sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Socialismo versus Liberalismo

Escrito por Miguel Bruno Duarte
















Thule Air Base. Ver aqui











Pára-quedistas alemães na II Guerra Mundial.










Arno Breker e Albert Speer




Apolo e Dafne (1940, Arno Dreker).








The Victor (1939, Arno Breker).






Eos (1939, Arno Breker).



Psyche (1941, Arno Breker).















Lyudmila Pavlichenko. Ver aqui



«Os membros da Thule morreram como primeiras vítimas sacrificiais da suástica. Os membros da Thule foram aqueles de quem Hitler primeiro se aproximou e foi com os membros da Thule que Hitler primeiro se aliou».

Rudolf Von Sebottendorff  («Antes da Chegada de Hitler»).        


«O sonho romântico de Himmler era estabelecer um país de heróis de olhos azuis e cabelos louros, exactamente a imagem que a Sociedade Thule promovia, ao enfatizar a antiga herança germânica. Mas enquanto Sebottendorff acreditava que Thule existia nas remotas regiões nórdicas, Himmler (e Hitler, até certo modo) começavam agora a ser influenciados por outro membro da Sociedade Thule, Karl Haushofer, que afirmava ser mais provável que as verdadeiras origens da raça ariana se encontrassem no Tibete».

Shelley Klein («Sociedades Secretas»).





Socialismo versus Liberalismo


O Caminho para a Servidão, escrito por Frederico Hayek durante a Segunda Guerra Mundial, é o livro em que se procura explicar como a ideologia totalitária do nacional-socialismo não residiu propriamente nos alemães, mas antes no desenvolvimento e na consequente vitória de um conjunto de «ideias» dominadas por certos e determinados alemães, entre os quais Adolfo Hitler. Foram, pois, «ideias» particularmente específicas que levaram os alemães a trilhar um caminho exclusivamente totalitário, ainda que não esperado, desejado ou idealizado por quem tinha acreditado no carácter moral, messiânico ou progressista do socialismo. Essas ideias chegaram, portanto, a um aturado desenvolvimento na Alemanha de Hitler, em condições únicas e peculiares até aí não produzidas em países como a Inglaterra e os Estados Unidos, onde essas «ideias» também existiam, embora não levadas ao extremo de suas consequências políticas, económicas e científicas.

É verdade, como reconheceram os primeiros socialistas franceses, que a semelhança entre o socialismo e a organização do Estado Prussiano constituíra um facto inegável. Mas, se essa organização tipicamente alemã equivalia à administração de uma fábrica, isso não significa que tenha sido pura e simplesmente o factor alemão a causa do totalitarismo nazi, segundo o qual o povo, identificado com o Führer, deveria prontamente obedecer (1). Por conseguinte, para o Führer era irrelevante questionar a parte ou o todo, posto que a transformação do povo alemão, bem como do planeta e do universo à laia de um socialismo não-marxista, não-classista e anti-internacionalista, seria total e completa ao ponto da economia e da cultura ficarem subjugadas a uma ditadura política à qual o indivíduo deveria sacrificar a sua singularidade com vista a uma Alemanha milenar e racialmente regenerada.

Aliás, Rauschning, partindo de uma conversa privada com o Führer, pudera registar a sua concepção totalitária nos seguintes termos:

«Que sentido podem ter essas questões, quando eu [Hitler] submeti os indivíduos a uma disciplina rígida, de que eles não podem afastar-se? Que possuam, então, todas as terras e casas e fábricas que quiserem. O que importa é que, proprietários ou operários, sejam todos proprietários do Estado. Compreenda-me bem: nada disso tem qualquer significado. O nosso socialismo vai muito mais longe. Ele nada altera à ordem exterior das coisas, mas controla todas as relações do indivíduo com o Estado ou com a comunidade nacional. […] Que significam a estatização ou a socialização? Como se tudo mudasse pelo simples facto de os títulos de propriedade da fábrica passarem a estar agora nas mãos do Estado e já não nas do senhor Lehmann ou do senhor Schultze. Mas, a partir do momento em que os directores e o pessoal superior forem submetidos, como os operários, a uma disciplina geral, veremos formar-se a nova ordem que irá reduzir a nada todas as concepções do passado» (2).

































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Por outro lado, o socialismo de Hitler distinguira-se duplamente do marxismo e do bolchevismo, uma vez que, como dizia, ambos sobrepunham o internacionalismo à questão racial. Segundo o Führer, também deveriam ser combatidos, a par dos comunistas, os sociais-democratas adeptos do parlamentarismo, porquanto inclinados para um socialismo de natureza económica e industrial sem espírito social e comunitário. E nesse sentido dizia:

«Não sou socialista por uma questão de compaixão pelo indivíduo, sou socialista, apenas, por amor ao nosso povo» (3).

De acordo com o socialismo nazi – um "socialismo mágico" de alegada tradição ariana -, as raízes do povo alemão também mergulhariam numa Weltanschauung de inspiração cristã, supostamente colhida nos ensinamentos de Cristo e dos profetas cuja herança espiritual permitira aos primeiros cristãos definir, viver e ensinar o socialismo cristão posteriormente deposto pela Igreja Católica. No fundo, uma tal concepção só podia ser a de um socialismo pós-moderno, que vinha, aliás, numa linha praticamente extemporânea do que já Oswald Spengler considerara ser uma ilegítima comparação entre o cristianismo primitivo e o socialismo moderno (4). Mas, ainda assim, não só de socialismo «cristão» se fez o ecletismo doutrinário de Adolfo Hitler, consoante revela a seguinte passagem:

«Aprendi muito com o marxismo, e não tenciono ocultá-lo. Não propriamente pelos fastidiosos capítulos dedicados à teoria das classes sociais ou ao materialismo histórico, nem mesmo por aquela coisa absurda que se designa por "limite do lucro" ou outras ninharias do mesmo género. O que me interessou e me ensinaram os marxistas foram os métodos. […] Eles contêm em si a ideia-chave do nacional-socialismo […] As sociedades operárias, as células de empresas, os cortejos maciços, as brochuras de propaganda redigidas especialmente para esclarecer as massas, essas novas armas de luta política foram praticamente todas inventadas pelos marxistas. Eu apenas me encarreguei de as desenvolver até encontrar o instrumento de que necessitávamos» (5).

E prosseguindo, adianta:

«Estudei técnicas revolucionárias com Lenine, Trotski e outros marxistas. A Igreja Católica e os franco-maçons abriram-me perspectivas que eu jamais teria podido encontrar. Aquele que não aprende com os seus inimigos não passa de um tonto. Só o homem fraco pode recear perder as suas ideias por contactar com as dos outros».

