domingo, 22 de janeiro de 2012

O véu levantado (ii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte





Rotunda do Marquês de Pombal em Lisboa.



«Num pequeno livro publicado em 1822, intitulado Causa dos Frades e dos Pedreiros-Livres no Tribunal da Prudência, lê-se que o marquês de Pombal tinha sido maçon».

Manuel Borges Grainha


«E, se o Santo Ofício estava deturpado e pervertido pelo ascendente dos jesuítas, porque não arrasou ele a Inquisição com um aceno desse poderoso braço que exterminou a Companhia de Jesus? É que não lhe convinha eliminar uma das suas repartições de tormento: pelo contrário, chamou-a a si, deu a direcção dela a seu irmão Paulo de Carvalho, e ordenou por lei que a tratassem por majestade. Sua Majestade a Inquisição! Aceitou a instituição infamada com os seus autos-de-fé, com as suas fogueiras, com o seus açoutes, com os seus freios na boca dos padecentes, com a exposição dos retratos dos que morreram, e com a ignomínia do hábito e prisão perpétua dos hebreus.

 (...) O dominicano que não podia, sem ordem do marquês, queimar em público, despedaçava a ocultas o judeu e o herege. Pombal era indiferente aos processos recônditos, contanto que não houvesse o escândalo do auto-de-fé, que ele, na sua depravada estupidez, atribuía aos jesuítas. D. Luís da Cunha tinha escrito a D. José, quando lhe pedia que admitisse ao ministério Sebastião José de Carvalho, que os estrangeiros escarneciam o hediondo espectáculo do auto-da-fé; mas o marquês só vinte e nove anos depois entrou nas ideias do seu amigo e mestre.
 
Ó centenaristas, ó heresiarcas, ó inimigos do altar e do trono! Se o marquês de Pombal vos apanhasse, maganões!

(...) Quando nos dará a história um homem semelhante, uma tão impenetrável, tão absurda depravação? Quem me explicará a sinistra ideia do ministro-filósofo que permitia os tratos espertos nos heresiarcas, proibia com severidades acerbas a leitura e posse de obras hostis ao Santo Ofício, mandava ao mesmo tempo publicar livros eivados de jansenismo e do racionalismo de Voltaire, e fazia queimar os livros ortodoxos que alimentavam a piedade boçal dos seus contemporâneos?

Convinha (...) trazer à luz a tenebrosa monstruosidade deste carácter incoercível e único na história!».


Camilo Castelo Branco


«O Marquês de Pombal era um tirano. E o seu inimigo era verdadeiramente, não Aristóteles, mas São Tomás de Aquino e Francisco Suarez, os dominicanos e os jesuítas, cuja doutrina condenava a autocracia e justificava o tiranicídio. Acontecia que eles eram aristotélicos, e a destituição de Aristóteles, consequentemente da Escolástica, no quadro do ensino público, era também do agrado dos publicistas franceses, ingleses e alemães, da "filosofia nórdica" segundo a tese de Orlando Vitorino».


Álvaro Ribeiro


«Insistindo sobre o carácter triádico do pensamento, Álvaro Ribeiro mostra como ele não promana apenas do trinitarismo religioso cristão nem da dialéctica triádica hegelina, mas constitui uma constante até nos pensadores que são culturalmente situados num dualismo como o de Aristóteles, num monismo como o de Platão ou num pluralismo como o de Demócrito. Mostra, por exemplo, que, no mesmo aristotelismo, a dualidade de potência e acto se completa com o terceiro termo da perfeição. E para efeitos de maior comunicabilidade, não hesita em aceitar a tríade cultural da verdade, da beleza e do bem, tríade claramente superior à que ainda hoje domina a retórica política: liberdade, igualdade e fraternidade. Seguidas destas noções, a liberdade necessariamente perde o seu carácter próprio de singularidade universal, contrário à identificação dos iguais e dos irmãos. Além disso, no domínio do pensamento, nem a índole quantitativa da igualdade, nem a mistura sentimental e intelectual da fraternidade, possuem o poder e a excelsitude da liberdade, e isso muito embora a igualdade se possa sublimar, como no aristotelismo, em justiça, e a fraternidade, como na Igreja, em bem.


Aristóteles


Seria, todavia, conveniente que se apresentasse à reflexão dos homens a tríade daqueles princípios que, sendo os de maior compromisso filosófico, são também os de maiores e mais extensas consequências: a verdade, a liberdade e a justiça».

Orlando Vitorino




O VÉU LEVANTADO


Na realidade, a Maçonaria não descansou enquanto não conseguiu expulsar de Portugal, em 1833 e 1834, os jesuítas e todas as congregações religiosas dos dois sexos. A Maçonaria via assim, nessa compulsão, a possibilidade de extirpar o nominado e nominal espírito liberticida das congregações religiosas, porquanto estas, a seu ver, se haviam convertido num instrumento de dominação e deformação do carácter civil e livre dos povos. Aliás, tudo começava no recrutamento de crianças para o noviciado aos 15 anos, em perfeita conformidade com a polémica que, desde a Monita Secreta (21) até às campanhas antijesuíticas do Marquês de Pombal, lograra alfim a supressão das tais congregações e associações religiosas em Portugal.

Sebastião José utilizou, inclusivamente, as alegadas Instruções Secretas dos Jesuítas para, no seu cruel e obsessivo fanatismo, engendrar e difundir um libelo «enviado a todos os bispos do reino de Portugal e dos seus territórios ultramarinos, com ordem real para que os Jesuítas fossem proibidos de exercer actividades pastorais nas dioceses e o povo fosse advertido contra o perigo que eles representavam para o país. Trata-se dos Erros ímpios e sediciosos que os Religiosos da Companhia de Jesus ensinaram aos Réus, que foram justiçados, e pretenderam espalhar nos Povos destes Reinos, publicados por Miguel Rodrigues em Lisboa, no ano de 1759, imediatamente a seguir à leitura da Sentença dos Távoras. Nesta Sentença, os Padres da Companhia eram implicados como mentores do atentado regicida de 3 de Setembro do ano anterior» (22).

