E cada judeu que vai hoje a Israel leva consigo o Guia dos Perplexos. E o Zohar, evidentemente. E é também esse o papel de um Agostinho da Silva, responsável por uma doutrinação que mantenha os portugueses unidos para sempre...

E essa previsão de que Portugal finda enquanto entidade política acaba por radicar na tal ideia de Agostinho da Silva, de espalhar os portugueses pelo Mundo...

Claro, é isso mesmo.

Qual é a sua relação com as filosofias e as letras judaicas?

Eu acho que Portugal, quando nasceu, queria ser no mundo o mesmo que o velho Israel não tinha conseguido ser. É por isso que a nossa bandeira era azul e branca. Todos os sábios e reis que conviveram com eles queriam fazer de Portugal o Portugal-Israel. Repare, o Rei Dom Manuel pede ao Papa para que o Arcanjo São Miguel seja reconhecido como o Anjo de Portugal. São Miguel é também o Arcanjo de Israel. Quando se deu a expulsão dos judeus, muitos escreveram que tinham perdido a sua pátria. Isto tem um enorme valor.

Mas há três dimensões nessa sua interpretação. Pode ter sido uma intenção declarada, pode ter sido coincidência e pode ter sido uma conspiração absoluta. Nesse sentido, toda a sua obra aponta para uma teoria da conspiração que sobrevive em função de alguém que orienta o nosso desígnio numa linha pré-determinada...


O que há, é uma intenção. Parece-me natural que exista um fio condutor em tudo isto.

Quer dizer que, desde a batalha de São Mamede, há uma intenção histórica que se transmite de pai para filho, ou é uma entidade que gere tudo isto?

A minha tese é a seguinte: Portugal é uma organização iniciática. De resto, Fernando Pessoa dizia que existia uma ordem Templária, activa mas completamente encoberta, de quem ninguém sabia nada senão ele. E disse também que ela se havia de revelar proximamente. Mas ninguém sabe o que é essa ordem. Essa ordem é Portugal.







Castelo de Tomar


Castelo de Almourol


Isso não será apenas uma criação poética?

Não é, não. Eu percebo onde é que querem chegar. Querem também ter a certeza disso, não é? Se há uma coisa que eu procuro mostrar nos meus livros, é que Camões, o Manuelino, a língua portuguesa, tudo isto constitui a expressão de uma sabedoria intencional que é a de uma organização iniciática, à qual pertencia o próprio Camões. Tudo isto foi já revelado pelo Sampaio Bruno.

E qual é que é o seu papel nessa organização iniciática?

Sou um médium literário. Penso, sonho, imagino e interpreto coisas que coincidem com essa intenção. Eu penso que, com o Manuelino, a organização se calou. Fala-se muito na retirada do Graal para o reino do Preste João. Fala-se também na retirada dos Rosa-Cruzes. Mas quando se deu a destruição da Ordem dos Templários em França, Dom Dinis transformou-a na Ordem de Cristo. E os Rosacruzes, que eram uma reunião de espíritos, estavam em Portugal, e isso está ainda hoje expresso em símbolos. Depois, o Dom Afonso V teve o pressentimento disso e passou a estudar a Cabala. Portugal foi escolhido, não sabemos por que razão - talvez por razões ligadas à geometria sagrada... -, como o país para realizar isso. Só que, a determinada altura, viram que não conseguiam. Ou, por outra, viram que tinham de abandonar o País a si próprio até à completa decomposição, para depois surgir uma coisa nova. Isto porque tem de haver sempre aquilo que os alquimistas chamam a obra do negro, que existe também nas estações, onde a seguir ao Inverno vem a Primavera. Tem de se descer até ao fundo do abismo...

Estamos no Inverno?

Não, nós agora estamos no Outono, que é a época da decomposição.

Pode então dizer-se que precisamos de morrer para ressuscitar?

Exactamente. Não há pessimismo neste último livro, há apenas realismo. Há pessoas que já reagiram ao livro dizendo: "Isto é uma desgraça, Portugal vai bater no fundo, o que é que vamos fazer..." Mas isto não acaba hoje nem amanhã, tudo continua. A pressa que temos é sempre o erro de todos os revolucionários.

Essa frase é politicamente lapidar.

Pois.

Quais são os escritores que estiveram atentos a estes fenómenos?

O maior de todos é o Sampaio Bruno, mas também o Teixeira de Pascoaes, o Agostinho da Silva, o Álvaro Ribeiro, o José Marinho... mas até um Herberto Hélder, uma Fiama Hasse Pais Brandão - que estão um bocadinho mais à margem, mas que são uma inspiração...

Já falou na roda, que o centro dessa roda é Deus. Quer isso dizer que devemos voltar a nossa vida para Deus?

Pois, devemos tentar. Sabe, eu acho que não há ateístas. Há os crentes declarados, há os ateus (que o não são) e há os antiteístas (que são os mais teístas, porque andam sempre a bater em Deus). A minha ideia de divino é perfeitamente compatível com a do conceito judaico-cristão.

E Deus é a grande coincidência ou o grande conspirador?

Isso são perguntas... não posso responder.

Mas repare que é possível dizer, a partir das suas palavras, que Deus é o grande conspirador... Partindo de que há um desígnio.


Altos são os desígnios do Senhor...».

Entrevista a António Telmo para a revista Ler, conduzida por José Viegas (in «Viagem a Granada»).



Batalha de Alcácer-Kibir (1578).

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«Temos para nós que, tal como o povo hebraico, o povo português levou tão longe a sua tensão messiânica, dispendeu tão rápida e efectivamente a sua acumulação de energia, fez frutificar tão extraordinariamente a sua unidade, que a certa altura factores internos de corrosividade começaram a gastá-lo, até à explosão arquetipal de Alcácer-Kibir. Deu-se a divisão interna e externa. Mas do poderoso centro de unificação anterior algo de substancial ficou, a impedir o abandono ou a total desagregação. Realistas na sua análise da decadência são poetas como Camões, Junqueiro ou Pessoa, ou pensadores como Bruno, Álvaro Ribeiro ou Agostinho da Silva. Mas nenhum deixa de manifestar a sua convicção e a sua esperança de que a reunião, a reintegração, o retomar da caminhada são possíveis, viáveis, profetizáveis. Não decerto para voltar ao passado, o que é inconcebível. Mas para projectar no presente e sobretudo no futuro, a realização da nova epopeia, agora não já terrestre ou marítima, mas espiritual ou ígnea: a Índia Nova que não vem nos mapas a que Fernando Pessoa se refere em termos tão simbólicos quanto lapidares.