Consequentemente, não fora por acaso que, na Alemanha e na Itália, os nazis e os fascistas houvessem dirigido os seus respectivos movimentos políticos com base nas organizações criadas, implementadas e supervisionadas pelas instituições socialistas anteriores (6). A diferença, no entanto, está em que os fascistas e os nazis rumaram ao socialismo a partir de soluções que não mais obedeciam às tendências «democráticas e liberais» do velho socialismo industrialmente organizado, até porque a sociedade já estava praticamente refém de um conflito partidário entre grupos lançados à conquista do poder absoluto. Daí que, uma vez vitorioso, o nacional-socialismo continuasse a apelar para a formação de uma nova classe média a ser constituída, não já pelo operariado organizado de certas e determinadas indústrias – a velha classe média -, mas por funcionários administrativos, comerciantes da pequena e baixa burguesia, professores, estudantes e empregados de todas as profissões e camadas baixas da sociedade.


















Ora, tal significava o mais poderoso movimento de massas apto a dirigir o ressentimento anticapitalista contra a existência de antigos partidos socialistas ancorados nos interesses de uma determinada classe, como a da já referida «aristocracia» resultante do movimento operário industrial. De facto, Hitler, na sua oratória mesmerizante, sabia assim como tocar, sugerir e manipular o ressentimento de modo a converter o profissional frustrado ou o universitário especializado num movimento de massas em que a prosperidade de cada um dependia da prosperidade de todos. Mais: Hitler não só se predispôs a fazer do socialismo uma máquina de satisfação das necessidades e aspirações das classes laboriosas, como também a atrair e a converter para o campo nacional – que o mesmo é dizer para o domínio da solidariedade racial -, os marxistas, os comunistas e os demais apóstolos do internacionalismo.

De resto, Hitler fora, indubitavelmente, o paladino que se propusera anunciar o fim do mundo burguês, assim como o fim do liberalismo. Demais, é F. Hayek quem cita um trecho significativo de um artigo intitulado «A descoberta do liberalismo», do professor Eduardo Heinnam, um dos chefes do socialismo religioso alemão:

«O hitlerianismo pretende ser, e como tal se intitula, uma verdadeira democracia e um verdadeiro socialismo, e a terrível realidade é que há uma parte de verdade nessa pretensão, uma parte infinitesimal, é certo, mas suficiente para servir de fundamento a essa fantástica distorção. O hitlerianismo vai até ao ponto de se atribuir o papel de protector do cristianismo, e a terrível realidade é que esta enorme falsidade é susceptível de causar alguma impressão. Mas no meio de tantas névoas, um facto se desenha com perfeita clareza: Hitler nunca pretendeu representar o verdadeiro liberalismo. O liberalismo tem, portanto, a particularidade de ser a doutrina mais odiada por Hitler» (7) .

Quanto à questão da «riqueza», Hitler via nela a principal arma do judeu materialista e idólatra do bezerro de ouro. Logo, se o judeu, para o líder nazi, destruía a economia popular baseada no rendimento do salário, o objectivo era a ruína da Alemanha mediante o capital internacional bolsista ou especulativo. Contudo, não obstante o seu anti-semitismo e o seu anticapitalismo, Hitler, ao estruturar e organizar o NSDAP, tivera certamente o apoio financeiro de pequenos, médios e grandes industriais, se bem que, da parte dos últimos, esse apoio fosse manifestamente menor quando comparado com os demais (8).

Deste modo, se o judeu, consoante advogava Hitler, se fazia valer do liberalismo, da democracia e do socialismo internacionalista para consolidar a sua riqueza, e, ao mesmo tempo, preservar a sua raça, é também um facto que os nacionais-socialistas obtinham dinheiro por via de jóias e quadros oferecidos por mulheres da alta sociedade (9), ou recebiam francos suíços destinados a remunerar os funcionários do partido, para já não falar nas quantias procedentes da Hungria, da Checoslováquia (dos Sudetas), de França e de sócios capitalistas de origem russa ou báltica recrutados por Alfred Rosenberg e Erwin Scheubner-Richter (10). A par deste financiamento, a que acresciam donativos ao partido constituído por operários, comerciantes, lojistas e demais elementos da classe média, a influência do «capital», nomeadamente na ascensão de Hitler ao poder, também veio dos grandes proprietários de terras reunidos na Liga Agrária, então fortemente dominada pelos nazis. Depois do que, há ainda o caso paradigmático de Hjalmar Schacht, que, enquanto presidente do Banco Central do Reich (o Reichsbank), logrou obter os fundos necessários para a campanha eleitoral de Hitler no valor de 3 milhões de marcos (11).










































Sobre o presidente do Reichsbank (1923-1930 e, novamente, em 1933), vale a pena citar o trecho que se segue:

«Este "mágico" foi durante alguns anos o "arquitecto financeiro" de Hitler. Foi em grande parte a ele que se deveu o facto de o chefe do movimento nacional-socialista ter sido apoiado por alguns grandes industriais. Defensor de uma economia de mercado, Schacht conseguiu de facto que lhe fossem disponibilizadas quantias consideráveis. A 31 de Maio de 1935 foi nomeado ministro com plenos poderes para a economia de guerra, a fim de promover o desenvolvimento da Wehrmacht (sucessora da Reichswehr) e o rearmamento – tudo isto sem aumentar os impostos nem recorrer à emissão de títulos do tesouro. Partindo do princípio de que as grandes empresas estavam dispostas a trabalhar para a guerra e dispunham de sólidas reservas secretas, teve a ideia de lhes propor, como forma de pagamento de cada encomenda, a oferta de títulos de participação em organismos criados por si: para as obras públicas criou a Gesellschaft für Öffentliche Arbetein e os  "títulos Offa", enquanto para o rearmamento criou a Metallfforschungsgesellschaft (Sociedade para a Investigação Metalúrgica) e os "títulos Mefo". Esses títulos, devidamente preenchidos com duas assinaturas (uma de um funcionário do Estado e outra de um responsável da Offa ou da Mefo) podiam ser imediatamente descontados no Reichsbank. O engenho de Schacht foi o de se aperceber que, graças às suas reservas, as grandes empresas não descontariam logo os títulos e prefeririam aumentar o seu lucro através dos juros dos mesmos. Estes títulos fizeram assim o papel de notas bancárias sem dependerem do banco central. O seu montante era por isso ignorado pela população, que não sofreu os efeitos de uma inflação, e pelos países estrangeiros, que nunca chegavam a saber ao certo o montante das despesas militares da Alemanha. Calcula-se que, no apogeu da política de Schacht (1934-1936), houvesse 12 mil milhões de "marcos Mefo" emitidos, que financiaram 50% das despesas de armamento de todo o país. De qualquer forma, a grande indústria, graças aos seus recursos, aumentou os seus fundos de créditos. A dívida interna aumentou (47 mil milhões em 1938), mas as fábricas de armamento lucravam cada vez mais.