No mais, prosseguem ainda os universitários J. Eduardo Franco e Christine Vogel: «Com base nos Monita Secreta e nos mais destacados autores e libelos da tradição portuguesa e europeia, Pombal procura construir e incutir a imagem de que a Companhia de Jesus possuía uma dimensão secreta dirigida por instruções abscônditas, cuja forma institucional visível era apenas um disfarce. Só um pequeno grupo de jesuítas sujeitos a selectiva iniciação participavam dos seus íntimos e terríveis segredos. Através desta escura organização secreta que a Ordem detinha, os Jesuítas perpetravam os mais abomináveis crimes, e engendravam o seu monstruoso projecto de dominação universal».

Consta que a primeira edição da Monita Secreta, de origem polaca, data de 1614. A sua autoria, a avaliar por certos e determinados indícios, teria sido motivada pelo desejo de vingança de um antigo jesuíta expulso da Ordem de Santo Inácio, um tal Jerónimo Zahorowski (23). Seja como for, a Monita parece constituir uma falsificação que corre a par de mais uma efabulação publicada no dealbar do século de Seiscentos, intitulada O Catecismo dos Jesuítas, de Etiènne Pasquier.

As Instruções Secretas foram sobretudo usadas e abusadas no período do chamado liberalismo português. Vieram, pois, à baila nos momentos de maior tensão e polémica religiosa, como no âmbito da segunda expulsão dos jesuítas e da extinção das Ordens Religiosas em 1834, ou ainda no decorrer da terceira expulsão aquando da revolução republicana de 1910. Tais Instruções seriam igualmente publicadas aquando do encerramento das Conferências do Casino, em 1881, ou ainda, durante as Comemorações do Centenário da Morte do Marquês de Pombal (1882), posto que realizadas sob o signo da campanha antijesuítica operada por positivistas, mações e republicanos. Logo, convém não esquecer que uma tal campanha estava direccionada para a destruição do jesuitismo, olhado na época como um instrumento de dominação universal dos homens e da sociedade em geral.






Num tal contexto, há até quem se sinta tentado em traçar um certo paralelismo entre as Instruções Secretas dos Jesuítas e os Protocolos dos Sábios de Sião (24). Mas, conquanto possamos admitir que tais extremos se toquem à conta de um projecto para a conquista do poder mundial, existem, por outro lado, diferenças substanciais que ligam sobretudo os Protocolos com os dias que correm. Ou seja: longe de perfilharmos a campanha anti-semita que atribui aos judeus a autoria dos Protocolos (25), não deixa de ser curioso e altamente perturbante o conteúdo de algumas declarações programáticas, no que mais particularmente respeita a factos, incidentes e acontecimentos em curso, quais sejam: a política reside na força e não no direito; a política nada tem de comum com a ética; o repúdio do liberalismo (26) e consequente articulação dialéctica do capitalismo industrial, financeiro, agiota e especulador com o socialismo, o comunismo e o anarquismo (27); o despoletar de uma crise económica mundial por via não só da especulação bolsista, industrial e comercial, mas também pela concentração exclusiva do ouro; taxação progressiva da propriedade, seja na compra da mesma seja na sua transmissão (herança); liberdade universal de expressão pública condicionada com base no controlo centralizado de toda a imprensa e das agências de informação; condicionalismo da edição de livros mediante exigência de um diploma a todo o editor, bibliotecário e impressor; monopólio do papel para efeitos de impressão, assegurado por cauções e impostos de selos com vista a evitar as publicações de reduzido volume (brochuras, revistas, etc.), mas tendentes a salvaguardar as publicações volumosas e dificilmente legíveis; constituição de um exército de jornalistas envolvidos numa rede de condicionalismos vários, entre os quais predominam os processos de censura desconhecidos da opinião pública, assim como os critérios de conveniência ideológica sancionados nas redacções dos jornais ou nas direcções de empresas jornalísticas (28); extinção da aristocracia fundiária e hereditária em prol de uma oligarquia financeira e plutocrática; instauração de uma «República universal» baseada no princípio abstracto da igualdade absoluta entre os homens e na comunitarização dos bens, uma vez destruída a família e destituída a transcendência enquanto princípio norteador da arquitectura social e política da sociedade humana; o despotismo invisível mas de algum modo sensível, exercido por uma organização secreta, a Franco-Maçonaria interna, distinta da sua homónima externa, manifesta e socialmente visível ao público (29); abolição do ensino livre e criação de universidades com programas de acção secretos e minuciosos; a universidade enquanto instrumento teórico subtraído ao pensamento clássico e à memória histórica fidedigna; o ensino pela imagem e a interdição de projectos de Constituição Política por via universitária; corrupção da mocidade por via das teorias naturalistas, sociológicas e pseudo-científicas; promoção de uma «linguagem oficial» em que a palavra do diplomata jamais deverá concordar com os seus actos; uso equívoco da linguagem jurídica; a nova e derradeira Constituição Política de matriz autocrática, na qual desaparecerão a liberdade de imprensa, o direito de associação e a liberdade de consciência; o governo mundial dado como intocável e infalível; a burocracia estatal e administrativa rigorosamente aplicada e cumprida a pena de Talião; o recorrente ciclo dos empréstimos externos suspensos sobre as cabeças dos governantes e dos Estados, posto que sujeitos ao peso dos juros impossíveis de pagar, além de instigadores do caos, da pobreza e da miséria entre os contribuintes perpetuamente devedores, etc.