Na diáspora, o povo hebreu viu-se dividido contra si próprio, foi humilhado e perseguido, mas através de tudo e apesar de todas as traições que ele mesmo perpetrou, manteve-se fiel ao seu messianismo, à sua mística da Terra Prometida, à sua convicção de ser um povo eleito. Assim, o povo português, conservando na sua poesia ou no seu pensamento o grão de uma esperança transcendental e profética que as reformas pombalina ou positivista não lograram aniquilar, compreende que a diáspora não é fatal como a cisão, mas sim temporal, contingente e virtualmente ultrapassável. No plano exterior, quem tenha tido ocasião de viajar, percorrendo "o mundo que o português criou" ou onde o português está presente, fica inevitavelmente impressionado com o elo subtil mas fortíssimo que subsiste entre comunidades tão distantes e tão dispersas por vezes. Entre os factores unitivos mais influentes, citaremos a língua e a saudade: formas intelectuais e sentimentais idênticas de assumir o ser, ligações imediatas e espontâneas de fraternidade, de esperança na supra-terrestre pátria da promissão, de persistência de um ideal que o contacto com culturas estranhas não consegue aniquilar por completo, antes se mantém singularmente vivo. Ainda neste nível, a dispersão portuguesa no mundo não significa cisão, mas antes diáspora: o povo o sabe intuitivamente no seu ingénuo e persistente amor a uma pátria que já não é Portugal, nem o Brasil, nem nenhuma das nacionalidades de adopção, mas uma ideia, uma ideia a que a seu modo permanece saudosa e esperançadamente fiel.

Se há semelhança entre a diáspora hebraica e a diáspora portuguesa, as diferenças são no entanto suficientemente marcadas para que o paralelismo que apontámos possa ficar imune a toda a crítica. Em primeiro lugar, o factor reintegrativo do povo judeu na sua diáspora é antes de todo o mais uma religião por assim dizer nacional (embora rigorosamente não o seja), que singulariza fortemente, não só no plano cultual, mas também no plano cultural, o ideal messiânico de uma pátria que há milénios se considera "eleita". Em segundo lugar, a dispersão das tribos não encontrou terreno próprio para formar-se, a pátria foi muito mais espiritual que nacional, só há pouco tempo recuperou a pequena porção de território onde se fundou o moderno Estado de Israel. Enfim, o povo hebraico, para além da diversidade das suas tribos, exprimiu na diáspora a sua solidariedade através da unidade rácica, que a perseguição das nações europeias mais acentuou ainda.


Anjo da Guarda de Portugal


Anjo de Portugal, nas aparições aos Três pastorinhos, nos Valinhos em Fátima

As características de expansão portuguesa nem por isso lhe roubam o sentido de diáspora que lhe atribuímos: não temos na verdade uma religião distinta das demais nações católicas, mas a nossa religiosidade assume sem dúvida uma missão própria, apostólica, ecuménica, aberta ao paracletismo, ao mesmo tempo que, de um ponto de vista estritamente ortodoxo, o culto do Anjo de Portugal desde os finais do século XV nos personaliza num plano transcendente. Ao contrário do povo hebraico, o mais acentuado universalismo português fez-nos uma nação criadora de nações e assim fundámos o Brasil, e, sem abandonar nunca a presença no território ibérico de origem, alargámos o âmbito nacional muito para além do estrito continente europeu; tal não significa, no entanto, que o território seja para nós essencial: onde haja comunidades portuguesas, desde a Califórnia às Filipinas, onde as antigas comunidades portuguesas se autonomizaram, como é o caso do Brasil, persiste uma fidelidade virtual a um espírito lusíada ante e trans-nacional. Por último, aproximando-nos agora muito mais da tradição islâmica do que da hebraica, não nos interessou a pureza rácica e, quer misturando o nosso sangue com o de outras raças, quer integrando outras raças na nacionalidade, manifestámos verdadeiramente a consciência de que a pátria não é território ou raça, mas Espírito insuflando o seu dinamismo ascendente e integrativo à antiga fixação telúrica e racial.

Num certo sentido, a diáspora portuguesa, herdeira da diáspora hebraica, é mais universal e promissora do que esta...».

António Quadros («A Diáspora Portuguesa», in Espiral, Ano II - número duplo 8/9, 1965).


«"O que se quer existe - só que está coberto: por isso se chama à busca feita pelos Portugueses Descobrimentos".

"A liberdade que há no capitalismo é a do cão preso de dia e solto à noite".

"Se os comunistas fossem religiosos, seriam frades; se os frades fossem políticos, seriam comunistas".

"Por muito cuidado que se tenha, educar é podar; deixar crescer com toda a força o ramo que nos agrada".

"Tudo o que os outros me elogiam foi o fácil; foi o complicado e o misterioso tudo o que eles ignoram ou censuram".

"Gaguejo porque entendo; só quem não sabe fala escorreito".

"Hipócrita quer dizer actor; por fraqueza faço de homem quando, fora do palco, seria Deus".

"O drama da Igreja e do mundo de hoje é que pouca gente, dentro dela e dele, vai menos por uma metafísica da Providência do que por uma física, uma física muito pragmática, da Previdência".

"Imortais somos porque o tempo é consubstancial do eterno".

"Penso, como ser pensante, que nada existe senão o pensamento, o qual me pensa como ser pensante".

"O pensamento se move sem mudar de lugar"».

Agostinho da Silva (Espólio).







Agostinho da Silva, ele próprio

Pode começar...