Uma vez conseguidos, de uma só vez, a retoma económica, o rearmamento e o desenvolvimento da Wehrmacht, Schacht pretendia regressar a uma economia mais liberal, travando a inflação e o ritmo das medidas impostas pelo Estado. Foi por este motivo que acabou por entrar em conflito com os representantes das forças armadas e sobretudo com Göring (que, para além dos cargos que já detinha, fora entretanto contemplado com a chefia de um gabinete recentemente criado, mais concretamente o do Plano de Quatro Anos, destinado a acelerar a preparação da economia para a guerra), que Schacht acabou por abandonar o seu ministério [da Economia], em 1937.

Foi substituído por Walther Funk, que em 1939 deixou também ele a presidência do banco central, mas que permaneceu ligado ao governo até 1943. Funk, militante do NSDAP desde 1931, foi conselheiro de Hitler para os assuntos económicos, depois secretário de Estado do Ministério da Propaganda e vice-presidente da Câmara da Cultura, antes de suceder a Schacht no Reichsbank. Não tendo revelado envergadura suficiente para o cargo, teve de ceder, em 1940, uma parte das suas atribuições económicas ao novo ministro do Armamento, o Dr. Todt, e depois ao sucessor deste, Albert Speer (o arquitecto de Hitler), que ficou assim responsável tanto pelo armamento como pela produção de guerra» (12) .

Como se vê, o Estado hitleriano, planificando e concentrando, desde 1933, toda a economia com vista ao rearmamento da Alemanha, dirigira toda a política mantendo intactas as instituições estatais (13) até então praticamente regidas por conservadores. Por outras palavras, submetera, com base no carácter provisório e instrumental dessas instituições do Estado, a produção económica ao controlo político traduzido numa Weltpolitik (política mundial) e numa Raumpolitik (política do espaço vital), que era, no fundo, uma espécie de capitalismo de Estado completamente virado para a indústria de guerra, em que economia e rearmamento não mais se distinguiam sob o comando autárquico do III Reich. Enfim, tudo permanecia controlado desde a exploração de matérias-primas até às relações do Estado com empresas privadas e seus respectivos investimentos, como a gasolina, o gasóleo e todas as necessidades consideradas vitais para a sobrevivência e o renascimento da Alemanha, tais como: alimentação, emprego, turismo de massas, desporto, eventos culturais, empresas de construção, salários, alojamento da força de trabalho, segurança social e transportes com destaque para a Fábrica Volkswagen, à qual caberia proporcionar a cada trabalhador ou operário a sua viatura própria.







Logo da Volkswagen nos anos 30 do século passado. Ver aqui






















Ao dirigismo económico preconizado pelo novo Reich andava subjacente a negação do princípio da oferta e da procura. Consequentemente, a concentração económica na Alemanha nazi só podia implicar, com base numa planificação centralizada, a abolição do mercado e a subsequente destruição de toda a economia doméstica. A comprová-lo estavam as grandes empresas industriais que, sob a protecção do Estado, asseguravam o monopólio dos seus investimentos e da sua produtividade perante uma população cada vez mais constrangida a consumir o que outros produtores e investidores, ao nível das pequenas e médias empresas, não conseguiam produzir em termos de concorrência financeira e mercantil, a menos que, e só nesse caso, também se associassem ao Estado codificador e regulamentador da produção e da exploração de matérias-primas canalizadas para a indústria de guerra.

Um exemplo disso, perfeitamente clarificador, transparece no seguinte passo:

«O governo do Reich concluiu, assim, com a IG-Farben, a partir de 14 de Dezembro de 1933, um acordo sobre combustíveis pelo qual o Estado protegia a empresa química contra os riscos decorrentes da produção de gasolina sintética. Este acordo serviu, depois, como modelo para codificar as relações do Estado com as empresas privadas em matéria de investimentos. Os industriais, não dispondo de capacidades financeiras comparáveis às da IG-Farben, não beneficiaram, no entanto, da protecção do Estado e, por vezes contra a sua vontade, tiveram de se associar. Foi o caso dos produtores de linhite, reunidos na Sociedade Anónima Linhite-Gasolina (Braunkohle-Benzing AG) para poderem beneficiar a produção de gasolina, de gasóleo e de óleos sintéticos. O mesmo destino atingiu os produtores de fibras artificiais.

A reorientação e a concentração da economia em proveito do rearmamento tiveram consequências inevitáveis ao nível das pequenas e médias empresas. De acordo com as promessas eleitorais, e dado o elevado número de membros do NSDAP pertencentes à média burguesia, seriam de esperar medidas a seu favor. Ora o novo Reich não correspondeu às expectativas. Em vez de criarem instituições de cariz corporativo, Hugenberg e Göring favoreceram as associações profissionais análogas às do sector industrial, sob a forma de Reichsverband (Associações do Reich; por exemplo, para a agricultura, a indústria, etc.), mais fáceis de manipular no quadro de uma política dirigista. Esta visava, claramente, restringir o número de pequenas empresas que não tinham qualquer utilidade para o rearmamento mas, simultaneamente, criar uma mão-de-obra qualificada para trabalhar nas indústrias de guerra…» (14).

É por demais sabido que Hitler preferira optar pela organização da produção sobre a garantia e a segurança monetárias. Na base da sua opção estava, naturalmente, a equivalência que subentendia entre o factor monetário e o factor produtivo. Porém, era este último que melhor servia um sistema de encomendas prévias tão útil ao Governo e ao Império da Alemanha.

Daí terem a França, a Inglaterra e os Estados Unidos manifestado uma crescente hostilidade face ao princípio da bilateralidade nas trocas financeiras e comerciais da Alemanha, anunciado por Schacht a 19 de Setembro de 1934. Ora, esse princípio, consubstanciado por objectivos e prioridades económicas em matéria de encomendas, entregas e importações, estabelecia que o Estado comprasse a quem estivesse disposto a aceitar as mercadorias alemãs como moeda de troca (15). Logo, compreende-se que um tal intervencionismo obstasse a que um número considerável de trocas pudesse ser absorvido pelos principais parceiros financeiros e comerciais da Alemanha, visto já não corresponder à livre procura de mercadorias capazes de satisfazer a sempre concreta e momentânea procura das populações.