Um outro paralelismo, bem mais apropriado e convincente, pode e deve ser traçado entre a Maçonaria e a Carbonária. Aliás, não foi por acaso que Machado Santos «sustentou, a propósito da proclamação da República Portuguesa, que "a Maçonaria tinha sido a verdadeira mãe das revoluções, porque os principais elementos do Carbonarismo estavam nela filiados"» (30). Com base numa tal relação, adianta Pinharanda Gomes:

«A Carbonária, introduzida [em 1822 ou 1823] pelo general italiano Pepe, surgiu como braço armado da Maçonaria, e as suas figuras de estilo são judaicas. Mantendo o estado de inocente e de tolerante, a Maçonaria utilizava a Carbonária como arma repressiva e coactiva. A Maçonaria nada fazia de mal; mas nada fazia para evitar o mal. Tinha as mãos lavadas, mesmo depois de as sujar.






A Carbonária – prossegue Pinharanda Gomes – apresentou um aspecto peculiar: os iniciados repartiam-se em quatro graus: rachadores, aspirantes, mestre e mestre sublime, numa estrutura paralela da maçónica. A unidade logística é constituída pelo Canteiro, composto por quatro rachadores, que apenas conhecem os três restantes, e um chefe. Quatro canteiros formam uma choça (tabernáculo?), quatro choças formam uma venda ou botica, e todas as vendas do país dependem da Venda Alta, ou Conselho da Ordem. A direcção suprema da Ordem é cometida à loja mística Jovem Portugal, cujos membros, os carbonários desconheciam. A botica fez a República, e ora se duvida que boticas e que boticários eram esses de que alguma novelística do século XIX se socorre, para descrever centros locais de cavaqueio – se a botica boticária, se a botica carbonária» (31).

A Carbonária, também conhecida por Maçonaria Florestal, fora desde logo inimiga do Papado e dos pequenos principados e ducados na Itália. A sua expansão ficou a dever-se aos oficiais italianos espalhados pelos mais variados países europeus, como Portugal, Espanha, Inglaterra e França. Em Espanha, os seus membros chamaram-se Communeros.

A 13 de Setembro de 1821, a Igreja Católica lançava, como não podia deixar de ser, a sua excomunhão sobre os carbonários e todas as organizações ou sociedades afins. Em Portugal, fora entretanto proibida por D. João VI, por decreto de Junho de 1823. Mas em 1842, o Carbonarismo reentrava em acção, posto que «a Alta Venda tinha já erguido «Barracas» em Lisboa, Coimbra e Porto. Havia três em Lisboa, «Virago», «Aljubarrota» e «Pacheco», e tinham-se enviado comissões para fazer erguer outras no Norte e no Sul do Tejo» (32).

Em 1848, instalaram-se, por sua vez, «barracas» na Figueira, Soure, Anadia e «choças em Cantanhede, Pombal, Ílhavo e Braga (33). Entre outras manifestações afins, descritas por Borges Grainha, saliente-se o facto de o Carbonarismo ter originado, no fim de 1895, a Maçonaria Académica, também conhecida «pelo nome profano de Comité Revolucionário Académico. Em 1896, Luz de Almeida, de acordo com alguns elementos da Maçonaria Académica, começou a iniciar pessoas do povo, preparando assim a transição para o Carbonarismo, que ele fundou pouco depois, pela criação da Venda Jovem em Portugal. A maior parte dos estudantes abandonaram os trabalhos revolucionários assim que a Maçonaria Académica foi transformada em Carbonarismo Português» (34).

Por conseguinte, poder-se-á ainda vislumbrar, por intermédio de Borges Grainha, a actividade revolucionária de quem, obrigado a possuir uma arma de fogo com os seus cartuchos, comprometia republicanos e mações no desacato, na insubordinação e na convergência de esforços contra a Monarquia e as Congregações Religiosas:

«O Carbonarismo estreitou igualmente as suas relações com a Maçonaria por intermédio da Loja «Montanha», fundada em 1899 pelo mesmo Luz de Almeida. Esta Loja, que começou os seus trabalhos revolucionando a Maçonaria, era constituída por elementos do carbonarismo e em pleno meio maçónico desempenhava o papel de uma sentinela vigilante, procurando republicanizar os maçons e contribuindo com todos os seus esforços para fazer eleger, em 1907, Grão-Mestre o republicano Sebastião de Magalhães Lima. Todavia, o Carbonarismo português só conseguiu obter enorme desenvolvimento quantitativo e qualificativo após o insucesso da insurreição de 28 de Janeiro de 1908.






Aproveitando habilmente a insubordinação dos descontentes, fez tais progressos que o número dos seus filiados, nas vésperas da revolução de 5 de Outubro de 1910, ultrapassava 40 mil homens espalhados por todo o País. Os iniciados pertenciam a todas as classes: médicos, advogados, professores, engenheiros, militares, oficiais de Marinha de graus elevados, funcionários públicos, negociantes, empregados, operários, etc. O Carbonarismo português encontrava-se então por todo o lado: nos ministérios, nos escritórios, nas casernas, nos barcos, nos comboios, e até na polícia. A sua acção na política foi extraordinária até à proclamação da República.

