quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O véu levantado (i)

Escrito por Miguel Bruno Duarte








«Todo o maçon verdadeiro é um ditador nato».

(Constituição do Grande Oriente de Paris).



«A obra da Revolução portuguesa é devida à Maçonaria exclusivamente».

Machado Santos



«Pode-se, portanto, assegurar que a Revolução, sendo obra do Partido Republicano, não foi menos gerada pela Maçonaria portuguesa».

Manuel Borges Grainha



«A monarquia havia abusado das ditaduras; os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes, e nunca as submetendo a cortes constituintes, ou a qualquer espécie de cortes. A lei do divórcio, as leis da família, a lei de separação da Igreja do Estado – todas foram decretos ditatoriais, todas permanecem hoje, e ainda, decretos ditatoriais».

Fernando Pessoa



«Os direitos humanos, em que o maçonismo põe maior esperança, só serão direitos humanos se não forem, nem menores, nem maiores, do que os mandamentos divinos».

Pinharanda Gomes







O VÉU LEVANTADO


Não obstante a existência de diferentes Potências e Obediências Maçónicas (1) nos dias que correm, subsiste, por assim dizer, uma retórica comum que as permite identificar na forma como se apresentam ao mundo profano: a) proíbem no seu seio toda a discussão política e religiosa em nome da aproximação entre os homens; b) promovem a maior liberdade de coração, de consciência e de razão ao nível de cada membro individualmente considerado – condição, aliás, indispensável para o consequente exercício da cidadania e do comportamento cívico na sociedade local, nacional e mundial; c) prescrevem e garantem a protecção de todos os Irmãos nas mais diversas necessidades, circunstâncias e incertezas da vida; d) cultivam a submissão às leis e o respeito pelas autoridades constituídas; e) integram-se ou aspiram integrar-se numa sociedade livre e democrática; f) exigem dos seus membros a preservação incondicional e absoluta do segredo maçónico obtido por juramento uníssono e inviolável; g) não planeiam actos, acções e coisas ilegais sob pena de quebrarem os princípios, regras, regulamentos e constituições do «povo maçónico»; h) impõem a prática exacta e escrupulosa dos ritos e do simbolismo como meios de acesso ao conhecimento filosófico e espiritual de todos os membros constituintes; i) visam a construção de um Homem novo e de uma Sociedade nova; j) lutam – sob o signo do anti-dogmatismo e do livre-pensamento – contra toda a forma de tirania e de ignorância, etc., etc.

Estamos, pois, perante um panorama maçónico que nas suas múltiplas facetas, máscaras e inclinações decorre de um processo histórico cuja formação – consoante alegam e asseveram os mais variados historiadores e especialistas – teve o seu ponto de partida na criação da Grande Loja de Londres, em 1717 (2). Ora, tais historiadores e especialistas – muitos deles mações – sustentam precisamente que a Grande Loja de Londres marca o começo da Maçonaria moderna, ou, se quisermos, de uma Maçonaria especulativa doravante avessa à obrigação de fidelidade «a Deus, à Santa Igreja e ao Rei» (3). Eis assim a configuração de uma Maçonaria de tendência protestante, e, como tal, herdeira de um «iluminismo» cada vez mais apostado na beneficência, no humanismo e na política de feição materialista ou cientista.

Consta que, a par da Grande Loja de Londres, existia também a Grande Loja dos Antigos ou de York, igualmente presente na Escócia e na Irlanda. Segue-se que essas duas Grandes Lojas fundir-se-iam em 1813, na Grande Loja Unida de Inglaterra, cuja expansão não só atingiria a França, a Alemanha e os Países Baixos, como também e, sobretudo, o Novo Mundo, donde, qual embrião, proviriam as futuras Grandes Lojas dos Estados Unidos da América. Além disso, uma tal Maçonaria exigia «a crença numa ideia de divindade» (4), fosse ela qual fosse, conforme atesta José Manuel Anes, pretérito Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal/G.L.R.P. (5).



José Manuel Anes, presidente da "secreta" OSCOT (2010-2011).