Brasão de Armas da Casa de Habsburgo






Quanto à revolução nacional-socialista, é também sabido que não se limitara a uma questão meramente económica, mas, sim, à vitória de uma Weltanschauung votada à radical transformação do povo alemão. A partir daí, o intuito passava por superar as revoluções francesa (1789) e bolchevique (1917), assim como afastar o espectro da revolução alemã (1919) que pusera termo à monarquia dos Habsburgos e instaurara a República Constitucional de Weimar. E, na sua essência, era ainda um movimento revolucionário de tendência fortemente contrária ao «liberalismo» da Revolução Francesa, como, aliás, também o fora o socialismo francamente autoritário e repressivo na primeira metade do século XIX (16).

Segundo Hitler, a revolução de 1789 produzira apenas um acontecimento digno de relevo: Napoleão Bonaparte. De resto, os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade seriam, a seu ver, inteiramente contraditórios, por não ser possível a igualdade (17) sem a força, e muito menos a fraternidade votada ao reconhecimento da existência e dos direitos do indivíduo por oposição ao primado do colectivo sobre a pessoa e a personalidade humanas (18). Por isso, só a revolução nacional-socialista podia, na concepção do Führer, pôr fim à maquinação judaica responsável pelas revoluções francesa, russa e alemã, ou, se quisermos, pôr termo à democracia, ao liberalismo e ao socialismo saídos da primeira dessas revoluções (19).

Curiosamente, o New York Times, a 20 de Dezembro de 1922, reportava que Henry Ford, um dos mais proeminentes produtores da indústria automóvel, estava a financiar na Baviera o movimento revolucionário anti-semita de Hitler. Aliás, a composição do Mein Kampf fora igualmente baseada em diversas passagens do livro de Henry Ford, O Judeu Internacional. E, decerto, não fora por acaso que H. Ford chegara a ser condecorado pelos nazis com a Grã-Cruz da Águia Germânica (1938), especialmente destinada a estrangeiros ilustres (20).

A razão do anti-semitismo de Henry Ford parece ter estado no facto de certos círculos financeiros judaicos estarem igualmente dispostos a lucrar com a guerra. Ora, isso colidiria com os interesses industriais anti-semitas dos Morgan e dos Ford que reservavam para si o privilégio de lucrar com o sofrimento alheio. E daí a aplicação estratégica de um tal critério à União Soviética, nomeadamente quando Henry Ford construiu, no decénio de 1930, a primeira instalação moderna de construção automóvel localizada em Gorki, a qual produziria, nos anos 50 e 60, os camiões para os norte-vietnamitas transportarem armas e munições para serem usadas contra os americanos (21).

Na verdade, se os industriais pró-nazis foram condenados no Tribunal de Nuremberga, mal se compreende que os seus colaboradores, como a família Ford, tenham sido efectivamente poupados, a não ser que a explicação passe por estarem directa ou indirectamente ligados à elite financeira de Wall Street (22). Tudo aponta, pois, para o facto dos industriais alemães que financiaram Hitler terem sido directores de cartéis com participação, associação e direito de propriedade de origem americana. Ou seja: a maior parte das multinacionais não era genuinamente alemã, na medida em que tinham sido construídas com empréstimos americanos nos anos vinte (23).










































De resto, convém notar que o livro de Antony Sutton não é uma acusação contra toda a indústria financeira americana, mas tão-só contra firmas controladas por certas e determinadas casas financeiras, como o Sistema da Reserva Federal, o Banco de Compensações Internacionais (Bank for International Settlements) e todas as suas ramificações ou extensões financeiras. Aliás, a maior assistência americana aos nazis proviera da Opel, uma subsidiária da General Motors controlada pela firma de J. P. Morgan, assim como da Ford A. G. na qualidade de subsidiária da Ford Motor Company de Detroit (24). Mais: a I. G. Farben, que resultara da fusão das maiores companhias químicas da Alemanha – Badische Anilin, Bayer, Agfa, Hoechst, Weiler-te-Meer e Griesheim-Elektron –, conseguira a maior influência no Estado hitleriano à conta do capital de Wall Street sem o qual jamais teria deflagrado a Segunda Guerra Mundial (25).

Por outro lado, existem facetas místicas e esotéricas menos conhecidas do nazismo, para as quais contribuíram alguns dos mais influentes grupos ocultistas dos séculos XIX e XX, como a Ordem Hermética da Aurora Dourada, a Sociedade do Vril, a Loja Luminosa, a Sociedade Thule, etc. Em Sociedades Secretas, Michael Howard traça-nos, a esse respeito, um quadro muitíssimo interessante:

«(...) Numa das suas visitas aos Wheatley em 1937, Maxwell Knight conheceu Crowley e, mais tarde, descreveu o ocultista aos amigos como um indivíduo de meia idade, excêntrico, bem vestido, com a aparência de um professor de Oxford. Knight tornou-se grande amigo de Crowley; ele e Wheatley assistiram a cerimónias de magia organizadas pelo mágico. O objectivo dessas visitas era pesquisar material para os romances ocultistas de Wheatley.

Foi devido a esta ligação com Maxwell Knight que Crowley se viu envolvido na tentativa feita pelos serviços secretos britânicos de atrair Rudolf Hess à Grã-Bretanha, no princípio do verão de 1941. Quando rebentou a guerra, o comandante Ian Fleming, que mais tarde se tornou célebre como criador de James Bond, o espião ficcional, trabalhava para os serviços secretos navais. Conhecia Knight e apercebeu-se do interesse do oficial do MI5 pelo ocultismo e da sua amizade com Crowley. Também se apercebeu, talvez através dos relatórios de Crowley para o SIS, que muitos dos nazis importantes estavam envolvidos no ocultismo.

Fleming sugeriu que talvez fosse possível armar uma ratoeira para convencer Hess a voar até à Grã-Bretanha. A subsequente prisão de Hess forneceria um óptimo golpe de propaganda favorável ao esforço de guerra dos aliados. Fleming serviu-se de um astrólogo suíço para se infiltrar nos círculos ocultistas da Alemanha frequentados por Hess. Ao líder nazi foi dada a informação de que uma organização denominada a Ligação, que tinha apoiado activamente os nazis durante a década de 1930 na Inglaterra, continuava a operar clandestinamente na Grã-Bretanha no tempo da guerra e continuava a ter uma influente filiação de activistas pró-alemães, que conspiravam secretamente para derrubar o governo de Churchill. Quando isso acontecesse e os traidores estivessem no poder, conseguiriam negociar os termos de paz com Hitler.

Disseram a Hess que o duque de Hamilton queria falar com ele pessoalmente como representante da Ligação. Em Janeiro de 1941, Hess soube também por um astrólogo que trabalhava para o SIS que a 10 de Maio a posição de seis planetas no signo de Touro coincidia com a Lua cheia. Hess considerou isso um presságio favorável e escolheu essa data para a sua malfadada missão de contactar a Ligação. O duque de Hamilton trabalhava para a Real Força Aérea (RAF) na Escócia e, quando Hess desceu de pára-quedas no país e foi detido pela polícia, pediu para falar com o aristocrata.







