sexta-feira, 29 de março de 2013

Afonso de Albuquerque (ii)

Escrito por Oliveira Martins 








«Quem for senhor de Malaca tem a mãao na garganta de Veneza».

Tomé Pires


«A meu parecer, vos tendes a Himdia aguora em maior-rrisquo pello casso d'Afonso d'Albuquerque que pollo dos rumes...».

António de Sintra ao rei D. Manuel, Dezembro de 1508.


«Quando, em Novembro de 1513, António Raposo passava por Cananor, abordou Albuquerque com certo embaraço e confiou-lhe que Gaspar Pereira lhe pedira para juntar o seu nome a uma lista de queixas já assinada por mais seis pessoas. Entre esses nomes, alguns dos fiéis de Albuquerque, como D. João de Lima e Manuel de Lacerda. António Raposo só pudera obter uma cópia que mostrou ao governador. Imediatamente convocados, os pretensos signatários declararam nunca terem ouvido falar de nada e consideravam Gaspar Pereira um perigo público. Depois, começaram a falar à vontade, e um tal António Madeira disse que tinha visto uma carta escrita por Diogo Pereira, ditada por António Real e enviada ao rei um ano antes. Trazido à presença do governador, Diogo Pereira perdeu a cabeça e solicitou perdão. Foi-lhe concedido, mas na condição de dizer a verdade. Em resposta, entregou ao governador a cópia da carta, de que se fez leitura pública na presença de António Real. Este só jurava sobre os Evangelhos que era tudo falso e atribuía as culpas ao diabo que o tentara.

A análise destas acusações, caluniosas na grande maioria, esclarece o comportamento de Albuquerque e, também, o estado de espírito dos contemporâneos. Ele próprio classificava os detractores em três categorias: invejosos, despeitados e ofendidos. Se os primeiros constituem uma legião na sombra dos vencedores, os outros manifestavam reacções fáceis de entender. Viviam todos numa época em que o entusiasmo criado por novas empresas era travado pelo forte peso das antigas. O prestígio dos altos feitos da cavalaria não se apagara ainda no coração dos fidalgos. Colocavam a honra ao serviço de combates singulares e tornavam a iniciativa de acções militares desconexas que lhes tinham valido severas chamadas à ordem. Albuquerque denunciava o individualismo de tal comportamento e a emulação que os levava a folgar com as quebras e desastres que acontecem aos outros.

As técnicas da guerra moderna, introduzidas na Índia pela gente de ordenança, tinham sido rejeitadas por um grupo de nobres. A chegada de um exército profissional representava pôr em causa a função social da nobreza e originou tantos melindres que foram inúmeras as sabotagens e lanças partidas. Diante de Adem, o governador mandara separar em barcos distintos os soldados de ofício e os homens de armas ligados aos fidalgos».

Geneviève Bouchon («Afonso de Albuquerque: Leão dos Mares da Ásia»).


«Eu sam pessoa pera que se meterem doze reynos na mão pera os governar com muita prudência, descriçam e saber... tenho hidade pera saber ho bem e ho mall».

Afonso de Albuquerque





Só e livre, absoluto senhor do império nascente, Albuquerque entregou-se com franqueza e decisão ao seu projecto. A primeira condição dele era a fundação de uma cidade, uma capital portuguesa - coisa que até então não existira. Cochim, cujo rajá desde o princípio se abraçara aos novos invasores, era uma cidade índia, onde possuíamos apenas uma fortaleza, abrigo da feitoria e guarda de um porto amigo. Albuquerque elegeu Goa para capital. Colocada a meia altura da costa ocidental da península, bom porto, a cidade reunia as condições desejáveis. Fazia ele então parte do reino de Vijajapur (Bijapor), fracção que no fim do XV século se separara do de Dekkan, declarando-se o seu Cã independente, sob o título de adil-xá (Adil-Khan, Hidalcão); e o adil-xá do Vijajapur, ao tempo de Albuquerque, tinha por seu nome Iusuf. Por este governava em Goa Sipahdar, a quem os nossos chamaram Sabaio. Em Fevereiro de 510, Albuquerque tomou Goa por surpresa; e pela primeria vez houve no Oriente um Estado português. Até então, depois de uma batalha, a tomada de um lugar significava apenas a substituição da suserania indígena pela nossa; e o estabelecimento de feitorias e a construção de fortalezas, tinham somente em vista assegurar o comércio e a cobrança das páreas ou tributos de vassalagem, segundo o plano do primeiro vice-rei. Albuquerque iniciava um sistema diferente: criava uma cidade propriamente portuguesa; e com o novo governador, o nosso domínio desembarcava dos navios para a terra firme. A um sistema de colónias, como fora em volta do Mediterrâneo o dos fenícios ou o dos gregos, substituía-se um império, como Aníbal o sonhara na Itália, e Alexandre o fundou na Ásia. Albuquerque, porém, não pensava em fazer de Goa uma cidade portuguesa, no sentido de ser exclusivamente habitada por europeus: seria quimérico. Faltava-lhe gente, e para obviar a isto fomentou os cruzamentos de portugueses com mulheres indígenas, criando, tanto em Goa como depois em Malaca (7), uma população de mestiços, que mais tarde se tornou um dos elementos de dissolução do nosso império. Sob o domínio português, os naturais viveriam livremente na sua religião, com as propriedades garantidas, mas sujeitos ao império protector e soberano de Portugal (8). Era um plano correspondente ao que mais tarde os ingleses puseram em prática, sem todavia cruzarem com os indígenas; da mesma forma que os holandeses preferiram os planos marítimo-comerciais de D. Francisco de Almeida.

Goa ocupou ao governador todo o ano de 510; porque o Sabaio, tomado por surpresa em Fevereiro, voltou no Verão; e os soldados de Albuquerque não quiseram resistir-lhe. Apesar do desespero e das maldições, da fúria e das ameaças do governador, abandonaram a cidade e embarcaram. Os planos de Albuquerque pareciam loucuras aos bandidos e piratas da Índia, que além de lhes não compreenderem o alcance, se viam privados de saques, apenas fartos de guerra. Goa perdeu-se em Agosto; mas logo tornou para o domínio português, ganha por assalto em Novembro. Os soldados obedeciam, porque o comando do governador era terríbil, desapiedada a sua crueldade genial, fervorosa a sua fé católica. Alexandre cria-se um deus, Albuquerque viu mais de uma vez os milagres do céu nas horas do combate. Em Goa viu Santiago: um cavaleiro de armas brancas, no manto uma cruz vermelha, pelejando contra os mouros (9) - conforme a tradição histórica portuguesa. Nas cidades da costa da Arábia, viajando para Ormuz, as suas crueldades tinham sido bárbaras: em Goa não o foram menos. Além queria impor pelo medo; aqui destruía como político. Todos os mouros de ambos os sexos, de todas as idades, mais de seis mil, foram mortos (10); e queimados vivos os que se tinham refugiado na mesquita, sendo a terra assim «despejada», porque para sossego dela só devia conter gentios. Era o lugar escolhido para capital do império dos novos gregos pelo moderno Alexandre.



Santiago, o Apóstolo guerreiro



Consolidada a posse da capital, no coração da Índia, Albuquerque voltou-se rápido para as duas empresas que rematariam o seu império: Malaca e Ormuz. Embarcou, logo no princípio de 511, e tocando em Ceilão, a terra encantada das pedras preciosas, delícias do mundo, pátria da canela e das pérolas, achamo-lo, já em Maio, em frente de Malaca, no Extremo Oriente.

Malaca, na ponta da península da Indochina, sobre o estreito a que dá o nome, era para esta região, como Ormuz, a norte-leste, para a outra. Assim como além se permutavam os géneros da Índia com os da Arábia e da Pérsia, e em Adém com os dos Egipto; assim em Malaca se faziam todas as trocas dos produtos ocidentais da China e das Molucas, e de todo o Extremo Oriente. De Malaca iam as naus a Ternate e a Tidor, a Banda e a Ambon, em procura do precioso cravo; e o estreito andava coalhado de juncos de Java, conduzindo à cidade o arroz, as carnes, a caça e os crises tauxiados de fino aço, em troca dos damascos e brocados, que levavam de retorno para as ilhas do arquipélago. Anfíbios, os malaios viviam no mar em permanência, com a casa e a família a bordo; e os seus juncos, com enxárcias de verga, iam buscar a Malaca os panos de Paleakat e de Mahabalipurum (Meliapor), na costa de Coromandel, e as drogarias de Kambai.

Do saque de Malaca, o governador reservou para si apenas seis leões de bronze, destinados ao seu túmulo. Sem se demorar, avassalou todo o arquipélago malaio, levantando fortalezas e deixando guarnições; e, segura a porta oriental da Índia, voltou-se a Goa, de caminho para Ormuz e Adém, a consolidar o império pelo Ocidente. Em Fevereiro de 513, sai com uma armada para Adém, que não consegue tomar; viaja em torno do Mar Vermelho, incendiando e bombardeando as costas; mas não sente forças para levar a cabo o seu plano de conquistar a Arábia, indo a Meca despedaçar a santa Caaba. A campanha de 513 não tem portanto resultado positivo, desde que Adém consegue resistir às investidas do governador. Adiou pois para outra vez esses planos, que eram a cúpula do seu edifício e a chave do império que vinha construindo. Conquistada Adém, as duas empresas que meditava eram relativamente fáceis na sua simplicidade temerária. Levaria quatrocentos homens de cavalo em taforeias ou caravelas e iria desembarcar em Liumbo, partindo num galope até Meca, lugar santo mal guardado por gente prostrada em adorações. Roubaria o tesouro sagrado e o próprio corpo do profeta: com ambos se resgataria o Santo Sepulcro de Jerusalém, cativo. Consumar-se-ia a obra malograda das Cruzadas, tradição piedosa que na Renascença passara das nações do norte para a Itália e para a Espanha, arrastando mais tarde Portugal a Alcácer Quibir. Ao mesmo tempo, e por outro lado, a grande empresa do Mar Vermelho descarregaria um golpe mortal no Egipto, que era a jóia do império dos turcos e o arsenal de onde vinham as armadas à Índia. O seu plano consistia em «cortar uma serra mui pequena que corre ao longo do rio Nilo, na terra do Preste-João, para lançar as correntes dele por outro cabo que não fossem regar as terras do Cairo» (11). Desviando o Nilo secaria o Egipto (12). Já pedira a D. Manuel que lhe mandasse oficiais da Madeira, onde os havia mestres no corte das serras para formar as levadas de rega dos canaviais. Tudo isto continha a empresa de Adém, cujo malogro cortou os voos às ambições grandiosas do herói.


Embora no céu, lá para os lados das terras do Preste abexim, tivesse fulgurado aos olhos do místico e terrível herói uma cruz vermelha, Cristo abandonara-o na empresa. Quando o famoso milagre surgiu, Albuquerque e todos, ingenuamente, crentes na missão divina em que andavam, caíram de rastos adorando a cruz (13). E o capitão, para corresponder ao céu, mandou tanger os coros de trombetas, responder com artilharia aos cumprimentos de Jesus. Lavrou-se um estromento assinado pelas guarnições, que veio para D. Manuel, com carga de pimenta, afervorar a piedade mística da corte cartaginesa (14).