Entretanto, na segunda metade do século XIX, surgiria ainda na França (1877) e na Bélgica (1872) a chamada Maçonaria “irregular” ou “liberal”, pelo facto de passar a aceitar agnósticos e ateus. É, porventura, nesta linha que hoje podemos e devemos considerar o Grande Oriente Lusitano (GOL), visto ter abandonado no século passado os princípios da Maçonaria consignados nos Landmarks e «Antigos Deveres» supostamente seguidos por toda a Maçonaria Regular. Sobre esta cisão, diferença ou o que se lhe queira chamar, diz-nos António Arnaut: «Deve, porém, dizer-se que a Maçonaria Regular, Tradicional ou de Via Sagrada, por oposição ao ramo Liberal ou Laico, impõe a crença em Deus e na imortalidade da alma, excluindo também as mulheres. No entender de alguns Maçons este facto viola os princípios maçónicos e constitucionais de igualdade (art. 13º da Constituição Portuguesa). Ao manter uma velha tradição de 300 anos, que teima em não adequar aos valores ético-humanistas do nosso tempo, o ramo tradicional ou anglo-saxónico exclui da dignidade maçónica três quartos da humanidade» (6).

Todavia, a Maçonaria Regular, se bem que tenda a apresentar-se como uma fraternidade iniciática que tem por fundamento tradicional a crença e a veneração no Grande Arquitecto do Universo, considera-se à margem de toda e qualquer religião, na medida em que, pelo menos nominalmente, não privilegia nem é contra nenhuma confissão ou instituição religiosa no todo ou em parte. Aqui transparece, sem dúvida, uma espécie de relativismo deísta (7) impregnado de uma argumentação especiosa relativa à confissão católica:

«A Maçonaria Regular não é uma religião, não prega a salvação. Todos os seus membros devem crer num Criador; mas cada um professa a religião e segue o caminho que entende ser-lhe mais adequado. O trabalho de aperfeiçoamento individual propiciado pela Maçonaria Regular, quando bem sucedido, resulta também num melhor crente, num praticante mais convicto da sua religião. Assim, um maçon regular que professe a religião católica provavelmente será cada vez mais um católico melhor. E o mesmo deverá suceder com todos aqueles que são crentes mas não se enquadram em nenhuma religião institucionalizada. Portanto, da parte da Maçonaria Regular a relação com a Igreja Católica, tal como com as estruturas agregadoras das demais profissões religiosas, pauta-se pela total consideração e respeito pelo múnus prosseguido pela instituição religiosa, salvaguardando-se a independência mútua das respectivas organizações e os diferentes e inconfundíveis campos de actuação de cada uma» (8).

No fundo, estamos perante uma «religião» que, à laia de uma irmandade universal, se arroga do privilégio, do direito ou da capacidade de «unir» todos os homens segundo os ditames de uma pureza ética e intelectual integérrima. Mais: todos os crentes, participem ou não de confissões religiosas institucionalizadas, passam a ser susceptíveis de ser aperfeiçoados e melhorados com base nessa pureza tão enganosa quão vazia, utópica e flagrantemente absurda. Nisto, é óbvio que a Igreja Católica tenha, desde a primeira hora, ligado um tão manifesto perigo à destruição de uma arquitectura social e política que, assente numa valência de ordem sacramental, filosófica e teológica, permitia prever as consequências corrosivas e dissolventes da trilogia maçónica Liberdade/Igualdade/Fraternidade.

Cúpula da Basílica de São Pedro (Vaticano).




A Igreja Católica, pelo contrário, assumia a tríade teologal da Fé, da Esperança e da Caridade. Mostrava, assim, estar ainda consciente dos efeitos perniciosos da concepção laico-iluminista no plano inclinado do ateísmo e do anti-congreganismo. Deste modo se explica que a Igreja Católica, Romana e Apostólica tenha mantido até hoje a condenação formal e canónica de toda e qualquer organização maçónica, a fim de se precaver, um tanto ambiguamente, perante afirmações do tipo:

«O Código do Direito Canónico já não explicita que a condição de Maçon acarreta imediatamente a sua excomunhão, não se seguindo, porém, que ele possa considerar-se em estado de graça.

A Igreja Católica é uma Instituição inteligentíssima e a Maçonaria Regular tem todo o tempo do mundo» (9).