O Duque de Hamilton com a família



Rudolf Hess. Ver aqui



Destroços, na Escócia, do avião que transportara Hess (1941).




Hermann Göring e Rudolf Hess no Julgamento de Nuremberga.




Rudolf Hess na Prisão de Spandau
















Wallis Simpson e Edward VIII







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Inicialmente, Fleming tinha pedido ao MI5 que levasse Crowley a servir-se dos seus contactos nas irmandades ocultistas da Alemanha para montar uma armadilha a Hess. Infelizmente, os serviços secretos britânicos sabiam que a influência de Crowley era limitada, devido às suas actividades como agente do MI6 em Berlim antes da guerra, quando ele espiava os comunistas e os nazis. Numa da suas abomináveis emissões de rádio, Lord Haw Haw (William Joyce) tinha afirmado satiricamente que quando os nazis ocupassem Londres, Crowley celebraria uma missa negra na abadia de Westminster. Crowley tinha a certeza de se ter tornado um alvo específico para os nazis durante a Blitz; por isso, deixou Londres e foi morar numa casa em Richmond Green, no Surrey.

Quando Hess foi preso, Ian Fleming sugeriu ao seu chefe, o contra-almirante, John Godfrey, director do Departamento dos Serviços Secretos da Marinha (NID), que deviam permitir a Crowey entrevistar Hess sobre o papel do ocultismo no nazismo. Maxwell Knight também ficou entusiasmado com a ideia; mas outros indivíduos no MI5, no MI6 e no NID não gostaram da ideia e ela foi posta de lado. Na realidade, os serviços secretos parecem ter lidado mal com toda a operação de Hess, e rapidamente se perdeu qualquer hipótese de embaraçar os nazis com a sua detenção.

Na Alemanha, a reacção de Hitler ao acontecimento foi imediata e violenta. Nada sabia da missão e a primeira reacção quando ouviu a notícia foi afirmar que Hess tinha sofrido um distúrbio mental. Hess foi repudiado no jornal oficial nazi como um homem doente, que o seu interesse pelo ocultismo e pela astrologia o tinha desencaminhado. Várias centenas de astrólogos, ocultistas e membros de sociedades secretas foram encurralados e questionados pela Gestapo para se saber se conheciam Hess ou outros membros importantes do partido nazi. Em Junho de 1941, os nazis ilegalizaram a prática pública das artes ocultistas, a astrologia, a quiromancia e os poderes psíquicos.

Anteriormente a esta selvática reacção contra as actividades esotéricas na Alemanha, Hitler, segundo se diz, tinha aprovado o uso de grupos ocultistas para desencadear poderes psíquicos que bloqueassem os radares dos aparelhos da RAF ao sobrevoarem a Alemanha. A ideia era conseguir que os aviões falhassem os alvos, se perdessem e fossem detectados pelos holofotes das baterias antiaéreas alemãs. Correram boatos de que semelhante operação psíquica tinha sido montada também na Grã-Bretanha pelos serviços secretos britânicos, envolvendo psíquicos que trabalhavam numa localização secreta no País de Gales. O seu objectivo era desviar a Luftwaffe durante os seus raides sobre as cidades inglesas para emboscadas montadas pelo comando dos caças da RAF.

Desde o início da guerra que o MI6 se interessou pela preocupação nazi com o ocultismo. O SIS utilizou vários ocultistas para combater os nazis a nível psíquico. Um astrólogo húngaro chamado Louis Wohl, com a patente de major, estava destacado no Departamento Psicológico da Guerra. A sua tarefa era analisar o mapa astrológico de Hitler e enviar regularmente relatórios ao ministério da Guerra, pormenorizando quais seriam os conselhos que os astrólogos de Hitler davam ao líder alemão antes de tomar as suas decisões na guerra. Dizia-se que o SIS havia utilizado muitos outros astrólogos que produziam previsões falsas, sugerindo que a Alemanha ia perder a guerra. Essas publicações astrológicas falsas eram introduzidas clandestinamente na Europa ocupada pelos agentes do SIS, que também as faziam circular amplamente. Recorriam também às profecias do vidente Nostradamus, do século XVII, as quais profetizavam a ascensão e a queda de um ditador europeu chamado Hister (Hitler).






Louis de Wohl




Uma das mais brilhantes psíquicas utilizadas durante a guerra pelos serviços secretos britânicos era conhecida simplesmente pelo nome de código Anne. Tinha oferecido os seus serviços psíquicos aos serviços secretos, entre os quais se contava a capacidade de projectar a mente a localizações remotas e relatar o que ali estava a acontecer. Ao ser entrevistada, deixou impressionados os oficiais dos serviços secretos: entrou em transe e projectou a mente à sala contígua. Disse então que havia na sala um grupo de homens sentados a ler o Times e a envolver determinados anúncios com um lápis azul. Foram verificar a informação e concluíram que estava correcta.

Nas semanas seguintes, Anne foi rigorosamente testada pelos serviços secretos, que tentavam provar que os seus poderes eram falsos. Deixou atónitos os verificadores, repetindo conversas entre militares britânicos posicionados além-mar. Os oficiais acabaram por admitir que os seus poderes eram verdadeiros e serviram-se dos seus dons por diversas vezes. Anne fez o seu golpe mais espantoso ao projectar a mente até à sede dos altos comandos nazis, em Berlim. Ali leu alguns documentos confidenciais e quando regressou do transe relatou o seu conteúdo aos colegas britânicos dos serviços secretos.

Os psíquicos que trabalhavam para os serviços secretos não foram os únicos ocultistas empenhados em actividades antinazis. Antes da guerra, tinha-se verificado um reflorescimento da bruxaria; supostamente, um ocultista húngaro tinha organizado conventículos no Cotswolds e usado poderes psíquicos para combater os nazis. Esse indivíduo também tinha tido contactos com os serviços secretos britânicos e recrutado círculos ocultistas na zona de West Midlands, no sentido de usarem a telepatia para combater os alemães.

Uma das personalidades importantes no reflorescimento da bruxaria foi um oficial das alfândegas reformado, Gerald Gardner, regressado do Extremo Oriente e residente em New Forest, no Hampshire. Gardner interessava-se pelo espiritualismo e pelo ocultismo; como resultado, juntou-se a uma companhia de teatro rosacruz que trabalhava em Christchurch, antes da guerra. O teatro tinha sido fundado por discípulos de Annie Besant, que eram co-maçons e tinham formado um grupo conhecido como Companhia Corona da Rosa-Cruz, um ramo não oficial do Templo da Rosa-Cruz, fundado por Besant em 1912. Gardner depressa descobriu que vários desses rosa-cruzes eram também membros de um conventículo de bruxos e, em 1939, declarou ter sido iniciado como bruxo pela suma-sacerdotisa, uma senhora idosa chamada Dorothy Clutterbuck, que residia numa enorme mansão em New Forest.