Machado Santos, no seu relatório publicado em 1911 sob o título «A Revolução Portuguesa», não esconde a influência suprema do Carbonarismo durante as duas jornadas de luta de 4 e 5 de Outubro de 1910 que fizeram irromper triunfalmente dos escombros da Monarquia a jovem República portuguesa. E, após a proclamação, o Carbonarismo continuou apesar de tudo. Luz de Almeida, seu Grão-Mestre, declarou-o em plena sessão da Câmara dos Deputados de 3 de Janeiro de 1912; mas a sua acção é absolutamente independente dos partidos, mantendo-se afastado de todos os grupos políticos e dos seus chefes» (35).

Não restam, pois, dúvidas de que a Revolução de 5 de Outubro foi não só um produto de feição republicana, mas também e, sobretudo, de origem maçónica (36). Curiosamente, já o Brasil conhecera, por via do maçonismo instilado em 1822, a proclamação da República a 25 de Novembro de 1889. Não menos estranha a essa proclamação estivera ainda o positivismo brasileiro, também ele não menos patente no modo como as leis do governo provisório encontrariam «impressionantes semelhanças com a letra e o espírito das leis do governo provisório da República Portuguesa, proclamada em 1910» (37).

A Maçonaria esteve, aliás, profunda e historicamente ligada à independência do Brasil. Contam-se hoje em dia, aproximadamente, 2 400 Lojas e cerca de 97 000 filiados no Grande Oriente do Brasil (38). É provavelmente a maior Obediência Maçónica Regular do mundo latino, não obstante as suas dissidências em 1927 e 1973.

Na bandeira do Brasil, pautada pela máxima positivista Ordem e Progresso, estão de certo modo implícitas as aspirações maçónicas de uma sociedade justa, fraterna e progressista. A combinação entre positivismo e maçonismo pode revelar, no entanto, implicações mais fundas, se tivermos sobretudo em conta o sistema da filosofia positiva de Augusto Comte. Ora, este sistema permite-nos compreender a genialidade do seu fundador, a começar pela sua análise da decomposição do sistema feudal e teológico, bem como pela subsequente necessidade de uma reorganização da sociedade com base em princípios assentes na agricultura, no comércio e na indústria moderna.

Quer dizer: Augusto Comte, pese embora apregoar a lei histórico-filosófica dos três estados (39), conseguira observar e expor, de uma forma lúcida, ora a acção promotora dos próprios reis e das monarquias na queda do antigo regime, ora a inutilidade dos princípios críticos para além da sua função positiva na destruição do sistema feudal e teológico, ora ainda os critérios teóricos indispensáveis para o quadro classificativo e coordenador das ciências positivas doravante imunes da influência supersticiosa e escolástica anterior (40). Por outras palavras, Augusto Comte conseguira demonstrar que, perante a decadência do sistema antigo, o dogma da liberdade de consciência, assim como o dogma relativo à soberania do povo, não só acabaram por se converter em princípios impróprios da reorganização política, social e económica, como também prolongaram por tempo indeterminado a arbitrariedade e a anarquia inimigas da natureza e da civilização (41). Por conseguinte, o iluminismo enquanto movimento destinado a demolir uma arquitectura orgânica em decomposição não podia, por si mesmo, promover a criação de um novo sistema de ideias gerais, uma vez que a sua função histórica se limitara a combater as ideias teológicas sob as quais se fundara o princípio do direito divino (42).









Consequentemente, é neste cenário que, a nosso ver, a Maçonaria moderna, protestante e iluminista dirige, desde o primeiro momento, uma campanha não menos demolidora contra o poder a um tempo espiritual e temporal representado pela Igreja Católica. Daí resulta que a Maçonaria tenha propiciado, sobretudo nas duas últimas centúrias, uma actividade dissolvente em matéria predominantemente religiosa, política e económica, no mínimo (43). Logo, é para nós óbvio que os seus ideais de expansão mundial jamais se concertaram numa consciência arquitectónica capaz de realizar a verdadeira revolução filosófica que não passe por uma linguagem mitológica, abstracta, fictícia e convencional como a que vemos constantemente aplicada no âmbito da sociologia internacional e das instituições e constituições nacionais.

Em Portugal, a Maçonaria torna-se, por vezes, um aparente alvo da comunicação social, quanto mais não seja quando vêm ao de cima interesses e solidariedades comprometedoras entre um número considerável de mações infiltrados nos poderes legislativo, executivo e judicial do Estado. Todavia, por mais evidente que seja a usurpação dos poderes do Estado para fins pessoais de uma «associação» supostamente secreta e com ligações a poderes e organizações internacionais afins, tudo fica, entre debates e mais debates anódinos, por apurar e responsabilizar em termos jurídicos e criminais. Em vez disso, cresce e prepondera a República maçónica e socialista cujo ideário nominalmente humanista e progressista visa sobretudo a construção de um ente colectivo e totalitário no qual a objectividade do pensamento e do sentimento dá lugar à subjectividade dos instintos primários na ordem da inverdade política, humana e religiosa.

De facto, não há mação que não deixe de perorar sobre a incompatibilidade entre a Ordem Maçónica e todo e qualquer regime ditatorial. Mas se assim é, por que razão o Grande Oriente Lusitano Unido ergueu, a 13 de Maio de 1934, uma estátua ao Marquês de Pombal no centro de Lisboa, considerando, para o efeito, tratar-se de um paladino da democracia e da tolerância religiosa? Valha-nos Deus! Como é possível tamanha falsificação da história para justificar a intolerância e o fanatismo maçónico (44) contra todas as congregações religiosas, e, para além delas, contra a Igreja Católica?