Como, porém, apesar do milagre, nada se fez, Albuquerque em 514 volta-se para Ormuz, cujo domínio não estava seguro. Outro Alexandre em Persépolis, o herói condenou-se em Ormuz: a grandeza das suas façanhas tinha-lhe feito nascer um orgulho, que já não distinguia o bem do mal. Orientalizado com o imperador, cujos exemplos seguia, não lhe bastavam já a crueldade, nem a força: apelava para a perfídia; e intrometendo-se nas miseráveis políticas dos persas, chamou à sua tenda para uma festa o ministro que então governava o príncipe idiota de Ormuz, e assassinou-o covarde e friamente, substituindo-se-lhe. Estava próximo da cova: e a sorte não queria que à história deste herói faltasse o epílogo frequente na história dos heróis: uma abjecção. Tão-pouco a verdade consente que se esconda um fraco de vaidade e fraqueza comum. Alexandre mimoseava os literatos de Atenas para que o exaltassem: Albuquerque mandava anéis de pedras preciosas ao cronista Rui de Pina «para escrever com melhor vontade os memoráveis feitos da Índia».

Da volta de Ormuz a Goa morreu na viagem: a morte salvava-o, como fizera a D. Francisco de Almeida, dos ferros que tinham servido a Duarte Pacheco. A corte de Lisboa já o mandara substituir no governo por Lopo Soares de Albergaria, que, chegando, começou por condenar o seu predecessor, exaltando todos os que lhe eram inimigos. Antes de acabar, Albuquerque pegou na pena e dirigiu uma carta ao rei - «quando esta escrevo a V. A. estou com um soluço que é sinal de morte!». E pedia-lhe que lhe honrasse a memória e protegesse o filho; o que o rei fez, honra lhe seja. Agonizando, via-se incompreendido pela tacanha corte de Lisboa, e aceitava de bom grado a morte: «Mal com os homens por amor de el-rei, mal com el-rei por amor dos homens, bom é acabar». E acabou, à vista de Goa. Era homem de meã estatura, rosto comprido e corado. Era avisado latino e de grandes ditos: falava e escrevia muito bem: mui fácil na conversação, muito grave no mandar, muito manhoso no negociar com os mouros, muito temido e amado de todos.




Nascera filho segundo de uma família de sangue nobre, e educara-se na corte militar de Afonso V, viveiro da geração dos capitães da Índia amestrados nas guerras de África. Fora em 1480 na esquadra mandada a Nápoles em auxílio do rei Fernando contra os turcos, e nove anos depois partira para África a defender a fortaleza da Graciosa, em Larache, contra os mouros. Era estribeiro-mor de D. João II e já um grande fidalgo quando, em 1503, D. Manuel o mandou à Índia pela primeira vez. Foi, voltou com bons créditos, mas sen nada ter feito de singular; provavelmente observou e aprendeu muito, levando já um plano formado quando o rei o mandou como capitão na esquadra de Tristão da Cunha. Dessa ida começa a história que narrámos e que termina agora com a sua morte.

Os soldados, a bordo, amortalharam-no no hábito de Santiago com borzeguins e esporas, espada à cinta, na cabeça uma carapuça de veludo e aos ombros uma beca também de veludo. O enterro subiu em lanchas, e era tamanho em todos o choro e pranto, que parecia fundir-se o rio de Goa. Ao desembarcar, foi levado aos ombros dos soldados, sob o pálio, pelas ruas da cidade que conquistara; e os gentios, vendo-o com os olhos meio abertos, a longa barba caída (15) até à cinta, flutuando, não o criam morto: Deus o chamara para alguma façanha no céu! Voltaria breve. E por muito tempo houve romarias ao sepulcro do herói, vindo os naturais pedir-lhe justiça contra os desmandos e perfídias dos portugueses, oferecendo-lhe boninas e azeite para a sua lâmpada. Do Extremo Oriente, desde o Pegu até à China, ficaram-lhe chamando o Leão do Mar (16).

Ormuz, Goa, Malaca, os três pontos cardeais do império fundado por Albuquerque no breve período de cinco anos (1507-11), valiam o domínio em todo o mar das Índias e a vassalagem de todas as costas, desde Sofala, em África, até o Golfo Pérsico; desde o Indo até ao cabo Kumari (Comorim); daí às bocas do Ganges, e descendo pelo Arakan e pelo Pegu, até Malaka com as ilhas dispersas de Madagáscar e Socotorá, Angediva, os arquipélagos de Lakkha (Laquedivas) e de Malaja (Maldivas), Simhala (Ceilão) (17), e Sumatra e Java, Bornéu e as Molucas até os pontos extremos de Banda e Ambon. Com efeito, depois de Malaca e da viagem remerosa mas estéril de 513 a Adém, todo o Oriente pasmava e tremia de Albuquerque, o terríbil. A Goa vinham de toda a parte embaixadas e tributos; todos os príncipes queriam a amizade do português, e a seus pés arrastavam a coroa os rajás de Ahmednagar, e de Kambai, de Vijajapur e de Narsinga (18), o xá da Pérsia e os sultões de Sião, do Pegu, do Aracan; e até o próprio Hidalcão, o adil-xá do Canará, consentindo a fortaleza de Kalikodu, comprada com tanto sangue, seguia o exemplo do Gujerât, do Konkana, do Karnataka e de Benguela. Desde o Indo até o Ganges, pelo Cabo Kumari, desde Kambai até Golkonda, o litoral da península estava inteiramente submetido ao jugo português.






Entretanto este império não podia dizer-se ainda construído: era um esboço apenas. Como depois de uma vitória brilhante os tímidos se curvam todos perante o vencedor, assim acontecia no Oriente. Lançado na política de conquista, o império português ganhava a primeira batalha; mas não podia decerto ensarilhar as armas, enquanto a costa da Arábia e as margens do Mar Vermelho se conservassem em poder dos inimigos. Os naturais da Índia, avassalados por uma corrupção antiga, aceitavam o domínio de qualquer vencedor; mas era necessário, para o manter, que a vitória fosse decisiva. Ora o inimigo, o mouro, fora batido, mas não fora expulso. Como numa doença, tinham-se debelado muitos sintomas, mas não se destruíra o princípio mórbido. Adém continuava a ser o empório do domínio comercial marítimo dos árabes e egípcios no Oriente; o Mar Vermelho, o Suez, no extremo fundo desse estreito corredor, as bocas sempre abertas, para vazar sobre a Índia navios, artilharia e soldados. O domínio, que os portugueses se propunham substituir, continuava; e do carácter dual ou misto que a ocupação da Índia apresentava, resultaria um estado de guerra permanente com os mouros e com os naturais, que ora os preferiam a eles, ora a nós. Ninguém, nação alguma seria capaz de resistir a um século inteiro de semelhante vida. O destino do império português do Oriente dependia do exclusivo do domínio, desde que era impossível pactuar ou dividir a presa entre os dois caçadores rivais.

O génio de Afonso de Albuquerque adivinhava isto com toda a lucidez; Adém, Meca, o Mar Vermelho eram a sua preocupação: «Três coisas, diz o filho e commentador, há na Índia que são escápulas de todo o comércio das mercadorias daquelas partes, e chaves principais dela. A primeira é Malaca, que está em três graus na entrada e saída do estreito de Singapura; a segunda Adém, que está em vinte e um graus de altura e na entrada e saída do Mar Roxo; a terceira é Ormuz, a qual está em quinze graus e na entrada e saída do estreito do mar da Pérsia. Este Ormuz, a meu ver, é a principal de todas. E se el-rei de Portugal tivera senhoreado Adém pudera chamar-se senhor de todo o Mundo». Dar um golpe mortal no Islamismo era, além de retribuir em Meca a afronta humilhante de Jerusalém, mostrar aos muçulmanos do Oriente que Jesus podia mais do que Mafoma. Mas se o génio excepcional de Albuquerque não bastou para levar a empresa ao fim, como poderiam bastar para isso os pigmeus que lhe sucederam? Valentes muitos ou quase todos, incansáveis no mar e na terra, os governadores da Índia foram extenuando em um século de guerra permanente as limitadas forças da nação, sem pensamento político, sem plano definido, à toa e à mercê de um capricho, ou de uma ideia a que o crime imbecil da corte limitava constantemente os voos. A primeira política, a marítima, fora abandonada com a queda de Francisco de Almeida; a segunda política, a imperial, condenada com a deposição e morte de Albuquerque. Faltava assim a condição essencial de um domínio estável e seguro: uma tradição (in ob. cit., pp. 196-202).






Notas:

(7) V. As Raças Humanas, O. C., I., V., pp. 49 a 50.

(8) «Não consentia o governador A. de A. que os portugueses tratassem (negociassem), dizendo que onde tratassem haviam de querer ser poderosos e valorosos e não ser humildes como mercadores, do que se recreariam males de os matarem e perderem suas fazendas... e também que, se os mouros vissem que lhes tomávamos seus tratos nos teriam mor ódio, e mais, que os homens, andando tratando, andavam fora do serviço de Deus e de El-rei. Com esta pragmática os portugueses eram muito temidos por cavaleiros e não mercadores, e tão temidos e obedecidos que ainda que um só português fosse em uma almadia, se o topassem naus de mouros todas amainavam e lhe iam obedecer, mostrando-lhe seus cartazes que tinham para navegar, que todos eram assinados por A. de A.». (Gaspar CORREIA, Lendas, I, p. 518).

(9) V. Sistema dos Mitos Religiosos, O. C., p. 307.

(10) Diz BARROS, Ásia, Década II, Liv. V, cap. IX: «...assi nesta fugida no rio, como debaixo do ferro dos nossos, dos mouros que morreram mais de seis mil pessoas de idade».

(11) V. História da Civilização Ibérica, O. C., p. 251.

(12) V. As Raças Humanas, O. C., pp. 177 e segs.

(13) V. Sistema dos Mitos Religiosos, O. C., p. 309.

(14) Na extensa carta que, relativamente à sua acção na Índia, envia ao Rei, com data de 4 de Dezembro de 1513, Afonso de Albuquerque penitencia-se de, mediante aquele aviso, não ter prosseguido em o caminho que tomara; «e como homens de pouca fé não ousámos de cometer o caminho, que creio as nossas naus de uma volta na outra o puderam haver: e pecou isto também por ser já homem velho, vadeado da condição e inclinações dos homens» (Alguns Documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa, 1892, p. 381).

(15) Até à 3.ª ed., caída. Seguidamente, porém, atada, o que é de aceitar, porque o vice-rei, através do que sabemos pelos retratos existentes, usava de um lacinho no termo das barbas para que estas, certamente, se não desmantelassem na compostura. Mantemos, no entanto, o que o A. deixou escrito até à dita edição, em razão de se dizer logo depois que elas, mesmo assim morto, flutuavam.

(16) Ainda hoje os indianos chamam Afonso de Albuquerque a um certo peixe, do tamanho da corvina, e cujo nome zoológico não pudemos apurar. Diz a lenda que o Leão do Mar não morreu: afundou-se, e revive nesses animais marinhos. A maxila inferior do peixe, descarnada, tem o aspecto aproximado das figuras portuguesas do século XVI; o barrete, as barbas pontiagudas e longas, etc. Os indianos pintam esses ossos, dando-lhes fisionomia humana e guardam os Afonsos de Albuquerque como fetiches.