Em Junho de 1940, quando a Inglaterra sofreu a invasão dos nazis, Gardner afirmou que a suma-sacerdotisa do seu conventículo convocou uma grande reunião de bruxos em New Forest, onde estava erguido o grande círculo. Tratava-se de um ritual mágico só realizado em casos de emergência extrema. Anteriormente, só tinha sido convocado duas vezes: em 1588, para combater a Invencível Armada espanhola, que acabou por ser derrotada por Drake e os seus navios, ajudados por uma grande tempestade; e na década de 1800, quando se suspeitou que Napoleão tinha intenções de atravessar o Canal da Mancha. O ritual, realizado na floresta, envolvia o levantamento de um cone de poderes psíquicos, direccionado para a costa francesa, ao mesmo tempo que proferiam um grito de ordem: «Não consegues atravessar o mar, não consegues atravessar o mar, não consegues chegar». Segundo Gardner, o ritual envolvia o uso da força vital do conventículo reunido e, como resultado, vários bruxos mais idosos morreram. O ritual foi repetido quatro vezes; foi então que os mais velhos disseram: «Temos de parar; não queremos matar mais gente nossa».

Canal da Mancha


No lado oposto do espectro ocultista, também a ocultista Dion Fortune trabalhava contra os nazis a nível psíquico, embora a sua organização estivesse ligada à deles através de filiações rosa-cruzes partilhadas. Ela serviu-se dos arquétipos raciais e nacionais em práticas mágicas para proteger a Grã-Bretanha da invasão. Desde o Outono de 1939 até 1942, Fortune produziu uma série de circulares em substituição do jornal oficial do seu grupo mágico, a Irmandade da Luz Interior, que não podia ser publicado devido à falta de papel causada pela guerra. As circulares ofereciam aos membros da Luz Interior dispersos por todo o país uma série de exercícios de meditação para serem praticados todos os domingos.

Todos os domingos de manhã, o círculo íntimo de iniciados da irmandade reunia na sede londrina do grupo, em Bayswater. Todos os outros membros espalhados pelo país ligavam-se ao grupo de Londres, formando uma rede de mentes exercitadas. Na sua primeira circular, enviada em Outubro de 1939, Fortune explicou que a ideia era contactar as influências espirituais que governavam a raça britânica, usando o símbolo de uma cruz encimada por uma rosa rodeada por raios dourados de luz. Este símbolo particular fora comum aos rosa-cruzes medievais e aos modernos grupos ocultistas, tais como a Ordem Hermética da Aurora Dourada, na qual Dion Fortune se tinha filiado logo após a Primeira Guerra Mundial. Por volta de 1940, a Luz Interior esteve envolvida em rituais mágicos para invocar os anjos da guarda das ilhas britânicas, visualizados vestidos e armados patrulhando as costas do país para impedir a invasão alemã.

Tem havido considerável especulação referente às crenças ocultistas associadas ao nacional-socialismo e ao papel desempenhado pelas sociedades secretas na sua subida ao poder. Esse facto levou a histórias exageradas e sensacionalistas que baralharam os factos realmente ocorridos. Esta confusão foi ajudada pela atitude dos aliados para com a verdadeira natureza da doutrina política nazi após a guerra. Churchill supostamente ocultou os factos sobre o envolvimento nazi no ocultismo; ordenou que em circunstância alguma o público em geral deveria ser informado da extensão das actividades ocultistas em que o Terceiro Reich estava empenhado. Nos julgamentos de Nuremberga dos mais importantes criminosos de guerra nazis, entre eles Rudolf Hess, a verdade acerca das suas atitudes e práticas esotéricas foi ocultada ao mundo...» (26).

Enfim, «a figura de Crowley, mestre do ocultismo e simultaneamente agente dos serviços secretos ingleses, líder na Grã-Bretanha de uma sociedade que é análoga a uma seita ocultista alemã, merece que se mantenha presente, tanto mais que em 1940 escreveu a Churchill, enviando-lhe um talismã “para fazer que cessassem as incursões aéreas” e afirmara em seguida: “na verdade, fui eu a vencer a guerra!”» (27).


Notas:

(1) Se é um facto que a organização uniforme do Estado Prussiano inspirou o socialismo do século XIX, também é um facto que Hitler não menos se inspirou no princípio de organização do exército prussiano com vista a transpô-lo para o seu sistema político, que, como se sabe, assentava na «plena autoridade de cada chefe sobre os seus subordinados e a sua inteira responsabilidade para com os seus superiores» (cf. Marlis Steinert, Hitler, Editorial Verbo, 2006, p. 180).










(2) Ibidem, p. 157.

(3) Ibidem, p. 150.

(4) Oswald Spengler, La Decadencia de Occidente, Espasa-Calpe, 1989, Tomo I, p. 26.

(5) Marlis Steinert, op. cit., p. 147. Sobre esta questão, diz-nos Frederico Hayek: «Vale a pena recordar que Hitler, quaisquer que fossem as razões que a isso o levaram, afirmou, num discurso pronunciado em Fevereiro de 1941, que, "essencialmente, nacional-socialismo e marxismo são a mesma coisa" - cf. The Bulletin of International News, publicado pelo Royal Institute of International Affairs, vol. XVIII, n.º 5, p. 269» (in O Caminho para a Servidão, Teoremas, 1977, tradução de Ivone de Moura, revista por Orlando Vitorino, p. 63).

(6) Cf. F. Hayek, op. cit., pp. 185-186. É um facto que, no ensino oficial, o socialismo e o comunismo, comparativamente ao fascismo e ao nazismo, aparecem como que historicamente absolvidos. Exemplo disso são os programas e os manuais onde transparece uma historiografia que deturpa, omite e apaga a literal “cultura de genocídio" praticada e projectada pelo movimento mais brutal que o mundo alguma vez conheceu: o comunismo. Por outras palavras, a tendência didáctica dominante é a de procurar sonegar as letais consequências de um tal movimento, sobretudo quando se diz que, na Itália e na Alemanha, «o Estado totalitário foi produto do fascismo e do nazismo» (cf. O Tempo da História, Porto Editora, 12.º ano, 2010, 1.ª Parte, História A, p. 123). Ou ainda quando se diz que, «por comodidade, designam-se por fascistas as novas experiências que tiveram no fascismo italiano e no nazismo alemão os grandes paradigmas» (cf. ibidem, p. 125).