Pois tem. Nós sabemo-lo. Aliás, caminha no mesmo sentido a subtileza não menos interessante do mação António Carlos Carvalho, a saber:

«Em 1983 entrou em vigor um novo código de Direito Canónico na Igreja Católica, o qual introduziu uma subtileza interessante: doravante, só haverá sanções contra os fiéis que se liguem a sociedades que actuem contra a Igreja Católica ou seja, admitem-se implicitamente as filiações na Maçonaria regular» (10).

Entretanto, esclarece-nos Pinharanda Gomes: «Refira-se que, ainda no ano da promulgação do novo Codex Iuris Canonici, os pastores foram confrontados com situações de fiéis que precisaram de novo esclarecimento pontual: se lhes seria lícita a inscrição nas lojas. João Paulo II, em carta à Sagrada Congregação da Doutrina da Fé (26.11.1983) exara uma condenação formal e canónica de todos os ramos maçónicos, regulares e irregulares, pondo cobro às exegeses a que o cânone de 1374 esteve durante alguns meses sujeito» (11).

Da incompatibilidade espiritual entre a Igreja Católica e a Maçonaria, note-se ainda a pertinente retrospectiva traçada por Pinharanda Gomes:

«O Código de Direito Canónico (1917) fixou a condenação da pertença dos fiéis (e apenas dos fiéis) às sociedades anti-Igreja, tendo-se entendido que os cânones 684, 2335 e 2336 os interditam da pertença às Maçonarias, sejam elas regulares ou irregulares. O cânone 2335 tem o seguinte clausulado: "Aqueles que se inscrevem na seita maçónica, ou em outras associações do mesmo género, contrárias à Igreja, ou às legítimas autoridades civis, incorrem, por esse facto, em excomunhão simplesmente reservada à Sé Apostólica", pelo que a excomunhão é simpliciter, do foro pontifício. No decurso dos anos surgiram dúvidas acerca do cânone 2335, pelo que, em documento de 19 de Janeiro de 1974, quando já se encontrava em preparação o novo Código, a Santa Sé esclareceu que o Cânone apenas abrange os católicos inscritos em associações que conspirem contra a Igreja, pelo que a literal referência à Maçonaria é suavizada. Neste contexto assume realce a obra enciclopédica do Padre F. Ferrer Benimeli, Masoneria, Iglesia y ilustración (4 volumes, 1975-1977) que efectua uma abordagem, que mais imparcial seria impossível para um fiel, ainda por cima sacerdote e jesuíta, abordagem essa cujas conclusões, a estarem baseadas na certeza da verdade, sem mácula de fingimento das fontes, facilitou um novo clima de conversação. (…) Foi no clima pós-conciliar que, mais uma vez, na Alemanha se estabeleceu um diálogo oficial entre a Igreja Católica e a Maçonaria, com a participação da Central Evangélica. O diálogo arrastou-se durante seis anos entre 1974 e 1980. As conversações com as "Grandes Lojas Unidas" decorreram de modo cordial, tendo-se procedido ao debate sobre os três primeiros graus. Isto é: para saber como doutrinar quanto à Maçonaria, os bispos alemães procuraram informar-se. A conclusão foi menos calorosa, já que, posta face ao relativismo, ao deísmo e à negação da possibilidade do conhecimento objectivo da verdade, o diálogo chegou à definição de um corpo de razões de incompatibilidade. Determinação final: "Se é verdade que a Maçonaria poderá ter sofrido, como consequência da perseguição na era nacional-socialista, uma transformação no sentido duma maior abertura face a outros grupos sociais, certo é também que permaneceu totalmente igual na sua mentalidade, nas suas convicções fundamentais e no seu trabalho de templo. As oposições que demonstrámos existirem tocam os fundamentos da existência cristã. Os exames pormenorizados dos rituais e espiritualidade maçónica tornam evidente o seguinte: é impossível pertencer-se, simultaneamente, à Igreja Católica e à Maçonaria"» (12).