Então, para começar pelo princípio, o bom é ir à Itália e ver quem era o Joaquim de Fiore e o que ele depois acabou por exportar para Portugal, sem o pensar, provavelmente, não é? O Joaquim de Fiore, ou Flora, como acho que se pode dizer em português, era um abade beneditino, já da reforma de S. Bernardo, portanto, já virado para uma certa concepção da Igreja, uma certa concepção de liberdade, que, provavelmente, não havia antes, e começou a pensar qual seria o verdadeiro tempo, o significado do tempo, na concepção da Trindade. É evidente que ele, como abade beneditino, ele aceitava que as três pessoas da Trindade são contemporâneas, são co-eternas, para dizer tudo. Mas simultaneamente achava que, se por um lado, Deus é o poderoso de tudo, também deveria ter poder e experiência do próprio tempo misturado com a Eternidade. Por outro lado, havia um texto em que ele se baseava, em que o homem tinha sido criado por Deus à sua imagem e semelhança. Ora, uma das características que muitas vezes o prende, é exactamente essa concepção do tempo. Então, pareceu ao Joaquim de Fiore, ou de Flora, por isso tudo, que devia ter havido três Idades na Eternidade e três Idades, suas contemporâneas, no mundo para o homem. As três Idades na Eternidade seriam contemporâneas umas das outras, as três Idades no mundo para o homem, essas dispunham-se segundo uma ordem de tempo. Teria havido para o homem, portanto, uma Era do Deus Pai, uma Era do Deus Filho e haveria, possivelmente, uma Era do Espírito Santo. A Era do Pai, do Criador do mundo, do legislador fundamental para a humanidade, essa Idade havia, para o Joaquim, o nosso abade, na Bíblia, no Velho Testamento. Era a crónica de tudo o que se tinha passado enquanto reinava no mundo do Deus Pai. Mas ele, abade, já não estava nessa Idade, já se tinha passado à Idade do Cristo, de que ele era abade, de que ele era sacerdote. Mas achava ele que, se a outra, a primeira Era, tinha sido uma Era de legislação e de legalização do mundo, a segunda, a de uma consolação para o homem, dado o sofrimento que lhe podia trazer a empresa de pôr o mundo realmente a funcionar, digamos assim, para uma volta ao Paraíso, que, depois, o que devia haver na Idade do Espírito Santo, era uma Idade de pleno desenvolvimento do homem, plena expansão do homem, atingindo-se pontos de que nem se podia calcular a amplitude.

A Igreja, perante esta doutrina do nosso abade Joaquim, achou que havia um perigo: havia o perigo de as pessoas se entusiasmarem tanto com a possibilidade da Idade do Espírito Santo e se dedicarem já a essa Idade de tal maneira, que sofressem com isso o prestígio e as possibilidades da Igreja de Cristo. E, então, naturalmente, fizeram todo o possível, para Joaquim se desdizer, recuar nessa sua doutrina. Joaquim se recusou e o jeito foi, portanto, abandonar a Ordem.

Abandonando a Ordem, ele que estava habituado a uma companhia de gente que com ele concordasse, ou, pelo menos, que tinha de obedecer porque ele era o superior do mosteiro, ele se foi acolher junto de um grupo de sacerdotes, religiosos, que também tinham tido os seus problemas, e que formavam um grupo à parte. Esses religiosos eram franciscanos. Eram religiosos que queriam ser inteiramente fiéis a seu fundador, a seu patriarca, o S. Francisco, e que se recusaram, portanto, a obedecer ou a dar importância a uma ordem ou recomendação do Papa, no sentido de que os conventos passassem de pobres a ricos, fossem acumulando dinheiro, procurassem obter e guardar dinheiro.

Casa onde Francisco nasceu (Assis).



Sassetta: Casamento de São Francisco com a Senhora Pobreza, 1437-44. Museu Condé. As duas outras figuras femininas representam a Obediência e a Castidade.


Benozzo Gozzoli: Pregação de São Francisco aos animais e aos homens, 1452. Convento de São Fortunato, Montefalco.


Giotto: Expulsão dos demónios de Arezzo, 1297-1299. Basílica de São Francisco de Assis.



Giotto: A Verificação dos Estigmas de São Francisco de Assis após a sua morte, 1297-1299. Basílica de São Francisco de Assis.


O Papa entendia - e a nosso ver, muito justamente - que se tinha entrando numa época em que havia a desenvolver como que uma aparelhagem do mundo para a qual era preciso investir. E como a Igreja podia receber por intermédio dos conventos esse dinheiro, era bom que ele se acumulasse, para que o Papa pudesse colocá-lo na altura oportuna para o objectivo que lhe parecesse mais seguro, mais certo.

Mas eles achavam, os franciscanos, que o fundamental para eles não era importarem-se com o desenvolvimento do mundo, era importarem-se com o desenvolvimento da sua própria alma e da alma dos outros, e que, até, portanto, a obrigação deles era continuar fiel a S. Francisco, às ideias e aos exemplos que ele tinha dado, em lugar de obedecer à ordem do Papa.

Talvez, por desprezo, para troçar um pouco deles parecendo elogiá-los, as pessoas chamaram a esses franciscanos "franciscanos espirituais". Isso é o que se passou, fundamentalmente, em Itália, quanto ao que nos interessa. Mas, naturalmente, o que se quer sobretudo saber é que importância isso teve para Portugal. O importante para Portugal deu-se na altura em que a Isabel, a princesinha de Aragão, veio casar a Portugal com D. Dinis. Aragão, nessa altura, tinha um rei que era, ao mesmo tempo, rei de uma parte oriental da península hispânica e rei de uma parte de Itália, das Duas Sicílias, onde, exactamente, vivia essa comunidade de franciscanos espirituais, junto dos quais se acolhera o Joaquim de Fiore.

Por outro lado, havia em Barcelona um médico - nesse tempo os médicos não se dedicavam só à sua sabedoria de cientistas, o que aconteceu depois a muito outro médico pelo tempo fora -, Arnaldo de Vilanova de Barcelona, que estava muito interessado nas notícias de pensamento teológico e de procedimento civil ou cívico resultante dessas ideias teológicas, dessa interpretação dos textos sagrados, das ideias do cristianismo. Teve correspondência com Isabel, directa ou por intermédio de outros agentes, de maneira que a princesa chegou a Portugal sabendo da ideia de Joaquim de Fiore de que haveria uma idade do mundo, a Idade do Espírito Santo, em que a humanidade se desenvolveria tão plenamente que talvez atingisse, como atingiram santos, alguma coisa do divino e, por outro lado, também a ideia dos franciscanos espirituais de que o fundamental era viver-se humildemente, sem ambicionar riquezas, etc.

Como D. Dinis lhes tinha dado como dote uma vila, a vila de Alenquer, é aí que surge a primeira festa, a festa do Espírito Santo, mas a festa do Espírito Santo dentro daquilo que se passou a chamar o culto popular do Espírito Santo, para distinguir o culto desse povo português do século XIII do culto canónico da Igreja segundo os preceitos emanados do Vaticano.