Na verdade, o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas a pontapé com vista a estatizar quer a sociedade civil quer a religiosa (12 de Janeiro de 1759); mandou, numa atmosfera de terror, tortura e interrogatório contumaz, encerrar todos os colégios e escolas sob orientação inaciana (1758); determinou o suplício, em Belém (13 de Janeiro de 1759), dos marqueses de Távora e de Alorna, do duque de Aveiro e seu criado, como ainda dos condes de Atouguia, de Óbidos e da Ribeira Grande; pôs em prática um plano sistemático de destruição da Nobreza, para a substituir por uma burguesia social e utilitária – caso dos Sobrais e dos Braamcamp; ordenou abolir e desterrar de «todas as escolas» a filosofia escolástica, acusando os jesuítas de serem criptosequazes da seita de Mafamede ou Mafoma; deu Aristóteles como abominável filósofo, além de corruptor da fé a esquecer nas lições de Coimbra (45); fez da Universidade o que ela é hoje: uma instituição sob as directrizes ideológicas do poder estatal e seus agentes infiltrados em todos os sectores públicos e privados da sociedade portuguesa (46); fomentou e concedeu privilégios a companhias monopolistas, como a Companhia do Grão Pará e Maranhão (1755), a Companhia Geral da Agricultura dos Vinhos do Alto Douro (1756), ou ainda, no mesmo ano, a Companhia da Pesca e da Baleia, mais a Companhia de Pernambuco e Paraíba (1759); liquidou, a par da ruína dos particulares, a estrutura financeira da administração pública, etc.

Em suma: a Maçonaria não é o que diz ou aparenta ser, tal como a estátua do maior tirano da história portuguesa comprova a todo o esclarecido transeunte que não se deixe embalar e enrolar pelos políticos, jornalistas e professores universitários da República maçónica triunfante.


Notas:

(21) Sobre o pressuposto modo como se recrutam os jovens na Companhia, e como os conservar, leia-se, entre outros exemplos, a última disposição do capítulo XIII das Instruções Secretas dos Jesuítas: «A fim de que os pais mais facilmente sejam condescendentes com os desejos de seus filhos de entrarem na Companhia, deve fazer-se-lhes ver a excelência do instituto da Companhia comparado com as outras ordens, a santidade e a erudição dos nossos padres, a sua reputação junto de todos, a honra e o aplauso universal que recebem dos grandes e dos pequenos. Deve ser-lhes feita uma relação dos príncipes e dos grandes que com a maior satisfação da sua alma viveram, morreram e ainda hoje vivem nesta Companhia de Jesus. Deve dar-se-lhes a conhecer o quanto é agradável a Deus que as pessoas jovens se dediquem a Ele, principalmente na Companhia de seu Filho, e quanto é bom para um homem ter suportado o jugo do Senhor desde a sua mocidade. Se os pais alegarem o motivo de os filhos serem muito novos, mostrem-lhes a facilidade do nosso instituto, que não contém nada de muito severo, excepto a observância dos três votos, e o que é mais notável é que nenhuma regra é obrigatória, nem sequer sob pena de pecado venial» (in José Eduardo Franco e Christine Vogel, Monita Secreta (Instruções Secretas dos Jesuítas), Roma Editora, 2002, p. 94).

(22) Cf. José Eduardo Franco e Christine Vogel, ob. cit., p. 31.

(23) Ob. cit., pp. 25-26. Diz-nos Pinharanda Gomes, bem a propósito, que a Monita Secreta «constituiu fonte para outras divagações, como essa que Fernando Pessoa aceitou, da existência do Oriente Feota, ou Maçonaria Jesuítica, cujo Mestre seria o Papa» (cf. A Filosofia Hebraico-Portuguesa, Lello & Irmão Editores, 1981, p. 411).

(24) José Eduardo Franco e Christine Vogel, p. 44.

(25) Autores, como Jean Lacouture, sustentam que os Protocolos foram forjados e postos a circular na Rússia pela Okhrana, a polícia czarista (cf. José Eduardo Franco e Christine Vogel, ob. cit., p. 45). Consta inclusivamente que os Protocolos foram em grande parte baseados, senão mesmo plagiados num trabalho satírico, escrito e publicado em Genebra por Maurice Joly, intitulado “O Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu” (1864). Por outro lado, há também quem defenda que o texto original no qual os Protocolos se basearam era “autêntico”, embora nada tivesse que ver com uma suposta conspiração judaica internacional (cf. Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincoln, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, Editora Nova Fronteira, 1993, p. 155).














Deste modo, os Protocolos seriam já uma forma adulterada para, por intermédio de um indivíduo sob o pseudónimo de Sergei Nilus, comprometer os membros de um grupo esotérico influente na corte imperial russa, do qual faziam parte Monsieur Philippe e o esoterista francês Papus. O plano teria fracassado a tal ponto que Nicolau II ordenara a destruição do que considerara ser uma fabricação ultrajante. Entretanto, uma cópia escapara incólume, assim originando sucessivas edições e publicações em jornais, revistas e livros que já de si contribuiriam para intensificar ainda mais a propaganda anti-semita à escala europeia e planetária.

De qualquer forma, os autores d’O Santo Graal e a Linhagem Sagrada preconizam a hipótese de os Protocolos serem o produto de «alguma organização maçónica ou sociedade secreta com orientação maçónica», para, por seu turno, sustentarem a existência de um suposto segredo que a Igreja Católica vem alegadamente guardando ao longo de dois mil anos, qual seja o da existência de uma dinastia de sangue real, mais particularmente herdeira da casa de David em virtude da união entre Jesus Cristo e Maria Madalena. Os Protocolos indiciariam, portanto, essa hipótese com base na permanência de alguns vestígios da versão original, como por exemplo o respeitante à preparação e eleição «do rei-déspota de Sião», ou do «Soberano Universal da estirpe santa de David». Enfim, uma hipótese que, a par de muitas outras ficções de teor não menos conspirativo – como a do ulterior “Código Da Vinci” –, compromete a Escritura, a Tradição e o Magistério da Igreja Católica mediante a negação do Mistério da Encarnação Crística.