(17) V. Instituições Primitivas, p. 3.

(18) V. Instituições Primitivas, O. C., pp. 131 e segs.






terça-feira, 26 de março de 2013

Afonso de Albuquerque (i)

Escrito por Oliveira Martins








«Afonso de Albuquerque tinha perfeita noção de a que ponto é incompreensível a experiência da Ásia para quem não a conhece. Todavia, ia prevenindo o rei de que a fidelidade à palavra dada não tinha o mesmo valor na Índia que em Portugal e não procedia da mesma ética: "Cuida Vossa Alteza de segurar com boas palavras e seguros, sendo mouros senhores de muita gente, muitos cavalos e muito dinheiro"... Efectivamente, os Mouros só tinham respeito pela força. E Albuquerque continua: "Como chego com armada sobre seus portos, a principal coisa que logo trabalham é em saberem quanta gente temos, que armas trazemos. E se nos vêem força com que eles não possam, então nos recebem bem e nos dão as suas mercadorias e tomam as nossas de boa vontade, e se nos vêem fracos e poucos crede, senhor, que aguardam a derradeira determinação e se poem a tudo o que possa acontecer". E acrescenta: "A amizade que assentardes com qualquer rei ou senhor da Índia, se a não segurardes, tende por certo que volvendo-lhe as costas os tendes logo por imigos... Não ponhais o côvado na amizade dos reis e senhores de cá, porque não entrastes vos com querela em Índia para vos assenhorardes o trato deles com branduras nem concerto de pazes, nem vos faça nonguém lá [em Portugal] entender que é isto dura coisa de acabar e acabando-o que vos obrigara a muito".

(...) Albuquerque não receava criticar abertamente o rei que gastava demasiado na defesa do seu reino, devorador de todas as riquezas enviadas da Índia e donde nunca se recebia apoio eficaz. Que sucederia aos tesouros embarcados para Lisboa? Ainda nesse ano, Pero de Alpoim e Nuno Vaz de Castelo Branco levaram a D. Manuel rubis, uma espada e uma taça em ouro, tudo oferecido pelo rei do Sião e dois kriss [punhais] malaios incrustados de pedraria.

O governador lamentava profundamente os efeitos de uma tal distância escamoteadora das verdadeiras perspectivas da expansão portuguesa: "Vós desemparais a Índia [...] tendo a maior empresa que nunca nenhum princípe cristão teve nas mãos e mais proveitosa assim para o serviço de Deus como para o vosso nome e fama, e assim para haverdes as riquezas quantas ha no mundo. E deixai-la a misericordia de uns poucos de navios podres e de mil e quinhentos homens, a metade deles gente sem proveito. Não digo, senhor, mais que hei medo que não querais fevorecer isto em meu tempo por meus pecados velhos e novos...". E acrescentava ainda que: "além de serem pecados meus obrigada está a vossa consciência..." [...] "Ha Vossa Alteza de mister gente e armas e boas fortalezas... ou se nos deitarmos a dormir descansados sobre a verdade destes cães, com as portas das fortalezas abertas"».

Geneviève Bouchon («Afonso de Albuquerque: o Leão dos Mares da Ásia»).





AFONSO DE ALBUQUERQUE




«As coisas da Índia fazem grandes fumos!», costumava dizer o novo governador. Mas que fumos eram esses? Eram a vaidade e os erros de tantos pigmeus que o gigante via formigar activamente, enceleirar, e, depois de gordos e ricos, pavonearem-se na corte, alegando serviços, com a bazófia de quem tudo sabia das coisas do Oriente. Fumos, com efeito, eram todos esses para o governador, que aprendera nas suas primeiras viagens, e agora levava já bem definido o seu plano. Levava sem o saber os seus fumos também: porque em fumo se havia de tornar o império efémero que construía na mente...

Quando em 1506 partira de Lisboa, o rei tinha-o mandado como subalterno, na armada de Tristão da Cunha; mas o génio do guerreiro não se reprimia com isso, nem estava decidido a esperar que o tempo lhe desse o mando absoluto, para pôr em prática o seu plano gigantesco. Ele sabia demais que, no caos da Índia, cada qual trabalhava por sua conta e risco; e que, nesse vasto campo de batalha, as manobras não obedeciam ao mando de um general; iam ao acaso, segundo a audácia e o génio dos capitães. De Lisboa a Zangebar uma armada era um exército; no mar da Índia o exército fraccionava-se em batalhões independentes, e cada capitão era senhor de prosseguir, conforme o seu plano, na vasta empresa de saquear o Oriente. O plano de Albuquerque não era o de um saque, era o de um império.

A esquadra de Tristão da Cunha foi de caminho, como introdução, arrasando, queimando e saqueando Juba (Oja) e Barava (Brava) (1), na costa, acima de Zangebar, dirigindo-se a Socotorá - essa ilha que, junto à ponta extrema da África, pelo norte, o cabo de Jar-Hafun (Guardafui) - era vedeta sobre a entrada do Mar Vermelho, e a estação onde os navios de corso às naus de Meca se deviam abastecer e refrescar. Os árabes defenderam a sua ilha em vão; e Cunha matou-os a todos, sem ficar um só, e construiu a fortaleza, deixando-a guarnecida. Feito isto, dirigiu-se à Índia, destacando Albuquerque (impaciente quase até à rebeldia, durante a delonga da construção do forte) com seis navios e quinhentos homens, para a caça das naus, no Estreito.

Afinal, o capitão comandava! Afinal dispunha de uma falange sua! E resolveu não perder um só dia. Logo que as velas de Tristão da Cunha desapareceram, na sua viagem para a Índia, Albuquerque largou de Sokotrá [Socotorá] para a costa da Arábia, ao longo da qual foi subindo vagarosamente, assolando tudo. Formara o plano de começar por Ormuz as suas conquistas, marcando primeiro o limite por Norte e Ocidente, para mais tarde ir ao Oriente, pôr em Malaca o extremo do seu império. Ormuz, Sofala e Malaca são três quinas de um triângulo, cuja base mede 70 graus em longitude, cuja altura, até o vértice de Ormuz, conta 50 em latitude.

Foi a 10 [aliás a 20] de Agosto do ano de 507 que Afonso de Albuquerque largou de Socotorá, em direcção do Golgo Pérsico. A sua esquadrilha compunha-se de seis [«Seis naus, [...], e mais uma fusta [...], em que iam até 460 homens de peleja» (BARROS, Ásia, II, Liv. II., cap. I] navios apenas, e não contava mais de quinhentos homens; mas a poderosa unidade que o mando do atrevido capitão imprimia, a confiança que todos tinham no seu génio e na sua sabedoria, e também nos mosquetes e artilharia das naus, tornavam poderosa como um ariete esta pequena divisão. Para nos servirmos da expressão de Francisco de Almeida, tratava-se apenas de combater com bestas; e não havia ainda que temer em Ormuz a artilharia dos rumes, nem os bombardeiros venezianos. A novidade de um engenho de guerra e a audácia de um grosseiro à antiga, iam levar a cabo uma empresa, de facto espantosa, como as de Alexandre ou de Ciro.

Alexandre Magno


Seguindo os exemplos desses famosos, cuja sombra Albuquerque tinha na mente, punha em prática os antigos meios orientais. Avançava no meio de um coro de aflições e mortes, precedido por uma coluna de incêndios, para que, ao chegar, a vanguarda do terror precipitasse os ânimos na abjecção. Assim ia ao longo da costa da Arábia assolando e devastando todos os lugares vassalos do suserano de Ormuz. Primeiro arrasou Kalhât (Calaite) «que é feito de casas de pedra, terradas e muitas cobertas de palha, casas espalhadas e mal armadas e fora do lugar à mão direita um palmar de palmeiras de tâmaras, onde estavam uns poços de água de que bebiam. O lugar assenta ao longo da água, e por detrás há grandes serranias de pedra viva, e no mar alguns zambucos e naus que vêm aqui carregar cavalos e tâmaras e peixe salgado» (G. CORREIA, Lendas).

Em Karayât (Curiate), que lhe resistiu, cortou as orelhas e o nariz a todos os prisioneiros, soltando-os para irem, lavados em sangue e mutilados, anunciar por toda a parte a fama do seu poder (2). Em Khor-Fakhan (Orfacate) reduziu tudo a cinzas; e como em Karayât, mutilou todos os prisioneiros. Entre eles, porém, estava um velho letrado persa, de longas barbas brancas, que vivia de admirar Alexandre, cujo livro possuía. O velho aplaudia o português, comentando o livro com as façanhas do novo herói; e aplaudia~se a si por ter ainda em vida assistido à ressurreição do filho de Olímpias. Aclamava o português, ou o grego, confundindo a realidade com a história; e de joelhos, adorando-o, deu o seu livro a Albuquerque. O novo Alexandre perdoou-lhe.

Em Makâte (Mascate), já entrada do golfo e quase fronteiro a Ormuz, tinham vindo acudir a curar-se, chorando, os fugitivos de Karayât e Khor-Fakhan, atroando os ares com a fama do poder terrível desse herói que se aproximava. Tremiam todos de susto; mas quando a esquadrilha apareceu diante da poderosa cidade, ainda houve quem pensasse em resistir, por ver que os navios eram tão poucos. Ignoravam, porém, que cada um deles, com os seus canhões escondidos por detrás das amuradas, era um vulcão pronto a rebentar em lava, um inimigo pérfido cuja força latente não podia medir-se. Maskâte foi bombardeada. A mesquita onde os infelizes se tinham refugiado caiu a machado, e os cativos, mutilados, foram fugindo, chorando, reunir-se à gente da cidade escondida nas serras. Havia cadáveres em todas as ruas e o fogo posto começava a crepitar lavrando nos armazéns cheios de azeite e de melaço. As labaredas subiam, zumbia ao longe o clamor dos desgraçados, e à maneira que o terrível herói se alongava na praia com os seus para regressar aos navios, os mouros vinham ansiosos e cheios de medo ver se podiam ainda salvar algumas migalhas da sua cidade, pasto das chamas vivas. Era em vão. Como uma tromba devastadora, Albuquerque prosseguiu deixando um rasto de sangue e cinzas. Ormuz estava próximo, e cumpria que a onda de terror, que fora crescendo, estoirasse agora de um modo pavoroso (3).