Afonso X, avó de El-Rei D. Dinis


Selo de El-Rei D. Dinis



E o entusiasmo tomou o povo português. O povo português se achou completamente realizado, ele próprio, numa ideia pela qual, até aí, provavelmente não tinha dado. De vez em quando se sente isso. Haver alguma coisa que vem de fora de um país ou de fora de uma colectividade, e que abre as portas das pessoas para o interior de si próprias. É como se os portugueses tivessem dentro deles sem se expressar, inconscientemente, já essa ideia fundamental de ter que se caminhar para o futuro, mas para um futuro que era ao mesmo tempo do passado, porque, se o Espírito Santo que viria a reinar nessa terceira Idade era também colectânea do Pai e do Filho, ele pertencia a um passado de toda a Eternidade.

Só esse ponto seria muito interessante para pensarmos se a que se chama a saudade, sempre tão marcada no povo português, é a tal saudade que apenas lamenta a perda do passado, ou se, para os portugueses, essa saudade interior, de um tempo em que o homem tinha sido de alguma forma pleno, tivesse que ser a força construtiva de um Portugal, primeiro, depois de um mundo em que esse passado fosse reconquistado.

Quer dizer, para pôr as coisas à maneira, era como se houvesse dentro dos portugueses a ideia de que é possível ao homem redimir-se do pecado original, o que nos levaria a discutir que pecado original é esse, o que poderia trazer complicações, por agora, para essa ideia de que a primeira Idade é a do Deus Pai, depois a do Deus Filho e depois a do Espírito Santo.

De qualquer modo, o povo português se apaixonou por isso e aparece juntamente com uma festa comemorativa na Igreja, a festa que relembrava o aparecimento ou a bênção do Espírito Santo aos apóstolos reunidos juntamente com Maria, e, ao mesmo tempo, o povo português faz uma festa que não é uma festa comemorativa, é uma festa prospectiva para o futuro, é a festa em que os portugueses declaram como vai ser o tal mundo do Espírito Santo.

Os portugueses sempre adoraram o concreto, entendem o abstracto, mas procuram traduzir imediatamente em concreto. Portanto, o que se tentava saber não era que a pomba do Espírito Santo, a pomba da instabilidade da vida, do inesperado na vida do Espírito Santo pairara sobre os apóstolos e pairaria sobre todos os homens no mundo, aquilo que se tratava propriamente de saber é como é que seria a vida desses homens, como é que ela se organizaria quando reinasse o Espírito Santo no tempo.

Então, a festa deles tinha três pontos essenciais que a marcavam nitidamente:

Primeiro ponto: um problema! - Quem é que haveria de governar o mundo na altura do Espírito Santo? Naturalmente, a resposta teológica seria o próprio Espírito Santo... Sim! O próprio Espírito Santo! Mas quem é que na Terra poderia representar mais perfeitamente o Espírito Santo nessa ordenação do mundo? E, então, o que o povo português fazia era pegar num menino, numa criança, levá-lo à igreja e coroá-lo na igreja, ou o padre da igreja coroava o menino imperador do mundo. Naquela altura, naquele dia, em que a festa se fazia, a Idade de Cristo já estava ultrapassada para o povo português. O que havia era a Idade do Espírito Santo, e o menino viria a ser o imperador do mundo. Naturalmente, surge para nós uma pergunta: o que é que os portugueses ou a Isabel de Aragão viam no menino para ele ser o imperador do mundo na Idade do Espírito Santo? Nós podíamos dizer a inocência do menino, simplesmente hoje, com a psicologia da infância, a respeito da inocência dos meninos, essa ideia está um pouco desacreditada. Então, talvez possamos, porque a ideia nos interessa para o passado, como para o presente, como para o futuro, procurar outra razão pela qual nós possamos continuar com a ideia de que um governo de um menino seria óptimo para o mundo.


Santa Isabel de Portugal Curando as Feridas de uma Enferna, por Francisco Goya e Lucientes.


Túmulo da Rainha Santa Isabel por Mestre Pero, no Convento de Santa Clara-a-Nova.

Então, pode-se propor - já o tenho proposto - a imaginação do menino. Uma das coisas que hoje nos pode surpreender é a capacidade de imaginar, que tem o menino, soluções para problemas que atrapalham os adultos, ou possibilidade de fazer perguntas para as quais as pessoas, mesmo as mais preparadas, dificilmente encontram respostas adequadas. Então, é a imaginação.

Mas recentemente me surgiu outra ideia: como se tratava dos franciscanos espirituais, quem sabe se se estava rememorando a ideia que tinha acudido ao S. Francisco de volta de África, de instituir a festa do presépio, de relembrar o nascimento de Jesus, pondo um menino deitado num berço, mostrando ali o nascimento de Cristo. Então, podia-se voltar, exactamente porque o Joaquim de Fiore era abade beneditino, podia-se voltar a uma ideia do patriarca da Ordem, do S. Bento. O S. Bento pôs como uma das regras dos seus mosteiros que quando alguém batesse à porta, fosse quem fosse, por mais miserável, mais desprezível que se apresentasse, ele fosse recolhido num mosteiro e tratado como a mais augusta personalidade que jamais ali lhe aparecera, porque, dizia ele, podia ser que fosse Cristo disfarçado.

E agora, com o menino no presépio, pois também se podia por a mesma ideia: é como se fosse Cristo renascendo. Ou, por uma ideia mais larga, que provavelmente entrou também nos países de S. Francisco: é como se fosse o divino reapresentando-se ao mundo, para que os homens entendessem o divino pela maneira por que ele se comportava. É possível, portanto, que os portugueses tivessem ido também por esse caminho verdadeiramente franciscano.

Segundo acto - Segundo acto da festa era que o menino, coroado imperador, ia à cadeia da terra, à prisão local, abria as portas e soltava todos os presos que lá estavam. Na Idade do Espírito Santo, diziam os portugueses, na Idade plena do mundo, a cadeia só poderá lembrar aos homens como uma das monstruosidades que houve no passado, juntamente com outras, que fizeram sempre parte da campanha da guerra que a humanidade moveu e move contra as carências que a podem atingir.

