segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Salazar e a Guerra Civil de Espanha (ii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte




«(...) a solidariedade com a  Espanha republicana, com a  Espanha da Frente Popular, movimentou esforços, desencadeou movimentos de solidariedade e suscitou apoios internacionais.

Logo desde o alzamiento que refugiados políticos e emigrantes económicos a residirem em Espanha integraram as milícias partidárias e sindicais, muito activas no combate aos golpes nacionalistas frustrados de Madrid e Barcelona, criando unidades como as centúrias Thaelmann ou Comuna de Paris, colunas do PSUC, Partido Socialista Unificado da Catalunha, a coluna Durruti, levando o nome do seu comandante, anarquista, ou a coluna Lenine, do POUM, Partido Operário de Unificação Marxista.

(...) Na reunião de 18 de Setembro de 1936 do Praesidium da Internacional Comunista, em Moscovo, é determinado "proceder ao recrutamento de voluntários que tenham experiência militar para serem enviados para Espanha entre os operários de todo o mundo", isto é, que se constituam destacamentos militares internacionais para combaterem ao lado dos republicanos espanhóis. São as Brigadas Internacionais, cuja grande base militar é instalada no mês seguinte em Albacete, cidade a que vão acorrer milhares de voluntários de todos os países.

Trinta e cinco mil voluntários vão integrar as Brigadas Internacionais e combater em solo espanhol. Perto de 9 mil franceses, 3 mil polacos, outros tantos italianos, mais de 2 mil alemães, tantos quanto os balcânicos, mais de 1800 britânicos e muitos belgas, checos, bálticos, austríacos, escandinavos, holandeses, húngaros e também portugueses, muito poucos.

Chegavam de barco, mas principalmente de comboio, viajando de Paris a Perpignan, depois de autocarro, cruzando a fronteira até Barcelona. Paris era a grande placa giratória para colocar em Espanha os brigadistas.

São comunistas, na sua esmagadora maioria, ainda que não constituíssem em exclusivo os contingentes das Brigadas. Numerosos dirigentes comunistas radicados em Moscovo passam então para Espanha. O comando das BI é entregue a André Marty, francês, um dos sete secretários da Internacional Comunista; o italiano Palmiro Togliatti é incumbido de controlar o PC Espanhol; Vittorio Vidali, igualmente italiano, colocado à frente do 5.º Regimento espanhol; Erno Gerö, húngaro, incumbido de controlar a organização comunista catalã.

Os quadros comunistas funcionavam como comissários políticos num vasto e complexo aparelho que permitia à Internacional Comunista controlar de alto a baixo a estrutura das Brigadas Internacionais, as organizações comunistas espanholas e integrar vários serviços de espionagem política e militar.

Membros das Brigadas Internacionais em torno do campus da universidade, na periferia oeste de Madrid (1936).

Numa lógica de organização por língua comum, é criada em Outubro de 1936 a Brigada Thaelmann, cuja língua dominante era o alemão; em Novembro constitui-se a Brigada Garibaldi, onde se falava predominantemente o italiano; em Dezembro é a vez das Brigadas Dombrowski e A Marselhesa, cujas línguas dominantes eram a polaca e a francesa; em Janeiro de 1937 é composta a Brigada Abraham Lincoln, onde se falava inglês».

(in «Os Anos de Salazar», Centro Editor PDA, 2008, Vol. 4, pp. 14-16).


«A batalha de Madrid, que ocorre entre Outubro e Novembro de 1936, foi um momento importante na evolução das orientações de Franco, sem que se conhecessem os seus verdadeiros planos. É preciso recordar que tinha subordinado voluntariamente a missão de conquistar a capital que lhe tinha sido confiada, àquela de libertar o Alcázer. Depois da sua nomeação como Chefe das Forças Armadas e chefe de Estado, Franco retoma o plano como tinha sido inicialmente concebido e fixa o ataque à capital para o mês de Outubro. A situação na região republicana tinha mudado. Largo Caballero, "o Lénine espanhol", era agora o chefe de um governo em que os anarquistas tinham aceitado participar. Outro elemento importante foi a chegada de comissários políticos e de material soviético que aumentou o peso dos comunistas na guerra. O Partido Comunista Espanhol, minoritário, fora reforçado com milhares de novos seguidores e desempenhava um papel cada vez mais importante na direcção das operações. Mas as posturas extremistas da URSS no seio da Sociedade das Nações, como a denúncia sem provas, a 9 de Outubro, das intervenções de Portugal, aliado histórico da Inglaterra, causaram o pior efeito junto das democracias francesa e inglesa que, como sublinha Eden, tendiam cada vez mais a adoptar uma atitude passiva. De qualquer modo, já não era tempo para boa fé, e todos, tanto na Sociedade das Nações como em outros âmbitos, só pensavam em assegurar as suas posições perante a iminência do conflito que se preparava».