Não restam, pois, dúvidas de que, após a publicação da Constituição Apostólica In Eminenti, do Papa Clemente XII, uma guerra aberta, por vezes com contornos de vida ou de morte (13), rebentara entre a Igreja Católica e a Maçonaria moderna. Num tal contexto, a militância ideológica do poder maçónico não fora decerto inocente, porquanto clara e frontalmente adversa à dignidade dos valores, dogmas e sacramentos cristãos, quando não acrescida da sua não menor hostilidade para com os deveres sagrados do ensino religioso. Por seu turno, a Igreja também não fora aqui totalmente inocente, se, para o efeito, considerarmos o seu clericalismo na política e a sua intromissão censória no conjunto das instituições colegiais e universitárias.

Ainda assim, é um facto incontornável de que a absorção civilista dos valores religiosos constituía um permanente objectivo da seita maçónica doravante infiltrada nas universidades, cátedras e escolas do tempo. Nesse sentido, o testemunho do Papa Leão XII, consignado na Encíclica Quo Graviora, de 13 de Março de 1825, é bastante incisivo na matéria em questão:

«Entre as sociedades secretas deve-se mencionar particularmente a que se chama Universitária porque tem a sua sede e o seu estabelecimento em várias Universidades, onde os jovens são guiados por professores que, longe de os instruírem, os pervertem, iniciando-os nos mistérios desta sociedade, que se podem chamar mistérios da iniquidade, preparando-os para todos os crimes».

Por seu turno, Pio VIII, na sua Encíclica Traditi, de 21 de Maio de 1829, prossegue nos seguintes termos:

«Nós resolvemos assinalar-vos principalmente, entre todas estas sociedades secretas, uma constituída há pouco tempo, que tem por fim a corrupção da juventude que segue os cursos dos Ginásios e dos Liceus. Tendo a convicção do poder das palavras dos professores sobre o coração e o espírito dos alunos, trata-se de dar à juventude mestres depravados que os conduzem para os caminhos de Baal, por doutrinas que não são segundo Deus».

E o Papa Gregório XVI, na sua Encíclica Mirari, de 15 de Agosto de 1832, alerta ainda o mundo católico no âmbito da sua cruzada anti-maçónica:

«A autoridade divina da Igreja é atacada, os seus direitos aniquilados, é sujeita a condições terrestres, reduzida a uma escravatura vergonhosa e entregue, por uma profunda injustiça, ao ódio dos povos. A obediência devida aos bispos é infringida e os seus direitos são calcados aos pés».

A primeira Maçonaria importada em Portugal parece ter sido a de expressão inglesa. Borges Grainha indica, inclusive, que o seu introdutor foi um escocês de nome Gordon (14). Logo, por consequência da já referida bula In Eminenti (1738), na qual o Papa Clemente XII condenou a Maçonaria, a Inquisição agiu prontamente num contexto dominado por duas Lojas, uma composta por católicos e outra por protestantes.



Certo é que, nesta época, a Inquisição ainda mantinha uma considerável eficácia para se opor ao maçonismo inglês, coisa, aliás, bastante manifesta na forma como impediu a acção subversiva e anti-papista de «um eficaz agente da Maçonaria protestante», John Coustos. Uma tal condição clandestina está pelo menos conforme às informações fornecidas por Pierre Chevalier em Les Ducs sous Acacia e no Dictionnaire Universel de la Franc-Maçonnerie.

No entanto, entrando em cena o Marquês de Pombal, o caso mudaria de figura. De facto, até à morte de D. José em 1777, ou até à entrada de Diogo Inácio de Pina Manique para a Intendência de Polícia (1780), a Maçonaria gozara de boas e favoráveis condições enquanto instrumento dissuasor do domínio eclesiástico. Porém, durante os seus vinte e cinco anos de obstinada perseguição aos Liberi Muratores ou Franco-Mações, Pina Manique – que já no tempo de Sebastião José se fizera notar em várias comissões de serviço, entre elas a do célebre assalto à Trafaria por «ordem lacónica» do Marquês (15) – mostraria invulgar dureza e desembaraço na prevenção, aprisionamento e punição de todos os contrabandistas, criminosos e vagabundos no reinado de D. Maria I (16).