E para mostrar igualmente que, nessa altura, já os homens não poderiam apresentar como razão de muitos estarem na cadeia as dificuldades económicas do mundo, as pressões a que a economia que existiu a partir do tal pecado original, porque caiu bem que quando a Bíblia fala do pecado original, ela se está referindo ao pecado original que consistiu na passagem de homens que andavam pelo mundo em pequenos grupos colectando os alimentos de que precisavam sem, de nenhuma maneira, violar a natureza, sem a forçar a nada que não fosse natural. Simplesmente com o desenvolvimento demográfico, os alimentos que se podiam colher eram menos do que aqueles que o grupo, já muito maior, precisava para se alimentar. Então, é aí que surgiu a ideia de alguém guardar uma árvore, por exemplo, uma árvore de frutos, guardar a árvore para a poder multiplicar, para que primeiro, o fruto chegasse para ele e para o grupo em que ele estava incluído, excluindo o outro, e, depois, plantar mais árvores de que ele fosse o dono, de que ele fosse o administrador, e que pudesse repartir segundo os seus interesses, especialmente segundo os seus interesses.

Ève, por Jean-Baptiste Marie Pierre






É claro que na Bíblia o que aparece é o pecado original como sendo a utilização pela Eva, ou por ela e o demónio, ou pelos três (juntamente com Adão), o aproveitamento do fruto da árvore da sabedoria que devia pertencer a toda a humanidade e que, portanto, não poderia ser submetido ao poder de um só homem ou de um pequeno grupo de homens. Era de todos e, portanto, não poderia ser tocado, que o pecado original consistisse em pegar num fruto que era de todos e que só seria de todos se nunca fosse consumido por ninguém para um aproveitamento individual. Então, o português provavelmente achava que antes desse pecado original tinha havido uma situação no mundo de que ele talvez se lembrasse de uma forma inconsciente. Nós não temos bastante conhecimento de genética para saber se o DNA da genética tem ou não memória de tempos completamente ultrapassados. E que, portanto, havia ai um acicate, havia aí um estímulo o português poder avançar para o futuro, em que também não houvesse nenhuma espécie de pressão económica, em que os homens se vissem livres das deformações que podem sofrer por esse motivo e seria por isso que os portugueses instituíram também na festa um acto que era o de um banquete gratuito, alguém pagava, alguém fazia a despesa, colectividade ou indivíduos, mas o que se queria mostrar era que as pessoas podiam passar, quem viesse por ali, consumir o que houvesse para ser consumido sem pagar coisa nenhuma. Isto é, os portugueses declaravam nessa festa, nesse programa de futuro - porque insistem que a festa era prospectiva -, que quando viesse a Idade do Espírito Santo o mundo seria dirigido pelas qualidades inatas na criança - inatas -, qualidades que não fossem destruídas pela educação que se lhe desse ou pelas pressões económicas que houvesse sobre ela, que, portanto, a vida quotidiana devia ser gratuita e que, sendo as crianças levadas a ser crianças grandes em plena liberdade desse modo e não havendo as pressões económicas sobre ninguém, deixaria de existir o crime, ou as prisões seriam apenas uma absurda e violenta recordação do passado.

Então, nós hoje temos que ver dois pontos relativamente a isto: se isso se espalhou pelo mundo, se essa ideia dos portugueses foi ao mundo, é evidente! Começou assim que os portugueses navegaram; levaram o culto para as terras que iam descobrindo, e que, por não haver oposição local, podiam ser teatro de as festas se repetirem - nos Açores, por exemplo, depois no Brasil, e quando houve emigração açoriana para outras terras - daí a razão da festa de San Diego na Califórnia, ser a mais brilhante das festas que se faz quanto ao Espírito Santo. Mas temos um outro problema também: é que essas festas do Espírito Santo começam a diminuir e desaparecem de Portugal sem se chegar à primeira metade do século XVI. E, então, se pergunta naturalmente: porque razão é que isso aconteceu? É que é nessa altura que se dá em Portugal - e, de uma maneira mais geral, na Península - aquilo que eles chamam "a invasão da Europa". Mas a Europa de que Europa? Daquela Europa que já estava formando, bastante bem organizadamente, o seu capitalismo que, repito aquilo que já tenho dito tantas vezes, era a única economia capaz de fazer avançar o mundo, até chegar ao ponto em que houvesse para se viver a ferramenta necessária para que todos os homens pudessem ter à sua volta um ambiente que lhes permitisse atingir o mais alto do seu próprio Espírito.

Por outro lado, e juntamente com esse capitalismo, a Europa trazia, também, um sentido de governo que não era o sentido de governo de Portugal, assim como o capitalismo europeu via oposto à economia comunitarista de Portugal, ou, até, à economia dos comuneros espanhóis, assim, também, vinha da Europa uma moda de governo centralista autoritário, completamente diferente do governo de coordenação que tinha sido sempre de Portugal: coordenação pelos reis, coordenação por monarcas de um conjunto de municípios que só podemos classificar plenamente de democráticos e republicanos. Por outro lado, a questão da educação: ao passo que as crianças em Portugal, dentro dos tais princípios de deixar a criança crescer livremente, as crianças se educavam pela experiência. Havia poucas escolas e elas não eram frequentadas, senão em casos muito excepcionais. E quando se tem tanto medo em toda a parte da Europa de lembrar que foram essas crianças analfabetas portuguesas que, crescendo depois, mas educadas no sentido de olhar bem o mundo, de escutar bem todos os seus ruídos, de absorver completamente todos os seus perfumes ou cheiros, que foi essa gente embarcada nos navios que foi fixando o que ia descobrindo no mundo, o que ia vendo pela costa de África junto da qual ia navegando, que foi acumulando toda aquela experiência e todo aquele conhecimento que, na volta à Europa, obrigou a pôr completamente de parte a Física do Aristóteles e obrigou a nascer aquilo a que se pode chamar a ciência moderna. E, quanto à teologia, o que é que sucedeu?




Havia nos portugueses essa teologia do Espírito Santo. Quanto a mim, a forma inicial de qualquer sentimento do divino ou de qualquer forma do divino, porque não podemos supor que, para os homens que percorriam em grupos fraternos, livres e alegres, a terra colhendo alimento, podia haver ideia de um Deus que lhes fosse legislador, vigilante, e juiz castigador se fosse necessário; e, tendo eles uma vida que lhes parecia completamente natural, que houvesse também a ideia de um Deus consolador que lhes vinha amenizar o que eles podiam sofrer na batalha contra carências que eles nunca travavam porque nunca tinham carências, essa ideia de um Deus legislador, e essa ideia de um Deus consolador, só pôde aparecer no mundo, efectivamente, quando se deixou de ser colector de alimentos para se ser produtor de alimentos. Aí, imediatamente, se viu em muita sociedade a ideia de Deus dessa forma.