Andrée Bachoud («Franco»).



Sir Anthony Eden


Paralelamente, por transigência, fraqueza e cedência de Armindo Monteiro às pressões de Anthony Eden, Portugal acabaria por se fazer representar no comité em Londres. Por conseguinte, Salazar, de Lisboa, «reage com fria serenidade». E conjuntamente com Teixeira de Sampaio, redige e envia «para os jornais a curta nota oficiosa que procura salvar as aparências»:

«Tendo o governo, em nota de 1 de Setembro, dirigida aos governos inglês e francês, manifestado a impossibilidade de se fazer representar no Comité de Londres sem que, quanto a este, ficassem esclarecidos determinados pontos acerca da sua competência e funcionamento, foram trocadas entre os governos português e britânico comunicações em que ficaram finalmente esclarecidas algumas dúvidas. Por seu lado, o Presidente do Comité comunicou oficialmente em Genebra ao Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros as regras adoptadas para o funcionamento daquele organismo. Julgou o governo, em face de tais comunicações, poder dar ordem ao nosso representante em Londres para tomar parte nas sessões do Comité. Esta resolução não prejudica em nada as reservas e condições com que o Governo português, pela sua nota de 21 de Agosto, aderiu ao pacto de não-intervenção em Espanha e a que alude o Decreto-Lei n.º 26 935, de 27 do mesmo mês, reservas e condições a que continua a obedecer inteiramente a nossa acção» (12).

Uma vez presente o delegado português nas sessões do Comité de Londres, o delegado russo desencadeia um violento ataque contra Portugal com base nas acusações formuladas por Madrid a respeito de uma suposta intervenção portuguesa em Espanha. De facto, o delegado russo desfere o ataque sem provas minimamente substanciais, o que desorienta desde logo o presidente do comité, Lord Plymouth. Por outro lado, os delegados da Itália e da Alemanha reagem de uma forma profundamente negativa, ameaçando inclusive de publicar documentação probante do intervencionismo soviético.

Nisto, a União soviética insiste num bloqueio generalizado a Portugal, assim como sublinha a necessidade de uma comissão imparcial à raia luso-espanhola. E indo mais longe, ameaça também desligar-se das obrigações do acordo de não-intervenção caso as suas exigências não sejam plenamente satisfeitas. A situação é acerba e intimidativa, exigindo da parte do Governo português uma resposta firme e sem qualquer sombra de ambiguidade. Franco Nogueira traça-nos o respectivo quadro:


«Abre com ameaça a resposta de Lisboa: as regras processuais do comité haviam sido violadas, e este facto dá ao governo português o direito de se afastar em qualquer momento dos trabalhos respectivos. Depois considera as acusações formuladas pelo governo de Madrid, e submetidas por intermédio do governo britânico, que todavia não as faz suas. Primeira acusação: Badajoz fora bombardeada por aviões espanhóis baseados em Portugal. Responde o governo de Lisboa: aquela cidade fora bombardeada pela última vez na manhã de treze de Agosto; os três aviões espanhóis que aterraram em território português, junto a Elvas, fizeram-no já de noite; dada a muito curta distância, não podiam ter estado a atacar Badajoz; e além disso eram aparelhos desarmados. Segunda acusação: os "rebeldes" transitariam livremente em território português e neste "encontravam aviões, armas, munições e homens". Lisboa classifica a alegação de "simplesmente pueril"; não se chega a um país para deparar, como por acaso, com aviões, armas, munições e homens. Terceira acusação: o vapor germânico Kamerum desembarcara em Lisboa tanques e aviões com destino aos "rebeldes". Portugal contesta: aquele navio, vindo de Gibraltar, entrou e saiu em 21 de Agosto; não acostou a qualquer cais; fez a sua descarga de barris de gasolina para batelões; não podiam ter sido desembarcados aviões e tanques. Seguidamente, o governo português responde às acusações do governo russo. Mas aqui, depois de refutar alguns factos, Lisboa passa ao contra-ataque; e acusa frontalmente Moscovo de intervenção maciça na Península para preparar o domínio soviético. Denuncia com minúcias a acção russa: a existência em Moscovo de um museu consagrado à futura revolução comunista espanhola (13); para o efeito foram enviados a Espanha os técnicos revolucionários Bela Kun e Losovski; estes levavam instruções para conseguir a demissão de Alcalá Zamora, a confiscação de terras, a nacionalização de bancos e fábricas, a criação de milícias operárias, a destruição de igrejas e conventos, a supressão da imprensa, a provocação da guerra contra Portugal; o embaixador Rosenberg assiste aos Conselhos de Ministros; em Março haviam chegado a Barcelona os técnicos revolucionários Janson, Riedel, Primakoff, Berzine, e os assessores Socoline, Bondarenko e Winter; em Setembro desembarcaram cinquenta e cinco oficiais russos, quarenta aviões e respectivos pilotos, e depois mais cinquenta e três aparelhos; a Cartagena, Barcelona e Alicante chegam navios russos (o Colsona, o Star Bolchevik, o San Mare, o Heba, o Nyrianin, outros ainda) com material de guerra; o cônsul Antonov domina o governo de Barcelona; e as fortificações e defesa de Madrid são orientadas por oficiais estrangeiros, designadamente os oficiais russos Tcheaidef e Dimitrof. Deste modo, afirma a nota portuguesa, hoje a "Espanha é um mar de sangue"; "a atitude soviética na Comissão de Londres é a lógica continuação da sua política de activa intervenção na guerra civil de Espanha"; e "se o governo comunista conseguisse criar em Portugal um estado revolucionário, poderia lançar ataques graves contra os nacionalistas espanhóis, ameaçando-lhes as retaguardas e, porventura, criando-lhes uma situação de perigo aéreo"» (14).