Ormuz era então a jóia mais preciosa da coroa da Pérsia. Chamavam-lhe a pedra do anel das Índias. Era a Londres oriental, onde todos os produtos do Oriente vinham desembarcar; de onde saíam nas longas caravanas que se dirigiam a Bagdad e ao Cairo, para a Tartária e o Turquestão, por toda a Ásia do norte. Os armadores levavam por mar a Ormuz a pimenta, o cravo das Molucas, o gengibre, o cardamomo, os paus de Sândalo e Brasil, os tamarinhos, o açafrão, a cera, o ferro, as cargas do arroz de Dekkan [Decão], os cocos, as pedrarias, as porcelanas, o benjoim, os panos de Kambai [Cambaia], de Chala, de Deval, os sinabafos de Bengala. Aí vinham, de Adém, no estreito de Bab-el-Mandeb, o cobre, o azougue, os bracados, os chamalotes, e tudo quanto Veneza mandava da Europa, pelo caminho de Alexandria, a Suez, via do Mar Vermelho. Toda a Pérsia se abastecia em Ormuz dos géneros de fora; por Ormuz toda ela mandava importar os produtos indígenas. Os navios carregavam aí a seda e o almíscar, ruibarbo da Babilónia, e as récuas de cavalos da Arábia, tão queridos de Dekkan, em Kambai e nos Estados da contra-costa de Cholomandalam (Coromandel) até Bengala, na foz do Ganges. Contra o arroz e os panos que levavam, os comerciantes traziam de Ormuz as tâmaras, o sal das suas colinas coloridas, as passas, o enxofre e o aljôfar grosso muito procurado em Narsinga.



Ormuz



A cidade era em si pequena, mas um brinco. Era uma terra de luxo e prazer, uma corte de mercadores. As casas, recheadas de coisas preciosas, eram tesoiros ou museus, com paredes forradas de mármores, colunatas, eirados, pátios ajardinados e fontes preciosas. A vida custava aí caríssimo, porque o luxo absorvia todos os recursos naturais. A terra, uma salina, era estéril de si: tudo vinha da Pérsia, da Arábia, da Índia; mas os mercadores tinham defronte, além, na costa firme, as quintas e hortas, onde iam com frequência. Aí o plátano majestoso do Oriente, o álamo esguio e esbelto, o negro cipreste meditativo, destacavam-se no meio das hortas viçosas, das quintas e jardins de rosas, povoados de rouxinóis, abrigando nas encostas à sua sombra as vinhas férteis. Os pomares regados estavam coalhados de laranjeiras, de frutos de ouro e flores de neve perfumada; de macieiras, pêssegos, albocorques; de figueiras de formas extravagantes e amplas folhas; de granadas, como os frutos rebentados a sorrir nos seus grãos cor de rubi. No chão serpeavam as redes de hastes dos meloais, louros e perfumados; e das latadas e parreiras caíam com peso os cachos de uvas preciosas de todas as cores. Por entre os bastos pomares e do seio dos jardins de rosas, levantava-se orgulhosa e nobre a palmeira, com o seu turbante de folhas agudas, carregada de tâmaras.

Nas ruas da formosa cidade, em frente dos bazares, sob os toldos que a defendiam da luz e do calor, formigava uma população de várias raças, de cores diversas, ocupada em comprar, em vender; mais ocupada ainda em gozar a vida no seio de uma devassidão torpe. O calor e os perfumes inebriavam os sentidos, e acordavam todos os instintos sensuais. Vinham ali vender neve, de trinta léguas do interior da Pérsia. Amar era o primeiro de todos os comércios de Ormuz; e o persa, alto, elegante e formoso, entregava-se a todos os desvairamentos da pederastia. Por isso as mulheres valiam pouco, eram até aborrecidas em Ormuz. Os pobres escravos, moços e mutilados, enchiam os haréns dos ricos, e os bordéis para o comum dos mercadores. Era uma devassidão abjecta, e um luxo desenfreado. Os personagens, nos seus passeios, iam sempre seguidos por pajens, com toalhas e jarras de prata e bacias com água. Havia músicas e festas por toda a parte e as bandas de orquestras andavam constantemente nas ruas onde os mercadores expunham à venda o aljôfar em colchas purpurinas. Os trajos eram dos mais preciosos estofos, e sobre as camisas brancas de algodão finíssimo vestiam-se túnicas de chamalote ou grã, cingidas por almejares com grandes adagas ornadas de ouro e prata e pedras preciosas. Os broquéis eram redondos, forrados de seda; os arcos acharoados, ou de corno de búfalo com cordas de seda. Usavam além do arco e da frecha, do escudo e da adaga, machadinhas e maças de ferro, todas preciosamente lavradas e tauxiadas de ouro e prata. Os mouros diziam que o mundo era um anel e a pedra Ormuz. Só a alfândega rendia meio milhão de xerafins (4).






As notícias de Maskât, os mutilados de Karayat e Khor-Fakhan encheram de terror essa população embriagada na orgia de uma vida de delícias. No porto havia, com efeito, uma poderosa armada que escondia as águas: eram centenas de naus e galeões, uma infinidade de terradas. Tinham-se arrestado os navios dos mercadores e do seio da frota estava a nau de Cambaia, a Meri, de mil tonéis, com gente basta e numerosa artilharia. Havia o melhor de duzentos galeões de remo com arrombadas de sacas de algodão tão altas que escondiam os remeiros. O persa que vestia os laudéis, em vez de corpos de aço, couraçava também de algodão os navios. As terradas alastravam o mar, carregadas de gente armada, com estandartes garridos «que era coisa fermosa para ver». Na terra, ao longo da praia, havia de quinze a vinte mil homens formados com as suas músicas de trombetas e anafis. «As gritas do mar e terra eram tantas que parecia que se fundia o mundo!» Mas os fugitivos abanavam a cabeça desesperados, contavam como os seis, seis navios apenas portugueses! traziam no ventre uns monstros de fogo destruidores! E o soldão persa, aflito, não sabia de que modo receber a visita de Albuquerque e dos seus navios, que já estavam, terríveis mas quietos como um vulcão em paz, fundeados no meio do porto, entre os galeões de Ormuz. Albuquerque exigia-lhe que abandonasse o persa (5), e se declarasse vassalo do português; e o infeliz estava decidido a abandonar tudo, para que o deixassem em paz - quando o capitão, enfadado com as delongas e subtilezas, rompeu inopidamente o fogo. Começou a varejar em torno o estendal de barcos, reduzindo-os a uma massa de destroços, de naufrágios e de cadáveres que era horroroso de ver. Estava como um lobo no meio de um rebanho de ovelhas. Não era uma batalha, era uma carnagem. Os fugidos nadavam num mar rubro de sangue, perseguidos pelas almadias em que os soldados matavam neles às lançadas e cutiladas. Da amurada das naus os grumetes e pajens rasgavam-lhes o ventre com os croques, pondo pastas de vísceras flutuantes no mar de sangue. Houve grumete que matou assim oitenta mouros. E enquanto a armada de Ormuz e as tropas do sultão eram chacinadas, desmanchava-se o lençol de barcos como uma teia cujas malhas se soltam. Havia correrias sobre as ondas, e de espaço a espaço o mar sorvia uma atalaia com a gente e as armas. Outras, já ardendo, iam fugindo em chamas, como trombas de fogo correndo, vogando à mercê do vento «que era um grande espectáculo para ver». Ainda oito dias depois do sanguinário caso havia cadáveres boiando no mar, e os portugueses em lanchas ocupavam-se nessa particular espécie de pesca. A colheita era abundante, os cadáveres aos centos, os trajos ricos, e muitos os anéis, e alfinetes, as adagas e punhais tauxiados de ouro e prata com jóias engastadas. Denudados, vinham a bordo as famílias reconhecer os cadáveres e levá-los piedosamente, em lágrimas, aos seus sepulcros. A façanha fora tão grande, que parecia milagre: pois não se viam nos corpos as chagas das frechas, não havendo semelhante arma entre os nossos? (6) Milagre! diziam os soldados e os capitães, perante esse caso tristemente revelador da confusão de combate com o novo Alexandre da Índia.

O pobre sultão de Ormuz, aflito, imediatamente acedeu a tudo: consentiu que Albuquerque levantasse uma fortaleza e pagou-lhe vinte mil xerafins de tributo. E deste concerto se fizeram duas cartas, uma em folha de ouro, a modo de livro, escrita em arábico com letras abertas a buril e suas brochas de ouro com três selos de ouro dependurados por cadeias; a outra em parsi, que era a linguagem comum da terra, e em papel com letras de ouro. E ambas estas cartas mandou Afonso de Albuquerque a el-rei D. Manuel.






Ormuz escapara, rendendo-se, aos horrores de um saque; mas isto mesmo desesperava os capitães e soldados da esquadrilha, que murmuravam, cobiçosos de tamanha riqueza desenrolada diante de seus olhos. Não compreendiam para que haviam de demorar ali, a construir uma fortaleza; quando, a não saquearem a cidade, mais valia partirem para o rendoso corso das naus de Meca, na boca do Estreito. A intriga insinuava-se, dizendo que o capitão-mor queria construir a fortaleza para si, e fazer-se rei de Ormuz, levantando-se contra o de Portugal: na Índia não havia ainda mais tradição do que a do saque marítimo, e o pensamento imperial de Albuquerque chegava a não ser compreendido. Nem em três anos, diziam, voltariam à Índia, perdendo ocasião de carregar as quintaladas que tinham de ordenado. A cobiça de mãos dadas com a violência e a cegueira agitavam perigosamente as guarnições. Albuquerque, impassível, prosseguia. De uma vez que lhe levaram um requerimento quando vigiava pessoalmente a obra da fortaleza, tomou-o assim dobrado como lho deram, e sem o ler meteu-o debaixo de uma pedra do portal da torre que se estava erguendo. O baluarte ficava cimentado com as queixas. Mas as lajes não pesavam bastante para as abafar, e recrudesceram. Além do mais, os queixosos reclamavam a metade dos 20 000 xerafins pagos pelo de Ormuz, que, esperançado nestas desordens, confiado em promessas de sedição, e nos auxílios que o persa lhe enviava, ousou romper as hostilidades. Vieram com efeito o xaque Yar (Xaquear) trazendo consigo quatro mil árabes. Albuquerque estava num sério perigo, e outro qualquer perder-se-ia. Os capitães recusavam ir ao combate; mas ele, arrancando as barbas, aos punhados, ao capitão Nova, levou diante de si os soldados, sozinho, às cutiladas. Dos seis navios, porém, fugiram-lhe três, que vieram para a Índia contar ao vice-rei as loucuras e barbaridades do conquistador: não podiam resistir ao seu mando terríbil, só lhes era dado fugir! Albuquerque retirou também de Ormuz, quando viu a impossibilidade de levar por diante a empresa, abandonado por metade das suas forças. Levantou ferro, voltou a Socotorá aprisionar as naus de Meca, e mais um navio que abandonou aí: nenhum podia suportar o férreo mando do herói.

Em Novembro de 508, depois de ter voltado ainda outra vez a Ormuz, estava de regresso à Índia, em Cananor, onde abriu a carta de Lisboa, que lhe confiava o governo do Oriente. Nesse momento a violência do seu génio furioso arrebatou-o: queria castigar os capitães insubordinados, queria sobretudo terminar o plano das suas conquistas; e foram necessários os rogos de D. Francisco de Almeida, a quem o filho acabava de morrer, para consentir na expedição naval de Diu. Só quando, meses depois, chegou à Índia a fidalga armada de D. Fernando Coutinho, puderam terminar as deploráveis contendas entre o vive-rei e o seu sucessor. Coutinho levava de Lisboa ordem expressa de tomar Kalikodu; e, cheio de bazófias, lançou-se na empresa em que achou a morte. Engolfados na matança e no saque, no meio de parte da cidade incendiada, os portugueses foram por sua vez trucidados, quando os inimigos os colheram dispersos e sem armas (in «História de Portugal», revisão e notas de J. Franco Machado, Guimarães Editores, 2007, pp. 189-195).