(26) Não obstante este repúdio, o liberalismo também surge aqui como um instrumento habilmente dirigido contra toda e qualquer arquitectura social e política que não sirva os propósitos da futura e suprema autocracia. Trata-se, portanto, do liberalismo entendido nos estreitos limites de um constitucionalismo fautor de discórdias, desinteligência e agitações estéreis entre os partidos entrosados e enfileirados na luta pelo poder.

(27) No cenário afim, inclua-se a escravidão e os choques da vida económica, as sociedades desencantadas, frias e sem coração; a luta desenfreada pelos bens materiais, o embrutecimento por via das bebidas alcoólicas, a corrupção e os abusos do poder executivo, legislativo e judicial; a demagogia parlamentar, a proletarização das massas, dos intelectuais e dos professores; a partidocracia inimiga do povo, o encarecimento dos géneros de primeira necessidade, o enfraquecimento da opinião pública pelo emprego anestesiante e contraditório da crítica ostensiva, opiniosa e ignorante de si; a destruição das nacionalidades, das fronteiras e das diferentes moedas, o sufrágio universal estabelecido para o despotismo da maioria, a absorção da singularidade humana na barbárie uniformizadora do colectivismo e assim por diante.






(28) «Já agora, nas formas do jornalismo francês, pelo menos existe uma solidariedade franco-maçónica. Todos os órgãos da imprensa estão ligados entre si pelo segredo profissional; semelhantes aos antigos áugures, nenhum de seus membros revelará o segredo de suas informações, se não receber ordem para isso» (in Os Protocolos dos Sábios de Sião, texto completo e apostilado por Gustavo Barroso, Agência Minerva, São Paulo, 1936, Cap. XII, p. 162).

(29) Atendendo ao despotismo em causa, note-se esta passagem extraída da 5.ª declaração programática dos Protocolos: «Somente os jesuítas nos poderiam igualar neste ponto, porém nós conseguimos desacreditá-los aos olhos da plebe ignara, porque eles constituem uma organização visível, enquanto que nós operamos ocultamente por meio de nossa organização secreta» (in ob cit., pp. 116-117).

(30) Cf. M. B. Grainha, ob. cit, p. 121.

(31) Pinharanda Gomes, A Filosofia Hebraico-Portuguesa, p. 413.

(32) Cf. M. B. Grainha, ob. cit., p. 123.

(33) Ob. cit., p. 124.

(34) Ob. cit., p. 125.

(35) Ob. cit., pp. 125-126.

(36) «Pode-se, portanto, assegurar que a Revolução, sendo obra do Partido Republicano, não foi menos gerada pela Maçonaria portuguesa. (…) a maior parte dos homens mais influentes na formação e no triunfo do Partido Republicano passaram por Lojas maçónicas. O mesmo aconteceu com os iniciadores do movimento socialista. João Bonança e José Fontana fizeram parte de uma Loja da qual Silveira da Mota era o Venerável e cujas reuniões decorriam atrás do Teatro de D. Maria (Teatro Nacional). Nobre França pertencia à Loja «Comércio e Indústria». Antero de Quental foi filiado na sociedade secreta «O Raio» em Coimbra» (in M. B. Grainha, ob. cit., pp. 142-143).

(37) Cf. Álvaro Ribeiro, «Augusto Comte», in As Portas dos Conhecimento, Dispersos Escolhidos, IAC, 1987, p. 356.

(38) O GOB começou por se instalar, em 1843, no Palácio Maçónico do Lavradio, no Rio de Janeiro. Em 1960, mudar-se-ia para Brasília, onde, em 1978, se instalaria no Palácio Maçónico “Jair de Assis Ribeiro”.

(39) Com razão escreveu Álvaro Ribeiro que ser «positivista não significa aceitar um sistema filosófico, mas adoptar um método científico, manter uma atitude intelectualista, deixar de discutir questões especulativas» (in Os Positivistas, Lisboa, 1951, p. 18). Nesse sentido, regista factores relevantes, entre os quais o facto do sistema de Augusto Comte contradizer «as afirmações do cogitacionismo, do livre exame e do iluminismo que abala as colunas da filosofia moderna e põe em perigo o prestígio do espírito francês. A negação do valor da introspecção e, portanto, da psicologia (…); a redução da importância das matemáticas que rebaixa à linha das ciências empíricas (…)» (in ob. cit., p. 17). E de facto assim é, conforme resulta deste interessante quão sugestivo trecho de Augusto Comte: «(…) imaginaram nestes últimos tempos, distinguir, por uma subtileza muito singular, duas espécies de observações de igual importância, uma exterior e outra interior, a última das quais é unicamente destinada ao estudo dos fenómenos intelectuais.




Não é agora ocasião de entrar na discussão especial deste sofisma fundamental. Devo limitar-me a indicar a principal consideração que prova claramente que esta pretendida contemplação directa do espírito por si mesmo é uma pura ilusão.

Acreditava-se ainda há pouco tempo ter explicado a visão, dizendo que a acção luminosa dos corpos determina sobre a retina quadros representativos das formas e das cores exteriores. A isto têm objectado os fisiologistas, com razão, que, se era como imagens que actuavam as impressões luminosas, seria preciso outro olho para as olhar. Não ocorre isso ainda com mais razão no caso presente?

É sensível, com efeito, que, por uma necessidade invencível, o espírito humano pode observar directamente todos os fenómenos, excepto os próprios.

Pois por quem seria feita a observação?