No que toca ao caso particular dos Franco-Mações, é «ele próprio [Pina Manique] quem o confessa num documento oficial dirigido ao Grão-Mestre da Casa Real, a 8 de Agosto de 1799:

"Sempre rejeitei todos os clubes e todas as sociedades públicas particulares que não podiam apresentar o estilo aprovativo do Governo…

A ordem e a sociedade dos franco-maçons foram sempre objecto de um interesse especial… Os principais propagandistas das doutrinas do século dissimulam-se aí: a sua linguagem, os seus discursos e os seus raciocínios, que fizeram a guerra de opinião destes tempos infelizes, são seguramente a ciência das Lojas… Desde 1788 combati com vigor o estabelecimento, tentado várias vezes e sempre vindo de França, dos franco-maçons neste reino"» (17).

Já sob o consulado do Marquês de Pombal, a Maçonaria entrara em Portugal por via de vários estrangeiros da milícia e da indústria oriundos de países protestantes. Oficiais e soldados suíços chegaram a formar regimentos às ordens da Coroa portuguesa, entre os quais existiam alguns mações. Mais: o Conde de Lippe, que servira como general no exército britânico, fora não só mação e príncipe de um pequeno Estado da Alemanha, como também oficialmente convidado a comandar e a instruir o exército português em 1762.

Com a entrada das tropas francesas em Portugal, entraram igualmente muitos mações na qualidade de oficiais do exército invasor. Borges Grainha assevera mesmo que Junot era pedreiro-livre, assim como o próprio Napoleão (18). Daí as homenagens, por parte de uma delegação maçónica (19), dirigidas ao general francês, que as acolhera de braços abertos até ao dia em que, recusada a sua eleição para Grão–Mestre do Grande Oriente Lusitano, ordenou insistentemente a perseguição dos respectivos membros.



Napoleão Bonaparte




Sem embargo desta perseguição, levada a cabo pela Inquisição e pela Intendência Geral de Polícia, a presença da Maçonaria era já de si um facto consumado, ainda que por vezes remetido ao silêncio e à clandestinidade. Num período que vai de finais do século XVIII até à revolução liberal de 1820, poder-se-á verificar um considerável levantamento de colunas, tal qual importa registar em termos meramente genéricos (20): Loja Regeneração Maçónica Lusitana, fundada em 1797 e suspensa da sua actividade em 1808/1809, em 1810, 1813 e em 1817 e 1820; Loja Virtude de Lisboa e Loja União, fundadas em 1798 – ambas abateram as suas colunas em 1810, assim como suspenderam de novo os seus trabalhos após o suplício de Gomes Freire de Andrade; «Loja Fidelidade, fundada nos primeiros anos do século XIX que se extinguiu em 1817, tendo também conhecido um interregno da sua actividade entre 1810 e 1814, o mesmo tendo acontecido com a Loja Beneficência, fundada em 1806»; Loja Segurança, «que levantou colunas em 1813, trabalhando inicialmente independente do Grande Oriente, vindo no entanto a suspender os seus trabalhos em 1817»; Loja Segurança Regeneradora, «Loja que, após o Grande Oriente Lusitano ter sido restaurado em 1820, viria a receber o n.º 6 extinguindo-se em 1823»; «Loja Liberalidade, em Elvas, provavelmente desaparecida em 1823 e a Loja Sapiência, em Coimbra, extinta antes de 1820».


Notas:

(1) Por Obediências maçónicas entenda-se as supostas entidades autónomas, regulares e soberanas – tais como Grande Oriente, Grande Loja ou Ordem – que congregam as células ou as organizações de base (“Lojas Simbólicas”) onde se reúnem e trabalham os mações.

(2) Esta Loja, segundo Manuel Guerra, em A Trama Maçónica (Princípia, 2012, p. 43), teve origem na federação de quatro lojas londrinas, chamadas The Goose and Gridiron («O Ganso e a Grelha»), The Crown («a Coroa»), The Apple Tree («A Macieira»), The Rummer and Grapes («O Cálice e as Uvas»).

(3) Esta última expressão constitui, nas palavras de René Guénon, «a marca incontestável da origem católica da Maçonaria» (cf. António Carlos Carvalho, Para a Histórica da Maçonaria em Portugal (1913-1935), Vega, 1993, prefácio da 2.ª Edição, pp. 66-67). No entanto, adianta Manuel Guerra sobre a complexidade do tema em questão: «Na Inglaterra e na Escócia (Grã-Bretanha após a reunião num único Estado em 1707), as lojas da maçonaria operativa deviam ser anglicanas, embora com muitos resíduos católicos, tal como o próprio anglicanismo; ou seja, o berço maçónico deixou de ser estritamente católico cerca de dois séculos antes do nascimento da maçonaria especulativa…» (in ob. cit., pp. 42-43).