Claro que, cada povo, segundo a sua psicologia, segundo a sua maneira de ser, segundo o local do mundo em que vivia, segundo o que eram os ideais da sua vida, se comportou de uma ou de outra maneira. Nós podemos ver em todas as religiões, por exemplo, na religião judaica, na Bíblia, podemos ver em tradições orientais, podemos ver na Grécia, formas diferentes de entender o divino. Para a gente da Índia e para outra gente do Oriente, o divino devia ser sobretudo o repouso absoluto, o deitar-se numa confiança completa procurando cada homem atingir o ser, o nada, um vazio absoluto, para plenamente repousar num divino que eles viam como tendo por ideal ou sendo idealmente, também, um vazio absoluto. Mas, por exemplo, os gregos olharam o divino de uma maneira completamente diferente. Pela sua própria psicologia, pelas características da natureza da paisagem na Grécia, o que eles gostariam era de haver na Terra um bailado de vidas, tão belo, tão variado, tão pleno, como havia no politeísmo que eles imaginaram, e coisa curiosa, assim que esse politeísmo passou para uma nação que era, fundamentalmente, jurista e militar, a dos romanos, logo o politeísmo mudou. Não há mais o alegre bailado, e o variado bailado de deuses e deusas; o que há é uma série de repartições públicas, de Estado organizado, de funções que cabem a este ou àquele deus, num retrato perfeito do que eram os romanos na Terra.

Para os portugueses, no entanto, havia essa saudade do Espírito Santo. Mas havia qualquer coisa ainda que opunha a Europa a Portugal nesse ponto teológico: é que os portugueses apreciavam o Espírito Santo além de tudo, porque era o aspecto divino do inesperado no mundo, do imprevisível, em que os portugueses tinham um grande interesse, provavelmente porque, dentro deles, a força maior que sentiam era essa paixão pelo inesperado, que lhes permitiria a eles mostrar toda a sua capacidade, todo o seu talento, de dar respostas improvisadas às perguntas em que ninguém tinha pensado.

Mas agora a Europa se lançava, e por intermédio dos navios portugueses, a Europa se lançava num empreendimento em que a paixão não devia ser pelo inesperado - pelo inesperado havia a curiosidade, naturalmente, o que se ia vendo -, mas o que interessava era prever tudo aquilo que pudesse dar segurança ao marinheiro que já não pilotava uma caravela de descobrimento, mas ia pilotando naus, ia dirigindo naus com bons porões para levar mercadorias fabricadas no Ocidente que pudessem ser trocadas pelas matérias-primas ou pela mão-de-obra que era preciso trazer da África ou do Oriente. Então, começa uma pressão - até pelo envio de imagens que podíamos dizer de pensamento oficial -, começa a chegar a Portugal uma quantidade de imagens em que o divino é apresentado de uma forma inteiramente ortodoxa. Deus Pai sentado no trono, como convinha ao Rei e ao Criador do universo, segurando a cruz em que gente incompreendida tinha crucificado Seu Filho, e, sobre o grupo, a pomba do Espírito Santo, marcando a identidade da natureza do Pai com a natureza do Filho.


Então, lentamente, todo esse culto foi sendo abatido. Passou a ser nos locais em que ainda era permitido a ter muito mais de folclore que muitas vezes a religião e até em certos aspectos, por exemplo no Brasil, como os africanos aproveitavam muitas vezes as festas e a boda gratuita para se embriagarem e fazerem uma série de desacatos, muitas vezes foi proibido que eles tomassem parte nas festas, ou foi limitado o acesso a elas, às pessoas que eram capazes de se comportar com mais decência nessa festividade. Simplesmente ficou sempre no povo português essa ideia de um futuro que ia assentar na natureza que eles sentiam em si próprios e que provavelmente estendiam também a todos os homens. Talvez compreendessem que era por razões de batalha, por estratégia, pelas necessidades impostas na tal guerra à carência, que era preciso abandonar um certo número de coisas, submeter-se a um certo número de limitações para que chegasse ao fim essa era de fabricar o mundo em que todo o homem tinha de servir, tinha de ser disciplinado para que um dia se chegasse a uma colectividade, em que a obrigação fundamental de cada homem era ser aquilo que era, aquilo que tinha nascido, marcando a sua individualidade, marcando a sua especificidade inteiramente no mundo.

Então, curiosamente, aparece aqui um problema que depois surge n'Os Lusíadas também. E é o problema das ligações íntimas dessa gente portuguesa com outros tão distantes como são aqueles chineses que foram ao mesmo tempo do Confúcio e do Lao Tzu. Do culto da virtude - podemos talvez dizer que esse é o fundamental do pensamento de Confúcio - e, depois, com Lao Tzu e o taoísmo, da ideia de que o importante para o mundo é que, um dia, os homens possam ser aquilo que realmente são sem se submeterem a nenhuma espécie de deformação.