Concebe-se, relativamente aos fenómenos morais, que o homem possa observar-se a si mesmo, sob o aspecto das paixões que o animam, por esta razão anatómica: que os órgãos que são a sua sede são distintos dos destinados às funções observadoras.

Ainda que cada um tenha feito sobre si tais observações, é evidente que elas nunca teriam grande importância científica; o melhor meio de conhecer as paixões será sempre observá-las de fora, porque todo o estado de paixão muito pronunciado, isto é, precisamente aquele que seria mais essencial examinar, é necessariamente incompatível com o estado de observação.

Mas, quanto a observar da mesma maneira os fenómenos intelectuais enquanto se produzam há manifesta impossibilidade. O indivíduo pensante não pode cindir-se em dois, um dos quais raciocinaria enquanto o outro veria raciocinar. Sendo neste caso idênticos o órgão observado e o órgão observador, como poderia ter lugar a observação? (in Importância da Filosofia Positiva, Editorial Inquérito, Lisboa, pp. 48-49).

(40) Sobre a importância da revolução no quadro classificativo e coordenador das ciências positivas, diz-nos Augusto Comte, em termos deveras significativos, que ela «se realiza constantemente e cada vez mais, particularmente desde os trabalhos de Aristóteles e da escola de Alexandria e em seguida desde a introdução das ciências naturais na Europa Ocidental pelos Árabes» (in ob. cit., pp. 32-33).

(41) Dadas as palavras natureza e civilização, esclarece Álvaro Ribeiro: «A lei histórico-filosófica dos três estados, a principal lei das ciências histórico-filosóficas, aplicada a cada uma das ciências positivas, é o resultado luminoso de uma profunda erudição. Ao expô-la maravilhosamente, e ao pretender demonstrá-la, Augusto Comte recorre a dois termos de metafísica, quer dizer, a realidades que de algum modo transcendem a observação e a experimentação, e que não cabem nos quadros de nenhuma terminologia científica, que são as palavras natureza e civilização. Eis porque um escritor tão claro na exposição científica, ou positiva, oferece sérias e desculpáveis dificuldades à intelecção pura do seu sistema filosófico» (Augusto Comte, in ob. cit., p. 348).

(42) Cf. Augusto Comte, Reorganizar a Sociedade, Guimarães Editores, 1990, pp. 31-49.






(43) Ainda assim, muitas têm sido as mais variadas personalidades ligadas à Maçonaria, nomeadamente a de expressão Regular, tais como, por exemplo: Salvador Allende, Louis Armstrong, Elias Ashmole, Ludwig van Beethoven, Ingmar Bergman, Simon Bolívar, Sir Winston Churchill, Nat “King” Cole, Conde Giuseppe Balsamo Cagliostro, David Crockett, D. Pedro IV de Portugal, William Harrison “Jack”, Sir Arthur Conan Doyle, Alexandre Dumas, Duque de Wellington, Eduardo VII de Inglaterra, Gerald R. Ford, Henry Ford, Benjamin Franklin, Frederico II da Prússia, Clark Gable, Giuseppe Garibaldi, John Glenn, John Wolfgang von Goethe, Oliver Hardy, Claude-Adrien Helvetius, Johann Gottfried Herder, John Edgar Hoover, Harry Houdini, Lyndon B. Johnson, Henry Knox, Gen. Douglas MacArthur, Marquês Antoine Condorcet, Glenn Miller, Wolfgang Amadeus Mozart, Pedro I da Rússia, Albert Pike, Alexander Pope, Cecil Rhodes, “Sugar Ray” Robison, Roy Rogers, Franklin Delano Roosevelt, Theodore Roosevelt, Nathan Meyer Rothshild, Louis Claude de Saint-Martin, Sir Walter Scott, Peter Sellers, Henri Stendhal, Sir Arthur Seymour, Leon Tolstói, Harry S. Truman, Marie François Voltaire, George Washington, John Wayne, Paul Whiteman, Oscar Wilde, etc.

(44) Paralelamente a este fanatismo impiedoso, também não existe mação que, por contradição dialéctica, não se considere a si e a seus congéneres vítimas de perseguição. Trata-se de uma retórica gasta, para não dizer uma tolice vazia própria para enganar os parvos e os idiotas tanto úteis como inúteis.

(45) Sem embargo de ter sido um mação em muitos aspectos desiludido e desenganado, Álvaro Ribeiro sabia o que poucos Portugueses ainda sabem: «A expulsão da Companhia de Jesus foi seguida da eliminação de Aristóteles, a eliminação de Aristóteles teve como consequência a refutação da Filosofia, e o ensino superior deixou de ser universitário» («Filosofia Escolástica e Dedução Cronológica», in As Portas do Conhecimento, pp. 245-246). Aliás, Pinharanda Gomes desenvolve ainda mais este ponto praticamente desatendido na cultura portuguesa: «O núcleo permanente que desenvolvera um aristotelismo fundamental foi extinto e, com isso, o nosso ensino filosófico ficou sujeito às acidentais correntes de opinião, invertebrado quanto a sistema, o que explica a adesão ao positivismo porque, depois do aristotelismo, era esse o primeiro pensamento sistemático que se oferecia a uma tradição desnorteada. Com efeito, a partir de meados do século XVIII, o pensamento português entrou num processo de fracturas sucessivas e de inquirições frustradas, sempre na esperança do sistema orgânico, a cuja colaboração se candidataram quase todos os nossos filósofos do século XIX, Antero de Quental e Oliveira Martins incluídos. Um apelo aristotélico repetiu-se no princípio do século XIX, no Rio de Janeiro, quando, para introduzir o seu curso de filosofia, Silvestre Pinheiro Ferreira achou necessário retomar a iniciação das Categorias, que traduziu do grego (1814). A modéstia do livrinho e a sua discutível apresentação não facilitam o justo avaliamento deste gesto de Silvestre Pinheiro Ferreira, ao propor Aristóteles como o primeiro autor a ser incorporado em uma biblioteca filosófica. Pinheiro Ferreira sentia não ser possível a iniciação sem a passagem pela isagoge categórica, à qual dedicou algumas das Prelecções.