(4) Essa mesma crença constitui hoje apanágio da dita Maçonaria Regular. Neste sentido, leia-se o seguinte: «A regularidade maçónica assenta, pois, na crença do Grande Arquitecto do Universo (G.A.D.U.) como princípio superior divino ou espiritual (Supreme Being) a qual pode envolver a sua manifestação revelada através de uma religião, ou através de uma espiritualidade não especificamente incluída numa prática religiosa. O maçon regular não é necessariamente um seguidor de uma religião específica, mas tem de ser crente em Deus (G.A.D.U.)» (in Maçonaria Regular, Diário de Bordo, 1.ª Edição, 2010, p. 44). Leia-se ademais que a «Grande Loja Legal de Portugal/GLRP é desde o seu começo [1996] a única obediência portuguesa reconhecida pela totalidade deste universo maçónico regular que constitui mais de 80% da Maçonaria Universal» (in ob. cit., p. 45). Enfim, registe-se ainda que, em 2010, o número de mações recrutados pela Grande Loja de Portugal/GLRP rondava, segundo o então Grão-Mestre Mário Martin Guia, os «1.300 distribuídos por cerca de 70 Lojas espalhadas praticamente por todo o país» (in ob. cit., p. 30).

(5) Cf. ob. cit., p. 43.

(6) Cf. aqui. Pese embora a explícita referência ao princípio de igualdade, note-se, curiosamente, como o autor sugere ou dá azo a uma implícita correspondência entre os princípios maçónicos e os princípios constitucionais da República Portuguesa. Seja como for, o mesmo autor é peremptório quando afirma: «(…) todas as Constituições liberais e democráticas foram escritas e inspiradas por membros do Grande Oriente Lusitano» (cf. pref. a José Adelino Maltez, «A Influência da Maçonaria no Pensamento Jurídico-Político do Portugal Contemporâneo», Grémio Lusitano, 2005, p. 6).

(7) Um tal relativismo é, em grande parte, oriundo do «iluminismo» inglês congregado na construção da modernidade social e científica. Há até, como expressão disso, o caso paradigmático de Elias Ashmole, um rosa-cruz não só iniciado, em 1643, na Maçonaria ainda por então operativa, mas também um dos fundadores da primeira Academia das Ciências do mundo, a Royal Society, da qual fora presidente, durante 40 anos, o fundador da ciência moderna, Isaac Newton.

Newton, por William Blake


(8) Cf. Maçonaria Regular, p. 14. Porém, tenhamos em conta o relativo ou aparente contraste entre o acima transcrito e o primeiro artigo das Constituições de Anderson, concernente a Deus e à religião: «Um Maçon é obrigado, pela sua condição, a obedecer à lei moral. E, se compreender correctamente a Arte, nunca será um ateu estúpido nem um libertino irreligioso. Mas, embora, nos tempos antigos, os maçons fossem obrigados, em cada país, a ser da religião desse país ou nação, qualquer que ela fosse, julga-se agora mais adequado obrigá-los apenas àquela religião na qual todos os homens concordam, deixando a cada um as suas convicções próprias: isto é, a serem homens bons e leais e homens honrados e honestos, quaisquer que sejam as denominações ou crenças que os possam distinguir. Por consequência, a Maçonaria converte-se no Centro de União e no meio de conciliar uma amizade verdadeira entre pessoas que poderiam permanecer sempre distanciadas» (o negrito é nosso).

(9) Cf. Maçonaria Regular, p. 14.

(10) Cf. Para a Histórica da Maçonaria em Portugal (1913-1935), pp. 11-12. O cânone n.º 1374 determina o seguinte: «Quem ingressa em uma associação que maquina contra a Igreja ["quae contra Ecclesiam machinatur"] deve ser castigado com uma pena justa; quem promove essa associação deve ser castigado com entredito».

