sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Ângelo Monteiro: o filósofo e a obra (ii)

Entrevista a Ângelo Monteiro





M. B. D. – O Tratado da lavação da burra ou introdução à transcendência, escrito no Recife de Junho a Julho de 1978, é um notável ensaio sobre o Brasil e a respectiva ausência de matrizes definidas; ou, nas palavras do próprio Ângelo, um Brasil que, em sua euforia pelo futebol, pelo samba e pelo carnaval, manifesta «a senha dialéctica dos três estágios que não lograram sequer ser atingidos pelo nosso esforço, pois nos foram dados simultânea e instantaneamente sem nenhuma necessidade de síntese, sem nenhum percalço lógico ou metafísico». Quer explicitar? 

A. M. — O que pretendi salientar, inclusive por meio dessa citação do texto do Tratado da lavação da burra, é que sobre esta espécie rasteira de emocionalismo nenhum tipo de antinomia poderá sequer ser adivinhado, principalmente se dotado de algum caráter dialético. Esse emocionalismo, que parece ter se incorporado definitivamente à nossa formação cultural, dispensa, por princípio, o menor tipo de questionamento intelectual.

M. B. D. – Vejamos este trecho inserto n’A Lavação da Burra: «Nossa disponibilidade para o outro, para o alheio, para o exterior à nossa própria configuração racial ou política, elimina, por princípio, qualquer barreira que os povos sempre mantiveram e sempre voltarão a manter. Não poderemos nos referir nem mesmo a uma possível barreira linguística por termos recebido como idioma o português. Notamos, pelo contrário, que se os alienígenas aqui são tardos em assimilar nossa linguagem, nós aprendemos magnificamente as línguas mais exóticas, com sotaques, idiotismos e o resto, embora venhamos depois a descobrir, provavelmente deslumbrados, que não sabemos ainda falar o nosso português. E quando viremos a aprendê-lo e falá-lo, se o país, que recebeu de graça a sua independência, poderá ser por dom divino, dentro de pouco tempo, haja o que houver, potência mundial?». Perante isto, e em face da matriz histórica lusa, concorda com o actual “acordo ortográfico” que consumou entre os portugueses a perda das suas consoantes mudas, entre outras descaracterizações idiomáticas impostas por directrizes políticas e académicas? 

A.M. — Referi-me, basicamente, à mania tão brasileira de imitar tudo o que vem de fora e, em especial, aquilo que houver de pior. O meu amigo, o poeta José Manuel Capêlo, costumava dizer que o complexo do brasileiro, sobretudo da classe média, é não falar inglês no lugar do português. Não consigo discordar inteiramente do nosso último acordo ortográfico, já que ele buscou conciliar pequenas diferenças existentes no português de Portugal e no do Brasil. A perda das consoantes mudas, por exemplo, na grafia das palavras portuguesas, terá o condão de evitar que nossa língua fique inteiramente muda nos grandes foros internacionais. Acho que o fato de sofrer aparentemente certas descaracterizações, do ponto de vista meramente ortográfico, não basta para comprometê-la no essencial, já que tal acordo prevê a dupla grafia para alguns vocábulos, aqui e em Portugal, além de contribuir para o fortalecimento dos laços de amizade da Comunidade dos Povos da Língua Portuguesa, bem como para ampliar a difusão dessa língua para outras partes do mundo.

António Telmo (ao centro) no Mosteiro dos Jerónimos

M. B. D. – Também me disse que chegou a conhecer o Kabbalista de Estremoz, António Telmo. Como, quando e onde conheceu o autor de Arte Poética

A. M. — Conheci António Telmo por intermédio do escritor angolano Francisco Soares que, na época era professor na Universidade de Évora; e nosso encontro se estendeu de Évora, onde me foi apresentado, a Estremoz, onde residia, e finalmente, a Setúbal onde houve o lançamento de seu livro Contos, numa edição de luxo com o selo da Aríon, de Lisboa, editora então dirigida pelo meu velho e finado amigo José Manuel Capêlo. Entretanto eu já conhecia o contista, bem como o cabalista, da leitura de seu livro Le Bateleur, sobre o qual já havia escrito um artigo que lhe fiz chegar às mãos.

M.B.D. – O Ângelo chegou a entrevistar o António Telmo para a revista brasileira Encontro. Aliás, ao perguntar-lhe a distinção entre filosofia especulativa e filosofia operativa, António Telmo, salientando a última, disse: «Por operativo significava eu eficaz, capaz de nos curar da dor e de nos libertar do mal por uma espécie de encantamento, o qual eu diria transfigurante, depois de o ter ouvido a si em Évora. O encantamento é o que é próprio da poesia, que para tanto dispõe do ritmo e da imagem. O ritmo embala e adormece a alma. Ai daquele que no ritmo incorpora imagens contrárias aos impulsos do ser que se rendeu ao encanto por aspirar ao Bem e à Verdade». E os gestos, ou mais propriamente os seus gestos no meio de tudo isto? 

A. M. — António Telmo era uma figura difícil de esquecer pela rara combinação, nela existente, entre sua palavra e os jestos de que você fala: pois eles apontavam justamente para o que era menos comum nos nossos conhecidos meios literários. Para uma personalidade emblemática.