Porém, se quiséssemos sintetizar o critério didáctico em voga, seríamos levados a ter em conta os seguintes aspectos que lhe andam estreitamente associados: 1. A «negação oficial» de que o socialismo e o comunismo estão, em grande medida, na origem das experiências totalitárias do nazismo e do fascismo (Mussolini foi, por exemplo, o homem da segunda Internacional Operária; 2. A elasticidade atribuída ao termo “fascismo” para designar o totalitarismo “italiano” e “alemão”, por falsa e alegada contraposição ao socialismo nem sempre respeitador das “vontades individuais” (Hitler, além disso, «não gostava que lhe dissessem que ele copiara o fascismo italiano e rejeitava a insinuação de que a saudação nazi se limitava a imitar a saudação fascista… Reprovava o fascismo italiano por lhe faltar radicalismo e “consciência revolucionária”. Mesmo quando concedia existir um parentesco ideológico entre as revoluções fascista e nacional-socialista, defendia que apenas os nacionais-socialistas haviam penetrado no segredo das revoluções; eles tinham sido eleitos pela Divina Providência para impor a sua marca no século vindouro» - in Marlis Steinert, op. cit., pp. 147-148); 3. Por fim, o carácter antiparlamentar, antidemocrata e antiliberal do nazismo e do fascismo, sem, para o efeito, se condenar o comunismo que, não menos totalitário por natureza, perfilha do mesmo carácter enunciado, não obstante existirem partidos comunistas legalizados em regimes nominalmente democráticos.

(7) Cf. F. Hayek, op. cit., p. 63.

(8) Segundo Marlis Steinert, foi a partir de 1926 que Hitler começou «a melhorar as suas relações com certos meios de negócios», obtendo mais sucesso «com os das cidades médias ou pequenas do que com os grandes centros industriais como o Ruhr ou Hamburgo» (op. cit., pp. 199-200).

(9) «…certas quantias, [que perfizeram os fundos para o NSDAP] provinham, mesmo, da mais velha profissão do mundo, que um oficial do corpo franco explorava, à semelhança das casas de passe mantidas por Estaline antes de 1917, nas cidades do Cáucaso, como forma de financiar o Partido Bolchevique» (Marlis Steinert, op. cit., p. 115).






(10) Cf. ibidem, pp. 110-111 e 114.

(11) Cf. ibidem, p. 215.

(12) Ibidem, pp. 237-238.

(13) Entre estas instituições encontravam-se, entre outras, os ministérios da Economia, das Finanças e do Trabalho.

(14) Cf. Marlis Steinert, op. cit., pp. 252-253.

(15) «As exportações alemãs tornaram-se, assim, objecto de troca: café do Brasil contra carvão e minérios; óleo de baleia norueguês contra barcos-cisternas; soja búlgara contra corantes e produtos farmacêuticos; algodão egípcio contra adubos químicos, etc.» (Marlis Steinert, op. cit., p. 252). De resto, sobre o princípio da compensação na política comercial alemã, há curiosamente uma nota oficiosa de Oliveira Salazar sobre «O suposto arrendamento de Angola à Alemanha», publicada nos jornais de 29 de Janeiro de 1927. Trata-se, pois, de um vigoroso desmentido sobre uma tal suposição, parte do qual se segue nos seguintes termos: «A insistência destas campanhas e a ineficácia dos nossos esforços para lhes pôr termo, não tendo conseguido mais que curtos dias de repouso entre ataques sucessivos, revelam a existência de causas de actuação permanente: uma, podiam ser negócios entabulados ou em execução, concessões, contratos que adulterados, pervertidos, engrossados por imaginações delirantes, dariam origem a essas ideias de mais vastos arranjos coloniais; outra, podem ser as combinações confusas e mal definidas de interesses políticos que neste momento dividem a Europa, têm nos espíritos receosos e doentes campo para a fácil aceitação de coisas absurdas e são habilmente dirigidas, por meio da mesma perturbação que provocam, a certos resultados internacionais.

A primeira causa não existe ou não poderiam os factos reais levar a tais deduções, visto esses factos serem correntes nas relações económicas da Alemanha com os vários Estados, representarem em Portugal muito menos valor que em muitos outros e não poderem ter pelo seu objecto ou circunstâncias nenhum significado especial. É sabido que a política comercial alemã se baseia no princípio da compensação, recusando-se aquele país em geral a comprar a contra-partida do que vende. Conseguido pelos tratados de comércio o equilíbrio da balança ou o saldo positivo em relação a determinado país, o Governo alemão consente, à margem dos contingentes fixados, contratos de compensação directa entre firmas de uma ou outra nação, contratos que, aliás, já gozam de pequeno favor por poderem perturbar a orientação imposta à economia do Reich. Por este motivo e porque não estamos em Portugal organizados para trabalhar nessa base, os negócios de compensação directa têm representado uma pequeníssima parte da nossa actividade comercial, e os únicos importantes que parecem ter sido feitos para troca de produtos industriais alemães por matérias-primas coloniais queixaram-se os interessados alemães ao Governo português de que não foram cumpridos. Mas se o fossem ou o tivessem sido, nada de extraordinário se poderia ver aí.

Como somos um país de liberdade comercial e não temos contingentes de importação, nem mesmo em relação aos países que os mantêm contra nós, a balança comercial é favorável à Alemanha, funcionando portanto o clearing existente apenas como processo de liquidação e não como limitativo das importações alemãs em Portugal. Mas em relação à Alemanha, como em relação à Itália e à França, por exemplo, o Governo português não poderia admitir a possibilidade de agravamento indefinido da sua balança, sem procurar obter, por meio de troca directa ou de contingentes suplementares, compensações totais ou parciais de importações mais avultadas, reclamando do Reich a possibilidade de exportar produtos manufacturados ou matérias-primas metropolitanas ou coloniais de que, segundo é sabido, a Alemanha é um dos mais importantes mercados.

Apesar disso deve dizer-se que o material de aviação comprado na Alemanha, como todo o material de guerra comprado ou ajustado na Inglaterra, na França, na Bélgica, na Suécia ou na Dinamarca, tem sido pago exclusivamente em divisas. O que não prometemos é fazer sempre assim no futuro.