Notas:

(1) «Ao que se achou presente Tristão Álvares, que era feitor do capitão-mor, que não consentiu que ninguém tomasse nada e com João Rodrigues Pereira que o ajudou levaram tudo ao capitão-mor, o qual logo tudo mandou quebrar e amassar e deu ao capitão e aos fidalgos da repartição primeira a cada um um quintal de prata e a Afonso de Albuquerque três, porque nunca estes capitães e fidalgos se apartaram para ir roubar» (G. CORREIA, Lendas, I, p. 677).

(2) Eis o que diz BARROS, quanto às represálias: «Aos quais Afonso de Albuquerque não quis mais perseguir, e se contentou com os lançar de suas casas e dar saco a suas fazendas, e per derradeiro mandar poer fogo a todo o lugar e a dez zambucos e três ou quatro naus que estavam no porto, no qual feito foram mortos três dos nossos e feridos vinte e tantos, e dos mouros se contaram pelas ruas setenta e tantos» (Ásia, 2.ª Déc., Liv. II, cap. I).

(3) O Autor segue a Gaspar Correia. Porém, Barros, Castanheda e até Góis, divergem profundamente no relato do sucesso, em particular no que se refere a atrocidades.

(4) O xerafim /as hrafi = 1 cruzado. Duarte Barbosa dá-lhe a equivalência de 300 réis.

(5) Segundo BARROS (loc. cit.) a exigência dizia respeito ao tributo que havia de pagar ao Rei de Portugal para que assim demonstrasse ser seu aliado na luta contra o Mouro.

(6) Deve dizer-se que as frechas ou setas eram arma entre os nossos. Quando, dias depois, dois embaixadores do rei de Xiraz vêm (já a cidade se confessava tributária de Portugal) «solicitar certo tributo que os reis de Ormuz já de muito tempo pagavam aos reis da Pérsia», Afonso de Albuquerque entrega-lhes como moeda do tributo «pelouros de ferro coado de artilharia e uns ferros de lanças e molhos de setas» (BARROS, Ásia, Década II, Liv. II, cap. IV).

Continua


sábado, 23 de março de 2013

O Império Português do Oriente

Escrito por Miguel Bruno Duarte




Afonso de Albuquerque



«Assim, parecia terminada a conquista de Goa, dois anos depois de Santa Catarina, em 1510. Quando Albuquerque contemplava a cidade do alto da torre da fortaleza, não podia deixar de comparar o triste espectáculo daquelas ruínas com a visão luminosa que tanto o maravilhara outrora, ao descobri-la dos terraços do palácio de Adil Xá. Para o atropelo de interrogações que ia no seu espírito, só encontrava, como resposta, o messianismo cristão e as referências aos grandes conquistadores da Antiguidade. Como outros homens do tempo, sentia-se dividido entre os imperativos de um e a admiração que lhe inspiravam os outros. Mas ele era o primeiro a avançar na senda de Alexandre, e até a ultrapassá-lo, nas margens da Ásia.

Destruir Goa para de lá expulsar definitivamente o Islão, reconstruí-la depois para fazer dela a cidade ideal, implantar aí o cristianismo, criar uma sociedade sem distinções de raça nem de origem (à semelhança do que fizeram os colonos romanos), embora inserida nas estruturas administrativas e religiosas de um império, não era trabalhar no sentido do projecto imperial manuelino?

Sobre os vestígios da cidade "ímpia", e em vez de forum e templos, já delineava mentalmente o quadrado da cidadela e as primeiras capelas. Ver ali rezar os casados e suas esposas não lhe fazia evocar as bodas de Susa, quando o grande Alexandre celebrou o casamento entre os guerreiros e as cativas orientais, para integrar novas conquistas?

Entretanto, por mais fascinante que fosse, a realidade não correspondia ao sonho de D. Manuel quando refazia mentalmente o mundo, nem este mundo era o mesmo que os Antigos haviam conhecido. O grão-capitão tinha de erguer sozinho o que ninguém ainda conseguira fazer antes dele.

(...) Com um chapéu de palha, camisa com aberturas, coberta com um longo mantelete sem mangas, o governador ia visitar as famílias de casados que enchia de presentes, favorecendo deste modo o retomar dos casamentos mistos. Preocupado em manter auxílio à população hindu, via na ocupação muçulmana um episódio desastroso e esforçava-se por instalar de novo a ordem no respeito pelas instituições tradicionais, substituindo a autoridade do rei de Portugal à dos rajás de antanho. Uma das suas prerrogativas era a concessão de terras, o que permitiu a Albuquerque distribuir as dos Mouros sem provocar escândalo. Os proprietários de terras hindus não perderam nada com a troca de chefes. Ao receber um terço dos lucros, a administração portuguesa impunha-lhes taxas menos pesadas do que os rajás de Vijayanagar ou o Adil Xá. Este cobrava, além disso, tributos, cuja natureza não era revelada com receio de que não fossem repostos. Os Brâmanes continuaram a beneficiar dos proventos dos templos e as assembleias de aldeia voltaram às reuniões periódicas debaixo de figueiras asiáticas para gerirem os recursos do seu domínio».

Geneviève Bouchon («Afonso de Albuquerque: O Leão dos Mares»).


«(...) a política do grande Afonso de Albuquerque, ao preconizar e facilitar as uniões matrimoniais entre a soldadesca portuguesa e mulheres aborígenes, o que se tornava possível pelo fraco distanciamento intelectual e moral de uns e outros, conseguiu operar na minúscula Índia portuguesa sobrevivente uma fusão racial e, com ela, uma nobre fidelidade à velha mãe-pátria, quase raiando pelos limites do inverosímíl».

Cunha Leal («O Colonialismo dos Anticolonialistas»).





O IMPÉRIO PORTUGUÊS DO ORIENTE


Do Império Português do Oriente escreveu Joaquim Pedro de Oliveira Martins uma História de Portugal em vários aspectos condicionada por uma interpretação arbitrária, quando não mesmo eivada de um perfil ideológico derrotista e assaz demolidor. Sobre a acção heróica e marítima dos Portugueses no Oriente, antecipa considerações sombrias que precedem um tanto a historiografia positivista e universitária do nosso tempo: «A pirataria e o saque foram os dois fundamentos do domínio português, cujo nervo eram os canhões, cuja alma era a Pimenta».






Não por acaso os Portugueses de Quinhentos são habitualmente vistos como ávidos exploradores em busca de um monopólio comercial absoluto. O romance Shogun – A Gloriosa Saga do Japão, de James Clavell, é um exemplo típico dessa falsa e deturpada leitura da presença portuguesa no Extremo Oriente, num contexto onde protestantismo e jesuitismo exprimem um conflito irredutível entre si. Temos assim a imagem alegadamente histórica dos Portugueses como dominadores ou corsários implacáveis, quando os ingleses (1), nessa matéria, tiveram um lugar proeminente na figura de Francis Drake, ele, sim, um corsário que, enquanto Vice-Almirante da Marinha Real Britânica, dirigira numerosas expedições navais contra os espanhóis na Península Ibérica e nas Índias, para já não falar na derrota por ele infligida, em 1588, à Invencível Armada organizada por Filipe II contra a Inglaterra.

Seja como for, é um facto a guerra praticada por Portugueses perante as investidas do turco, do veneziano, do núbio, do árabe, do etíope, do afegã, do persa, do rume do Egipto e de toda a casta de mercenários que tinham por fim expulsar, matando e trucidando, os Portugueses do mar das Índias. Convém, aliás, não menosprezar que os Portugueses bateram-se, com escassas centenas – por vezes nem isso -, de uma forma heróica e não pouco oriental contra dezenas de milhar de indígenas e naires ávidos de destruir, contra ventos e marés, a presença lusa no outro lado do mundo. E se lograram fazê-lo com o auxílio de mosquetes e bombardas, também não menos o fizeram mediante a entrega física, corajosa e fulminante face às ondas maciças das colunas inimigas.

Não há, verdade se diga, historiografia que possa transmitir a vivência directa e concreta de uma tal condição sobre-humana em terras do Oriente. Há, quando muito, aproximações que ora primam pela abordagem historicista ora pela narrativa literária de uma odisseia inverosímil e heróica como a dos Portugueses nas Sete Partidas do Mundo. Stevan Zweig oferece-nos, por exemplo, uma imagem literária que, sem embargo de fontes colhidas e pesquisadas, jaz à superfície de um mundo épico sem igual, como ora se segue (2):






«Após uma viagem de três semanas, a 11 de Setembro de 1509, os navios – os primeiros provenientes de Portugal – aproximam-se do porto de Malaca. E de longe é já possível ver que o valente Varthema não inventou nem exagerou ao relatar que aí «aportavam mais navios do que a qualquer outro lugar do mundo». Chegados uns aos outros, vela com vela, ao longo do grande ancoradouro, estão alinhados barcas, juncos e paraus, grandes e pequenos, brancos e coloridos, de origem malaia, chinesa e siamesa. Pois, devido à sua situação geográfica natural, a aurea chersonesus, ou seja, o estreito de Singapura, está fadado para ser o maior entreposto do Oriente. Qualquer embarcação que queira seguir de leste para oeste, de norte para sul, da Índia para a China, das Molucas para a Pérsia, tem de passar por este estreito de Gibraltar oriental. Troca-se todo o tipo de mercadorias neste entreposto: o cravinho das Molucas e os rubis de Ceilão, a porcelana chinesa e o marfim de Sião, a cachemira de Bengala e a madeira de sândalo de Timor, as folhas de espada de Damasco, a pimenta de Malabar e os escravos de Bornéu. Todas as raças, todos os tons de pele e todas as línguas pululam babilonicamente neste grande empório comercial do Oriente, em cujo centro se erguem, imponentes, por sobre o emaranhado de pequenas casas de madeira, as silhuetas de um esplenderoso palácio e de uma mesquita de pedra.

Do alto dos seus navios, os portugueses contemplam, com assombro, a poderosa cidade, e cobiçam aquela jóia do Oriente que cintila, branca, à luz resplandecente do sol e que, sendo a mais preciosa das pedras preciosas, deverá vir ornamentar a coroa do domínio português na Índia. Por seu lado, do alto do seu palácio, o príncipe malaio contempla, igualmente assombrado, mas inquieto, os perigosos navios estrangeiros. Ali estão eles, os bandidos incircuncisos, afinal aqueles malditos sempre conseguiram encontrar também o caminho para Malaca! Havia já muito que a notícia das batalhas e das carnificinas de D. Francisco de Almeida e de Afonso de Albuquerque se tinha espalhado por milhas e milhas em redor; em Malaca sabe-se que, contrariamente aos donos dos juncos siameses e japoneses, os terríveis lusitanos não cruzam os mares para fazerem comércio pacífico, mas para esperarem traiçoeiramente pelo momento propício para se instalarem e pilharem tudo. O mais prudente seria não deixar sequer que os quatro navios entrassem no porto, pois a partir do momento em que os ladrões assentassem pé em terra, seria demasiado tarde. Só que o sultão também conhece, de fonte fidedigna, a eficácia daqueles pesados canhões que, com bocal negro e calado, o ameaçam do alto dos castelos dos navios portugueses, e sabe bem que aqueles salteadores brancos lutam que nem diabos, pelo que é impossível opor-lhes resistência. O melhor, portanto, é responder à mentira com a mentira, à falsa gentileza com hospitalidade fingida, à vigarice com vigarice e, de preferência, ser o primeiro a atacar antes que eles ergam a pesada pata e desfiram o golpe mortal.