E, coisa curiosa, se eu falo n'Os Lusíadas, é exactamente como parece: que Camões achou que a construção de Portugal, e depois a navegação, até se chegar a Oriente, até esse primeiro ponto do Oriente que foi Calecute, que não se poderia ter feito nada disso sem o culto da virtude. Quase se diria o seguinte: Camões seria confucionista, se eu aceitasse que era por causa da sua estada para os lados do Oriente que ele tinha tido conhecimento da doutrina e tinha dito, ele próprio, coisa curiosa, como os portugueses do lado de lá, sentiam a mesma coisa que sentiu Confúcio do lado de cá, que não pode atingir o empreendimento que se tem em vista senão pelo culto da virtude em todos os seus aspectos: pela lealdade ao compromisso, pela obediência a quem manda, etc. Mas logo que essa empresa está concluída, logo que os marinheiros voltam com a consciência de que fizeram tudo o que havia a fazer pelo tal culto da virtude para se poder alcançar a Índia, Camões os põe numa outra colectividade, em que eles não têm que ser mais nada senão o que são, e que n'Os Lusíadas aparece com a designação dada pelos seus leitores de "A Ilha dos Amores". Ali, os marinheiros que desembarcam deixam de ser marinheiros, são apenas as pessoas que nasceram com toda a sua plenitude humana, e se revelam apaixonados por tudo o que é fenómeno. Mas, curiosamente, Camões avança com alguma coisa que os gregos não descobriram: os gregos sentiram também, que eles pelo amor que tinham à vida eram gente presa do fenómeno, mas quem é preso do fenómeno, quem está apaixonado por essa maneira pelo fenómeno, está preso pelo tempo e pelo espaço, que é exactamente do domínio do fenómeno. Mas Camões disse sem o dizer, os gregos não descobriram como é que isso pode ser ultrapassado, e na Ilha dos Amores os portugueses ultrapassam, livram-se dessa prisão, sabemos muito bem que os portugueses apreendem na Ilha dos Amores que podem saber o futuro e que podem estar também livres do espaço. Podem saber o futuro quando uma deusa lhes vem dizer como vai ser Portugal, sentem-se livres do espaço quando a mesma deusa lhes mostra ao longe toda a máquina do mundo fora da qual não existe nenhuma espécie de espaço. Então, o que é que ele diz como remédio aos gregos? Diz o seguinte: os gregos pensaram, parece, que todas as ideias que têm são fabricadas pela própria cabeça, nunca lhes surgiu a ideia, talvez, de que as ideias talvez pairem no mundo e entram na cabeça das pessoas quando elas deixam de ter tanta credibilidade em si próprias, quando elas põem em dúvida que seus cérebros sejam tão poderosos que podem fabricar essas ideias, e aceita que elas pairam, e, como às vezes eu digo, até cheguem à ideia de que é bom não pensar muito pela própria cabeça, estar disponível para que entrem nela as ideias que andam à volta, que podem ser muito mais interessantes, muito mais plenas, muito mais amplas, do que aquelas que podemos fabricar com o nosso próprio conteúdo dos crânios.





Então, talvez pudéssemos ter a ideia de que nesta gente portuguesa existem as duas maneiras de ser nítidas, disciplina absoluta, obediências completas, culto total da virtude, enquanto se tem que atingir um determinado fim de empresa que, no nosso tempo, é fazermos que o capitalismo em que vivemos de tal maneira se desenvolva que nos dê a possibilidade de depois descobrirmos esse Calecute novo, de ser a vida gratuita, como pensaram os portugueses e acreditaram os portugueses no século XIII, para que nós possamos abandonar-nos à ideia de ser nosso único dever, sermos na vida aquilo que realmente somos quando nascemos. Por outro lado, é extremamente interessante, quanto ao presente, vermos se estamos mais perto ou não desse ideal dos homens do século XIII, se os 600 anos que nos separam deles já nos dão garantias, que com uma multiplicação maior ou menor desses 600 anos para diante de nós, possamos atingir aquele fim que eles tiveram como ideal. Que nos libertemos da ideia de que o divino é mandar em nós, é para nos limitar, e tem que ser assim, enquanto estamos na guerra, e exactamente como o oficial comandante tem de limitar com a disciplina aquilo que os soldados normalmente faziam e fariam se ele os deixasse em plena vontade própria.

Por outro lado, é importante que se tenha também a ideia de que o ideal não é ficar continuamente nisso. Não é ir para diante no mesmo tipo de economia, mas que o ideal de todo o homem economista verdadeiramente acabe por desaparecer do mundo.

Então, o que me parece interessante fazer é pegar em cada um dos actos da festa e examinar se nesse sector estamos mais adiantados que os homens do século XIII ou não, e se estamos, portanto, com possibilidade de ter maior animação para que cheguemos no futuro, senão na totalidade, pelo menos muito perto daquilo que foi o ideal deles.

Reparemos no que sucede com os meninos: hoje já se está a atender a uma circunstância extremamente interessante no mundo, a de que será preciso, para realizar a mesma produção que temos hoje ou uma produção ainda maior, que será preciso muito menos quantidade de mão-de-obra humana, isto é, que haverá muita gente que tem em sua frente o tempo livre. Digo propositadamente o tempo livre para não dizer que se trata de desemprego, porque, na realidade, quando nós dizemos que há pessoas desempregadas apenas estamos a utilizar uma linguagem antiquada e que já não reflecte a realidade. Um homem só se pode dizer desempregado quando ainda existe o emprego e ele não está colocado nesse emprego. Mas o que acontece hoje é que uma quantidade enorme de coisas se pode fabricar sem que os homens apareçam nesse processo - inteiramente o fabrico entregue às máquinas. Então, muita criança, costumo eu dizer, já nasce reformada, já não vai ter por diante essa necessidade de trabalhar. Então, o que é preciso, na escolaridade que ela tiver, não é dar-lhe aquelas técnicas que levavam a ser um bom soldado de profissão. O que é preciso é que ela adquira meios de expressão daquilo que é a sua própria actividade. Digo, com exagero ou sem exagero, que toda a pessoa que nasce é poeta. Vem para fazer uma criação de alguma coisa que ainda não existe no mundo, em qualquer campo que seja. E, se se costuma pensar sobretudo no campo da poesia, pode-se aplicar ao campo de qualquer arte ou de qualquer ciência ou de qualquer outra espécie de actividade. É preciso que o poeta não seja preocupado nunca, não seja limitado nunca, com as prisões que há quanto à inclusão de sua própria poesia, e sobretudo termos como ideal que aquele que nasceu poeta disto, daquilo ou daqueloutro, não se mostre como poeta no que deixou criado. Seja ele próprio o poema que vem da sua criatividade. E temos em Portugal um exemplo extraordinário que é o de Fernando Pessoa. Toda a gente é capaz de caracterizar o Alberto Caeiro, ou o Ricardo Reis ou o Álvaro de Campos ou qualquer uma das muitas personalidades - personagens - em que pensou Fernando Pessoa. E é capaz de se dizer que de grande parte dos poemas de Fernando Pessoa é do melhor que existe na poesia portuguesa, mas ele fez outro poema mais extraordinário: foi ele ser ele próprio. O poema mais difícil de definir na obra de Fernando Pessoa é o próprio Fernando Pessoa. Ninguém é capaz de imaginar que personalidades novas apareceriam se ele não tivesse morrido de fome, porque foi, de facto, o que sucedeu, se não tivesse morrido de fome na idade em que faleceu e na altura em que desapareceu da vida.



Fernando Pessoa



Ele cuidou fundamentalmente de ser ele o poema e, por isso, se sacrificou perante as necessidades da vida que levam os outros homens a transformar-se no que não são e no que não deviam ser. Ele se dedicou completamente àquele poema que foi a existência dele próprio.