(11) Cf. Pinharanda Gomes, A Cidade Nova, Fundação Lusíada, 1999, pp. 70-71.

(12) Cf. ob. cit., pp. 69-70. Para a «Declaração da Conferência Episcopal Alemã» na íntegra, ver Dominique Rey, Pode um cristão ser maçon?, Lucerna, 2012, Anexo II.

(13) Pela parte que toca ao Trono e ao Altar, temos, por exemplo, a declaração do monge José Agostinho de Macedo em plena época miguelista: «Grandes desilusões esperam os reis! Os tronos vacilarão enquanto não se fizerem espernear os maçons nos cadafalsos». Segue-se a declaração do também monge Fortunato de S. Boaventura, no seu jornal A Contramina: «O remédio contra os maçons é tudo o que há de mais simples, todas as vezes que eles quiserem reunir-se e, rosnando, se levantem contra os verdadeiros realistas: é o cacete, cuja memória está tão viva nas costas de uns e na imaginação de outros, que, por vezes, conseguiu pacificar o reino». Por fim, «outro sacerdote, natural da Galiza, Alvito Buela de Miranda, no seu jornal semanal Defesa de Portugal acrescentava que «todas as fêmeas pertencendo à família constitucional são forçosamente fúrias ou prostitutas; portanto, merecem a morte tanto pelas suas opiniões abomináveis como pelas suas paixões e prostituições» (in Manuel Borges Grainha, História da Franco-Maçonaria em Portugal (1733-1912), Nova Vega, 2011, pp. 99-100). No que toca, por seu lado, aos mações, basta, por agora, ter em conta que a Maçonaria, no dizer de Machado Santos, fora «a verdadeira mãe de todas as revoluções, porque os principais elementos do carbonarismo estavam nela filiados» (in ob cit., p. 121).

(14) Cf. Manuel Borges Grainha, ob. cit., p. 53. Para mais pormenores, leia-se: «A Maçonaria está directamente ligada à História de Portugal dos últimos duzentos e cinquenta anos, registando o seu aparecimento através de uma Loja de comerciantes ingleses que funcionava em Lisboa em 1727-28. Pouco se sabe sobre esta Loja a não ser o facto de ter sido fundada por um Irmão inglês de nome Duggod e de ter sido regularizada em 1735 pela Grande Loja de Londres. Foi o seu instalador George Gordon e recebeu o número 135. Também desde 1733 que funcionava a Loja Casa Real dos Pedreiros Livres da Lusitânia, de influência irlandesa, à qual pertenceu Carlos Mardel. Data também dos anos quarenta a instalação da Loja de Jean Coustos que a Inquisição reprimiu levando-a a abater colunas poucos anos após ter dado início aos seus trabalhos» (cf. António Lopes, Gomes Freire de Andrade, Um Retrato do Homem e da sua Época, Edição Grémio Lusitano, 2003, p. 33).






(15) Sobre o violento e trágico episódio, diz-nos Camilo Castelo Branco: «(…) filhos do povo foragidos ao recrutamento» e «caridosamente acolhidos pela tribo trabalhadora e boa dos homens do mar», o Marquês de Pombal, «78 anos e o coração de palmo e meio, cada vez mais empedrado e cheio daqueles seixos que lhe encontrou o doutor Picanço», pôs à disposição de Pina Manique «330 soldados e algumas dúzias de archotes.

A gente da Trafaria – prossegue Camilo Castelo Branco – adormecera cansada da luta do dia com os escarcéus. A invernia fora grande. Manique, por alta hora da noite, atravessou o Tejo em faluas com os 300 soldados. Ao romper da aurora de 24 de Janeiro de 1777, a Trafaria estava cercada por um cordão de tropa. Da fileira saíram alguns soldados com archotes acesos. Eram de tabiques e colmaçadas as casas. A um tempo, rompeu o incêndio nas choupanas circunjacentes aos arruamentos interiores onde havia grandes depósitos de víveres em barracas de lona. O fogo cruzou em línguas rubras que a ventania serpejava de umas casas para o colmo das outras. Despertaram aquelas cinco mil vidas na sufocação da fumarada e no estralejar das madeiras.