Perante a resposta portuguesa, o comité de controle, após longa reunião, aprovara a mesma sem qualquer objecção de todos os membros à excepção da Rússia. Foi, sem dúvida, uma vitória diplomática portuguesa de larga repercussão na Europa e no mundo, para não dizer altamente reconhecida pela Grã-Bretanha. Assim, para surpresa geral, Portugal, sob a orientação cuidada e vigilante de Salazar, lograra obter uma viragem decisiva na política europeia em Espanha.




De qualquer modo, uma vez reconhecido o governo do general Franco pela Alemanha e pela Itália, a verdade é que Portugal, evitando ser arrastado por Berlim e Roma, reserva para mais tarde o direito e o momento oportuno para dar o seu eventual reconhecimento. Mas Moscovo não desarma e propõe agora a fiscalização do fornecimento de aviões à Espanha. Portugal, insistindo novamente no facto de ser a Rússia a grande responsável pelos acontecimentos naquele país, rejeita tal proposta, dizendo simplesmente que não participará de modo nenhum em despesas, nem muito menos em fornecimento de técnicos.

Agita-se a esquerda em França e o partido trabalhista na Inglaterra. Plymouth chama a atenção de Portugal para o facto, cuja resposta é curta, dura e perfeitamente legítima: Portugal, «como país independente, não subordina a sua política às opiniões de partidos em outros países e, se tem sempre a peito os interesses nacionais da Grã-Bretanha, não pode cuidar dos interesses de um partido político e suas manobras de política interna, sobretudo quando estas resultam de solidariedades com grupos de terceiros países; e ademais Portugal entendeu sempre que a aliança anglo-lusa constitui um facto nacional para os dois povos e não partidário para qualquer» (15).

Por fim, surge nova proposta de formulação anglo-francesa, para sugerir ao Governo português um acordo de seis potências – França, Inglaterra, Alemanha, Itália, União Soviética e Portugal – com vista ao objectivo supremo de manutenção da paz. Este acordo pretende agora, entre outras medidas, controlar todo o material de guerra destinado a Espanha. No entanto, o acordo é retardatário, já que grandes quantidades de material de guerra, assim como milhares de voluntários estrangeiros estão já praticamente distribuídos nos dois campos do conflito internacional.

Em todo o caso, Salazar contemporiza, aceitando o «princípio das restrições legais que impeçam o alistamento em grupo ou individualmente de voluntários nacionais ou estrangeiros nas forças combatentes em Espanha». Aliás, tendo em conta que os voluntários para Espanha jamais tivessem sido recrutados pelas autoridades portuguesas, diz-nos Franco Nogueira:

«Foi calculado na altura que nas fileiras dos exércitos nacionalistas combatiam entre 20 a 30 mil portugueses. Ficaram conhecidos pelo nome de Viriatos. Não constituíram um corpo autónomo, e estavam dispersos por vários comandos; o maior número estava concentrado no comando do general Muñoz-Grandes; e, segundo depoimentos deste oficial espanhol, bateram-se bravamente. Alguns receberam altas distinções do governo de Burgos. Em número muito inferior, também alguns portugueses lutaram nas fileiras republicanas» (16).







Notas:

(12) Cf. F. Nogueira, ob. cit., p. 43.

(13) Para formular esta acusação, a nota portuguesa baseia-se no livro de Yvon Delbos, L’expérience rouge, Paris, 1933, pp. 185 e 186. Recorde-se que Delbos era, na altura, o próprio ministro dos Estrangeiros da França.

(14) Ob. cit., pp. 51-53.

(15) F. Nogueira, ob. cit., p. 63.

(16) Ob. cit., p. 69.

Continua 


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