Porta de Santiago - Fortaleza de Malaca


É por isso com toda a deferência que o sultão de Malaca recebe os enviados de Sequeira e aceita as suas oferendas com exagerada gratidão. Faz-lhes saber que os portugueses são muito bem-vindos, que estão à vontade para fazer todo o comércio que queiram e que, daí a uns dias, lhes fará chegar tanta pimenta e restantes especiarias quantas conseguirem levar. Amavelmente, convida os capitães a sentarem-se à sua mesa, no palácio, e se bem que estes tenham declinado o convite – por terem sido alertados de vários lados -, os marinheiros espalham-se livremente e com alegria por aquela cidade estrangeira que os recebe tão bem. É uma volúpia sentir finalmente, e de novo, terra firme debaixo dos pés, poder divertir-se com mulheres gentis, já não ter de ficar metido nos camarotes ou numa dessas aldeias imundas, onde porcos e galinhas coabitam com a nudez de homens que são meio-animais. Cavaqueando, os marinheiros instalam-se nas casas de chá, fazem compras nos mercados, deleitam-se com as bebidas malaias de ardente fermentação e com a fruta fresca: desde a saída de Lisboa que nunca tinham sido recebidos com tamanha cordialidade, com tamanha hospitalidade. Por seu turno, os malaios, às centenas, aproximam-se dos navios portugueses, remando os seus versáteis barquinhos carregados de víveres, trepam pelos cordames, ágeis como macacos, olham com admiração todas as coisas desconhecidas, nunca vistas. Tem lugar uma muito movimentada troca de mercadorias e é com pesar que a tripulação fica a saber que o sultão já preparou o carregamento prometido e informou Sequeira que, na manhã seguinte, este deverá enviar a terra todas as chalupas, a fim de que a enorme operação de carregamento possa ser efectuada ainda antes do pôr do sol.

Sequeira, radiante por a preciosa mercadoria ter sido arranjada tão prontamente, envia realmente a terra todas as chalupas dos quatro grandes navios, bem cheia de tripulantes. Ele próprio, considerando que a actividade mercantil é indigna de um nobre português, permanece a bordo, jogando xadrez com um companheiro, o que é a coisa mais assisada que se pode fazer num navio em dia tórrido e aborrecido. As três outras grandes embarcações permanecem, sonolentas, no mesmo sítio. Alguma coisa, porém, chama a atenção de Garcia de Sousa, o capitão da caravela mais pequena, o quinto navio da esquadra: há uma quantidade cada vez maior de embarcações malaias a circundar os quatro navios abandonados e um cada vez maior número de indivíduos seminus a trepar pelos cordames dos navios, sob o pretexto de trazerem mercadorias para bordo. Garcia de Sousa acaba por desconfiar que se está a preparar, simultaneamente em terra e no mar, um ataque traiçoeiro daquele sultão tão exageradamente amável.



Fernão de Magalhães



Por sorte, a pequena caravela não enviou a sua chalupa a terra; e assim, Garcia de Sousa incumbe o homem em quem deposita maior confiança a remar a toda a velocidade até ao navio do almirante e de avisar o capitão. Este homem não é senão o sobresaliente Magalhães que, com remadas céleres e vigorosas, chega ao navio, onde encontra o capitão Sequeira ainda a jogar tranquilamente. Mas a Magalhães não agrada que vários malaios, de kriss à cintura, sempre pronto a ser usado, finjam estar a seguir a partida de xadrez nas costas dos dois jogadores, e avisa Sequeira com um murmúrio discreto. Este, para não levantar suspeitas, mantém o sangue-frio, não interrompendo o jogo.

Porém, ordena a um marinheiro que fique vigilante do alto da sua gávea e, a partir desse momento, não volta a tirar a mão do punhal durante todo o jogo. O alerta de Magalhães chegou mesmo no último minuto, pois nesse preciso instante uma coluna de fumo subiu do palácio do sultão – era o sinal combinado para o ataque simultâneo em terra e no mar. Felizmente, o marinheiro, do alto da sua gávea, ainda tem tempo de dar o alerta. Sequeira levanta-se de um salto e afasta para o lado os malaios, antes que estes possam atacar. Mal o alarme soa, toda a tripulação que está a bordo se reúne; os malaios, que se tinham infiltrado em todos os navios, são lançados borda fora e é em vão que, de todos os lados, os paraus armados tentam abalroar as embarcações: Sequeira tem tempo de levantar ferro e os seus canhões, lançando salvas poderosas, permitem-lhe a retirada. Graças à vigilância de Garcia de Sousa e ao desembaraço de Fernão de Magalhães, o ataque aos navios fracassou.

A situação é mais crítica para os infelizes que, de nada suspeitando, se tinham dirigido a terra: um punhado de homens desprevenidos, espalhados pelas ruas, contra milhares de pérfidos inimigos. A maior parte dos portugueses é imediatamente massacrada, só poucos conseguem fugir até à praia. Tarde demais: os malaios já se apoderaram dos barcos, cortando-lhes a retirada. Um a um, todos os portugueses ficam reféns. Há apenas um, o mais valente de todos, que ainda se defende, trata-se de Francisco Serrão, o maior e mais fraternal amigo de Magalhães. Ei-lo cercado, ferido, tudo indica que está perdido. Mas já Magalhães, acompanhado de um outro soldado, se aproxima intrepidamente na sua pequena chalupa, pronto a dar a vida pelo amigo. Com algumas vigorosas espadeiradas, consegue resgatá-lo do meio dos seus adversários, dez vezes superiores em número, e puxa-o para dentro do pequeno batel, assim lhe salvando a vida. Neste ataque arrasador a frota portuguesa perdeu os seus batéis e para cima de um terço da sua tripulação; Magalhães, porém ganhou um irmão de saque, cuja amizade e fidelidade virão a ser decisivas na façanha que o espera» (in Magalhães, o homem e o seu feito, Assírio & Alvim, 2007, pp. 46-50).






Não obstante as fontes clássicas, como o nosso historiador da Índia, João de Barros, torna-se perfeitamente claro que só mediante uma intuição única e pessoal na esfera do subconsciente português pode resultar, ainda que eventualmente amparada nas respectivas fontes, uma compreensão una e omnímoda de uma odisseia humana sem precedentes históricos inigualáveis. Aliás, Oliveira Salazar, quando inquirido por Cristina Garnier sobre a causa da persistência da recordação de Portugal e dos Portugueses em territórios onde já não permaneciam política e administrativamente, dissera pura e simplesmente:

«- Não procure o motivo (…) na extensão ou na permanência do poder político, por vezes superficial e breve. Não pense também na violência que teria podido marcar a nossa passagem. Todos sabem que o domínio português se exerceu sempre com doçura, no respeito das pessoas e dos seus costumes. Nunca tivemos preconceitos de raça. Numa palavra, em nenhum dos lugares por onde passámos se encontrarão vestígios de imposição pela força, nem mesmo uma civilização imposta a outra mais rudimentar. Nalguns casos verificar-se-á uma espécie de interpenetração de duas culturas, quando duas culturas se encontraram face a face» (in Férias com Salazar, Lisboa, 1952, pp. 145-46).

Logo, a sensibilidade extreme e emotiva, delicada mesmo, de Oliveira Martins, a que se vem juntar uma particular quão impressionável subjectividade de feição psicologista, permite explicar por que razão a sua História de Portugal não só revela um desleixo na recolha documental da verdade histórica, como também sugere uma crítica primária àquela que foi a missão económica, política e militar de Portugal no Oriente. Basta tão-só, para o efeito, ver como reduziu a gesta épica do homem português a feitos de pirataria, crueldade e morticínio, pese embora aluda de permeio a alguns lances esporádicos de religiosidade, fé e celeste milagre na hora do combate sob a cruz mística de Cristo. Em todo o caso, o amor pátrio de Oliveira Martins, mais tarde rectificado em A Vida de Nun’Álvares, ou ainda n’Os Filhos de João I, não deixa de se revelar na eventual forma como descreve o heroísmo antigo de Albuquerque, um Aníbal, ou a simpática pureza ingénua de um Castro, imitador fiel dos tipos de Plutarco, ou ainda os feitos de um Francisco de Almeida, valente como soldado, hábil como almirante e, ao contrário de Albuquerque que assentara na terra firme os limites do império (Ormuz, Goa e Malaca), desejara, ao fim e ao cabo, que o mesmo houvesse de vogar flutuante sobre as ondas.


Notas:

(1)  Convém notar que o romance se inspira nas aventuras de um navegador inglês, William Adams, com base no qual se desenha a figura do piloto John Blackthorne, cujo navio (“Erasmus”) naufraga na costa do Japão no dealbar do Período Tokugawa.




Símbolo Tokugawa (3 folhas de malva).




(2) Convém notar que Stefan Zweig revela igualmente uma tendência para apresentar os Portugueses e suas façanhas no Oriente sob o prisma da cobiça e do domínio imperial puro e simples. Ora, esse estereótipo, que por diversas vezes sobressai no autor, não leva devidamente em conta, mau grado a eventualidade dos erros e das imperfeições dos Portugueses de antanho, os perigos mortais, as manobras dilatórias e a duplicidade de intenções que marcavam a natureza e a idiossincrasia dos demais protagonistas em terras tão longínquas como desconhecidas. A testemunhá-lo está, em grande medida, a imponente figura de Afonso de Albuquerque, para quem os Portugueses tanto podiam ser aliados fiéis como adversários implacáveis. Seja como for, o trecho que acima se transcreve permite, salvo o referido estereótipo, a compreensão de tão delicada questão. 


terça-feira, 19 de março de 2013

Alexandre Magno (ii)

Escrito por Plutarco








«... de que [Alexandre] tivesse sido envenenado, ninguém suspeitou naquela altura, dizendo-se apenas que, tendo sido feito um legado a Olimpíada, aos oito anos, mandou matar muitos e espalhou aos ventos as cinzas de Iolas, então já morto, por ter sido ele quem lhe ministrou o veneno. Os que dizem que Aristóteles foi quem aconselhou esta acção a Antípatro, e que também proporcionou o veneno, designam um tal Agnotemis como divulgador desta notícia, tendo-se-a ouvido ao rei Antígono, e que o veneno foi uma água fria e gelada que emanava de uma pedra, próximo de Nonacris, a qual era recolhida como um orvalho muito ténue, conservando-a num vaso feito de casco de burro, pois nenhuns outros a podiam conter, visto que os fazia rebentar com a sua excessiva frialdade e aspereza. Mas a maior parte crê que esta referência ao veneno foi uma pura invenção, tendo para tal como poderoso argumento o facto de terem os generais altercado entre si durante muitos dias, sem terem cuidado de dar sepultura ao corpo, o qual permaneceu num sítio quente e não ventilado, sem que nenhum sinal de semelhante modo de destruição aparecesse, mas, pelo contrário, manteve-se sem a menor mancha e fresco».