Os desgraçados corriam nus por entre as chamas. Alguns levavam sobraçados os seus doentes, os seus velhos e as crianças. Desses, morreram bastantes que não puderam romper o assédio do fogo, além do qual estava o assédio da tropa. Muitos salvaram-se porque os soldados, compadecidos, transgredindo as ordens do Manique, abriram clareiras por onde escapassem. E os que se escapuliram levaram consigo a nudez e a fome, porque todos os seus haveres fumegavam nas cinzas do pavoroso incêndio» (in O Perfil do Marquês de Pombal, Lello & Irmão Editores, 1982, p. 285).

(16) É curioso, embora compreensível, como todo e qualquer mação se perturba ou se incomoda perante a imagem persecutória de um Pina Manique apostado na extinção do poder maçónico em Portugal. A atitude defensiva recai logo nas alegadas vantagens que todo o tipo de repressão suscita relativamente à Maçonaria, isto é: ela sai mais reforçada na medida em que as suas ideias são por demais dominadoras e triunfantes para serem vencidas, sequestradas ou extintas. De resto, um exemplo costuma ser largamente dado a este respeito: a lei de 21 de Maio de 1935, nascida de um projecto do deputado José Cabral, proibindo as sociedades secretas. E a tal ponto é assim que o católico Pinharanda Gomes, enredado na dúvida, pôs a questão um tanto hilariante, provocadora e paradoxal: «José Cabral seria maçónico?» (in A Cidade Nova, p. 63).

(17) Borges Grainha, ob. cit., p. 64. Aliás, foi o criador da Casa Pia quem deteve o célebre ocultista italiano, conforme consta do seguinte relato: «José Bálsamo, mais conhecido pelo título de Cagliostro, veio também a Portugal, disfarçado sob o título de conde de Stephens. Este famoso aventureiro era um cavalheiro da indústria que se filiou na Maçonaria com a intenção de utilizar em seu proveito a Maçonaria de Adopção [Ramo da Maçonaria Moderna destinado às mulheres]. Para esse fim fundou em Paris, em 1782, uma Loja que tomou o nome de Loja-Mãe de Adopção da Alta Maçonaria Egípcia. Era presidida pela esposa de Cagliostro e ele próprio tomava nela o título de Grande-Copta.

Cagliostro entrou em contacto com as melhores famílias de Lisboa; mas apesar disso não conseguiu escapar ao faro de Manique, que ordenou a sua expulsão. Seguiu então para Itália e, tendo sido detido em Roma, em 1790, morreu na prisão em 1795» (in ob. cit., p. 67).

Além de Cagliostro, Pina Manique detivera ainda um outro personagem digno de nota, conforme nos relata igualmente Borges Grainha: «Jack Gordon, talvez descendente do indivíduo com o mesmo apelido que foi o introdutor da maçonaria em Portugal em 1733, foi outro maçon que desempenhou importante papel nas investigações da polícia da Intendência.


Quando da chegada das tropas auxiliares vindas de Inglaterra havia vários maçons nos seus regimentos. Estes tomaram a resolução de estabelecer uma Loja em Lisboa e, antes disso, tentaram obter licença da Grande Loja de Inglaterra, visto que numerosos distintos portugueses pretendiam filiar-se na Ordem. A licença tardou a chegar e Jack Gordon foi enviado a Londres, como emissário, em Janeiro de 1793, e no começo de Março estava de retorno trazendo-a nas suas bagagens. Pouco tempo depois, Manique soube disso e os seus espiões agiram de tal maneira que Gordon foi detido e, com ele, todos os outros indivíduos considerados fautores principais das sociedades secretas» (ob. cit., pp. 66-67).

(18) Ob. cit., p. 75.

(19) António Carlos Carvalho afirma terem as tropas francesas sido «recebidas pelos Maçons não como invasoras mas como libertadoras…» (in Para a História da Maçonaria em Portugal, p. 69). Em todo o caso, o sectarismo positivista de Borges Grainha vai ao ponto de ver na recusa acima referida um compromisso de honra e fidelidade da Maçonaria para com a Pátria portuguesa (ob cit., pp. 76-79).

(20) Um tal registo baseia-se nos informes recolhidos por António Lopes, em obra previamente citada, pp. 72 e 81-83.

Continua


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