M. B. D. – No seu livro Escolha e Sobrevivência, o Ângelo é peremptório ao escrever: «Quanto à costumeira alegação de que a poesia de Antero padece de pouca imagem – como se só de imagens se fizesse a poesia -, não esqueçamos, de modo principal, que o barroquismo que lhe é subjacente, com seu timbre ibérico predominante na poesia como na prosa, quer em Portugal quer em Espanha, tanto pode assumir um aspecto cultista, como em Gôngora, por exemplo, marcado pelo excesso de hipérboles e metáforas, quanto um carácter conceptista, uma espécie de barroquismo de pensamento, encontrável tanto em Camões como em Lope de Veja, assim como na prosa magnífica dos Sermões do Padre Vieira». E por falar em imagens e no acto de conceber, Orlando Vitorino, irmão varão de António Telmo, chegou a distinguir, precisamente na esteira de José Régio, o poeta-artista que vai da imagem para o conceito do poeta-pensador que vai do conceito para a imagem. E dizia que o poeta-artista ficava muitas vezes pelo caminho por se dispensar de seguir o caminho até ao fim. Como vê, pois, esta relação entre a poesia e a filosofia? 

A.M. — Vejo a relação entre poesia e filosofia um pouco na linha em que a via Orlando Vitorino. Apenas com essa ligeira diferença: a de que a poesia, mesmo ao fazer uso do conceito, nunca deterá a função hermenêutica, que é própria da filosofia, que nada tem a ver com a poesia enquanto tal, já que esta se revela principalmente como um canto de sagração da realidade em meio às suas epifanias.






M.B.D. – No livro supra mencionado, encontramos no princípio do mesmo uma epígrafe de Olavo de Carvalho, que diz «Sobreviver é escolher, escolher é renunciar». Como interpreta uma tal epígrafe no contexto desta sua obra? 

A. M. — Escolhi essa epígrafe de Olavo de Carvalho por acreditar que quando alguém escolhe um caminho é porque vê nele seu projecto de sobrevivência e, portanto, se sente obrigado a renunciar a tudo aquilo que faria dele se desviar.

M. B. D. – Já agora, em que circunstâncias conheceu Olavo de Carvalho e que afinidades espirituais mais o aproximam de um dos mais ilustres e significativos pensadores da cultura luso-brasileira? 

A. M. — Conheci Olavo de Carvalho no Recife, quase ao fim da década de 90, por meio de um amigo comum, o escritor Ronaldo Castro, que me fez tomar conhecimento, quando ainda era meu aluno de Filosofia, de algumas de suas obras e, entre elas, de O Imbecil Coletivo, a maior crítica cultural que eu havia lido até então de um autor brasileiro. Teria, por isso mesmo, de ser delicioso e inesquecível meu encontro com ele. Pois o que justamente dele mais me aproximou foi sua empatia filosófica pela cultura como um todo, abrangendo, inclusive, o domínio estético. Também não se deve esquecer sua enorme generosidade intelectual para com os vivos e os mortos, notadamente em sua redescoberta de nomes grandes e esquecidos como o do filósofo Mário Ferreira dos Santos.

M. B. D. – No livro intitulado Arte ou Desastre, o meu Amigo Ângelo diz com toda a razão o seguinte: «A negação dos valores, mais que qualquer outra circunstância, contribuiu para a pauperização cada vez mais acentuada de uma arte que, acostumada ao nivelamento, não apela para nenhuma linha de transcendência. Por isso, Jean Clair tem bastante razão ao registrar: “Poucas épocas como a nossa terão conhecido tal divórcio entre a pobreza das obras que produz e a inflação dos comentários que suscita”. Expressões, portanto, como arte conceitual ou não arte refletem, mais do que um raciocínio desarticulado, uma total incapacidade de perceber diferenças, como a que faz da teoria uma visão das coisas ou da arte a expressão máxima da poeisis ou da criação. Enquanto forma esquemática, como um conceito pode substituir a vitalidade emanada de uma obra de arte? Se tudo é arte, não há lugar para nenhuma escolha estética nem, menos ainda, para nenhuma renovação criativa. E quando o próprio talento, como demonstrava de maneira cabal Marcel Duchamp, detém o mesmo peso da falta de talento, como justificar, então, a premência de fazer arte e a necessidade de haver artistas?». Mas qual o porquê, a seu ver, da perda de clarividência na criação artística? 

A. M. — A perda dessa clarividência na criação artística deve-se, primeiramente, ao abandono ou à ruptura com todas as raízes éticas que, até agora, plasmaram a cultura humana: pois a ausência de ethos, quer como comportamento, quer como forma de ser, vai nos levar fatalmente à perda total das exigências superiores do espírito comprometendo, necessariamente, a ação artística, entre outras também valiosas. O nivelamento cultural, em consequência, não terá outro resultado senão a derrocada de qualquer tipo de eminência no plano cultural.

 M. B. D. – Diga-me uma coisa: há alguma cultura substancial em figuras populares brasileiras como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil? 

A. M. — À parte alguma inegável qualidade artística no plano da música popular, não passam de abalizados representantes dessa cultura de massa que veio para sufocar o que, até agora, se entendia como cultura superior. E eis o que ocorreu: o papel antes desempenhado pela poesia na nossa formação intelectual terminou inteiramente ocupado pelas letras de música que hoje enxameiam os nossos livros didáticos do atual Ensino Médio. O sujeito chega à universidade mais ignorante, porque mais pretensioso e cheio de preconceitos multiculturais, do que quando começou seu Ensino Fundamental.

 M. B. D. – À guisa de conclusão, e com base na sua obra de poesia O Inquisidor, o Ângelo revela o canto de um poeta angustiado e perplexo com o seu tempo e o seu mundo, porquanto turvos de Verdade, Beleza e Justiça. Estamos, pois, perante um Poeta do mistério e do sobrenatural? 

A. M. — O mistério maior da poesia é não sabermos, em nossa permanente perplexidade, para onde nos leva a verdadeira essência do seu canto. Porventura aquilo que não conseguimos nomear será o outro nome para o sobrenatural?






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