Plutarco («Vidas Paralelas»).



(...) Reunidos os Gregos no Istmo, decidiram marchar com Alexandre para a guerra contra a Pérsia, nomeando-o general; e, como eram muitos os homens de Estado e os filósofos que o visitavam e lhe davam os parabéns, ele esperava que fizesse outro tanto Diógenes, o de Sinope, que residia em Corinto. Mas este não deu nenhuma importância a Alexandre e passava tranquilamente a vida no bairro chamado Craneto, e assim teve de ser Alexandre a passar por lá para o ver. Achava-se ocasionalmente estendido ao sol e, tendo-se endireitado um pouco com a chegada de tantas personagens, fixou o olhar em Alexandre. Saudo-o este e perguntou-lhe em seguida se se lhe oferecia dizer alguma coisa.

- Muito pouco, respondeu-lhe. - Apenas que não me tapes o Sol.

Diz-se que Alexandre, perante aquela espécie de menosprezo, ficou tão admirado de semelhante elevação e grandeza de ânimo que, quando, depois de se afastarem dali, os que o acompanhavam começaram a rir-se e a troçar, lhes disse:

- Pois eu, se não fosse Alexandre, de boa vontade seria Diógenes.

Quis preparar-se para a expedição com a aprovação de Apolo e, tendo passado por Delfos, quis o acaso que os dias em que lá chegou fossem nefastos, aqueles em que não é permitido dar resposta: contudo, a primeira coisa que fez foi chamar a sacerdotisa; mas, negando-se esta e objectando com o disposto na lei, dirigiu-se até onde ela se encontrava e trouxe-a à força para o templo. Ela, então, mostrando-se vencida por aquela determinação, exclamou:

- És invencível, ó jovem!






Ouvindo isto, Alexandre disse que não necessitava de mais nenhum vaticínio, pois ouvira da sua boca o oráculo que lhe convinha. Quando já se encontrava em marcha para a expedição, ocorreram diferentes prodígios e sinais, e entre eles o da estátua de Orfeu em Libetra, que era de cipreste, e que naqueles dias exalou copiosos suores. A muitos, este fenómeno inspirou medo, mas Alexandre exortou-os a terem confiança, dizendo-lhes:

- Isto significa que Alexandre cometerá façanhas dignas de serem cantadas e aplaudidas; as quais, no entanto, darão muito que fazer e que suar aos poetas e músicos que as hão-de celebrar.

(...) Quando ia invadir a Índia, como visse que o exército arrastava uma grande carga atrás de si, e que era difícil mover-se, devido à grande riqueza dos despojos, nessa mesma manhã, estando já prontos os carros, queimou primeiro os seus e os dos seus amigos, e depois mandou lançar o fogo aos dos Macedónios, ordem que pareceu mais dura e terrível em si do que na sua execução, porque mortificou muito poucos e, pelo contrário, os demais receberam-na com entusiasmo e com demonstrações de aclamação e de júbilo, distribuíram as coisas mais precisas entre os que as pediram, e as restantes queimaram-nas, criando assim maior arrojo e confiança no ânimo de Alexandre. Era já então feroz e inexorável no castigo dos culpados, de maneira que, tendo nomeado Menandro, um dos seus amigos, governador de um forte, porque este não queria ali ficar, tirou-lhe a vida, e, tendo-se revoltado os bárbaros, ele próprio trespassou com uma flecha Orsodates. Sucedeu por essa altura que uma ovelha pariu um cordeiro que tinha na cabeça a figura e a cor de uma tiara, e a forma também de uns testículos, de um e de outro lado, o que pareceu a Alexandre mau sinal, pelo que tratou de se mandar purificar por uns babilónios que, para esse efeito, cuidava sempre de levar consigo; acerca do que disse aos seus amigos que não fora por si próprio que se havia sobressaltado, mas por eles, não acontecesse que um mau génio, faltando-lhes eles, transferisse o poder para um homem cobarde e obscuro. Mas um sinal bom que observou logo fez esquecer esta impressão de desalento: foi que um macedónio, chefe das tapeçarias, chamado Proxeno, ao alisar o sítio em que devia ser armada a tenda do rei, junto ao rio Oxo, descobriu uma fonte de um licor contínuo e untuoso, e, pelo primeiro que recolheram, descobriram que se tratava de um azeite límpido e claro, sem se diferenciar desta substância nem ao cheiro nem ao sabor, sendo também igual a ela na cor brilhante e na untuosidade, e isto num país que não produzia azeite. Diz-se, pois, que a água do Oxo é também muito branda e que põe gordurosa a pele dos que nela se banham. Aconteceu que Alexandre se alegrou extraordinariamente com este sinal, como demonstra com o que escreveu a Antípatro, colocando o facto entre os maiores favores que recebera do deus. Os adivinhos consideravam-no prognóstico de uma expedição gloriosa, mas trabalhosa e difícil, porque o azeite foi dado aos homens por Deus para remédio das suas fadigas.






Foram, pois, muitos os perigos que correu naqueles encontros, e graves as feridas que recebeu, mas o maior mal que a sua expedição sofreu foi a falta das coisas de maior necessidade e a destemperança do clima. No que diz respeito a ele próprio, fazia empenho em contrapor à fortuna a ousadia, e ao poder o valor, pois nada lhe parecia ser inacessível para os ousados, nem forte e seguro para os cobardes (11). Diz-se, portanto, que, tendo cercado o castelo de Sisimitres, que estava num rochedo muito elevado e inacessível, como os soldados já começassem a perder a confiança, perguntou a Oxiartes que espécie de homem era Sisimitres, quanto ao ânimo; e, respondendo-lhe este que era o mais tímido dos mortais, ripostou:

- Isso quer dizer que posso tomar o rochedo, pois aquele que manda nele não é forte.

Tomou-o, pois, bastando-lhe intimidar Sisimitres. Mandou contra outro castelo, igualmente escarpado, os mais jovens dos Macedónios e, saudando um que se chamava Alexandre, disse-lhe:

- A ti compete-te ser valente, mais que não seja pelo nome que tens.

Pelejou, efectivamente, aquele jovem com grande denodo, mas morreu na acção, o que causou a Alexandre grande pesar. Punham os Macedónios dificuldades em acometer a fortaleza chamada Nisa, por estar banhada por um rio profundo, e, estando ele presente, retorquiu:

- Pois, miserável de mim, não aprendi eu a nadar?




E, tendo já o escudo sobraçado, dispunha-se a passar. Deteve a acção por virem até ele com rogos embaixadores da cidade sitiada, os quais ficaram logo maravilhados por o verem em armas, sem nenhum acompanhamento. Trouxeram-lhe depois um almofadão e, pegando-lhe, mandou que se sentasse nele o mais ancião de entre eles, que se chamava Acufis. Admirado este ainda mais com tais mostras de benignidade e de humanidade, perguntou-lhe que haviam de fazer para se poderem contar entre os seus amigos; e, como lhes respondesse que a primeira coisa era nomearem-no chefe e príncipe de todos, e a segunda mandarem-lhe como reféns um cento dos melhores, pondo-se a rir, Acufis respondeu:

- Muito melhor farei, ó rei!, mandando-te os piores em vez dos melhores!

Diz-se que Taxiles, que possuía na Índia terrenos que não eram menores do que o Egipto em extensão, e abundantes e férteis como os melhores, e sendo homem de muito siso, saudou Alexandre e lhe disse:

- Que necessidade temos, ó Alexandre, de guerras e de batalhas entre nós, se não vens tirar-nos a água nem os alimentos necessários, que são as únicas coisas pelas quais é forçoso que os homens pelejem? No que toca às demais, que se chamam bens ou riquezas, se sou melhor do que tu, estou pronto a fazer-te o bem, e, se valho menos, não recuso mostrar-me agradecido pelo que receber de ti.

Satisfeito, Alexandre estendeu-lhe a mão direita e replicou:

- Pois pensas que, com essas palavras e essa bondade, o nosso encontro há-de ficar sem contenda? Fica sabendo que nada adiantas, porque me baterei e pelejarei contigo à força de benefícios, a fim de que não pareças melhor do que eu.






Recebendo, pois, muitos bens, e dando muitos mais, acabou por lhe dar um presente de mil talentos em dinheiro, como que desagradou sobremaneira aos amigos, mas fez com que muitos dos bárbaros se lhe mostrassem menos contrários. Os mais belicosos entre os da Índia eram pagos para defender com ardor as cidades e causavam-lhe grandes danos. Tendo, pois, estabelecido tréguas com eles numa delas, apanhando-os depois no caminho, quando retiravam, deu-lhes morte a todos; e entre os seus feitos de guerra, em que sempre se conduziu justa e regiamente, este é o único que pode ter-se como uma mancha. Não lhe deram os filósofos menos que fazer do que os bárbaros, indispondo contra ele os reis que se lhe haviam unido e fazendo revoltar-se os povos livres, pelo que lhe foi preciso enforcar muitos.

O relativo a Poro, foi o próprio Alexandre quem nas suas cartas escreveu como se passara, porque diz que, correndo o Hidaspes entre os dois acampamentos, tinha Poro colocado na frente do seu os elefantes, para guardarem a passagem, e que ele, pela sua parte, todos os dias fazia muitos movimentos e grandes alvoroços no seu campo, a fim de fazer com que os bárbaros a eles se acostumassem e não os temessem; que numa noite muito invernosa, em que a Lua não brilhava, levando algumas tropas apeadas e a fina flor da cavalaria, afastou-se muito dos inimigos e passou para uma ilhota de pequena dimensão; que ali foi surpreendido por uma grande chuvada, e, sendo muitos os relâmpagos e os raios que pareciam dirigir-se ao acampamento, de tal modo que muitos eram atingidos e calcinados por eles, saiu da ilhota para passar para a margem oposta, mas, como Hidastes ia muito cheio e fora do leito, por causa da tempestade, fizera uma grande abertura e inundação, correndo por ela as águas em notável quantidade, e que conseguiu firmar-se no terreno intermédio, mas com muito pouca segurança, por o terreno ser resvaladiço e estar molhado. Conta-se ter proferido ali a seguinte exclamação:

- Acreditaríeis agora, ó Atenienses, quantos trabalhos suporto, para ser celebrado entre vós!