Oliveira Salazar







Seja qual for o interesse que para os dois países tenham contratos de compensação; sejam quais forem as possibilidades das empresas alemãs de realizar grandes obras de fomento no continente ou nas colónias portuguesas onde têm trabalhado e trabalham ao lado de empresas dinamarquesas, holandesas, francesas, italianas ou espanholas; sejam quais forem as possibilidades económicas que cada um anteveja, sonhos que arquitecte e mesmo as responsabilidades passadas da Alemanha no tocante a projectos sobre as colónias portuguesas de África, a verdade é que sobre os factos presentes, ao alcance da observação de todos, não podem enxertar-se a cada passo as atoardas da sua venda ou arrendamento, tanto mais que se apresentam como exigindo o acordo do governo português. Mais razoavelmente filiaríamos tais campanhas no actual estado político da Europa. Só não sei se com elas mais se pretende atingir Portugal se combater a Alemanha» (in Discursos e Notas Políticas, II, 1935-37, Coimbra Editora, 2.ª Edição, 1945, pp. 259-262).

(16) Cf. Frederico Hayek, op. cit., pp. 55-56.

(17) Sobre o conflito irredutível entre democracia e socialismo, leia-se Alexis de Tocqueville: «A democracia alarga a esfera da liberdade individual, o socialismo restringe-a. A democracia atribui o máximo valor a cada homem, o socialismo faz de cada homem um simples agente, um número. A democracia e o comunismo nada têm de comum, excepto uma palavra: igualdade. Mas note-se a diferença: enquanto a democracia estabelece a igualdade em liberdade, o socialismo procura a igualdade em repressão e servidão» (in F. Hayek, op. cit., p. 56).

(18) Entre colectivismo e individualismo, averba, por sua vez, F. Hayek: «Como muitas vezes já se afirmou, e em muitos casos é verdade, a natureza da nossa civilização tem sido mais lucidamente compreendida pelos seus adversários do que pela maior parte dos seus defensores. Augusto Comte, esse totalitarista do século XIX, escreveu que “a doença perene do ocidente, a revolta do indivíduo contra a espécie”, foi a força que construiu a nossa civilização» (op. cit., p. 43).

(19) Assinalável é a forma como Oswaldo Spengler descreve o conflito entre as formas antagónicas da cultura fáustica (as da acção e as do intelecto), ao dar como respectivo exemplo, até à Revolução Francesa e alemã, o conflito histórico «entre as ideias de Império e de Papado nos séculos XII e XIII», ou «o conflito entre as forças tradicionais do sangue azul (realeza, nobreza e exército) e as teorias plebeias do racionalismo, do liberalismo e do socialismo» (cf. O Homem e a Técnica, prefácio de Luís Furtado e tradução de João Botelho, Guimarães Editores, 1993, p. 99).

(20) Cf. Antony C. Sutton, Wall Street and the Rise of Hitler, Clairview, 2010, pp. 90-93.

(21) Ibidem, p. 90. Perante o auxílio a chefes terroristas em Angola e Moçambique feito por instituições privadas norte-americanas, designadamente a Fundação Ford, Oliveira Salazar, numa carta enviada a Roswell Gilpatric (1965), aborda a questão da seguinte forma: «... a) Segundo depreendi, a Fundação Ford não só estaria disposta a cessar o seu auxílio aos terroristas baseados no Tanganica (Tanzânia) como estaria pronta a entregar ao Governo Português, naturalmente para os fins da Instituição, as somas com que tem contribuído para auxiliar aqueles. Congratula-se o Governo Português com essa decisão e, dados os fins educativos e humanitários da instituição, não tem a menor dúvida em aceitar a oferta da Fundação Ford...» (in Franco Nogueira, Salazar - O Último Combate - 1964-1970, VI, Livraria Civilização Editora, 1985, p. 24). Enfim, Oliveira Salazar não somente sabia que os americanos andavam a tramar os Portugueses no Ultramar, como ainda se apercebia da progressiva destruição da legalidade internacional levada a cabo por uma das nações mais poderosas do mundo.



Adolf Hitler e Hjalmar Schacht













 Hjalmar Schacht no Julgamento de Nuremberga.




(22) Quando interrogado em Nuremberga, Hjalmar Schacht observou que a Nova Ordem de Hitler era praticamente o mesmo programa aplicado pelo New Deal de Roosevelt nos Estados Unidos. Quer isto dizer que o New Deal foi, na realidade, um empreendimento socialista com vista a uma nova ordem económica, particularmente destinada a controlar a indústria e a eliminar a competição (Antony C. Sutton, op. cit., pp. 120-121).

(23) Ibidem, p. 101. Demais, interesses bancários e industriais, inclusivamente americanos, estiveram consideravelmente representados no círculo interno do nazismo. Este círculo foi criado por ordem do Führer, sendo primeiramente conhecido como o Círculo de Kepler e, mais tarde, pelo Círculo dos Amigos de Himmler (ibidem, pp. 123-128).

(24) Ibidem, pp. 31-32.

(25) Ibidem, p. 33. «Consequentemente, a I. G. Farben fez muito mais, durante os anos 30, do que cumprir as ordens do Estado nazi, uma vez que iniciara os respectivos planos para a conquista do mundo e actuara como uma organização de pesquisa e inteligência para o Exército alemão, além de, voluntariamente, iniciar os projectos da Wehrmacht. (...) Estima-se que cerca de 40 a 50% dos projectos da Farben para o Exército foram por ela empreendidos para que o Dr. von Schnitzler concluísse: "Deste modo, actuando como actuou, a I.G. contraiu uma enorme responsabilidade e constituiu um substancial auxílio no domínio químico e uma ajuda decisiva para a política externa de Hitler, que levou à guerra e à ruína da Alemanha. Tenho que concluir que a I. G. foi largamente responsável pela política de Hitler"» (in op. cit., p. 42).

Quanto à tecnologia americana em benefício dos nazis, eis o seguinte trecho: «O grupo de companhias da Standard Oil, no qual a família Rockefeller detinha um ostensivo interesse avaliado numa quarta parte, constituiu uma ajuda fundamental na preparação da Alemanha nazi para a Segunda Guerra Mundial. Esta ajuda na preparação militar tivera lugar porque as provisões relativamente insignificantes de petróleo mineral eram notoriamente insuficientes para a moderna guerra mecanizada; em 1934 foram, por exemplo, importados 85% de produtos petrolíferos alemães acabados. A solução adoptada pela Alemanha nazi foi produzir gasolina sintética a partir de enormes provisões de carvão doméstico. Foi o processo de hidrogenação para produzir gasolina sintética e suas propriedades iso-octánicas na gasolina que permitiu à Alemanha entrar na guerra em 1940 – e este processo de hidrogenação foi desenvolvido e financiado pelos laboratórios da Standard Oil nos Estados Unidos em parceria com a I.G. Farben» (in op. cit., p. 67).

(26) Michael Howard, Sociedades Secretas, Vega, 2013, pp. 133-137.

(27) In Giogio Galli, Hitler e o Nazismo Mágico, As componentes Esotéricas do III Reich, Edições 70, Colecção Esfinge, 1989, p. 122.







Hitler e Hindenburg






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