Então, já hoje começa a haver em todas as escolas a ideia de que se deve dar ao aluno meios de expressão na poesia, na pintura, na ciência, no pensamento filosófico necessários para que ele possa plenamente ser aquilo que é.

Por outro lado, é evidente que já hoje muita gente pode viver não trabalhando, tendo tempo livre. Quando uma economia está bem organizada e há os recursos suficientes no país em que se vive, todo o chamado desempregado, todo o homem de tempo livre, todo esse que participa da aurora do tempo livre, tem ao seu dispor os meios necessários para viver a sua vida quotidiana. E se ele por vezes desaparece da vida mais rápido que devia desaparecer, é porque a escolaridade que lhe deram quando era criança, enquanto jovem, não foi a bastante para ele afrontar o tempo livre. O homem vai descobrir que o tempo livre, se não há nele nenhuma ocupação, é um destruidor fatal e completo. E aí é que se tem que se distinguir aquilo que é trabalho daquilo que é ocupação. É ocupação aquilo que nasce dentro da pessoa como sua expressão, é trabalho aquilo que ele é obrigado a fazer como soldado do exército de produção que ainda existe e que vai existir ainda durante muito tempo. Mas como já pesa essa gratuitidade de vida para tantos, quando ela pode e vai aumentar nesse sentido, é evidente que a visão que podemos ter de futuro é de que um dia os homens terão tempo livre. E as pessoas perguntarão assim: «Mas se ninguém trabalha?...» Não! Porque o tempo livre dará para aparecer alguns poetas que já se revelaram no passado e que são capazes de procurar ocupações que para os outros representariam trabalho e para eles não.

Já havia muito o exemplo de Pessoa que, não tendo nenhuma obrigação de trabalhar, no entanto, passa as horas de actividade fazendo alguma coisa que para os outros é trabalho na medida em que são obrigados a executar essa tarefa. Por outro lado, também havia há muito o exemplo de Pessoa que é capaz, por gosto, por vocação íntima, de substituir a outra pessoa no trabalho que para ele seria uma obrigação e uma obrigação que o prejudicava e para ele não, para ele é uma revelação o prazer que lhe dá sentir o poema emanando de si próprio. Dou sempre o exemplo de todos aqueles que, sem serem obrigados a isso, iam viver em comunidades de leprosos, arriscados a apanhar a doença para não obrigar a não ir para lá aqueles que só iriam fazer uma coisa dessas por obrigação ou por necessidade de viver. Estamos, portanto, caminhando para situações em que essas coisas podem existir mais à larga.

E agora vem talvez uma reflexão final que é preciso pôr clara: é que se foram os portugueses os únicos homens, que eu conheço, que tiveram essa ideia da festa do Espírito Santo, de pensar toda essa futurologia, quem sabe se uma grande obrigação que pesa sobre nós não é de fazer que o Portugal actual, o Portugal do presente, atinja o mais possível nesses domínios para estar bem preparado para ser ele a continuar Portugal para o futuro e, mais alguma coisa, a ser ele, digamos, o missionário no mundo dessa ideia de que o fundamental é aproveitarmos tudo aquilo que é disciplina, que é obrigação, que é - volto à expressão - Confucianismo, nessa nossa maneira de economia e de vida, para chegarmos rapidamente, o mais rapidamente possível, ao fim dessa tarefa, e pularmos para a outra dimensão, de só termos como dimensão aquilo que nós próprios somos e somos capazes de ser.









E talvez outra reflexão: assim como se sabe que as galáxias no universo se afastam umas das outras a maior velocidade quanto mais distantes vão -, às vezes podemos pensar se aquela rapidez de acontecimentos que as pessoas estão actualmente notando no mundo não é alguma coisa de semelhante. Se à medida que a história humana vai caminhando para o futuro, que nem podemos pensar qual seja, se esse avanço para o futuro não vai tendo uma velocidade cada vez maior, e se quando muita gente está pensando, diante de acontecimentos recentes em soluções que são conversa barata e só serviriam para coisas inteiramente ultrapassadas, se não é pena que eles não tenham conhecimento dessas ideias dos portugueses para verem que têm de ser muito mais audaciosos e aproveitar que tudo aquilo que surge como alguma coisa que os atrapalha na sua reflexão e no seu programa de vida, não têm que aproveitar isso para montar a cavalo mais rápido ainda e atingirem o tal ideal que os portugueses queriam atingir: ideal na vida, ideal na criança, ideal no gratuito do quotidiano, ideal em que não temos mais essa coisa monstruosa que é uma prisão, ideal sobretudo ainda no plano do pensamento puro, no plano, para quem quiser, da metafísica, ou para quem quiser, da teologia. Se não temos que ver no divino, em que cada povo, segundo as suas funções e a sua psicologia, foi modelando a sua própria religião, senão temos que ver nesse divino, a que os portugueses chamaram o Espírito Santo, não temos que ver nisso o ponto fundamental, o alicerce de todas as religiões do mundo? E se não temos que pensar que são elas todas irmãs, que são elas formas de culto diferentes de um mesmo divino, exactamente como as línguas que existem no mundo são todas elas, na sua variedade, a expressão de uma natureza humana que não quer perder a capacidade de se revelar aos outros e de reflectir naturalmente sobre si própria? Então, os portugueses não só teriam tido esse ideal, de que os homens vivessem uma vida completamente livre, mas fizessem mais alguma coisa que tantas vezes falha, que amassem o diverso como sendo a expressão daquilo que é Uno em cada um. Hoje, quando alguém diz que ama alguma coisa ou alguém, realmente está como que a ver-se ao espelho, está a amar ou a pensar amar alguma coisa que é semelhante a ele, ao passo que essa ideia portuguesa poria como fundamental que amar o diferente e o vendo como um aspecto do Uno é que é realmente a mais alta expressão de amor, o que curiosamente iria ao encontro do que diz tanto a religião, ou que dizem tanto aqueles a que se chama ateus, porque não têm a sua divindade num aspecto personalizado ou bem marcado e até o põem como se fosse um nada absoluto. Se realmente não há que marchar para isso ao encontro de um pensador que foi mais poeta que pensador, ao encontro de Platão, que achava que aquilo que seria o fim de toda a vida era amar a beleza geral, pelo aproveitamento amoroso de tudo quanto é uma beleza particular (in Agostinho da Silva, ele próprio, Zéfiro, 2006, pp. 23-48).