Mas isto quem refere é Onesícrito; o próprio Alexandre diz que, deixando as lanchas, passaram armados a inundação, com água pelo peito. Depois de ter passado, adiantou-se com a cavalaria uns vinte estádios, fazendo conta que, se os inimigos acometessem com esta arma, melhor os venceria e, se quisessem travar batalha, também a sua infantaria chegaria até ele com antecipação; e sucedeu a primeira destas coisas: porque, tendo carregado com mil cavalos e sessenta carros, e morto trezentos homens, entendeu com isto Poro que o próprio Alexandre já estava daquele lado, pelo que pôs em movimento todo o seu exército, à excepção de algumas tropas que foi preciso deixar para trás para estorvarem a passagem aos Macedónios. Alexandre, por temor dos elefantes e do grande número dos inimigos, diz-se que carregou obliquamente pela ala esquerda, dando ordem a Geno para que acometesse pela direita, que por uma e outra foram os inimigos rechaçados, e, retirando-se sempre em direcção aos elefantes, os que iam de vencida embaraçavam-se e confundiam-se ali; e que, tendo o combate começado a ser travado ao nascer do Sol, com dificuldade fizeram ceder os inimigos à hora oitava. Isto é o que o próprio condutor desta batalha referiu nas suas cartas. A maioria dos historiadores concorda que Poro ultrapassara a estatura média em quatro côvados e um palmo, e que, montado, nada lhe faltava para ficar igual ao elefante quanto ao porte e robustez do corpo; e isto apesar de o elefante que usava ser dos maiores. Este animal mostrou naquela ocasião uma extraordinária inteligência e um cuidado extremo com o rei, pois, enquanto este conservou o vigor, defendendo-o encolerizado dos que o atacavam, fazendo-os em pedaços, mas, quando percebeu que estava a desfalecer, devido ao grande número de dardos e feridas, receoso de que caísse de repente, inclinou-se brandamente até ao chão, dobrando os joelhos, e, segurando depois suavemente com a tromba os dardos, foi-os arrancado um a um. Perguntando Alexandre a Poro, quando este foi feito prisioneiro, como queria que o tratasse, respondeu-lhe:

- Regiamente!

E, perguntando-lhe Alexandre se não tinha mais nada a acrescentar, retorquiu:

- Ao dizer regiamente, está tudo dito!

Deixou-lhe então autoridade não apenas sobre os seus antigos súbditos, com o nome de sátrapa, mas também lhe concedeu novos territórios, tendo-lhe submetido os povos livres, que eram quinze nações, em várias cidades (12) principais e muitas aldeias. Conquistou ainda outra região três vezes maior, da qual nomeou Filipe, um dos seus amigos.

Em consequência da batalha contra Poro, morreu Bucéfalo, não imediatamente, mas sim ao fim de algum tempo, quando, segundo a maioria, já se estava a curar das suas feridas, mas, segundo disse Onesícrito, fatigado por um trabalho que já não conseguia suportar devido à sua velhice, pois tinha trinta anos quando morreu.

Sentiu-o pronfudamente Alexandre, considerando que perdera nada menos do que um amigo e um servidor, pelo que mandou edificar em sua memória uma cidade junto ao Hidaspes, chamando-lhe Bucefália. Diz-se que, tendo perdido tambem um cão chamado Peritas, que havia criado e do qual gostava muito, edificou outra cidade com o seu nome. Sócion escreve que ouviu dizer isto a Potamon de Lesbos.






- O combate de Poro desanimou muito os Macedónios, dissuadindo-os de se quererem internar mais na Índia, pois ainda mal haviam derrotado este, que lhes fizera frente com vinte mil infantes e dois mil cavaleiros, quando já se voltava de novo a oferecer resistência a Alexandre, que queria forçar a passagem do rio Ganges, cuja largura sabiam ser de trinta e dois estádios e a sua profundidade de cem braças, e que a margem oposta estava guarnecida por grande número de homens armados, com cavalos e elefantes, porque se dizia que o estavam esperando os reis dos Gandaritas e dos Préssios, com oitenta mil infantes, oito mil carros e seis mil elefantes de guerra. E não se considere isto um exagero, pois Adrócoto, que reinou pouco depois, ofereceu a Seleuco um presente de quinhentos elefantes, e, com um exército de seiscentos mil homens, correu e subjugou toda a Índia. Ao princípio, dominado pela ira e pela raiva, Alexandre retirou-se para a sua tenda e ali permaneceu encerrado, dizendo que nada agradecia do que fora feito antes se não passasse o Ganges, e que considerava aquela retirada uma confissão de inferioridade e derrota. Mas, fazendo-lhe os amigos ver o que era conveniente e rodeando os soldados a sua tenda com lamentos e vozes em que lhe faziam rogos, condescendeu por fim e levantou o acampamento, tendo recorrido, para criar ilusão acerca da sua glória, a arbítrios estúpidos e a estranhas invenções, porque mandou construir armas muito maiores, e pesebres e freios de muito maior peso para os cavalos, e foi-os deixando espalhados pelo caminho. Erigiu também altares aos deuses, onde ainda hoje vão rezar os reis dos Préssios, deslocando-se àqueles locais e oferecendo sacrifícios, à maneira grega. Andrócoto, que era ainda muito jovem, viu Alexandre ter-se tornado dono de tudo, em face do desprezo com que era olhado o rei, devido à sua maldade e à sua origem.

Formou então Alexandre o projecto de ir dali ver o mar exterior (13) e, construindo muitos transportes e lanchas, navegava sossegadamente pelo rio. Mas nem por isso esta viagem era tranquila e sem perigo, pois, saltando em terra e acometendo as cidades, ia-as subjugando a todas. Sem dúvida que contra os chamados Málios, que se diz serem os mais belicosos da Índia, muito pouco faltou para não morrer. Porque com frechadas fez aqueles habitantes retirar das muralhas e, postas as escadas, foi o primeiro a subir, mas, tendo-se quebrado a escada, os bárbaros que estavam colocados junto à muralha causaram-lhe de lá de baixo vários ferimentos, mas ele, apesar de ter muito pouca gente consigo, teve o arrojo de se deixar cair no meio dos inimigos, ficando, por sorte, em pé; e, como as armas sofreram um súbito movimento, pareceu aos bárbaros que um resplendor e uma aparência extraordinária brotava dele. Assim, ao princípio, fugiram e dispersaram-se, mas, ao verem-no apenas com dois escudeiros, voltaram a correr para ele e alguns, embora ele se defendesse, conseguiram feri-lo de perto com espadas e lanças, e um que estava mais longe disparou com o arco uma seta com tal força e rapidez que, trespassando a couraça, se lhe cravou entre as costelas, junto ao mamilo. Cedeu o corpo ao golpe e também se transtornou um tanto, e o atirador correu para lá, sacando o alfange que usam os bárbaros, mas Pucestas e Limneu puseram-se na frente e, sendo ambos feridos, este perdeu a vida, mas Peucestas aguentou-se e Alexandre deu morte ao bárbaro. Recebera muitos golpes e, ferido por fim com uma maça junto ao pescoço, teve de se apoiar à muralha, ficando a olhar os inimigos. Acudiram neste momento os Macedónios e, recolhendo-o já sem sentidos, levaram-no para a sua tenda, e, ao princípio, correu no exército o rumor de que morrera. Tiraram-lhe, não sem grande dificuldade e trabalho, o cabo da seta, que era de madeira, depois do que foi possível desapertar-se a couraça, embora também a muito custo, pondo-se assim a descoberto a ferida e verificando-se que a ponta que, segundo se diz, tinha três dedos de comprimento e quatro de largo, se encontrava cravada num dos ossos. Quando lha estavam a tirar, teve desmaios em que julgaram que se iria ficar, mas logo se restabeleceu. Embora tivesse ficado fora de perigo, aquilo deixou-o muito débil, e teve de passar muito tempo a dieta e a medicar-se, mas, sentindo um dia, da parte de fora, os Macedónios alvoraçados e inquietos com o desejo de o ver, pôs as suas roupas e saiu para onde eles se encontravam. Sacrificou depois aos deuses e, voltando a embarcar e a largar as velas, subjugou novas regiões e muitas cidades.






Caíram em seu poder dez dos filósofos gimnosofistas, aqueles que com as suas persuasões mais tinham contribuído para que Sabas se revoltasse e que maiores males haviam causado aos Macedónios. Como tinham fama de ser muito hábeis em dar respostas breves e concisas, propôs-lhes certas perguntas obscuras, dizendo que mandaria matar primeiro aquele que pior respondesse, e assim por esta ordem, intimando o mais ancião a julgar. Perguntou ao primeiro se, na sua opinião, eram mais os vivos ou os mortos, e a resposta foi que eram mais o vivos, pois os mortos já não eram. Ao segundo, perguntou qual é que criava maiores animais, se a terra ou o mar, respondendo-lhe ele que era a terra, porque o mar fazia parte dela. Ao terceiro, qual era o animal mais astuto, sendo-lhe dito: «Aquele que o homem ainda não conheceu». Perguntando ao quarto com que fim fizera com que Sabas se revoltasse, respondeu-lhe ele: «Com o desejo de que vivesse bem, ou morresse mal». Sendo perguntado ao quinto qual lhe parecia que havia existido primeiro, o dia ou a noite, respondeu-lhe que o dia precedera a noite num dia, e acrescentou, vendo que o rei se mostrava admirado, que, sendo enigmáticas as perguntas, também o deviam ser as respostas. Mudando, pois, de método, perguntou ao sexto como é que uma pessoa poderia conseguir ser a mais amada entre os homens, respondendo-lhe ele: «Se, sendo o mais poderoso, não se fizer temer». Dos demais, interrogado um acerca de como é que uma pessoa podia passar de homem a deus, disse-lhe: «Se fizesse coisas que ao homem são impossíveis de fazer». E, perguntando a outro qual podia mais, se a vida ou a morte, respondeu-lhe que era a vida, pois era capaz de suportar tantos males. Perguntando ao último até quando deveria o homem ter por bem viver, este respondeu-lhe: «Enquanto não preferir a morte à vida». Voltou-se então para o juiz, mandando-lhe que se pronunciasse, e, tendo este dito que todos haviam respondido o pior possível, Alexandre se declarou:

- Pois tu serás o primeiro a morrer, por julgares dessa maneira.

Ao que aquele replicou:

- Isso não pode ser, ó rei, a menos que te contradigas, pois disseste que morreria primeiro o que pior respondesse.



Deixou, pois, ir estes livres, havendo-lhes ainda dado presentes, e aos que, tendo também fama, viviam à sua conta, deu ordem a Onesícrito que lhes dissesse que o fossem ver. Era Onesícrito um filósofo dos da escola de Diógenes, o cínico, e diz-se que Calano lhe mandou com desdém e má cara tirar a túnica e escutar nu as suas lições, pois de outro modo não lhe dirigiria a palavra, nem que viesse da parte de Júpiter, mas que Dandamis o tratou com mais soçura e, tendo-lhe ouvido falar de Sócrates, de Pitágoras e de Diógenes, dissera que lhe pareciam homens apreciáveis, embora, em seu entender, tivessem vivido com demasiado submissão às leis. Outros são de opinião de que Dandamis não terá dito mais do que isto:

- Pois, com que fim é que Alexandre fez uma viagem tão grande, para vir até aqui? (in ob. cit., pp. 84-94).


Notas:

(11) O sentido desta passagem é que o valor acaba sempre por vir ao de cima e para a cobardia não existe posto algum suficientemente forte e seguro.

(12) No original diz-se que foram cinco mil as cidades, mas neste número naturalmente que há algum erro, pelo que se considerou preferível não o determinar.

(13) O mar Eritreu, por oposição ao Mediterrâneo, ou mar interior.