O último quartel do século XIX reaviva outro apelo, mediante a restauração do tomismo. Na condição portuguesa, desde o século XVI, o tomismo é conviva do aristotelismo, de tal modo que, calando Tomás emudece Aristóteles. A encíclica Aeterni Patris (1879) em que Leão XIII propõe a restauração do tomismo, orienta os espíritos para a redescoberta de Aristóteles, mas o redescobrimento não se efectuou, maugrado o prestígio que obteve o compêndio de filosofia de Tiago Sinibaldi. O aristotelismo colegial extinto, a cultura filosófica vive de um aristotelismo autoral, próprio de um ou de outro escritor, que não tem dinâmica de continuidade transmissiva. A modernidade apresenta posições variadas, que vão desde um não aristotelismo (Leonardo Coimbra) a um antiaristotelismo (Fernando Pessoa) com passagem pelo neo-aristotelismo de Álvaro Ribeiro. Discípulo de Leonardo, mas pensador lógico e racionalista, Álvaro Ribeiro descobriu em Aristóteles o mestre da tradição portuguesa da arte de pensar. Toda a sua obra de propedêutica se ordena em torno dos conceitos lógicos de Aristóteles, que adequa ao pensamento português» (in Dicionário de Filosofia Portuguesa, Publicações Dom Quixote, 1987, pp. 34-35).

(46) Reduziu assim o magistério ao ministério, na medida em que se consagrou a total e constrangedora dependência do ensino ao poder político, conforme vem estipulado nas directrizes pedagógicas impostas aos professores pelo alvará de 28 de Junho de 1759, porquanto impregnadas de carácter obrigatório, policial e intimidatório.







3 comentários:

  1. O seu título lembrou-me o do "Véu Levantado", de Manuel Maia Pinto, autor que interveio na polémica da proibição das sociedades secretas em 1935. Foi uma das poucas intervenções que Pessoa tomou a sério, e por bons motivos. Maia Pinto, ex-mação, era homem extremamente culto (foi o primeiro tradutor do Timeu para português)e sabia do que falava. Tem outras obras fundamentais sobre a Maçonaria, para além daquela. Não quererá o Bruno recordá-lo aqui?

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  2. Queria dizer, a propósito do título de Maia Pinto "Viúva Sem Véu".
    As outras obras que tinha em mente, e apareceram nos princípios de 40, não são de facto dele mas, sim, do padre Amadeu de Vasconcelos, que as assinou com o nome "Lusol". Os títulos são expressivos : "Fim da Civilização Ocidental e Nascimento da Civilização Ecuménica"; "A Idade Maçónica".

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  3. Na realidade, o "Véu Levantado" de Manuel Maia Pinto sugeriu, digamos assim, o título do meu texto. Aliás, num outro texto de minha autoria - «A Maçonaria em Portugal» - fiz alusão a Maia Pinto na sua acusação a Fernando Pessoa por má informação a respeito da Ordem Maçónica. Este texto encontra-se no "Liceu".

    Quanto ao padre e jornalista Amadeu de Vasconcelos, que além de ter usado o supracitado pseudónimo, também usou o de "Mariotte", existe um título ainda mais expressivo: «Cidade Invencível», de 1951.

    Mas o mais importante é ainda compreender o que constitui realmente o lado oculto e invisível da Maçonaria, porquanto implicado na negação da Encarnação de Cristo propriamente dita. Muitos mações considerarão, porventura, absurda uma tal afirmação. Uma tal atitude pode, inclusivamente, manifestar-se no trecho que se segue:

    «Efectivamente, o abade Barruel acusa os «sofistas» e os Maçons de se prestarem mutuamente socorro, constituindo «uma mesma conspiração contra todos os altares de Cristo e todos os tronos de reis». Acusa ainda a Maçonaria de ter feito de Jesus o destruidor da unidade de Deus, inimigo de Jeová, ao ver em Jesus apenas um simples judeu crucificado pelos seus crimes.

    A Maçonaria seria também eminentemente conspiradora, tendo as lojas adoptado os «mistérios anti-religiosos da Kabbala ou dos cavaleiros escoceses». Considera, por outro lado, Manès como o fundador dos mistérios maçónicos, pelo que se torna legítimo, na sua concepção, aproximar o Maniqueísmo da Maçonaria. «Os Filhos da Viúva» seriam, portanto, os discípulos de Manès.

    No entanto, Barruel tem o cuidado de distinguir os Maçons ingleses, «honestos, excelentes cidadãos», dos outros. «O Governo e todo o Cristianismo estariam há muito tempo perdidos na Inglaterra se se pudesse supor os franco-maçons iniciados nos últimos mistérios da seita» - porque a sua tese é precisamente a de que, no interior da Ordem, existiriam estranhos segredos (cá temos outra vez a questão do segredo iniciático sujeito a especulações) reservados aos altos graus, em que a Liberdade e a Igualdade, por exemplo, teriam sentidos diferentes...» (in A. C. Carvalho, «Para a História da Maçonaria em Portugal -1913-1935»).

    Entretanto, fica uma pista aliciante: Nicholas Roerich, nem mais nem menos o líder espiritual russo, autor de "Shambhala", e a quem se deve a colocação, em 1935, do Grande Selo dos Estados Unidos na nota de 1 dólar.

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